André não dormia mais.
Quando fechava os olhos, via três coisas:
A arma.
O sorriso calmo de Lucas.
O olhar indecifrável da mãe de Eric.
A polícia o liberara provisoriamente. Falta de prova conclusiva.
Mas isso não era liberdade.
Era espera.
—
Na delegacia, o delegado Monteiro analisava o relatório da perícia.
— A limpeza da arma é técnica demais — disse à investigadora Clara.
— Você acha que ele não teria capacidade?
— Acho que ele é emocional demais para planejar assim.
Clara cruzou os braços.
— Então alguém quer que ele pareça emocional o suficiente para matar… mas organizado o suficiente para executar.
Monteiro assentiu.
— Isso não é crime passional simples.
—
Na casa da família, o clima azedava.
O irmão mais novo de Eric questionava os tios.
— Desde quando ele estava envolvido com isso?
Silêncio.
A mãe interrompeu.
— Esse assunto morre aqui.
O tom não era de luto.
Era de comando.
—
André começou a tremer em momentos aleatórios.
No mercado.
No banho.
No meio da rua.
Ele sentia que estava sendo observado.
E estava.
—
Lucas apareceu à noite.
Sem avisar.
— Você não devia estar sozinho.
— Eu não devia estar com você.
Lucas entrou mesmo assim.
— Você está se desfazendo.
— Vai embora.
Lucas se aproximou devagar, como quem lida com um animal ferido.
— Eles estão te esmagando. Eu posso ajudar.
André riu, quase histérico.
— Ajudar como? Plantando mais alguma coisa na minha casa?
Lucas não reagiu.
Isso foi pior.
— Você acha que eu fiz isso?
— Eu não sei mais o que você é capaz de fazer.
Lucas tocou o rosto dele.
— Eu sou a única pessoa que ainda está do seu lado.
André não se afastou imediatamente.
E esse segundo de hesitação foi suficiente para Lucas puxá-lo pela camisa e beijá-lo.
Não foi romântico.
Foi urgente. Quase possessivo.
André correspondeu por dois segundos.
Dois segundos de fuga.
Depois empurrou.
— Não faz isso.
— Você precisa esquecer.
— Eu não quero esquecer.
Ele queria lembrar.
Queria entender.
Queria provar que não era louco.
Lucas recuou.
Mas antes de sair, deixou a frase:
— Se você cair, eu não caio sozinho.
A ameaça não foi gritada.
Foi dita com calma.
—
Rafael foi mais direto.
Encontrou André num estacionamento vazio.
— Você está piorando.
— Vocês dois não vão me usar de novo.
Rafael segurou o braço dele com força.
— Eu estou tentando te proteger!
— De quem? De você?
Rafael perdeu a paciência.
— Eric ia entregar nomes.
O mundo parou.
— Que nomes?
— O meu. O do Lucas. O de gente da família.
O silêncio ficou pesado.
— Ele estava negociando imunidade.
André sentiu náusea.
— Então alguém matou ele antes que ele falasse.
Rafael sustentou o olhar.
— Você acha que foi impulso?
André recuou.
A mente dele girava rápido demais.
Eric lavando dinheiro.
Eric negociando.
Eric traindo aliados.
A arma na sua casa.
Lucas manipulando.
Rafael sabendo demais.
A mãe controlando a família.
— Eu não sei mais quem ele era — André murmurou.
Rafael suavizou a voz.
— Eu sei quem você é.
E puxou André para perto.
O beijo veio diferente do de Lucas.
Não urgente.
Intenso.
Antigo.
Cheio de memória.
André sentiu o corpo reagir antes da razão.
Ele estava carente.
Quebrado.
Confuso.
E isso o tornava vulnerável.
Rafael percebeu.
— Fica comigo hoje.
Não era pedido.
Era convite calculado.
André quase aceitou.
Quase.
Mas algo dentro dele gritou.
— Vocês dois querem alguma coisa.
Rafael não negou.
—
Na delegacia, Clara cruzava dados financeiros.
Uma transferência chamou atenção.
Feita dois dias antes da morte de Eric.
Destino: conta vinculada a uma empresa da família.
Assinatura autorizada pela mãe.
—
André está sozinho no apartamento, sentado no chão da sala.
O celular vibra.
Mensagem anônima:
“Você está chegando perto demais.”
Ele começa a rir.
Não de alegria.
Mas de desespero.
Porque agora ele não sabe se está sendo perseguido…
Ou se finalmente está vendo o tabuleiro.












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