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Um drinque para Eros

 

Havia uma nova cafeteria na cidade. Os jovens, que estavam sempre à procura de novidades, haviam a elegido como seu novo local favorito. Por qual motivo? Por algo chamado Eros. O tal pedido, diziam eles, fazia com que a pessoa amada se atraísse por você.

Muitos iam até o local para degustarem com seus parceiros, outros para comprar o tal ingrediente milagroso, para usarem depois em um momento mais adequado. Já Michael desejava saber o que estava por trás daquele suspense. O que havia de tão especial naquelas receitas que deixava as pessoas tão apaixonadas? Era um mistério intrigante, para um repórter como ele.

O homem entrou no local e sentou-se em uma mesa para dois, próxima à janela. Tentava ser discreto, mas Michael não era a pessoa mais habilidosa naquilo. Era impossível não notar a forma suspeita com que ele olhava o local.

A proprietária, atenta a tudo, percebeu o comportamento estranho do cliente. Chamou a garçonete e falou baixo com ela, dizendo que fosse atendê-lo, mas ficasse de olho nele, temia um possível assalto. A garota acenou com a cabeça e se aproximou do homem duvidoso.

— Posso ajudar, senhor?

— Sim, claro… Eu gostaria desse novo drinque, o tal Eros. — Ele respondeu, tentando apresentar desinteresse.

— Ah, não, senhor. Eros não é um drinque, é um adicional ao seu pedido. Pode ser colocado em qualquer bebida ou outro produto comestível de nossa loja.

— Então… O que seria esse adicional? — Michael tentou.

— Desculpe, senhor, é um ingrediente secreto. — Ela deu um sorriso leve.

— Bem, dê-me um chocolate quente com esse adicional então, por favor.

— Perdão, o adicional só é vendido para clientes acompanhados.

— Como? — O homem olhou confuso.

— Eros é um produto para ser usado com amantes, senhor. Só o vendemos para acompanhantes enamorados. — A jovem explicou, paciente.

— Mas ouvi dizer que vendem esse produto para as pessoas usarem depois…

— Somente com o aval da proprietária.

— Deixe-me falar com ela, então. — Ele pediu, impaciente.

A moça acenou com a cabeça e retornou para o balcão. Michael observou enquanto ela falava com outra mulher e depois a mesma se aproximou de onde ele estava. Era uma morena bem atraente: pele bronzeada pelo Sol, cabelos longos e negros presos por um coque perfeito, olhos castanhos e um belo corpo coberto por roupas sociais.

— Em que posso ajudá-lo, senhor?

Michael ajeitou-se no assento e pigarreou.

— Bem, senhorita… — Ele olhou o crachá dela. — Senhorita Kouris. Eu gostaria de encomendar um pouco de seu produto especial.

— É claro. — A morena sorriu. — Conte-me sua história, então.

— Oi?

— Eu lhe darei meu aval assim que me contar sua história. — A mulher puxou a outra cadeira e se sentou diante dele. — Quem é a felizarda? Ou seria felizardo?

— O que? Não, eu não… — Ele se empertigou. — Por que quer saber?

— Sou uma romântica incurável. — Ela sorriu, parecendo se divertir com a indignação do homem. — E preciso proteger meu ingrediente especial. Só vendo para quem precisa dele, aqueles que desejam conquistar a pessoa amada.

Michael fez uma leve careta. A mulher era esperta.

— Então, se eu te contar toda a história, você me ajuda, é isso?

— Exatamente.

— Tudo bem.

Ele se encostou e ela fez o mesmo, enquanto gesticulava para a garçonete trazer algo para eles.

— Fale-me sobre sua tragédia amorosa.

— Eu gosto de uma pessoa do trabalho, mas essa pessoa sequer sabe que eu existo. Preciso do Eros para fazer com que ela me note. Satisfeita? — Mentiu.

— Pode me mostrar uma foto dessa pessoa?

— Por quê?

— Quero ver se formam um bom par. — A proprietária insistiu.

— Eu não tenho uma foto dela aqui comigo!

— Nem no celular? — Perguntou descrente.

Michael bufou. Que mulher irritante!

— Posso te mostrar uma foto das redes sociais.

— Ótimo. — Ela sorriu e tomou um gole do café que a jovem havia a servido.

