Noemi, Tainá e Afonso chegam na frente do hospital. Vejam Beto seguir uma direção.

Afonso — Hoje, descubro onde Beto está morando e o que faz. Vou segui-lo.

Noemi. — Querido, você promete não brigar com ele.

Afonso — Prometo manter a calma. Agora deixa-me ir, se não vou perdê-lo.

Noemi se dirige a filha. — Melhor voltarmos para casa. Seu irmão vai querer saber do seu pai. Custódio está tão preocupado com a esposa, que prefiro não levar mais preocupação a ele.

As duas seguem direção oposta de Afonso. Beto não demora entrar na casa. As moças, prontas para iniciarem o trabalho, esperam sentadas.

Beto — Você estava certo Estela. Aquela joia vale mesmo uma fortuna.

Abrindo o cofre, ele pega pacotes de dinheiro e coloca em cima do balcão.

Beto — Cada uma, pega um pacote.

As moças não se movem, boquiabertas, encaram uma a outra.

Beto — Estou falando sério, e andem logo, antes que mudo de ideia.

Eleonora é a primeira fazer fila. Estela fica para o final.

Beto, volta falar com ela. — Essa grana era para pagar o Custódio. Como quitei a minha dívida com ele, devolvendo a joia, estou passando o dinheiro a vocês. E tem mais. A partir de amanhã, todas estão de férias. Podem viajar, ver parentes, façam o que quiser, depois voltam. Quero todos aqui, daqui um mês.

Estela coloca a mão na testa dele. — Deixe-me ver se está com febre.

Beto — Para com isso, Estela. Estou bem, obrigado. E por você ser a responsável pela mudança que vou fazer na minha vida, merece o dobro. É um presente meu. Agora diz, como você conhece valores de pedras preciosas?

Estela pega o pacote de dinheiro, ameaça dizer algo. Batidas interrompem a conversa. Eleonora abre a porta. Beto empalidece. — Pai?!

Afonso percorre o olhar ao redor. Observa os trajes das moças. Encara o filho, paralisado. — Então é aqui que você mora? É aqui que trabalha? E eu tive que segui-lo para descobrir que vida está levando. Que trabalho está fazendo!

Beto se dirigem as moças: — Deixem eu falar a sós com meu pai.

Afonso — Podem ficar, não tenho nada para falar com o meu filho. — Vai saindo.

Beto – Pai, espere, eu posso explicar!

Afonso fica de costas: — Você não precisa me explicar nada! Eu já entendi tudo. Vi com meus próprios olhos que tipo de vida você está levando.

Volta olhar ele. Desapontado completa: — Você é maior de idade e responsável pelos seus atos. Hoje de manhã falei essas mesmas palavras ao seu irmão Custódio, quando também quis se explicar pelo que aconteceu. Tanto, que não vou lhe perguntar se foi aqui que ele passou a noite, enquanto a esposa estava morrendo.

Beto olha o chão. Afonso não se contém. — Preste bem atenção no que vou lhe dizer, meu filho. No dia em que estiver lá em baixo, no fundo do poço, e precisar desse seu pai que o ama muito, posso não estar aqui para ajudá-lo ficar de pé.

Definitivamente Afonso se retira. Eleonora fecha a porta. Todas observam Beto cabisbaixo.

Sombra escura se coloca aos pés dele, e o faz erguer a cabeça. Sem o brilho de antes, aponta as moças. — O que vocês estão…?

Beto engole a saliva, como se fossem espinhos. Abaixa a mão e procura calma. – Vá uma de vocês trancar o portão. Estão de férias a partir de hoje. Quem não tiver para onde ir fique na casa. Quem quiser continuar fazendo o que faziam antes, procure outro lugar, indo embora definitivo daqui. Estou mudando de vida e começo agora, longe de vocês.

E corre subindo a escada. As moças nada entendem, e se assustam ouvindo barulhos.

No quarto, com ódio, ele começa quebrar tudo, jogando contra a parede.

Estela olha para o alto da escada: — Alguém se candidata ir acalmar a fera?

Eleonora — O Beto não disse que estava mudando as atitudes dele por sua causa. Por mim, fique à vontade.

Susy — Basta as surras que eu levava do meu pai, todas as vezes que ele ficava louco.

