A mudança

Alguns dias se passaram depois que Eneida recebeu a inesperada notícia da mudança. Maximiliano estava realmente decidido. Não havia nada que o fizesse voltar atrás. Eneida fora proibida de questionar. É claro, com um marido tão poderoso, quem seria ela para fazê-lo. Contudo, nem Dominica conseguia engolir tal ideia:

— Mamãe, por que temos de sair daqui? Para onde vamos?

— Ah, querida, é assim que o papai quer. Passaremos um tempo num lugar afastado. – Respondeu Eneida enquanto remexia a gaveta de roupas da filha.

— Lá tem parquinho, cinema, shopping?

— Não, filha. Seu pai mandou construir várias casas e um pequeno hospital. É, acho que terá um parquinho também.

Enquanto conversavam, Dedé, calada e cabisbaixa, ajudava a fazer as malas de Dominica. Eneida notou seu silêncio e perguntou:

— Aconteceu alguma coisa?

— Como, senhora? – Respondeu Dedé numa sacudida, como quem está totalmente mergulhada em pensamentos distantes e é despertada subitamente.

— Parece triste. Não deveria. Vamos para a sua região de origem. Dizem que lá existe uma aldeia…

— Existia, dona Eneida. Um vilarejo. Mas todos já se foram. – Respondeu séria e com olhos baixos. – A senhora sabe em que mês estamos? – Indagou. Mãe e filha pararam para escutá-la enquanto Dedé continuava a realizar a tarefa.

— Agosto. – Respondeu Eneida.

— Daqui a dois dias entraremos na semana das noites escuras. O pior período do ano. É por isso que estou assim.

— Pior? Por quê? – Perguntou Dominica.

— Na minha tradição, existe uma história, contada de pai para filho sobre Yacamin, o pai de todas as estrelas. Ele as recolhe com intuito de protegê-las os espíritos caídos que escapam nesta época do ano. Eles caminham na escura yamí…

— Escura o quê? – Mais uma vez Dominica a interrompeu já com o olhar vidrado.

— Escura yamí, noite escura.

— E o que acontece, então, Dedé? – Perguntou Eneida a ouvi-la, mas não dando muita importância às suas crendices.

— Os espíritos caídos tentarão a todos, principalmente os fracos, sem fé e sem coração. – Eneida conteve o riso de deboche. Dominica repreendeu-a com uma careta. Dedé percebeu, ignorou e prosseguiu: – Durante as noites escuras devemos permanecer atentos e orar muito. A escura yamí penetra em nossa alma. Ficamos imersos num profundo vazio. Além disso, não é bom fazer mudanças nesta época do ano. Meu povo pedia para Tupã protegê-los, principalmente as crianças.

— Queria entender melhor o porquê vocês chamam as noites de noites escuras. Todas as noites são escuras. – Disse Dominica.

— Nessa época elas são diferentes. Não há luar nem estrelas para clarear as trilhas na mata. Apenas escuridão. Uma escuridão tão densa que não é possível ver um palmo a frente do nariz.

— É incrível, Dedé, que você, uma pessoa tão inteligente, ainda acredite nessas coisas. Os tempos mudaram. – Disse Eneida.

— Sabe, senhora, quando vivemos na cidade, perdemos a lucidez. Simplesmente adormecemos. Mas quando mudamos para um lugar onde a natureza impera, não sei o que acontece, subitamente despertamos, e ela, a natureza, começa a nos mostrar coisas que sequer imaginamos.

— Ooobaaa! Vou ver fantasmas. Verei o saci também, Dedé? – Saltitou a menina a não se importar com as considerações assustadoras da governanta.

— Nem queira ver, menina. Nem queira ver. – Respondeu Dedé. Eneida balançou a cabeça reforçando a ideia de que tudo aquilo era uma tremenda bobagem. O interfone tocou. Dedé estava tão concentrada no assunto e em suas reminiscências que pulou assustada e precipitou-se atender.

— Dona Eneida, o segurança informa que o carro a espera para levar-nos ao aeroporto.

— Tudo bem. Vamos Dominica. Estamos atrasadas. Não esquecemos nada?

