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Episódio 02 – Jogo das Velas

 

Escrito por: Eduardo Moretti

 

 

 

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.”

(William Shakespeare)

*****

Emily corria desesperadamente por um enorme corredor escuro que parecia não ter fim. Angustiada e morrendo de medo, ela não fazia ideia de onde estava e não parava de olhar para trás o tempo todo. Ela fugia apavorada de uma garotinha de mais ou menos oito anos de idade, que a perseguia incansavelmente. A menina vestia um vestido branco cheio de manchas de sangue por toda parte e tinha um laço de fita vermelho prendendo seus longos cabelos loiros, além do rosto muito pálido. E toda vez que ela se aproximava de Emily, ficava mais visível um grande buraco em seu peito do lado esquerdo, no lugar do seu coração. Quando ela olhou novamente a garotinha já havia sumido. Emily então parou de correr e ficou olhando tudo a sua volta, procurando uma saída… Até que sem ela esperar, do nada a tal garotinha apareceu bem na sua frente, pregando-lhe o maior susto. A menina tinha uma aparência fantasmagórica e depois de encarar Emily por alguns segundos, estendia as mãos para ela, enquanto suplicava:

– Me ajuda, por favor! – Emily sentiu um forte arrepio percorrer todo o seu corpo quase como uma corrente elétrica, e quando olhou para as mãos estendidas da garotinha, ela viu um coração que pingava sangue e ainda batia. Aquele som era perturbador e não saia da sua mente, se repetindo o tempo todo, sem parar… Tum Tum… Tum Tum… Emily parecia hipnotizada e quando voltou a si, um homem grande, com cara de bravo e a mesma aparência pálida da menina, apareceu no lugar da garotinha. Ele tinha um enorme buraco na cabeça que ela via através de sua boca quando ele gritou com ela:

– Vai embora e nos deixe em paz! – gritou o homem furioso.

Emily acordou assustada e toda suada. Ela olhou para o relógio em cima do criado mudo que marcava 00h00! – Mais tarde seria o seu primeiro dia de aula no colégio e ela não queria chegar atrasada. Tudo iria começar novamente. Novo colégio, novas amizades e ainda por cima havia aquele maldito pesadelo que a atormentava todas as noites desde que ela se mudara com os pais para Vila Santa, interior de São Paulo.

Seu pai era arquiteto e tinha paixão por restaurar edifícios e casarões antigos. Com isso, eles viviam se mudando e Emily já estava cansada da vida cigana que eles levavam. Todo ano era a mesma história, despedidas no colégio, amizades desfeitas e amores, bom… Isso era raro de acontecer mesmo, mas com certeza era a pior parte a ser deixada para trás, por isso ela havia tomado a sábia decisão de não se apaixonar mais, pelo menos até completar dezoito anos e tornar-se independente. – “Nesse dia eu seria independente e poderia finalmente me tornar uma pessoa que reside em algum lugar do planeta, que tem duas melhores amigas das quais pelo menos uma irá se tornar sua confidente pra vida toda, e um amor de verdade, sem mentiras, sem despedidas, sem lágrimas.” – pensou ela enquanto sorria.

*****

O dia amanhecera lindo e o novo colégio até que era legal. As pessoas sorriam, eram receptivas, o clima era ameno e tudo parecia normal.

– Hei novata. Você pode nos dar um minuto, por favor. – pediu Adam todo sorridente.

Emily relutou um pouco, mas depois se virou e deu um meio sorriso para aquele garoto que tinha o sorriso mais lindo do mundo! – observou ela tímida.

– Será que a gente podia conversar um pouco, e depois eu te apresentava o colégio? Ah e a propósito, o meu nome é Adam. – disse encantado com ela.

– Prazer, Emily. – disse o encarando, enquanto apertava sua mão.

– Eu sou a Rebeca. E será um prazer ter você no nosso grupo. – falou Rebeca já se metendo entre eles com ciúmes de Adam, por quem era completamente apaixonada. – E esses são Diana e Rick.

– Prazer. – disse Emily simpática.

– De onde você é Emily? – perguntou Diana.