O jornalista tirou o aparelho do bolso e o desbloqueou enquanto pensava em quem seria a mulher que ele usaria como sua falsa cúmplice. Repassou em sua mente as colegas de trabalho e lembrou de uma que seria perfeita, já que tinham fotos juntos.

— Aqui está. — Entregou o aparelho, sorrindo.

A proprietária da cafeteria pegou o celular da mão dele e mexeu na tela com a ponta do dedo, passando para outras fotos.

— Ela é bonita. Parece simpática. — Ela o olhou. — Qual o seu nome mesmo?

— Michael Stewart.

— Umn… — A mulher fez uma expressão pesarosa. — Tenho uma péssima notícia para o senhor.

— Que notícia? — Ele perguntou confuso.

— O senhor está levando um belo par de chifres. — A proprietária virou o celular para ele.

Michael pegou o aparelho e olhou. Na tela estava o perfil de sua colega, focando exatamente na parte onde dizia que a mulher estava em um relacionamento sério. E, obviamente, não era com ele.

— Foi uma boa tentativa. — A morena sorriu e se levantou. — Aproveite o chocolate quente. Você me divertiu, é por conta da casa.

Enquanto a mulher saía rindo, Michael olhava irritado. Até o dia anterior não havia porcaria de status algum de relacionamento sério no perfil daquela colega, por que tinha que ter tido o azar dela ter mudado justamente naquele dia?!

Olhou para o balcão, onde a morena e sua ajudante riam. Com o rosto vermelho, pegou e tomou a bebida, resmungando. Ah, ele não desistiria assim tão fácil, não mesmo, aquela mulher não perderia por esperar. Descobriria o segredo dela, de qualquer maneira.

O repórter passou dois dias inteiros pensando em um bom plano para conseguir o misterioso Eros, enquanto trabalhava em outras notícias. Sua expressão estava tão séria e concentrada que atraiu a atenção de seu amigo redator.

— Cara, algum problema?

— Sim! — Michael bufou. — Tenho que descobrir como driblar aquela mulher!

— Mulher? Que mulher? — Carl perguntou sem entender.

— Aquela lá, da Cafeteria & Confeitaria Elísios.

— Ah! Descobriu alguma coisa sobre o caso dela? — Virou a cadeira em sua direção, interessado na história.

— Descobri. Segundo a garçonete me disse, o Eros não é uma bebida e sim um adicional pro que eles vendem lá. Mas quando eu fiz o pedido, ela não quis me vender!

— Ué, por quê? — Franziu a testa.

— Por que só os malditos casaizinhos apaixonadinhos ou alguém com dor de cotovelo podem comprar aquilo! — Cuspiu com desdém.

— Podia ter metido um caô.

— Eu fiz isso. Só que o tiro saiu pela culatra. Mostrei o perfil da Luane pra ela justamente no dia que ela mudou o status de relacionamento.

Carl gargalhou quase caindo da cadeira.

— Que azar, hein?!

— Para de rir e me ajuda a pensar em algo, peste! — Tacou uma bola amassada de papel no outro.

Quando o redator conseguiu parar de rir, respondeu:

— Olha, eu não sei que história você vai inventar, mas que tal dar um pulo lá? Eu ‘tô com fome e curioso para conhecer o lugar. Quem sabe não te surge uma ideia?

Michael ficou pensativo e concordou.

— Pode ser. Assim eu rondo mais os clientes e vejo se descubro uma pista.

— Maravilha, deixa eu terminar isso aqui e vamos.

Com o trabalho concluído, ambos seguiram até o estabelecimento e se acomodaram em uma mesa para dois, no mesmo lugar em que Michael se sentara na primeira vez.

Carl pediu um lanche para ambos, acompanhado de café. O pedido não demorou a chegar e, quando estavam no meio da refeição, a proprietária se aproximou e parou ao lado da dupla.

— Olá, senhor Stewart, é um prazer revê-lo. A comida está ao agrado dos senhores?

— Está sim, obrigado. — Michael agradeceu e Carl concordou com ele.

— Fico feliz quando meus clientes estão felizes. — Ela sorriu e se aproximou de Michael, para falar baixo o suficiente apenas para que os dois ouvissem. — Perdão pela confusão do outro dia, talvez eu tenha sido dura demais.

Os homens olharam surpresos e se entreolharam antes dele responder:

— Não tem problema, senhorita Kouris, posso compreender.

— Se houvesse me dito a verdade antes, eu compreenderia. — Ela continuou, deixando-os confusos. — O senhor gostaria de provar um drinque com Eros agora?