Quando as três já estavam para sair, Dominica lembrou-se de Perri, o cachorrinho de pelúcia. Voltou e procurou-o por toda parte. Ele era branco e preto, já desbotado pelo tempo. Dominica ganhou do pai quando foram à barraca de tiro ao alvo no parque de diversão. Um evento raro em nossas vidas. Dominica se apaixonou por aquele bichinho de pelúcia assim que o viu. Queria de qualquer forma que o pai o comprasse, mas a única forma de tê-lo era acertando o alvo. Depois de implorar para que tentasse, Maximiliano, na segunda rodada, conseguiu. Dominica ficou tão feliz! E desde então nunca mais se separou dele. Mastigava suas orelhas o tempo todo, limpava a boca com ele nas refeições e, de noite, aconchegava-o no colo antes de dormir. Perdê-lo seria dolorido. Sem Perri, Dominica se sentia vulnerável.

— Dominica, volte. – Gritou Eneida.

— É rapidinho, mãe.

Na sala, procurou, procurou e não o achou.

— Onde será que ele está? – Nem terminara de se indagar quando um fluxo de ar frio soprou pela sala. Dominica estacou. Curiosamente as janelas estavam fechadas. Achou que era coisa da sua cabeça e continuou a procurar. Quando estava prestes a desistir, ela o encontrou junto à porta. – “Acho que deixei ele cair.” Pensou. – Achei, mamãe, já achei esse safadinho.

— Vamos, filha. Estamos atrasadas.

Em trinta minutos já haviam chegado ao aeroporto. Um avião bimotor as aguardava. Eneida esperava que Maximiliano aparecesse, mas para sua surpresa, o assistente que as acompanhava informou que ele não seguiria no mesmo voo. Eneida ficou aturdida com a notícia: “- Como pode? Ele não me disse nada!” – Pensou.

O piloto pediu que todas se acomodassem. Eneida teve de se sentar na frente.

— Posso saber por que viajamos neste tipo de aeronave, comandante? – Estranhou Eneida.

— A região é distante de qualquer aeroporto. Decidimos improvisar uma pista de pouso que fica bem perto da área desmatada. Este equipamento é bem adequado para pousar naquele tipo de terreno.

“Pista improvisada?” – Pensou Eneida que não conteve a outra pergunta. – É segura para pouso?

— Sim, acredito que sim.

— Acredita?

— Será minha primeira aterrissagem naquele tipo de terreno. – Revelou o piloto com um sorriso nervoso. Eneida gelou.

Dedé não deixou de ouvir aquilo, fez o sinal da cruz e segurou forte a mão de Dominica. Eneida certificou-se de que o cinto estava devidamente travado e respirou fundo a desejar que a boa sorte pairasse sobre elas.

— Estamos prontos para decolar. – Informou o piloto mantendo sorriso. – Controle, permissão para decolar.

— Permissão concedida. – Respondeu a torre de comando.

E lá partiu a aeronave em aceleração total enquanto Eneida se comprimia no assento. Dominica tentava se desvencilhar de Dedé para olhar pela janela. Depois de alguns segundos, finalmente, o voo já parecia mais estável. Os corações aflitos se aquietaram. Dominica observava o céu intrigada com as nuvens que se mesclavam ao azul. Isso produzia um efeito celestial. Por outro lado, a altura abismal ia ao encontro das preces ininterruptas em voz baixa de Dedé que dedilhava tremulamente o terço sem parar.

Os bons ventos sustentavam o avião mantendo-o estável, ao contrário dos pensamentos de Eneida. Perguntas e mais perguntas brotavam de sua mente sem um segundo de trégua: “- Por que ele não veio?”, “Por que nos colocou em risco? Imagine: pousar numa pista improvisada. Isso é perigoso demais! Será que ele não pensou nem na filha?” “- Poderíamos ter ido à capital e depois seguiríamos de carro.” “- Por que um lugar tão distante? Parece um castigo”.

Enquanto Eneida se consumia em dúvidas, Dominica já cochilava recostada no ombro de Dedé que não parava de balbuciar preces e correr o terço. Após quatro horas de viagem e alguns pousos intermediários para reabastecimento, o piloto informou que chegariam ao destino em dez minutos.

Finalmente ao sobrevoar a região, já era possível ver uma linda paisagem savânica, entrecortada por lagos e riachos. Lá do alto foi possível avistar um campo, sem presença de árvores ou arbustos. Uma linha vermelha, como uma ferida aberta, que aumentava à medida que a altitude diminuía.