– Bom, eu sou de tantos lugares e ao mesmo tempo de nenhum deles. – disse com o olhar distante. E quando voltou a si, viu que todos a encaravam sem entender nada e sorriu. – Eu explico: É que o meu pai é arquiteto e ele tem verdadeira obsessão por restaurar casarões e edifícios antigos. Com isso a gente vive mudando de cidade o tempo todo. Por último eu estava morando no Rio de Janeiro e pela terceira vez. – concluiu sorrindo.

– Isso é o que eu chamo de ter uma vida agitada e com certeza ter muitas histórias pra contar. – disse Rick enquanto abraçava Diana.

– Eu não diria isso. A emoção muitas vezes esta em se fixar num local e criar uma expectativa de vida, pelo menos que dure mais do que apenas alguns meses. Agora quanto às histórias pra contar, eu não tenho nenhuma que vale a pena. – disse séria.

– Eu duvido que isso seja verdade, e qualquer dia desses eu adoraria ouvir todas. – disse Adam simpático.

– Mas e vocês? O que fazem para se divertir nessa cidade? – perguntou Emily disfarçando um sorriso.

– Aqui em Vila Santa? Absolutamente nada. – disse Diana.

– Por aqui é tudo muito calmo, quase não acontece nada. Sorte a sua viver se mudando, porque logo você irá querer ir embora daqui o mais rápido possível de tanto tédio. – desabafou Rick.

– Aqui nossas únicas opções são um cinema velho, a praça da cidade que sempre tem um carrinho de hot dog, outro de pipoca e só mesmo. Coisas de cidades pequenas e provincianas, sabe como é. – comentou Adam.

– A nossa esperança de pelo menos ter um final de semana diferente e agitado por aqui é você, Emily. – disse Rebeca na lata.

– Rebeca! – exclamou Adam sério.

– Qual é pessoal? Todos aqui estão pensando a mesma coisa desde que nós ficamos sabendo que ela é filha do tal arquiteto. Eu só acho que temos que ser diretos para viver essa aventura o quanto antes, e eu só estou adiantando as coisas. – disse Rebeca sem rodeios.

– Me desculpem, mas eu não estou entendendo nada. E pra falar a verdade, eu não gosto nenhum um pouco da maneira como eu estou incluída no plano de vocês, mesmo antes de nos conhecermos direito. – disse Emily séria.

– É o seguinte Emily… Quando nós soubemos que um arquiteto viria para a cidade com a sua família para restaurar o velho casarão, a gente logo se interessou pelo assunto e vimos nisso a oportunidade de finalmente conhecermos a tal casa de que tanto falam por dentro, e assim vermos se ele é mesmo mal assombrado como todos dizem. – explicou Diana.

– Eu sei dessa história, quer dizer, não do que se passou na casa de fato, mas dela ser assombrada. Eu vi tudo na internet quando o meu pai disse que viríamos morar aqui. E eu confesso que essa história me chamou muito a atenção também. Mas então foi só por causa disso que vocês me cercaram? – indagou os encarando intimidadora.

– Olha só Emily, da minha parte pode acreditar que eu só quis te dar as boas vindas, porque eu não tenho o mínimo interesse de entrar naquela casa. – afirmou Adam.

– Ok. Eu vou fingir que acredito. Mas qual é o plano de vocês? Espera deixa eu adivinhar… Vocês querem que eu roube as chaves do casarão que esta com o meu pai, pra nós darmos uma olhadinha por dentro… Acertei? – perguntou em tom desafiador.

– Mais ou menos isso, queridinha. Só esta faltando alguns detalhes que a gente combinou para tornar essa aventura ainda mais interessante. – disse Rebeca sorrindo e colocando a mão no ombro de Emily.

– Por favor! Não me chama de queridinha, porque eu não te conheço direito e tenho nome. Ok? – disse Emily tirando a mão de Rebeca do seu ombro. – E que detalhes são esses, eu posso saber?

– Ui… Uma coisa não podemos negar, ela tem personalidade. Gostei. – disse Rebeca rindo.

