Escura yamí
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Véspera da escura yamí

Eneida relaxou após um banho demorado. Naquela mesma noite, logo após o jantar, resolveu permanecer na varanda acompanhada da governanta e da filha. O ambiente propiciava boa conversa. Ansiosa por estórias misteriosas, a menina pediu a Dedé que contasse mais um daqueles casos de assombração. Contudo, que poupasse os detalhes feios, pois, aquilo que vira na janela deixou-a muito assustada. Eneida olhou para Dedé em sinal de censura. Então disse:

— Nem ouse. Ela terá pesadelos e não dormirá.

— Aahh, mãe, por favor. Que chatice ficar aqui sem nada para fazer! Deixe-a contar uma estorinha, vai.

— Não, Dominica. Você ouviu sua mãe. Estes casos não são de brincadeira. Quanto mais se fala nisso mais o diabo se aproxima da gente. – Reforçou Dedé.

— Uminha, por favor.

— Se dona Eneida deixar. Mesmo assim não acho prudente.

Depois de alguns segundos de silêncio, Eneida acabou permitindo que Dedé contasse uma estória. Talvez mais por curiosidade pessoal. A menina adorou a ideia e já se aconchegou no colo da mãe para ouvir atentamente.

— Muito bem, eu conto. Mas não me culpem se tiverem insônia. Essas coisas são muito sérias. Na minha tribo tínhamos de tomar cuidado com o que dizíamos. Só quem já encarou um ser daquele sabe o que quero dizer. Eu preferiria a morte a vê-lo novamente…

— Calma, Dedé. Só conte a estória. – Interrompeu Eneida.

— Um ser escuro, saído do abismo sem fim. Um ser degenerado, às vezes invisível e de índole distorcida. Autor de todos os males, desgostos e doenças. Por incrível que pareça, até que ele tem um lado bom: protege a natureza. Surge em qualquer lugar feito neblina. Não vou descrevê-lo. Isso o atrairia para dentro desta casa. Até minha mãe teve problemas com aquele coisa ruim. Foi assim: Era noite e papai havia saído para caçar. Retornaria somente pela manhã. Então, mamãe preparou a refeição predileta dele. Deixou tudo pronto para o dia seguinte. Bem cedinho, papai retornou faminto, trazendo nas costas um enorme veado. Grande mesmo. Mamãe, ficou feliz ao vê-lo de volta, resolveu pôr a mesa. Antes da refeição, ambos decidiram que parte da caça seria dividida entre as outras famílias. Aproveitou que o fogão à lenha estava aceso, aqueceu a água para o café e colocou as panelas no fogo. Ao destampá-las, meus pais estranharam o cheiro: na mandioca havia vermes, no feijão baratas, na carne assada um morcego com as vísceras para fora. O fedor de podre contaminou o ambiente. Tudo estragado. Mamãe correu para fora de casa sacudindo a vassoura no ar e aos berros, e ameaçou o espírito da mata. Ela tinha certeza de que ele era o culpado. Quase que imediatamente, a uns dois passos de distância dela, surgiu um redemoinho de vento e folhas. Girava tão forte que a jogou num buraco e a fez quebrar o pé.

Dominica soltou uma gargalhada e exclamou:

— Nossa! Ele ainda quebrou o pé dela!

— Por pura traquinagem. Talvez castigo. Papai achou que foi por ter caçado um animal tão grande. Só depois ele entendeu que matar tão formoso veado foi puro ato de ambição. Ele mesmo admitiu que queria sim se exibir para outros caçadores da tribo.

Eneida olhou para Dedé a esboçar um sorrisinho de deboche. E como se não bastasse, não conteve a observação:

— É brincadeira, não é?

— Não, senhora. Eu mesma vi tudo.

— Dedé, a comida simplesmente estragou. Vocês não tinham geladeira. Desde quando um espírito vai se dar ao trabalho de estragar a comida alheia. Faça-me o favor…

— Com todo respeito, dona Eneida, um morcego não entra em panelas fechadas. Nem um alimento desenvolve vermes de um dia para o outro.

— Tudo bem. Não vamos discutir por causa disso. Agora, filhinha, é hora de dormir. Dedé vai colocá-la na cama. Ficarei só mais um pouquinho aqui. Antes, uma curiosidade minha: Dedé, por que o espírito da mata, – já que seu pai caçara um animal tão grande – não o perseguiu pelo resto de sua vida?

