O antropólogo

Decidir a contratação de um profissional qualificado para realizar um estudo de tamanha magnitude soava impróprio na atual conjuntura. O mundo mergulhado em caos estava fechado para algo que não traria solução imediata. Primeiro o estômago depois o intelecto. Mas, sabe-se lá o porquê, tal decisão fora priorizada a despeito da opinião pública. O que se sabia a priori, é que a situação, diante da respectiva gravidade, exigia a intensificação de estudos estratégicos, os quais poderiam esclarecer e conter a onda de ressurgidos da morte de maneira inteligente e sistemática. Sem maiores traumas para a sociedade que já se encontrava desalinhada com o acontecimento.

As referências do profissional a ser contratado já eram de conhecimento do governo. A reunião final contaria apenas com seis integrantes. Cinco dos quais eram militares encarregados de assuntos estratégicos de segurança e ciência. O sexto integrante era um civil desconhecido dos cinco, e apenas ele conhecia as qualificações do cientista que faria parte do quadro da ACCR.

Lembro bem que naquele dia o clima da reunião estava tenso. A discussão iniciou em torno do que fazer diante da situação que era mais encarada como um problema epidemiológico do que um evento divino. A discussão estava acalorada e após todos terem tido a oportunidade de exporem seus pontos de vista, o sétimo integrante foi apresentado. Como o sexto integrante, ele também não tinha o nome gravado na plaqueta de identificação sobre a mesa, pois era civil:

Senhores, gostaria de apresentar o Dr. Rui Montenegro.

Cavalheiros – Cumprimentou com um leve aceno de cabeça. – E o major Nero Silva prosseguiu:

Como sabem, o Dr. Montenegro é um eminente antropólogo. Sua indicação nos chegou às mãos há certo tempo. Nosso presidente aconselhou que o colocássemos a par de nossas expectativas para solucionar o que está ocorrendo em nível mundial.

Mas em que um antropólogo pode auxiliar, afinal? – Questionou o tenente-coronel Eduardo Moura.

O senhor poderia dar-nos a palavra, doutor Montenegro? – Disse o major.

Sim, claro. Na verdade, quanto a sua pergunta a resposta é: não sei. – Todos emudeceram. A resposta simplista soou como um insulto.

O senhor poderia repetir? – Interceptou o capitão Joelmir Cunha.

Isso mesmo. Não sei em que posso ajudar. Sem que eu tenha maiores dados para me atualizar quanto às expectativas da ACCR, torna-se impossível saber o que fazer. Acredito que a minha colaboração será analisar o comportamento dos ressuscitados. Só a partir daí é que entenderemos a sua organização, a forma como pensam.

Doutor, o senhor tem conhecimento – certamente tem – sobre o que ocorre atualmente em nível mundial. – Disse o Cel. Antônio Petracca Mello.

Sim, claro que sim. E sei também que não compreendemos e não sabemos lidar com este fenômeno. E isso nos leva a concluir coisas antecipadamente.

Bem, doutor, deixe-me explicar em poucas palavras: Se a missão de conter o avanço no crescente número de ressuscitados falhar, a economia estará perdida. E mais: vamos todos perecer.

Com todo respeito, mas pensar em salvar a economia diante de fatos tão mais importantes… – O quinto participante, General Kauffmann, que observava tudo atentamente, interrompeu:

Doutor Montenegro, o semeador de cidades. – Disse em tom autoritário e potente – É bastante conhecido por abrir quilômetros de estradas pela mata adentro e que hoje, graças a isso, várias pequenas cidades surgiram. Meus parabéns! Mas voltando ao mundo civilizado, atesto que a sua colocação é lógica, porém descabida nesta reunião que tem como missão solucionar um problema de escala cataclísmica. Essa sua ausência de preocupação só pode ser explicada por uma única coisa: o senhor também tem expectativas quanto ao ressurgimento de alguém que ama muito. Estou certo?

Rui calou-se por alguns instantes, hesitou, suspirou e respondeu:

Tenho interesse próprio no método que deverei desenvolver para a aculturação dos ressuscitados.