– Agora chega Rebeca! – exclamou Adam a encarando sério. – O que esses malucos estão querendo Emily é passar a noite no casarão mal assombrado.

– Vai ser divertido Emily, por favor! Eu sempre tive curiosidade em conhecer aquela casa por dentro de tanto que o pessoal fala. – disse Diana.

– É verdade. Dizem que a partir da meia noite os espíritos começam a se manifestar na casa, e quem já teve coragem de passar perto, disse que ouviu barulho de correntes se arrastando e gritos apavorantes. – comentou Rick.

– A minha vó vive contando a história trágica daquela casa e da família que viveu lá, durante anos. Ela também me ensinou uma espécie de truque ou jogo, enfim… É chamado de Jogo das Velas. Ele nos ajuda a saber se qualquer casa tem espíritos presos a ela. E eu junto com vocês gostaria de fazer esse ritual dentro da casa. E então o que você me diz Emily? Topa essa aventura? – perguntou Diana a intimidando.

Depois de pensar um pouco, Emily foi taxativa.

– Tudo bem, eu topo! – disse decidida, enquanto todos comemoravam. – Então amanhã ás onze e meia da noite em ponto, eu espero todos vocês do lado de fora do casarão. E eu vou querer saber toda história daquela casa, ouviu Diana?

– Pode deixar… Amanhã quando estivermos dentro da casa, eu contarei tudo o que sei a respeito daquele casarão mal assombrado. E se preparem porque a história é sinistra.

*****

O fim de semana chegou e no sábado a noite, exatamente as 23:30, todos estavam parados em frente ao casarão como combinado, quando Emily chegou. – A noite estava fria e silenciosa, a não ser pelo som de uma coruja cantando, deixando o local que já tinha pouca iluminação, ainda mais sombrio.

– Até que enfim você chegou garota. Nós já estamos parados aqui nesse frio tem vinte minutos. – reclamou Rebeca. – Sem contar nessa coruja cantando que chega me dar arrepios.

– Bom, eu não tenho culpa se vocês chegaram antes. Eu marquei ás onze e meia e cheguei na hora. – disse Emily olhando o relógio.

– Olha só pessoal, eu ainda acho uma tremenda bobeira a gente passar a noite dentro dessa casa. Pra que isso, qual o motivo disso tudo? – indagou Adam sensato.

– Adrenalina, diversão, medo, emoção… Quer motivos melhores do que esses? E depois Adam, quando é que nós vamos encontrar algum tipo de diversão nessa cidade? A gente nunca faz nada de diferente aqui e também nem temos opções. – disse Rebeca.

– Qual é cara vai amarelar agora? Será que você esta com medo de entrar lá dentro? – perguntou Rick o intimidando.

– Claro que não, seu babaca! Eu nem acredito em fantasmas, só estou achando tudo isso desnecessário. E depois pode dar algum problema pra Emily com o pai dela. – concluiu Adam.

– Quanto a isso pode ficar tranqüilo Adam… Porque o meu pai não vai desconfiar de nada, eu garanto.

– Bom, então vamos entrar galera? Daqui a pouco vai dar meia noite e nós precisamos estar dentro da casa e preparados para o Jogo das Velas. – disse Diana.

– Vamos nessa. – disse Emily passando a frente de todos e abrindo o cadeado. Em seguida ela abriu o enorme portão que rangeu fazendo um barulho sinistro.

Todos foram entrando devagar… O velho casarão estava caindo aos pedaços e até mesmo em volta era possível notar um jardim murcho, sem vida e cheio de lixo que o pessoal jogava.

Adam que ia à frente ao lado de Emily, parou ao lado dela que procurava a chave da porta principal no molho de chaves.

– Espera Emily… A porta esta aberta. – disse Adam percebendo uma pequena fresta e empurrando a porta que se abriu, revelando a penumbra e um cheiro de mofo muito forte que saia de dentro da casa.

Adam pegou na mão de Emily e eles entraram devagar, seguidos por Rebeca, Diana e Rick. – Todos estavam ansiosos e inseguros ao mesmo tempo, com medo do que podiam encontrar ali dentro. – De repente a porta se fechou com tudo, batendo forte e assustando a todos.

