o rei de copas capa
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“Matar não é um crime, matar é uma obra de arte”.

-Igor Ventura

 

 

O que leva alguém a se tornar um criminoso? Qual conceito patológico é comprovado de que uma pessoa tenha tendência a ser um psicopata? Teria sido a criação dos pais? Teria sido algum trauma de infância? Um amor não correspondido? Uma meta não alcançada?

Vivemos, morremos e seguimos repetindo essa onda de crimes por todo o Brasil. Pai matando filho, filho matando pai, discussões banais que resultam em morte. Hoje em dia tudo é motivo para provocar briga. Nos mais extremos casos: Provocar a morte. Diferenças políticas, religião, orientação sexual, e até mesmo casos mais banais como falar mal do seu time do coração, ou quando alguém prefere a janela fechada no ônibus e outro prefere aberta.

Tudo isso citado acima pode transformar a mente de um ser humano, mas existem aqueles que conseguem se sobressair, que estão completamente atrelados ao mal extremo… Muitos até dizem que essas pessoas têm pacto com o próprio demônio.

Verdade ou não, sabemos que o verdadeiro inferno é onde nós vivemos. E na cadeia alimentar da vida, se você é jogado em uma jaula de feras, a única forma de escapar… É se tornar uma delas.

 

 

           ATO DE ABERTURA

 

Lago Norte, Brasília-DF. 18 de Dezembro de 2021.

 

Uma jovem de aparentemente 20 anos, rosto angelical, cabelo castanho e amarrado pra trás, está juntamente com sua mãe. Uma mulher de uns 40 anos, cabelo loiro e curto até os ombros. Elas estão correndo em uma casa gigantesca e se escondem debaixo da mesa da cozinha.

A garota está chorando e bastante nervosa, sua mãe tenta acalmá-la.

— Shh, shh! Você precisa ficar calma, filha. A gente vai sair dessa, eu prometo.

— Não! O papai tá morto, os cuidadores da casa também… Vamos morrer!

— Não, eu não vou deixar você morrer. Escuta, fique aqui escondida, eu vou tentar alcançar o telefone.

— Não, mãe! Não, pelo amor de Deus, não me deixa aqui sozinha, ele vai me matar! Ele vai matar a gente, mãe. Por favor, por favor…

— Shh, fala baixo, filha, por favor! Ele tá lá em cima, se eu conseguir chegar a tempo no telefone da sala, vamos ligar pra polícia e assim a gente dá um jeito de sair sem sermos vistas, entendeu?

— Tá bom!

— Eu te amo!

A mãe sai debaixo da mesa e vai andando a passos “de gato” até a sala. Ela se assusta ao ver um de seus criados no chão com a garganta cortada.

— Meu Deus, meu Deus!

Ela ouve um barulho, precisa se apressar e tentar achar o telefone o mais rápido o possível.

De lá de cima, do topo das escadas, vemos a silhueta de um homem, ele está vestindo um traje preto e usando uma máscara prateada de lobo. Ele pega uma faca, começa a descer as escadas e fica passando a faca na parede pra que possa ser ouvido um barulho agoniante.

A mulher está discando pra polícia, ela se agacha no canto da mesinha do telefone. Uma policial atende.

— Polícia Militar, boa noite!

— (Sussurrando) Por favor, por favor, eu preciso que… Eu preciso que venham até a minha casa no Lago Norte. Fica perto da administração regional, é a casa 6. Meu marido foi morto por um homem e agora ele está atrás de mim e da minha filha.

— Ok, senhora, já estamos providenciando a ajuda.

— Por favor, sejam rápidos.

O barulho da faca passando na parede aumenta a cada vez mais e a mulher fica desesperada. Ela tenta se esconder atrás da enorme árvore de natal posta em sua sala.

O criminoso desce as escadas e vai andando tranquilamente e não parece ter pressa nenhuma em terminar o que começou. Ele para por instantes, observa o local, tenta ver se ouve algum barulho incomum.

Na cozinha, a garota está tão desesperada que sua respiração fica ofegante, a ponto de poder ser ouvida a uma certa distância. O assassino parece ter escutado os gemidos vindo da cozinha e se direciona pra lá.

A mulher estando escondida atrás da árvore percebe que ele está indo pra lá e pensa em fazer alguma coisa. A jovem continua debaixo da mesa. Apenas a toalha a está escondendo, ela percebe passos se aproximando dela e tenta segurar o máximo a respiração.

O assassino parece gostar de fazer tudo em passos lentos sem a menor pressa de ver o resultado. Ele está parado de pé bem atrás da mesa. Lá debaixo a garota está com os olhos fechados lacrimejando e quase tendo um ataque de pânico. Ele vai se agachando aos poucos e está pronto para levantar a toalha da mesa. Nesse instante, a mulher aparece por trás o atingindo com um vaso na cabeça.

— Deixa a minha filha em paz!

O criminoso parece nem ter sentido a pancada, a mulher observa a relutância dele e grita:

— Janete, corre!

Janete sai de baixo da mesa e corre para o lado, o criminoso tenta alcança-la e sua mãe agarra o seu braço com força.

— Mãe!

— Corre, filha! Corre!

Janete sai correndo dali, enquanto isso o assassino bate com a testa na mãe da garota, ela cai no chão atordoada. Ele a levanta e a apunhala com uma facada no estômago.

— Aaaai!

Em seguida, ele levanta a mulher e a encosta na parede. Ele sussurra pra ela:

— Não deveria se meter, sua corrupta do caralho!

Ele pega a faca e mergulha várias vezes contra o pescoço da mulher, o sangue jorra por todos os lados e suja a sua máscara de lobo. Ao ver que a mulher já está completamente sem vida, ele tira sua máscara e finalmente podemos ver o seu rosto.

Ele é Igor Ventura, 1,70, cabelo acizentado, barba por fazer, tem uma tatuagem no braço esquerdo, algumas pequenas tatuagens nas mãos, usa anéis exóticos e um brinco em formato de cruz na orelha esquerda.

Ele tira todo o traje que está usando naquela ocasião e observa a carnificina que ele mesmo fez.

— Ai que droga! Odeio me sujar com o sangue desses porcos!

Enquanto isso, Janete está tentando sair de casa e não consegue, todas as portas foram trancadas.

— Por favor, alguém me ajuda! Socorro! Alguém!

Enquanto clama por ajuda na porta de vidro, Igor a pega pelo pescoço arrastando-a pra trás.

— Shh, shh, ninguém pode te salvar, querida.

— Por favor, deixa a gente em paz! O que nós fizemos?

— “O que nós fizemos”? Pergunta pro filho da puta do teu pai e pra vadia da tua mãe. Ah é, eles não podem te responder agora, pois estão bem mortinhos.

— (Em desespero) Não, meu Deus!

— Gosto desse teu cheiro, esse cheiro de uma jovem virgem, é tão excitante matar jovens virgens. (Fala lambendo as orelhas da garota)

— Eu não fiz nada! Me deixa ir embora, por favor!

— Você é tão corrupta como os teus pais! Pensa que eu não sei que você adulterou o resultado da bolsa da faculdade da tua amiga pra que ela não conseguisse passar?

— O quê? Eu não…

— É, mocinha. Eu sei de tudo e não adianta me enganar. Agora você vai se juntar aos seus pais lá no inferno, adoraria transar com você antes de te matar, mas felizmente pra você, eu não sou um estuprador… Então, diga adeus, meu anjinho!

Igor enfia faca no estômago de Janete.

— Ahhhhh!!

— Shh, shh, calma, tá tudo bem, tá tudo bem.

Ele volta a enfiar a faca novamente.

— Não vou estragar seu rostinho como fiz com os outros, você terá uma morte pura.

Ele dá outra facada nela, esta começa a agonizar aos poucos. Ele beija a sua boca e de maneira doentia começa a lamber o sangue que escorre dela.

— Que delícia! O sangue das virgens são sempre os mais saborosos!

Janete não consegue mais ter nenhuma reação, ela lentamente fecha os olhos e morre.

Igor se levanta, observa a garota morta, em seguida ele vai até o telefone e disca pra alguém.

— Oi, é da polícia? Eu sinto muito pelo ocorrido, a minha esposa estava discutindo com o cunhado e qualquer coisinha ela já fica paranoica querendo chamar a polícia, mas tá tudo resolvido, não precisam mandar ninguém pra casa próxima da administração regional. Eu sinto muito por fazer vocês perderem o tempo de vocês… Até logo e feliz natal antecipado!

Igor desliga o telefone, ele vai até um canto da sala onde tem um bar, ele pega uma garrafa, liga o rádio e diz:

— Bom, agora sim vou poder fazer minha moldura.

Nesse meio tempo, Igor reuniu todas as pessoas que ele matou dentro daquela casa até a sala. Ele pega umas cordas, um machado e vários outros acessórios, não se sabe necessariamente o que ele vai fazer com isso.

Mas ele está sempre com uma taça de vinho toda vez que pega alguma coisa, ou muda algo do lugar.

Mais tarde, ele pega galões de gasolina e joga por toda a sala, a árvore de natal está um pouco mais atrás.

