Seu Zé, assim chamado por todos, homem calado, sofrido, vivendo com a miséria que recebia de esmolas.

Uma moeda de maior valor, que raramente caía na caixa de sapatos, garantia-lhe a refeição do dia, indo adquirir, no bar da esquina, um pingado e um pãozinho com manteiga. Às vezes ficava dias sem comer para conseguir uma quantia maior e comprar um prato feito no restaurante de comida barata, do outro lado da esquina.

Assim eram seus dias, e na véspera do Natal não foi diferente. O tumultuo dos milhares que deixaram seus presentes para a última hora e a pressa de preparar a ceia, as pessoas mal o observavam, sempre no mesmo lugar.

Quando o dia se foi, seu Zé também deixou o centro da cidade. Tomou rumo à sua morada. Ao ver uma casa com muitos enfeites parou, apreciando a decoração.

A mulher, vendo-o diante de sua janela, quis saber:

– O que está fazendo parado na frente do meu portão?

O estômago do seu Zé falou primeiro. Ardia de fome. Ele se aproximou da grade. Envergonhado pediu:

– Um prato de comida, caso a senhora possa me oferecer.

– No momento, não tenho nada preparado. Passe outro dia. Quem sabe! Deveria ter-se esforçado um pouco mais na sua juventude. Agora, velho e doente, não precisaria pedir esmolas.

– Obrigado, minha senhora. Um feliz Natal.

A mulher nada respondeu. Fechou a janela e voltou à cozinha, onde preparava a ceia, mesa farta de frutas e guloseimas.

Seu Zé, em passos lentos seguiu seu destino.

Ao ouvir os fogos de artifício anunciando a zero hora, também se apressou para fazer a sua ceia. Tirou, do bolso do casaco, um velho lenço e o estendeu na mesa improvisada com pedaço de madeira e latas de óleo vazias.

Pegou, de um canto, um saquinho de papel onde escondia um pedaço de pão e o colocou no centro. Ajoelhou-se e agradeceu:

– Obrigado, Senhor, por mais esta noite. Quem sabe amanhã eu tenha um pouco mais de sorte. Sabe, Senhor, aquela senhora tem razão. Eu deveria ter-me esforçado um pouco mais na juventude. Tu sabes, fiz tudo o que estava ao meu alcance. Por falta de estudos não tive uma boa profissão. Na luta diária não me deram oportunidades. Mas não condeno a mim, a ninguém, muito menos a Ti pela vida ingrata que recebi, porque me deste uma esposa e cinco filhos. Minha esposa já faleceu, faz muito anos. Meus filhos seguiram seus rumos pelo mundo; não sei onde estão nem como vivem. Mas eu também não os condeno por me abandonarem; não dei a eles muita coisa. Para dizer a verdade, não lhes dei nada além da vida. Então por que devo esperar que façam algo por mim? Nada mesmo. Quero que sejam felizes e progridam. Mas, nesta noite não quero me sentir sozinho. Quero sentir a Tua presença. E o convido a cear comigo. Sabe, Senhor, vou Te contar um segredo que o Senhor já deve saber: venho guardando este pedaço de pão faz muito tempo. Queria ter alguma coisa para comemorar o Seu dia. Então, meu Senhor, obrigado pela minha mesa farta, e o Senhor aqui comigo. Amém e o meu muito obrigado.

Antes que seu Zé começasse a refeição, percebeu a presença de alguém. Ele se alegrou ao ver uma criança.

– O que está fazendo acordado a esta hora da noite, menino? – A criança, o olhava, sério. Nada respondeu. – Pela sua cara, deve estar com fome. Venha, sente-se aqui comigo. Não tenho muito a oferecer, mas posso lhe dar um pedaço deste pão.

O menino sentou-se ao lado da mesa, pegou o bocado que lhe foi oferecido.

– Está muito seco – explicou o velho, entregando-lhe uma latinha de refrigerante. – Com água fica fácil de engolir.

