Reunião de Condomínio
Escrito por Tales Dias e Ramon Silva

 

CENA 1/ EXTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ FACHADA

Plano geral do edifício sofisticado, porém, com um design antigo, ornamentando seus quinze andares. Espaço arborizado e tranquilo, característico de um bairro da classe média alta do Rio de Janeiro.

Da entrada, saem dois socorristas, carregando alguém que está coberto, na maca. A pessoa morta é levada a ambulância. Ali atrás, perto da portaria, Otacílio (40 e poucos anos, cabelos meio grisalhos e trajando uma roupa social) comenta com Juarez (também com aproximadamente 40 anos, tranando seu uniforme de porteiro).

OTACÍLIO – Coitada da dona Amelinha de Carvalho…

JUAREZ – Ela já tava velha já né, seu Otacílio. Mais de 90 anos nas costas… E ainda vai enterrar a dinheirama toda com ela.

OTACÍLIO – Coitada, Juarez… Ela era uma boa pessoa. Morreu sozinha, sem casar, sem ter filhos…

JUAREZ – Quem será que vai ocupar a cobertura de luxo que ela morava?

OTACÍLIO – Não faço ideia.

JUAREZ – Doido é quem comprar aquele apartamento. Vai ficar assombrado.

OTACÍLIO – Deixa de ser abestado, cabra.

JUAREZ – Abestado? Você não acredita em fantasma não?

OTACÍLIO – Claro que não.

JUAREZ – Vai achando… (pausa) A dona Germana lá do décimo quarto vai querer ir pra cobertura. Tenho certeza.

OTACÍLIO – Também acho… Mas vai ficar querendo né, por que ela não tem dinheiro pra isso. Ela só age como se tivesse.

JUAREZ – Isso ainda vai dar confusão…

OTACÍLIO – Confusão por quê?

JUAREZ – Não sei… (pausa) Eu só digo uma coisa: não digo nada! E ainda digo mais: só digo isso!

Otacílio fica boiando e entra no prédio.

CORTA PARA/

CENA 2/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE GERMANA/ SALA

Sala de estar muito chique. Germana (aparenta uns 50 anos, cabelos loiros e curtos, jeito de madame) bisbilhotando a ambulância lá em baixo. Zé Clóvis (parece mais velho que a esposa, cabelos grisalhos, meio gordinho, de pijamas) ali atrás, deitado no sofá.

GERMANA – Alá, Zé Clovis, tão levando a velha rica.

ZÉ CLÓVIS – Isso é jeito de falar, Gegê?

GERMANA – Ué, mas ela era uma velha rica mesmo.

ZÉ CLOVIS – Ela morreu na solidão, olha que triste… E você aí falando essas coisas.

GERMANA – (se afasta de janela, fica a pensar) Se ninguém vai herdar a fortuna dela, o apartamento da cobertura vai ser vendido, né?

ZÉ CLOVIS – E daí?

GERMANDA – E daí que é a nossa chance de sair desse apartamento fuleiro e melhorar de vida!

ZÉ CLOVIS – E a gente tem dinheiro pra isso?

GERMANA – Bom, ai/

ZÉ CLOVIS – (corta) Não temos! Se tivéssemos a gente podia mudar de condomínio, sem precisar esperar a cobertura aqui em cima ficar vaga…

Lara (jovem de uns 20 anos, estilosa, cabelos curtos e com mechas azuis), filha de Germana, vem do quarto, apressada.

GERMANA – Aonde pensa que vai, garota?

LARA – Vou por aí.

GERMANA – Por aí onde, garota? Eu não estou gostando nada dessas suas saídas misteriosas.

ZÉ CLOVIS – Essa garota tá completamente perdida!

GERMANA – Completamente! Em vez de ficar quieta em casa, arrumar um homem rico, casar, ter filhos, ser um exemplo de bela, recatada e do lar… Mas não, vive na gandaia.

LARA – Primeiro: me poupem dos comentários conservadores do vocês. Segundo: Eu sou maior de idade, posso fazer o que quiser. E terceiro… (pensa) Terceiro não tem! Tchau, até qualquer hora.