O trabalho durou horas, mas depois que aparentemente terminou, ele pega uma poltrona e coloca na frente da sala. Ele se senta, pega uma taça de vinho e de maneira elegante observa o que acabara de fazer. Ele pega um isqueiro, acende um cigarro, dá uma tragada de leve, seu olhar pleno, sexy, sem demonstrar nenhum tipo de emoção… Ele acende o isqueiro novamente e joga no meio da sala e o fogo começa a se espalhar.

Quando o fogo está subindo, vemos uma imagem macabra talvez nunca antes vista ou feita por alguém, o corpo de Janete está amarrado no meio da sala no alto, e partes de braços e pernas de outras pessoas estão costuradas no dela. De longe, dá-se a ilusão de que são asas de anjo, e ela está bem na frente da árvore de Natal. Um verdadeiro cenário de caos, um verdadeiro crime com requintes de crueldade…

Igor pega uma carta de baralho, olha para a sua “arte” e diz:

— Mais um trabalho bem feito… Não é a toa que eu sou o Rei de Copas.

 

 

          ATO 1

 

Em todos os noticiários locais e também nacionais, repórteres e jornalistas estão anunciando os crimes feitos por Igor Ventura.

— Igor Ventura, o psicopata conhecido como “Rei de Copas” fez novas vítimas…

— As vítimas dessa vez foi a família do secretário da administração regional no Lago Norte…

— Esse já é o quinto caso em menos de 3 meses…

— O Modus Operandi do assassino é sempre deixar uma carta de baralho como símbolo de seu crime após matar as vítimas…

— Igor Ventura é procurado por toda a polícia do Distrito Federal e nunca se sabe onde ele está localizado…

— A PM do Distrito Federal disse que esse é o caso mais difícil desde o maníaco Lázaro que assassinou uma família inteira na cidade da Ceilândia e acabou sendo pego em Águas Lindas de Goiás após uma operação de 20 dias…

— O Rei de copas, assim está sendo conhecido esse criminoso que atende pelo nome Igor Ventura…

— Voltaremos com mais informações em breve e esperamos descobrir o paradeiro do criminoso…

 

Lago Norte, Brasília-DF, 19 de Dezembro de 2021.

 

A perícia juntamente com alguns policiais se encontram na casa onde ocorreu o crime na noite passada. Entre eles está o detetive Diego (1,75 de altura, físico delgado, cabelo ondulado, olhos claros). Ele está olhando toda a bagunça que o assassino deixou. Um de seus colegas vai até ele entregando-lhe uma carta de baralho.

— Chefe! Encontramos isso aqui.

Diego pega a carta e fica enfurecido se segurando pra não esmagá-la. Neste momento, sua outra colega Salete (loira, usa o cabelo preso pra trás, pele clara) chega até ele.

— Pelo visto ele fez de novo, não é?

— Quem esse maldito pensa que é? Ele está brincando com a polícia, fazendo de todos nós gato e sapato.

— E olha que pensávamos que o Lázaro fosse dar trabalho pra a gente, hein? Veja só a situação que estamos.

— Mas o pior de tudo é que o Lázaro era “bicho do mato”, vivia fugindo pela mata e era extremamente escorregadio, esse aqui não. Ele gosta de deixar evidente o que faz, não tem medo de ser pêgo, parece que gosta de exibir seus triunfos.

— E sabe o que mais me intriga, Diego? Ele só mata pessoas que tem uma certa relevância ou… Cargo de muito prestígio. Ainda não vi nenhum caso dele matar uma dona de casa de classe média, por exemplo.

— Sim, isso também me deixa…

Alguém da perícia interrompe.

— … Senhores! Vão gostar de ver isso.

— O que aconteceu?

— Nós tivemos acesso ao notebook do secretário. Encontramos depósitos feitos na conta bancária dele e adivinha? Ele e a mulher extraviavam o dinheiro recebido da administração regional para as suas contas pessoais.

— Puta que o pariu!

— É, e tem mais! A filha deles, Janete, ela falsificou uma carta de admissão de uma amiga pra que ela não conseguisse a bolsa pra faculdade. Tudo isso foi deixado mastigado aqui no notebook, até parece que queriam que a gente encontrasse.

Salete argumenta:

— Com certeza queria que a gente encontrasse.

— Aquele filho da puta… Isso não vai ficar assim… A gente vai dar um jeito de pegar esse desgraçado.

Apartamento na Asa Norte, DF.

Uma mão masculina destranca a porta, gira a maçaneta e em seguida entra, essa mão pertence a Igor Ventura que está chegando de algum lugar com uma garrafa de champanhe na mão.

(VOZ OFF) Meu nome é Igor Ventura, tenho 32 anos, mas todos me chamam de Rei de Copas, na verdade esse é o meu pseudônimo, meu “alias”, meu codinome como você preferir (Ele deixa suas coisas na poltrona, e tira o casaco). As pessoas dizem que eu sou ruim, que sou um criminoso… Fala sério, cara! Eu apenas sei muito bem tirar as pedras que atravessam o meu caminho (Abre a garrafa de champanhe, coloca o pé na poltrona). Para que fique de entendimento a vocês, não mato inocentes! Afinal de contas eu também já fui inocente, foi esse mundo cruel que me corrompeu (Vira alguns goles, em seguida abre todos os botões de sua camisa). Aquele garoto ingênuo que todo mundo zoava virou o que ele mais temia (Pega uma outra garrafa, tira a tampa e começa a despejar sob sua cabeça e o seu peito). Eu sou um monstro? Depende muito do ponto de vista, depende muito do que eu descobrir sobre você (Ele dança lentamente pelo apartamento com a garrafa na mão, começa a passar a mão nas suas partes íntimas, fecha os olhos e enquanto isso, com a outra mão, derrama mais champanhe em seu corpo). Eu sou fogo, sou paixão, sou intenso, sou seu sonho e seu pior pesadelo, você receberá de mim, a versão que você merecer.

Igor vai para o banheiro, deixa encher a banheira, em seguida pega alguns sais de banho, ele espera até que a banheira fique cheia e com bastante espuma. Em seguida ele tira toda a sua roupa ficando completamente nu. Igor não tem uma beleza extrema, aparentemente é um homem normal, não tem um físico atlético. Mas apesar de magro, tem coxas torneadas e nádegas invejáveis, suas tatuagens dão a ele um tom mais sensual, seu olhar penetrante e sua elegância é o suficiente pra colocar qualquer pessoa em suas mãos.

Ele entra na banheira, fica um tempo sentindo cada parte de seu corpo dentro de toda aquela espuma, em seguida pega um cigarro e um isqueiro na mesinha ao lado. Acende o cigarro, dá uma tragada, se recosta na banheira e fica olhando para o teto por alguns segundos, sem pressa, com o olhar sereno, sexy e sem sentir nenhum remorso do que já fez.

— Igor, Igor… Você é foda!

 

Águas claras, Brasília-DF, 19 de Dezembro de 2021.

Diego chega a sua casa após mais um dia estressante de trabalho. Sua esposa se aproxima para cumprimenta-lo. Seu nome é Jéssica (morena clara, 1,60, cabelo liso).

— Oi, meu amor! Eu estou tão preocupada com você (Diz isso beijando-o). Por que não entrega esse caso do rei de copas pra outra pessoa?

— Meu amor, não é tão simples quanto parece. Não posso simplesmente largar esse caso.

— Diego, eu estou com medo, e se esse criminoso vier atrás de você? Atrás de mim?

— Não, ele não vai se atrever a vir atrás da gente.

— E como você sabe? Quem te garante?

— Não posso garantir nada, amor, mas… Ele não mata pessoas de forma aleatória, todas elas escondem algo perante a lei.

— Pensei que era só coincidência.

— Não, não. Depois desse crime de ontem, tá mais do que claro que esse Igor Ventura é um “justiceiro do mal”. Mas não quero falar sobre isso agora, preciso ir lá pra cima tomar um banho e depois nos falamos mais.

Diego é um dos investigadores mais requisitados do Distrito Federal, ele esteve na operação do maníaco Lázaro há alguns meses e sempre foi muito respeitado por toda as repartições da polícia militar, civil e federal. Mas o caso “Rei de Copas” têm tirado o seu sono, ele realmente está sentindo que esse criminoso está aquém das suas possibilidades.

Alguns minutos depois, Diego termina de tomar banho, ele se enrola na toalha e em seguida vai para o espelho da pia, ele fica por alguns segundos ininterruptos se olhando e depois resmunga consigo mesmo.

— Esse desgraçado não pode me vencer… Ele não vai me vencer!

Dias depois…

É quase véspera de Natal e em um bar ali na Asa Sul, vemos Flávio, um rapaz de aparentemente 24 anos, corpo atlético, atraente, usa brincos e um piercing no nariz. Ele está conversando com algumas pessoas enquanto tomam cerveja.

— O quê? A Vivi? Já “torei” ela.

— Caralho, sério?

— Oxe, o pai aqui é brabo, não deixo uma cocotinha passar.

Enquanto conversam aos risos, um jovem passa por eles e sem querer tropeça no tênis de Flávio. O jovem é magrelo, amarelado e usa um gloss nos lábios, aparentemente afeminado.

