Escura yamí
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O primeiro contato

Após o café da manhã, a menina já se sentia melhor. Eneida permitiu que fosse brincar. Aconselhou-a não se afastar da casa. Porém, a estranheza que Eneida sentia pelo lugar aumentara. Ao mesmo tempo, receava deixar-se levar pela imaginação e por aquelas bobagens sobrenaturais. Tentou segurar ao máximo a curiosidade até o ponto de não mais resistir. Enquanto a governanta arrumava a mesa, perguntou:

— Dedé, vamos, agora pode falar. Quem teria o trabalho de estraçalhar daquele jeito o brinquedo de Dominica?

— Posso falar? A senhora me ouviria?

— Somos só nós duas…

— Está bem. Dona Eneida, aquilo foi um aviso.

— Aviso! De quem para quem?

— Dominica só pode ter visto um mensageiro. Ele avisa que nos observa.

— Ele? Quem? Diga o que sabe.

— O espírito caído da mata. Ele costuma avisar antes de fazer contato.

— Espírito caído da mata! O que é isso?

— Uma entidade temida pelo nosso povo.

— Quem neste século teme fantasmas? Besteira, mera crendice.

— Não, não senhora. Ele persegue as pessoas, principalmente aquelas que invadem a mata. Ele as puni de maneira severa.

— Dedé, francamente, você acredita nisso? É só uma lenda.

— Não só acredito como já testemunhei coisas estranhas.

— O que ele faria com um bichinho de pelúcia? Vai me dizer que ele gosta de brincar com brinquedos de menininhas.

— Ele deu seu aviso. E usou a menina para chamar a sua atenção. Logo fará contato. – Eneida ficou séria diante do tom de Dedé.

— Você agora me assusta. Vamos mudar de assunto. Por favor, chame seu João aqui. Gostaria de visitar a região. Quero saber o que há por aquelas bandas… aquelas onde vimos as luzes na noite passada.

— Vou chamá-lo agora mesmo.

— Ah, sim, preciso que você confirme se Maximiliano chegará amanhã. Gostaria de esperá-lo na pista de pouso.

— Verificarei.

Quinze minutos depois, seu João chegou. Eneida já o aguardava na varanda.

— Bom dia, senhora! No que posso ajudar?

— Bom dia! Gostaria que me levasse conhecer a região, mas quero seguir naquela direção. – E apontou para o local onde havia avistado as luzes. – Acho que existe um vilarejo para lá.

— Vilarejo? Para aqueles lados? Pelo que eu sei, lá não tem nada não. Só mato.

— Refiro-me àquela região. – Eneida insistiu em apontar para a mesma direção. Logo à frente, notou que havia uma trilha natural, ladeada por algumas poucas árvores baixas de troncos retorcidos.

— Olha, dona, para lá não tem nada, mas se a senhora assim mesmo quer ir, tudo bem. Moro aqui há muito tempo. Se eu fosse a senhora não me preocuparia com isso. Tem outras coisas para ver.

— Vi luzes ontem à noite. Onde tem luzes tem gente.

— Acho que o que a senhora viu foi é caçador.

— Eram muitas luzes.

— Um bando de caçadores.

— Bem, seu João, sendo assim, o senhor está dispensado.

— Por mim, tudo bem. Se precisar de algo…

— Obrigada. – Mas a curiosidade brotou em Eneida de modo irresistível. “Vou mesmo assim.” – Pensou.

Então, seguiu na direção determinada. Adentrou pouco a pouco no cerrado utilizando a trilha. O cheiro da vegetação mudava à medida que avançava. Ora um perfume exótico, ora um odor pungente. O ambiente parecia abraçá-la. Apesar do receio de caminhar por uma região desconhecida, sentia-se à vontade.

As lustrosas folhas das pequenas árvores refletiam a luz do sol. Inebriada pela vegetação rústica, Eneida não se deu conta de que o capim já ultrapassava sua altura. Não conseguia ver nada mais além. De súbito, uma ave crocitou estridentemente. Isso arrancou Eneida bruscamente de seu devaneio. O som daquele canto fora de arrepiar. Em seguida, mais um piado alto e mais outro. Isso deixou Eneida atormentada, tonta e desorientada. Foi, então, que escutou um sussurro. Vinha de dentro da mata mais densa:

— Convide-a para segui-la.

Eneida juntou coragem e pediu para – Seja lá quem fosse – repetir a frase:

— Convide-a para segui-la.

