CENA 1 — CASA DE DANIEL — NOITE
DANIEL abre a porta.
DAVI TELES está ali — mochila no ombro, sorriso fácil.
DAVI
E aí, sumido?
Os dois se abraçam forte.
DANIEL
Rapaz! Nem avisou que vinha!
DAVI
Pra quê avisar? Pra tu inventar desculpa?
Eles riem.
Mas antes que o clima se firme…
A porta abre com força.
LETÍCIA entra.
CENA 2 — CASA DE DANIEL — CONTÍNUO (CLIMA PESA)
LETÍCIA
(irônica)
Que lindo. Reunião de família.
Daniel já fecha a expressão.
DANIEL
Letícia… não começa.
LETÍCIA
Não começo?
Meses, Daniel. MESES que você adia marcar a data do nosso casamento.
Davi observa, desconfortável.
LETÍCIA (CONT.)
Era porque a academia tava fraca, né?
Ela se aproxima, encarando.
LETÍCIA
E agora que tá cheia…
com até funcionária nova…
(pausa venenosa)
Qual vai ser a desculpa?
Daniel respira fundo.
DANIEL
Isso não tem nada a ver com—
LETÍCIA
(interrompendo)
Claro que tem!
Aquela… “Rebequinha”.
Desdém carregado.
LETÍCIA
Aquilo não tem competência nenhuma. Nem massagem direito deve saber fazer.
Daniel muda na hora.
DANIEL
(duro)
Não fala assim dela.
Silêncio tenso.
DANIEL (CONT.)
Ela é profissional, sim. Muito mais do que muita gente por aí.
Letícia ri — sem humor.
LETÍCIA
Ah, é? Já testou bem então, né?
Climão.
Davi tenta intervir.
DAVI
Ei… calma aí—
LETÍCIA
(furiosa, pra Daniel)
Você tá mudando.
E eu sei muito bem por causa de quem.
Ela pega a bolsa.
LETÍCIA
Isso não vai ficar assim.
Ela sai batendo a porta.
Silêncio pesado.
CENA 3 — CASA DE DANIEL — CONTÍNUO
Daniel passa a mão no rosto, exausto.
Davi encara ele.
DAVI
Cheguei num dia bom, né?
Daniel solta um riso sem humor.
DANIEL
Nem te conto.
(pausa)
DANIEL
Bora treinar?
DAVI
Agora?
DANIEL
Preciso descarregar.
Davi sorri.
DAVI
Então bora.
CENA 4 — ACADEMIA — NOITE
Os dois treinam pesado.
Som de ferro, respiração forte.
Daniel claramente tentando aliviar a mente.
Davi observa o irmão — percebendo que tem coisa ali.
CENA 5 — INTERIOR / CASA DE LETÍCIA — NOITE
Leticia conversa com sua amiga Charlotte sobre DANIEL. O ambiente é bonito, mas carregado.
LETÍCIA anda de um lado pro outro, irritada, com um copo na mão.
CHARLOTTE está sentada no sofá, mexendo no celular, distraída.
LETÍCIA
(impaciente)
Eu juro, Charlotte… eu não aguento mais o Daniel.
CHARLOTTE
(sem tirar os olhos do celular)
De novo isso, amiga?
LETÍCIA
(irritada)
Não é “de novo”! Ele me evita, ele me ignora… parece que eu tô correndo atrás de um homem que nem liga!
Charlotte dá um sorrisinho leve, ainda no celular.
CHARLOTTE
Talvez ele só não seja tudo isso que tu tá imaginando…
Letícia para. Olha pra ela, atravessada.
LETÍCIA
Ou talvez tenha gente se fazendo de sonsa perto de mim.
Silêncio rápido. Charlotte finalmente levanta o olhar.
Climinha estranho… mas Charlotte quebra com leveza.
CHARLOTTE
Ai, mulher… deixa de paranoia.
(pausa, mudando totalmente o tom, animada)
Mas falando em coisa boa…
Letícia revira os olhos, cansada.
LETÍCIA
Se for mais fofoca, eu não tenho cabeça não.
Charlotte levanta do sofá, agora empolgada de verdade.
CHARLOTTE
Não é fofoca… é coisa grande.
(sorri, quase sem acreditar)
Eu vou viajar.
Letícia franze a testa.
LETÍCIA
Viajar?
CHARLOTTE
(segurando a empolgação)
Pra fora.
(pausa dramática, sorrindo)
Paris.
Silêncio.
Letícia encara ela, tentando entender se é sério.
LETÍCIA
Tu tá brincando.
