Estela, depois de andar horas e horas pelas ruas, mostrando a fotografia do pai, sem pista, volta para o único cômodo que mora e procura dormir um pouco. A tarde inicia, quando ela acorda. Lava o rosto e logo sai na rua. Um homem passa por ela. Ele olha para trás: — Moça? — Estela volta, ele prossegue: — Ainda está procurando pelo vosso pai?

Estela amarela: — Sim!

Homem — Se correr consegue alcançá-lo na estação. Ele está indo para Santos. O trem está quase saindo.

Estela sai em dispara, enquanto agradece. Quando chega na estação, o trem dá sinal de partida, sem opção, ela embarca, e, de vagão em vagão procura.

No Hospital, Adalgisa se coloca de pé, observa o corpo estirado na cama, depois, a enfermeira arrumando o lençol.

Um portal se abre. Adalgisa entra e sobe por uma escada e desaparece entre as nuvens. O portal fecha e o aparelho apita.

A enfermeira corre, e vendo Custódio conversar com outro médico, no corredor, grita. — Doutor? Doutor?

Na casa de Afonso, ao ouvir batidas na porta vai atender. Fica surpreso e se emociona ao ver Beto. — O filho pródigo voltou!

Beto — Não precisa festa! Apenas um abraço do meu pai.

Afonso o abraça com ternura. — Pensei que não voltaria, filho. Achei que não fosse vê-lo nunca mais. Perdoe esse seu pai, que não soube te ouvir. Quando descobri o que fazia, fui criticando, sem lhe dar a chance de se explica. Seu irmão Eduardo me contou depois, da sua decisão.

Beto — Resolvi procurar uma pessoa, demorei encontrá-la, e voltei a pedido dela. — sorri — Temos tempo de falar nisso depois. Cadê minha mãe? Eduardo? Minhas irmãs? Hoje é domingo e sei que almoço com a família reunida sempre foi sagrado para o senhor. Pensei que encontraria a casa cheia.

Afonso — Você não soube que a esposa do seu irmão Custódio faleceu?

Beto muda de cor. A voz quase não sai: — Não, isso não é verdade!

Afonso — Faz três dias!

Beto — Como Custódio está? Onde está ele agora?

Afonso — Depois do enterro, ele não quis ver ninguém. Se trancou na casa dele. Não sabemos se está vivo ou morto. Ele não responde. Não abre a porta para ninguém. — e chora. — Seu irmão tinha tanta esperança que ela se recuperasse e está se sentindo culpado pela morte dela. Disse que tudo que aprendeu como médico não lhe serviu para nada, não conseguindo salvar a vida da própria esposa.

Beto senta na poltrona, depois de pausa pensativo, se coloca de pé — Eu vou tirar Custódio de dentro daquela casa. Sei como fazer isso!

Afonso — Vai ser um milagre se conseguir. Custódio não quer escutar ninguém.

Beto — A mim, ele vai escutar.

Afonso — Vou com você.

Beto — Quero falar a sós com ele, e não vou arredar os pés de lá, enquanto Custódio não abrir a porta. E está formando uma tempestade, melhor o senhor ficar em casa. — e se expressa, com emoção. — Eu vou trazer o Custódio de volta para o senhor, pai, por que não quero nunca mais ver o senhor chorando por causa dele. Por nenhum dos filhos seu, nem mesmo por mim! — o abraça — Eu o amo muito pai. Sempre amei.

Afonso — Eu também o amo muito, filho. Obrigado, por voltar para casa. Seu irmão Eduardo me falou da fábrica de costura que você pensava em começar.

Beto — Meu projeto continua de pé, e quero falar com o senhor e Eduardo depois. Vamos colocar moças, mulheres que precisam de trabalho honesto costurar roupas com os tecidos que saem da fábrica. Mas isso pode ser resolvido depois, agora preciso falar com o Custódio. Tenho uma grande novidade para dizer a ele. Depois volto e conto para o senhor. Estou indo lá ver o meu irmão. — e sai.

Afonso fecha a porta. O vento forte parecia arrastar tudo, relâmpagos e trovões invadem o céu.