O general, então prosseguiu:

O senhor está aqui por serviço à pátria. Como todos nós, meu caro, como todos nós. Mas pelo que também sabemos, estes seres, ao retornarem, tornam-se completamente desconhecidos, modificados, sim, esta seria a palavra. Não são mais quem costumavam ser. Retornam estupediados, sem uma organização própria, até mesmo se deixam violentar sem ao menos reagirem com um único sussurro de socorro. Um ser humano não age assim, o senhor concorda? Nem animais agem assim. Portanto, não espere que tais indivíduos corram para seus braços com a ânsia de aprenderem. O retorno da morte é frustrante e só causa, a nós humanos, profunda decepção.

Rui baixou os olhos, tamborilou os dedos sobre a mesa e retornou à conversa:

Bem, acredito que diante da advertência, tenhamos de estudá-los mais de perto. E já adianto que não ficarei restrito aos protocolos militares, pois não sou militar. Além disso, gostaria de verificar os arquivos dos estudos científicos que já foram realizados anteriormente.

Sim, todos os arquivos estarão disponíveis. – Completou o Major Nero.

Devemos ressaltar que somos pressionados pela maioria dos governos dos países da América do Sul e pela nossa política interna que, além de tudo, também tenta controlar a ação dos grupos de extermínio. Há o agravante quanto à ação de opositores que querem fazer justiça com as próprias mãos para impedir que os ressuscitados se tornem alvos de sequestros e torturas. O governo quer anunciar a formação de uma operação especial das forças armadas para impedir ações terroristas. – Disse o sexto integrante da reunião.

É, mas a explosão demográfica atingirá o nível crítico dentro de um ano. E quando isso atingir o bolso da população, e já está atingindo, ficaremos impossibilitados de conter a revolta. Por isso, um estudo criterioso será imprescindível para podermos tomar uma decisão quanto a ação mais acertada. Não temos margem para erros. Compreende, doutor? – Ressaltou o general.

Sim, claro que sim. Pretendo estudá-los profundamente. Isso será feito de acordo com os critérios científicos. Mas preciso de total acesso aos dados coletados pelos cientistas. Inclusive precisarei contatar o cientista encarregado dos estudos.

Está bem, prossiga, doutor. Espero que descubra algo que não saibamos. Temos de contê-los. – Disse o general ao bater a mão na mesa para se levantar. Com ar altivo, despediu-se dos demais e se retirou. O restante permaneceu.

Doutor, aqui está a senha do sistema. O senhor poderá ter acesso a quase tudo. Os dados sobre os pesquisadores, incluindo informações pessoais como endereço e telefones de contato estão lá. – Disse o sexto integrante sem credencial que deslizou um envelope branco sobre a mesa em sua direção. Rui estranhou. Desejou perguntar o que continha, mas percebeu um sinal de olhos para que não perguntasse nada naquele momento. Os outros nem ao menos perceberam ou pelo menos não prestaram muita atenção já que procuravam discutir detalhes sobre o novo projeto. Receoso, Rui segurou o envelope nas mãos e guardou-o na maleta que trazia consigo. Contudo, uma pergunta ao coronel não quis calar:

Coronel, os grupos de extermínio e o próprio exército não saberiam como conter a ressuscitação? As queimadas, a remoção dos cadáveres, com certeza tais procedimentos obtiveram algum resultado na diminuição da populacional deles, não é mesmo?

Não. O problema é maior do que imagina, doutor. Há corpos enterrados por toda parte, em terrenos baldios, jardins, quintais, até debaixo das camas de barracos em favelas. Atualmente, estes seres surgem de toda parte. É difícil admitir, mas perdemos o controle. – Respondeu o coronel dando uma pausa para assimilar o próprio raciocínio.

Rui baixou a cabeça e comprimiu os lábios voltando a atenção para o envelope que recebera.

Peço seu total empenho, doutor. O bom resultado desta missão está em suas mãos. Prossiga o mais rapidamente possível. – Concluiu o coronel.