— Claro! — Michael ficou eufórico.

— Está bem, vou trazer o pedido para o casal.

Carl engasgou.

— Casal?!

— Sim. Lembra-se do que explicamos? Eros é servido apenas para casais enamorados. Mas não se preocupe, somos discretos, não pediria uma demonstração pública dos senhores. Entendo que alguns casais são tímidos.

Carl iria negar, mas Michael chutou sua perna por baixo da mesa para que ele se calasse.

— Não é preciso, gostamos da nossa privacidade. Preferimos levar e desfrutar em casa, não é, meu bem?

— Sim, só nós dois. — Carl respondeu com um sorriso amarelo, já que sua vontade era de esmurrar o amigo naquele momento.

— Ora, não sejam tão acanhados. Acreditamos em toda forma de amor. E não precisam ter medo, se bem dosado Eros é inofensivo.

— Inofensivo, é…? — Carl fuzilou o outro com o olhar.

— E então, vão querer experimentar? Posso trazer os pedidos?

— Sim, pode, por favor. — Michael respondeu e deu outro chute para que o amigo permanecesse quieto.

Assim que a mulher se afastou, Carl quase voou nele por cima de mesa.

— Enlouqueceu?!

— Não, não enlouqueci! Mas não vou desperdiçar essa chance de provar e ver o que essa coisa faz!

— Eu não vou beber isso, quem garante que não é uma droga?

— Se for uma droga, a gente descobre e rende uma boa grana delatando tudo.

Carl cerrou os olhos.

— Sessenta a quarenta.

— Não mesmo! Cinquenta e cinco a quarenta e cinco!

— Vai se ferrar e bebe esse troço sozinho.

— Ugh! Que seja, cinquenta a cinquenta! — Michael grunhiu.

— Feito. — Carl lançou um sorrisinho.

Michael conteve um xingamento, pois a mulher voltara com outros dois cafés e tirou um frasco do bolso. Era um pequeno recipiente de vidro transparente, assim como o líquido dentro, com uma estampa vintage coração e uma rolha o tampando.

Ela retirou a rolha e verteu duas gotas na bebida de Carl, depois fez o mesmo com a de Michael. Ao pingar na dele, no entanto, ela errou na dosagem e deixou o dobro do líquido cair.

— Ops! — A morena os olhou, sem jeito. — Perdão, escorregou da minha mão e eu deixei cair demais. Mas isso não é um problema para o senhor, não é?

— De jeito nenhum. — Michael respondeu, engolindo seco.

— Que bom. — Ela sorriu e guardou o frasco. — Se o efeito ficar muito forte, é só dar uns amassos que resolve. — Deu uma piscadela e saiu, deixando os dois ali.

Eles olharam para a bebida e depois um para o outro.

— O que acontece se a gente beber isso aqui? — Carl indagou.

— Bem… Dizem que quem bebe isso se apaixona pela pessoa que está bebendo com ele ou ela.

Ambos estremeceram.

— Mas… É seguro pra gente, não é? Sem chances de eu me apaixonar por você.

— Digo o mesmo. — Michael torceu o nariz.

Apesar daquelas palavras, ambos relutaram em beber o café. Só não desistiram porque a proprietária estava de olho neles. Pegaram as xícaras e bebericaram um pouco, se encarando, sérios.

— ‘Tá sentindo alguma coisa?

— Não, nada.

— Só pra garantir.

Foram estranhos minutos olhando um para a cara do outro enquanto esperavam por alguma reação. O ambiente parecia ter ficado mais quente e ambos começaram a suar.

— É melhor a gente pagar e meter o pé.

— Concordo.

Michael ergueu a mão pedindo a conta e aguardou a jovem garçonete chegar até eles.

— Dinheiro ou cartão?

— Cartão.

— Um instante, irei pegar a máquina para o senhor.

Rapidamente ela foi ao balcão e retornou com o aparelho. No entanto, a menina fez várias tentativas e o cartão não quis passar de jeito algum.

— Perdão, senhor, creio que estejamos com algum problema de conexão.

— Ah, chega disso! Aqui! — Carl tirou a carteira do bolso, pegou o dinheiro e jogou sobre a mesa. Já estava nervoso com aquela sensação estranha e a demora da garota. — Fica com o troco.

— Obrigada! — Ela agradeceu e se afastou para que os dois pudessem sair, apressados.