Roberto para na rua, atordoado, as palavras do pai volta-lhe a mente. — Você não soube que a esposa do seu irmão Custódio faleceu?

E também a conversa com Raquel, quando se coloca ao lado da mesa, onde o almoço estava pronto. Ele tira a arma da cintura e coloca em cima da mesa.

Raquel ¬— Beto, aqui não é preciso usar isso.

Beto pega a arma, gira-a, na mão. — Do que está com medo?

Raquel — Estou bem, aqui, com os meus pais. Não destrua a nossa felicidade.

Beto encara o pai de Raquel, atento na conversa e nos movimentos dele. Estende a arma: — O senhor fica com isso. Eu trouxe por precaução, caso encontrasse uma onça pelo caminho.

Pai de Raquel, examinando a arma. — Aqui tem muitas, a arma vai ser de grande utilidade.

Beto, atento em Raquel, fala com o velho — O senhor me concede a mão da vossa filha?

Raquel — Beto, eu…

Beto interfere — O seu pai quem decide. E vou avisando desde já, eu não tenho um vintém se quer. O dinheiro que eu trouxe no bolso, gastei durante o tempo em que fiquei nas estradas procurando vocês.

Pai de Raquel — Fia? Porque não conta a verdade a ele?

Beto — Que verdade?

Roberto volta a si, com alguém lhe tocando no ombro. Era Dudu. — Beto, eu não acredito que estou vendo você. Onde estava? Por onde andou todos esses meses?

Beto entristecido — O pai acabou de me contar o que aconteceu com a mulher do Custódio. Estou arrasado!

Dudu lhe oferece o ombro, e também chora.

O tempo começa desabar água.

Francine vendo Dudu entrar em casa, todo encharcado — Está maluco, Eduardo, andando debaixo desse temporal? Está querendo ficar viúvo?

Dudu — Eu, viúvo?

Francine — Sim, senhor! Ou, será que existe casamento do outro lado? Se não existir você vai ficar viúvo sim, eu que não vou ficar sozinha, chorando pelos cantos, com você se arriscando desse jeito. É abusar de mais da sorte andar debaixo desse temporal. E, não venha reclamar depois que não avisei. Se eu perder o meu marido para a morte, coloco outro no lugar dele, para dormir na minha cama, rapidinho.

Dudu se aproxima e aos ouvidos dela: — Sabe o que você vai fazer agora, com esse seu fogo?

Francine — Não!

Dudu — Esquentar esse seu marido, debaixo dos cobertores, antes que ele morre de frio, e você coloca outro no meu lugar. Estou congelando. — os dois gargalham.

Beto, na rua, debaixo da tempestade, para ao se lembrar de Estela se aproximado dele, beijando-o no rosto. — Amo muito você Beto, nunca esqueça disso. Eu prefiro você na minha vida como um anjo, e não como um demônio. Demônios não vão para o céu, e quando quiser ir para o céu me chama que eu vou com você. Ou, será que não podemos? — torna beijá-lo e sai. Beto volta a si, ouvindo o estralo de um raio cair, não muito longe dali. Decidido corre debaixo da chuva.

Na casa de Dudu, ele e Francine debaixo dos cobertores, conversam. — Acabou o frio?

Dudu — Meus pés ainda estão gelados.

Francine — Loucura você andar debaixo desse temporal, Dudu.

Dudu — Estou vivo! Não reclama! Muito bem vivo! Posso provar isso, agora.

Francine — Falo sério.

Dudu — Eu também!

Os dois se beijam.

Francine — Você acredita em sonhos?

Dudu — Por quê? Não vai dizer que sonhou que eu morri, por isso ficou tão brava.

Francine — Não! É um sonho que tive antes do nosso casamento, e não consigo esquecer, sempre volta na minha memória. Tudo aconteceu tão rápido, entre nós dois.

Dudu — Quem falou que foi rápido?

Francine — Você me pediu em casamento alguns minutos depois de me ver pela segunda vez. Na verdade, a gente nem se conhecia.

Dudu — Claro que eu conhecia você, faz muito tempo.

