Com bandeiras brancas, soldados desfilam pelas ruas na pequena cidadezinha, gritando: “Independência ou Morte”, “Independência ou Morte”.  Neto chega com o avô. Fica na carroça enquanto ele vai aonde está os soldados querendo saber o que acontecia. José Carlos, saindo da quitanda, vê o rapaz e vai a ele: — Como vai, meu jovem?

Neto — Bem, obrigado — olha o tumulto — O que acontece?

Carlos — Dom Pedro, às margens do Ipiranga, declarou liberdade ao nosso País — olha Caio, que ainda falava com os soldados. — Seu avô, com toda a certeza, se ainda fosse jovem entraria nesta batalha. Como um bom soldado que foi, sempre desejou a liberdade do Brasil. Você deve sentir muito orgulho dele. Eu, por exemplo, gostaria de ter um terço dessa valentia, que fez de você um homem tão forte quanto ele.

Neto — Não pretendo ser soldado como foi o meu avô.

Carlos — O que está fazendo?

Neto — Neste momento, sentado esperando por ele — Riram.

Carlos — Uma vez que não pretende ser soldado, não gostaria de trabalhar comigo? Vai receber metade da produção de tudo o que é colhido na minha fazenda.

Neto intrigado — Por que faria isso? Há um desavenças entre o senhor e meu avô.

Carlos — Preciso de alguém, de confiança, para continuar o que faço. Estou ficando velho e você seria a pessoa certa. Gostaria de tê-lo ao meu lado. Venho pensando nisso faz algum tempo, mas nunca o vejo só. Sempre está em companhia do avô. Ainda pesca sozinho no lago?

Neto — Sim. O senhor é quem não apareceu lá.

Carlos — Talvez não se lembre da nossa conversa naquele dia, quando achei melhor me afastar de você para não criar novos atritos com seu avô. Agora, que já é adulto, acredito que pode tomar decisões sem a interferência dele.

— Que será contra eu aceitar a sua proposta! Sei disso! Mas o senhor está certo. Tenho idade suficiente para saber o que desejo.

José Carlos, ao ver Caio retornar, faz um gesto qualquer: — Pense bem na minha proposta. Sabe onde moro. Me procure caso seja positiva sua decisão — Vai saindo.

Neto – Espere? Traga sua filha de volta. Eu aceito, independentemente da decisão do meu avô.

Carlos fica pálido: — Você ainda se lembra dela?

Neto — Nunca esqueci. Lembro de Glorinha todos os dias. Até em meus sonhos ela aparece. Não sei como explicar, é como se ela fosse parte de mim.

Caio chega — O que este homem está querendo com você?

Neto — Me convidou para trabalhar com ele.

Caio — Muita cara de pau — Aponta o dedo para José Carlos. — Fique longe do meu neto se não quiser ter ele como seu inimigo também.

Neto — Falei que aceito a proposta dele, vô, se trouxer Glorinha de volta.

Boquiaberto, Caio encara o homem que está impassível. Depois solta uma gargalhada: — Posso então dormir sossegado, meu neto. Você jamais vai trabalhar com ele. A justiça de Deus é divina. Ela tarda, mas não falha, não é coronel? Ou vai trazer sua filha de volta como pediu meu neto?  — José Carlos, cabisbaixo, nada responde. Caio insisti: — Vamos, coronel, responda. Ele precisa saber a sua resposta. Vai trazer a sua filha e entregar a ele para que, juntos, se tornem uma só família? Foi isso que entendi do pedido que ele lhe fez. Meu neto conhece bem o tipo de união de que estamos falando. Fiz questão de levá-lo a certo lugar onde soube bem o que acontece entre um homem e uma mulher.

Neto – Será que podem me explicar o que acontece? Não sou mais um garoto para não entender o motivo da implicância entre os dois.

Caio, com arrogância. — Explique pra ele, coronel. Meu Neto quer saber o motivo da nossa briga. Está passando da hora dele saber, e faço questão que o senhor diga a verdade. Neto poderá julgar, por si mesmo, que tipo de homem está na sua frente. Deus é testemunha de quanto esperei este momento. Aguardei meu neto se tornar homem para que o senhor pudesse olhar nos olhos dele e dizer o motivo da nossa intriga.

José Carlos encara Neto, depois se afasta, rápido.

Neto — Que verdade é essa que pediu a ele para me contar? Será que pode me dizer?

