Cristovam, na biblioteca, examina algumas joias preciosas.

Num dos quartos da casa, um garoto, 8 anos, dorme.

É noite. Através da pedra de diamante o homem de 40 anos, vê uma luz azulada, muito pequena surgindo. Ela vai aumentando e se coloca a sua frente.

Ezequiel sai da luz, alegre, fala com ele. — Como vai, meu amigo.

Cristovam, em sorriso — Você sabe que estou bem. E posso imaginar o que faz aqui. — aponta em direção onde está Custódio. — Tenho mesmo que ir? Não posso ficar um pouco mais com o meu menino.

Ezequiel — Ele vai ficar bem. Vamos acreditar que sim.

Cristovam — E como sempre, se coloca a favor de sua proteção. No intuito de proteger o grande círculo de almas gêmeas.

Ezequiel — Todos tem direito de novas oportunidades. E sabe, que sempre estará aqui, quando seus filhos precisarem.

Cristovam — Certo! — pega as joias que estão em cima da mesa, coloca em um saco pequeno de couro. Tira um quadro pendurado na parede e abre o cofre. Coloca o saquinho dentro, tranca-o, e volta o quadro no lugar.

Ezequiel desaparece lhe dizendo: — Nos veremos em breve.

Cristovam se dirige ao quarto do filho, beija-o na testa, e arruma o cobertor.

Na cozinha, conversa com Ba. — Preciso fazer uma viagem longa. Cuida bem da minha criança. Jamais o deixe sozinho.

Ba — O patrão sabe que pode confiar em mim.

Cristovam — Sei disso! Tanto que estou indo tranquilo.

Ba — O patrão volta quando?

Cristovam — A vida é um imprevisto. Hoje estou aqui. Quem garante que amanhã estarei.

Ba ri — Claro que não vai estar aqui amanhã. O senhor disse que vai fazer uma longa viagem.

Ele beija-a na testa e se despede. Sai pela porta da frente. Anda alguns quilômetros e o corpo que ocupava cai ao chão.

O espirito continua caminhando.

Na estação, embarca no trem. Pede licença a uma senhora, e senta ao lado dela. O trem está cheio.

Em outra estação desembarca. No porto, ele entra no navio e a viagem continua em alto mar.
No Rio de Janeiro desembarca, anda pelas ruas e para de frente a uma casa.

Do lado de dentro, uma mulher (30anos) quase no final da gravides, costura o enxoval do bebê.

Em São Paulo.

Custódio, encolhido na cama, abraçado a foto do pai, chora.

Ezequiel aparece e sopra em direção ao pequeno, que seca o rosto molhado, levanta e sai em direção a porta.

Custódio caminha pelas ruas. Logo chega no cemitério, e se coloca diante a lápide de Cristovam. Escuta passos. De longe observa as pessoas chegando.

Ezequiel se aproxima de Eduardo (7anos), e sussurra lhe aos ouvidos: — Vamos lá, meu garoto. Sua missão está se iniciando. Comece ensinar aos seus irmãos, o que lhe foi determinado antes do seu nascimento. Ensine-os o verdadeiro significado do amor.

Eduardo vê Custódio, meio escondido, atrás de uma lapide.

Custódio corre. Eduardo solta a mão da mãe, e o segue. Beto solta do pai, e vai atrás.

Os dois se aproximam de Custódio.

Eduardo puxa conversa. — Quem está enterrado?

Custódio, de joelhos, olhar fixo na sepultura. — Meu pai.

Eduardo aponta em direção de onde veio. — Minha avó quem morreu. Ela estava bem velhinha. Se chamava Francisca. Como era o nome do seu pai?

Custódio — Cristovam. Ele não era velho. O coração que parou. O doutor quem disse.

Beto — Sua mãe deixa você aqui sozinho?

Custódio — Não tenho mãe. Ela também morreu. Quando nasci. — e chora. — Agora não tenho mais ninguém.

Dudu se coloca de joelhos também — Então, com quem você mora?

Afonso chega – Hei, crianças. Vamos embora? A avó de vocês já foi enterrada.

Eduardo aponta Custódio – O pai dele morreu, está enterrado aqui.

Beto – A mãe dele também.

Afonso – Com que está, garoto?

Custódio – Sozinho. Fugi de casa. Não quero voltar lá. Nunca mais!