– Buuu! Calma pessoal, eu só dei um empurrãzinho nela, não foi nenhum espírito não. – disse Rick iluminando o rosto de todos com uma lanterna e rindo muito da situação.

– Seu idiota! – exclamou Diana nervosa. – O meu coração quase saiu pela boca.

Adam testou os disjuntores, mas nenhuma lâmpada acendeu.

– Sem energia elétrica pessoal, o jeito vai ser ligarmos nossas lanternas, para explorar melhor o local. – disse ele em meio ao eco de sua própria voz, causado pelo vazio da casa.

– Espera… Antes eu queria saber a história dessa casa, e porque dizem que ela é assombrada? – perguntou Emily curiosa. – Será que agora você pode nos contar Diana?

– Claro.

Todos formaram um círculo em volta dela, enquanto Rebeca se apoiou em Adam. Eles deixaram as lanternas acesas… Já Emily atenta, prestava atenção em tudo.

– Segundo a minha avó conta, há mais de oitenta anos atrás vivia aqui uma família… Pai, mãe, e um casal de filhos. O pai era um ex-combatente, muito rígido e severo, que batia nos filhos e na própria mulher se eles não seguissem suas regras. O homem era um nazista obcecado por Hitler que passou a ver fantasmas da guerra em toda parte. Sua família não agüentava mais tanto sofrimento. Toda noite, ele prendia os filhos no sótão que vivia cheio de morcegos, caso eles não o obedecessem. A mãe sofria calada, chorando e rezando num canto escondida do marido, que caso a pegasse com o terço na mão, a fazia ficar a noite inteira ajoelhada no piso frio e úmido do banheiro. O homem era um lunático.

Um dia cansado de tudo aquilo, o filho deles de apenas doze anos pegou a arma do pai e disposto a acabar com todo aquele sofrimento deu um tiro contra a própria cabeça, morrendo na mesma hora. A mãe desesperada correu até o quarto e encontrou o filho caído no chão com um buraco na cabeça. Havia sangue e miolos espalhados por toda parte, e ela chorava abraçada ao corpo do filho. Quando o homem chegou à porta do quarto, ele ficou estático, enquanto a mulher revoltada se levantou e começou a gritar com ele e a culpá-lo pelo suicídio do filho. Em seguida ela pegou o revólver e apontou para ele, que continuava sem esboçar nenhuma reação. Depois de pensar um tempo, ela acabou virando o revólver para si mesma e apertou o gatilho contra o próprio peito, caindo morta ao lado do corpo do filho.

A garotinha de apenas oito anos de idade brincava no quintal com uma boneca de pano velha. Ela parecia nem ter escutado o barulho de tiros de tão distraída que estava. Ela só ouviu barulho de passos atrás dela se aproximando e se virou assustada, se agarrando a boneca, quando viu o pai. O homem grandalhão e de cara feia trazia o revólver na mão. E sem qualquer tipo de remorso, ele apontou a arma para a filha que fechou os olhos na hora deixando escapar uma lágrima… Depois ele mirou bem do lado direito do peito dela e deu dois tiros no coração da menina que morreu segurando uma medalha. Em seguida, ele levou o cano do revólver até a boca aberta e deu um tiro que chegou a atravessar sua nuca. Desde aquela terrível tragédia, o casarão nunca mais teve compradores.

Emily estava distraída pensando naquela história horrível que acabará de ouvir, quando de repente ela viu um vulto branco passar correndo atrás de Diana e se assustou.

– O que foi Emily? – perguntou Adam preocupado.

– Eu não sei, acho que eu vi um vulto. – disse esfregando os braços por ter se arrepiado.

– Onde? – perguntou Diana olhando para trás na mesma hora.

– Ai… Como vocês são inocentes. Não estão vendo que ela esta só brincando pra assustar todo mundo? – disse Rebeca a encarando. – Idiotas! Fantasmas não existem.

– E porque você veio atrás da gente então? – perguntou Rick enquanto cruzava os braços.