GERMANA – Você vai deixar isso, Zé Clovis?

ZÉ CLOVIS – Quer que eu faça o quê?

GERMANDA – (olhando sua filha sair pela porta) Essa garota virou feminista, militante na internet, você viu o perfil dela?

ZÉ CLÓVIS – Que vergonha pra família.

GERMANA – Culpa sua né, querido. A gente devia ter tido um filho homem, mas você fraquejou… Ai veio a Lara.

ZÉ CLÓVIS – Que fraquejou o que, mulher?! Aqui é firme na rocha!

GERMANA – Firme na rocha… Aí é mais mole que… (pensa) Não existe nada mais mole que isso aí!

Zé Clóvis se acomoda no sofá e fecha os olhos, nem ai pra esposa. Germana sai toda nervosa.

CORTA PARA/

CENA 03/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE BIBI

Apartamento menos sofisticado que o de Germana. Campainha tocando. Bibi (idade da Lara, cabelos vermelhos, trajando um short curto e um casaco de moletom) corre pra abrir porta e recebe Lara com um beijo. Elas entram.

LARA – Tudo preparado pra daqui a pouco?

BIBI – Tudo! O pessoal vai trazer mais vodca e petiscos.

LARA – Tem certeza que seus pais vão ficar fora?

BIBI – Claro né, doida. E sua mãe? Dona Germana não vai ligar?

LARA – Minha mãe só late, mas não morde.

BIBI – Ah, mas quando ela descobrir que a gente tá juntas ela vai virar um pit bull! (ri)

LARA – Ela tá mais pra miniatura pinscher!

BIBI – Vem me ajudar no som.

Elas vão pra outro lado da sala.

CENA 04/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE GERMANA/ COZINHA

Germana chega na cozinha. Marluce (aparenta uns 60 anos, cabelos grisalhos amarrados para trás, com uma bolsa em mãos, trajando roupas simples, parecendo cansada), a empregada da casa ali.

MARLUCE – (fala bem rápido) Dona Germana, já limpei todos os quartos, os banheiros, a sala e a cozinha, lavei as roupas, sequei as roupas, passei as roupas, guardei as roupas, arrumei o closet na ordem das cores como a senhora gosta, tirei as cuecas freadas que seu marido mistura com as limpas no guarda-roupa dele, tirei suas calcinhas surradas do box do banheiro, limpei a zona infernal que sua filha Lara deixa no quarto, limpei os vidros da varanda, limpei bem os rodapés como a senhora exige/

GERMANA – Chega, Marluce! Credo, começa a fala e não para mais.

MARLUCE – A senhora me desculpe.

GERMANA – Você fez isso tudo, mas esqueceu de tirar a poeira das minhas folhagens lá na sala, né.

MARLUCE – Esqueci, dona Germana…

GERMANA – Mas é uma incompetência mesmo! Eu te pago esse salário enorme é pra você trabalhar, Marluce!

MARLUCE – Mas a senhora me paga um salário mínimo, e eu só esqueci das/

GERMANA – (corta) Para. Não quero ouvir desculpas. Salário mínimo é enorme sim! Eu, hein! Que que é isso agora? Revolução da pobrada?! Espero que amanhã você faça tudo direito, sua insolente.

MARLUCE – “Inso” o que?

GERMANA – Nada. Pode ir embora já. Tchau.

MARLUCE – Mas e a hora extra? Já é sete da noite. Fiquei duas horas a mais.

GERMANA – E mesmo assim não fez tudo que eu mandei.

MARLUCE – É meu direito receber a hora extra, dona Germana.

GERMANA – Direito, direito… Palhaçada! Por isso que esse Brasil não vai pra frente! Querem tomar do rico e dar pro pobre.

MARLUCE – Mas dona Ge/

GERMANDA – (corta e vai saindo, revoltada) Não me vem com história de direitos trabalhistas não, Marluce. Nem começa!

Marluce, fica sozinha, bem decepcionada.

CORTA PARA/

CENA 5/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE GERMANA

Zé Clovis ainda deitado no sofá. Germana chega da cozinha.