Mocinha — Repito as palavras da Susy.

Estela pensa, e decide: — Vou falar com ele, que parece estar mais calmo.

Outra moça — Pelo menos parou de quebrar a casa.

Estela sobe a escada, bate na porta do quarto: — Beto, posso entrar e falar com você?

Sem resposta ela abre a porta, vê a do armário também aberta, entra pela passagem e desce correndo a escada, saindo do outro lado da rua, vê um homem virando a esquina e corre, conseguindo alcança-lo, e puxa-o para trás. – Beto, você deu a sua palavra que… — solta o homem, vendo não ser Beto. — Desculpa, moço. Eu o confundi com outra pessoa.

O homem a olhou dos pés à cabeça. — A casa não vai abrir hoje? Vi o portão trancado.

Estela — Não senhor! Nunca mais! Com licença. — e volta o caminho em disparada.

No quarto, ela troca de roupa. Coloca um vestido discreto. Pega seus pertences e arruma a mala. Por último, a fotografia escondida debaixo da parte de baixo da gaveta do criado.

Estela — Onde quer que esteja, meu pai, olhe para mim. Não deixe acontecer comigo o que aconteceu quando cheguei nesta cidade. Por sua culpa, vim parar nesta casa, e hoje estou saindo para nunca mais voltar. Então, me ajude a recomeçar em outro lugar. – fecha os olhos apertadamente, segurando as lágrimas, beija a foto e coloca no fundo da mala.

Na sala, três moças, ainda não sabiam o que fazer.

Eleonora — Aonde vai, Estela, com essa mala?

Mocinha — Você não ia falar com o Beto?

Moça 2 — O que aconteceu? Que mala é essa?

Estela — O Beto não disse que podemos ir para onde quisermos. Estou indo embora.

Eleonora — Você vai aonde? Sabemos que não tem família, como nós.

Estela – Não sei onde, estou saindo sem rumo. Bom, pelo menos tenho outra mala, com uma boa quantia de dinheiro. Aqui não quero ficar.

Moça — Como assim, outra mala?

Estela — Um dia, sai do rio de Janeiro, e vim parar nesta casa porque um ladrão roubou minha mala, com todo meu dinheiro dentro, e não era pouco. Vendi a casa que era da minha mãe. Peguei as joias que meu pai deu a ela, antes de vir para São Paulo, e nunca mais retornou. Eram joias iguais as que…

Eleonora — O que foi, Estela?

Estela busca na memória, ela dentro de uma loja de penhor, com pulseira igual a que entregou a Beto.

Senhor lhe disse: — Essa peça é rara. Vale uma fortuna incalculável. Dá para a moça comprar essa loja e tudo que tem dentro e ainda sobra muito dinheiro.

Eleonora insiste — Estela, você está bem?

Estela — Preciso ir. Eu já sei para onde vou. — e se despede das amigas, e logo depois, no centro da cidade, para na frente do hospital. Na portaria fala com a madre.

Custódio examina Giza, quando ela aparece na porta.

Estela — Posso entrar, doutor? Na portaria me disseram que eu podia entrar. Menti. Falei que era prima da sua esposa, e queria saber como está ela. Que acabei de chegar de outra cidade, e fiquei sabendo do estado em que Giza se encontra.

Custódio — Quem é você? Não me parece estranha.

Estela — Da casa do Beto. Lembra do fantasma?

Custódio volta para a esposa. Depois de pausa: — O que quer aqui?

Estela – Sua esposa, como está?

Custódio – Nenhum sinal ainda. Mas, está viva.

Estela – Diz-me uma coisa, doutor? O Beto esteve aqui hoje e lhe entregou uma joia?

Estela — Sim! Por quê?

Estela coloca a mão no peito. — Que alivio no meu coração. Pensei que Beto mentiu. — sorri — Estou feliz em saber que ele está mudando. Ele quer ser uma pessoa melhor, assim, o pai irá também sentir orgulho dele.

Custódio — Meu pai acabou de sair. Falou que já sabe o que Beto faz.

Estela — Fazia! Beto fechou a casa. Ficou muito abalado quando o pai chegou lá. Beto ama muito o pai. Todas as vezes que falou dele, foi com respeito, admiração e carinho, tanto que deixou a casa sem falar com ninguém. Não sei porque, mas, eu acredito que ele foi procurar Raquel.