Francine surpresa — Dê onde?

Dudu — Não vai dizer, outra vez, eu ser maluco se lhe contar?

Francine — Prometo que não!

Dudu — Eu era um garotinho, quando vi você, na casa dos meus pais. Pela sua idade, nem tinha nascido ainda. Lembro que fiquei bravo com o Beto, quando ele disse que eu tinha visto um fantasma.

Francine — Beto é o seu irmão que desapareceu sem deixar notícias.

Dudu — Ele voltou. Falei com ele. Que foi para a estação. Está indo buscar…

Francine o interrompe — O seu irmão está andando debaixo desse temporal?

Dudu senta na cama. — Para com isso, Francine. Ouvindo você falar assim, senti calafrios pelo corpo. — e espira.

Francine — Muito bem, senhor Eduardo. Vai pegar um belíssimo constipado. Vou na cozinha preparar um chá de limão, alho e mel, antes que piore.

Dudu, com semblante preocupação, repousa a cabeça no travesseiro. Volta espirar, várias vezes.

Francine não demora voltar com o chá. — Está bem quente.

Dudu fala, fanhoso, enquanto toma o chá. — Você promete deixar o meu corpo esfriar bem primeiro, antes de colocar outro na nossa cama?

Francine solta gargalhada. — Para de falar besteira. Você não vai morrer. Sempre sonho com um velhinho, andando de bengala, do meu lado. Quando o conheci, imaginei esse velhinho ser você.

Dudu — Estou feliz, vamos envelhecer juntos.

Francine — Claro que vamos. — arruma o cobertor, e consta o corpo dele quente. — Vou cuidar direitinho de você, ficando do seu lado o tempo que for preciso, sem arredar o pé.

Dudu, que tomava outro gole do chá, encara-a, seriamente.

Francine percebe: — Desculpa, falei brincando, sem pensar. Seu irmão não saia de perto da esposa e não conseguiu evitar a morte dela. Ele continua trancado na casa dele? Você saiu de casa, dizendo que ia tentar falar com ele de novo.

Dudu solta o ar pelas narinas, preocupado. — Custódio vai se superar. Ele está sofrendo de remorso, e não pela morte da esposa.

Francine — Como assim?

Dudu — Ele está se escondendo dele mesmo, essa é a verdade. O Custódio está com medo de admitir os erros que poderiam ser evitados. Casou-se sem estar apaixonado. Quando ele conheceu Giza, achou que poderia dar certo o casamento entre eles… Bom, resumindo: Ele conheceu outra mulher, que mexeu com a cabeça dele, e cometeu a besteira de procurá-la na noite que Giza passou mal. O pior que o Roberto também se apaixonou pela mesma mulher. — sorri. — Eu que imaginava Roberto não ter sentimentos, ser uma pessoa vazia. Mostrou ser capaz de mudar para conseguir ter o amor das pessoas que o ama. Ele vai abrir mão do amor que tem por Raquel, pela felicidade do Custódio.

Ouvindo batidas na porta, ele se coloca de pé. — Vou ver quem é?

Francine — Vai assim, atender a porta, de ceroulas? Se for a minha mãe?

Dudu — Sua mãe ficou de vir aqui hoje?

Francine — Não!

Dudu — Então, não é ela, e se for a minha, ela já é costumada me ver assim. — Francine ri, continua na cama, enquanto Dudu vai atender a porta. — Oi, pai? Que cara de espanto é essa?

Afonso, vendo o filho de ceroulas. — Estava deitado a essa hora?

Dudu — Domingo e chovendo, vai se fazer o quê? Melhor do que andar debaixo dessa chuva como o senhor está fazendo. A Francine acabou me dar broncas por causa disso. Vou pegar uma toalha para o senhor se secar.

Afonso — Não, filho, espere? — e se sente frágil.

Dudu — Pai, não vai me dizer que o Custódio…

Afonso — Não sei como está o Custódio…

Ao sentir as pernas bambas, sentou na poltrona. — Seu irmão Roberto, ele está morto. Acabei de receber o recado do doutor Pedro. Não fui no hospital ainda. Não tive coragem de ir sozinho.