Todos saíram da sala apressadamente exceto Rui. Estava imerso em pensamentos repletos de dúvidas e incertezas. Uma delas seria quanto a sua indicação para a tarefa. Teria sido ao acaso ou realmente baseada no curriculum e experiência profissional? Suas pesquisas de campo, sua devoção aos estudos comportamentais de diferentes povos primitivos. Publicações científicas de sua autoria certamente lhe renderam grande destaque, o que o tornava distinto em sua área. Aquela seria uma oportunidade única, porém exigia cuidado. Teria de lidar com o anormal. Algo que violava todos os aspectos básicos dos estudos antropológicos e sociológicos. Ao mesmo tempo, a forma como havia sido contratado…. Soava mais como uma convocação.

Estava claro que o governo queria descobrir pontos fracos de uma população de indivíduos que nem sequer eram organizados entre si. Ou pelo menos não se organizavam da mesma forma como nós. A decisão de intervir, ou não, dependeria dos dados que seriam coletados durante a pesquisa de campo. Era certo que Rui se questionava quanto à mínima interferência possível. Se não os deixassem à vontade para viverem, talvez não se comportassem espontaneamente.

Rui deixou o recinto em silêncio e pensativo. Retornou para o seu apartamento e passou a semana criando estratégias lógicas para iniciar os estudos. Certo dia, como que em um estalo, sua mente antes tempestuosa, clareou. Havia chegado a uma importante conclusão: A única maneira de minimizar os efeitos da interferência no grupo dos ressuscitados seria infiltrar-se disfarçado como um deles. Iria viver na reserva, dormir, comer e andar com eles e da maneira deles. Só assim seria capaz de entender o comportamento e a organização daqueles seres tão diferentes. Mas isso não seria simples. Como se sentem, o que pensam, no que acreditam e quais suas expectativas, enfim, tudo deveria ser estudado e catalogado criteriosamente.

Enquanto Rui se preparava para iniciar as pesquisas, o governo brasileiro enfrentava um grande problema. Diferentes grupos de extermínio começaram a se organizar. Chegaram a propor um acordo secreto com a ACCR para capturar e aprisionar os ressuscitados. Em troca, para cada cem ressuscitados capturados, dez por cento seriam de propriedade dos grupos. A proposta chegou à presidência da ACCR que imediatamente repassou de maneira sigilosa para o governo federal. Então, deu-se início a uma negociação cujo acordo dependeria da aceitação de uma taxa que seria cobrada por cabeça capturada. Além disso, os grupos se encarregariam de manter as ruas livres de assaltos, furtos e assassinatos, já que teriam outra forma de renda.

A proposta não foi aceita. Os grupos de extermínio concluíram que o que o governo pretendia era simplesmente explorá-los. Era uma proposta que para eles fugia da decência. A resposta ao governo foi: Não negociamos com gente indecente. O governo, então convocou a mídia com o argumento de que havia sido procurado por grupos de extermínio para uma rendição e em troca ninguém seria preso, mas que o governo, com pulso firme, respondeu em alto e bom tom que não negociava com criminosos.

Dois dias depois a onda de ataques à agência e agressões a recém-ressuscitados começaram. Não havia contingente suficiente para conter o horror nas ruas. Os assaltos, roubos e furtos triplicaram. O ministério da justiça convocou uma reunião e incluiu o presidente da Agência. Diante de tamanho caos, algo deveria ser feito. Em meio as agressões verbais e ameaças, o presidente da ACCR desobrigou-se da incumbência de manobrar seu contingente para uma missão de restabelecimento da paz, pois, segundo a sua opinião, aquilo era obrigação do exército.

Contudo, o representante das forças armadas, General Kauffmann, alertou que a presença do exército nas ruas representaria a total falta de controle da segurança pública, o que acarretaria sérias consequências: ao invés de uma supressão de ações criminosas, uma explosão anárquica nas ruas. Seria aconselhável agir de maneira criteriosa para manter o controle da população. Quem sabe a instalação de postos de vigilância com a bandeira da ACCR em pontos considerados estratégicos.