— Meu pai aprendeu a respeitá-lo. Soube entender o que ele queria dizer… – Respondeu Dedé com voz melancólica.

— Boa noite, mamãe. – Dominica interrompeu a esfregar os olhos de tanto sono.

— Boa noite, querida. Sonhe com os anjos.

Ambas subiram para o quarto. Eneida permaneceu na varanda. O céu estava estrelado, e as pequeninas luzes ao longe ressurgiram. O silêncio a fez mergulhar em pensamentos. “Sinto falta de Maximiliano. Ele está sempre longe. Será que ele chegará amanhã? Gostaria de visitar o canteiro de obras. E depois, quem sabe, tentar chegar àquele local. Fico intrigada com o que pode existir lá. Também me preocupo com meu estado mental. Será que os remédios estão me fazendo falta? Será que foi isso que causou aquela alucinação? Foi horrível! Não sei por que, mas aquelas luzes me atraem. Preciso pintar. As luzes do vilarejo me inspiram.”

Então, levantou-se, espreguiçou, suspirou e caminhou pensativa até o ateliê. Os pincéis e as tintas a aguardavam. Um convite irresistível para substituir o branco estéril da tela por cenários que povoavam sua mente.

Preparou as tintas com muito cuidado, empunhou a paleta e sentou-se na beirada do banco de madeira. Deu a primeira pincelada e sentiu uma estranha força atraí-la novamente para fora de casa. Era uma espécie de ansiedade incontrolável que se sobrepunha ao senso de segurança. Resistiu, mas por pouco tempo. Deixou a paleta de lado e retornou à varanda. “Aquelas luzes…” pensou. Ao longe, brilhavam mais intensamente e teriam se multiplicado em relação à noite passada. Eram muitas. Com certeza, acontecia alguma coisa por lá. Impetuosamente, correu para pegar uma lanterna na gaveta da estante. Negligenciou os riscos e partiu em direção àquele local, sem a menor experiência de como andar na mata. Seguiu, então, a trilha. A noite estava fria.

À medida que caminhava, sons estranhos surgiam de toda parte. Alguns produzidos por animais, outros sabe-se lá pelo quê. Contudo, a curiosidade era maior do que o medo. Imbuída de uma atração sobrenatural, Eneida mal sentia os tropeços e as passadas oscilantes.

De repente, ouviu um gemido pavoroso que se converteu num grito de horror. O sangue gelou. Isso a fez estacar. Em seguida, outro som, este surdo, de algo caindo, como um corpo abatido. Instintivamente abaixou-se para se proteger. Desligou a lanterna e rastejou lentamente para trás de um arbusto. Ouviu o roçar de algo pesado sendo arrastado sobre capim. Conforme se acostumava com a escuridão, o brilho das estrelas e da Lua, começou a clarear o local. Eneida cautelosamente manteve-se agachada e abaixou um dos galhos para ver melhor. Foi quando, para seu espanto e repulsa, se deparou com uma terrível cena. Era o corpo de um animal abatido. Curvado sobre ele, um ser. Parecia quase humano. Contudo, rasgava violentamente o couro e a carne com as próprias mãos, expondo toda aquela sanguinolência. Dava para ouvir a carnificina. Além dos galhos, um tapete leitoso de neblina cortava a visão de detalhes. Eneida teve seu horror transformado em delírio de desespero. Só pensou em correr. Alguns metros à frente, e antes que pudesse gritar por socorro, tropeçou. Foi ao chão e perdeu os sentidos. Passado algum tempo, voltou à meia realidade. Tudo lhe parecia confuso, imagens, vultos. As coisas estavam mescladas entre a escuridão e a sombra. Havia apenas uma débil luz. Eneida notou estar cercada de pessoas. Uma figura debruçada sobre ela falava, aproximava-se e afastava-se. Dentre várias, uma tornou-se nítida: um padre; pelo menos a julgar pela vestimenta. Contudo, sua cabeça estava coberta por um capuz, como um monge beneditino. Não era possível ver o rosto. Com voz suave, disse:

— Graças ao Senhor que esteja bem. Deve ter se assustado demais.

— Onde estou? – Indagou Eneida ao deslizar a mão sobre a testa. Via nos olhos daqueles que a cercavam, uma solidariedade vazia.

— Você está em nosso vilarejo. Estas pessoas, para sua sorte, caminhavam na mesma trilha quando a avistaram.

Ainda se sentindo instável, Eneida olhou em redor e viu mulheres indígenas, crianças e alguns homens que a observavam com curiosidade.