Dudu também senta para trás.

Afonso — O recado que recebi, ele foi atingido por um raio, quando chegava perto do hospital. Seu irmão esteve em casa, faz poucas horas, saiu dizendo que ia falar com o Custódio.

Dudu — Beto esteve comigo também. Fomos juntos na casa do Custódio, como ele não atendeu, o Beto seguiu em direção a estação, e eu voltei para casa. Ele me disse que ia buscar Raquel. O senhor deve se lembrar dela.

Eduardo conta para o pai, o encontro com Beto, na rua. Depois de se abraçarem.

Beto — Lembra, de quando lhe falei que Custódio ir voltar por causa de Raquel. Ele vai sair de dentro daquela casa quando souber onde ela está. Vou fazer isso pelo nosso pai. Não quero ver o nosso velho chorando, principalmente por um filho que não tem o seu sangue. Quem Custódio pensa que é, fazendo nosso pai sofrer? Por amor as pessoas que amo. Por amor as pessoas que me ama vou abrir mão dos meus desejos e tentar trazer de volta a felicidade na nossa família. Custódio teria ficado com Raquel desde o primeiro dia que a conheceu, se eu não tivesse impedido os dois de ficarem juntos.

Dudu — Eu ia chamar o pai para ir comigo ver o Custódio.

Beto — Não quero nosso pai sabendo que Custódio está fugindo dele mesmo, não, por não salvar a esposa, mas sim, porque mandou a mulher que ele ama desaparecer da sua vida, e agora está se vendo sozinho, sem conseguir admitir que errou com as duas. Ele não estaria trancado naquela casa, sofrendo pela mulher dele, como nosso pai pensa que ele está, se Raquel estivesse aqui perto.

Dudu — Caso, Custódio não abrir a porta, arrobamos.

Beto concorda. Os dois batem na porta, chamando, e sem resposta arrombam. Na sala, tudo esparramado.

Beto — Que bagunça… Pensar que o doutor sempre foi tão organizado. Tão certinho com as coisas dele.

Dudu — Vai ver, passou um terremoto aqui, isso sim. Vamos ver como ele está?

Encontraram Custódio deitado de barriga para baixo, na cama, segurando uma garrafa vazia e muitas esparramas pelo chão.

Beto, o primeiro mexer com Custódio. — Ele está embriagado.

Dudu — Menos mal! Pelo menos sabemos que está vivo. O que vamos fazer?

Beto — Vou buscar Raquel. Estou voltando para Goiás e trazer ela comigo. Raquel vai voltar para ele, quando souber o que aconteceu. Vou fazer isso agora. Não vou ficar aqui esperando ele acordar.

Dudu — Beto, é muitos dias de viagem. O Custódio…

Beto interferi: — Não vai morrer. Se ele quisesse morrer já teria se matado, não concorda comigo? E não conta para ele que estive aqui e o que vou fazer. Quero que seja uma surpresa. Quero ver qual será a reação dele quando Raquel aparecer. Agora vamos embora, dá tempo eu chegar na estação, antes da chuva desabar.

Dudu deixa as lembranças de lado, fixa Custódio que se mexe na cama, acordando. Custódio segura a cabeça pesada, efeito da bebida. Abrindo os olhos vê o irmão sentado na sua frente.

Custódio — Como entrou na minha casa? Lembro-me de ter trancado todas as portas.

Dudu, em voz mansa, sem se manifestar: — Para que ninguém enchesse a sua paciência, vindo aqui. Até o serviço da Ba você dispensou. A sua casa está uma desordem. Você sempre gostou de tudo no lugar.

Custódio — Responda a pergunta que fiz. Sei que não tem chaves.

Dudu — Você já ouviu falar em arrombamento? Esse tipo de chave que usei! Melhor chamar um chaveiro, não, um marceneiro, vai ter que mandar trocar a porta. Fiz nela um bom estrago.

Custódio — Você não ia conseguir arrombar sozinho. Quem o ajudou? E como fizeram isso que eu não ouvi?