Afonso se aproxima – Aqui você também não pode ficar. Deve ter alguém responsável por você. Como se chama?

Menino – Custódio.

Afonso – Nome forte. Onde mora?

Custódio – Não quero voltar pra minha casa. Já fale. Meu pai não está lá.

Eduardo – Pai, ele pode morar na nossa casa? O senhor pode ser pai dele também, já que o pai dele morreu.

Custódio – Não quero outro pai. Quero o meu de volta. – e chora.

Afonso – Com certeza quer. Pai é insubstituível. Sofri muito quando o meu se foi, e, eu era bem mais novo que você e sobrevivi. Acabei entendendo, com o tempo, que a morte vem para todos. Um dia eu também vou morrer e meus filhos vão ficar sem mim. Cedo ou tarde isso acontece. A morte vem para todos.

Dudu entristece — Pai, eu não quero ficar sem você.

Afonso pega-o, fazendo-o olhar em seus olhos. — Sei que não quer, filho. Mas, é a morte quem determinada o tempo que devemos viver. Ela faz parte da vida. Infelizmente é assim. Ninguém vive eternamente.

Custódio em prantos — Por que as pessoas morrem?

Afonso pensa numa boa resposta que pudesse convencê-lo ir embora.
Noemi e a filha de doze, chegam.

Afonso — Já pensou se ninguém morresse desde o dia em que Deus criou o mundo, bilhões e bilhões de anos atrás? Não teria espaço para ninguém. Um teria que andar no cangote do outro.

Todos dão gargalhadas.

Afonso — Agora vai me dizer aonde é a sua casa?

Custódio – Do outro lado da cidade.

Afonso – Com quem você mora?

Custódio – Com a minha, Ba. Mas o Juiz disse que eu não posso continuar morando com ela.

Dudu — Custódio, você aceita ser meu amigo?

Beto, bravo: — Dudu, você deve perguntar se ele quer ser nosso amigo, e não só seu.

Dudu — Perguntei por mim. Você pergunta por você.

Beto faz bico, emburrado.

Noemi para Afonso – Querido, temos que ir. O sol está muito quente. Vai fazer mal pro meninos.

Custódio aponta Noemi — Ela se parece com a minha Ba. Tem a mesma cor dele.

Dudu se alegra ao falar de Noemi — Ela é minha mãe e do Beto. Nós dois nascemos no mesmo dia. – mostra a mocinha – Ela é minha irmã. Somos todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe.

Beto se encolhe, sentindo raiva. Ninguém percebe. Afonso pedia: – Vamos, meninos? – olha Custódio – Você também. Vou levá-lo para sua casa, é só me mostrar o caminho.

Custódio não se manifesta. Afonso fala com os filhos. — Os dois vão querer deixá-lo sozinho aqui?

Dudu — Meu pai leva você embora.

Beto — Se não quiser morar na sua casa, pode ir morar na minha.

Dudu — Custódio pode morar na nossa casa, pai?

Beto — A ideia foi minha, Dudu. Você não tinha nada que perguntar na minha frente.

Dudu — Mas você não perguntou.

Afonso — Se vão brigar por causa do Custódio, deixo o aqui, resolver ele mesmo o que quer. Estamos combinados? — Os garotos nada respondem. Afonso para Custódio. — Você tem dois minutos para se levantar desse chão, ou, vai perder a chance de ter dois grandes amigos, que vão ajudá-lo a superar a dor de perder o seu pai. E olha que, uma boa amizade não se acha fácil assim. E depois, o sol está muito quente, precisamos tomar água bem fresca.

Dudu — Meus miolos estão fritando debaixo desse sol. — e pergunta ao novo amigo. — O seu não está?

Custódio nada responde. Afonso fala com ele. — Os minutos estão passando, garoto. Não vou perder o resto do meu dia com você.

Dudu fica aborrecido. — Você não quer ser meu amigo? Prometo que vou ser seu amigo de verdade, sempre, se for embora daqui.

Beto — Eu também prometo ser seu amigo de verdade.

O menino não se move.

Afonso — Ele não quer a nossa amizade. Vamos embora? Quando se cansar, volta para casa sozinho, do mesmo jeito que veio. — E retorna para Custódio. — Ou, será que não se lembra do seu endereço. — Custódio, em silêncio, ainda fixa o tumulo do pai. — Vou lhe dar a última chance, garoto. Eu o ajudo a ficar de pé.