Após a fuga da dupla, a garçonete retornou rindo até a patroa.

— Problemas com a conexão? — A proprietária perguntou, sorrindo.

— Eu desliguei o wifi. — As duas riram bastante e a garçonete perguntou: — A senhora botou mesmo o Eros nos cafés deles?

— Não, era só água!

As duas gargalharam de perder o fôlego e passaram o dia divertindo-se às custas do ocorrido.

Acreditando fielmente que haviam tomado a bebida milagrosa, os dois sumiram cada um para um canto da redação, bem longe um do outro. Ainda naquele dia, Michael saiu do trabalho e foi fazer um exame de sangue completo para descobrir qual era a substância.

Ele aguardou um tempo até que o resultado estivesse pronto e conferiu pelo e-mail. Nenhum sinal de substância anormal ou em quantidades indevidas. No máximo, descobriu que precisava se alimentar melhor para não ter anemia.

Porém, mesmo com aquela segunda derrota, ele ainda não havia desistido. Esperou até seu dia de folga e foi até a confeitaria. Naquele dia, resolveu diferenciar e foi se sentar ao balcão.

A garçonete cutucou a patroa com o cotovelo e o indicou com um aceno com a cabeça. Ela franziu a testa, respirou fundo e foi até ele.

— O senhor é mesmo insistente.

— Sim, eu sou. — Michael sorriu.

— Por que tamanha curiosidade?

— Porque eu quero descobrir o que tem por trás dessa sua fórmula. Será que poderia me contar seu segredo? — Ele perguntou na cara de pau.

— É claro.

Ela sorriu, olhou para os lados para verificar se estavam sendo ouvidos e gesticulou para que ele se aproximasse. Michael não acreditava que conseguiria assim tão fácil. Se inclinou para a frente e a mulher inclinou-se sobre o balcão, para poder sussurrar em seu ouvido.

— Magia do amor.

Michael fez uma careta. Era claro que ela não revelaria seu maior segredo para um estranho, sem continuar lutando.

— Não brinque comigo.

— Jamais faria isso. — Ela sorriu.

— E de onde surgiu esse adicional?

— Pode-se dizer que é uma receita de família. Vai pedir alguma coisa?

— Café e torta de amora.

Ela foi buscar o pedido e logo o serviu.

— Obrigado, senhorita Kouris. — Agradeceu e a olhou após devorar o primeiro pedaço. — Será que a senhorita teria um tempo livre esta tarde?

— Está me cantando? — A mulher ergueu uma sobrancelha.

— Tenho que tentar outras táticas. — Michael sorriu.

A morena rolou os olhos.

— Acabe de comer e vá embora. — Falou e se afastou, deixando-o sozinho.

Aquela insistência se repetiu nos dias de folga de Michael, semana após semana, até que a mulher acabou se rendendo à perturbação.

— Está bem! — Ela pegou o buquê de rosas da mão dele e colocou no balcão. — Se eu sair com você, vai me deixar em paz?!

— Sim, prometo! Só preciso de uma chance para tentar convencê-la.

Ela ergueu um dedo e apontou para ele.

— Você vai ter uma chance, mas apenas uma, entendeu?!

— Entendi. — Ele fez sinal de promessa.

A mulher rolou os olhos, vestiu o casaco e o acompanhou. Michael a levou para passear no parque e ambos caminhavam conversando entre as árvores.

— O que você faz?

— Sou repórter.

— Por isso tem tanto interesse no meu trabalho?

— Sim. Sua cafeteria tem sido a sensação do momento, eu não podia perder a oportunidade de descobrir o motivo.

— E acha que irá descobrir?

— É o que estou tentand— Michael não pode completar a frase, porque fora empurrado por um cachorro que passou correndo e quase levou as pernas dele junto, catou cavaco, bateu em uma árvore e caiu sobre alguns arbustos.

— Meu Deus! Você está bem?! — A mulher perguntou, tentando ajudá-lo a se levantar.

— Estou. — O homem ria. — Foram só uns arranhões.

— E um galo. — Ela olhou preocupada e o ajudou a chegar em um banco.

O deixou ali sentado e pouco depois voltou com um picolé embalado que ele colocou sobre o inchaço na testa.

— Obrigado, senhorita Kouris.

— Pode me chamar de Verona.