Caio — Tudo bem. Vou explicar o que ele não teve a coragem de dizer — aponta na direção em que José Carlos seguia. — Aquele homem é um assassino. Ele matou sua mãe.

Neto — Como assim? Matou a minha mãe?

Caio — Ele se apaixonou por Helena, que não aceitou o amor dele. Quando soube que ela tinha casado, matou, por ciúmes.

Neto — Não acredito nisso! Não consigo imaginar aquele homem matando alguém, ainda que por amor.

Caio se irrita — Acredite se quiser. O que não quero mesmo é ver você, um dia, ao lado de um assassino.

Neto — Por que o senhor nunca me contou antes? Por que esperou que eu crescesse para me contar?

Caio — Você ouviu a minha conversa com ele. Esperei você crescer para que ele mesmo contasse, e já que acredita ser ele inocente, vá atrás e exija a verdade. Ou será que não aprendeu ainda que um homem não vira as costas para outro sem lhe dar explicações, sem se defender da acusação que recebeu?

Neto busca na memória o momento em que José Carlos mira-o antes de se afastar. E também, quando criança, falando que seus olhos eram iguais aos de Helena. — Uma vez o senhor me disse que um homem não consegue encarar o outro quando lhe deve alguma coisa.

Caio — O que está querendo me dizer?

Neto — O senhor me pediu para tomar minhas próprias conclusões. Aquele homem jamais teria coragem de me olhar nos olhos se fosse verdade o que o senhor acabou de me dizer.

Caio — Que tipo de provas você espera receber pela inocência dele?

Neto — Trazer Glorinha de volta.

Caio — Melhor esperar sentado. De pé vai se cansar, e muito. O coronel jamais vai entregar a filha dele a você. E tem mais. Prefiro ver você longe daqui, como soldado, lutando pela liberdade deste País, do que continuar sentado esperando algo impossível, porque eu nunca vou aceitar que fique ao lado de um assassino. Então não espere, Neto. Não espere por algo que você jamais terá na sua vida. Guarde no seu coração, as boas lembranças que ainda tem da menina. Isso não posso arrancar de dentro de você, porque, se pudesse, arrancaria. — Em silêncio, Neto encara o avô. Depois salta da carroça seguindo em frente. — Neto, espere. Aonde vai?

Neto — Me tornar um soldado e lutar pelo direito de todos neste País. Parece ser mais fácil, que lutar contra os sentimentos que ainda tenho dentro de mim.

Caio berra — Então vá! Prefiro mesmo que vá embora daqui. Como pode guardar a esperança do que lhe aconteceu quando ainda era garoto?

Neto — Um sentimento que cresceu comigo sem eu entender por que afastaram Glorinha de mim. O que aconteceu com a minha mãe não tem nada a ver com minha vida. É tão insignificante que…

Caio — Espere aí? Como pode dizer isso? Aquele homem matou a sua mãe e você diz que isso não significa nada? Que tipo de filho é você, que não tem sentimentos por quem lhe deu a vida?

Neto — Talvez eu tivesse quando ainda era garoto. Teria crescido odiando aquele homem com o mesmo ódio que o senhor ainda tem por ele, porque estaria crescendo sem minha mãe por culpa dele. Mas o senhor me manteve longe dessa verdade. E eu não conheci minha mãe. Não me lembro dela em nenhum momento. Mas tudo bem, vou respeitar a memória dela e acreditar na história que me contou. Para isso, preciso ir embora daqui, talvez para sempre. Se Glorinha voltar não sei se o amor que teria pela minha mãe falaria mais alto — e se afasta, indo se juntar a outros na fila. O avô fica parado, observando-o de longe.

No navio, Adalberto, atento às águas do mar: — Então foi assim que se tornou soldado?

Neto — Fui convocado alguns dias depois. Teria sido melhor se tivesse partido naquele momento.

Adalberto — Como assim? O que aconteceu?

Neto busca, na memória, os acontecimentos.

Cenário – Próximo ao rio, em meio a floresta. Neto tira o anzol da água e a isca está intacta. Lança novamente, levanta e segue a trilha em meio à mata. Passa por escravos, trabalhando na lavoura, cortando cana. Um pouco distante observa escravos cuidando do jardim em meio os canteiros de rosas. Ameaça voltar, vê uma charrete vindo em direção ao casarão. Decidido vai embora. Na beira do rio tira o anzol da água e a isca continua intacta. Tira a roupa e mergulha, indo no fundo pegar uma pedra. Quando retorna, fica surpreso vendo na margem, uma moça.