GERMANA – Acredita que a insolente da Marluce tá querendo receber hora extra? Aí eu te pergunto: pra que? Pra gastar com a família pobre dela, no pagode do bairro dela? Como é mesmo o nome onde ela mora? Coelho filho? Coelho/

ZÉ CLÓVIS – Coelho Neto, Germana…

GERMANA – Isso! Lugarzinho ordinário! As pessoas de lá perecem ter vindo de um inferno de pobreza e cafonice. É por isso que eu digo: passou do túnel Rebouças pra lá é um inferno atrás de inferno!

ZÉ CLOVIS – Tá bom. Agora deixa eu descansar.

GERMANA – Descansar de descansar? Só se for né. Desde que aposentou da polícia não faz nada nessa vida.

ZÉ CLOVIS – Pelo menos não fico igual você falando da vida dos outros!

GERMANA – É o que?

Germana já ia toda nervosa pra cima de seu marido quando ela ouve um som de música eletrônica, vindo do apê de baixo. Ela corre até a janela pra observar.

GERMANA – De novo isso! Não é possível! (grita) Abaixa o volume ai, gentinha! (se vira pro marido de novo) Vou reclamar!

CORTA PARA/

CENA 6/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ PORTARIA

Juarez ali quase dormindo. O telefone toca e ele atende assustado.

JUAREZ – Oi. (pausa) Fala dona Germana. (pausa) Barulho? Tô ouvindo não… Tá tudo tão quieto, tava num cochilo bom até… (pausa) Que isso, não precisa xingar. (pausa) Eu não tô ouvindo nada. Se a senhora quiser, pode chamar o síndico, seu Otacílio.

CORTA PARA/

CENA 7/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE GERMANA/ SALA

Ela põe o telefone na base e vai saindo, decidida.

ZÉ CLOVIS – Vai onde?

GERMANA – Resolver com o síndico essa palhaçada no andar de baixo.

Ela sai.

CENA 8/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ HALL

Germana toca a campainha de Otacílio insistentemente. Depois de alguns segundos ele abre a porta, bolado.

OTACILIO – O que foi, dona Germana?

GERMANA – Você não tá ouvindo isso?

OTACILIO – Isso o quê?

GERMANA – Como isso o quê? Tá tendo uma rave lá em cima e o senhor, que é o síndico dessa joça, não faz nada!

OTACILIO – A senhora não tá ouvindo coisas não, dona Germana?

GERMANA – Tá me acusando de calunia, é isso?

OTACILIO – Claro que não, a senhora exagera/

GERMANA – (corta) Você não ouve, pois está a 10 andares abaixo de mim, mas lá em cima, todos os estão reclamando.

OTACILIO – Todos quem?

GERMANA – Não importa! Eu estou reclamando e quero que vá resolver isso! Você é o responsável pelo bem-estar dos moradores!

OTACILIO – Tudo bem, eu vou ver se está acontecendo essa rave mesmo…

CORTA PARA/

CENA 9/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE BIBI

Bibi e Lara dançando bem animadas, numa festa com vários amigos, regada a muita bebida e música eletrônica. A campainha toca, Bibi ouve, e vai ver pelo olho mágico.

BIBI – Ferrou! (pro pessoal) Para a música, esconde todo mundo!

Os amigos dela, incluindo Lara, obedecem e se escondem indo pra outros cômodos. Bibi abre a porta, fingindo cansaço, bocejando. Germana já entra revoltada.

GERMANA – Cadê! Cadê a festa, em?

BIBI – Que festa?

GERMANA – Não se faça de boba, garota! Eu ouvi, tava acontecendo alguma coisa aqui. Olha essas bebidas todas espalhadas.

OTACILIO – Desculpe o incomodo, Bianca… A dona Germana disse que tinha uma música muito alta aqui. Seus pais não estão em casa?

BIBI – Não.

GERMANA – Aí, aproveitou que os pais saíram pra dar festinha. (adentra os cômodos e volta trazendo um garoto pelo braço) Olha um maconheiro aqui. Chega tá impregnado de tanto que puxou um fumo!

