Luzi em casa e na escola

Aquela manhã seria diferente. Luzinete foi a primeira a acordar. Saiu da mochila e voou até a cama onde Nathan dormia preguiçosamente. O sono profundo foi interrompido pelo agitado bater de asas de Luzi.

Já sei, já sei. Tenho que levantar-me — disse o menino com a voz meio enrolada. Ainda com os olhos fechados e tateando a parede, ele era sacudido por Luzinete para que não perdesse a hora. — Puxa! Você parece mais ansiosa que eu. Ainda bem que ninguém vai te ver. Eles te achariam bem estranha.

Nathan lavou o rosto, penteou a cabeleira fina e loira, escovou os dentes e correu para o quarto da mãe para se despedir, como fazia todas as manhãs. (Ah! Ele também não tinha o costume de tomar café da manhã.)

Ao abrir a porta do quarto de Lúcia, Luzinete parou.

Venha, Luzi. Não fique aí parada. Venha conhecer minha mãe — disse ele baixinho, andando nas pontas dos pés. Mas Luzinete, branca e com os olhos arregalados, não quis entrar.

Nathan subiu na cama e beijou a testa da mãe. Lúcia arregalou tanto os olhos que eles quase saltaram das órbitas e, ao invés de olhar para o filho, ergueu a cabeça e olhou para a porta, exatamente para onde Luzinete estava. O menino estranhou, mas não deu muita importância. Lúcia fechou os olhos e sem dizer nada, deixou a cabeça despencar no travesseiro.

Vamos, Luzi — chamou Nathan ao passar por ela. Ainda com os olhos arregalados e cheia de medo, Luzinete voou rapidamente e mergulhou no bolso da blusa do menino. — Que coisa! Pare de tremer. Tenho cócegas — disse Nathan, sem entender o porquê ela se comportava daquele jeito.

A escola ficava a algumas quadras de distância. Após se recompor, Luzinete teve o vislumbre de um ambiente totalmente diferente. Assim que chegaram à escola, maravilhou-se com o vaivém de alunos. Saiu imediatamente do bolso de Nathan e flutuou por entre os grupos de meninos e meninas. Prestava atenção nas conversas e ficou confusa com a diferença de assuntos. Enquanto as meninas falavam de coisas mais delicadas, os meninos faziam competição de arrotos e palavrões sofisticados que faziam a orelha de qualquer um arder. Luzinete concluiu que as meninas tinham assuntos mais agradáveis. No entanto, apesar da grosseria, sentiu-se atraída pelos meninos.

Enquanto ela esvoaçava de um lado para o outro, Nathan correu para a sala de aula. Em seguida entrou o professor Germânio, um homem não muito alto, cabeludo que a todo o momento empurrava para cima do nariz os grossos óculos de armação preta. Suas bochechas eram avermelhadas como se estivesse sempre com raiva de alguma coisa.

Nathan conteve a gargalhada quando viu Luzinete, bem atrás do professor, a imitar seu jeito de andar. Por ser também redondinha, ela inclinava o corpinho para trás evidenciando a barriga, exatamente como a do professor Germânio. Suas pernas curtas e grossas não fechavam nem tampouco flexionavam, o que lhe dava um andar característico. Depois da gracinha, ela voou de volta para o ombro de Nathan.

Bem, pessoal, abram o livro na página quinze. Veremos um pouco de ciências — disse o professor Germânio, encaixando os óculos sobre o nariz e a enxugar o suor do rosto.

Luzinete, já entediada, decidiu volitar por entre as carteiras e bisbilhotar o que os alunos faziam. Sobrevoou a carteira de Carlos e viu que ele brincava com um jogo eletrônico escondido atrás do livro. Seguiu para a carteira ao lado e se deparou com Alberta desenhando flores de todos os tipos e cores na capa do caderno. Mais à frente, Vânia escrevia um bilhetinho de amor para Fábio.

Ao voar para o fundão da classe, setor obscuro, viu Bolão, o mesmo que dera um peteleco em Nathan por causa do salgadinho. Preparava-se para armar mais uma emboscada. A vítima: advinha… Nathan.

Ei, Chumbinho, vamos pegar aquele babaca no final da aula — cochichou e apontou para Nathan. — Vamos nos divertir um pouco. Faz tempo que não treino meus punhos. Quem sabe ele aprenda a não roubar mais as coisas dos outros. – Luzinete ficou muito nervosa. Decidida a defender Nathan, usou seus poderes de mover objetos a distância. Com um comando mágico, os cadarços dos tênis do Bolão e do Chumbinho amarraram-se às pernas das respectivas carteiras.