Glorinha também fica surpresa: – Neto, é você?

Neto – Glorinha?

Ela abre os braços – Não vêm me dar boas-vindas. Eu voltei.

Neto, acanhado – Estou nu.

Glorinha encolhe os ombros, como se não se importasse: — Tem certeza? — e ameaça deixar a água.

Glorinha — Não — tapa os olhos com as mãos. — Me diz quando posso olhar.

Neto não tem pressa de deixar a água. Admira-a, enquanto se veste. — Posso abrir os olhos?

Em silêncio ele se aproxima e a puxa para os braços, quase lhe beijando a boca. Glorinha salta para trás. — Por que fez isso?

Neto — Queria ter a certeza de que era você mesma. Que não era apenas uma visão.

Ela o abraça. Dominada pela emoção. — Voltei, Neto. Voltei. E ficarei aqui, para sempre, junto de você.

Ele puxa-a, com serenidade, para trás. Também alegre e surpreso. — Ainda não acredito que estou vendo você.

Glorinha eufórica — E eu sabia que você me esperava. Minha alma dizia isso, todos os momentos. Não morri de tristeza, dentro daquele colégio, porque pensava em você. Tinha a certeza de que, mesmo sem a permissão do meu pai eu retornaria. — Neto nada responde, extasiado. — Agora me fale de você? Quero saber como viveu todos esses anos. — e procura um local para se sentar.

Neto senta ao lado. Recolhe a vara de pescar da água: — Não tenho muito o que dizer de mim. Continuei aqui, mas aprendi bem. Meu avô me ensinou muita coisa.

Glorinha observa tudo ao redores. — Gosto deste lugar. Papai muitas vezes me trouxe aqui antes de me levar embora. Hoje, olhando tudo de novo, sinto uma sensação estranha. De medo. Não sei explicar o que sinto ao retornar a este lugar depois de tanto tempo. O que sei, é que o meu lugar é aqui, perto de você que deve estar me achando maluca, não é? Poucas vezes nos vimos quando éramos crianças. E agora, a única coisa que quero é saber se vamos ficar juntos um do outro para sempre. Porque não quero me separar de você nunca mais.

Neto toca-a no rosto com a palma da mão. — Não acredito no que fez seu pai, mesmo por amor.

Glorinha — Do que está falando? O que fez meu pai?

Neto se afasta: — Vamos esquecer esse assunto. – volta olhar – Meu avô me fez acreditar que seu pai não traria você de volta.

Glorinha — Não foi ele quem me trouxe. Foi a minha mãe. Ela e papai foram me visitar, e eu disse a ela que tiraria minha vida se continuasse naquele colégio. E falei sério. Preferia a morte a continuar longe daqui, de você. Ela convenceu papai, que me deixou voltar.

Neto — Então foi mesmo seu pai quem trouxe você de volta. E devo aceitar a proposta dele. Meu avô terá de entender.

Glorinha — Que proposta lhe fez o meu pai?

Neto — Você vai saber em breve. Agora vá para casa. Me espere lá. Vou falar com o meu avô, antes de falar com o seu pai.

Glorinha concorda e vai embora. Neto volta para o rancho. O velho cortava lenha. Neto pega o machado, passando a fazer o serviço. Caio, enquanto pega os gravetos do chão — Você saiu cedo para pescar e, pelo jeito, não pegou nada.

Neto, em voz baixa: — Glorinha voltou, vô.

Caio — O que disse? Não entendi. Fala mais alto?

Neto – O senhor duvidou que o coronel pudesse trazer a filha de volta, como pedi a ele que trouxesse.

Caio meneia a cabeça negando. – Não. Claro que o coronel não fez isso. Ele não teria coragem de trazer a filha de volta só porque você pediu.

Neto – Acabei de ver ela, falei com Glorinha pessoalmente, e vou cumprir a minha palavra com o coronel, já que ele cumpriu a parte dele comigo.

Caio – Não acredito no que estou ouvindo! Não acredito que aquele maldito foi capaz de fazer isso, principalmente atender um pedido seu. Deve ter perdido totalmente o juízo.