CHARLOTTE
(rindo, nervosa)
Eu também achei que era! Mas não é!
Ela começa a andar pela sala, elétrica.
CHARLOTTE (CONT.)
Amiga, é minha chance… tipo assim… de mudar de vida mesmo, sabe?
Letícia observa. Algo não encaixa.
LETÍCIA
E desde quando isso surgiu?
Charlotte hesita por meio segundo — quase imperceptível.
CHARLOTTE
Ah… tem um tempinho já.
LETÍCIA
(afiada)
Que tempinho?
Charlotte desvia, pega o celular.
CHARLOTTE
(coçando o braço, fugindo)
Ah, umas semanas…
Letícia se aproxima devagar.
LETÍCIA
E quem tá pagando isso?
Charlotte trava. Um micro silêncio.
CHARLOTTE
(rápida demais)
Tá tudo resolvido já.
LETÍCIA
“Resolvido” como, Charlotte?
Charlotte força um sorriso.
CHARLOTTE
Amiga… às vezes é só aceitar, sabe? Nem tudo precisa de mil perguntas.
Letícia cruza os braços.
LETÍCIA
É exatamente o contrário. Quando é bom demais… tem que perguntar o dobro.
Silêncio.
Charlotte segura o olhar… mas desvia.
O celular dela vibra.
Ela olha a tela → o sorriso some por um segundo.
LETÍCIA
(percebendo)
Quem é?
CHARLOTTE
(rápida)
Ninguém.
Ela vira o celular.
LETÍCIA
Charlotte…
Charlotte já vai se afastando.
CHARLOTTE
Eu já volto.
Ela sai apressada.
Letícia fica parada no meio da sala… olhando.
Desconfiada.
Pensativa.
Incomodada.
LETÍCIA
(baixo, pra si mesma)
Isso não tá certo…
CORTE SECO.
CENA 6 — EXT. PRAIA DO PONTAL – FIM DE TARDE
O céu tá num laranja queimado. O vento mais forte. O mar meio agitado, como se sentisse o que vem.
Rebecca desmonta a tenda da massagem. Cansada. Pensativa.
Daniel aparece de longe. Camisa aberta, passos firmes… mas o olhar tá diferente. Mais intenso. Decidido.
DANIEL
Tu sumiu hoje…
REBECCA (sem olhar)
Eu trabalho, né?
Silêncio. Tensão.
Ele se aproxima. Fica perto demais.
DANIEL
Não foi isso.
Ela para. Respira fundo.
REBECCA
Então foi o quê?
DANIEL
Foi tu me evitando.
Agora ela olha. Direto.
REBECCA
E tu queria o quê, Daniel? Que eu ficasse normal depois de ontem?
Ele engole seco.
DANIEL
Eu não consigo ficar normal perto de tu.
O ar muda.
CENA 7 — INT. TENDA DE MASSAGEM – CONTÍNUO
O vento balança o tecido da tenda. Meio fechado. Meio íntimo.
Rebecca tenta se afastar, mas ele segura de leve o braço dela.
DANIEL (baixo)
Fica.
Ela fecha os olhos por um segundo. Já perdeu.
REBECCA
Isso é errado…
DANIEL
Eu sei.
Mais um passo. Agora não tem mais espaço entre eles.
REBECCA (sussurrando)
Tu é noivo…
Ele olha pra boca dela.
DANIEL
Eu não devia tá aqui.
Silêncio pesado.
Respiração misturada.
Ela tenta virar o rosto… mas não consegue sair.
E aí—
ELE A BEIJA.
Não é suave.
É urgente.
É como se tivesse segurando isso há tempo demais.
Rebecca resiste por UM segundo.
…e se entrega.
As mãos dela puxam ele pela camisa. O beijo aprofunda. Confuso. Quente. Proibido.
O vento invade a tenda. O tecido voa.
O mundo lá fora some.
Ela se afasta de repente.
Respiração descompassada.
Olhos assustados.
REBECCA
A gente não pode fazer isso…
Daniel passa a mão no rosto, já alterado.
DANIEL
Mas a gente já fez.
Silêncio.
Ela dá um passo pra trás. Vulnerável.
REBECCA
Vai embora, Daniel…
Ele hesita. Quer ficar.
Mas percebe: se ficar, vai piorar.
Ele sai.
Rebecca fica sozinha.
Leva a mão à boca.
Impactada.
CLOSE NA REBECCA
Entre culpa… e desejo.
Um meio sorriso escapa sem querer.
CORTA.