Custódio fita-a, em silêncio.

Estela – Desculpe, doutor, às vezes falo de mais. Estou indo embora, eu já soube o que queria saber. Até mais.

Custódio — Espere? Você é a Estela?

Estela — Sim!

Custódio — Beto me falou de você. Disse que ajudou Raquel fugir da casa. Que ele não teria deixado ela ir embora se chegasse à tempo. Resumindo… O Beto não vai procurar Raquel. Ele me disse que não vai fazer isso, pela sua atitude, de dar a ele a joia, no lugar de deixar Raquel em paz. Você é uma pessoa especial. Não é qualquer pessoa que faz o que você fez por uma simples amizade, e conhecendo a pessoa tão pouco tempo.

Estela sorri — Raquel também é uma pessoa especial.

Custódio fica calado.

Uma cozinheira entra, trazendo um prato feito. — Eu trouxe, outra vez o jantar para o doutor. Não deixa esfriar, o senhor precisa se alimentar. Está em jejum o dia todo. Assim vai ficar doente também.

Custódio — Ainda não tenho fome. Não sei se vou conseguir comer.

Cozinheira — Faz uma forcinha. Não é isso que sempre diz para os seus pacientes? Agora chegou a vez do doutor fazer uma forcinha. Depois, volto para pegar o prato – e sai.

Estela coloca a mão no estomago — Que cheiro bom! Chegou me dar fome. Acabei não jantando.

Custódio — Se quiser comer, fique à vontade. Estou sem apetite.

Estela se alegra: — Posso mesmo?

Custódio — Caso me der fome depois, peço para trazerem alguma coisa.

Estela, destampa o prato. — Que delícia! Não acredito ser o meu prato predileto. Picadinho de carne. Tem certeza que não quer mesmo, doutor?

Custódio faz um gesto negativo, voltando a atenção para Giza.

Estela — Então, vou atacar. — Senta-se ao lado da mesa e começa a comer. — Que maravilha! Eu pensava que comida de hospital era horrível. Com certeza, isso é feito exclusivo para os médicos. — come outra colherada. — Parece o picadinho de carne que minha mãe fazia. — fecha os olhos saboreando. — Huum!

Custódio — Está tão bom assim?

Estela — Delicioso! — Estende-lhe o talher. — Não vai mesmo querer um pouquinho? Está muito bom! — Custódio pensa. Estela se alegra: — Se pensou é porque mudou de ideia e a fome bateu. Diz, onde é a cozinha, eu busco outro prato para o doutor.

Custódio — No final do corredor.

Estela saindo. — Já volto! — E brinca — Não come o meu.

Ao retornar coloca o prato na mesa.

Estela — Mandei caprichar. Falei com a cozinheira que o senhor quis repetir. Não vai desmentir. — ri — E trata de rapar o prato.

Puxando outra cadeira. — Posso sentar ao do doutor, vou terminar de comer. Minha mãe me ensinou não jogar alimento no lixo. Tem muita gente passando fome.

Custódio se acomoda ao lado dela e experimenta o alimento. — E não é que está bom mesmo.

Estela alegre — Uma delícia! Come tudo. Não vai deixar nada no prato. — olha Giza na cama – O pessoal da cozinha disse que o doutor não saiu daqui de perto da sua esposa um minuto. Que os outros médicos estão preocupados. Que provavelmente iria passar a noite toda, acordado e sem comer. Ficaram surpresos quando falei que o doutor queria mais. E sabe o que sempre dizia minha mãe? Saco vazio não para de pé.

Custódio sorri: — Conheço essa frase. Dona Noemi sempre fala.

Estela — Quem é dona Noemi?

Custódio — Minha mãe.

Estela — Beto me contou parte da sua história. Que são irmãos do coração. Que o doutor foi adotado pela família dele quando era garoto. Beto também falava sempre do outro seu irmão o Dudu e do senhor Afonso também. Mas, nunca falou o nome da mãe.

Custódio nada responde, termina a refeição em silêncio.

Estela respeita. Assim que terminam. — Para pagar o meu jantar, se o doutor quiser descansar um pouco, fico de olho na sua esposa. Prometo não dormir, e se ela der algum sinal, saio gritando por esse hospital.