Neto – Nada que o senhor dizer vai me fazer mudar de ideia. Glorinha está de volta e o resto nada me importa.

Caio blasfêmia jogando com força a lenha no chão. – Desgraçado! Maldito é aquele homem! – aponta Neto – Posso imaginar por que ele fez isso. O coronel quer me pressionar, mas não vai conseguir. Não vou entrar no jogo dele. Deus está do meu lado, e do lado de sua mãe. – ri aliviado – É isso mesmo! Deus está do nosso lado. Está guerra não podia começar em melhor hora. – e se afasta entrando no rancho. Neto segue o avô – O que minha vida tem a ver com esta guerra? – dentro do rancho – Fiz uma pergunta, vô, e quero resposta.

Caio que havia pegado um canudo de papel entre as ripas da parede, estende ao neto – Aqui está a sua resposta. Você tem que se apresentar amanhã de manhã, sem falta. – Neto, muito tenso olha o canudo, estendido. – O que me diz agora?

Neto se afasta, indignado – Não! Não! Não vou me apresentar. Não quero fazer isso.

Caio – Vai ser um desertor? É isso que pretende fazer depois de tudo que fiz a você, que é um filho desta nação, como era a sua mãe.

Neto, sente desespero – Eu não devia ter dado ouvidos quando o senhor me fez acreditar que o coronel jamais traria a filha de volta.

Caio — Se você acredita que o coronel trouxe a filha para você, tudo bem, está no seu direito de acreditar, mas eu não acredito. Eu não consigo imaginar aquele homem sendo capaz de… — faz pausa, sem concluir a conversa. Suspira fundo, enquanto pensa — Está certo, meu neto. Não vou ser contra a sua vontade. Não quero que pense que não me importo com seu futuro, com seus sentimentos, com a sua felicidade, com a sua vida futura a dois. Porque me importo, e muito. Quero que você tenha sua companheira, a mulher certa que vai fazer você feliz de verdade. Aquela que será mãe dos meus bisnetos, para que a nossa raiz não se acabe. Se o coronel foi capaz de trazer a filha por você, eu aceito. Juro por Deus que aceito a decisão dele. Aceito a filha dele fazendo parte da sua vida. Mas, antes disso, quero que vá para a guerra. E, quando voltar, pode ficar com ela. Pode se casar com a filha daquele homem. Eu darei a minha benção depois que o coronel abençoar vocês dois.

Neto olha para o chão, com tristeza: — Posso não voltar vivo. O senhor sabe disso.

Caio pega-o nos ombros, para que ele o olhe: — Você vai voltar vivo, sim. Tenho certeza. Quero acreditar que dentro de você corre o mesmo sangue forte da sua mãe, que se tivesse nascido homem, seria o melhor soldado deste País, sem medo de lutar por aquilo que desejava. Helena era assim. Mesmo ainda tão menina, tinha temores e era forte, segura, certa daquilo que desejava. Morreu lutando pela dignidade dela, de mulher.

Neto — Quanto ao meu pai, quem é ele? O senhor nunca me falou sobre ele. Nem mesmo seu nome eu sei. Ele também era soldado?

Caio dá passos, olhos inquietos, enquanto pensa numa boa desculpa: — Seu pai era um homem fraco, incapaz de resolver os próprios problemas. Se fosse um soldado teria morrido no primeiro tiro que soltasse da própria espingarda — voltou ao neto, pegou-o nos ombros outra vez: — É isso que eu quero que você descubra, neto. Que tipo de sangue corre em você. O forte de sua mãe ou o de um fracassado como foi o seu pai.

Neto — Posso mesmo me casar com Glorinha depois que voltar?

Caio — Pela alma da sua mãe, que terá de me perdoar depois por eu aceitar isso.

Neto se alegra, pega nos ombros do avô também — Eu volto, vô. O senhor pode acreditar nisso.

