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CAPÍTULO 10 

Escrito por: Alessandro Fonseca29/06/2026 - 20:00

 

A batida na porta não foi educada.

Foi firme.

Oficial.

André já estava esperando.

Ele abriu antes da segunda batida.

— Senhor André Almeida?

— Já sei.

Dois investigadores entraram. Um deles fechou a porta com calma calculada.

— Precisamos que nos acompanhe.

A sala da delegacia era fria demais para aquele tipo de conversa.

— O senhor discutiu com a vítima na noite do assassinato?

— Sim.

— A discussão foi sobre traição?

André hesitou.

— Foi sobre mentiras.

— O senhor ameaçou a vítima?

Silêncio.

O investigador deslizou uma folha pela mesa.

Impressão de mensagem recuperada.

“Você vai se arrepender.”

— O senhor escreveu isso?

— Escrevi.

— O senhor o amava?

A pergunta veio seca.

— Amava.

— Amor vira ódio rápido.

André levantou os olhos.

— Nem todo mundo mata por impulso.

— Mas quem ama demais às vezes perde o controle.

A pressão era psicológica.

E estava funcionando.

— O senhor sabia que a vítima tinha um histórico de envolvimento com negócios ilícitos?

André congelou.

— Que tipo de negócios?

O investigador observou a reação.

— Então o senhor não sabia.

A frase ficou no ar.

Semente plantada.

Horas depois, Rafael apareceu.

Sem aviso.

— Eu disse que isso ia acontecer.

— Para de agir como se estivesse acima de tudo!

Rafael manteve a calma.

— Você não conhecia o Eric inteiro.

— Para com isso.

— Ele usava gente.

A palavra foi dita com desprezo.

— Usava você. Usava o Lucas. Usava a família.

André ficou imóvel.

— Que merda você está falando?

Rafael respirou fundo.

— Eric estava lavando dinheiro para os próprios tios. Drogas. Apostas. Contratos falsos. Ele era o rosto limpo do negócio sujo.

O ar pareceu desaparecer.

— Você está mentindo.

— Eu participei.

O silêncio foi brutal.

— Você… o quê?

— Eu fazia a ponte. Contatos. Transferências. Até perceber que ele estava nos queimando para proteger o próprio nome.

André sentiu o chão ceder.

— Ele não seria capaz.

Rafael riu, mas não havia humor.

— Você ainda acha que ele era vítima?

Lucas reapareceu como quem não tem culpa.

— Soube que te chamaram na delegacia.

— Você já sabia.

— Eu sempre sei.

André o encarou.

— O que você quer?

Lucas se aproximou devagar.

— Nada que você já não tenha me dado.

A frase foi baixa. Ameaça disfarçada.

— Se essa história sair… nossa noite vira argumento.

O estômago de André revirou.

— Você não faria isso.

Lucas sustentou o olhar.

— Não me subestime.

— Você está me chantageando?

— Eu estou me protegendo.

A mesma justificativa de Rafael.

Sempre “proteção”.

Sempre mentira embalada como cuidado.

A investigação avançava.

Movimentações financeiras começaram a surgir.

Contas ligadas a empresas fantasmas.

Nome de Eric aparecia como intermediador.

Mas oficialmente, ele continuava sendo a vítima perfeita.

Filho exemplar.

Herdeiro respeitável.

A mãe assistia tudo em silêncio.

Quando o nome dos negócios sujos surgiu na imprensa, ela não demonstrou surpresa.

Só tristeza.

Controlada demais.

André começou a juntar as peças.

Eric lavando dinheiro.
Rafael envolvido.
Lucas sabendo demais.
Ele sendo o rosto perfeito para a culpa.

— Ele me usou — André murmurou.

Rafael o encarou.

— Ele usava todo mundo.

— Então por que eu ainda sinto falta dele?

Rafael não respondeu.

Porque a resposta era simples e cruel:

Manipulação não apaga sentimento.

O capítulo termina com o investigador dizendo, de forma direta:

— Senhor André, se novas evidências surgirem, o senhor pode ser formalmente indiciado por homicídio qualificado.

A palavra ecoou.

Indiciado.

E pela primeira vez, André percebeu que talvez não estivesse apenas cercado.

Talvez estivesse sendo empurrado exatamente para onde alguém queria.

E se Eric era mesmo o filho da puta que Rafael descreveu…

Quem, afinal, tinha mais motivos?

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