Custódio — Estou precisando mesmo descansar a cabeça, pelo menos algumas horas. Não vai mesmo sair daqui de perto dela?

Estela — Não! O doutor pode descansar sossegado. Até amanhã de manhã se quiser.

Custódio — Me chama se acontecer alguma coisa. Vou estar no hospital.

Estela — Vê se dorme mesmo! Não fica pensando em tudo que aconteceu, além do que aconteceu com a sua esposa. Já aconteceu mesmo! Pronto! Nada tem volta.

Custódio — Está falando de Raquel?

Estela — Sim! E desculpa se fiz errado ajudar ela a fugir. Eu avisei Raquel que o doutor estava lá em baixo, falando com o Beto. Como não pude ir pela escada, como o doutor viu o Beto me impedir, dei volta. Tem uma passagem secreta na casa, por onde passou o fantasma aquele dia.

Custódio — Beto me contou que foi ele. — tira a joia do bolso. – Ele me disse que você sabe o valor dessa joia. Disse que vale a casa dele, com tudo que tem dentro, e ainda sobra muito. Como sabe disso?

Estela — Minha mãe tinha uma joia igual a essa daí. Eu mandei avaliar. Não faz muito tempo.

Custódio — Porque estava naquela casa?

Estela — Fui assaltada. Levaram tudo que eu tinha. As joias que eram da minha mãe, e o dinheiro da casa que vendi para vir para São Paulo, depois da morte dela. Fiquei andando sem rumo, desorientada, o Beto me encontrou na rua e me levou pra casa dele. Me deu teto, comida, um lar. Se estou aqui hoje é graças a ele. Não sei o que teria acontecido comigo. E, graças a ele novamente vou poder recomeçar. Ele dividiu todo o dinheiro que devia para o doutor, com as moças da casa. Acabou me dando em triplo. Raquel deixou para trás, o dinheiro que o Beto deu as pais dela para voltar para Goiás.

Beto — É! Beto me falou disso também. Fico feliz em saber que meu irmão é um homem generoso. E se quiser recomeçar com um bom emprego, comece olhando bem da minha mulher, quando eu não estiver perto.

Estela fica surpresa. — O doutor está falando sério? Bom, eu não vim aqui pensando nisso. Passei apenas para saber se o Beto tinha me dito a verdade sobre a joia. Pensei que a joia ainda estava com ele.

Custódio — Ele me devolveu em troca da dívida que tinha comigo.

Estela — Quanto ao emprego, posso mesmo aceitar? Assim, amanhã bem cedo procuro um lugar certo para morar, aqui perto do hospital. Vai sair mais barato que eu ficar numa pensão. Assim, vou ter um lugar meu, para recomeçar a minha vida, de onde ela parou.

Custódio — Nem sabe quanto vai ganhar!

Estela — Não importa quanto. Se der para pagar o aluguel, e comer que seja aqui no hospital, está ótimo. Assim, não preciso gastar o que já tenho.

Custódio — Já está contratada.

Estela — Eu já andava pensando em deixar a casa, só não imaginei que conseguiria um emprego tão rápido. Obrigada, doutor. Vou fazer de tudo para merecer a sua confiança. Nunca vai se arrepender disso.

Custódio — Reze para minha mulher viver. Quando ela voltar para casa, ainda terá o seu emprego. Você sabe como ligar com as pessoas. Me convenceu a comer e estou indo descansar um pouco. Minha cabeça está pesada de tanto pensar. Vou procurar não pensar em nada, como você disse: Já aconteceu e pronto! – aponta Giza – Chame, caso ela der algum sinal.

Estela — Sim, senhor! — Custódio sai. Estela arruma o lençol, cobrindo Giza melhor. — Obrigada, bela adormecida, por dar a minha vida de volta. Se você não estivesse aqui, eu não estaria recebendo essa chance. E trata de viver em. Se não, dou um jeito de trazer Raquel de volta para o doutor. Eu ajudei ela fugir, porque achei que o doutor não a merecia, ele é legal, fiz mal juízo dele. Então, se a madame não quiser outra fazendo parte na vida do seu marido, trate de viver. O recado foi dado!