Caio — Vou estar aqui esperando. Você sabe que é muito mais que um neto meu. É o filho que esperei tanto, e Deus levou embora no momento em que nasceu, e a única lembrança que tenho dele é morto em meus braços, e depois, minha vida e de sua mãe transformadas em erros que não cometemos. Muitas vezes ainda me pergunto: Porque certas coisas acontecem sem que esperemos? Sei que já cometi muitos erros, que acabaram fazendo acontecer com sua mãe o que aconteceu, e meu arrependimento, depois, não foi o bastante para consertar os que surgiram entre ela e seu pai… Estou ficando velho demais, cansado de tudo, e não quero sentir medo da morte quando ela chegar. De alguma maneira, ainda posso reparar as falhas que cometi contra você, que é o inocente de todos, e não quero que sofra por erros que não cometeu… mas, caso isso acontecer, espero Deus me dar a sentença que Ele achar que mereço, por colocar a sua vida nas mãos dele a partir de agora… Deus guiará os seus passos por onde andar. Pela sua felicidade, por você, meu neto, se for esse o seu destino, vou aceitar e perdoar aquele homem por todos os males que cometeu, aceitando a filha dele na sua vida. Por Deus, você poderá se casar com ela mesmo antes de se apresentar.

Neto, surpreso – O senhor está falando sério?

Caio — Nunca falei tão sério. E vou ajudar no que for preciso. Se Deus assim permitir, estarei do seu lado todos os momentos, quando descobrir os enganos que surgirem no seu caminho. Quero me alegrar com você, ou, quem sabe, chorar no ombro um do outro se assim for preciso, sem mágoas no coração. Sua alegria é a minha felicidade. Sua tristeza é a minha angústia. Agora vá, meu neto, falar com o pai dela e acabamos com tudo isso de vez. Vá sozinho, você já é homem feito, capaz de enfrentar muito mais, eu o preparei para isso. Se aquela menina apareceu aqui, naquele dia, sem que ninguém mostrasse o caminho, é porque estava escrito, em algum lugar, que deveria ser assim. Se a resposta do coronel for sim, traga ela aqui, para que eu também abençoe os dois em nome de Deus e dê sua mãe, caso contrário, não precisa voltar e dar satisfação. Apenas siga o seu destino. O que estiver reservado a você, sem olhar para trás, sem mágoas, sem dor no seu coração. – se afasta – Agora vá, meu neto, e que Deus o acompanhe hoje e todo o sempre. – Neto, em silêncio, observa o avô. Pega o canudo em cima da mesa e sai. Para do lado de fora, observa o canudo, suspira fundo e segue a trilha.

Cenário – Casarão. Neto para um pouco distante vendo Glorinha na janela. Glorinha acena e desaparece. Neto aguarda. Glorinha sai pela porta da frente, quase correndo e se aproxima dele – Você falou com o seu avô? O que ele disse?

Júlia e J. Carlos também chegam. Neto fala com Glorinha – Meu avô disse que podemos nos casar antes mesmo de me apresentar, se o seu pai aceitar o nosso casamento, é claro!

Glorinha se apavora – Se apresentar? O que está dizendo?

Neto olha J. Carlos – Aquele dia, quando o senhor me ofereceu emprego, acabei me alistando por causa do meu avô.

Glorinha entra em pânico: — Você está indo para a guerra?

Neto — Tenho de me apresentar amanhã de manhã, sem falta.

Glorinha para o pai: — Sei que pode impedir. O senhor que conhece o imperador pode falar com ele. Não deixe que Neto vá. Faça isso por mim, por favor?

José Carlos se posta de costas: — É melhor que ele vá e não volte vivo — e se afasta. Para ouvindo os gritos da filha, em desespero:

Glorinha — Se Neto morrer não vou perdoar o senhor nunca, está me ouvindo, papai? — e chora, falando com Neto: — Não vá, por favor. Você pode não voltar. Vou morrer de tristeza se isso acontecer. Ou me leve com você. Não me deixe aqui.

Neto, com emoção — Não posso! Mas volto. Juro por Deus que volto, assim como você voltou para mim.

Glorinha — Ficarei aqui, esperando, como você me esperou. — Neto confirma com a cabeça e sai. Passos á frente ele para, olhando todos. José Carlos ainda parado, de costas, cabisbaixo, ouvia a conversa. Glorinha corre, abraçando-o. — Jura, meu amor, que não vai deixar que nada, que ninguém nos separe? Jura que volta para mim?

Júlia ameaça puxá-la, hesita quando o rapaz a abraça. E também chora ao ver o desespero da filha.

Neto — Juro, que nada e nem ninguém irá nos separar e que voltarei para você, assim que a guerra acabar.

Glorinha — E vamos nos casar. Ter filhos.