Michael a olhou surpreso e sorriu. Ela sorriu de volta e esperou ele se sentir melhor para continuarem a caminhada. No fim do dia, ele retornou com Verona até a cafeteria dela, para que ela resolvesse uns últimos assuntos no estabelecimento antes de ir para casa.

— Obrigada pelo passeio.

— Eu que agradeço. Será que consegui sua confiança o suficiente?

— Não mesmo. — Ela cortou no ato.

Ele fez uma careta e depois deu de ombros.

— Eu tentei.

Verona sorriu e negou com a cabeça.

— Mas eu aceito sair de novo, outra hora… Sem cachorros nos atropelando.

Michael riu.

— Podemos sair sexta à noite? Eu posso cozinhar pra gente.

— Já quer me levar para seu apartamento? — A mulher ergueu uma sobrancelha.

— E onde mais eu poderia te oferecer um jantar feito por mim, sem animais desgovernados me jogando nos arbustos?

Verona gargalhou.

— Tudo bem, eu levo a sobremesa.

Michael ajeitou tudo o melhor que pode. Tivera que fazer uma faxina no apartamento bagunçado de solteiro e depois encher a geladeira com o necessário para a refeição. Costumava comer fora, então em sua casa só costumava ter bebidas, lanches congelados e outras “besteiras”.

Queria que tudo estivesse perfeito, mas não somente porque estava tentando impressionar Verona para que ela colaborasse com ele. Ela podia ser irritante e a pessoa mais teimosa que ele conhecia, mas ainda assim era uma bela mulher e, quem sabe, algo poderia rolar.

Estava terminando de cozinhar quando ouviu o interfone tocar. Era ela. Pediu para que subisse e foi atendê-la. Assim que abriu a porta, ele prendeu o fôlego. Acostumado a vê-la nas roupas sociais que vestia no café, aquele vestido preto colado ao corpo de Verona a deixava sensacional.

— Espero não estar atrasada. — Os lábios carnudos e tingidos de vermelho se curvaram em um sorriso.

— Está até adiantada. — Michael sorriu de volta e se afastou para que a mulher pudesse passar.

Verona entrou no apartamento e estendeu a ele uma caixa e uma sacola com uma garrafa de vinho tinto.

— Não precisava de disso tudo, mas obrigado. O que tem aqui?

— São cupcakes e uma torta, melhor pôr na geladeira.

— Vou colocar. Por favor, fique à vontade, eu já estou terminando. Quer alguma coisa?

— Água, por favor.

Michael acenou com a cabeça e voltou à cozinha, à tempo de salvar a carne que estava quase queimando. Guardou os doces na geladeira, pegou o copo com água e olhou-se no vidro do armário. Não podia parecer desleixado enquanto ela estava tão atraente, ajeitou os cabelos loiros, fitando seu reflexo, e retornou para a sala.

Pouco depois ele arrumou a mesa da cozinha e a convidou para iniciarem a refeição. Serviu o vinho que ela trouxera e ficaram conversando, conhecendo um pouco mais um do outro. Após comerem, Michael lavou a louça enquanto Verona ajeitava a mesa e tirava os doces da geladeira.

Tornaram a se sentar e cada um se serviu de um cupcake, mas ele ficou observando o doce enquanto ela tirava o papelzinho do fundo.

— Algum problema?

— Umn… — Ele a olhou, receoso. — A senhorita, por acaso, não colocou um pouco do Eros na comida, colocou?

Verona abriu um lento sorriso para ele. Passou a ponta do dedo no glacê polvilhado de chocolate e levou aos lábios, lambendo a cobertura com um jeito sensual.

— Quem sabe?

O homem sentiu um arrepio de excitação com a provocativa dela.

— E você se arriscaria consumi-lo comigo? Se apaixonar por mim?

— Por que você não prova e descobre? — Ela sugeriu.

Michael olhou para o bolinho e aceitou a proposta. Tirou o papel e mordeu, gemendo de satisfação. O creme de baunilha derreteu em sua boca, combinando com o recheio de brigadeiro com um toque de canela. A massa estava macia e fresca, como se ela o houvesse assado pouco antes de ir para a casa dele. Com certeza a fama da confeitaria dela não se devia apenas ao produto especial.

Ele devorou o doce com satisfação, no entanto, não parecia ter nada de diferente nele. Nenhum sabor, nenhum aroma inesperado. Começava a achar que os rumores não passavam de fofoca.