Na fábrica. Dudu olha as horas no relógio. Depois para Luiz, concentrado fazendo separação de dinheiro, colocando em pacotes.

Dudu — Melhor irmos embora, Luiz. Amanhã de manhã termino de separar o pagamento dos operários.

Luiz — Estou terminado a lista que está na minha mesa.

Dudu — Atrasei, devido ao que aconteceu hoje com a minha cunhada. Meu pai fez falta. E o que será que aconteceu, dele não aparecer aqui? Confesso que estou preocupado.

Luiz — Notícia ruim tem perna comprida.

Dudu sorri — Certo! — e volta ao trabalho.

Luiz ainda fixo a ele — Posso lhe dizer uma coisa, Edu?

Dudu — Sim!

Luiz — A Maria, me disse que teve um sonho muito estranho com o doutor Custódio, e eu também sonhei com ele na noite passada. Talvez, porque fiquei pensando no sonho que a Maria me contou que teve também, outro dia. E agora, sabendo o que aconteceu com a esposa do doutor, eu fico me perguntando qual razão eu e a Maria sonhamos com ele.

Dudu — E qual foi o sonho?

Luiz — A Maria me disse que no sonho ela dormia em outra cama, sem ser a casa do Moreira. O doutor Custódio entrou no quarto e… Bom, vou contar o que sonhei está noite. Era como se a Maria tivesse desaparecido. Eu sai pelas ruas procurando ela, e me vi diante a casa, com o doutor Custódio. Eu estava montado num cavalo, como se estivesse impossibilitado de andar. Lembro-me dele perguntando: O que você quer com a minha irmã?

Dudu ri — Custódio não tem irmã. Bom, quem garante que não teve em uma outra vida?

Luiz — Se existe vidas passadas, eu e a Maria vivemos na mesma época que o doutor. Essa seria a explicação certa, eu e Maria sonhar com ele.

Dudu — O que mais você sonhou?

Luiz — Não me recordo muito. Mas era como se eu estivesse morto. Porque eu me vi dentro de uma casa, e tinha um homem comigo. Ele usava roupas brancas. Eu vi a Maria deitada em uma cama e o doutor estava encima dela. Eu quis separar os dois, mas, passei pelo corpo deles, por isso, acredito que eu estava morto. Vi uma moça que entrou no quarto, puxou a Maria pelo braço e a mandou embora da casa.

Dudu frange o cenho. — Luiz, hoje eu ouvi um relato parecido, mais ou menos como você está contando. Mas, continue…

Luiz — A Maria saiu andando pela rua, e eu a segui até um certo ponto, acordei, com muitas dores nos meus pés. E continuando o sonho que a Maria disse sempre ter, ela se vê caminhando por uma estrada deserta, e depois, em outra casa, e, é o seu irmão Roberto quem aparece.

Dudu — Você falou que ela sempre tem o mesmo sonho?

Luiz — Ela disse que já várias vezes o mesmo sonho. E hoje, antes de eu vir para o trabalho, ela me falou que desta vez, conseguiu ouvir o seu irmão beto dizer: até que enfim eu a encontrei, e vou levá-la de volta para o meu amigo.

Dudu fica tenso. Se coloca de pé e vai juntando os pacotes de dinheiros separados em cima da mesa. — Melhor irmos embora, estou preocupado com o meu pai. Ele nunca deixou de participar na divisão dos salários dos operários, então, alguma coisa muito grave aconteceu, além do que aconteceu na noite passada. Amanhã você me conta de novo o sonho que você e a Maria tiveram, e quem sabe, podemos pensar em uma explicação.

Pega os pacotes da mesa do Luiz, que tenta impedi-lo.

Luiz — Não! Esse daqui já estão conferidos.

Dudu — Já misturei. Amanhã eu separo de novo. Vai atrasar um pouco o pagamento, mas… Me ajuda colocar tudo no cofre e vamos embora.

Os dois saem na rua. Apressado, Dudu vai direto para o carro, enquanto Luiz tranca o cadeado. Logo depois Luiz entra em casa. Geraldo, sentado ao lado da mesa na cozinha, toma leite.

Geraldo — O que aconteceu que veio mais cedo?