Neto sorri emocionado: — Sim! Pelo menos um vamos ter. Por esse filho eu volto. Espere por mim — entreolham, calados. Carinhosamente ela carícia o rosto dele com a palma da mão. — Preciso ir. Tenho um longo caminho, a pé, até a vila — beija-a, com ternura, na mão, e sai. Glorinha se deixa cair sentada no chão, aos prantos. Júlia, aconchega-a. Neto repete, falando com Adalberto que o olha sério. — Um filho! Jurei voltar para Glorinha por um filho que jamais poderia existir.

Adalberto, disfarçando a tensão que sente — Como aconteceu a morte dela?

Neto, que ainda olhava o mar: — Me disseram ser um acidente. Preferi não saber o que, de fato, ocorreu. Muita coisa tinha acontecido na minha vida.

Adalberto — Como, por exemplo, conhecer a minha ma… madrinha, tia Dalva — gagueja constrangido. — Minha tia nunca entrou em detalhes de como foi o encontro de vocês dois. Eu gostaria de saber. E faço questão de detalhes.

Neto suspira. A noite se iniciava. Ele conta: — A guerra chegava ao fim.

Cenário, em meio a floresta. Entre os soldados, Neto faz vigília. Uma ordem de ataque é feita e ele recebe um tiro, de raspão, na cabeça. É levado, inconsciente, para a enfermaria. Quando abre os olhos, está de frente com uma enfermeira, que lhe troca o curativo. Entreolham. — Morri? Não morri?

Dalva — Por que pensa que está morto, soldado?

Neto — Devo estar no céu, porque estou vendo um anjo.

Dalva — Seja bem-vindo ao mundo real.

Neto — A guerra acabou? Perdemos, não foi?

Dalva — Ainda não.

Neto — Quanto tempo estou aqui?

Dalva — Três dias.

Médico se aproxima e fala com Neto, após examinar o ferimento: — Teve muita sorte, soldado. A bala passou de raspão fazendo um bom estrago. Nem sei como está vivo.

Neto — Vai ver me lembrei de que não podia morrer depois de morto.

Médico rindo — Ninguém entra numa guerra querendo morrer, soldado. Creio que ainda viverá muito, com muitas batalhas pela frente. — e fala com a enfermeira – Pode fechar o ferimento. – e vai ver outro soldado ferido.

Dalva — Alguém especial esperando pela volta do soldado?

Neto evita olhá-la. — Muito mais que especial.

Dalva — Deve ser mesmo, pela maneira que respondeu ao doutor — Neto geme de dor. Ela fica embaraçada — Desculpe. Apertei o ferimento, sem querer. — Entreolham. Ela sai rápido. O médico pede ajuda. Neto acompanha, com o olhar, o soldado trazido pelos companheiros, com o sangue jorrando pelo ferimento no peito. O médico tenta salvá-lo, esforço em vão. Neto fecha os olhos não querendo ver o que acontecia e procura dormir. No outro dia, enquanto Dalva refaz o curativo: — Qual é a graça dela? — Ele, abre os olhos, fita-a, sério. Ela disfarça: — Tudo bem, o soldado não precisa dizer se não quiser. Mas posso Imaginar que seja muito bonita.

Neto levanta, de súbito: — Se a guerra não acabou, devo voltar ao combate — para, sentindo tonturas. Teria caído se ela não o segurasse.

O médico ajuda a levá-lo de volta à cama. — Se voltar ao combate agora, soldado, com certeza, não vou recebê-lo mais aqui. Irá direto para o depósito.

Um soldado entra correndo pela porta do ambulatório improvisado: — Acabou a guerra. Vencemos. A conquista é nossa. – Todos vibram.

No navio, Neto ainda fala com Adalberto: — Dois anos haviam passado. Acabei ficando um pouco mais. Fui levado para o hospital com os outros feridos para me recuperar das tonturas. Levei dias para conseguir ficar de pé.

E relembra. No hospital, próximo à janela, observa o movimento na rua. O médico, ao chegar, alegra ao vê-lo: — Parece que, agora, está mesmo bom, soldado.

Neto — Nem eu acredito que estou conseguindo ficar de pé, pronto para voltar para casa.