GAROTO – Que isso dona, sou maconheiro não.

GERMANA – Não é o que seu cheiro diz. Seu Otacílio, faça uma revista no apartamento.

OTACILIO – Desculpe dona Germana, mas não posso fazer isso.

GERMANA – Então eu faço.

Germana sai pra vasculhar tudo. Bibi fica revoltada.

BIBI – Essa mulher tá louca. Tira ela daqui seu síndico.

OTACILIO – Eu vou atrás dessa barraqueira.

Ouve-se um grito alto de Germana e ela vem trazendo sua filha Lara pelas orelhas.

GERMANA – (raiva) Eu não acredito que você veio parar aqui, Lara! Nesse antro de perdição!

LARA – Mãe, tá machucando!

GERMANA – É essa a intenção. Vamos embora agora!

LARA – Me solta, sua desequilibrada.

GERMANA – Desequilibrada? Você não viu nada! Anda, vamos!

LARA – Foi mal, Bibi…

GERMANA – Para de dar trela pra essa rebelde esquisita.

BIBI – Mulher doida! Sem noção!

Germana finalmente sai de cena, levando a filha. Bibi toda sem graça, olhando pro síndico, enquanto os jovens escondidos começam a aparecer. Otacílio fica surpreso.

CORTA PARA/

CENA 10/ EXTERIOR/ NOITE-DIA/ EDIFÍCIO SOLAR

Plano geral no prédio enquanto amanhece.

CORTA PARA/

CENA 11/ INTERIOR/ DIA/ EDIFÍCIO SOLAR/ PORTARIA

Juarez curtindo seu rádio. Otacílio chega.

JUAREZ – Bom dia, seu Otacílio!

OTACÍLIO – Dia!

JUAREZ – Como terminou o negócio da festa ontem? Dona Germana ficou pra morrer!

OTACÍLIO – A Bianca, do décimo terceiro, fez uma festa pra aproveitar que os pais não estavam em casa. Tive que advertir. Mas apesar disso, a Germana implica com tudo. Mulher infeliz.

JUAREZ – Como diz o outro: quem fala demais, dá bom dia a cavalo.

OTACÍLIO – Que outro?

JUAREZ – Ah, o senhor entendeu! (pausa) Aqui, e a cobertura? Nenhum inquilino interessado?

OTACÍLIO – Por que tá todo mundo falando nisso? A dona Maria Eudóxia do 205 perguntou a mesma coisa. A dona Germana também. Que coisa…

JUAREZ – Falando na dona Germana, ó ela aí.

Germana chega, carregando as compras, se achando superior.

GERMANA – Será que o porteiro poderia me ajudar com as sacolas?

JUAREZ – Eu tenho nome!

GERMANA – Não me interessa! Me interessa apenas sua função.

JUAREZ – Minha função não é carregar suas compras não. Pede pro seu marido, sua perua/

OTACÍLIO – (corta) Que isso, Juarez!

GERMANA – Eu mesma levo. Melhor do que respirar o mesmo ar que você no elevador! (debochada) Me diz uma coisa aqui… O seu perfume é pura essência de esgoto? Ah, preciso me mudar desse prédio chinfrim!

Germana sai. Otacílio chama a atenção de Juarez.

OTACÍLIO – Tá doido de tratar os moradores assim?

JUAREZ – E eu tô errado? Não tô! Aquela mulher é uma megera.

OTACILIO – Pior que tu tá certo…

JUAREZ – Eu sempre tô certo! Só não tô certo quando eu tô errado, mas quando eu tô certo, eu tô certo!

Otacílio sem entender nada.

CORTA PARA/

CENA 12/ INTERIOR/ DIA/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE GERMANA/ SALA

Germana entra com as sacolas de compra. Zé Clóvis, como sempre, deitado no sofá.

GERMANA – Esses funcionários do prédio estão cada vez mais insolentes! Vou te falar uma coisa, Zé Clovis, a gente precisa ir pra outro condomínio.

ZÉ CLOVIS – Mas você não estava ontem mesmo dizendo que queria a morar na cobertura?