— Aí, seu otário! Olha pra onde anda, caralho!

— Me, me, me desculpa… Foi sem querer.

— “Me desculpa, foi sem querer” (Repetindo com desdém). Olha só pra cara desse otário, galera. E o que é isso? Brilhinho na boca?

Um dos amigos ri e fala:

— Aí, mano! Acho que a frutinha aí tropeçou no teu pé de propósito porque gostou de você.

— Não, não é nada disso.

— Ah, é? Quer me chupar também, seu viadinho? Quer?

— Não, eu não fiz nada, por favor…

— Escuta aqui, seu baitolinha… Fica longe de lugares como esse, você não é bem vindo aqui, se quiser dar seu rabo magrelo, pode dar, mas fica longe da nossa comunidade… Baitola!

Ele dá um tapa na cabeça do garoto e ele sai dali completamente envergonhado, os outros rapazes ficam rindo e meio que aplaudindo a atitude de Flávio.

— Acho que o moleque realmente tava querendo te chupar, Flávio.

— Viadinho filho da puta, tu viu o jeitinho dele? “Ain, eu não fiz nada”, ah vai se fuder!

Enquanto conversam, eles não percebem que alguém está em uma mesa há uma certa distância deles os observando.

Cerca de meia hora depois, Flávio se levanta e decide ir para o banheiro. A pessoa em questão o segue sem que ele perceba.

Flávio chega ao banheiro e vai para o mictório. Ele boceja, balança o pescoço para o lado e para o outro enquanto urina.

Quando termina de urinar, ele levanta o zíper da calça e em seguida recebe um golpe na cabeça e cai desmaiado.

Apartamento no Cruzeiro, Brasília-DF, 23 de Dezembro de 2021.

 

Flávio se encontra amarrado em uma cadeira, ele começa a despertar pouco a pouco. Com a visão ainda um pouco turva, vê a silhueta de um homem na porta. Aos poucos sua visão deixa de ficar embaralhada e vemos que a pessoa em questão é Igor.

— Olha só quem acordou! Teve bons sonhos?

— Quem é você? Onde é que eu tô?

— Calma, estamos no teu apartamento, não reconhece nem o próprio lugar onde mora?

— Mas como eu vim parar aqui? E por que você tá aqui? Por que eu tô amarrado?

— (Andando pelo quarto) Olha, geralmente eu preciso usar uma máscara antes de me divertir com as pessoas, mas pra você eu nem fiz questão, só pra você ter ideia do quanto tu és insignificante pra mim e também pra toda a sociedade.

— De que porra você tá falando? Me solta, seu filho da puta! Você não me conhece, não sabe do que eu sou…

— … Sim, eu te conheço muito bem!… Flávio Garcia Mourão. Filho de empresário, teve a faculdade paga pelo papaizinho… Tem 24 anos, nunca trabalhou na vida, sempre teve tudo do bom e do melhor. É pegador, se orgulha de sua virilidade… O tipo hétero top pra não botar defeitos… Ha! A não ser por uma coisa… Banca o machão, mas não passa de um escroto que abusa de garotinhos mais novos.

— Cala a boca! Cala a boca! Você não sabe nada de mim!

— Oh Flavinho! Eu sei de tudo, querido. Sei que no sigilo, você adora “enrabar” garotinhos indefesos e roubar a grana deles, que feio! Você realmente precisa disso? Sabe o que é mais hilário? É que você faz isso e depois posta foto nas redes sociais com uma garrafa de cerveja na mão e com uma loira gostosa do lado.

— Seu… Seu…

— Ah e tem mais! Além de homofóbico, não suporta gente pobre. Posso citar milhares de vezes que você desdenhou de algumas pessoas por estar andando com o tênis sujo ou até mesmo uma pessoa negra… Caralho, Flávio! Homofóbico e ainda racista, porra! Tua ficha tá “limpa”, cara!

— Vai se fuder!

Ele fica mais próximo de Flávio.

— Tá vendo? É disso que eu tô falando! Essa boca porca, essa tua pose de macho que não convence ninguém… Você é a classe de pessoa mais desprezível que pode existir nesse mundo, e vejam só! Eu é que sou o criminoso! Cara, que lei desgraçada é essa que esse país faz? Um homofóbico, racista, opressor, ladrão, estuprador… Ops, essa foi sem querer.

— Do que você tá falando? Do que…

— … Uma garota de 15 anos, Flavinho? Posso incluir pedófilo na tua ficha também?

— Me deixa em paz! O meu pai vai vim e vai acabar com a tua raça, seu arrombado filho da puta! Eu vou te matar!

— Sabe o que é mais engraçado? É que otários como você de família conservadora fazem o que fazem e depois têm a audácia de postar fotos pós- missa aos Domingos… Ah me poupe, Flavinho… E não se preocupe, seus pais apesar de serem muito idiotas e ricos, eles não são como você, nunca encontrei nada na ficha deles que valesse o meu encontro pessoal com cada um, mas você… Ah, você, garoto… Sabe o que você merecia? Ser enrabado de uma maneira bem gostosa pra você aprender a nunca mais zombar de um gay no bar… O quê? Acha que eu não vi o que você fez?

— Não se atreva a encostar em mim, senão eu te mato!

— Ah não, por favor! Eu não vou colocar meu pau nesse teu rabo branco e sujo, que nojo! Tenho asco só de olhar pra você… Mas eu te preparei um presentinho.

Ele vai até a porta do quarto e chama por alguém.

— Pode vim, Ricardão!

Entra no quarto, um homem enorme de quase 2 metros de altura, bombado, careca e com barba cheia e pelos por todo o peito.

— Às suas ordens, senhor!

— Acho que a minha conversa com o boy já terminou, ele tá um pouquinho agitado, acho que ele precisa de um ursão pra acalmar os nervos dele.

— Com o Ricardão aqui, eu faço essa onça miar igual uma gatinha.

Flávio na cadeira ouve eles conversando.

— O que é isso? O que tá acontecendo?

— Querido, nos dá um instantinho… Já voltamos aí.

Igor encosta um pouco a porta e conversa com Ricardo.

— Bom, já fiz o teu pagamento por via pix, quando terminar o serviço, pode liberar ele e vai pra casa. Cuidado pra não ser visto.

— Pensei que você ia matar ele depois.

— Não, meu caro, acredite… Isso que você vai fazer com ele, é muito pior do que a morte.

— Se é assim, está fechado.

— Bom, eu preciso ir agora, pois amanhã terei que encontrar com outro mercenário idiota e preciso fazer os preparativos, ah! Não esqueça de me mandar a selfie, tá?

— Pode deixar, chefe!

— Coloque a minha carta em algum lugar do quarto depois que você sair e… Faça que essa noite seja inesquecível pra ele, bebê (Colocando a mão no rosto dele).

— Eu queria era ter uma noite inesquecível com outra pessoa…

— Supera, Ricardão! Faça o teu serviço, pois quem sabe um dia eu possa te recompensar de outro modo? Precisa me agradecer, estou te dando um hétero top de graça.

— Verdade, é muito mais divertido fazer com héteros.

— Sendo assim… Vou indo (Beija os dois dedos e depois coloca os mesmos dedos nos lábios de Ricardo). Ah e usa camisinha, viu? Sabe lá onde ele esfregou essa bunda dele. Bye bye!

Igor se retira dali. Ricardo entra novamente no quarto, Flávio fica olhando pra ele temeroso.

— Não, o que você vai fazer?

— Calma, boneca. A gente vai se divertir muito.

Ricardo desamarra as pernas de Flávio da cadeira e o joga em cima da cama. Ele abaixa as calças dele pra que possa ser visto suas nádegas, em seguida Ricardo tira o cinto da sua calça e se encosta na traseira de Flávio.

— Não, por favor! Me mata! Me mata! Tudo menos isso, por favor! Eu imploro!

— Calminha aí, sua puta! Vamos tirar uma selfie.

Ricardo pega o celular, tampa a boca de Flávio e tira uma selfie comprometedora dos dois. Ele após tirar a selfie, envia para o Whatsapp de Igor que já está no portão do apartamento de Flávio.

— Puta que o pariu! O Ricardo é um gênio! Essa foto ficou melhor do que eu pensei! Agora vamos só mexer uns pauzinhos aqui… Vamos invadir a conta do instagram do Flavinho, agora adicionar nova foto no feed… Que legenda eu ponho?… Hum… Já sei! “Noite ardente com o boy”… Agora coloco algumas hashtags… #pride #OrgulhoGay #Beard #instagay… Acho que tá bom. Agora… Postar! Prontinho! Nossa, e eu tinha esquecido que o Flavinho tem 30 mil seguidores.

Ele coloca o celular no bolso, ouve uma chamada de notificação. Ele tira o celular do bolso novamente e olha o visor.

— Olha só, já temos 5 curtidas no insta dele… Essa foto vai viralizar, Flavinho!

Com o passar dos minutos, na rede social de Flávio, uma sequência de comentários começaram a “brotar” na foto dele.

