Primeira noite

Naquela primeira noite, não só a natureza se calou, mas também a casa. Tudo caiu em mais profundo silêncio. Perturbador. Parecia a intermitência de uma série de eventos ruins que estaria para acontecer. Aquilo gerou uma ansiedade opressora inexplicável nas três. O céu tornara-se tão escuro e profundo que ao olhá-lo, qualquer um acabaria realmente convencido de que as estrelas haviam sido roubadas. Até o tempo parecia inexistir. Dedé ousou quebrar a quietude dizendo:

— Acho melhor entrarmos. Não é bom ficarmos aqui.

— Concordo. – Disse Eneida. E completou: – Você não acha melhor acender os lampiões?

— Farei isso. – Respondeu Dedé, mas com os olhos ainda fixados no horizonte.

— Vamos, Dominica. Vamos entrar. – Recomendou a governanta. A menina fez que sim, sem questionar. Só conseguiu se mexer depois que Eneida segurou-a pelos ombros, e conduziu-a até a sala.

— Mamãe, por que a noite aqui parece mais escura? – Indagou Dominica.

— É porque não estamos na cidade. No interior, as noites são escuras assim. Onde nós moramos existem as luzes das casas, dos prédios, dos postes que tornam as noites mais claras. – Explicou Eneida numa tentativa de tranquilizar a filha.

— E onde está Dedé?

— Foi acender os lampiões. Acho que…

De repente, Dedé retorna com duas velas nas mãos:

— Foram as únicas que encontrei. Servirão.

— E os lampiões?

— Vou acendê-los agora. Também espero que seu João venha logo.

— Para que o chamou?

— Quem sabe ele consiga reparar o gerador.

Eneida olhou pela janela e percebeu luzes, bem ao longe, lá no vilarejo.

— Olhe, Dedé. As luzes. O gerador daquele vilarejo deve ser melhor que o nosso.

— O daqui funcionaria se não ficasse tanto tempo parado. Ficaremos bem, não se preocupe.

— Assim espero. Essa escuridão me dá arrepios.

— Mamãe, estou com medo.

— Não, minha querida, estamos aqui juntinhas. Logo a luz virá. Já sei: por que não brincamos de fazer sombras? Farei… uma borboleta. – A luz de um dos lampiões da varanda iluminava parte da sala. Eneida juntou as mãos, cruzou os polegares e abriu os demais dedos. A sombra projetou-se na parede formando a silhueta de uma enorme borboleta. Dominica se admirou e esboçou um sorriso.

— Viu? Assim que eu gosto de ver você: sorrindo.

Depois de ter dado conta de todos os lampiões ao redor da varanda e da sala, Dedé disse:

— Estão brincando com as sombras? Também sei fazer uma.

— Qual? Qual sombra que você sabe fazer? Perguntou Dominica.

vDe um cão bravo. Quer ver?

— Quero.

A governanta, com ótima habilidade manual, projetou a sombra de um enorme cão.

— Au, au, au, veja como é feroz. – Brincou. Dominica ria sentindo-se agora mais segura.

— E aquela sombra ali? Como você fez? – Perguntou a menina bastante eufórica com tamanha perfeição, apesar de assustadora.

— Que sombra?

— Daquela mulher. Como consegue fazer?

— Mulher? Onde?

— Aquela. – Dominica apontou para o chão bem à frente da porta de entrada. Pela fresta da soleira, uma raia de luz passava juntamente com uma estranha sombra. Eneida caminhou em direção a ela. Aproximou-se mais e olhou pela janela. Para seu espanto, reconheceu a velha, a mesma que havia encontrado na mata. Estava sentada na beira da escada, de costas, a metade do corpo abaixado e a cabeça, numa espécie de aflição, metida entre as mãos.

Eneida ficou paralisada.

— É a velha! – Exclamou – Si-sim, é a mesma que encontrei a caminho do vilarejo.

Dedé e Dominica correram para ver. Espantada a menina disse:

— É um espírito.

Eneida esticou o braço bem devagar e tocou a maçaneta. Girou-a e o estalo da porta fez as três pularem. Contudo, a velha continuava imóvel, indiferente. “Então, não é uma alucinação? Elas também conseguem vê-la!” – Pensou Eneida no momento em que abria a porta. Então, saiu bem devagar. Seu pé pisou sobre a sombra que rapidamente se contraiu como se fosse uma entidade viva. Eneida deu mais alguns passos e estendeu a mão com o intuito de tocar o ombro da velha. Queria definitivamente confirmar sua materialidade. Ao dar o passo definitivo e no exato momento em que a sua mão iria tocar-lhe o ombro, a velha tornou-se rapidamente com terrível feição: Olhos arregalados, lábios rachados e a boca manchada de sangue. Com voz chiada, disse:

— Ela chegou. Hora da grande revelação.

Da mesma forma como apareceu, sumiu. Simplesmente desapareceu no ar em meio a uma tênue neblina. As três estremeceram e ficaram pregadas no chão. Dominica começou a chorar de tanto medo e Dedé abafou o grito.

— Não pode ser. Se fosse delírio só eu a veria. Vocês também a viram. – Concluiu Eneida ainda congelada pelo medo. Cambaleante voltou para o sofá e abraçou a filha. – Dedé, a coisa ficou pior. – Comentou Eneida de um jeito aflito.

— O recado foi dado. – Disse Dedé com voz embargada. O horror fora tanto, que a menina, ainda estática, apenas piscou entre as lágrimas e permaneceu boquiaberta com a respiração acelerada.

Eneida confusa, rígida e com muito esforço, conseguiu pedir para que Dedé levasse Dominica para o quarto. Pediu também para chamar seu João imediatamente.