– Pra ver você e todos eles se borrando nas calças de tanto medo. – disse ela enquanto gargalhava.

De repente eles ouviram um barulho no sótão. Era como se alguém estivesse correndo lá em cima.

– Vocês ouviram isso? – perguntou Rick branco de susto.

– Pessoal, eu acho melhor a gente fazer logo o jogo das velas e depois ir embora daqui, eu não quero mais passar a noite nesse casarão. – disse Diana amedrontada.

– Eu concordo com a Diana. – disse Emily desinquieta.

– Então vamos… Faltam cinco minutos para a meia noite e o jogo dever ser feito a meia noite em ponto. – falou Diana tirando sua bolsa do ombro e pegando as velas. – Vamos todos para a porta de entrada.

Todos foram para sala e Diana os posicionou de forma que eles formassem um círculo em volta da porta de entrada do casarão. Adam e Rick se sentaram na ponta de cada extremidade, posicionando suas lanternas para a entrada da porta.

Diana se sentou no meio, enquanto Emily e Rebeca se sentaram ao lado dela. – Diana colocou três velas brancas bem na entrada da casa e em seguida ela começou a explicar como era feito o ritual.

– Os antigos diziam que espíritos e entidades não conseguem entrar em nossas casas sem a nossa permissão. Eles ficam a espreita, parados em portas e janelas nos observando o tempo todo, esperando uma oportunidade de entrar no local, sendo convidados pelos donos da casa e da maneira mais informal possível. Um exemplo disso é quando alguma porta se abre sozinha. Muitas pessoas em tom de brincadeira dizem: “Pode entrar.“

Nesse momento todos estavam prestando atenção naquela história, e sentiram uma forte corrente de ar entrando pela porta e percorrer tudo em volta, principalmente o corpo deles, os fazendo sentir muito frio. Era como se algo ou alguém os tivesse rodeando.

– É exatamente nesse momento que as entidades entram e ficam por ali, encostados nas pessoas até virarem espíritos obsessores. Que são espíritos que gostam de causar transtornos e prejudicar a vida dos moradores da casa. – concluiu Diana olhando para o rosto amedrontado deles.

– E para que servem essas velas?  – perguntou Emily curiosa.

– Para sabermos se existem mesmo espíritos obsessores vivendo aqui nesta casa. É uma espécie de jogo, um ritual simples que a minha avó me ensinou, mas que realmente funciona. – Diana então pegou um isqueiro que estava em sua mão e começou a acender as velas, uma por uma.

– O que você esta fazendo, meu amor? – perguntou Rick sério.

– Iniciando o jogo. Não foi para isso que viemos até aqui? Eu preciso acender as velas, já faltam dois minutos para a meia noite. Se quisermos nos certificar de que algum espírito vive nessa casa, nós devemos acender as velas na sua entrada principal, nos sentarmos diante delas, acalmar a nossa mente e fazer uma pergunta em tom de voz mediano. E então, todos estão prontos?

Apesar do receio e do medo que todos estavam sentindo naquele momento, até mesmo Diana, eles assentiram com a cabeça.

– Lembrando que caso as velas se apaguem a entidade confirmou sua presença aqui e esta pronta para entrar, não a convidem. Agora se as velas permanecerem acesas significa que nenhuma entidade ou espírito vive aqui nessa casa. E se de repente as velas caírem, a entidade já esta vivendo dentro da casa há muito tempo. Então todos repitam comigo agora: – “Se algum espírito obsessor estiver presente e quiser entrar nessa casa, a vela terá que se apagar.”

Todos então repetiram juntos a frase e depois aguardaram receosos. Os segundos e o silêncio que decorreram a seguir pareceram infinitos. Ninguém se mexia ou dizia alguma coisa, estavam apenas concentrados, olhando para as velas e aguardando o que aconteceria a seguir. – De repente, a corrente de ar ficou ainda mais forte, derrubando as três velas de uma só vez no chão e espalhando um rastro de fogo que chegou bem próximo deles.