— Convidar? Convidar quem? – Disse Eneida com voz alteada, olhando para o nada, a andar em círculos.

— O espírito da mata. – A voz sussurrou.

— Espírito? Convidaria um espírito para me seguir? – Retrucou.

— Para amenizar a dor de seu fim.

Aquela frase foi de apavorar. “Só pode ser um psicopata. É isso. Estou sendo seguida por um psicopata.” – Pensou. Começou a tremer de pavor a ponto de bater os dentes. Tentou correr, mas sentia as pernas paralisadas. Seus olhos se encheram de lágrimas. O silêncio a envolveu antes que tivesse tempo de gritar por socorro. Andou desorientada de um lado para outro, até que escutou:

— Estou aqui.

Eneida, ofegante, sentiu um bafo quente na nuca, virou e deparou-se com uma velha asquerosa, alta, magra, de olhos pequenos e misteriosos que lhe encarava bem de perto. Tinha um cabelo longo, escorrido e falhado que deixava à vista o couro cabeludo descamado e sujo. Suas mãos retorcidas e nodosas eram recobertas por manchas escuras. A boca frouxa deixava à mostra os dentes quebrados, que lhe davam uma característica de debilidade. A longa túnica marrom escondia qualquer outro detalhe de seu corpo. Aquilo causou em Eneida uma terrível impressão.

— Só pode ser louca! Vir aqui sozinha…

— Estou… estava… que-queria conhecer o vilarejo da-daquele lado. – Gaguejou Eneida ainda muito assustada.

— Você não sabe para onde vai. Não conhece nada aqui. Volte.

— Por quê?

— Aquele povo está perdido. Não deve ir lá.

— Perdido? Como assim?

— Volte, já disse. O espírito da mata já sabe de tudo. Volte e se proteja.

“Que coisa! Primeiro me assusta, agora fala essa besteira.” – Pensou Eneida.

— Veja isso. – A velha tirou de dentro do bolso da túnica uma fruta amarela, quase alaranjada, carnuda. – Sabe que fruta é essa?

— Não.

— Pequi. Bonita, deliciosa. – Então, a velha, antes de entregar à Eneida, cravou o polegar na fruta, rasgou-a ao meio e expôs o caroço espinhoso. Junto com o sumo amarelado e caudaloso que saiu de dentro, escorreu um líquido vermelho vivo: sangue. Eneida espantada levou a mão à boca e recuou. Antecipando que Eneida não aceitaria o pequi, a velha jogou a fruta na terra, e continuou: – Sua vida parece muito com esta fruta. É dourada como o sol, rica, nada lhe falta, mas dentro, bem lá dentro, seu coração está repleto de espinhos. Não demorará sangrar de tristeza.

E continuou a velha com aqueles olhos hipnóticos travados nos de Eneida:

— Você não sabe o que lhe espera. Se teme o espírito caído da mata agora, o temerá ainda mais quando a escura yamí chegar. E será depois de amanhã.

— Ma-mas eu… não estou…

— Vá mulher. Retorne pela trilha e proteja-se nesta e nas demais noites. O espírito já sabe onde encontrá-la.

— O que ele quer de mim? Como faço para me proteger?

— Controle as emoções. Não tenha medo de ver.

— Ver o quê?

— A verdade. O espírito da mata quer avisá-la.

— Avisar-me de quê? Não entendo.

Por um segundo Eneida baixou os olhos para enxugar as lágrimas e olhar a fruta que naquele momento tornou-se o símbolo da sua triste vida. Ao voltar-se para a velha, ela já havia desaparecido. Aquilo deixou Eneida chocada. A tensão não a deixou perceber que várias horas haviam se passado. Decidiu, então, seguir o conselho de retornar.

Não importava quão rápido caminhava, a trilha de volta parecia estender-se. Para onde quer que olhasse, a paisagem parecia a mesma. Porém, insistiu em continuar firme na trilha apesar da dúvida de ser aquele o caminho certo. Até que, finalmente, pôde ver a casa ao longe. Uma enorme sensação de alívio sobreveio. “Tudo não passou de uma alucinação. Estou insegura. É isso.” – Pensou.

Dominica viu Eneida se aproximar. Correu para abraçá-la. Dedé manteve-se a distância preocupada.

— Mamãe, a minha magia indígena deu certo!

— Magia! Que magia? – Perguntou Eneida tentando esconder a tensão a qual tinha vivido.

— Como você demorou para chegar, Dedé me ensinou como fazer uma magia para fazer você voltar. Quer ver como é?