— Venha, senhora. Permita-me ajudá-la a se levantar. – Disse o padre a estender-lhe as mãos. Então, conduziu-a para sua humilde casa anexada à pequena igreja.

Eneida foi confortavelmente instalada. Sentia-se bem melhor quando o padre lhe indagou:

— A senhora poderia explicar o que aconteceu?

— Não sei padre. Lembro-me de que que vi algo horrível. O que será que foi aquilo?

— Nesta época do ano é comum as pessoas ficarem mais sugestionáveis. Caminham pela mata e se surpreendem com qualquer coisa. Não deve ter sido nada além de algum animal faminto. Ou fruto da imaginação.

— Mas eu vi sim…

— Sabe, minha filha, na véspera da noite escura, todos nós ficamos mais sensíveis. Não se preocupe. Tome aqui uma xícara de chá.

— Ah, sim, muito obrigado pela hospitalidade. – E depois de um rápido gole, Eneida comentou: – Aquelas pessoas foram tão gentis. Aliás, preciso agradecê-las por terem me salvado. – E reconfortou-se com mais um gole de chá.

— Que Deus as permita cumprirem com o dever de ajudar. Até mesmo as crianças se sentem impelidas a colaborarem.

— São moradores locais?

— Vivem espalhadas por aí. Nesta época do ano se reúnem para rezar e ouvir os meus sermões. Nossa missa é sempre à noite.

— Isso justifica as luzes que vemos de lá de casa. Caminhava justamente para cá quando tudo aconteceu.

— Foi trazida aqui pelo Senhor. Bem, sente-se melhor? Mais calma?

— Sim, um pouco receosa de voltar para casa, especialmente por aquela trilha.

— Sugiro que fique aqui esta noite. Amanhã cedo, quando o sol começar a dissipar a neblina, poderá ir.

— Pelo jeito o senhor também tem medo.

— Quem está com Deus tem nada a temer. Tenha fé e se sentirá mais segura. Agora deite-se e descanse um pouco. Tenho que voltar às minhas orações na capela.

Eneida deitou-se numa cama estreita, rústica, porém macia. Os olhos pesaram e rapidamente adormeceu. Um sono profundo, natural, que há muito não tinha, somente interrompido mais tarde por um toque suave e gélido. Tão leve a ponto de fazê-la despertar aos poucos. Olhou e olhou, mas não havia ninguém. Os primeiros sinais da aurora ultrapassavam as frestas da janela.

— Meu Deus! Amanheceu! – Exclamou Eneida. – Preciso ir. O que direi a Dominica?

Precipitou-se abrir a porta da casa do padre e não avistou uma viva alma. Apenas uma leve nuvem de poeira que se erguia com o ruflar da brisa. A passos rápidos e trêmula, não sabia se era medo ou culpa que estrangulava seu coração. Seguiu, então, o caminho de volta.

Enquanto isso, seu retorno estava sendo ansiosamente (na verdade, desesperadamente) aguardado por Dedé e a filha, ambas sentadas na varanda, uma a roer as unhas, a outra com braços rigidamente cruzados e a sacudir o pé. Dominica levantou-se e caminhou até uma pequena poça d´água a alguns metros da casa. Ajoelhou-se de modo a ver seu rosto refletido. Procurou uma pequena pedra, mais outra e acabou juntando várias. Uma a uma arremessou na poça. A cada pedra jogada, observava o reflexo de seu rosto se deformar. Dedé ficou curiosa e aproximou-se devagar. Agachou junto à menina e perguntou:

— O que tanto observa? Parece divertido.

— Não. Não é divertido.

— Então…?

— Se vejo que me pareço com meu pai, eu tento me mudar. – Disse Dominica, falando mais para si mesma. Dedé abraçou-a e a menina começou a chorar em silêncio.

Dedé procurou disfarçar as suas lágrimas, ergueu-se, arrumou o vestido e o de Dominica. Quando estavam prestes a adentrar a casa, avistaram Eneida ao longe. A menina passou a mão no rosto, sorriu e correu em sua direção.

— Oh, minha querida, desculpe. – Foi só o que fluiu do peito oprimido de Eneida.

— Ficamos preocupadas. Vamos para casa. – Disse a menina sem conter a euforia. Abraçou a mãe pela cintura, e caminharam juntas em direção a Dedé, que esfregava as mãos frias uma na outra de tanta preocupação.