Dudu pensa antes de responder: — Que diferença isso faz?

Custódio volta segurar a cabeça, e olhos fechados — Você não tem o direito de invadir a minha casa? Ou, acha que vai mudar alguma coisa fazendo isso?

Dudu — Primeira resposta, você estava tão bêbado, desmaiado, por isso não ouviu nada. Segundo: Não fiz isso por você. Fiz por mim. Quero, um dia, acordar em algum lugar, após a minha morte, e ver que a vida é bem diferente do que vivemos aqui na terra.

Custódio — Não existe Céu. Pode ser que exista inferno.

Dudu, observa o sol entrando pela janela. — A partir de hoje, quero viver Intensamente cada pôr do sol, sem me preocupar se o amanhã ele vai surgir ou não. E quando ele surgir novamente no horizonte, quero contemplar a sua clareza, porque será através da sua luz que vou enxergar a beleza que ainda existe, por onde eu levar os meus passos. Quero contemplar a noite que irá me receber de braços abertos, quando eu deitar em meu leito e descasar o corpo pela luta diária. Vou contemplar a chuva, que faz germinar a semente, espalhando as flores no campo, e bendizer a água cristalina, que dá a certeza que jamais o verde terá fim.

Custódio — Gostei! Eu não sabia que era tão poético. Mas a sua poesia não me convenceu. Eu não acredito que existe vida após a escuridão da morte. Agora vá embora, e me deixa em paz, estou com uma tremenda dor de cabeça.

Dudu — A humanidade cresce a cada dia. O progresso se torna a frente de tudo que gera vida. Quem sabe, daqui alguns anos, o homem brinca de gerar vida, descobrindo uma formula diferente sem o método natural do amor entre um homem e uma mulher, e assim terão copias idêntica, para lembrar aquela vida que se foi, deixando apenas a saudade. Mas será que o homem poderá criar uma formula para impedir o fim da vida, ou, apenas retardar a morte numa data indetermina? Nunca! Jamais o homem encontrará uma maneira de impedir que a morte seja companheira fiel da vida, onde, juntos, caminham lado a lado, em passos lentos, e ninguém sabe quanto tempo pode alcançar.

Custódio abre os olhos, ameaça dizer algo.

Dudu continua — O homem gera a vida, mas também a guerra, a morte, dor, angustias com sua ganância de sempre querer mais. O homem também pode criar a felicidade, o prazer de viver os dias que recebem de graça. E o amor? Onde está o amor? Sabemos onde está! Essa palavra tão simples pode transformar um coração cruel. Escolhemos amar, independente de sexo, cor, raça ou religião. Podemos amar o vizinho. Podemos amar o padeiro que nos acorda todo dia de manhã, buzinando na janela, trazendo o pão quentinho. Podemos amar a lavadeira, a passadeira que esqueceu, por descuido, o ferro quente em cima de uma roupa preferida. Amar o pai. Amar a mãe. Amar todos os irmãos. Amar a esposa. Amar os filhos. Amar os amigos. Amar, simples amar cada qual a sua maneira de amar. E amar, simplesmente amar a cima de todas as coisas, a vida que Deus lhe deu.

Custódio volta fechar os olhos: — Se você falar mais uma palavra, eu o coloco para fora da minha casa à ponta pés. Minha cabeça está explodindo, e não quero ouvir nada que tenha decorado para me dizer. Não estou nem ai com o que diz. Não dou a mínima para a vida, nem mesmo para a morte, e você não vai me convencer o contrário com as suas poesias. Agora vá embora daqui! Eu quero ficar sozinho! Nasci para ficar sozinho, e se eu morrer o problema será meu. A vida é minha e posso fazer dela o que eu bem entender. Não devo satisfações a ninguém. Faço minhas escolhas do jeito que eu quiser. Você não é nada meu para querer me convencer a mudar de ideia. Então, respeite a minha dor e vá embora daqui.