Médico — E ainda pegar o finalzinho da festa pela liberdade do nosso País. — Neto faz sinal positivo com a cabeça e se despede. Volta com o médico chamando: — Soldado, estou me esquecendo de lhe dizer que a enfermeira voluntária, Dalva de Lucas, esteve aqui há pouco, querendo saber se já havia recebido alta — Neto muda de cor, tanto que o médico percebe. — Engraçado como as coisas acontecem. Milhares de soldados feridos passaram pelo este posto, com ferimentos mais graves que o seu. Muitos não sobreviveram. E não vi, em nenhum deles, esse brilho no olhar ao ouvir o nome de uma pessoa. Sem dizer que, apesar de tantos outros trazidos para cá, você foi o único por quem Dalva teve a curiosidade de vir saber como estava.

Neto — O senhor a conhece?

Médico — O suficiente para saber que é ótima pessoa.

Neto fica pensativo. Logo depois, anda numa rua da cidade. Para diante de uma casa e confere o endereço. Cria coragem e bate à porta. Dalva atende. Entreolham calados. Ele quebra o silêncio: — Me convida entrar? — Ela dá passagem. Ele observa a sala. Numa mesa, ao canto, um prato feito, indica uma só pessoa ali. — Não sabia que morava sozinha.

Dalva — Não moro. Meus pais foram visitar minha irmã, que não anda bem de saúde. Meu cunhado veio logo cedo buscar os dois. Mamãe foi cuidar das crianças por alguns dias. Eu estava almoçando. Aceita?

Neto olha, de novo, a mesa: — Aceito.  A comida do hospital é horrível — Dalva se prontifica em servi-lo. Neto segura ela, quando passa por ele. — Estou brincando.

Dalva — Faço questão de que experimente a minha. — E prepara um prato.  Ele tira a boina e senta ao lado dela. Dalva observa cada movimento, apreciando, com alegria, a visita tão inesperada. — Espero que esteja do seu agrado.

Neto — Está ótimo. É a primeira vez que como uma refeição feita por uma mulher. Bom, não ser as que comi no hospital.

Dalva — Como assim?

Neto, mordendo a coxa de frango, fala de boca cheia. — Meu avô era quem preparava tudo. Ele me ensinou fazer muita coisa, como assar peixe na brasa e… — interrompe a conversa, percebendo o olhar intensivo da moça. Devolve a carne ao prato e levanta. — Acho que fiz besteira em pedir seu endereço ao doutor. Melhor eu ir embora. — Dalva o impedi de sair. Toca de leve, os lábios aos dele. — Por que fez isso?

Dalva — Se veio aqui é porque queria me ver. E não vou deixá-lo ir sem antes eu sentir outra vez o gosto dos seus lábios, o calor do seu corpo no meu. — e oferece os lábios para ser beijada. Neto engole a saliva. Puxa-a, bem perto, e com carinho, sela um beijo tímido. Aos poucos se entregam aos desejos e, na cama, os corpos se unem. Quando terminam, Dalva, envergonhada, vira para o lado. Ainda deitada, procura se defender: — Não quero me arrepender nunca pelo que acabamos de fazer — olha-o nos olhos. — Desejo que saiba que sempre estarei aqui para recebê-lo, caso descubra, quando estiver com ela, que o acontecido entre nós foi acima do amor que sente. Sei que é demais pedir que fique comigo. — Toca-o no rosto, com carinho: — Você acredita em amor verdadeiro? Amor de corpo e alma. Aquele que nasce para uma vida inteira entre um homem e uma mulher. É isso que sinto por você desde o primeiro momento em que o vi desacordado, ferido. Quando o olhei, quase morto, foi como se a minha alma dissesse: Aí está sua outra metade, sua alma gêmea. Cuide dele para que não morra. — Levanta o corpo e aproxima. — Me beije. Faça novamente amor comigo. Deixe eu dormir em seus braços. Depois volte para ela se for esse seu desejo maior. Quando eu acordar, se você não estiver aqui, vou supor ser um sonho.

Os lábios se unem apaixonadamente e fazem outra vez amor. Ele espera ela dormir, levanta, com cuidado, para não despertá-la. Ainda a olha antes de deixar o quarto. Na rua segue o seu caminho, olhando várias vezes para trás.

No navio, Adalberto, cabisbaixo, ouve em silêncio.

Neto — A cada passo que eu dava, meu coração pedia para ficar, e não dei ouvidos a ele. Achei que pelo menos deveria saber como Glorinha ficaria sem mim. Deseje que ela não mais me esperasse, assim, poderia voltar para Dalva sem cumprir a minha promessa.

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