“Genteeem”  “Tô passadah!”  “Nera hétero?”  “Carai, o Flávio queima man”   “Uai, ele não era o ex da Bibi?”   “Eu sempre soube que essa coca era fanta”  “O berro que eu dei, Flávio é viado! “Sempre desconfiei!”  “Esse aí não é aquele babaca que mora no Cruzeiro?”  “@lulufarias miga olha, esse não era aquele boy escroto que te assediou na faculdade?” @angelabuarque23 scrr é ele mesmo miga, passada!”.

 

Os comentários não paravam de chegar na publicação de Flávio no instagram. Igor sai despreocupado, com o olhar triunfante, vai até o carro e começa a dirigir por Brasília.

(Voz OFF) Viram só? Eu não sou tão ruim assim, eu coloquei um homofóbico escroto em seu devido lugar, gente. Vocês deveriam me agradecer… Agora ele nunca mais vai abusar de garotos ou garotas menores, a reputação dele já era! Ai, como eu amo meu trabalho! Faço um favor pra essa merda de sociedade e ninguém me agradece. Eu mereço!

 

Igor passa pela ponte JK em seu carro (ou um carro roubado qualquer) se aventurando e pronto para o próximo desafio.

 

 

   ATO 2

 

 

Um dia depois…

Apartamento no Cruzeiro, Brasília-DF.

 

Diego e os outros policias se encontram no apartamento de Flávio, ele se encontra em uma cadeira com os olhos fundos e avermelhados e se tremendo todo. Salete chama Diego em um canto.

— Tem certeza que foi ele? Por que não matou o cara?

— Ele foi estuprado, Salete. Aquilo ali é olhar de quem já sofreu abuso.

— Mas não disse que o Igor não é estuprador?

— De fato ele não é, mas usou outra pessoa pra fazer isso. Veja… É a carta dele. A mesma que ele usa em todos os crimes.

Dois policiais estão próximos de Flávio e um deles está terminando de conversar ao telefone.

— Ok, ok. Entendido. (Desligando o celular). Os teus pais já estão a caminho, teve sorte, garoto! Ninguém consegue escapar com vida desse criminoso.

Enquanto Diego e Salete estão conversando, Eduardo, um agente que trabalha na inteligência do departamento de polícia chega até eles.

— Chefe! Temos más notícias!

— O que foi dessa vez?

— Primeiramente (mostrando um tablet) veja essa foto. Isso foi postado ontem à noite. Esse outro cara aqui é o estuprador.

— A foto já tem mais de 100 mil likes. Como que…?

— … É, e veja só alguns comentários.

 

“Esse homofóbico teve o que mereceu”   “Meu filho foi vítima dos abusos desse idiota”  “Estuprador! Mereceu!”

— Espera, essas mensagens condizem?

— O pior que sim, mais uma vez o nosso “Rei de Copas” deixou informações precisas sobre esse cara no e-mail. Ele já abusou de uma garota de 15 anos, aliciava garotos de 17 a 20 anos pra que eles… Bom, você sabe, pagassem um Boq…

— … Me poupe dos detalhes, Eduardo.

— Também já teve casos de racismo e uma vez foi preso por andar em alta velocidade bêbado. Esse cara tem a ficha mais suja do que o próprio Igor Ventura.

Salete que até então só estava atenta à conversa, decide argumentar:

— Pelo visto acho que foi bem pior pra ele ter ficado vivo.

Outro policial chega até eles.

— Pessoal, não vão acreditar no que tá passando no DF TV.

— O que foi?

Todos se reúnem na TV do corredor do apartamento e pessoas estão dando depoimentos sobre o caso de Flávio.

— Esse marginal é um estuprador! Vocês estão atrás desse tal de Igor, mas se não fosse ele, nunca teriam pegado esse cara.

Outras pessoas estão dando depoimentos:

— O rei de copas está limpando a nossa cidade, temos que agradecer a ele por tá colocando esses corruptos na cova.

— Igor não tem que ser preso! E sim esses bandidos de colarinho branco que estão no senado!

No passar da reportagem, vemos em alguns lugares, pessoas fazendo manifestações em defesa de Igor.

— Queremos Igor Ventura pra presidente!

— O Rei de Copas é o herói do povo!

— Fora Bolsonaro! Viva Igor, o rei de copas!

Diego vendo tudo aquilo fica completamente enfurecido.

— Então é isso? Estamos nos matando para manter a população segura e eles estão defendendo esse criminoso?

Flávio ainda sentado na cadeira e se tremendo todo, sente que aquilo tudo ainda vai piorar, então ele se levanta abruptamente da cadeira, corre até a janela. Diego, Salete e os outros o veem indo para aquela direção.

— Ei, o que você vai fazer?

Flávio sequer hesita e pula da janela do apartamento.

— Meu Deus!

Todos se aproximam da janela e observam Flávio no chão e completamente sem vida. A pressão da sociedade que ele iria sofrer nos próximos dias já era muito pior do que sua própria morte.

Motel Free Love, Guará I, Brasília-DF, 24 de Dezembro de 2021, 15h30.

Um homem baixinho, gordo, de cabelo “lambido” e usando um paletó marrom, entra dentro de um quarto de motel juntamente com uma outra mulher, bela, pele bronzeada, cabelo liso… Ela deita na cama e tira sua roupa de cima mostrando um sensual lingerie preto.

— Uhh, precisamos ser rápidos, boneca. Hoje é véspera de natal e preciso ainda comprar o presente pra minha filha quando sair daqui.

— Tudo bem.

O homem abaixa as suas calças, se aproxima da moça e começa a cheirar o cabelo dela.

— Você é tão… Gostosa, essa tua pele morena… Tão… Tão…

Ele começa a bater na bunda dela com força.

— Ow, vai devagar aí, tiozinho.

— Vai me dizer que não gosta de sexo selvagem?

— Eu gosto, mas não assim.

Ele pega no pescoço dela com muita força.

— Escuta aqui, sua puta! Eu te paguei aqui pra eu te comer e você ficar calada, não quero ouvir pitaco de mulher nenhuma.

— Me solta, tá me machucando!

— Você já vai ver o que é machucar, garota.

Ele vira a moça de costas pra cama violentamente, tira a calcinha dela e quando está prestes a colocar seu órgão genital pra fora, ouve umas palmas vindo da porta do quarto.

— Ora, ora, ora…

— O que é isso? Como você entrou nesse quarto?

Igor é quem chega ali sorrateiramente.

— Bom… Eu tenho as chaves, por isso eu entrei.

— Que palhaçada é essa? Sai daqui ou eu chamo a segurança!

— Senhor… Augusto Vidal… Ou melhor… Pastor Augusto Vidal!

— O… O que disse? Como? Como sabe?

— Pastoreia uma congregação no Guará há uns 2 anos e meio, vive pregando sobre o amor, sobre o pecado, sobre a família… Tem uma filha de 8 anos e é casado com uma mulher muito inteligente por sinal, mas não tão inteligente a ponto de perceber que o marido gosta de pegar garotas novinhas no sigilo.

— Seu… Seu miserável, eu vou te matar!

Quando Augusto se aproxima, Igor saca um revólver. A moça fica assustada com o que tá acontecendo.

— Calma, gracinha. Fica lá pro canto, eu não vou te machucar, eu vim te salvar desse crápula.

— O que você quer de mim? Quem é você?

— Não, primeiramente é um insulto a esta altura do campeonato você não saber quem eu sou né, meu amor? Sou Igor Ventura, o famoso “Rei de Copas” e neste momento sou o teu pior pesadelo, querido… Agora respondendo a tua outra pergunta… O que eu quero? Primeiro, eu quero que devolva todo o dinheiro daqueles fieis convictos que estavam dando o dízimo da igreja quando você depositava numa conta poupança com o nome da tua esposa pra ninguém desconfiar. Segundo: Eu sei muito bem que não é só prostitutas que você tem caso não, tenho fontes seguras que você já assediou irmãs da igreja e até muito amigas de sua esposa. Que vergonha, pastor Augusto! Olha, muito vergonhoso mesmo, o que os teus fiéis vão pensar?.

— Nunca vão acreditar! As pessoas da minha igreja confiam em mim, não vão dar ouvidos a você.

— Você tá certo. Não vão acreditar em mim, mas em você sim, então… Você vai falar em um culto tudo o que você fez, vai dizer que precisa dar um testemunho e vai confessar todas as atrocidades que você fez.

— Você tá maluco, moleque? Nunca vou fazer isso! Nunca!

— Bom, então não me deixa outra escolha…

— Não, espera, espera! Por favor não faz isso, hoje é véspera de natal e minha filha espera que eu chegue hoje com um presente pra ela, por favor, não faça isso! Pensa na minha filha!

— Mas é claro que eu penso na tua filha, pastor. Ela vai ter o presente dela, sem dúvidas.

Igor não hesita e atira na testa de Augusto. A moça dá um grito e fica recuada no canto da parede.

— Que nojo desse tipo de pessoa!

Igor olha pra moça que está visivelmente assustada no canto.

— Calma, calma (ele coloca a arma sob a cama), eu não vou te machucar, aquele crápula ia fazer coisas horríveis com você. Tá a salva agora.

— Eu… Eu estava com tanto medo, pensei que ele fosse me matar.

— Não, não, fique tranquila, eu vou te proteger.

A moça se aproxima de Igor e o abraça.