Dudu levanta da poltrona, pega-o pelo colarinho. — Olha aqui, doutor? Eu sei que você não quer saber o que está acontecendo lá fora. Sei também que não sou nada seu. Mas fomos criados juntos. Recebemos educação do mesmo pai, queira você ou não, você faz parte sim, da minha família. E, em nome dessa família, que um dia recebeu você com amor e carinho, estou aqui. Será que quando resolveu ser doutor, pensou que a morte jamais iria bater na sua porta novamente? E que a vida em suas mãos seria sempre plenitude? Você é um ser humano como eu, como qualquer outra pessoa que já passou pela sua vida, e não tem o direito de achar que as pessoas não se importam com você. Com a sua vida, e seus desejos não estão a cima dos sentimentos dessas pessoas. Pela profissão que escolheu, muitas vidas brotaram pelas suas mãos…, como também não conseguiu evitar mortes, e lá fora, as pessoas continuam nascendo e outras continuam morrendo porque a vida é igual para todos, doutor, e a sua vida não é diferente só porque você quer! – entreolham calados, enquanto Eduardo toma fôlego, e calmo acrescenta: — Nosso irmão Roberto não se encontra mais entre nós.

Custódio — O quê?!?!

Dudu — Isso que você ouviu. Agora se quiser continuar chorando pela morte da sua mulher, ou, por outra razão qualquer que não consegue aceitar, continue se matando até que a morte resolva bater na sua porta… Em nome do meu pai, que nesse momento chora pela perda de um filho, o meu recado foi dado. – solta-o, e vai embora.

Custódio, tenso procura ficar de pé. Volta segurar a cabeça, sentindo tonturas.

No lavabo, lava o rosto, e não consegue se encarar olhando no espelho. Logo depois, no hospital, doutor Pedro explica os acontecimentos. — Assim, que ele foi atingido pelo raio, trouxeram ele para o hospital, chegou morto. — Depois de pausa — O corpo está liberado. Eu estava indo avisar o seu pai, quando você chegou.

Ele pega os documentos ao lado e estende para Custódio. — Essas coisas estavam no bolso do seu irmão. Documentos, dinheiro e um papel com um endereço anotado.

Custódio lê o endereço, enquanto lembra de Beto batendo na porta. Mesmo embriagado, levanta a cabeça ouvindo os gritos do irmão.

Beto — Doutor, abre a porta, eu sei que está me ouvindo! Nosso pai me disse que você não quer falar com ninguém. Eu estava viajando, cheguei faz poucas horas. Eu procurava Raquel, e a encontrei. – ri – A vida decidiu pregar em nós dois a mesma peça. Eu sei que está apaixonado por ela, eu também.

Custódio cobre a cabeça com o travesseiro não querendo ouvir Beto, que volta a gritar. — Abre a porta, doutor. Está começando a chover. Você não vai me deixar debaixo da chuva.

Estela, em lágrimas, chegando, fala com Custódio. — Que bom que voltou, doutor. Estou feliz em vê-lo. Perdoe-me, não estar aqui no dia em que a sua esposa faleceu. Fui até Santos, atrás do meu pai. Quando voltei, no outro dia, sua esposa já tinha sido enterrada. Fui na sua casa, mas o doutor não quis falar comigo.

Custódio — Você não ia fazer nada a ela, como eu não pude.

Estela — Sinto muito pelo que aconteceu com sua esposa. Estou sentindo muito, pelo que aconteceu com o Beto. Eu nunca vou me conformar com a morte dele. No fundo, Beto era um cara legal. Eu gostava muito dele. — e chora. — Por que tem que ser assim? Por que o fim tem que ser a morte? Eu odeio ela.

Custódio — Eu também odeio. — Abre os braços para recebê-la.

Estela sente receio, mas se rende. Doutor Pedro e as enfermeiras presentes, observam os dois, chorando abraçados.

Dudu e Afonso, parados no vão da porta, também assistem a cena.

Custódio vê os dois, se aproxima do pai e o abraça, choram muito.

Dudu envolveu-os, se prendendo aos dois.

Velaram o corpo de Beto na casa de Afonso.

No outro dia, no sepultamento, Beto, em espírito, acompanha. Ele observa Estela, o pai, a mãe, as irmãs e cunhados. Dudu com Francine e Custódio passando ao lado dele, que o acompanha.