No entanto, quando já estavam na sala conversando, minutos depois, Michael começou a se sentir estranho. Sentia as palmas das mãos úmidas, a boca seca, o coração palpitante. E não conseguia parar de olhar para ela. Verona era uma mulher sensual e atraente, ainda mais com aquele vestido. Ele costumava ter um bom autocontrole, porém, estava cada vez mais difícil de resistir a ela.

Verona pousou a taça vazia sobre a mesinha de centro e ajeitou os cabelos sobre o ombro, deixando o pescoço à mostra na direção dele. Michael não resistiu e, movido por um impulso, chegou mais perto. Inclinou-se e cheirou a pele descoberta, a ponta de seu nariz tocando-a suavemente.

Ela se arrepiou e estremeceu com o toque, afastando-se para encará-lo. O homem notou o que havia feito e ficou nervoso.

— M-me desculpe, e-eu não deveria… — Foi interrompido quando Verona o agarrou e beijou.

Michael olhou espantado por um momento, mas a agarrou de volta e beijou com vontade. Suas línguas se entrelaçaram uma na outra, em meio ao beijo com gosto de vinho e chocolate.

As carícias tornavam-se cada vez mais quentes e ela mordiscou sua orelha antes de sussurrar:

— Por que não vamos para seu quarto?

O homem não esperou um segundo pedido. Puxou-a para o outro cômodo e ela o empurrou contra a cama. Michael deitou-se e a acompanhou com o olhar conforme ela engatinhava sobre o colchão, aproximando-se dele, resolvendo brincar um pouco.

— Eu desperto Eros… Eu lhe trago Ágape… — Verona sussurrou, os dedilhando seu peito enquanto beijava o pescoço dele. —Você pode chamar-me de… — Mordiscou sua orelha. — Afrodite.

Michael se arrepiou diante daquele tom sensual e das carícias.

— Err… Mas você não é ela de verdade… não é? — Ele perguntou tenso, sem pensar direito.

— É claro que não, seu idiota. — Verona o olhou torto. — Agora pode entrar logo na encenação?

— Ah, sim. — Michael riu constrangido. — Claro… Afrodite.

— Bem melhor.

Michael se espreguiçou na cama, ainda zonzo de sono. Aos poucos as memórias da noite anterior foram voltando e ele tateou a cama à procura de Verona, mas ela não estava lá. Levantou e a procurou pelo apartamento, sem sinal dela. Em sua distração e sono, por pouco não viu o bilhete em cima da mesa de centro. Dizia que ela já havia saído cedo e que, se ele precisasse, poderia ligar para ela.

Ele sorriu e bocejou, depois foi até a cozinha fazer um café. Porém, antes de ligar a cafeteira, olhou para o lado e viu a caixa vazia onde Verona havia trazido os doces, somente então se tocou sobre certo detalhe. Ela o drogara com Eros.

Nervoso, voltou para o quarto, tomou um banho e se vestiu rápido, saindo apressado. Minutos depois ele chegava tenso na cafeteria. Verona notou e se preocupou. Ia até ele, mas Michael foi mais rápido e se sentou diante do balcão.

— Verona, precisamos conversar.

— Claro… Um minuto.

Verona preparou um chocolate quente, serviu para ambos e pousou as xícaras fumegantes sobre o balcão antes de pegar um banquinho de madeira e sentar-se diante dele do outro lado.

— É sobre ontem?

— S-sim. — Ele respondeu e passou a mão nos cabelos, nervoso. — Você botou mesmo o Eros nos doces, não foi?

— E por que pergunta?

— Porque o que fizemos… — Pigarreou. — Me diz… Isso vai me afetar de alguma forma? Existe algum antídoto?

Verona o encarou inexpressiva por um longo momento.

— É tão ruim assim gostar de mim? — Ela perguntou devagar, os olhos castanhos fitando intensamente seus olhos âmbares.

Michael não conseguiu responder de imediato. Sentir algo por ela era ruim? Sendo sincero consigo mesmo, não. Apesar da teimosia e das vontades que tivera de esganá-la no início, Verona demonstrara ser uma mulher inteligente e interessante, gostara suas conversas e companhia. Talvez o problema fosse o medo de que aquele sentimento não fosse real, mas o fruto de alguma substância desconhecida por ele.