Apavorados eles se levantaram depressa, enquanto a porta se fechou violentamente, fazendo um grande estrondo e deixando todos assustados. De repente Rebeca começou a gritar sem parar, tentando se livrar de uma chama do fogo que insistia em queimar cada vez mais o seu vestido. Adam então tirou sua jaqueta e abafou na mesma hora o local com  a chama que aos poucos foi cessando até apagar-se por completa.

– Nós temos que nos mandar daqui agora. – disse Rick correndo até a porta e tentando abri-la, mas a mesma parecia trancada e ele desistiu.

– Espera! Eu tenho as chaves. – lembrou Emily indo até a porta, mas assim que ela colocou a chave na fechadura, o molho de chaves voou de sua mão para bem longe, se perdendo no escuro.

– Agora vocês estão satisfeitos? Viram só no que deu a idéia idiota de querer passar a noite nesse maldito casarão? – esbravejou Adam.

– Eu quero sair daqui agora, essa casa está cheia de fantasmas. – falou Rebeca chorando desesperada.

– Procurem se acalmar pessoal, agora não adianta se desesperar. – disse Diana. – Esse casarão é enorme e com certeza deve ter outras saídas.

De repente, eles começaram a ouvir barulho de correntes se arrastando por toda casa, seguido de um assovio bem alto e perturbador.

– Vem comigo Emily. – disse Adam pegando ela pela mão e Rebeca os seguiu.

Todos começaram a correr pelos corredores da casa apenas com a luz de suas lanternas acesas e tentando abrir as portas, enquanto Emily do nada teve uma sensação de Déjà Vu, e ficou parada no meio do corredor, com a nítida impressão de já ter estado ali antes.

– O que foi Emily? Você esta bem? – perguntou Adam preocupado.

– Estou. É que parece que eu já estive aqui antes… Claro, os meus pesadelos! Eu tenho tido pesadelos constantes com essa casa.

Rebeca tentava a todo custo abrir uma das portas quando de repente a porta se abriu sozinha, e ela com medo se afastou.

Todos olharam para ela e foram se aproximando devagar, quando sem esperar do nada um garoto aparentando ter doze ou treze anos surgiu na porta e a puxou para dentro, fazendo Rebeca gritar apavorada. Logo em seguida a porta se fechou novamente.

– Rebeca, esta tudo bem ai dentro? – perguntou Adam preocupado. – Rebeca!

O garoto estava parado num canto escuro e Rebeca com muito medo, começou a conversar com ele.

– Oi… Quem é você? – perguntou toda trêmula, enquanto se aproximava dele.

O garoto nada dizia, apenas cantarolava. De repente ele se virou com tudo, revelando o rosto todo deformado e sem uma parte da cabeça, devido ao tiro que dera no próprio crânio. – Rebeca começou a gritar desesperada e tentou fugir, mas o garoto foi mais esperto e a pegou pelo pescoço, erguendo ela no alto e torcendo o pescoço dela que morreu na hora. Ele então a soltou, deixando seu corpo cair no chão. E no lugar dele, a alma perturbada do pai se materializou, sorrindo satisfeito.

Do lado de fora, eles não conseguiam abrir a porta e Rick irritado, acabou desistindo.

– Chega pessoal! Ela já deve estar morta. Nós temos que procurar uma saída, antes que eles nos matem também. Vem comigo Diana. – disse puxando a namorada.

– Ir pra onde Rick? As portas estão todas trancadas.

– Vamos tentar o porão. E vocês vêm com a gente ou não?

Adam ficou pensando e Rick acabou indo com Diana na frente. – Lá embaixo, Rick e Diana começaram a explorar todo o porão. De repente, ele ficou parado, sem sair do lugar e Diana que estava bem atrás dele, foi se aproximando. Aos poucos a imagem de uma senhora ajoelhada e chorando foi se revelando num canto escuro do porão.

– Quem é essa mulher, Diana? – perguntou Rick assustado.

– Deve ser a mulher da história que eu contei… Minha avó conta que ela vivia rezando pela alma do marido.

Diana tranqüila começou a aproximar dela com calma. Por um instante, ela fechou os olhos e viu a mulher apanhando do marido ditador e todo o seu sofrimento. A mulher ainda de joelhos rezava muito e Diana passou a acompanhar aquela alma aflita e tão necessitada de libertação.