— O que houve, dona Eneida? Está pálida.

— A cabeça dói. Tenho de admitir, este lugar está me causando delírios, ou então, minha hora deve estar próxima.

— Não diga isso, senhora. Pelo que vejo, algo não muito agradável aconteceu. Quer que eu chame um médico?

— Nada de médico. Só estou cansada. Não tenho forças nem para falar.

— Sim, claro. Vamos entrar. Prepararei algo para comer.

O aroma do café passado na hora ajudou Eneida a se restabelecer (voltar para a realidade seria o termo mais adequado). Dedé, depois de servi-la, sentou-se à mesa. Dominica permaneceu abraçada à mãe. Logo no primeiro gole, as lembranças emergiram com força. No exato momento em que Eneida tomava fôlego para relatar o que vira, seu João chegou.

— Bom dia, senhoras e senhorita! Dona Eneida, gostaria de visitar a construção agora?

— Não sei, seu João. Agora?

— É que eu consegui arranjar um tempo. Mais tarde vai ser um pouco difícil. A não ser que a senhora deixe para amanhã…

— Nã-nã-não. Eu vou sim. Preciso me arrumar. O senhor pode esperar um pouco?

— Claro. O cheiro de café tá bom.

— Dedé, sirva-o enquanto me troco.

— Dona Eneida, seria prudente não…

— Tudo bem, tudo bem. Acho que me ajudará a espairecer.

— Mamãe, quero ir. – Suplicou Dominica.

— O que o senhor acha, seu João? É perigoso para ela?

— Um pouco. Tomando cuidado ela pode ir sim.

— Então, ficarei para me certificar do horário da chegada do doutor Maximiliano. – Disse Dedé.

Eneida subiu rapidamente para se arrumar. Sentia-se ainda um pouco perturbada. Contudo, procurava não pensar nas coisas que vira. Trocou de roupa, lavou o rosto, penteou-se e desceu.

— Podemos ir, seu João.

— Hum, ah, sim. – Respondeu enquanto dava o último gole no seu café. – Vamos lá. Obrigado, estava muito bom. – Agradeceu a Dedé em voz muito alta. Ela retribuiu com um leve aceno de cabeça e séria.

Dominica já aguardava sentada no banco de trás do carro.

— Vamos, mamãe. Vamos logo. Que demora!

— A menina quer passear. – Comentou seu João.

Após dar a partida, o que seria apenas um passeio tornou-se uma jornada. O caminho tortuoso, instável, repleto de buracos e depressões, exigia astúcia ao volante, firmeza e cautela. O carro sacudia de lá para cá. Bastaram apenas alguns minutos para que aquela viagem se tornasse uma espécie de castigo. Dominica, coitada, sentia-se enjoada demais até para falar.

A certa altura do caminho, à medida que se aproximavam, um pó de tom avermelhado tingia as árvores e o capim rasteiro que ladeavam a estrada. Logo à frente, um lobo guará, de patas negras e pelagem também avermelhada, afugentou-se por causa do barulho do motor. Apesar da beleza rústica, a estrada estava recoberta por uma poeira. Um pequeno riacho, que teria seu dorso iluminado pelo sol, estava opaco, revestido por uma grossa camada de sujeira. A monotonia do ambiente e o balanço do carro, foram abruptamente interrompidos por um barulho metálico estridente. Enormes máquinas rasgavam a terra e esmagavam a mata. Do alto de um monte de terra vermelha entulhada, um casal de raposas do mato, observava impotente a agressão contra o seu habitat.

“Uma cena dos fins dos tempos” pensou Eneida. Pediu, então, para que seu João parasse o veículo naquele ponto para observar o tamanho da devastação. Saiu do carro, caminhou lentamente, levou a mão à boca e pensou em voz alta: – Meu Deus! O que ele está fazendo!

Seu João, ao vê-la tão abismada, disse:

— Olha, dona Eneida, sou da região. Apesar de ser funcionário da construtora, queria dizer que me sinto assim como a senhora.

Eneida parecia estar dormente. Dominica também.

— Gostaria de voltar? – Perguntou seu João.

— Não. Já que estamos aqui, quero prosseguir. – Tudo o que havia ocorrido com Eneida na noite passada e que pululavam em sua mente, simplesmente diluíram-se diante daquele terror tecnológico.