— Você me salvou… Como sabia onde eu estava?

— Ah, querida! Não é do meu feitio mostrar às pessoas os meus truques.

Ela abraçada a Igor, cheira o peito dele.

— Esse teu perfume é… Tão…

— Gostou? Uma fragrância própria pra ocasiões como essas.

— Que sexy! E… Quanto a esse cara?

— Ah, relaxa! Não se preocupa com ele, eu dou um jeito de tirar o corpo imundo dele depois. E se quiser eu te reembolso com o valor que ele iria te pagar.

— Não precisa me pagar nada! Só me diz o que eu posso fazer pra te retribuir o que fez por mim hoje?

— Bom… (Acaricia os cabelos dela) Já estou há um bom tempo procurando por… Uma rainha de copas pra ficar ao meu lado.

— E o que uma rainha de copas faz?

— (Passando a mão nos lábios dela, aproximando o seu rosto no dele) Não sei, nunca cheguei nessa parte… Mas se você quiser… A gente pode descobrir.

Os dois se agarram em um beijo ardente sem medo ou receio do que pode acontecer. A moça para de o beijar, rasga a camisa de Igor e o empurra na cama. Ela sobe em cima dele, passa as mãos em seu peito, ele termina de tirar a camisa e se recosta na cama beijando o pescoço dela e obviamente ela retribuindo cada carícia.

Vemos o corpo de Augusto no chão daquele quarto de motel com uma marca de bala na testa enquanto aquele “casal” mantém relações sexuais.

Horas se passaram, em uma casa familiar onde claramente estão comemorando a chegada do Natal, um entregador aparece e entrega uma encomenda pra alguém, vemos apenas a caixa de presente azul com um laço amarelo passando pela mão da pessoa que pegou o presente e está levando pra dentro da casa. A pessoa que claramente é uma mulher continua andando com o presente até um determinado cômodo da casa e podemos ver que há um pequeno bilhete na caixa escrito “Para a filhinha mais linda do papai”. Enfim o presente ganha um destino naquela casa.

— Ana, meu amor! Olha o que chegou! O presente do teu pai veio pelo correio!

— Presente do papai? Oba! Oba!

— Calma! Não vai esperar o papai chegar pra abrir?

— Não, não, quero ver agora!

A garotinha de apenas 8 anos, entusiasmada, tira o laço, abre a caixa e seu semblante de uma alegria sem igual se transforma em um mix de pavor. Seus olhos ficam gigantes e ela solta um grito desgarrador.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH!!Aaaaaaaaaaaaaaahh!!

As outras pessoas sem entender o que estava acontecendo, vão até a caixa e presenciam a cabeça de Augusto ali dentro. Eles gritam e ficam completamente aterrados com aquela cena macabra.

Igor está muito mais a frente que qualquer pessoa ali, e isso é notório. Passou-se o natal, as notícias sobre “O rei de copas” continuam a circular. Antes temido e procurado pelas pessoas, Igor agora está sendo idolatrado,amado… Pessoas começam a imprimir cartazes com o seu rosto alegando total aprovação a ele.

A polícia se sente recuada, como pode a população está defendendo um bandido descaradamente? Diego está bastante incomodado com toda essa situação.

Dias depois…

Já é Janeiro de 2022, Igor está em seu apartamento e tem dois homens ali com ele. Ele termina de carimbar alguns convites e entrega para os rapazes.

— Bom, faça o possível pra que esses convites sejam entregues e assegurem a vinda de todos eles. Esse baile de máscaras tem que ser inesquecível! Vai ser a noite onde eu vou colocar os pingos nos “I” na porra dessa cidade. Ah! Não se esqueça de convidar nossos amigos policiais também, eles não vão querer perder a oportunidade de virem atrás de mim.

— Ás suas ordens, senhor!

E como foi pedido, o convite para o baile de máscaras foi chegando para várias pessoas em vários cantos do Distrito Federal, pelo visto são pessoas escaladas a dedo pelo próprio Igor. O mais curioso é que ele não é um bandido qualquer, possui recursos e consegue lucrar com tudo o que faz, onde está o segredo de tanto sucesso mesmo sendo um procurado pela polícia? Os convites não param de chegar e até surpreende algumas pessoas.

— Quê? Baile de máscaras? O que esse filho da puta tá pensando? – Esbravejou Diego após receber o convite. Salete e Eduardo tentam acalmá-lo.

— Calma, Diego. Talvez essa seja a oportunidade de pegarmos de vez esse infeliz.

— Ela tem razão, Diego. Senão por que ele iria mandar esse convite?

— E se for uma armadilha? Talvez esse idiota queira pregar uma peça na gente.

— Mesmo se for uma peça, nós iremos preparados. Colocaremos policiais apaisana pra estarem na festa e nós também estaremos lá fingindo que somos convidados normais.

— Diego, o Eduardo tá certo. Com certeza o delegado Marcelo vai aprovar a operação, essa pode ser nossa única chance de pegar ele.

— Droga! Droga! Ok, vamos à essa maldita festa! Mas eu só vou porque quero ter o prazer de prender pessoalmente aquele desgraçado.

Horas depois, Igor está em seu apartamento terminando de conversar com seus comparsas.

— Já foi tudo entregue como combinado?

— Sim, senhor!

— E os policiais? Receberam o convite?

— Sim, senhor! Só não temos certeza se virão.

— Com certeza eles virão… Ah, Fábio! Lembre-se que no dia da festa você terá uma outra missão pra mim, não ouse falhar.

— Deixa comigo, chefe!

— Bom, sábado teremos a maior festa de nossas vidas… Esse baile de máscaras será o renascimento de uns… E a sepultura de outros.

 

 

 

 

                 ATO FINAL

Sábado- 8 de Janeiro, dia do Baile de Máscaras.

 

Diego, Salete e Eduardo estão devidamente trajados para o baile promovido por Igor. O delegado Marcelo dá as ordens.

— Eu sei que no fundo vocês estão achando essa missão até mesmo “ridícula”, mas esse é o único jeito de pegar esse infeliz, finjam o quanto puderem. Nós vamos mandar guardas armados disfarçados. Se as coisas piorarem, chamem reforços!

Todos falam em uníssono:

— Sim, senhor!

 

Casa de Festas, Asa Sul, Brasília-DF.

 

Chegou a grande noite da festa, os convidados estão aos poucos chegando ao local, todos eles muito bem vestidos usando suas máscaras exóticas. Em um local do salão, há mulheres seminuas fazendo danças sensuais com máscaras, a festa de luxo também é um mar de drogas, bebidas e tudo o que o “diabo gosta”.

Diego, Salete e Eduardo chegam à recepção, eles entregam os seus convites e entram no salão. Salete argumenta:

— Pra um criminoso, até que ele tem bom gosto pra ornamentação, hein?

— Deixa de ser tola, Salete! Esse lugar é praticamente um prostíbulo!

— Desculpa, é apenas a minha humilde opinião.

Lá dentro há um palco com uma passarela típica de desfiles, um homem aparece ali pegando um microfone pra dar um recado a todos.

— Senhoras e senhores, sejam bem vindos à essa noite especial! Espero que estejam desfrutando de todo o conforto e melhor atendimento possível aqui. Mas antes de darmos continuidade a esta festa, quero que aplaudam o nosso anfitrião e responsável pela realização desse evento.

Todos começam a aplaudir, Igor aparece muito bem vestido e com uma máscara de ferro prateada, ele vai até a ponta do palco, pega o microfone pra si e espera até que todos façam silêncio. Diego está lá atrás observando juntamente com os outros.

— Boa noite, miladies! Boa noite, milordes! Não vou tomar o tempo de vocês, só vim avisar que… O proibido não existe nesta festa, estão liberados pra fazer o que bem entender. Esta noite, sintam-se à vontade para cair nas tentações e sejam quem vocês quiserem ser… Aproveitem a festa!

Todos o aplaudem eufóricos, Igor sai de retirada ainda ovacionado pelo público que segue os festejos brindando. Diego decide ir atrás dele.

— Eu vou procurá-lo.

— Espera, Diego! Não vá sozinho!

— Se formos juntos, Salete. Vamos levantar suspeitas.

— Então deixa pelo menos o Eduardo ir com você, ele pode tá armado.

— Mas e você?

— Eu? Eu vou “aproveitar a festa”. Ah brincadeira, vou tentar descobrir algo, vão depressa!

 

Diego e Eduardo entram no meio da multidão pra ir atrás de Igor. Salete vai até um bartender.

— Oi, me vê uma caipirinha, por favor!

— É pra já, moça!

 

Águas Claras, Brasília-DF, 20h30.

 

Jéssica, a esposa de Diego chega à sua casa após um dia de trabalho e com algumas sacolas de compras nas mãos. Ela deixa as sacolas em cima da mesa e depois vai até a geladeira. Ela abre a porta, pega uma jarra de suco de laranja de lá de dentro e coloca na pia. Ela pega um copo, coloca o suco no mesmo e enquanto mata a sua sede, um ruído é ouvido no corredor da casa perto das escadas.

Jéssica para de beber o seu suco e fica em silêncio por alguns segundos até que ela decide chamar pelo marido.