— Preparem-se para o pouso. – Disse o piloto.

Eneida fechou os olhos e pensou em voz baixa: “Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui? Por favor, seja lá qual for a sua vontade, não me deixe morrer desse jeito.”

Ao tocar a pista, o solavanco acordou Dominica que se empertigou na poltrona, ansiosa:

— Mamãe, chegamos?

— Sim, meu anjo. Bem-vinda ao fim do mundo.

A primeira coisa que sentiram ao desembarcarem foi o ar seco e poeirento. Dois carros do tipo fora de estrada as aguardavam. O motorista – funcionário local – aproximou-se sorridente a exibir uma dentadura impecável. Logo saudou:

— Boa tarde, senhora. Como foi a viagem? Meu nome é João.

— Ah, sim, senhor João. Nossas malas estão…

— Não se preocupe. Os meninos já estão descarregando. Menos mal para mim. A senhora sabe, o calor daqui é de lascar. Arranca o couro de qualquer um.

Dominica achou divertido o jeito de João falar. A dentadura era muito larga e o fazia assobiar ao pronunciar certas palavras. E os dentes branquinhos contrastavam da sua pele morena, talhada profundamente pelo tempo e o sol. Eneida não pôde evitar a imediata simpatia por ele. Talvez em virtude de sua atitude simplória, honesta. No entanto, Dedé caminhava de um lado a outro. Seus instintos pareciam aflorar naquele ambiente. A preocupação maior de Eneida era as malas e virou-se para certificar-se de que estavam seguras. Foi quando observou duas caixas de madeira que também estavam sendo descarregadas.

— Senhor João, o que tem naquelas caixas? Não me lembro de tê-las colocado abordo.

— Sei não, senhora. Deve ser coisa do doutor Maximiliano, coisas do projeto.

— Deve ser mesmo. – Respondeu Eneida.

Já era quase final de tarde e o céu fora tingido de vermelho. As árvores baixas e a mata rasteira tornaram-se cinza chumbo com o aproximar da noite. Depois de vinte minutos de carro, finalmente chegaram. A casa onde iriam ficar, fora construída alguns quilômetros de distância do canteiro de obras. Ao longe, a ampla varanda já chamava a atenção. Dominica saltou do carro, correu e subiu as escadas. Logo de cara, viu um calango. Sem a devida noção de perigo, tentou agarrá-lo e imediatamente foi alertada por Dedé:

— Menina, não faça isso!

— Ele é bonitinho. É a lagartixa mais verde que já vi.

— Não é lagartixa. Aqui as pessoas chamam de calango. Ele morde. E dói muito. – Dominica retraiu a mão e correu para junto de Eneida que se admirava com a casa.

Era grande, dois níveis. Para o local, luxuosa demais, mas não surpreendentemente suntuosa como era de se esperar de um homem tão poderoso. A única coisa que causava má impressão era as janelas do andar de cima. Do ponto de onde Eneida observava, se assemelhavam a dois grandes olhos espantados.

O lugar mais parecia um refúgio da vida agitada. A princípio, um lugar para se buscar paz e harmonia, – era o que todos pensariam – sentimentos estes que se opunham aos daqueles que Eneida trazia em seu coração. Com discreta resistência, decidiu entrar. O piso frio, feito de cimento queimado, as colunas de vigas robustas de madeira e a ampla janela da sala de visitas com vista para a mata, conferiam ao lugar um ar bastante agradável.

O mobiliário de estilo colonial era marcante na decoração e ao mesmo tempo despojado. Havia quadros por toda parte, única coisa que tocou Eneida. Os temas de paisagens e objetos antigos, estrategicamente colocados, davam ao ambiente um toque relaxante e reflexivo.

Contudo, tudo aquilo deixava Eneida confusa, contrariada e curiosa, até que, deparou-se com o ateliê, especialmente projetado para ela e pronto para que os trabalhos artísticos fossem iniciados. Pintura: uma das poucas coisas que realmente desejava fazer na vida.

Lá do alto da escadaria, Dominica gritou:

— Mamãe venha ver os quartos. Adorei o meu.