Custódio fica em dúvidas se pega ou não a mão oferecida. Eduardo se aborrece, tanto que os olhos ficam avermelhados. — Pega na mão do meu pai. O seu, vai ficar muito triste se você ficar aqui sozinho. Não é verdade, pai?

Afonso — Com certeza. Eu iria ficar muito aborrecido se estivesse no lugar dele, e visse meu filho aqui sozinho, sem eu poder levá-lo de volta para casa.

Dudu — Você vai querer deixar o seu pai aborrecido? Eu nunca vou deixar o meu triste, nem mesmo quando ele não estiver perto de mim.

Sem se conter, Custódio chora. Afonso o ajuda ficar de pé. — Você é um bom garoto. Seu pai deve estar orgulhoso.

Custódio — Não sou garoto. Meu pai sempre dizia eu já ser um homenzinho, pequeno ainda, mas era.

Afonso ri. Cristovam e Ezequiel também. Estavam ali o tempo todo.

— Está certo, homenzinho. Não vou discordar com as palavras do seu pai. E a sua Ba vai ter que servir um suco bem gostoso quando chegarmos lá, para recompensar o tempo que ficamos te bajulando. Agora vamos? Mostra o caminho. — e saem passando pelos anjos que satisfeitos desaparecem.

Na rua, Noemi e a filha tomam outro rumo. Adiantariam o almoço.

A casa, rodeada com as milícias. Ba, a primeira vê-los chegar, vai ao encontro.

Ba — Meu Deus, menino, onde estava? Fiquei sem saber onde procurá-lo, tanto que chamei ajuda.

Afonso — Ele estava visitando o túmulo do pai.

Ba — Quanto quiser ir lá, me avisa. Vou com você. Não devia ter saído sozinho.

Dudu — Ele não estava sozinho. Eu, meu pai e o meu irmão, ficamos com ele. — e puxa Afonso pelo punho da camisa. — Estou com sede, pai. Quero água. E o suco que o senhor falou?

Afonso, coloca a ponta do dedo na frente da boca. — Psiu! Esqueça o suco. Tomamos quando chegarmos em casa. Falei aquilo só para animar Custódio e já que ele foi entregue, vamos para casa também.

Dudu — Ele não vai ser nosso amigo?

Um policial fala com Ba. — Já que não precisa mais da nossa ajuda para encontrar o fujão, estamos indo. Vou passar o ocorrido para o delegado que avisará o juiz pela nova atitude do garoto. Assim, ele decide logo o destino dele.

Ba agradece e volta a atenção para Eduardo. — Quer a água ou suco?

Dudu — Suco.

Afonso reprime o filho — Eduardo!?

Dudu — Pai, só respondi o que ela me perguntou.

Ba ri, e pede que todos se acomodam na sala enquanto providenciaria o suco. Não demora servir. Ela fala com Afonso — Esqueci de agradecê-lo por trazer Custódio de volta para casa. Fiquei tão desesperada com o sumiço dele. Sou responsável até o juiz decidir onde Custódio vai morar agora, depois da morte do pai.

Afonso — Ele não tem parente?

Ba — Não no Brasil. Tem uma tia que mora nos Estados Unidos, faz quinze anos. Irmã da mãe dele. Depois que a minha patroa faleceu, a irmã não mais mandou notícias. Meu patrão não tinha parentes, era filho único. Os pais morreram faz muitos anos, e o Custódio vai ser mandado para um internato, se a tia não aparecer.

Custódio — Não vou morar em lugar nenhum. Se eu não ficar na minha casa, vou fugir de novo. Vou ficar onde meu pai está. Morar lá com ele, para sempre.

Ba — Quem vai decidir o seu futuro, Custódio, não é você, mas sim, o juiz. Já conversamos a respeito disso.

Dudu — Pai, o Custódio não pode mesmo morar na nossa casa?

Afonso — Não devia prestar atenção na conversa de adultos, Dudu.

Ba — O juiz disse que seria bom se tivesse alguém responsável, até a tia aparecer. Assim, ele não se sentiria tão sozinho.

Dudu — Já que o Custódio não pode morar na nossa casa, podemos ficar moramos aqui com ele, pai?