— Diego? É você?

Nenhuma resposta ela obteve, então ela ignora qualquer coisa e volta a colocar o suco dentro da geladeira. Em seguida, ela começa a tirar as coisas que comprou das sacolas separando-as em cima da mesa. Enquanto faz isso, ela ouve um barulho de miado.

— Ai, Fadinha! É você? Espera um pouco, eu vou levar a ração pra você.

Jéssica abre o armário da cozinha e pega um pacote de ração, ela pega a vasilha da gata que fica próxima à pia e coloca a ração dentro e vaga pela casa procurando a gata.

— Fadinha, pss pss pss, cadê você, meu amor?

Ela ouve no andar de cima um barulho ainda mais forte e escuta a gata miando como se estivesse com muita raiva ou vendo algo que não se agradou.

— Fadinha?

Ela sobe as escadas ainda com a vasilha de ração nas mãos e chega ao corredor dos quartos.

— Fadinha? Cadê você?

Ela vê a porta de um dos quartos semiaberta. Jéssica se aproxima, começa a abrir a porta vagarosamente.

— Fadinha?

A gata aparece de vez pulando em cima dela arranhando o seu braço fazendo com que Jéssica derrube a ração no chão, e em seguida sai do quarto disparada e vai pelo corredor.

— Ahh! O que deu em você?

Jéssica com um arranhão no braço e de costas no corredor, não percebe que alguém está se aproximando dela vagarosamente sem que possa ser ouvido os seus passos.

Ela fica um tempo observando os seus arranhões e sente como se algo a estivesse observando. Ela começa a olhar vagarosamente pra trás e vê um homem de capuz usando uma roupa preta e uma máscara de lobo prateada.

— Aaaaahh!!

O homem tenta acertá-la com uma espécie de punhal e Jéssica desvia dele, ela cai no corredor, se rasteja indo pra trás, mas de frente pra ele.

— Quem é você? O que você quer de mim?

O homem a segura pelas suas pernas, ela fica de bruços no chão, começa a se debater e no embate acerta um chute na cara do homem. Jéssica se levanta, tenta correr pra alcançar a escada, mas o homem se recupera rápido, a alcança, puxa os seus cabelos e a arremessa contra a parede do corredor.

Ele a pega pelo pescoço, faz com que ela fique de pé contra a parede, a respiração dela começa a ficar fraca, quando estava prestes a perder as forças, Jéssica chuta as partes íntimas do criminoso e dá uma cabeçada nele. Ela tenta se recuperar, pega impulso pra escapar, chega até as escadas, começa a descer os degraus desesperada.

— Socorro! Socorro! Diego!

Ela vai até a porta, tenta abri-la, mas chaves não se encontram mais ali.

— DROGA! DROGA! ABRE!

No topo da escada, o assassino aparece zombando de Jéssica balançando a chave de sua casa.

— Como que…? Quem é você? O que quer de mim?

Enfim podemos ouvir a voz do assassino:

— Você será a peça mais importante desse baralho.

Cerca de meia-hora se passou, Eduardo entra em quarto procurando por Igor na casa de eventos, ele vasculha aquele quarto e quando está prestes a sair, recebe um golpe na cabeça e cai desmaiado.

Minutos depois, vemos Diego entrando em uma sala espaçosa no subsolo daquele prédio. Ele está andando pela sala verificando o local, ele puxa a arma e a segura firme.

Enquanto faz isso, Igor aparece vindo pela outra porta.

— Ora, ora, ora… E não é que o nosso policial herói veio aqui?

— Parado aí mesmo, Igor! Você está preso pelas dezenas de homicídios que cometeu nos últimos meses.

— Ah, blá, blá, blá, blá… Sabe o que eu odeio em vocês policiais? Que vocês só enxergam aquilo que seus olhos querem ver, não enxergam que há muito mais podridão nesse mundo do que um assaltantezinho de esquina. Vocês vivem barrando o trabalho honesto dos camelôs na rodoviária, tratam os mendigos como aberrações… E acham que pessoas como eu que são os monstros? Eu vou te dizer uma coisa, detetive! E é bom que fique bem claro isso: Você tem muita sorte de não ser como os policias corruptos que eu conheço, mas tem uma coisa que eu odeio em você.

— Ah é? E o que é?

— Esse maldito dom de omitir aquilo que está debaixo do teu nariz.

Igor pega seu celular e mostra na tela um vídeo. Neste vídeo, está Jéssica amarrada em uma cadeira pedindo socorro.

— Por favor! Me deixa em paz! DIEGO!!

— Je… Jéssica, o que você fez, seu filho da puta?

— Esse é o preço que se paga quando você não faz o seu trabalho de policial direito.

— Minha esposa não tem nada a ver com isso! Solta ela, seu desgraçado!

Diego fica furioso, está disposto a atirar em Igor.

— Isso! É assim, é assim que eu quero… Essa é a reação que eu queria que você tivesse.

— Eu vou matar você… EU VOU MATAR VOCÊ!

— Não, não vai não. Sabe por quê? Porque agora a tua esposa está nas minhas mãos, coleguinha. Um telefonema que eu fizer, e ela morre.

— Seu, seu imundo! A Jéssica é inocente! Ela é inocente, ela não…

— … Eu também já fui inocente um dia, caralho! Mas essa vida… Essa sociedade de porcos mercenários… Me corrompeu. E agora eu sou o que sou (Ele tira a arma da cintura). Agora… Abaixa a sua arma.

— Não!

— Não me faça pedir de novo. Ou abaixa essa arma, ou eu mato a tua esposa. Espera, acha mesmo que eu não sou capaz? Um momento… (Ele disca um número no celular) Oi, Fábio? Sobre a vaca que tá com você… Pode se livrar de…

— … Não! Não, por favor! Por favor, a Jéssica não, a Jéssica não!

— LARGA A PORRA DESSA ARMA… AGORA!

Diego não vê outra saída, coloca a sua arma no chão lentamente.

— Chuta ela pra longe!

Ele chuta a arma a uma distância que ele não possa alcançar.

— Agora sim… Somos só eu e você. Finalmente teremos a chance de ter o nosso acerto de contas, detetive Diego. Ou melhor dizendo… Priminho.

A vida tem maneiras cruéis de nos castigar, seja por um acidente, uma fatalidade, uma morte familiar, ou na pior das hipóteses… Ter o mesmo sangue de seu pior inimigo. Diego não tem mais saída, terá que enfrentar o verdadeiro demônio, terá que enfrentar… O rei de copas.

Enquanto isso, na festa, Salete continua ali na mesa de bar e percebe que seus companheiros estão demorando demais.

— Estranho, o Diego e o Eduardo já deveriam ter voltado, será que eles acharam o Igor? E agora? Se eu der muito alarde, vão perceber.

O Barman chega até ela.

— Precisa de mais alguma coisa, senhorita?

— Ah! Que tal mais uma caipirinha no capricho?

— É pra já!

No subsolo daquele local, continua a incessante conversa entre Igor e Diego.

— Nunca mais diga isso… Nunca mais diga que eu…

— … Que você é meu primo? Do mesmo sangue que eu? Que ironia do destino não é, Diego? Você sempre querendo bancar o homem durão da lei e é parente do homem mais procurado do DF. Como vai reagir a isso agora?

— Eu não tenho culpa do que você se tornou.

— Não! Mas poderia ter evitado, poderia ter evitado muita coisa.

Um dos capangas chega no local e está trazendo Jéssica consigo.

— Aí, chefe! Fiz o que você me mandou.

— Bom trabalho, Fábio! Embora não tenha precisado machucar ela.

— Jéssica, amor, você tá bem? Mas e aquele vídeo?

— Claro que aquele vídeo foi gravado antes né, seu idiota? Fábio, pode soltar a vadiazinha e deixa ela junto com o seu querido marido, temos um acerto de contas em família pra tratar.

— Certo, chefe.

Fábio desamarra as mãos de Jéssica e a empurra pro lado de Diego.

— Família? Do que ele tá falando, Diego?

Enquanto isso, Fábio se retira do local e Igor prossegue.

— Vamos, detetive! Fala pra ela a verdade! Vamos ver se é tão macho assim.

— Diego, o que esse homem tá falando? Me diga!

— Meu amor, eu…

— FALA A VERDADE, CARALHO! Vai mentir pra tua esposa também? Aliás, você já esconde isso dela há tantos anos, né?

— Esconder o quê? Diego, o que ele tá querendo dizer com tudo isso?

— Jéssica, eu… O Igor Ventura é meu primo. Somos parentes, a mãe dele é irmã da minha mãe.

Jéssica sorri nervosa, incrédula e até mesmo sarcástica.

— Quê? Não, isso… Vocês estão pregando uma peça comigo, não é?

— Pode apostar que não, priminha. Pelo visto o teu marido esconde muitas coisas de você.

— Eu nunca menti pra Jéssica! Ocultei isso unicamente por vergonha, por saber que na nossa família existe uma pessoa como você.

— Isso! Era isso que eu queria ouvir! Finalmente mostrou esses dentes, agora sim podemos conversar abertamente aqui.

— Você tinha tudo do bom e do melhor, Igor. Por que escolheu essa vida?