Eneida fez questão de ver, e ao subir, deparou-se com um longo corredor. À esquerda havia uma parede de vidro de onde se podia ver o horizonte. À direita, três portas sendo a primeira a do quarto do casal. Era amplo, com cortinas brancas, lisas, esvoaçantes. Espelhos altos, uma cama luxuosa. Eufórica, Dominica puxou a mãe para ver o seu, mas antes, passaram por um quarto, o do meio, que não tinha janelas. Isso chamou a atenção de Eneida. “Por que a ausência de janelas neste quarto”? Enquanto isso, Dedé, que havia levado sua bagagem para os aposentos adjacentes a casa, retornou desconcertada, trazendo de volta suas malas. Resolveu juntar-se a elas. E também não deixou de estranhar o quarto sem janelas. Então, comentou:

— Dona Eneida, não tenho boas notícias. O meu quarto não ficou pronto. Pelo visto, levará algum tempo para terminarem.

— Se você não se importar, pode ficar com este. Não parece muito confortável, mas…

— Muito obrigada. Será bom ficar perto de Dominica.

E lá se foi Dedé com as malas para iniciar a arrumação das roupas no armário do estranho quarto.

— Venha mamãe. Venha ver o meu. – Dominica insistiu. Ansiosas, abriram a porta. O que viram foi estonteante. Parecia um conto de fadas. Um lugar detalhadamente decorado para suprir os sonhos mais lindos de uma menina. Muitas cores, brinquedos e livros.

— Que lindo! – Exclamou a menina enquanto corria e pulava na cama.

— É perfeito, filha.

E um fluxo de pensamentos tomou conta de Eneida. Tudo era perfeito demais. Algo não estava certo. A casa, apesar do bom gosto e requinte, despertava uma sensação incômoda, opressora, uma impressão espectral. Enquanto falava, a voz da menina ficou distante e Eneida foi tomada subitamente por um forte torpor. Parecia adormecida, imersa num sonho. Em sua mente a casa distorceu, tornou-se feia, velha, pavorosa. Do torpor surgiu uma ansiedade que foi aumentando a ponto de se tornar um pânico quase incontrolável. Durou segundos até que Eneida retomou os sentidos depois de ouvir sua filha chamar:

— Mamãe, você está bem? Está pálida.

— Sim, sim, estou bem. – Respondeu ofegante.

Aquela súbita crise trouxe uma sensação ruim que durou algum tempo. Para ajudar a dispersar a mente, Eneida foi até o quarto de Dedé e ao entrar, deixou escapar seus pensamentos em voz alta:

— Ficaremos aqui sozinhas? No meio do nada? – Dedé então disse:

— Senhora, está escurecendo. É natural que se sinta insegura. Vamos nos acalmar e descansar um pouco. Vai se acostumar à quietude da região. Garanto que, com o tempo, se sentirá melhor.

— Essa quietude vai me deixar louca. Isso sim.

— Vamos, vamos conhecer o resto da casa. – Disse Dedé a puxar-lhe pela mão.

Dominica mais do que depressa correu para a escada e desceu como um relâmpago em direção à varanda. Ao longe contemplou o último raio do sol. A paisagem, apesar de escurecida pela aproximação da noite, mostrava sua beleza singular. Árvores baixas se inclinavam levemente ao vento. Pequenos animais saíam de seus esconderijos para se alimentarem. Um mundo diferente daquele que a pequenina Dominica estava acostumada. Depois de um tempo de admiração hipnótica, ouviu sua mãe chamar para conhecer os outros cômodos da casa.

— Filha, venha conhecer a cozinha!

Ao chegar à cozinha – muito bem equipada, suprida com mantimentos e frutas da região -, Dominica viu uma porta. Correu para tentar abri-la. Trancada. Eneida também se interessou em saber o que poderia ser:

— O que será que tem aqui? Um tipo de dispensa? – Forçou a maçaneta. – Estranho, por que está trancada?

— Provavelmente para ser feito algum reparo ou está inacabado. – Respondeu Dedé.

— É, pode ser. Acho melhor arrumarmos os quartos. Não sei se conseguirei dormir esta noite. Estou acostumada com o aconchego da minha casa.

— Esta também é sua casa, dona Eneida. Procure se conscientizar disso.

— Acho difícil.