Por fim, esta ideia foi considerada viável. Mas não deixaria de ser uma tentativa. Caso não funcionasse e em último caso, o exército deveria intervir. De modo geral, acreditei que aquilo funcionaria mais como uma saída política conciliatória do que uma solução realmente viável. Após a reunião, o ministro se aproximou do presidente da ACCR o qual, sob uma saraivada de indiretas e pressões de toda sorte, já estava resignado a entregar sua carta de afastamento do cargo. Num cochicho próximo ao ouvido, o ministro disse:

Sei bem o que pensa. Pular fora agora não. Mas fique alerta, pois, nem sempre as conciliações resultam em segurança de emprego. Algumas coisas serão revistas quanto a sua atividade na ACCR.

Uma clássica e direta ameaça. Algo levado a sério pelo presidente da ACCR que tinha seu colarinho branco manchado de suor que lhe escorria do rosto. Foi, então, que retribuiu com o seguinte comentário:

Ministro, este não é o momento para desavenças pessoais, mas diante da sua colocação, devo lembrá-lo que surgirão planos e estratégias que estarão além do seu controle. Controle este que, em seu ministério, nunca existiu.

De cenho fechado, o ministro se retirou da sala de reuniões. Os demais também deixaram a sala com a sensação de vazio, provavelmente devido à impotência diante do fenômeno que continuava a desafiar a lógica e a colocar o mundo numa das piores situações já enfrentadas. Nem mesmo as guerras mundiais e crises internacionais chegavam perto do que estaria por vir.

A ACCR-Brasil deve sua fundação à Organização das Nações Unidas. E a própria agência acabara de ter uma corda prestes a ser colocada no pescoço. Seu presidente teve de assumir, juntamente com o governo federal a instalação de postos de vigilância. Seriam milhares espalhados por todo o país. Havia certa tensão por parte das forças armadas, que se sentia submissa à agência. Este embate, apesar de sutil e não declarado, despertava a desconfiança do general Kauffmann. A situação tornou-se semelhante a uma guerra fria. Ou a agência poria o plano para funcionar ou o Conselho Mundial não forneceria condições financeiras nem apoio logístico. Tudo iria por água abaixo e os ressuscitados tomariam conta do mundo.

E o governo contava com a população, que era induzida a colaborar na monitorização de novos ressuscitados. O repasse da responsabilidade para os cidadãos civis era a garantia do bom funcionamento do plano de captura (delatores em nome da pátria). Em nova entrevista, o presidente da ACCR buscou reafirmar o papel da agência:

O auxílio da população é imprescindível. Por isso, ensinamos a todos o exercício da verdadeira cidadania em situação crítica como esta. É importante esclarecer que nós existimos para tomar atitudes no sentido de não deixar coisas como esta sair do controle. Lembremos que a economia mundial é também de nossa responsabilidade, pois, se evitarmos que a superpopulação aconteça, não haverá crise.

Mas o mundo começava a mostrar sinais de agonia. O presidente brasileiro, depois de relutar em admitir, reconhecia o fenômeno da ressurreição como o causador do “tsunami populacional” (até aí sem novidades). Que os países ricos aproveitavam da situação para especular financeiramente ao invés de assumirem uma postura altruísta. O mundo ficou perplexo com a tal declaração, pois o presidente do país baseava-se no relatório emitido há dois dias pelo departamento estatístico da ACCR que descobriu que um milhão de ressuscitados precisavam de alimentos e roupas. O chefe da ONU para questões humanitárias pediu que os países ricos se cotizassem para ajudar a população de ressurgidos da morte.

A Subsecretaria Geral da ONU para Assuntos Humanitários esteve também em Israel, país bastante afetado pela superpopulação. O que vira surpreendeu e até a sensibilizou: cerca de um milhão e duzentos mil ressuscitados caminhavam pela reserva local em total estado de penúria. Também não havia alimentos e nada o que vestir. O governo israelense não queria se responsabilizar visto a prioridade era garantir a sobrevivência dos vivos. A secretária de Estado ventilou em reunião que o governo poderia, dentro de alguns dias, solicitar a ajuda do FMI para suprir os cofres públicos, não para ajudar os ressuscitados, mas como garantia da população.