Ele a olhou, pensativo. Sentia-se indignado por ela ter batizado a comida, mas ele não havia aceitado correr o risco? A mulher não havia lhe avisado que o bolinho poderia conter a substância secreta e, ainda assim, ele não comera?

E Verona também comera o doce junto dele. Então aquilo não significava que ela também queria se apaixonar por ele? Além de tudo, ele não podia reclamar daquela noite. Lembrava-se bem do que havia acontecido e do quanto ele havia gostado.

A mulher ainda aguardava sua resposta. Michael umedeceu os lábios e, enfim, respondeu:

— Está… Tudo bem pra você?

Ele a olhou e viu a expressão dela se suavizar. Verona ergueu a mão e acariciou o rosto dele antes de se inclinar sobre o balcão para beijar seus lábios. Michael fechou os olhos e segurou na nuca dela, correspondendo ao beijo.

Quando ela se afastou, ele a olhava com um brilho satisfeito no olhar. Abriu a boca para dizer algo, mas ela o calou colocando o dedo indicador sobre os lados dele.

— Tome logo sua bebida, ou vai se atrasar para o trabalho.

— Ah, sim, claro. — Murmurou. Realmente havia se esquecido da hora.

Michael pegou a xícara e assoprou o chocolate quente até que esfriasse o suficiente para ele poder beber sem se queimar. Terminou a bebida e fez menção de pagar, mas ela negou e deu outro beijo nele.

Todo bobo com aquela situação, o homem se arrumou e seguiu para a saída.

— Michael. — A mulher o chamou antes que ele tivesse alcançado a porta e ele virou-se para olhá-la. — Quanto ao que me perguntou antes… — Sorriu. — O efeito só dura algumas horas.

Verona deu uma piscadela e voltou ao trabalho. Michael a encarou enquanto assimilava aquelas palavras. Se o efeito da substância só durava algumas horas, então… Já deveria ter passado bem antes dele chegar ali. Seu rosto ficou vermelho. Então tudo aquilo que ele havia dito a ela era…

Michael saiu rápido, sem saber onde enfiar a cara.

Meses haviam se passado e o relacionamento dos dois ia bem. Porém, mesmo que Michael não estivesse mais interessado em Eros para uma manchete no jornal, o homem continuava intrigado para saber o que era aquela substância.

Certa noite, enquanto tomavam sorvete na sacada da casa dela, ele não resistiu à curiosidade.

— Verona.

— Umn?

— Bem… Nós já estamos há algum tempo juntos…

— O que você quer? — Ela perguntou, direta.

— Será que agora você pode me explicar o que é o seu ingrediente especial?

Michael esperou enquanto ela o encarava e parecia ponderar. Verona respirou fundo e negou com a cabeça.

— Lembra-se que eu disse que era um negócio de família, não se lembra?

— Lembro. — Respondeu, prestando atenção.

Ela apontou para a pequena estufa ao lado deles.

— É uma receita passada de mulher para mulher, tipo uma tradição. Minha mãe me ensinou a fazer, e, antes disso, a mãe ela a ensinou. Eros é o extrato destilado de uma das flores que eu cultivo, nativa da Grécia, de onde minha família vem.

— Dá pra notar. — Michael falou, lembrando-se dos nomes que ela usava para a loja e a bebida, além do sobrenome incomum. — Então Eros é mesmo uma droga…?

— Não. — Verona negou com a cabeça. — Ele é só um afrodisíaco que estimula a produção de ferormônios e aumenta ainda mais a libido da pessoa. É totalmente natural. Como já disse, não faz mal se usar com moderação.

— Ah. — Sorriu aliviado.

— Desculpa te decepcionar. — Ela riu. — Agora que já sabe meu segredo, pretende publicar?

— Umn… — Ele ficou pensativo e depois a olhou, sorrindo de volta — Não, já não é mais notícia quente.

— Muito bom saber disso.

Michael pousou a taça de sorvete ao lado do banco e a puxou para se aconchegar nele. Verona deu um sorriso e o beijou antes de abraçá-lo. Ficaram juntos, olhando para o céu estrelado, apreciando a companhia um do outro, até que Michael virou-se para ela, beijou-a longamente e quebrou o silêncio:

—… Tem um pouco dele aí? — sussurrou.

Verona sorriu e mordiscou os lábios dele.

— Vou buscar.

 

Crédito: A imagem inicial pertence à Cafeteria Iruña, Espanha.

***

Obrigada pela leitura e espero que tenha gostado!

 

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