Neste mesmo instante, seu João chegou trazendo o resto da bagagem. Dois outros funcionários o ajudavam a carregar as duas caixas, as mesmas que Eneida tinha visto na pista de pouso. Pareciam ter dificuldades e ela perguntou:

— Seu João, aquelas caixas parecem pesadas, não?

— Elas não são tão “levianas” assim, mas em dois dá para carregar.

— E para onde vão levá-las?

— Lá embaixinho no porão.

— Que porão? Tem porão aqui?

— Tem sim, senhora. Dá para descer lá pela porta lá da cozinha ou, então, por lá por fora.

— A porta da cozinha está trancada. Imaginei que fosse algum tipo de dispensa para guardar mantimentos. Se fosse, seria bastante útil. Como faço para abri-la?

— A senhora não tem a chave?

— Não.

— Alguém se esqueceu de entregar. Vou ver se o rapaz do escritório ficou com ela, aí, então, eu trago para a senhora. – Eneida concordou fazendo que sim com a cabeça.

E enquanto conversavam, os rapazes rapidamente levaram as caixas utilizando a porta de acesso do lado de fora da casa. Ela observava a cena com uma sensação inexplicável no peito. Logo voltou a atenção para os quartos. Antes de subir as escadas, deteve-se e perguntou ao seu João:

— Por acaso…

— Pois não, senhora?

— O senhor trouxe as malas de meu marido?

— Não. Não, senhora.

— O senhor sabe quando ele chegará?

— Também não. Ia perguntar, mas acabei nem dando ligância a isso.

— Ah! Tudo bem. Amanhã falarei com a secretária. Obrigada.

— Se precisar de alguma coisa é só pedir. Até amanhã e bom descanso.

Eneida deu meio sorriso e subiu. Deparou-se com Dominica bastante eufórica. Eram tantas as novidades que a menina andava e corria para todos os lugares com a cabeça borbulhando de curiosidade. Mas uma coisa não largava sequer por um segundo sequer: seu bichinho de pelúcia Perri.

— Filhinha, espero que goste daqui. E do seu quarto também.

— Já gosto. Meu quarto é maneiro. Gosto mesmo é de olhar pela janela.

— Para ver o quê? Mato?

— Esse lugar é mágico, mãe. Tenho um pouco de medo dele.

— Medo de quê? Das bobagens que Dedé contou? Lugares calmos assim costumam se tornar chatos em pouco tempo. Falta do que ver e fazer… – Observou Eneida quando Dedé a interrompeu:

— Senhora, as camas estão arrumadas. Prepararei algo para comermos. Acredito que nossos funcionários se apresentarão ao trabalho amanhã cedo.

— Assim espero. A casa é grande.

Por um segundo, Eneida trouxe à tona o sentimento de abandono. Tantas dúvidas que achou melhor despistá-las. Voltou-se, então, para a filha que não parava de se divertir com Perri no colo. Ambas se aproximaram da janela. A escuridão da noite impossibilitava a visão de qualquer coisa no horizonte. O gerador elétrico foi acionado automaticamente e a luz clareou o quarto.

— Vamos descer? – Perguntou Eneida.

— Ficarei mais um pouco aqui. Quero olhar lá fora.

— Está bem, não demore. Precisa comer. – E Eneida desceu.

Dominica inclinou-se na janela. Estava curiosa. Queria observar a escuridão da noite que era de um negror indescritível. A janela deixava a brisa entrar, e consigo, os odores da mata. Foi, então, que um forte cheiro invadiu o quarto. Era pútrido e carnicento. Impossível enxergar qualquer coisa lá fora, mesmo que estivesse a poucos centímetros de distância. Dominica continuava olhando para frente, prendendo o nariz com os dedos enquanto respirava pela boca. Mesmo sem ver nada, estava curiosa para saber de onde vinha o cheiro repugnante. Debruçou-se um pouco mais quando viu algo que a fez arrepiar. Rente ao parapeito da janela, dois enormes olhos esverdeados brilhantes e presas brancas como marfim emergiram daquele oceano de escuridão. O rosnar era ainda mais aterrador. Dominica recuou aos gritos. Desceu as escadas aos tropeços e lançou-se, trêmula e fria, nos braços da mãe.

— O que foi, menina? O que aconteceu? Diga logo.

— Lá, lá em cima, no meu quarto…

— O que? Fala logo.