O professor Germânio, então, começou a chamar os alunos para a frente da classe para que apresentassem as pesquisas feitas em casa. Logo chegou a vez do Bolão.

Por favor, Edgar, venha expor sua pesquisa.

Bolão, com muita má vontade, levantou-se, pegou o caderno todo amassado e sujo e deu um passo à frente. Seu pé grande arrastou a carteira e esta acabou enganchada na da frente. Bolão se atrapalhou, perdeu o equilíbrio e foi para o chão. A classe toda caiu na gargalhada. O garoto ficou vermelho feito um pimentão. Levantou-se, sacudiu a poeira e virou-se para desamarrar o cadarço. Desequilibrou-se outra vez e caiu novamente. Chumbinho gargalhava.

Quem fez isso? Por favor, apresente-se ou a classe perderá um ponto na média — disse o professor Germânio, muito bravo. Todos os alunos ficaram calados — Ninguém? Muito bem, considerem menos um ponto na média.

Senhor Hélio (esse era o nome do Chumbinho), enquanto o senhor Edgar tenta se organizar, por favor, venha expor seu trabalho.

Justo eu, professor?

Sim, senhor. Venha aqui.

Chumbinho levantou-se e, ao dar o primeiro passo, travou. A carteira também estava amarrada à sua perna. O garoto caiu bem no colo de Mari. A menina soltou um grito e deu-lhe um empurrão. Ele foi parar de cara no chão. Foi aquele alvoroço.

Depois da bagunça e vários pontos negativos, finalmente chegou a hora do intervalo. Como sempre, Nathan estava faminto e a merenda naquele dia deveria estar uma delícia. Mas a fila era grande e a fome maior ainda. Não quis esperar. Tirou um pão duro que ele sempre deixava de reserva na mochila. Luzinete observou que alguns alunos comiam sanduíches deliciosos que suas mães tinham preparado. Aproximou-se, então, de Nathan e vibrou algumas vezes. Parecia dizer algo contra seu pão seco.

Eu sei, Luzi, estou acostumado. É só não olhar para o lanche dos outros e imaginar que estou comendo aquilo que tenho vontade. Já-já vou tomar a minha merenda. Dá um tempo.

Luzinete vibrou e brilhou a cor laranja. Nathan entendeu que aquilo era uma pergunta: — Do que eu gosto? Bem, outro dia um menino me deu um pedaço do lanche dele. Achei delicioso. Era de peito de peru com alface e queijo num pão super crocante.

Ela fechou os olhinhos e suas cores começaram a variar, até surgir uma nuvem colorida maravilhosa. A mão a qual Nathan segurava o pão subitamente formigou e esquentou. O pão seco que o menino segurava foi ficando diferente, meio desfocado. De repente, surgiu o sanduíche que o menino acabou de imaginar.

Como pode? Como você fez isso?

Faminto, o garoto deu uma abocanhada.

Que delícia! — Exclamou de boca cheia.

Enquanto mastigava com vontade, Nathan notou lá adiante um de seus amigos meio cabisbaixo. Correu até lá e sentou-se ao seu lado.

Você está muito quieto hoje — disse Nathan, deliciando-se com o sanduíche.

É mesmo. Acho que não tenho muita sorte — respondeu Gabriel.

Aconteceu alguma coisa?

Uns caras roubaram meu lanche. E ameaçaram se caso eu tentasse entrar na fila da merenda.

Quem foi? — Indagou Nathan, com a boca cheia.

Bolão e o Chumbinho. Eles sempre fazem isso.

Não tem problema. Meu lanche é bem grande. Podemos dividir.

Gabriel ficou surpreso e ao mesmo tempo envergonhado. Sem demora, Nathan dividiu o sanduíche. De barriga cheia, riram muito ao lembrarem de Bolão e Chumbinho enroscados nas carteiras. Porém, lá de longe, os dois, à espreita, planejavam armar uma emboscada para Nathan.

Aposto que estão rindo da gente. Quero socar aquele babaca! Nunca gostei dele — disse Bolão, com cara de valentão. Chumbinho mais que depressa concordou.

Na saída da escola, Luzinete se deliciava ao ver Nathan rindo sem parar. Era a primeira vez que aquele rostinho deixava transparecer a alegria da infância. Mas Bolão e Chumbinho o surpreenderam no meio do caminho de casa.

Então, mané. Tá rindo do quê?