Luiz — O senhor Afonso não voltou pra fábrica, como costuma voltar depois que vai jantar. — Mostra a chave do cadeado — O Edu estava tão apressado que me pediu para trancar o cadeado e fiquei com a chave na mão.

Geraldo — O menino? Isso aí é muita responsabilidade. Já pensou se um ladrão entra na fábrica, a culpa vai cair em cima de você, que ficou com a chave.

Luiz — Vou ser muito azarado mesmo, pai! Boa noite, estou indo dormir. — vira-se para a mãe que tinha acabo de chegar na cozinha — A senhora me acorda as quatro da manhã, vou ter que ir bem cedo pra abrir a fábrica. E boa noite a senhora também.

Geraldo — Você viu como ele me respondeu, Mirtes? Depois que começou a trabalhar no escritório da fábrica, criou asa.

Mirtes ri. — Boa noite, Geraldo, eu também estou indo dormir.

Dudu também encontra os pais na cozinha. Afonso deprimido, cabisbaixo.

Noemi, sentado lado, acariciava o braço do esposo.

Dudu vai perguntando: ¬— O que aconteceu, pai? Não vai me dizer a esposa do Custódio deixou ele de vez?

Afonso — Ela continua na mesma.

Noemi — Seu pai esteve com o Beto. Na casa que ele montou.

Dudu também senta ao lado da mesa: ¬— Está vendo agora, pai, a razão eu lhe dizer nada a respeito do meu irmão? Eu não queria ver o senhor pra baixo, como está.

Afonso ¬— Uma hora eu ia saber. Ia descobrir.

Dudu — Como o senhor descobriu?

Afonso suspira.

Noemi responde — Ele seguiu seu irmão. Vimos ele sair do hospital.

Dudu — Eu estava no hospital quando o Beto apareceu lá. E o senhor deveria estar feliz, ele vai fechar a casa. Até combinou comigo de irmos almoçar juntos amanhã. Ele me disse que vai montar uma fábrica de costura para as moças de lá. Ele acatou um conselho que dei a ele outro dia.

Afonso — Há, meu Deus! Eu devo ter estragado tudo, não deixei ele se explicar. E bem provável ele mudar de ideia, só para me querer me humilhar.

Dudu levanta — Vou lá na casa, conversar com o Beto, antes que ele mude mesmo de ideia.

Afonso — Eu vou com você.

Dudu — Vai não, pai! Vou sozinho. Amanhã o senhor conversa com ele, hoje vai ser eu. Daqui a pouco eu volto. Mãe, faz um chá calmante e dê a ele, assim vai se sentir melhor.

Noemi — Ele já tomou quase um litro. Vou pegar um pouco mais. — E sai.

Dudu — Fica calmo, pai. O Beto não tem motivos para continuar com aquela casa. — veja a mãe voltando — estou indo lá falar com ele.

Logo depois, Eleonora abre a porta da casa.

Dudu surpreso, olha ao redor — Boa noite, moça. Pode chamar meu irmão.

Eleonora — O Beto desapareceu. Saiu sem ninguém ver.

Mocinha — Por uma passagem secreta, onde é o quarto dele.

Eleonora — Foi bom o senhor aparecer. Todas as moças foram embora. Eu já estava de saída. — aponta para a mocinha. — Só ela ia ficar aqui. — estende a chave da porta. — O senhor fica responsável pela casa, que é do seu irmão. — Vira-se para a mocinha — Estou indo. Tiau. Decide com ele, se pode ficar na casa ou não. ¬— pega a mala e sai se despedindo.

Dudu observa a chave nas suas mãos.

Depois a mocinha que diz: — O Beto disse que podia ficar morando aqui, quem não tinha para onde ir.

Dudu — Você não tem pra onde ir?

Mocinha — Não quero voltar na casa do meu pai e continuar levando uma surra por dia.

Dudu — Sua mãe?

Mocinha — Nunca falava nada, se não apanhava também. Então, fugi de casa, e a Marta me encontrou na rua e me trouxe pra cá.

Dudu lhe estende a chave. — Se o Beto autorizou ficar aqui, não vou colocá-la para fora.

Mocinha chora — Eu também não quero ficar aqui. Não gosto deste lugar. E depois, o que eu vou fazer aqui sozinha?