– Pai nosso que estais no céu, santificado seja vosso nome… Venha a nós o vosso reino…

– O que você esta fazendo Diana? – perguntou Rick surpreso.

Diana cada vez mais perto da senhora tentou tocá-la, quando eles foram surpreendidos pelo o marido dela que apareceu com uma corrente na mão e furioso, ele a rodopiou no ar e jogou contra Rick, prendendo seu pescoço e o deixando sem ar, tentando se livrar dela a todo custo.

– Diana… Me ajuda. – dizia com dificuldade.

– Rick! – exclamou ela espantada ao ver a cena. – Solta ele seu espírito maldito. Eu ordeno em nome de Jesus que você volte de onde veio. E que encontre a luz e descanse em paz. O seu lugar não é mais aqui entre os vivos.

– Essa casa é minha e vocês a invadiram… Vão embora! – gritou o homem muito bravo ao mesmo tempo em que puxou Rick com tudo para si envolvendo toda a corrente em seu corpo e a apertando cada vez mais forte sobre ele, que começou ter a pele cortada e sangrou até a morte, tendo o seu corpo cortado em pedacinhos.

– Rick… Não! – gritou Diana chorando e correndo até o espírito do homem que desapareceu na mesma hora.

*****

Adam seguiu Emily que viu a garotinha de vestido branco subir até o sótão e foi atrás dela. – Chegando lá, ele encontrou Emily novamente estática.

– Eu vi você nos meus pesadelos. Vi essa casa também… Você corria atrás de mim, parecia me perseguir… Por quê? – perguntou Emily curiosa a garotinha, que saiu da penumbra e ficou diante da luz da lua refletida através de um enorme buraco no telhado. – Sua aparência, diferente do pesadelo era normal e agradável, e ela mantinha uma das mãos fechada.

– Porque você é a única que pode me ajudar, libertando a mim e a minha família dessa prisão terrena que o meu papai nos deixou. Me ajuda, por favor! – suplicou a garotinha.

– Mas te ajudar como? O que eu tenho que fazer? O seu pai esta machucando meus amigos, nós temos que ser rápidos.  – disse Emily preocupada.

A garotinha então abriu a mão revelando uma medalha, e em seguida entregou-a para Emily.

– O casarão tem que ser destruído. Queime ele e tire essa medalha de dentro da casa. Só assim nós seguiremos em paz para a luz. Essa medalha de São Miguel Arcanjo sempre me protegeu e acompanhou, foi um presente dado por minha mãe. Agora ela é sua. Só uma pessoa de coração puro pode nos libertar. Olhe em volta e verá a solução. – disse a garotinha desaparecendo.

Emily e Adam ficaram pensativos e olhando tudo a sua volta, enquanto ouviam novamente o barulho de correntes se arrastando pela casa e se aproximando do sótão. Ela então viu galões de gasolina empilhados num canto.

– Adam… Olha! – disse puxando ele. – Vem… Me ajuda.

Os dois pegaram os galões e abriram, começando espalhar a gasolina por todo o sótão. – Adam ainda pegou dois galões e os jogou abertos no andar debaixo da casa. Foi quando ele viu o espírito furioso do ditador, subindo as escadas do sótão. Ele então fechou a porta rapidamente.

– Vamos embora, ele esta vindo.

– Espera… E os outros? – perguntou Emily aflita.

– Eles estão no porão e pelo lado de fora tem uma porta. Lá fora nós abrimos ela.

Adam então quebrou a janela do sótão usando uma cadeira, depois ele ajudou Emily a passar pelo lado de fora e saiu. Em seguida, Emily se aproximou, acendeu o isqueiro e já do lado externo do casarão, ela o jogou no chão. Em poucos segundos o rastro de fogo tomou conta do local, enquanto ele e Emily pulavam lá embaixo em cima de uma pilha de saco de lixos amontoados.

O fogo logo se espalhou por todo casarão e eles começaram a ouvir os gritos de Diana pedindo socorro.