— É horrível. Um monstro…

Eneida e Dedé subiram rapidamente para averiguar, com exceção de Dominica, que permaneceu fria e imóvel na sala. Vasculharam todos os cantos e armários do quarto. E retornaram em seguida:

— Não vimos nada.

— Tinha um monstro bem perto da minha janela, do lado de fora. – Insistiu a menina.

— Impossível, filha. Não existem essas coisas. Viu, Dedé! Não falei para não influenciar a cabeça da minha filha com suas estórias?

— Mas mãe, é verdade. Eu vi sim. – Reafirmou Dominica.

— Agora fique aqui, do meu lado. Calma. – Disse Eneida. Dedé baixou os olhos e, em silêncio, retirou-se para a cozinha.

Algum tempo se passou e o susto já havia passado. Logo, o cheirinho reconfortante de comida começava a tomar conta da casa.

— Que cheiro bom! Não é filhinha? – Disse Eneida.

— Não estou com fome.

— Comerá nem que for um pouquinho. Precisa.

— O jantar está pronto! – Anunciou Dedé, ainda sentida pelo que havia ocorrido e também por ter sido repreendida.

— Está chateada comigo. – Notou Eneida.

— Não senhora. Estou chateada comigo mesma. Acho melhor deixar passar.

— Tem certeza que não quer falar?

— Sim. Está tudo bem.

— Então, diga lá, o que temos para o jantar?

— Resolvi preparar um prato típico da região. Uma especialidade que conheço. Espero que gostem.

— E o que seria essa especialidade?

— Um empadão de frango com guariroba.

— Estou curiosa e faminta. Vamos Dominica, vamos experimentar esta delícia.

Depois de se fartarem, todas foram para a varanda.

— Minha nossa! Acho que comi demais. Não tinha ideia de que aquilo era tão gostoso. Dedé, para quem estava triste, até que ficou bem inspirada para cozinhar. – Disse Eneida. – Até Dominica comeu. E olha que ela estava sem apetite.

— Quem prova pelo menos um pouquinho desse prato não consegue esquecê-lo nunca mais. – Completou Dedé sentindo-se agora um pouco melhor. – Existem outros pratos e frutos da região que são deliciosos e de alto teor nutricional. Pena que são desconhecidos no resto do país.

— Que tipo de frutos? – Perguntou Dominica

— Araticum, baru, buriti, cagaita, fruta-do-lobo, pequi, guariroba, essa mesma que você comeu nesse empadão.

— Para mim, só existia, maçã, uva, pera, banana, pêssego… – Disse Dominica toda encolhida no colo da mãe.

— É praticamente o que encontramos na cidade. Falando nisso, amanhã teremos um longo dia. Gostaria de conhecer a região… Gente, que lugar é esse? – Interrompeu Eneida com o olhar perdido no horizonte escuro da noite.

— A senhora irá se surpreender. É um lugar encantador e misterioso. – Ressaltou Dedé.

— Que luzes são aquelas?

— Luzes?

— Sim, aquelas lá longe. Será que é o vilarejo dos trabalhadores?

— Acredito que não, dona Eneida. Segundo o seu João, o vilarejo dos funcionários da construtora fica do outro lado.

— Alguém vive lá. Poderíamos conhecê-los amanhã.

Dedé silenciou-se.

— Isso mesmo, vamos visitá-los. – Insistiu Eneida. – E quero que você vá comigo. – Dedé permaneceu quieta. Até que não se conteve e disse:

— Sim, dona Eneida, poderemos até ir lá amanhã. Mas não acho prudente sairmos daqui… ainda mais num período deste, a aproximação da escura yamí…

— Bobagem! Puro misticismo. São pessoas como nós, mas com uma grande diferença: não conhecem a ardilosidade do povo da cidade. Vamos fazer-lhes uma visita.

— Recomendo, então, que Dominica fique.

— Deixar a menina sozinha aqui! – Exclamou Eneida.

  • Sim, senhora.

  • Por quê?

  • Questão de segurança. Nunca se sabe o que podemos encontrar na mata. Por favor, dona Eneida, deixe Dominica em casa.

  • Então… Você fica com ela.

  • A senhora é quem sabe.

  • Tudo bem, acho melhor assim. Então, vamos dormir. Já deve ser tarde. Estou muito cansada. Olha só isso! Ainda bem. Dominica já adormeceu.