Um jornalista brasileiro teve a oportunidade, enquanto cobria uma matéria em Israel, de visitar a reserva:

Entrei na reserva e tudo estava muito quieto. Quase todos os ressuscitados estavam deitados. Alguns poucos perambulavam fora dos alojamentos. Mas todos quietos. Estavam nitidamente fracos, malnutridos e pareciam distantes. Ironicamente, a forma como a ACCR israelense tratava os ressuscitados, lembrava mais um campo de concentração. Olhei em torno e percebi que nas paredes externas dos alojamentos havia buracos de balas. Presumi que fossem vestígios de ataques de grupos antirressurreição que proliferavam muito no país. Não havia uma parede sequer que não estivesse perfurada.

Em relação a tais reportagens, o governo não se pronunciou. A ONU prometeu apresentar um relatório o quanto antes para agilizar o pedido de auxílio. Em coletiva o representante disse:

Precisamos entender que esse povo, apesar de se regenerar e não adoecer, fica fraco e improdutivo. Precisamos incluí-lo o quanto antes na frente de trabalho para que possa garantir o sustento. Caso contrário, a economia mundial não suportará. Além da ajuda, o apoio psicológico e a melhor compreensão sobre eles, tenho convicção disso, facilitará nossa comunicação. E lembremos de uma coisa: o problema em si não é somente de ordem alimentar, mas também de infraestrutura, pois, temos que acomodar esta população, situação bastante delicada. Temos uma população mundial carente precisando de moradia…

De volta ao Brasil, a reunião entre o ministro, o presidente da ACCR e o general Kauffmann resultou no envolvimento também do ministro do planejamento para a análise e autorização de abertura de um concurso público para o recrutamento de oito mil e trezentos novos agentes. O ministro assinou à toque de caixa a autorização. Os novos agentes atuarão em território nacional. Os aprovados deverão ser inseridos no programa de treinamento intensivo de noventa dias. Detalhes quanto a remuneração, benefícios e áreas de atuação serão publicados no Diário Oficial em até cento e oitenta dias após os resultados do exame.

A notícia circulou pela mídia o que provocou a ira dos grupos antirressurreição que crescia com cerca de oitenta novos adeptos diários. O crescimento dos grupos era justificado com alegações cada vez mais elaboradas. A mais atual estava embasava na intolerância quanto a massiva contratação dos agentes. Isso oneraria o orçamento da união. Não era justo gastar tanto dinheiro com “vagabundos desocupados.”

O movimento rompia barreiras. Já havia comunicação organizada entre grupos internacionais. O plano era determinar uma medida profilática contra a ressurreição. A ideia consistia em que todos, ao morrerem, deveriam ser cremados. A proposta tenderia a se tornar lei quando o presidente tirano de um país africano faleceu. Ele fora odiado pela população por muitos anos. Após sua morte, aos setenta e oito anos, há cerca de seis meses, a população temeu seu retorno. Seu corpo foi exumado e cremado por ordem do vice-presidente que assumiu o poder em seu lugar. De certo foi uma manobra política para reconquistar a simpatia do povo.

Outro argumento dos grupos era o de parar a onda de suicídio como aquele que ocorreu na Grécia, no qual um aposentado, por ter sua pensão reduzida devido à crise, suicidou-se em praça pública. O senhor acabou deixando uma carta com a respectiva explicação:

Espero voltar sim. Mas desta vez, sem a necessidade de fuçar o lixo a procura de comida. Tenho setenta e oito anos, doente e aposentado. Depois de tudo o que já fiz para ajudar minha pátria, é assim que ela me retribui.”

O suicídio desencadeou manifestações por todo o mundo, recriminações e debates públicos que resultou num confronto entre grupos antirressurreição e seus oponentes. Em meio a condolências e cólera, o primeiro-ministro britânico expressou seu pesar:

Em tempos de crise, diante de um fenômeno que nos desafia, é difícil para o país intervir na vontade divina.