Afonso — Dudu, eu já lhe pedi para não interferir na conversa de adultos. E depois, temos nossa casa para morar.

Dudu — Eu só não quero ver o meu amigo chorando sem o pai dele. Eu também vou chorar muito, quando o senhor não estiver comigo, e eu não vou ficar sozinho. Tenho minha mãe, meu irmão e a minha irmã. Custódio não tem mais ninguém.

Ba se encanta com a preocupação do garoto.

Custódio, cabisbaixo, toma suco, sem vontade.

Ba — Um amigo legal você encontrou, Custódio. Ele acabou de conhecê-lo e está preocupado em não querer vê-lo sozinho, chorando.

Dudu — Eu queria que ele morasse na minha casa, assim, meu pai seria pai dele também.

Beto — Dudu, você nada entende. Se nosso pai for pai dele, Custódio não vai ser nosso amigo. Vai ser nosso irmão. — vira para Custódio. — Você gostaria de ser nosso irmão?

Eduardo fica alegre — Eu vou adorar ter outro irmão. — e fala com o pai. — Custódio pode ser meu irmão de verdade, pai?

Afonso se coloca de pé. — Temos que ir. Sua mãe deve estar com o almoço pronto.

Custódio fala com Ba. — A mãe do Eduardo e do Beto, Ba. Tem a sua cor.

Dudu — Eu e meu irmão herdamos a cor do meu pai. Minha irmã é igual a minha mãe.

Ba — Como elas se chamam?

Dudu — Minha irmã se chama Ranay. Minha mãe é Noemi. Ela puxou a minha avó Francisca. Meu avô Eduardo era branco como o meu pai. Ele morreu bem antes de eu nascer. Minha mãe quem me contou. Ela colocou o nome dele em mim. Eu me chamo Eduardo Lacerda. Meu irmão se chama Roberto Lacerda. Ele tem o nome do meu bisavô, pai do meu avô Eduardo.

Custódio arregala os olhos: — Meu nome também é Lacerda. Eu me chamo Custódio Lacerda.

Eduardo fica feliz — Então, você é meu irmãos de verdade!

Beto como sempre, zangado. — Nós três somos irmãos, Dudu! Você é meu irmão. Se Custódio é seu irmão, ele também é meu.

Ba e Afonso, boquiabertos pela coincidência, acabam rindo da discussão.

Custódio exalta de alegria. Os olhos ganham brilhos. Animado levanta da poltrona, falando com os amigos. — Perdi meu pai, mas ganhei dois irmãos. Vem comigo, Dudu. Vou mostrar a fotografia dele pra você.

Beto, carrancudo fica sentado, enquanto os dois saem correndo.

Ba — Vá com eles?

Beto bicudo — Custódio chamou só o meu irmão.

Eduardo volta. — Beto, você não vem?

Beto, ainda embirrado. Queria que Custódio lhe chamasse, tanto, que Dudu percebe e fala com o amigo. — Melhor você chamar ele.

Custódio — Vem ver a foto do meu pai também, Beto?

O garoto continua no lugar, com ciúmes.

Afonso: — Vá logo, Roberto. Estão chamando.

Dudu puxa irmão pela camisa, para que se apressa. — Anda logo, Beto. Daqui a pouco vamos embora, e não vamos poder brincar com o nosso irmão.

Afonso — Dez minutos, crianças, e depois temos que ir. — rindo se refere a Ba. — Pelo jeito acabei de ganhar outro filho. O nome do garoto é mesmo Custódio Lacerda?

Ba — Sim! O nome do pai dele era senhor Cristovam Lacerda. Será que são parentes?

Afonso — Não eu. Meu sobrenome não é Lacerda. Esse era o sobrenome do meu sogro. Pelo que sei, ele não tinha irmãos. Não ser que seja por parte dos irmãos do pai. Não sei nada à respeito.

Ba, feliz e aliviada — Como Deus é bom. Os garotos podem não ser parentes, mas Custódio não vai se sentir sozinho, agora. Gosto muito dele. Cuido desde quando nasceu, e não queria me separar. Sei que não posso ser responsável, não sozinha, como explicou o juiz. Quem sabe o senhor falando com ele consegue a guarda.

Afonso — Na minha casa, não terá o conforto que ele tem aqui. Lá é bem simples. O que as pessoas vão pensar? Que posso ter interesse na fortuna que provavelmente o garoto herdou do pai.