Nathan baixou a cabeça e com voz trêmula, disse:

Bolão, não quero encrenca. Pra que brigar? Você sabe que é mais forte do que eu. Isso já não basta?

Viu, Chumbinho? O babaca já reconhece quem é o melhor. Claro que sou mais forte. E por isso mesmo é que eu quero sentir sua cara amassada na minha mão. E o primeiro que vai te acertar é o Chumbinho.

Por essa o amigo não esperava. — Eu? Mas… – Na verdade ele mais apanhava do que batia. Faltava-lhe até um dos dentes da frente, por causa de um soco dado por um menino do primeiro ano.

Vai aí, Chumbinho. Soca a cara do trouxa.

Meio sem graça, o garoto ergueu a mão, e do nada, sentiu uma forte cãibra. Os dedos entortaram. Nathan achou estranho, mas aquilo só significava uma coisa: Luzinete. O menino gritava de tanta dor que até deixou Bolão meio assustado.

Que é isso? O que deu em você? Já sei, é ele. É você, não é? Aposto que tem olho gordo. Minha mãe sempre me disse para ficar longe de gente assim. — E encarou Nathan com olhos assustados.

Para evitar um fiasco maior, Bolão decidiu dar cabo da tarefa.

Já que ele não te acerta, acerto eu. — Como um touro bravo, o grandalhão cerrou os dentes, soltou o ar pelas ventas e partiu para cima do pobre menino. Ao correr, seus pés batiam no chão como bate-estacas. Nathan encolheu-se todo, esperando a colisão. Faltavam três passadas para Bolão esmurrar Nathan quando Luzinete fez aparecer uma pedra no caminho. O metido a brigão tropeçou e deslizou de barriga no cimento áspero.

Bolão e Chumbinho, ambos machucados e doloridos, fugiram sem olhar para trás. Nathan suspirou aliviado e perguntou: — Luzi, como você fez isso? Foi demais! — Ela simplesmente fechou os olhinhos em arco e piscou várias cores, em sinal de alegria. E às gargalhadas os dois voltaram para casa.

Ao chegarem, Nathan deixou a mochila no quarto e foi ver a mãe. Luzinete não desgrudava dele nem um minuto. Mas outra vez, recusou-se a entrar no quarto. O garoto insistiu para que ela parasse de esquisitice e fosse conhecer sua mãe: — Luzi, venha. Por que não entra? Ela não vai brigar com você. Aliás, só eu posso te ver, não é mesmo? Venha. — Após muita insistência, ela concordou.

Nathan fechou a porta e Luzinete colou nele.

O que há com você, Luzi? Pare de tremer. Tem medo de quê?

Apesar do dia ensolarado, a cortina grossa da janela bloqueava a luz do sol. A pálida luminosidade do abajur mal delineava os contornos do corpo de Lúcia, que dormia profundamente. Um súbito remexer na cama deixou Luzinete mais tensa. À medida que o garoto se aproximava, mais inquieta Lúcia ficava. Ela normalmente permanecia na mesma posição por horas, mas dessa vez algo a incomodava. Nathan aproximou-se vagarosamente para não assustar. Dessa vez Lúcia se virou e o lençol cobriu-lhe o rosto. Para beijá-la, Nathan pretendia puxar o tecido delicadamente com as pontas dos dedos. Quando se aproximou mais, subitamente ouviu uma espécie de rosnar. O garoto achou que a mãe estava roncando. Mas aquilo soava mais a um cão bravo. Luzi começou a brilhar as cores amarela e vermelha. O garoto ficou confuso e ignorou o alerta. Num gesto rápido, puxou o lençol. Aterrorizado, não conteve o grito:

MÃE, O QUE HOUVE COM VOCÊ?

Lúcia estava deformada. Parecia um monstro. Seus olhos arregalados quase saltavam das órbitas, dentes arreganhados e mãos contraídas que se assemelhavam a garras. O menino recuou para o canto do quarto, protegendo o rosto para não ver aquela aberração. Lúcia estendeu a mão para tentar agarrar Nathan, mas Luzinete se colocou entre os dois. Foi quando ele teve a visão mais estarrecedora que alguém poderia ter. Servindo como uma lente, Luzinete ficou transparente e revelou a causa da terrível transformação de Lúcia.

Perto dela, havia um ser, semelhante a um lobo, de pelos negros e espessos. Estava zangado com a presença de Luzinete e a ameaçava com dentes enormes. Nathan recuou aos tropeços para se proteger.

Temos que salvar minha mãe!