– Socorro! Alguém me ajude, por favor!

Adam foi até a porta do sótão e a arrombou. Quando Diana ia sair, o espírito do homem a pegou pelo pé e a puxava para dentro. Emily chegou para ajudá-los e viu quando a garotinha puxou o casaco do pai, ajudando eles.

Diana finalmente conseguiu se soltar e saiu do porão com a ajuda de Adam e Emily. Juntos eles correram para longe do casarão e encontraram o portão aberto. Eles então se esconderam atrás do muro do lado de fora e logo depois o casarão explodiu, colocando a casa toda abaixo.

– Vocês estão bem? – perguntou Adam para as duas.

– Sim… Diana e o Rick?

– O espírito do ditador matou ele. – disse começando a chorar.

– Eu sinto muito. Acho que a Rebeca acabou tendo o mesmo fim. Nós não vimos mais ela. – concluiu Adam com pesar.

– Que Deus os tenha… Agora vamos embora. Nós não temos mais nada para fazer aqui. – disse Emily decidida e sorrindo para Adam que retribuiu. Os três seguiram juntos para casa, enquanto Emily e Adam foram abraçados

Emily guardou a medalha no bolso e teve a certeza de que a partir daquela noite, os pesadelos a deixariam em paz e ela poderia sonhar novamente por ter encontrado uma amiga pra toda vida e um amor de verdade, já que com a casa completamente destruída, o seu pai levaria mais tempo para concluir o projeto de restauração e assim ela poderia ser feliz com um novo e duradouro endereço fixo, como sempre sonhara.

*****

FIM

 

Um Conto de Eduardo Moretti

 

Na Próxima 3ª Feira às 00h

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    • Obg Well meu amigo. Aguarde o filme, ou quem sabe série pro ano que vem… rsrsrs… A história rende muito mais, pode apostar. s2

  • Fala mister Avalanche Moretti! Tinha lido o seu conto no mesmo dia de estreia, entretanto, não tinha expressado meus comentários. Creio eu, que você está no caminho certo, a elaboração do seu texto, me corrija se estiver errado, vi seu enredo muito parecido nos moldes do roteirista Kevin Williamson, autor de sucessos com o filme Scream (Pânico) e Eu sei o que vocês fizeram no verão passado. Mesmo se tratando de fantasmas em vez de um Serial Killer, vi muita influência dele no seu trabalho. Já percebo isso, desde Dark Hills. Num conto limitado, você ainda encontrou tempo de esmiuçar a história de Emily e com novos amigos. Pode até ser manjada história com casas má-assombradas, mas, eu gosto muito. E você mandou bem! Agora vamos prestigiar Terror Story.

    Abraços,amigão! Continue assim!

    • Uaaauuuuuu… O que dizer depois desse comentário meu amigo L.F. d’Oliveira??? To muito feliz com tudo que li e cheguei a me arrepiar aqui, é sério. É o reconhecimento do meu trabalho que eu sempre busco e ler esse tipo de comentário de outro profissional do meio me da mais segurança no que faço e me faz querer seguir cada vez mais adiante. Muito obrigado mesmo de coração por suas palavras e por acompanhar sempre o meu trabalho cara.E respondendo a você sobre as comparações aos filmes citados e ao grande Kevin Williamson, sem dúvida é uma grande inspiração pra mim na hora de escrever terror americano. Eu sempre li muito livros do gênero, aliás leio até hoje, além de assistir muitos filmes e séries também, e tudo isso me ajuda bastante na hora de extravasar e tocar o terror srsrsrsr… Continue acompanhando o meu trabalho amigo, vem muita coisa boa pela frete ainda e uma das mais promissoras é sem dúvida a série de terror antológica, Terror Story. s2

  • Parabéns, Moretti! A história desde o pesadelo até a conclusão sobre a casa mal assombrada foi muito boa. Como eu sou fã de histórias sobrenaturais e espiritualistas já imaginava que os espíritos estavam presos na casa e só precisavam da ajuda de alguém para se libertar. Foi terror e um ensinamento importante. Pena que dois tiveram q morrer kkkkkkkk

  • Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

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