Ba — Tudo está em juízo. Custódio só vai mexer na herança quando for maior de idade. Apenas recebe uma parcela mensal, para os gastos e educação. Também administrada pelo juiz. Ele era muito amigo do meu patrão. Não mandou Custódio para um internato ainda, por dó. Sabe que Custódio e o pai eram muitos apegados. Tanto que, desde o dia em que senhor Cristovam se foi, o menino só chora. Não quer estudar. Foge da escola. Por três dias não saia do quarto do pai. Fiquei desesperada quando não o encontrei em casa. Foi a primeira vez que Custódio fugiu daqui.

Afonso — Quem sabe, foi o pai, ou um anjo que soprou aos ouvidos dele para que fosse onde está enterrado, assim, encontraria amigos para ajudá-lo a sair da tristeza. Foram meus meninos que viram ele. Vai ver, Deus levou minha sogra na hora certa, para que os meninos se encontrassem. Parece que tudo foi programado por alguém, lá de cima.

Ba — Como era o nome da vossa sogra?

Afonso — Francisca. Era ex-escrava. Mãe da mulher que amo de paixão.

Ba se emociona: — Sua esposa deve ser uma mulher feliz, em ter um marido tão apaixonado. É bonito e raro ver um amor assim, pela diferença de cor que existem entre os dois, e ainda mais ela filha de escrava.

Afonso — O amor não tem cor. Não tem raça e preço. Ensino esses valores para os meus filhos todos os dias. Para mim, não tem essa de dizer: se não faço o bem o mau eu também não faço. O bem tem que prevalecer sempre, para que o mau não aconteça. Então, faça sempre o bem e não importa a quem.

Ba — Ouvindo falar assim, acredito que foi um anjo, ou, quem sabe o pai, colocando pessoas certas no caminho do filho.

Cristovam ali, fala com Afonso — Entrego o futuro do meu filho também em tuas mãos, Afonso. Ajude meu menino não cometer os mesmos erros do passado. Custódio é um bom menino. Com o tempo vai entender o motivo do por que foi deixado por mim e pela mãe. Tudo tem o seu por que. Nada acontece por acaso. E não pense você, que vou me afastar dele. Sempre estarei aqui, nesta casa, ao lado dele, todas as vezes que Custódio precisar de mim. Jamais vou deixá-lo sozinho. Custódio precisa de mim para espantar os fantasmas da alma. Fantasmas que seu filho Roberto ajudou a criar. Não afaste meu filho daqui. Esta casa é o lugar dele. Agora vá falar com o juiz. Ele está esperando você para lhe entregar a guarda do meu menino.

Afonso, cabisbaixo, pensativo, como se ouvisse cada palavra do anjo decide: — Passa o endereço pra mim. Vou acabar de criar o menino, se o juiz concordar com a minha proposta. O garoto vai morar na minha casa. Darei a ele a mesma educação que vou dar aos meus filhos.

Ba abre uma gaveta e pega um papel. – Aqui está o endereço. Alguma coisa dentro de mim está dizendo que será o melhor para o futuro do menino.

Afonso, depois de olhar o endereço. – Fique de olho nos três, vou falar com o Juiz agora. – e sai.

Ba chega no quarto, e para entre a soleira, olhando os três, entre os brinquedos de Custódio.

Beto vendo ela — Pelo jeito temos que ir embora.

Custódio fica aborrecido.

Dudu – Não fica triste não. Amanhã meu pai traz a gente aqui de novo.

Beto – Seu bobo. Amanhã o pai tem que trabalhar. Ele não foi hoje porque a nossa avó morreu. – sorri – Bem que a gente podia morar aqui com você Custódio. Você não ia gostar?

Dudu – Quem não vai gostar disso é o nosso pai. A gente tem nossa casa. Você ouviu ele falar naquela hora?

Beto – Nossa casa não é tão grande. Custódio tem um quarto só dele. Eu tenho que dividir o meu com você.

Eduardo – Custódio tem um quarto só pra ele, por que não tem um irmão pra dividir.

Ba ri – Tenho almoço prontinho lá na cozinha. Vocês querem almoçar?

Eduardo, preocupado – Cadê meu pai?