— “Por que eu escolhi essa vida?” Ha! Diego, eu achava que você era mais inteligente, mas percebi que é mais burro do que esses policiais de quinta. Sabe o que é fazer parte da porra dessa família? Sabe o que é você saber que a família do teu primo sempre foi muito bem estruturada com muito amor e carinho, enquanto a minha? A MINHA! Eu nunca tive nada! NADA! Eu não culpo os meus tios por isso, mas até o papai e a mamãe sempre diziam: “Diego é o menino prodígio, Diego vai ser um grande homem de bem, Diego, Diego, Diego e “fucking” Diego!” E eu, priminho? Onde eu ficava no meio de tudo isso?

— Meu pai se ofereceu pra te ajudar a cursar a faculdade comigo quando terminasse o ensino médio, mas aí você…

— … Aí eu comecei a apanhar dos idiotas da escola e você via tudo e nunca fazia nada, né? Puta que o pariu, Diego! Você se tornou um homem da lei por remorso, porque não pode salvar alguém de sua própria família.

— Já chega, Igor! Você fez a tua escolha, você quis entrar no crime, você…

— … CALA A BOCA QUE EU NÃO TERMINEI, CARALHO!

Jéssica nervosa e com lágrimas nos olhos diz:

— Por favor, Igor! Sei que você tá magoado com o Diego, mas me diga o que podemos fazer para que…

— … FICA CALADA, JÉSSICA! Sempre vocês que falam, mas na minha jaula, eu sou a fera. Sabe o que você pode fazer por mim, Diego? Devolver tudo o que é meu, tudo o que você tirou de mim, tudo o que essa maldita família me arrancou.

— Ninguém nunca arrancou nada de você, você mesmo cavou a sua própria cova, se queria dinheiro, a gente poderia ter te ajudado.

— Não se trata de dinheiro, caramba! Nunca foi o dinheiro, mas foi através dele que eu consegui chegar até aqui, perdi as contas de quantas pessoas eu tive que dormir pra conseguir uma estabilidade depois que meus queridos papais me expulsaram de casa. Você sempre viu tudo! Você sempre viu como as pessoas me tratavam e nunca fez nada! Eu queria que as pessoas me amassem, eu queria ter metade do carinho que outros garotos da minha idade na época tinham.

Jéssica exclama:

— Você ainda pode ter isso, Igor! Você pode recomeçar do zero e deixar o passado pra trás. Eu tenho certeza que… Que o Diego vai te ajudar nisso, vocês podem voltar a ser uma família de novo, eu…

— … Tarde demais, prima! Não há mais como mudar o que eu sou, hoje eu sou um homem cheio de ódio, e quero que saiba que é por causa desse maldito laço que eu nunca fiz alguma coisa pior com o teu marido. Prometi a mim mesmo que não iria matar pessoas inocentes, mas eu iria limpar essa maldita cidade e veja agora, Diego! AS PESSOAS ME AMAM! ME ADORAM! É ISSO QUE EU QUERO! QUE ME ADOREM! QUE ME IDOLATREM! E VOCÊ, DIEGO! VOCÊ VAI SE AJOELHAR AOS MEUS PÉS!

— Nem fudendo!

— Ah é? Quem você quer que eu comece matando daquele teu departamento? Ou posso começar pela tua esposa?

— NÃO!

— O que vai ser?

— Vamos resolver isso como dois homens adultos… Larga a sua arma e assim podemos conversar de mãos limpas. Eu estou desarmado como você mesmo viu, eu cumpri minha parte, agora faça a tua parte também.

— Ora, ora, ora… Vemos que sabes negociar, pois muito bem! Olha…

Igor joga a arma para longe.

— Sei que é irônico eu dizer isso, mas não tenho nenhuma outra carta na manga. Mas e aí, o que vai ser?

— Vamos lutar… Se você cair, te levo preso comigo e ninguém mais vai se machucar. Se eu cair… Pode ficar com tudo o que é meu, com a condição de deixar a Jéssica de fora disso.

— Diego, não acho que isso…

— … Amor, por favor!

— Fechado! Acho que é uma proposta justa. Vamos ver o que sabe fazer, priminho.

Os dois ficam se entreolhando, Diego faz sinal pra Jéssica se afastar. Os dois ficam em posição de luta, Igor faz expressões de desdém.

— Olha só o grande detetive mais requisitado de Brasília!

— Cala a boca! Uma coisa eu sei de você… Você nunca foi bom de briga.

— Sério? Vai ter que me engolir, priminho, porque agora eu estou…

De repente Eduardo aparece cambaleando naquela sala, anuncia a rendição e dá um tiro. O disparo não consegue acertar em Igor e ele sai correndo pela outra saída.

— Volta aqui, seu filho da puta!… Eduardo, cuida da Jéssica, avise à Salete e tire-a daqui.

— Beleza, chefe!

— Diego, volta aqui! Diego!

Diego não ouviu a súplica de sua esposa e sai correndo atrás de Igor. Este último chega até um elevador, o chama, ele vem em questão de uns 30 segundos. Antes da porta fechar, Diego vêm correndo com toda a fúria e se joga pra dentro do elevador. A porta se fecha e Diego agarra Igor pela cintura e começa a golpeá-lo.

Da mesma forma, Igor começa a despejar socos e mais socos em Diego, o elevador começa a subir e aqueles dois homens se golpeiam violentamente ali dentro.

No salão principal, Eduardo chega com Jéssica até onde Salete está.

— Eduardo, o que aconteceu? Cadê o Diego?

— Acho que a festa acabou, Salete.

Eduardo dispara pro alto e uma gritaria começa, as pessoas correm para um lado e para o outro e aos poucos vão saindo daquele local.

— Eduardo, o que tá acontecendo?

— Diego foi atrás do Igor, um dos capangas dele parece ter…

De repente, Fábio aparece no final do salão com uma arma na mão.

— Merda, se abaixa!

Fábio dispara contra eles três, eles se abaixam atrás do balcão do barman. Salete saca a sua arma e quando Fábio está prestes a se aproximar, ela se levanta e dá um tiro em sua testa.

Jéssica fica apavorada, mas Salete tenta acalmá-la.

— Não tenha medo! Nada vai acontecer com você!

No elevador, continua a incessante luta entre os dois primos. Eles se atracam e de repente Igor dá uma cabeçada na testa de Diego fazendo com que ele se afaste e fique encostado na parede do elevador. Igor começa a socar o seu estômago e Diego reage e dá um soco em seu nariz.

Igor cai, Diego tenta neutralizá-lo com um “mata-leão”, Igor fica sufocado por alguns segundos, vê que o elevador está chegando no local onde ele havia chamado (nesse caso, o terraço),ele cerra o punho e com um de seus anéis, acerta o olho de Diego.

— AAAAAhHhh!!

Igor empurra Diego pra trás, a porta do elevador se abre e ele sai correndo de lá.

Diego com agonia no olho, pega um walkie talkie e faz um chamado.

— Eduardo! Chame reforços e mande alguém pro terraço, vamos cercar esse filho da puta!

Igor começa a subir as escadas restantes (onde o elevador não chega mais) para chegar até o terraço daquele prédio. Ele abre a porta, corre um pouco e vai até a ponta daquele lugar. Ele olha pra baixo, vê que está bem alto, sua expressão fica visivelmente notória que se sente encurralado. Ele ouve a voz de Diego.

— Você não tem pra onde ir, Igor! Vamos parar com isso de uma vez por todas!

— Cala a boca! Só termina quando eu decido que tá terminado.

Enquanto isso, várias viaturas estão se dirigindo ao local do baile de máscaras, a capital federal está barulhenta. Do lado de fora, Eduardo, Salete e Jéssica estão ali no meio do tumulto e Jéssica olha pra cima.

— Vejam! É o Igor!

— Puta que pariu, será que ele vai pular, Eduardo?

— O Diego deve tá lá também, ele vai precisar de ajuda. Eu vou lá.

— Você tá louco? Não pode ir pra lá sozinho.

— O que você quer que eu faça?

— Espere os reforços chegarem, não podemos arriscar colocando todo o esforço do Diego em vão.

Jéssica fica meio receosa e pensativa, e toma uma atitude no impulso.

— Eu, eu não posso permitir que isso fique assim.

Jéssica sai correndo e entra pelo estacionamento do salão.

— Jéssica, volta aqui!

Eduardo e Salete vão atrás dela. Jéssica encontra um dos elevadores ali no subsolo com a porta já aberta. Ela entra, aperta no botão do último andar e fecha a porta antes que Eduardo e Salete a alcançasse.

— PORRA!

— Eduardo, ela vai se matar se chegar até lá.

— Vamos chamar o outro, não podemos deixar eles sozinhos com aquele bandido.

No terraço, Diego está tentando negociar com Igor.

— Escuta, Igor. Você teve os seus momentos de glória, mas olha a que ponto chegamos! Você tinha tudo pra ser o homem mais bem privilegiado desse mundo, por que fazer isso?

— Você nunca vai entender… Nunca!

— Você não tem coragem… Não vai se jogar, você se ama acima de qualquer coisa, não vai querer jogar tudo a perder dessa forma.