Retornaram ao carro e se dirigiram ao centro administrativo. Assim que chegaram, seu João precipitou-se buscar os capacetes de segurança. Entregou-os para cada uma. De lá seguiriam a pé em direção às fundações. Lá havia centenas e centenas de funcionários. Parecia mais um formigueiro. Máquinas e homens, todos empenhados num único propósito: violentar a terra. E isso se fazia com estacas imensas. Árvores em plena produção de flores e botões, eram moídas e transformadas num amontoado de lixo. Colinas e campos verdes, destruídos em nome de algo melhor e civilizado. Era o que o ser humano ofereceria no lugar daquela natureza sem serventia.

Contudo, o mais terrível estava por vir. Entre alguns montes de terra, trabalhadores munidos de facões, sacrificavam de forma grotesca, animais feridos e filhotes indefesos, a sangue frio com um único golpe. Chocada, Eneida puxou Dominica para si e cobriu-lhe o rosto. Suplicou a João para que as levasse de lá o mais rápido possível.

— Já vi o bastante. – Disse Eneida.

— Mamãe, vamos embora.

Assim que voltaram para o carro, Eneida não conseguiu conter a dúvida que lhe surgiu como um relâmpago:

— Seu João, o senhor é daqui da região. Isso realmente lhe afeta? É a sua terra, sua natureza sendo destruída.

— É, dona, afeta sim, e muito. Sou homem simples e trabalhador. Tenho filhos para criar. Não gostaria que fosse desse jeito. Mas vou viver de quê?

— Mas…

— Sem querer interromper a senhora, tentei alertar o mestre de obras, mas ele ignorou. Eu disse que não achava que era certo fazer isso.

— Como assim?

— Existe uma lenda local que nem ouso dizer. Acho que esse desmatamento vai despertar a revolta da natureza. Ainda mais numa época dessa…

— Como assim, seu João?

— Hoje começa a semana da noite escura.

— Ah, sim, já sei. Não há estrelas, Lua, etc…

— Isso. Mas também é quando os mortos e os espíritos aparecem.

— E o que isso tem a ver com a construção? – Indagou Eneida.

— A senhora não acredita nos mortos, né?

— Não.

— Pois devia. Saiba que, se existem ossos espalhados pela terra, é que eles ainda estão conosco.

— E o que o senhor quer dizer com isso? Que os fantasmas vão amaldiçoar a todos nós?

— É mais ou menos isso.

— Ninguém pode contra um bate-estacas e tratores. Nem os espíritos.

— Não sei não.

— Espíritos e fantasmas à parte, fico realmente chateada com o que fazem aqui. Não concordo com isso, mas é o preço do desenvolvimento. É como o senhor disse: não haveria condições de sustentar sua família. Não é mesmo?

— É.

— Então, no fim, todos ganham.

— Menos a natureza. Pelo que sei aquele local era protegido. Tinha gente enterrada lá. Ninguém poderia escavar uma área sagrada.

— Pode ser que concluíram que já era hora de desenvolver essa área.

O silêncio e a sombra da dúvida pairaram pelo resto do caminho. Depois de chegarem, a menina saltou do carro e correu em direção a Dedé. Eneida veio em seguida e perguntou:

— Alguma notícia de Maximiliano?

— Ele não chegará hoje.

— Por quê?

— Fui informada que ele não poderá vir. Isso devido a alguns detalhes de documentação ainda pendentes. Assim que tudo estiver resolvido ele virá.

— Pelo que acabei de ver, para que documento? – Disse Eneida decepcionada. E pensou: “Sempre o trabalho em primeiro lugar.”. Antes de subir ao quarto para descansar, Eneida estranhou a ausência de funcionários na casa.

— Você não dará conta sozinha de uma casa assim grande. – Dedé ergueu os ombros em sinal de desconhecimento total sobre isso. – Vou descansar. Dominica precisa comer algo.

Dedé retirou-se levando consigo a menina. Eneida foi para o quarto. Sentou-se diante da escrivaninha. Apanhou um caderno na gaveta e, insegura quanto a que escreveria, empunhou uma caneta. Queria extravasar a angústia que lhe apertava o coração. “Preciso me comunicar com Maximiliano. Queria enviar uma mensagem, mas não temos computador aqui. Poderia ir à administração da construtora, no entanto, não me sentiria a vontade. Meu celular está sem sinal. Meu Deus, estou completamente isolada! Quem sabe uma carta. Nunca fui muito boa em escrever. Mesmo assim, lá vai”:

“Querido

Peço desculpas pela impaciência. Sei que deve estar ocupado para ouvir minhas queixas, mas ficar sem você, confinada aqui, me deixa insegura. Às vezes, chego a pensar que você me evita, suspeita esta que se fortalece, pois, nesses dois dias sequer telefonou. O que adiantaria? Aqui não tem telefone. Quem sabe um simples recadinho através da secretária. Será que ainda pensa em mim como antes? Você é um homem atarefado, inteligente. Talvez esta mensagem não toque seu coração. Ao contrário, quem sabe cause mais aborrecimentos. Contudo, peço-lhe uma única coisa: não se esqueça de nossa filhinha. Ela sente muito a sua falta. Por favor, venha logo.”

