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Diversos espelhos contemplavam a eminência de um cálice, inçado. Uma gota d’água emerge do teto e, no vidro, cai, a tamborilar: a sagração. Um agora, um estreito vazio para a reminiscência pungente: simplesmente o presente. Conjugado no agora, no instante em que se quebra e se reorganiza, a composição é equilibrada: átomos, moléculas, células, tecidos, órgãos. Intrigante como o coração e o cérebro são edificados; de mesma base e discrepâncias triviais. É a taça sobre a qual verso e o predicado primeiro de executar essa análise é, ausente de ornamentos, a taça: Tão somente esse objeto concentrado na percepção exterior, o que obsequia para o ato suntuosidade, a vislumbrar que tudo que escapa a percepção interior é obscuro, e isso, nessa fortuita manhã, fascina-me. Fortuita é a manhã ou a taça? Estou eu na taça, nos espelhos que projetam a minha metamorfose, já pequenos, cansados, no entanto, nesse mundo, ainda há segredos que o meu ser urge em arrancar: são gentilezas dotadas de uma epifania. É a vida que se enquadra, não em um molde, não na definição de paradigma de Platão, pois a vida só é vida na transformação, na mudança. Contemplo a minha mudança, é extremamente veloz como a pele perde a delicadeza, os movimentos ficam mais carregados de uma lentidão inerente àquele período.

Há gotas que enraízam a árvore da dor, a profundidade com o qual a mágoa se alavanca em um peito como o meu, um peito melancólico, a demonstrar a mísera adaptação de que nenhum de nós consegue desatar a correr: é a taça, é sempre a taça. Os minutos passam e a taça permanece, pendencia com o tempo; considero ser uma guerra de titãs. O tempo golpeia o objeto com um trinco, dos ares superiores a base, tão mais altissonante. A taça resiste, ela fora feita para receber, seja o trinco do tempo, seja o líquido maior, seja a vida da morte. Sim, a morte tem uma trajetória e a trajetória da morte é uma vida que segue, consegue, e rompe com o homem, esse ludibriado com a multiplicidade de brilho; agora, carrega o ser para alhures e brinda a vitória. Mais uma vez a taça é atingida, todavia, desta vez, por um sopro. Sê-lo-ia o sopro da vida? A vida que nasce lúgubre, cresce lúgubre, envelhece lúgubre: a inclinação é a vida; não, o sopro não é da vida, é da morte: da vida da morte. Tomo esse evento como o rebu do decênio: é a festa do povo para a República. Contudo, os espelhos seguem a mostrar que o indumento nosso é um esconderijo para a matéria: Canta o galo! E o seu canto, desperta os adormecidos! Assim foi com Kasper e, agora, com a minha inconsciência. A roupa é a taça feita para resistir, produzida para ser um muro, o muro que separa o sensível do inteligível, e tenta, não sem se equivocar, mudar o tempo, o tempo da vida. Não sei de qual vida, talvez a minha, mas por que a minha? Tu, leitor, consegues presenciar a íntima irrupção de meu ser na taça? Diga-me, não receoso, o negativo: caminhe na casa, veja a taça; ande em seu quarto, trace um círculo na cozinha, veja a taça, veja! Não se deixe no embuste: a casa, o quarto, a cozinha são o vosso ser; o ser que reluz a existência que precede a essência.

A taça ainda está ali! Está a olhar os espelhos, eles são remédios, não adormecem nenhuma espécie de dor, não dão evasão ao ser humano por motivos diversos, posto dignifico um: não adormecem os sentidos, porque adormecer é desencontrar, e desencontrar é um encontro do desencontro. Eles não ofertam a vez para tudo que signifique perda.

Certa vez, um amigo, um pequeno amigo, contara-me com um ar inocente ter visto a taça no espelho. Ele a viu: pedira um abraço, olhara para o irmão, o qual a taça fugia, e queria, era o romance de iniciação, tocá-la. Ela deixara; é incrível o poder da taça: ela só a é quando encanta. Encanta e engana: uma amostra de que a taça pode ser utilizada de maneira ambivalente, o poder pertence a quem a usa. Usar é por acaso, obra da causalidade, talvez a de Hume, não analítica e não tocável; utilizar é ter um fim, que é diferente da “coisa em si” de Kant, algo que extrapola e tem um desígnio sintético e, claro, experimentável: fabuloso!