Na sepultura de Cristovam, Custódio se deixa cair de joelhos e chora.

Cristovam, surgindo, em meio a uma luz avermelhada, envolve o corpo do filho, que lhe pede perdão, por ser fraco.

Beto, vê Afonso chegar. Custódio atento a foto do pai faz a mesma pergunta que Estela. — Por que existe a morte? Porque o fim da vida é sempre a morte?

Afonso, passos atrás — No dia em que você encontrar a resposta não esquece de passar a mim.

Custódio vira-se para trás. Aperta os olhos, com as pontas dos dedos, segurando o choro.

Afonso, olhos encharcados — Um homem não teve sentir vergonha de chorar, filho. De expressar um sentimento de dor. A dor de perder um filho é a mesma dor de perder um pai. Nós dois conhecemos bem como é essa dor. Amor de pai. Amor de filho jamais é substituído.

Aponta a sepultura de Giza, ao lado da, de, Cristovam.

Afonso — É diferente do amor de esposa. O homem pode substituir esse amor por outra, como a mulher pode substituir o amor dela por outro, recomeçando uma nova oportunidade, mas os filhos não. Nem os pais. O amor por cada um deles é especial, ficando a marca desse amor para sempre dentro do coração. Dentro da alma. Um dia, Deus levou seu pai de caso pensado, colocando eu no seu caminho, porque sabia que um dia levaria um dos meus filhos, e um estaria aqui para consolar um ao outro. — estende as mãos para Custódio que se coloca de pé e se abraçam chorando.

Beto, com emoção, abraça-os.

Cristovam, ao lado dos três, lhe dá boas-vindas. — Sejam bem vindos, meus netos?

Roberto vira-se para trás, percebe que Cristovam fala com outra pessoa.

Beto surpreso — Giza?

Giza — Estou feliz em vê-lo, Roberto. — estende as mãos a ele. — Escolhemos nossos próprios destinos. Reescrevemos nossas histórias, sem deixar marcas do passado.

Uma tela se abre. Beto se vê numa rua, andando ao lado de Custódio que lhe diz: — Se eu tivesse conhecido seu pai antes de lhe dar a grana para comprar a casa, não teria lhe dado. Tenha certeza disso!

Roberto Lacerda — Está do lado do velho?

Custódio — Da razão! Seu pai gosta das coisas certas, como meu pai gostava e eu também. O amor na família deve estar acima de tudo na vida de uma pessoa. Ame seu próximo como a ti mesmo. O próximo é a família, pai, mãe, irmãos, primos, tios, avôs. Todos aqueles que fazem parte do seu sangue, não aquele que passa pela sua vida e desaparece sem deixar notícias. Parentes sempre se encontram pelos caminhos da vida. Fazem parte do mesmo círculo, onde um, deve estar sempre pronto para ajudar o outro. Bom, pelo menos eu penso assim. Aprendi com meu pai e procuro seguir os exemplos dele. Amando o seu próximo com a ti mesmo amará todos os seus semelhantes. O amor deve ser contagiante, começando dentro do próprio lar.

Roberto Lacerda — Amo meus filhos e minhas duas mulheres como a mim mesmo. Sou fiel a elas e com todas as outras que vivem comigo debaixo do mesmo teto. — e ri.

Custódio para, traga o charuto. Fixa a fumaça que se mistura com a neblina. — Não amo a mim!

Roberto gargalha.

Custódio — Falo sério. Se eu amasse, não estaria essa hora da noite, andando debaixo da neblina fria, com um charuto na mão, depois de encher a cara em uma casa de perdição. Que amor é esse que tenho a meu respeito? Seu pai é um exemplo. Onde está ele neste momento?

Roberto — Dormindo ao lado da esposa.

Custódio — Durante os anos em que vivi com meu pai, ele sempre dizia: a noite foi feita para descansar e o corpo estará bem disposto para o trabalho no outro dia.

Roberto — Tenho bons motivos para não seguir os conselhos do meu velho.