— Que mensagem idiota. Ele não passaria da primeira linha. – Eneida desistiu da ideia de mandar a carta. Amassou o papel e arremessou-o no lixo.

Um tempo depois de ter descansado, Eneida, ainda deitada, ouviu vozes na porta de entrada da casa. Dedé conversava com dois funcionários da manutenção. Diziam que o gerador da casa havia apresentado um defeito. Seria impossível resolver o problema a tempo. Portanto, naquela noite teriam que utilizar lampiões. Às pressas, Eneida desceu as escadas para saber mais detalhes e exigir que trabalhassem para reparar o defeito o quanto antes. No entanto, não houve tempo. Tinham partido.

— Dona Eneida…

— Já sei. Eu ouvi. E agora? Como vamos ficar sem luz aqui? É perigoso!

— Tudo bem, senhora. É só uma noite.

— Uma noite que parecerá uma eternidade. Huh! Temos lampiões aqui?

— Sim, senhora. Já vou buscá-los.

“Tudo bem, tudo vai ficar bem. Será apenas uma noite”. – Pensou Eneida sentindo um vazio gélido em seu peito.

O tempo passou. Os lampiões já haviam sido posicionados na parte externa da varanda. E outros dois ficaram dentro da casa. Eneida, Dominica e Dedé resolveram sentar na varanda para ver a chegada da noite. No entanto, aquele entardecer fora diferente. Não houve brisa. O silêncio imperava. Se a melancolia tivesse cor, ela seria vermelha como o horizonte naquele entardecer.

— Nossas almas ficarão desprotegidas por uma semana. – Disse Dedé com os olhos fixos no céu.

— Nossa, Dedé! Não fale assim.

— A senhora não entende. Nas noites escuras, não conseguimos escapar do que está escondido dentro de nós. Se formos boas em essência, assim nos comportaremos, se formos más em essência, não conseguiremos esconder. E é na fraqueza e na carência que tudo acontece.

— Se fosse assim, todo mundo saberia disso.

— As pessoas da cidade dormem mesmo quando estão acordadas. Aqui despertamos. Mesmo quem tem bondade no coração pode sofrer ao passar pela noite escura.

— É. Talvez. Veremos.

— Mudemos de assunto: percebi que a senhora está diferente depois que viemos para cá. – Observou Dedé.

— Você acha? Diferente como?

— Na cidade, mal saía de seu quarto ou do ateliê. Agora tem até coragem de se aventurar pela mata à noite.

— É… É verdade. Não tinha me dado conta disso.

— Outra coisa: É impressão minha ou a senhora parou com os antidepressivos?

— Parei.

— Viu como o lugar modifica as pessoas!

— Aliás, tenho tido muita inspiração para pintar.

— Isto é o que importa. Não se perca, dona Eneida. Observe-se bem. Escolha os pensamentos da mesma forma que escolhe suas roupas. Saiba combiná-los; sempre os mais bonitos, e assim, se sentirá bem.

— Lá vem você. Acho que deveria mudar de profissão. Quem sabe se desse bem com uma tenda num shopping. Podia ler sorte.

— Desse jeito a senhora me ofende.

— Desculpe, Dedé, é só brincadeirinha. Apreciamos muito o seu trabalho. É extremamente competente no que faz.

Depois da conversa, sobreveio um silêncio pesado. As três pareciam imersas em profunda reflexão. Efeito do entardecer? Talvez. No entanto, os incômodos de Eneida voltaram com toda força. A ausência do marido, as estranhas caixas depositadas no porão, a falta de comunicação, os funcionários da casa que não se apresentaram… tudo isso girava em sua mente sem que chegasse a conclusão alguma. E a primeira das noites escuras, enfim, chegou. A estranha yamí seria longa. E o sol dava o último suspiro antes de se esconder.

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