Pela derradeira vez, vejo, vejo a taça com a definição de taça: os traços são delicados e provocantes. Objeto de vidro, resplandece, projeta, mostra, reflete: afasto-me e o vidro obscuro segue sendo absconso. É o enigma da taça ser a taça, vender significados, e significar, e amar, e morrer, e ser.

– O vinho, senhora. Fausto havia aberto a porta do escritório, não o percebi quando o fez.

Ele se aproximou e, como num sopro, estava cá ao pé de mim, olhei-o como se nunca o houvesse enxergado: confidencio que, até então, o exequível é o fato de tê-lo visto; o galgar que emerge é o processar tênue de tácitas visões, as quais me proporcionaram em rosto seu encontrar pêlos, era um homem: por quantas eternidades passei ausente de enxergar, de afastar a verdade de minhas mentiras, as quais postas foram como dogmas?

A taça em mãos minhas se achava; nas dele, o vinho. Era o despertar: eu não queria despertar. Sentou-se, não ameaçou a ação antes que   pedisse que, por gentileza, fizesse-a. Notei a garrafa deslacrada: o poder da taça e a traição do vinho.

– O vinho, por favor – Fausto sorri e executa o ato de pôr o vinho na taça. Se estivesse eu em um estado melancólico, talvez, em meu interior, permiti-lo-ia que a garrafa com vinho colocasse o líquido numa taça sem fundo. Assim seríamos, não como a taça sem fundo, mas, como a garrafa, que, austera, não quer que o líquido deixe-a.

– Posso realizar uma pergunta, senhora? – aceitei e fitei profundamente os olhos de Fausto, ratifico que ainda não havia enxergado seus olhos, são negros como uma noite tenebrosa, o que acaba por transparecer a seus movimentos uma determinada indolência inteligente, medida, sem excessos ou transbordamentos; um homem de olhos negros e perspicazes – o amor se inclina a mim?

Um excesso? Se o fosse como uma prática veloz, sim, todavia não a é: a constituição é de longos lustros, ele compreendia que os superiores vinhos guardados eram para auferir um sabor que aliasse, concomitantemente, o céu e o inferno; uma tendência barroca.

Fausto aguardava a resposta, porém eu não a formulei, a mente minha se transladava ao proscênio da vida: nesse estágio, amigo leitor, não se firmam razões, porque as bases não existem, são dispersas e agitadas como as moléculas postas ao fogo; se o que escrevo estivesse influenciado por Comte, ele qualificaria o meu agora como o estado metafísico, uma extensão do teológico; nunca chegaria ao positivista.

– Sente algo? Diga-me. A minha presença a incomoda? O seu silêncio é perturbador! – parou e correu os olhos para as minhas mãos e as segurou, fundo aos espelhos que o refletiam,  continuou: Não me ama, não é mesmo? Não obstante, o meu sentir só recrudesce.

Cerrei os olhos e tudo escureceu, ele ainda a segurar minhas mãos, pude comprovar o tremor que assolava as suas: despediu-se delas e, nesse verbo, abri os olhos. Ele estava prostrado, o seu rosto dantes seco, agora, molhado; o choro poderia significar aos desatentos a minha negação a pergunta, mas, aos esclarecidos, algo fugia (ou se encontrava?) aquele momento, e o que escapava era o pesar profundo:

– Não lhe entrego respostas prontas, porque não as tenho, Fausto. Eu não estou num momento de responder, mas sim, de indagar.

Ele, galhofeiro, sorriu; balançou a cabeça para um lado e outro:

– Estou eu a indagá-la, não é? O posicionamento é o mesmo, sim? Estamos cá no momento igual.

O retorquir não se lhe fazia necessário; segurei a taça, ingeri o vinho: ele arrancou o objeto de minha mão, a fazê-lo cair. A taça se espatifou no solo seco e o vinho se espalhou junto aos pedaços de vidro: algo cortou a minha matéria, a taça eu era.

 

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