Dudu percorre o olhar ao redor — Talvez, você tem um parente, onde poderia ir.

Mocinha — O senhor acha que eu não teria ido, em vez de vir parar neste lugar?

Dudu ameaça dizer algo. Ela fala primeiro. — Eu pensei em ir morar num lugar. O senhor me levaria? É aqui na cidade mesmo.

Dudu — Diz qual é o lugar?

Logo depois.

Madre superior olha a menina dos pés à cabeça, e fala com Dudu. — Ela vai ficar bem aqui. — e se refere a uma das freiras — Isabel, leve a mocinha com você. Coloque-a para dormir no seu quarto, e cuide para que ela fique bem.

Isabel — Me acompanhe.

Mocinha, abraça Dudu, sem que as freiras esperasse a reação dela. — Obrigada. Você é um anjo de pessoa. Nunca vou esquecer o que acabou de fazer por mim.

Dudu — A escolha foi você quem fez.

Mocinha — Eu não ia ter coragem de vir sozinha. — E pega no bolso do vestido o dinheiro que Beto lhe entregou. — A madre pode ficar com isso. O irmão dele quem me deu antes de ir embora da casa. Aqui eu vou ter um lar e o que comer, não preciso do dinheiro.

Madre encara Dudu, depois pega o dinheiro, e alegre, entrega para outra freira: ¬— Talvez, seja a quantia exata que precisamos para comprar o que precisamos para o nosso projeto. Eu sempre digo a todas aqui, que nada acontece por acaso. Tudo tem uma explicação. Se não encontramos aqui na terra, Deus tem guardado lá em cima. Estamos montando um berçário, e faltou material. Agora temos o dinheiro para fazer a compra.

Dudu — Fico feliz em saber que meu irmão fez uma boa caridade, mesmo sabendo de que maneira veio o dinheiro. Eu também quero fazer uma boa ação. A madre me procura amanhã, ou, manda alguém me procurar. Vou deixar o endereço. A senhora pode anotar?

Logo depois, Dudu está na casa. Parado no meio da sala, ele observa tudo ao redor. Ezequiel surgi ao lado dele e lhe sopra em direção ao rosto. Dudu vê, diante de seus olhos, uma grande tela se abrir.

Em uma sala igual, um garoto de doze anos olha a mocinha parada na sua frente.

Roberto Lacerda: ¬— Ela será exclusiva sua. Nenhum outro homem vai tocar nela, não ser você. Agora vai, e mostra já ser um homem de verdade.

No quarto, sentados na ponta da cama, timidamente os dois se beijam.

Outra tela se abre. O garoto anda na rua, para, vendo uma mulher vender rosas.

Na casa, ele empurra vagarosamente a porta do quarto. Em choque, se afasta para trás, vendo Roberto Lacerda com a mocinha na cama.

Correndo pela rua, ele deixa as flores cair, e sentado no chão, em outro quarto, chora em desespero.

Em outra tela. O menino, sentado ao lado da mesa, cabisbaixo come ao lado dos pais. Ele levanta a cabeça e fixa seriamente o pai, ao ouvir ele lhe dizer: — Pega o seu casaco e vamos sair. Homem não tem que ficar dentro de casa. Vou levá-lo para se divertir de novo. Gostou da mocinha, não gostou?

O menino seriamente olha para a mãe.

Roberto Lacerda pede, com autoridade. — Vá pegar um casaco, ou, vai querer ir assim mesmo?

Numa outra tela que se abre. No quarto, o garoto ameaça beijar a mocinha, mas se afasta.

Mocinha — O que aconteceu? Porque está chorando?

Eduardo Lacerda — Eu não consigo.

Mocinha — Porque não?

Eduardo Lacerda, ainda em prantos — Quer mesmo saber?

Mocinha — Sim!

Eduardo Lacerda — Vi você e meu pai, juntos nessa cama, fazendo o que a gente fez.
Mocinha chora — Eu não queria. Ele me obrigou. Me pediu para não lhe dizer nada. Eu não tive culpa.

Eduardo Lacerda, senta ao lado dela — Tudo bem. Não precisa chorar. — seca o rosto com as mãos — Eu também não vou chorar. Acredito em você!