— Acho que você sabe muito pouco sobre mim, priminho.

Igor sobe na borda do terraço, abre os dois braços e diz:

— Espero sinceramente te encontrar no inferno.

Igor começa a se inclinar pra trás e cai daquele prédio. Diego em uma mistura de êxtase, ódio e dor grita ainda que incrédulo com o que acabara de ver.

— NAAAAAAAAAAAAAAAOOOO!!!

Diego se ajoelha, leva as mãos à cabeça, começa a gritar com um sentimento de culpa, como se tivesse perdido tudo. Enquanto isso, somos levados a pequenos flashes de quando ambos eram crianças.

Diego e Igor soltando pipa, em outro take eles jogando bola, em outro brincando com bolinhas de gude. Foi como se todo aquele ódio que estava engasgado na garganta de Diego tivesse saído após Igor ter se lançado pra fora do prédio.

Minutos depois, Jéssica chega no terraço, vê o seu marido naquela situação, corre para o abraça-lo ainda ajoelhado no chão. Ela não pergunta nada, apenas viu que o marido está sentindo muita dor.

Salete e Eduardo chegam em seguida tentando se situar com o que aconteceu. Diego está em prantos e sem acreditar.

— Meu primo… Ele era meu primo! Por que tinha que ser assim? Por quê?

Eduardo e Salete olham um para o outro e ficam completamente atônitos. Eles abaixam as armas e preferem manter o silêncio. Ouve-se as sirenes se aproximando e cercando o local e o barulho de helicópteros está rondando o prédio.

Até mesmo para um homem como o próprio Igor, nunca foi decisão da pessoa nascer com esse mal, ele adquiriu com o tempo. Como ele mesmo disse, foi o mundo que o corrompeu, ele poderia ter escolhido outro caminho? Claro que sim, mas a dor o cegou, o cegou tanto que o transformou em um monstro. Ele não soube mais diferenciar o certo do errado, apenas vivia por aquilo que lhe convém.

A cidade ficará mais tranquila com a morte desse terrível criminoso, mas Diego nunca mais será o mesmo. Essa dor, esse remorso vão acompanhá-lo por toda a vida, o rei de copas não era apenas um monstro qualquer, era o seu primo, alguém pelo qual ele teve um laço… Talvez por esse único motivo, Igor nunca tentou tirar a vida dele.

Será que valeu a pena tudo isso? Se Igor estava todo esse tempo rancoroso com sua família, não seria mais fácil ter a boa e velha conversa? Mas creio que pra ele não haveria mais outra saída. Quando alguém escolhe viver do crime, só existem dois caminhos: Prisão ou cemitério. E acho que o nosso rei de copas já fez a sua escolha.

 

Meses depois…

 

Copacabana, Rio de Janeiro.

É verão em Copacabana e vemos as pessoas tranquilamente pegando uma praia, homens e mulheres jogando vôlei na areia, algumas pessoas surfando e ali debaixo de uma tenda vemos um homem sentado na sombra observando a praia. Ele tem cabelos loiros e é só o que conseguimos ver, pois ele se encontra de costas. Uma mulher no qual só podemos ver sua silhueta de biquíni está se aproximando dele com um coco na mão, quando a moça chega de frente, temos uma surpresa.

— Trouxe tua água de coco, Igor.

— Bem na hora, gata!

Mas espera? Igor não havia morrido? Ele não se jogou do terraço daquela casa de festas? Ou será que… ?

 

=FLASHBACK= 3 MESES ANTES- MOMENTOS ANTES DA “MORTE” DE IGOR

— Você não tem coragem… Não vai se jogar, você se ama acima de qualquer coisa, não vai querer jogar tudo a perder dessa forma.

— Acho que você sabe muito pouco sobre mim, priminho.

Igor sobe na borda do terraço, abre os dois braços e diz:

— Espero sinceramente te encontrar no inferno.

Igor começa a se inclinar pra trás e cai daquele prédio. Diego em uma mistura de êxtase, ódio e dor, grita ainda que incrédulo com o que acabara de ver.

— NAAAAAAAAAAAAAAAOOOO!!!

Igor cai da borda do terraço, mas uns dois andares abaixo, está Ricardo na varanda e o agarra em seus braços trazendo-o pra dentro da janela.

— Bem na hora, garanhão!

— Sempre quis pegar você, mas confesso que não pensei que seria dessa forma.

— Não se preocupe, gato. Você terá tudo isso aqui pra você depois, mas agora precisamos sair sem sermos vistos.

— O helicóptero está no quarteirão ao lado.

— Ótimo!

Minutos antes, enquanto acontecia o embate de Igor e Diego lá em cima, Ricardo tratou de pegar o corpo de Fábio, colocou outra roupa nele e pôs uma peruca com a mesma tonalidade de cabelo de Igor pra que todos pensassem que se tratava dele. Em seguida ele pega uma marreta e fica com ela em mãos por instantes.

— Nada pessoal, Fábio. Mas ordens são ordens.

Ricardo levanta a marreta e começa a martelar o rosto de Fábio até ficar completamente irreconhecível.

Ele espera que “a barra fique limpa” e leva o corpo sem vida de Fábio para o quarto andar, ele observa o movimento na rua e vê que os amigos de Diego não estão prestando a atenção e Jéssica havia acabado de entrar novamente dentro do prédio. Foi nesse momento que Ricardo jogou o corpo de Fábio pela janela para simular que o próprio Igor havia se jogado, ele imediatamente pega o elevador e vai para o andar correspondente para pegar Igor. Igor ainda ameaçando se jogar, dá uma leve inclinada para baixo e vê que seu comparsa já está ali preparado para a ação.

Após sua “falsa morte”, todos acreditaram que aquele homem estirado no chão e com o rosto completamente deformado seria realmente Igor Ventura, o próprio Diego acreditou que seria, claro que essa farsa não iria durar para sempre, a perícia ia constatar o tiro e as marretadas que Fábio levou em questão de horas. Mas Igor precisava apenas desse tempo para que tudo saísse como o planejado.

Após despistar a todos, Ricardo e Igor correm até um helicóptero que já estava os esperando, Igor sobe e ali está aquela mesma mulher que se encontrava no motel com aquele “falso pastor”.

— Olá, meu rei de copas! Espero que tenha se divertido.

— Muito, minha rainha!

Ele beija a mão da mulher e o piloto levanta vôo. Igor olha pela janela do helicóptero enquanto se afasta daquela cidade.

— Adeus, Brasília! Foi bom enquanto durou.

Tudo foi armado minuciosamente por Igor e seus comparsas, agora eles estão em um novo local, mas será que Igor desistiu de suas práticas ilícitas?

 

AGORA…

A jovem prostituta se senta ao lado de Igor, em seguida Ricardo também aparece por ali com uma água de coco e se senta na cadeira ao lado.

— Foi mal a demora, chefe. Acho que o pessoal da tenda não foi muito com a minha cara.

— Não é todo dia que um ursão como você aparece em Copacabana, Ricardão. Deveria se acostumar.

— Mas valeu a pena mesmo assim. E você, Kátia?

— Bom, se eu soubesse que de prostituta de BSB eu estaria hoje em uma praia em Copacabana com dois homens lindos… Teria conhecido vocês mais cedo.

— Tudo tem seu tempo, gata. Ou você acha que o Ricardão não aguentou muito tempo pra ter alguém como eu do lado dele?

— E eu continuo querendo, só pra você saber.

Ricardo passa a mão na perna de Igor. Kate diz:

— Vocês parem com isso porque vou ficar com ciúmes.

— Relaxa, gata. Tem pra vocês dois!

— Amo um sexo a três! Mas então, Igor… O que pretende fazer agora?

— Bom, acho que… Merecemos umas férias, né?

Ricardo pergunta:

— Quer dizer que… Nada de matar pessoas?

— Sim, acho que já puni todos os que mereciam ser punidos em Brasília, vamos relaxar agora, curtir o momento só nós três. Vou me aposentar e apenas viver.

— Bem, meninos. Se me permitem, eu vou dar um mergulho agora, um de vocês me acompanha?

Ricardo se prontifica:

— Acho que eu vou também, hein?

— Você vem, Igor?

— Podem ir na frente, acho que hoje eu quero apenas descansar como um bom sociopata aposentado merece.

— Você que sabe. Vamos, Ricardão!

Os dois correm até o mar e enquanto Igor os fica observando, ele retira os seus óculos escuros e observa algo naquela praia o tanto “atípico”.

Um jovem acaba de pegar uma carteira que estava “dando sopa” ali em uma tenda, enquanto o dono está distraído.

Igor olha aquilo atentamente, morde os lábios e diz:

— Ora, ora… Acho que a aposentadoria vai ter que esperar um pouco.

 

 

 

 

                                     FIM

 

 

 

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  • Devo admitir, eu adorei demais O REI DE COPAS, um conto extremamente lindo, poético, engraçado e com uma linguagem própria, apesar de algumas referências virem a tona. Os melhores momentos é o acerto de contas onde envolve o Ricardão ( eu amei demais a construção desta cena). A Kate é uma personagem incrível. Parabéns ao caro escritor dessa obra, e que venha mais.

  • Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

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