Desta vez a constituição grega, a Syntagma, não conseguiu proteger o direito do cidadão. A ressurreição abalou todas as estruturas legais e constitucionais. Mas sempre há o reverso da moeda. No Brasil, grupos de proteção aos ressuscitados, pressionam o governo para garantir, pelo menos, o poder de escolha: ressuscitar ou cremar. Uma polêmica que fora desencadeada graças a história de uma mulher humilde, moradora de rua, que enfrentou o supremo tribunal da justiça e conseguiu o direito de ser enterrada mesmo que a lei de cremação viesse a ser decretada.

Outra seguiu seu exemplo e conseguiu a garantia da lei para que seu filho natimorto pudesse ser enterrado para retornar saudável. O caso foi o seguinte:

Maria estava internada no hospital público de sua cidade, no interior na Bahia já a dois dias. Foi uma gravidez difícil e na vigésima semana de gestação, a equipe médica notou que o feto não mais apresentava batimentos cardíacos. Este seria o gatilho que acionaria o vai e vem a tribunais e hospitais. Ela de um lado, querendo garantir o enterro apostando no retorno do bebê. Do outro, a pressão social de cremar o feto. Até que, enfim, ela ganhou a causa e teve seu filho enterrado em lugar que não foi divulgado para garantir que a sepultura não fosse violada por grupos antirressurreição. Mesmo tendo obtido sucesso, seu semblante era um misto de tristeza e incertezas. Até o padre da paróquia onde frequenta ouviu, em confessionário, sua dor e expectativa. Nem mesmo os conselhos do sacerdote foram capazes de demovê-la de sua ansiedade agoniante.

De certo a história não esquecerá o dia em que Maria se encontrou frente a frente com os ministros do supremo tribunal. Na sua cabeça era o mesmo que estar diante de deuses. E estes decidiriam sobre o seu querer. Foi uma audiência solitária, cheia de argumentos abstratos cuja única base era o desejo de ter seu bebê de volta. O assunto parecia estar mais focado no medo da reação pública do que na dor de uma mãe. Enfim, só o que restou a ela foi esperar. Seriam sete anos de angústia até ver a terra parir o que Maria não pôde. Só assim sua dor, a dor de um parto interrompido poderá se esvair.

A abertura de precedentes provocou uma multidão de mulheres que perderam o medo de terem filhos malformados. Se antes a recomendação era a de se evitar abusos durante a gravidez, mulheres viciadas e alcoólatras davam à luz sem se importarem mais. Uma delas disse a um jornal: – Pra que parar de me divertir? Que se ferrem as toxinas. Se nascer com defeito eu mesmo mato e enterro. A ressurreição soluciona tudo. Aí sim o bebê vai voltar direitinho.

Dezenas de mulheres estão mesmo seguindo o que dizem. A ação de uma delas foi flagrada por uma câmera quando enforcava o próprio filho recém-nascido. Por sorte um vizinho estranhou e chamou a polícia. Ela foi presa e o bebê levado para o hospital, mas não resistiu. No entanto, por uma ação judicial, a criança foi cremada.

Grupos antirressurreição se aproveitaram do caso para motivar um levante. Um atirador chinês, que se dizia pertencente a um grupo do país, matou vinte e três mulheres grávidas e prometeu atear fogo em seus corpos. Foi um crime chocante cujo alvo foram pessoas que por seu estado, sempre foram poupadas até mesmo por bandidos da pior espécie. O crime ocorreu na manhã de uma quarta-feira. O atirador solitário posicionou-se sobre um edifício de uma das ruas mais movimentadas de Beijing e com um rifle equipado com mira telescópica, selecionava as vítimas e atirava. Ele disparava dois tiros, o segundo sempre como garantia. Era um na cabeça e o outro no ventre. Tudo aconteceu muito rápido. A polícia teve dificuldades de localizá-lo. Ao ser capturado, o atirador declarou que seu objetivo era garantir que o mundo não se sufocasse no próprio lixo: “A vida deve seguir seu fluxo normal; nascimento, vida e morte. É assim que deve ser. Eu vou botar ordem no caos.” – Disse repetidas vezes. O massacre chocou os chineses. Nenhum grupo antirressurreição assumiu os assassinatos. O chinês atirador, em nenhum momento se disse arrependido. A polícia certificou-se de que o assassino não estava sob o efeito de qualquer tipo de droga. Um grupo antirressurreição postou a seguinte frase na internet:

É assim que tem que ser: determinação, senso de limpeza e bom de mira. Se alguém achou isso injusto, nós dizemos que injustiça é estarmos à beira da calamidade, quase sem alimento, e esse monte de mulher parindo esses monstrinhos. Vão viver de quê? Têm que morrer mesmo.

A ferida que gente assim deixava na sociedade era profunda. Se os grupos temem o colapso, os economistas afirmam que ele é iminente. Um famoso cientista econômico alertou que suas previsões dificilmente falharão caso o mundo permaneça com a curva demográfica ascendente, a crise se tornará crônica e não haverá mais possibilidades de revertê-la. No entanto, aquilo soava como óbvio. Mas era de se convir que tal alegação vinda dele, a coisa se tornava algo muito mais importante, era praticamente um fato consumado.

Numa conferência realizada recentemente, outro economista, Ebraim Klein, foi a atração. Um assessor seu preveniu os jornalistas para que, durante a exposição, não o interrompesse, pois isso poderia irritá-lo a ponto de abandonar o evento tão esperado até mesmo pelas autoridades políticas.

Ebraim sempre foi famoso por apostar e ganhar muito dinheiro com a imprevisibilidade dos mercados emergentes e os grandes choques provocados por pacotes econômicos. Um apostador na crise global. Esta próxima crise, em sua opinião, aconteceria em pouco tempo e seria diferente, pior, em comparação com as crises mundiais já vistas.

Seres humanos são imprevisíveis. Aprendi a ganhar dinheiro com esse comportamento. Montei um sistema baseado em previsões. No caos, posso prever se um mercado entrará em colapso. Confesso que agora a situação merece mais atenção, mas no fundo é apenas mais uma crise. O problema é que, quando temos um novo problema, sentimos dificuldades em lidar com ele, pois, não o conhecemos. Isso cria a ilusão de que ele durará para sempre. Mas à medida que nos acostumamos e nos adaptamos, podemos contorná-lo e vencê-lo. Sim, será um momento difícil para a humanidade, mas deveremos aprender a ganhar com isso.

A interrogação foi geral: “Como?”

E a resposta veio de imediato:

Fato grandioso como o da ressurreição certamente é negativo para a nossa sociedade, mas ele também pode ser positivo.

A afirmação não foi nada esclarecedora, aliás, acabou gerando mais dúvidas, algumas personalidades presentes chegaram até duvidarem da aclamada fama do economista. O silêncio coletivo exigia um maior aprofundamento na ideia que soou como algo impossível. Não se deixando abalar e como sabendo que causaria este impacto, continuou:

Senhores, senhores, homens de pouca fé, diante do fenômeno do imprevisível, a melhor estratégia é esperar e ficarmos prontos para o pior. Quando a tragédia chegar, tudo o que é frágil se estilhaça.

Em suma, Ebraim explicou que um sistema econômico global, ao ser interferido por algo imprevisível, sofre grandes perdas. Certamente isso deveria ser evitado com novas estratégias, principalmente aquelas não ortodoxas. Um sistema criativo ganha com as turbulências e melhora com a desordem.

Para se evitar a demanda reprimida, a solução seria a não exclusividade em nada, mas sim a globalização de tudo. O Brasil deixaria de ser o proprietário de suas produções agrícolas, o continente africano deveria se tornar a fazenda do planeta, nenhum país tecnológico deteria a patente de seus equipamentos, produtos ou medicamentos e a moeda retida por países ricos teria de circular livremente para fluir e equalizar a economia mundial.