— Estou um pouco cansada. Poderia ser mais tarde?

— É rapidinho. Deixa-me contar, vaaaiii.

— Está bem, filhinha, claro. – Respondeu a perceber que Dedé a observava.

— É assim: Primeiro a gente pega uma folha de papel branca e um pincel. Não pode ser desses comuns. Tem que ser de pelo de cotia.

— Cotia?

— Ah, é um bicho que parece um coelhão, só que tem orelhas bem pequenininhas. O pelo é grosso e marrom. É muito bonitinho.

— Como você conseguiu um pincel assim? Não vai me dizer que você caçou uma cotia por aí.

— Não. Dedé tinha um. Era da mãe dela.

— E depois?

— Depois a gente pega uma fruta amarela de nome engraçado, esmaga até fazer uma pasta.

— E que fruta é essa? – Perguntou Eneida sentindo imediatamente um frio percorrer a espinha, como que sabendo o que a menina iria responder.

— Acho que é… Qual é o nome mesmo, Dedé?

— Pequi. – Respondeu a governanta com ar de pressentimento.

— Isso mesmo. – Continuou a menina. – Então a gente desenha um rosto e dá um nome. Eu desenhei você.

— É assim?

— Não. Tem mais: Aí a gente coloca o rosto pintado virado para cima e sobre ele a gente coloca um bichinho de pelúcia que a gente mais gosta. Eu coloquei Perri, é claro. Depois é só pedir para aquela pessoa voltar logo. E deu certo.

— Que bom, filha. É muito bom estar aqui com você, de verdade. – Eneida abraçou Dominica e notou que sua mãozinha estava com marcas de sangue. Impressionada perguntou.

— Você se machucou?

— Um pouco.

— O que houve?

— Foi por causa da fruta. Ela tem espinhos no caroço e eu não sabia.

Coincidência demais? Não. Não poderia ser. Aquilo que Eneida vivenciou não poderia ser alucinação. “Preciso falar com Dedé. Talvez ela saiba de algo que possa me ajudar. Isso é loucura. Superstição barata.” – Pensou.

— Dominica, vá brincar. Preciso ter uma conversa com Dedé.

A menina saiu saltitando sem dar-se conta da preocupação de sua mãe. Eneida aproximou-se de Dedé com olhar parado, preocupado. Dedé, entretanto, parecia saber que alguma coisa havia acontecido.

— A senhora viu algo, não viu?

— Como sabe?

— Seu olhar. Posso ver o medo.

— Acertou. Foi muito estranho.

— Ficamos preocupadas. Por pouco não peço ao seu João para ir busca-la. A senhora conseguiu chegar lá?

— Lá?

— No vilarejo.

— Não. Não consegui. Fui surpreendida no meio do caminho.

— Surpreendida?

— Foi assim: Primeiro ouvi um assobio de um pássaro. Um canto horrível. Depois… apareceu uma velha…

— Velha! E o que ela disse?

— Bobagens. Crendices tolas. Confesso que me apavorei.

— O que ela disse? Insistiu Dedé bastante preocupada.

— Ah, ela disse para eu convidar o espírito da mata para me seguir. – Dedé quase desfaleceu.

— Aquela mulher surgiu do nada e desapareceu. Não entendi coisa alguma do que disse. Falou que meu coração ficará cheio de espinhos e sei lá mais o que. Pura bobagem. Mas na hora…

— Não deveria fazer pouco desse aviso. Ela quis alertá-la. – Interrompeu Dedé.

— Não sei o que pode ser. Apesar de tudo, existe algo naquele lugar que me atrai.

— Deus conversa com a gente das mais diferentes formas, inclusive através da natureza.

— Dedé, por favor, esqueça essa sua crendice. Logo este lugar ficará cheio de gente bem vestida, pousando de helicópteros caríssimos e se hospedando nos hotéis superluxuosos. No século vinte e um, não há mais lugar para esses seres estranhos. Eles só povoam mentes fracas.

VNão devia brincar com isso. – Disse Dedé erguendo as sobrancelhas.

— Só sei que estou louca para tomar um banho e voltar a pintar. Apesar do susto e do mal-estar é bom sentir-me inspirada novamente! Sinto falta do cheiro de tinta e das minhas telas.

— Seu ateliê já está pronto.

— Ótimo. Descansarei primeiro. A propósito, alguma ligação de Maximiliano?

— Não, senhora.

— Tudo bem. Tentaremos falar com ele mais tarde.

— Prepararei seu banho. – E Dedé retirou-se.

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