GERMANA – Disse, mas mudei de ideia. Além dos funcionários tem essa gentinha que mora aqui. Subi no elevador junto com aquele casal de viados do 405. Não suporto aqueles afeminados. Tem também aquela hippie maconheira lá do 306. Fora todas essas famílias de classe média baixa que colocam esses pagodes pra tocar no domingo. Esse lugar não é pra mim! (pausa) Mas falando na cobertura… Ouvi dizer por aí que apareceu uma filha perdida da velha Amelinha Carvalho.

ZÉ CLOVIS – É claro né. Todo mundo queria herdar a riqueza daquela mulher. Com certeza isso é golpe.

Lara vem do quarto, arrumada pra sair.

LARA – Ouvi dizer que uma cantora famosa já comprou a cobertura. Quem sabe não seremos vizinho da Camila Oliveira?

GERMANA – Aonde a senhora pensa que vai, Lara! Não basta o que você aprontou ontem?

LARA – Quem aprontou foi você, né? Armou o maior escândalo.

GERMANA – Não interessa! Você não vai sair. Não são nem 10 da manhã.

LARA – (observa as compras) Pera ai, você foi fazer compras? Sozinha?

GERMANA – A insolente, desgraçada, incompetente da Marluce não chegou ainda.

LARA – Chegou sim, agora a pouco. Tá lá na cozinha.

GERMANA – É agora que eu tiro satisfações com ela!

CORTA PARA/

CENA 13/ INTERIOR/ DIA/ EDIFÍCIO SOLAR/ APÊ DE GERMANA/ COZINHA

Marluce lavando louça, Germana chega.

GERMANA – Muito bonito, em dona Marluce! Isso é hora de chegar?

MARLUCE – (para de lavar) Cheguei tarde pra descontar a hora extra de ontem.

GERMANA – Mas é muito petulante mesmo!

MARLUCE – “Petu” o quê? Não sei o que é isso não.

GERMANA – Além de petulante é analfabeta! Faça o favor de servir o café em 10 minutos e depois já preparar o almoço. (vai saindo e volta) Ah, e eu vou descontar esse atraso do seu salário.

MARLUCE – (sussurra) Cobra desgraçada…

GERMANA – Oi?

MARLUCE – Não, vou fazer carne assada. Pro almoço da senhora.

GERMANA – De jeito nenhum! Tá achando que vai cozinhar pra sua parentada pobre? Trata de fazer um filé de salmão ao molho de maracujá. Você é incompetente, mas, pelo menos, cozinha bem.

MARLUCE – Nossa um elogio!

GERMANA – Pra você ver como eu sou boazinha! Agora trabalha! Ouvir sua voz me dá enxaqueca.

MARLUCE – (sussurra) Patroa saco de bosta.

GERMANA – Oi?

MARLUCE – Vou descongelar o salmão em postas. É isso.

GERMANA – Hum…

Germana sai desconfiada.

CORTA PARA/

CENA 14/ EXTERIOR/ DIA-NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR

Plano geral do prédio. Passam-se alguns dias.

CORTA PARA/

CENA 15/ INTERIOR/ NOITE/ EDIFÍCIO SOLAR/ SALA DE REUNIÃO

Todos os moradores ali pra participarem da reunião. Germana ocupando a fileira da frente. Otacílio sentado frente a mesa.

OTACÍLIO – Preciso alertar novamente a respeito do horário do silêncio. Deu 9 horas, sem nenhum barulho do no prédio.

GERMANA – Tem que falar isso pra Bianca, que vive dando festinha.

OTACÍLIO – Ela está aqui, dona Germana. Ela ouviu.

BIANCA – Toma!

GERMANA – Ouviu, mas não aprende né. Menina desnaturada!

LARA – Mãe, se controla.

OTACÍLIO – Alguém tem mais alguma reclamação? Se não, vou só fazer um anúncio e dar por encerrada a reunião.

GERMANA – Encerrada nada! Tenho muito o que falar.

OTACÍLIO – (respira fundo) Fala, dona Germana.