Beto sorrindo – Meu pai deixou a gente aqui?

Ba – Ele precisou sair. Não vai demorar.

Dudu ainda preocupado – Aonde ele foi?

Ba – Melhor esperar, depois ele explica. Vou dar almoço, enquanto o pai de vocês não volta.

Custódio, olhos rasos. – É o pai dos dois que vai voltar. Ba, não o meu.

Ba – Desculpa, Custódio, falei sem pensar… Vou me corrigir: até que o pai dos seus amigos volte. Está melhor assim? – Custódio chora, deitando na cama. – Não acredito que vai começar a choradeira de novo. – pega ele pela mão – Vamos almoçar com os seus amigos?

Custódio – Não quero! Daqui a pouco eles vão embora com o pai deles. Vou ficar aqui sozinho de novo.

Dudu – Não chora, Custódio. Meu pai disse que homem não pode ficar chorando.

Ba — Isso mesmo, Dudu! Custódio vive dizendo que é homenzinho. Não gosta de ser chamado de menino. — Custódio continua chorando. Ba olha Dudu. — Não deu certo. Ele vai continuar chorando.

Dudu — Porque meu pai foi embora? Para onde ele foi?

Ba — Falar com o juiz para saber se Custódio pode morar na casa de vocês.
Eduardo arregala os olhos: — Custódio, você vai morar na minha casa. Meu pai vai ser seu pai também, e você nunca mais vai ficar sozinho.

Custódio senta, seca as lágrimas com as mãos. — Isso é verdade, Ba?

Ela o ajuda limpar o rosto com um tecido. — Isso mesmo que você ouviu. Se o juiz autorizar, você vai morar na casa dos seus amigos. Amigos irmãos.

Custódio — Não quero sair da minha casa.

Ba — Quando o senhor Afonso chegar, você decide isso com ele. Está bem assim? Agora, enquanto esperamos vamos comer. Todos devem estar com fome de leão.

Dudu — Podemos brincar de quem termina primeiro. Meu pai sempre brinca. Não vale engolir sem mastigar, se não dá dor de barriga. O Beto sempre quer enganar. Meu pai fica bravo com ele. — e ri.

Beto faz careta. Mostra a língua.

Ba — Eu vou ser o fiscal. Não pode ter trapaças. Está me ouvindo, Beto. O vencedor vai ganhar dois pedaços de pudim de leite.

Dudu — Minha mãe também faz pudim de leite que é uma delícia.

Sentados ao redores da mesa, Eduardo é o primeiro ver o pai chegar.

Dudu — Custódio falou que não vai morar na nossa casa, pai.

Ba – Tive que contar pra eles.

Afonso – Tudo bem. — Mostra o canudo de papel. — A decisão será sua, rapazinho. Vou propor a mesma condição que falei ao juiz. Cabe a você aceitar ou não. Se aceitar, poderá ir para a minha casa hoje ainda. Minha proposta é: morar na minha casa, onde irá dividir o quarto com seus amigos. Vou colocar uma cama no quarto deles. Minha casa não é grande, por tanto não tem como ter um quarto para cada um.

Dudu — Pai, aonde vai colocar a cama do Custódio? A mamãe vive dizendo que não cabe nada no nosso quarto.

Beto — Porque não ficamos morando aqui? A casa do Custódio é bem maior que a nossa. Tem um monte de quarto, onde não dorme ninguém.

Afonso — Temos a nossa casa, Roberto, e é nela que vamos morar. E já pensei numa solução, Dudu. Meu quarto e da sua mãe é bem grande, então, vamos trocar de quartos, assim terá espaço para a cama do Custódio.

Beto faz bico, não gostando.

Afonso para Custódio. — Morando na minha casa, você será tratado da mesma maneira que trato meus filhos. Vão para a escola juntos, e nos finais de semana podem ficar na sua casa. A Ba vai continuar cuidando de tudo, recebendo o salário que já recebe, se ela quiser.

Ba – Claro que quero continuar aqui, e cuidar dos meninos quando vierem, todos os finais de semana.

Afonso – Agora, se o Custódio não aceitar, ele terá que ir para um internato, onde vai ficar lá dia e noite. Você decide?

Custódio pensa, olha Ba, e pede: — Ba, você arruma minha mala?

Ezequiel e Cristovam se alegram com a decisão do garoto.

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