Mobilização internacional

Os ressuscitados brotavam de toda parte. Já eram mais de cem mil na Alemanha, cinquenta e dois mil na Itália e outros milhares na Rússia, local onde o conceito antirressurreição imperava. A agência internacional recebia diariamente relatórios com a contagem de centenas e até milhares de novos ressurgidos em todo o mundo. A ACCR instalou postos de observação e controle nos aeroportos para inibir a possível imigração. Boatos diziam que em certas partes do mundo o controle de ressuscitados era mais brando. Isso provocou uma explosão de imigração aleatória sem fundamento real. Assustados, os Estados Unidos em apenas quatro meses, viram-se obrigados a deportar centenas de ressuscitados refugiados. Os diplomatas estadunidenses, então, exerceram forte pressão diplomática sobre os governos sul-americanos e países árabes para que navios comerciais e transatlânticos não zarpassem sem antes serem verificados quanto a possíveis clandestinos ressuscitados ilegais. A medida também deveria se estender aos aeroportos.

Apesar das crescentes pressões e cercos, familiares ainda assim se arriscavam a fugir com eles. Soube-se de uma embarcação pequena que partira de Cuba e que já permanecia há semanas à deriva pelo Atlântico quando foi interceptada pela marinha brasileira. Os ressuscitados refugiados não receberam autorização de permanecerem em território nacional. Depois de dias, foram deportados.

Portugal, Espanha, Polônia e Grécia agiram de forma a aumentar a vigilância. A situação era desesperadora, pois, devido a isso os portos e aeroportos sofreram enorme lentidão com a instalação de emissores fotossensibilizantes para distinguir humanos de ressuscitados. Ninguém, nem bebês de colo eram poupados.

A população de humanos já não aguentava mais um mundo dividido entre o ódio em relação aos ressuscitados, a exploração política e as tentativas frustradas de protegê-los. Foi quando um relatório alarmante do serviço secreto chegou à Agência Internacional. Num período de poucas semanas, cerca de duzentos mil ressuscitados haviam emigrado para a França, Bélgica e Israel. Os governos dos três países desconheciam a situação, mas mesmo assim foram duramente repreendidos e considerados negligentes quanto a segurança de suas fronteiras. Por causa disso, ficaram sob vigilância da Agência Internacional e do serviço de inteligência, situação essa considerada um insulto à soberania nacional dos respectivos países. Israel contra-argumentou tal medida alegando que não havia nenhuma pretensão de se gerar falha proposital na segurança e controle de fronteiras com o simples propósito de se permitir a invasão de ressuscitados estrangeiros.

Países se ofendiam mutuamente e a ACCR aproveitava para melhorar a sua imagem junto a sociedade, pregando a tolerância e cuidados especiais aos ressuscitados. A sociedade deveria pacificamente entregá-los aos postos de controle. Mas o movimento popular antirressurreição crescia e ficava cada vez mais forte. Temia-se que o controle afrouxasse e que a ACCR não fosse dar conta da explosão populacional. O movimento também se tornava cada vez mais violento e organizado. Ventilava a hipótese da formação de um partido político de segurança aos humanos, o PSH. Se isso de fato ocorresse, a ACCR correria o risco de ser subjugada pela população revoltada. A ideia ainda permanecia em estágio primário, mas a ACCR tinha de encontrar uma forma de amenizar os ânimos e desencorajar a possível formação de uma organização independente.

Mas a impopularidade quanto as ações da ACCR, bem como da Agência Internacional começou a engrossar. O silêncio das agências mundiais não respondia aos inúmeros questionamentos sobre o futuro da humanidade e o que se fazer quanto ao declínio da economia. Por isso, as pessoas exigiam, até imploravam para que algo de mais efetivo fosse feito além de simplesmente capturarem ressuscitados. Grupos independentes radicais defendiam o extermínio em massa dessa população não grata.

A situação levou as Nações Unidas a convocar uma reunião com os presidentes de todas as agências do mundo para discutir a humanização na relação entre as pessoas e os ressuscitados. Além disso, deviam apresentar um plano efetivo os quais determinariam os próximos passos para organizar a população de ressurgidos. Quem sabe isso amenizasse a repulsa coletiva quanto ao fato de um morto voltar à vida. Mas desconfiei de que o plano de humanização nada mais era do que uma estratégia velada de transformar cidadãos comuns em delatores. Um dos assuntos tratados na reunião foi levantado pelo presidente da agência espanhola. Segundo ele, a normalidade de morrer e de ser esquecido deveria ser restaurada de qualquer maneira. Os outros cinquenta por cento da população mundial a favor dos ressuscitados exigia o acolhimento deles já que não ofereciam nenhum tipo de ameaça. O que piorou ainda mais quando começaram a perceber que bandidos e assassinos retornados da morte tiveram seus comportamentos modificados para melhor. Estavam totalmente recuperados. Quem sabe a morte e a ressurreição fosse um milagre transformador?