Dedé levou a menina para o quarto. Eneida também se recolheu, mas sem esperança de que o sono chegasse logo. Tudo lhe parecia estranho e solitário. No quarto, à medida que se acostumava com a escuridão, seus ouvidos ganhavam mais sensibilidade. Os sons da casa começaram a surgir. Ficavam tão evidentes! Era quase como uma fala ininteligível. As paredes e o assoalho rangiam e estalavam. E o vento lá fora soprava tão forte que, ao passar por entre as árvores, produzia sons de uivos e gemidos. Eneida ficou apreensiva. Os diversos barulhos combinados soavam como um sussurro humano. E à medida que se acostumava, aquela espécie de vozinha melancólica se tornava nítida e vinha acompanhada por três batidas fortes. A escadaria de madeira parecia ser a fonte das pancadas. Era como se alguém saltasse três degraus, parasse e chamasse por Eneida:

“Tum, tum, tum, Eneida. Tum, tum, tum, Eneida…”

A cada três batidas, a voz parecia estar mais perto. Eneida foi invadida pela sensação de perigo. O medo converteu-se em desespero. Ela, então, ameaçou saltar da cama para chamar Dedé. Contudo, veio-lhe à mente a possibilidade de ser um ladrão. Isso a paralisou.

“Será que deixei a porta da entrada aberta? Estamos desprotegidas aqui! Sem ninguém para nos defender. E se eu gritar? Assustaria o invasor. Não tenho arma. Vou gritar. É isso…” – O suor escorria pelo rosto. -… Um, dois, três, que Deus me ajude…”

Eneida saiu rapidamente da cama e aproximou-se da porta. Ousou tocar a maçaneta, mas não teve coragem de girá-la.

— Venha. – Sussurrou a voz agora nítida. Num ato insano Eneida escancarou a porta aos gritos.

— Quem está aí? – Subitamente tudo caiu em profundo silêncio. Pela ampla janela do corredor, Eneida notou que a ventania também cessara.

Dedé, assustada, sobressaltou-se porta a fora do quarto:

— Dona Eneida, a senhora…

— Tinha um ladrão aqui.

— Ladrão! A senhora o viu? Para onde ele foi? Está ferida?

— Estou bem. Estou bem. Ouvi alguém me chamar. Fiquei assustada.

— Neste lugar costumamos confundir o som do vento com vozes.

— Mas eu…. É; acho que foi só isso. Vamos dormir.

— A senhora gostaria de um chá?

— Não, obrigada. Desculpe-me por aborrecê-la.

— Ora, fique tranquila. Se precisar de algo é só chamar.

O dia seguinte custou a nascer. Dominica foi a primeira a pular da cama bem cedo:

— Mãe! Mamãe! Gritou a se precipitar no quarto de Eneida que continuava perturbada pela péssima noite que tivera:

— O que houve, Dominica?

— Mamãe, olha só isso.

Perri, o cachorrinho de pelúcia, fora totalmente desmembrado e rasgado. Dentro dele havia um trançado de penas, algo semelhante a um ninho de passarinho. Bem do meio, emergia um fio vermelho.

— Nossa! O que houve? Quem fez isso? Você já mostrou isso a Dedé?

— Não. Quem rasgou Perri?

Cheias de dúvidas, ambas desceram as escadas e a governanta já aguardava para o desjejum:

— Bom dia, senhora. Bom dia, Dominica.

— Não é um bom dia para mim. – Disse a menina.

— O que houve?

— Olha o que fizeram. – E Dominica estendeu as mãos com o que havia sobrado do bicho de pelúcia.

— Minha nossa!

— Quem poderia ter feito isso, Dedé? Foi você? – Perguntou Eneida.

— Eu com certeza não faria isso. – Disse a governanta a olhar atentamente e a esboçar uma espécie de medo nos olhos. E continuou: – Na minha tribo, quando víamos coisas assim…

— Dedé, por favor, pare. Só pode ter sido um gato ou um rato, sei lá, qualquer outro tipo de animal. – Dedé calou-se e tratou de servir a mesa.

— Vamos consertá-lo, querida. Preciso de linha e agulha. – Disse Eneida com a intenção de acalmar a filha.

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