— Está muito escuro aqui. Reclamou a menina com os olhos arregalados.

— Sim, eu sei. Suba assim mesmo. Segure no corrimão da escada e vá devagarinho para o quarto. Subo já. Dedé lhe acompanhará. – Ordenou Eneida.

— Vamos, Dominica. Obedeça a sua mãe. – Reforçou a governanta ainda assustada.

Eneida permaneceu na sala, chocada com o que vira. Foi quando um som forte, uma espécie de batida surda no chão da varanda fez Eneida congelar. Manteve-se em silêncio. “Alguém está na varanda.” – Pensou. Houve alguns segundos de silêncio até que ouviu passos. Vagarosos, mas pesados. De repente, de passos à saltos, depois à pulos intermitentes. Às vezes cessava, e quando isso acontecia, uma respiração ofegante e um rosnar feroz eram claramente ouvidos.

Por um lapso de segundo, Eneida estupidamente arriscou acreditar que podia ser João, pois ficara de trazer mais lampiões. A ideia caiu por terra quando ouviu a maçaneta da porta da frente girar lentamente. Por estar trancada, – seja lá o que ou quem fosse – começou a arranhar o batente da porta e a resmungar algo incompreensível. Eneida só pensava em proteger a filha, caso aquilo conseguisse entrar. Um odor pútrido invadiu a sala, algo parecido com cheiro de enxofre. Eneida pedia a Deus que afastasse todo o mal que ameaçasse seu lar. Mas as coisas só pioraram. Agora, a criatura dava voltas pela varanda, como um predador ansioso, quase louco para capturar sua presa. Rosnava mais alto e rangia as garras pelas paredes. Não suportando mais aquilo, numa manobra de desespero, Eneida rastejou-se até a janela e, vagarosamente, foi se erguendo para tentar ver o que poderia ser afinal.

Subitamente, estrugiu na varanda um pavoroso grito. Sorrateiramente, Eneida aproximou-se da janela. O que viu deixou-a estarrecida. A luz dos lampiões revelou algo inacreditável. Difícil de acreditar nos próprios olhos. Um ser, uma criatura escura, com olhos evidentes, brilhantes, rosto deformado e parcialmente recoberto de pelos. Boca semiaberta, deixava um fio de saliva escorrer continuamente pelos cantos. Dentes a mostra semelhantes aos de uma piranha. Apavorada, Eneida afastou-se da janela para se esconder atrás do sofá a esperar do pior. Procurou por algum objeto contundente para se defender. Porém, não havia nada que pudesse servir.

— “Socorro, socorro, meu Deus. Proteja minha filha.” – Implorava Eneida em voz baixa, ao mesmo tempo que olhava para os lados a procura de ajuda que não viria de parte alguma.

Cada segundo que passava – o que parecia uma eternidade –, seu horror ia se transformando em delírio de desespero, acompanhado de suor, soluços, lágrimas. Foi, então, que teve a ideia de precipitar-se até a escada. Impulsivamente o fez. Subiu aos tropeços para o quarto de Dominica. Ao abrir a porta, deparou-se com a governanta, à luz de vela, lendo tranquilamente uma estória em quadrinhos para a menina enquanto o sono já lhe pesava aos olhos.

— Dona Eneida! A senhora está bem? Parece assustada! – Exclamou.

— Assustada? Apavorada. Você não ouviu? Sabe o que está acontecendo lá embaixo?

— Não! O quê?

— Um monstro. Ele está lá embaixo. E arrombará a porta se não fizermos nada. Precisamos nos proteger. – Alertou Eneida.

— Monstro? Como assim?

— Escuro, pelos por todo o corpo. Uma boca horrível.

— Arranhava a porta?

— Isso, isso mesmo. Você o viu daqui de cima?

— Alguns animais fazem isso. Deve ser um lobo, ou algo parecido. Ficamos impressionadas com a aparição daquela velhinha e por isso…

— Dedé, você está me chamando de louca?

— Claro que não. Tento apenas ser racional.

— Como pode ter tanta calma? Isso tudo acontecendo… assim…

— Tudo o que, senhora? Tenha calma.

“Meu Deus, será que eu estou ficando louca? Ela age como se nada estivesse acontecendo!” – Pensou.

— Dona Eneida, estamos nos adaptando ao lugar. O que vimos lá embaixo deve ser dissolvido em nossas mentes pela força da fé. Não podemos valorizar o mal. Deus está conosco. Além do mais, aqui é um lugar diferente. Às vezes, podemos ter falsas impressões.

— Você mesma falou que…. Ah, deixa pra lá. Só acho que estamos correndo um enorme perigo aqui. O que vi lá embaixo foi terrível. E ele ainda deve estar lá.

— As noites escuras fazem isso com a gente. Lembre-se: Nunca perca a fé. Tente se acalmar. – Disse Dedé. No entanto, aquela calma confundia Eneida.

— É… e se o seu João chegar? Ele precisa tomar cuidado. Se esse bicho o atacar…

— Esqueça seu João, Dona Eneida. Já é tarde. Nas noites escuras ninguém sai de casa. Nem os animais se arriscam. Estou até surpresa que um tenha tentado entrar aqui.

— Não era um animal.

— Tudo bem. Já se foi. Relaxe. Vamos todas passar a noite aqui no quarto.

— Boa ideia.

Dedé iniciou as preces. Dominica adormeceu, mas Eneida ficou em alerta, ainda assustada. O tempo passou e o dia veio para dissipar o medo. O medo que gerou o sobrenatural. A escura yamí, enfim, deu uma trégua. A luz prometia ser mais segura. Ou não?

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