O problema, no entanto, era muito maior. Luzinete ampliou a visão do garoto. Ele viu que no pescoço de Lúcia havia um cordão azul, cintilante e que a mantinha presa ao monstro. Se Lúcia tentasse reagir, o monstro sugaria sua energia, deixando-a ainda mais fraca.

Nathan não sabia se fugia ou lutava contra aquele ser. De repente, aqueles olhos vermelhos como sangue travaram no garoto. Seu rosnar e sua horrível voz saía pela garganta de Lúcia, que, enfraquecida e sonolenta, não tinha consciência do que acontecia. Desesperado e com medo de perder a mãe, o menino gritou para Luzinete:

O QUE FAREMOS?

Luzinete encheu-se de coragem, flutuou até o teto do quarto e bateu asas numa velocidade incrível. Parecia um beija-flor. Seu corpinho ficou violeta e, quando ela apertou os olhinhos, emanou um forte brilho dourado. Em seguida, uma chuvarada de gotículas de luz, que caíram sobre Lúcia e a besta enraivecida. Um grito horrível, seguido de um longo e alto uivo deixaram Nathan apavorado. Lúcia deixou escapar um berro doloroso e desmaiou.

O menino, pálido e boquiaberto, viu Luzinete voltar lentamente ao seu brilho normal. Mais do que depressa, ele voltou-se para a mãe, que estava retorcida sobre o lençol.

O que foi que fez, Luzi? Por que brilhou tanto?

Luzi ficou transparente e mais uma vez se colocou entre ele e Lúcia. A criatura sumiu. O menino num só pulo alcançou Lúcia e a segurou pelos braços. Ela respirava ofegante e mal conseguia falar.

Vamos deixá-la descansar — sugeriu o menino ainda impressionado. Ambos saíram em silêncio. Logo depois, já em seu quarto, Nathan não conseguiu conter a curiosidade.

Luzi, o que foi aquilo? Que ser estranho era aquele? E por que ele estava ligado à minha mãe?

Incapaz de falar, Luzinete ergueu as sobrancelhas e pousou suavemente sobre o ombro direito de Nathan. Roçou seu corpinho em forma de ovo no rosto do menino para confortá-lo. Mais parecia um gatinho procurando amenizar a situação.

Passados dez minutos, Nathan ouviu passos e três batidas na porta do seu quarto. O coração do menino quase saltou pela boca. Não era hora de suas irmãs chegarem, portanto, não deveriam ser elas. Tratou de cobrir a cabeça com o cobertor e se encolheu. Então, ouviu o ranger da porta se abrindo lentamente. Passos vinham em sua direção. Já estava perto e Luzinete, escondida junto com o garoto, começou a tremer. Isso deixou Nathan mais nervoso ainda. Sentiu alguém segurar o cobertor. “Será que o monstro voltou?”, pensou o menino paralisado. De rosto para a parede, sentiu o cobertor ser puxado bem devagar. Nathan apertou os olhos, prendeu a respiração, contou a até três e virou-se para encarar seja lá quem fosse.

Oi, meu filho amado. — Nathan não acreditou no que viu. Esfregou os olhos para ter certeza de que não era uma alucinação.

Mamãe! — Exclamou cheio de emoção.

Sim, meu querido. Não sei o que me deu, mas de repente senti uma alegria enorme, que há muito não sentia. Tive força até para sair da cama. — Lúcia estava bem e de seus olhos carinhosos emanava a luz de alguém que há muito ansiava pela cura.

Nathan pulou no colo dela e chorou de felicidade. Ela também não conteve as lágrimas. Luzinete voava ao redor dos dois piscando todas as luzes de alegria. Lúcia, feliz como nunca, foi à cozinha e preparou um bolo de baunilha coberto com chocolate. O garoto custava a acreditar no que via. Já era final de tarde quando Inês e Kátia chegaram. Ao abrir a porta, estranharam o som da conversa e o cheiro de bolo na cozinha. Imaginaram que pudesse ser uma visita.

Huum! Que cheiro delicioso de bolo! Quem fez? — Perguntaram as duas. Ambas reconheceram os risos de Lúcia e Nathan. Sem acreditarem no que ouviam, largaram as bolsas e sacolas no sofá e correram para a cozinha. Lá estava Lúcia, de pé, sorridente, contando coisas engraçadas.

MAMÃE! — Gritaram as duas, explodindo de felicidade.

As três se abraçaram e choraram. A partir de então, as coisas mudaram. E Nathan ficou grato a Luzi, pois ela salvou sua mãe do mal que a manteve doente por tantos anos.

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