Mocinha — Eu não quero ficar aqui. Por favor, me leve embora daqui. Não quero ficar nesta casa.

Eduardo Lacerda — Então, porque você está aqui?

Mocinha — Meu pai. Mataram ele. Minha mãe, não sei onde está.

Eduardo Lacerda — Como é o nome dela? Vou tentar encontrá-la. E você terá para onde ir depois.

Na rua, Eduardo Lacerda vai de pessoas a pessoas, pedindo informação. Muitas balançam a cabeça que não, e uma aponta uma direção.

Montado em um cavalo, ele galopa por uma estrada. Ele chega em outra cidade pequena. Bate na porta de uma casa. Uma mulher, 50 anos, atende. Na sala tem outras mulheres.

Mulher, medindo Eduardo dos pés à cabeça — Veio procurar diversão, garoto?

Eduardo — Estou procurando Antônia Maria do Carmo.

Mulher — O que deseja com ela?

Eduardo Lacerda — Saber porque que ela abandonou a filha?

Outra moça — Quem lhe disse isso, garoto?

Eduardo Lacerda ¬— A própria filha dela. Maria Antônieta.

Mulher — É! Ela tinha uma filha com esse nome.

Eduardo Lacerda — Ela tem.

Mulher ¬— Quer saber onde está ela? Eu o levo até lá.

Outra tela se abre. Eduardo, atordoado, olha o tumulo, no cemitério. — O que aconteceu com ela? Do que morreu?

Mulher — Não aceitou as ordens do patrão. E ele despejou a força, veneno a goela abaixo.

Eduardo Lacerda. — Quem era o patrão dela?

Mulher — O meu patrão, Roberto Lacerda.

Eduardo em pânico, ao se afastar cai para trás.

Mulher — Pelo jeito você conhece ele garoto.

Eduardo chorando — Roberto Lacerda é meu pai. — Levanta e sai correndo.

Mulher — Ei, garoto, espere, volte aqui?

Nova tela se abre. Eduardo diante a mocinha. — Sinto muito, em lhe dar uma má notícia.

Mocinha — Você não encontrou a minha mãe.

Eduardo — Encontrei o tumulo dela. Sua mãe está morta.

A mocinha senta na ponta da cama. — Eu já imaginava. Agora tenho certeza. — Olha ele — Você vai me tirar daqui, não vai?

Eduardo — Não sei onde devo levá-la.

Mocinha — Obrigada, por trazer notícias da minha mãe.

Eduardo ¬— Prometo, um dia, leva-la daqui. Mas, para casa do meu pai não vou levá-la. Nunca vou levar uma mulher minha para morar debaixo do mesmo teto que ele.

Mocinha — Se eu pudesse colocava fogo nesta casa.

Eduardo Lacerda — Eu também.

Mocinha — Está falando sério? Caso quiser, colocamos fogo agora.

Eduardo — E você vai ficar sem teto, até meu pai arrumar outro. Então, eu pergunto: quantas casa dele vamos ter que queimar?

Mocinha ri. Eduardo também.

Dudu, ainda parado na sala da casa de Beto, sorrindo, fala com ele mesmo. ¬— Acabei de ter uma ideia.

Carregando tudo que pode, coloca no quintal. Quebra as garrafas de bebidas, jogando nos objetos e o fogo se espalha rapidamente.

Quando chega na casa do pai, Noemi recebe ele na sala. – Filho, eu estava preocupada. Você saiu falando que não ia demorar e… Meu senhor, você está impregnado de fumaça. Por acaso, pegou fogo no mundo, e você estava ajudando apagar?

Dudu solta um largo sorriso — Eu que coloquei fogo na casa do Beto.

Noemi, muito espantada: — Você fez o quê…?

Afonso, também com espanto. Ele acaba de chegar. — O que aconteceu?

Dudu sério — A casa continua de pé. Eu coloquei fogo em todos os pertences que ficou na casa. Caso o Beto resolver abrir de novo, vai ter que mobiliar.

Afonso — Onde está seu irmão?

Dudu — Depois que o senhor esteve lá, ele saiu sem deixar notícias. As moças, cada qual procuram seus rumos, e a casa

Afonso — Você colocou fogo em tudo que estava lá dentro.

Dudu, rindo — Com muita satisfação.

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