GERMANA – Bom, primeiro a respeito desse porteiro, seu Juarez. Ele não exerce o trabalho direito. Às vezes a gente liga e ele demora uma eternidade pra atender por que dorme igual um porco. Como se já não bastasse o perfume de pura essência de esgoto dele!

JUAREZ – Porca é a sua/

GERMANA – (corta) Outra coisa! Além das festas da Bianca, outra coisa que me incomoda muito é o cheiro de maconha que aquela moradora ali (aponta) exala todo santo dia. É insuportável!

MORADORA – Ué, dona Germana, como tem certeza que é maconha? Já fumou um?

GERMANA – (desconcertada, desconversa) Me deixa terminar… Outra coisa abominável do prédio é aquele casal ali (aponta). Quer dizer, aquela dupla. Ou gambiarra, sei lá como chamar. Dois homens morando juntos, se abraçando e se beijando nas áreas comuns do condomínio. Isso é inaceitável! E uma afronta a família tradicional brasileira!

HOMEM 1 – Que família tradicional brasileira é essa? É formada como? Marido, mulher e a amante né?

GERMANA – Como assim, bichinha?

HOMEM 2 – Como assim? Esse seu marido ai, o Zé Clovis, vive se agarrando com a Jéssica do 501.

Zé Clovis fica surpreso e Germana nervosa.

GERMANA – Que história é essa, Zé Clóvis?

ZÉ CLOVIS – Isso é mentira!

HOMEM 2 – Mentira nada! Quer julgar a família dos outros, mas não olha pra sua.

HOMEM 1 – Acorda, mulher! A gente está em 2019!

OTACÍLIO – Ordem, por favor, gente! Bom, diante das reclamações da dona Germana, gostaria de saber quem concorda com ela. Levantem a mão, por favor.

Ninguém levanta. Germana fica irada.

GERMANA – Bando de idiotas! Gentinha de quinta categoria! Eu vou embora daqui!

OTACILIO – Calma, dona Germana. Preciso dar uma notícia. Acho que é do seu interesse.

GERMANA – Meu interesse?

OTACILIO – Sim. De todos na verdade, já que todo mundo queria saber quem iria morar na cobertura luxuosa da falecida Amelinha Carvalho…

GERMANA – Alguém comprou?

ZÉ CLÓVIS – Quem é?

LARA – É a Camila Oliveira?

HOMEM 1 – É a Anitta?

OTACILIO – Não. Não é ninguém famoso.

GERMANA – Quem é então? Fala logo!

OTACÍLIO – É uma senhora que ganhou na loteria. 20 milhões, se não me engano.

GERMANA – Não acredito…

OTACÍLIO – Pode entrar, dona Marluce Maria dos Santos Silva Silveira Santana!

Marluce chega, toda elegante, sorrindo, passa perto da ex-patroa com um olhar provocador. Germana a ponto de explodir.

MARLUCE – Será um prazer conviver com todos vocês!

Close em Germana boquiaberta, ainda não acreditando, e Marluce, se achando.

FIM 😊

 


A partir de 7 de junho, o Da Cyber Pra Você passará a ser apresentado aos domingos às 22h.

Se você tiver algum trabalho em roteiro que tenha apenas um capítulo e quiser postar nesta antologia, envie-o por e-mail para mdknovelas@gmail.com e aguarde análise e confirmação. Vai ser um prazer contar com você!

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  • Ah! Que texto maravilhoso! É tão leve, cotidiano e bem humorado. Eu infelizmente conheço uma Dona Germana da vida, só que de nome Raimunda hahahaha. É tão apaixonante a maneira como construiram a trama, as mudanças dos núcleos dos apartamentos, as diversas figuras mostradas, é um painel multiculturalista. Mas o melhor para mim foram os diálogos! Tão reais e que não beiraram a mesmice. Dá para imaginar esses personagens por aí no dia a dia. Adorei amar e odiar Dona Germana e esse final da Marluce, foi lindo. Só senti falta do desenvolvimento da história de Lara e Bibi. Lembrei-me um pouco do eterno Fernando Sabino.

  • Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

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