– Por que vem guardando o pão faz muito tempo?

– Como sabe disso?

– Ouvi sua oração.

– Não o vi chegar. Deve ter bons ouvidos; não rezei tão alto assim. Deve ser novo por aqui. Nunca o vi antes. Onde estão os seus pais?

– No céu.

O velho entristeceu-se:

– Eu também perdi os meus quando era muito pequeno. Ainda sinto falta deles, como você deve sentir dos seus agora.

– O senhor é feliz?

O homem riu:

– Que pergunta, menino! Por que quer saber se sou feliz?

– Curiosidade.

– Sim. Sou muito feliz. Mesmo não vivendo a vida que pedi a Deus, esta é a que recebi. Então por que devo amaldiçoá-la com minha tristeza? E você, é feliz?

– Muitas vezes não. Pela indiferença e injustiça que vive a humanidade.

– Você é um menino muito esperto pela pouca idade que tem. Agora é melhor a gente comer. Você tem para onde ir?

– Vivo andando por aí.

– Se quiser, pode morar comigo. Minha casa é bem grande. Vou gostar da sua companhia. Às vezes me sinto sozinho. Infelizmente não tenho nada de bom para lhe oferecer. Bom, você pode ficar com a minha cama.

O menino olhou ao redor:

– Não vejo nenhuma cama por aqui.

Seu Zé, rindo, explicou:

– Você está sentado em cima dela. É o pedaço de cobertor que lhe dei para se sentar quando se juntou à minha mesa. Pode ficar com ele, durmo no chão puro. A madrugada é muito fria. Tem noite que a gente quase não aguenta. Quem sabe, terei a sorte de encontrar outro logo, no lixo.

– Podemos dividi-lo ao meio ou dormir juntos. A madrugada promete ser muito fria.

– Melhor não. Estou cheirando mal. Faz muito tempo que não tomo banho.

– Não me importo com isso.

O fogo da latinha apagou-se, sem mais óleo para queimar.

– Ficamos no escuro. Melhor a gente dormir. Amanhã teremos tempo para conversa. Quero saber de tudo a seu respeito: de onde veio, quanto tempo está na rua… Costumo acordar bem cedo.

O menino se aconchegou nos braços do velho, dividindo o cobertor e o papelão. Seu Zé lembrou-se de algo importante:

– Ei, criança! Estou me esquecendo de lhe desejar um feliz Natal. Hoje é Natal. Você sabia?

– Sim. Hoje é meu aniversário.

– Por que não me disse antes que o fogo se apagasse? Eu teria cantado parabéns a você.

– Amanhã, quando estiver no meu Paraíso, você poderá me dar os parabéns. Eu tenho um Paraíso cheio de calor, fartura e glória. Sabia?

Seu Zé se alegrou:

– Se tem tudo isso, o que faz aqui comigo?

– Foi o senhor quem me convidou para cear contigo esta noite. Aceitei o convite.

– Sabe, criança, acredito mesmo que você tenha um Paraíso cheio de calor, fartura e glória. Este lugar nunca ficou tão quente assim. O meu estômago está tão saciado que parece nunca ter sofrido fome. O meu corpo parece flutuar em glória.

– É que você, José, já faz parte do meu Paraíso.

Na manhã seguinte, um guarda, que sempre passava por aquele viaduto o, aproximar-se de seu Zé:

– Ei, velho, acorde! Nunca o vi dormir até tão tarde. Hoje é Natal. Eu vim lhe trazer um prato de comida.

O velho não se moveu.

– Pobre, homem, morreu sozinho, de frio e fome. Justo numa noite de Natal.

 

Biografia.

Fátima Friozi. Autora de vários livros. Mora na cidade de Santa Rita D´Oeste. SP. Brasil. Filha de Garcia Luiz da Costa e Floripes Rossi da Costa. Casada, mãe de dois filhos e quatro netos.

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