O assunto foi debatido em reunião mundial durante dois dias, com a exposição de uma ampla casuística, mas sem chegarem a nenhuma solução. Um oficial britânico sugeriu que fosse realizado um estudo comportamental detalhado, no intuito de se entender como eles pensam e como reagem. Dados científicos revelariam componentes comportamentais que facilitariam uma tomada de decisão mais efetiva. No entanto, o único dado laboratorial que possuíam era referente a uma estranha enzima que os diferenciavam dos humanos comuns. Talvez, a partir de um estudo psicológico, as agências pudessem traçar uma manobra que desencorajasse ações intolerantes de organizações civis independentes. Além disso, a infiltração de traficantes com interesses espúrios seria inibida. Aliás, era algo que crescia dia após dia. Bandidos estariam desenvolvendo um mercado negro bastante lucrativo à custa dos ressuscitados.

A medida, então, foi submetida a votação. Depois de grande tensão o resultado foi empate. A alegação contra, defendia a ideia de que não havia tempo o suficiente para um estudo comportamental. Eram milhares de ressuscitados por dia, e que deveria sim haver um plano mais efetivo de controle e reassentamento dos ressurretos em local afastado dos grandes centros. Um local único, monitorado pela agência internacional em conjunto com as Nações Unidas. Os que foram a favor do estudo comportamental rebateram alegando que o isolamento dos ressuscitados em área única delimitada, incentivaria a formação de uma organização dos tais seres, o que tornaria muito mais difícil, ou talvez, impossível de controlá-los. Caso proliferassem, tomariam consciência de seu poder, poderiam agir agressivamente, formariam uma nação independente, algo muito perigoso para a ordem mundial. Então, outra análise com melhores argumentos conduziria a nova votação. Talvez um exame mais acurado auxiliasse a compreender melhor até mesmo outros aspectos pertinentes a questões de caráter biológico. Assim poderia ser possível compreender o que estaria ocorrendo na natureza.

O representante argentino ressaltou que algo deveria ser feito urgentemente para a manutenção do saneamento básico dos ressuscitados. A quantidade de dejetos havia triplicado e os esgotos não estavam suportando a demanda. As condições de higiene se tornariam críticas. A humanidade sofreria com uma nova peste negra. A experiência dos assentamentos locais provava isso. A reunião fora, então, prorrogada para dali três dias no intuito de se apresentar propostas para a solução.

Enquanto a reunião discutia assuntos de ordem básica e burocrática, no mundo lá fora as atrocidades contra os ressuscitados continuavam. Grupos independentes se organizavam para caçá-los literalmente, como animais. E quando agarrados, eram submetidos a todo tipo de abuso.

Era tarde, um deles surgiu vagando num bairro afastado da periferia de São Paulo. Por estar nu e sujo de terra, era fácil concluir que tinha acabado de ressuscitar. Era um homem de feições brandas, tranquilas, caminhava pela sarjeta. Parou. O integrante de um grupo antirressurreição aproximou-se e deu-lhe uma ordem pouco plausível. O coitado ficou constrangido. Outros integrantes do grupo o viram e se aproximaram. Algumas mulheres do bairro, donas de casa que não tinha nada a ver com o grupo, notaram que o homem ressurgido estava prestes a sofrer uma agressão, e então o cercaram. Pediram ao grupo agressor que o poupassem. Uma das senhoras foi então empurrada e jogada ao chão e em seguida saltaram sobre o ressuscitado e o golpearam repetidamente com pedaços de pau. Um outro integrante do grupo entrou no carro que estava estacionado a poucos metros dali, deu a partida e parou próximo do ressuscitado que se contorcia de dor. Três homens fortes ataram seus pés com um cabo de aço, prenderam a extremidade no para-choque e o motorista acelerou. O rosto do pobre homem raspou no asfalto tingindo-o de vermelho. O automóvel simplesmente partiu ao som de gritos de desespero e risadas histéricas dos que assistiam. Era incrível ver como as pessoas foram expostas ao veneno da intolerância. E não havia nenhum tipo de punição, pois, nenhuma lei fora, até então, outorgada para proteger o diferente.

A ACCR, com a anuência das Nações Unidas, omitia sua opinião quanto às ações agressivas dos grupos independentes. Quando questionada a respeito, suas palavras eram de falso altruísmo em favor de um possível equilíbrio entre os humanos e os ressuscitados. A agência internacional, com sua política interna dúbia, criou um corredor lógico para um mundo bizarro de crueldade, injustiça e incompreensão. E o departamento de direitos humanos permanecia de mãos atadas, pois, só poderia auxiliar pessoas comuns, assassinos, ladrões e psicopatas.

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