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O Menino das Mãos de Água

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Era uma vez… Um reino muito distante, feito completamente de sal, chamado Gheda. Os cidadãos que ali viviam, acreditavam que o sal que constituía os castelos, as pirâmides e os mais simples dos objetos do Reino, eram as cinzas eternizadas do Sultão Hesham, o mais nobre dos sultões que já havia vivido em Gheda. As histórias sobre a bravura, coragem e humildade do Sultão repercutiam por gerações, sendo a mais famosa delas a história de seu sacrifício. 

Segundo a lenda, Gheda estava sob ataque das criaturas de gelo que moravam no Reino rival e para destruí-las era necessário buscar um artefato mágico: um lampião feito do sal mais puro e cristalizado da terra, que tinha dentro de si a magia para realizar três desejos, e que depois, se desintegraria. Entretanto, para segurar o lampião era necessário ter o coração tão puro e leve quanto o mineral, do contrário, aquele que tentasse usá-lo para a balbúrdia, se transformaria em uma estátua de sal.

Ao conseguir segurar o lampião o Sultão Hesham exclamou seu primeiro desejo: “toda a criatura que fazer o mal deseja, tenha sua forma reintegrada à natureza”, e assim, as criaturas de gelo se tornaram água. Mas apesar da vitória, o Reino começou a ser inundado pela água que as criaturas se tornaram, e temendo que seu povo morresse afogado exclamou pela segunda vez: “desejo me juntar aos ambiciosos de coração a qual a minha terra fizera mal; se o meu povo for poupado, me designo a uma estátua de sal”. 

Porém, apesar de ter realizado seu desejo, o lampião reconheceu o altruísmo do Sultão, e decidiu não o transformar somente em uma estátua de sal, mas também espalhar cada unidade que agora era parte de seu corpo, para construir um novo império. E pelo sacrifício de Hesham, os castelos de ouro, as pirâmides e os objetos de Gheda, se tornavam o sal mais genuíno da terra, herdado do sacrifício de um herói. 

Desde então, o lampião continuou sendo o artefato mais cobiçado em Gheda, por possuir um terceiro e último desejo mágico. Ele ficava escondido dentro de uma caverna de fácil acesso e qualquer um poderia se aproximar. Mas nenhum homem tão puro e genuíno com o Sultão havia surgido naquelas terras. Assim, todos aqueles que tentaram se apossar do objeto, se transformavam em estátuas. Além disso, o Reino também se tornou um dos mais pobres depois que todas as riquezas haviam se transformado em sal.

Até que anos depois, a Sultana Heba, esposa de Hussein, o atual Sultão de Gheda, ajoelhou-se em frente ao lampião, sem tocá-lo. Heba havia concebido três filhas mulheres, e a idade estava chegando. Ela precisava dar ao seu marido um herdeiro que futuramente assumisse o posto de Sultão. Apesar de não ter tocado no lampião, Heba voltou para o Castelo de Sal alegando que seu pedido fora atendido e que viu uma luz mágica sair do fogo e entrar em seu ventre.

Nove meses se passaram e Heba deu à luz a um pequeno menino chamado de Príncipe Kalel. Agora a família tinha esperança em um dia se tornar um reino repleto de riquezas novamente, mas essa felicidade durou poucos segundos. O Sultão percebeu que o filho era diferente: suas mãos eram feitas de água e para um Reino de sal, isso só poderia ser uma maldição. O Sultão ordenou que o filho fosse mantido longe de todos até a realização do El Sebou – festa popular que celebra o sétimo dia de vida dos bebês de Gheda. 

Durante os seis dias que se passaram, o Sultão tentou de tudo para conquistar o artefato mágico e livrar seu filho da maldição. Mandou seus melhores homens para segurarem o objeto, mas viu seus soldados tornando-se apenas estátuas em sua frente. Chegou a cogitar fazer uma aliança com as bruxas que moravam no Reino rival, mas a esposa o proibira. Ofertou até mesmo seu Castelo de Sal e as poucas riquezas que tinha para os outros Reinos, mas foi tratado com desprezo.