Esse foi um conceito que caiu feito uma bomba atômica. O ruído que suas palavras provocaram, ardiam como ácido a escorrer pelos ouvidos. Senti o ar denso. Ouvi alguém gritar lá no meio da plateia agitada:

Isso cheira a comunismo!

Todos se calaram no aguardo de uma resposta.

Sim, senhores; sei bem disso. O comunismo foi um erro. Porém, estamos num mundo diferente, assolado por um fenômeno que nenhum de nós consegue controlar. Nesse caso, a união de forças e mentes férteis torna-se necessária. Não estamos mais brincando de sermos iguais, estamos buscando equalizar forças, o que é bem diferente. No comunismo, o poder continuava a existir nas mãos de poucos. Nesse caso, agora, o poder estará nas mãos de qualquer um.

E ele finalizou:

Vejo um erro. A ACCR detém um enorme poder. Temo que isso seja perigoso para o mundo. Ela, a agência, não pode influenciar nas decisões governamentais, mas ela se tornou uma referência para qualquer decisão a ser tomada. Insisto que os esforços e recursos financeiros sejam efetivamente globalizados. Deve haver uma descentralização do poder para que sejamos capazes de sobreviver à crise que está por vir.

A conferência terminou em meio a uma grande polêmica e críticas. Os líderes das nações americanas se reuniram na semana seguinte, na cidade de Cartagena das Índias, na Cúpula das Américas para discutirem o que ouviram na conferência. Assunto não lhes faltou.

Ao contrário das expectativas, a economia latino-americana não estava tão mal em relação ao resto do mundo. A ideia de globalizar as finanças soava absurda. E isso tudo por causa de um fenômeno que estava enterrando o planeta em superpopulação. Isso era impossível de ser concebido. Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela, todos, tomaram medidas para não deixarem suas manobras políticas tão expostas. A imprensa foi tolhida de sua liberdade. Somente assuntos levianos e receitas culinárias tinham a autorização de serem publicados. O véu da ignorância caiu sobre a população.

Em virtude disso, os grupos antirressurreição daqueles países começaram a usurpar a paz e a ordem. Os jornais não mais os denunciavam. A caça aos ressuscitados tornou-se ainda mais intensa. Um comércio espúrio e nojento. Esses indivíduos eram simplesmente vendidos para dissecação, vivos, e outros para servirem de objetos da mais profunda podridão humana.

Os ressuscitados eram selecionados por idade e porte físico, e então, confinados como animais. Dependendo da demanda do dia, eram abertos a sangue frio para terem seus órgãos removidos. Depois agonizavam até que o novo órgão (ou órgãos) surgisse para uma próxima remoção. Um fígado chegava a custar cento e cinquenta mil reais.

Tais práticas chegavam ao paroxismo da loucura. Agentes chegaram a afirmar que ressuscitados eram encontrados em locais onde se praticavam magia negra. A pele de seus rostos era totalmente removida, e então, permaneciam amarrados em profunda agonia até que tivessem suas faces regeneradas.

A impunidade e a falta de uma lei reguladora transformavam tais atitudes em práticas comuns e crescentes, principalmente por atrair muito dinheiro. A demanda por trabalhos de magia negra aumentava e rendia ao religioso, segundo fontes sigilosas, cerca de vinte a cinquenta mil reais por semana.

Diante de tais fatos, a ACCR somente procurava enxugar o gelo em meio a uma exploração hedionda como esta. Alguns pensavam que haveria uma esperança quanto ao surgimento de acordos internacionais para determinarem leis que atuassem fortemente contra aquela barbárie.

No entanto, só foram proferidas palavras bonitas e alguns foguetórios ideológicos que não chegavam a lugar nenhum. Na reunião anterior da Cúpula das Américas, das trinta nações convocadas, somente duas monopolizaram o debate que girou em torno dos problemas sociais atribuídos à ressurreição. Creio que o problema não seria cutucado com vara curta, pois, surgia um promissor mercado paralelo antropofágico que garantiria a circulação de dinheiro e entrada de recursos não só ao Brasil como aos demais países. A reunião não passou de um mero happy hour.

E como será o futuro?

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