No grande dia da festa, quando a Sultana foi apresentar o filho para a população, ela tocou em suas mãos, começando a desintegrar-se na frente de sua família, aliados e súditos, se transformando em um longo e belo Riacho. O Sultão foi buscar ajuda e retornou ao palácio real na companhia de Zenaib, uma bruxa que morava no reino rival. Ela prometeu enfeitiçar o menino se o Sultão se casasse com ela e lhe desse três filhas sultanas. Assim, uma aliança foi formada. A Bruxa fez um feitiço alegando que não poderia mudar a estrutura interna do Príncipe, mas sim externa. Dessa forma, as mãos de água de Kalel se transformaram em mãos de gelo, e agora, ele não poderia ferir mais ninguém contando que não se aproximasse do Riacho. O sultão então ordenou que fosse construída uma Muralha para esconder o Riacho de seu filho.

Os anos se passaram e Kalel se tornou um príncipe digno de seu título. Era bondoso, genuíno, cuidava das tarefas do reino e sempre ajudava suas seis irmãs, pois havia ganhado mais três caçulas, todas gêmeas, frutos da relação de seu pai com a bruxa. Hanady, Yousry e Zakaria eram o nome das meninas e elas sempre humilhavam o príncipe, principalmente após a morte do Sultão. Mesmo que Kalel fosse seu sucessor, ele não tinha os mesmos privilégios, pois a aparência de suas mãos causava temor, a ponto de nenhum outro Rei querer-lhe ofertar a mão de sua filha, o que o deixava sempre em uma tristeza profunda. 

Kalel perguntava todas as noites à Hala, sua irmã mais velha, o porquê de ele ser diferente, alegando que nada nesse mundo o faria mais feliz do que ver algo que fosse como ele. Entretanto, a princesa sempre terminava a conversa dizendo que o irmão era apenas muito especial, mantendo o segredo de seu pai intacto, mesmo após a morte.

Em uma determinada noite, insatisfeito com as respostas superficiais de sua irmã, o futuro Sultão resolveu ir atrás do lampião mágico. Pensou que talvez poderia encostar no objeto sem se transformar numa estátua de sal, já que suas mãos eram feitas de gelo. Assim como sua mãe fizera no passado, o garoto ajoelhou-se em frente ao lampião e pediu uma orientação, mas diferente dela, não foi atendido. Temendo o que poderia acontecer, mas em busca de descobrir suas origens, segurou o lampião em suas mãos exclamando em voz alta: “se para todo o sempre, ao meu povo, minha existência for infelicidade, desejo descobrir a verdade”.

No mesmo instante, a magia presa nas mãos de Kalel foi transferida para o lampião. Quando enxergou suas mãos do jeito que eram feitas, completamente de água, o príncipe se assustou e deixou o lampião cair, que ao tocar o solo começou a formar uma trilha cristalizada até a Muralha. 

Incrédulo com o que enxergava, Kalel ergueu suas mãos na frente de seus olhos, pois nunca havia visto algo tão puro e brilhante como a água que escorria pelos seus dedos. Colocou ambas as palmas em frente a Muralha de Sal, que se desintegrou a sua frente, permitindo que visse o Riacho escondido.  

Enquanto observava a água correndo pelo Riacho, Kalel ouvia uma voz feminina chamar seu nome. Ele entrou dentro do Riacho, achando que aquilo lhe traria alguma resposta, mas ao invés disso, sentiu pequenos redemoinhos se formando ao redor de suas pernas. A água começava a se fundir com o corpo do príncipe, como se ele estivesse sugando-a para dentro. O espírito de sua mãe havia se fundido a ele. A antiga Sultana havia passado tanto tempo na forma de Riacho que havia percorrido por todos os Reinos de Gheda, tendo conhecimento de todas as histórias e profecias que os cercavam. Heba sussurrou suas descobertas no ouvido do filho.

Kalel se abaixou, tocando o solo com suas duas mãos e o sal do Reino começou a diluir. Em um piscar de olhos, os castelos, casas e palácios voltavam ao que eram antes. O sal penetrou as mãos de Kalel, que agora, já não eram mais feitas de água. Por fim, o príncipe Kalel se tornou o Sultão mais rico e poderoso de toda Gheda, trazendo em seu reinado riqueza e prosperidade para toda a população.

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