Custódio — Quando ele não estiver mais aqui para lhe dar puxões de orelhas irá sentir falta, e será tarde o arrependimento. Eu sempre procurei seguir os ensinamentos que recebi do meu pai, e sinto saudade dele.

Roberto, brinca — Vou pedir aos céus, para morrer antes do meu, assim, não sentirei falta do senhor Afonso.

Naquele momento, uma estrela risca o céu.

Custódio — Alguém, lá em cima, assinou a sua sentença de morte. Atendeu ao seu pedido.

Roberto Lacerda, com os braços abertos, olha para o alto. — Obrigado, meu Deus, em aceitar o meu desejo. Morrerei feliz, quando chegar a minha hora.

Custódio — Não deveria brincar com coisas sérias!

Roberto Lacerda — Não tenho medo da morte, já falei isso para o senhor Afonso quando me acusou de filho ingrato. Ele chegou a me dizer que joguei a minha alma no fogo do inferno com as escolhas erradas que fiz. Infelizmente, meu caro amigo, não sou um homem perfeito como é meu pai. Como era o seu e muito menos serei como você, que tem orgulho dos exemplos que recebeu. — O aponta: — Vou lhe dar um recado. Melhor ir se preparando, você se tornará inimigo número um do senhor Afonso, no dia em que ele descobrir que você me ajudou comprar aquela casa. Vou adiantar as palavras dele: Você ajudou meu filho abrir as portas do inferno e será queimado junto com ele. — e ri gostoso.

Custódio, sério nada responde. Roberto pega-o pelos ombros: — Não precisa ficar assustado. Se depender de mim, meu pai nunca saberá a verdade. Nem depois da minha morte, e poderá se consolar, nos seus braços, caso, chorar pela minha morte, e você poderá aliviar a dor do seu peito, a falta que lhe faz o seu pai. Seu Afonso sempre desejou um filho correto e você será o filho perfeito, onde vão aliviar a dor um do outro. Não concorda comigo? — ri.

Custódio — Falei que sinto saudades do meu pai e não falta! São diferentes as duas coisas.

Roberto Lacerda — Para mim tudo é igual! Que diferença faz sentir saudade ou falta de alguém que já se foi. Após a morte nada tem volta. O que eu queria era ser aceito com minhas escolhas, sem me comparar a outra pessoa, mesmo que seja a ele. Não tenho culpa de ser diferente daquilo que meu pai deseja. Quero o amor dele, que me aceite como sou e não, como ele quer que eu seja. — E chora. Os dedos são colocados em direção ao amigo: — Falei sério! Se eu morrer primeiro que você e meu pai, podem consolar um ao outro. Não quero ver meu velho chorando a minha morte. Apesar de tudo, eu o amo muito, de coração. Quando chegar a minha hora, não quero sentir medo da morte. Estou preparado. Ela pode vir ao meu encontro quando quiser. Ninguém fica para semente!

Custódio — Você está bêbado, falando besteiras. Duvido que não terá medo da morte quando ela aparecer na sua frente. Com certeza, irá morrer de medo! — Os dois gargalham.

Outra tela se abre. Beto se vê numa sala, sentado ao lado de uma mesa.

Custódio, entra e lhe pergunta. — Quanto pagou a ela?

Roberto Lacerda, surpreso, — Você não viajou com a sua esposa? Não viajaram em lua de mel?

Custódio — Responda a pergunta que lhe fiz.

Roberto solta risos, maliciosos. — O presente perderá o valor, se eu lhe dizer o preço.

Custódio — Quero saber se o valor compensou o presente.

Roberto Lacerda brinca. — Admite! Você adorou o presente que lhe dei. E que presente…! Acertei não foi?

Custódio — Você sabe que me apaixonei por Raquel no primeiro momento em que a vi. Desejava me casar com ela, construir uma família feliz.

Roberto Lacerda — Espere, aí? Antes de me acusar, fique sabendo que foi uma brincadeira da minha parte. Uma festa de despedida de solteiro que fiz a você. Falei que não precisava ficar mais que meia hora com Adalgisa. Lembra? E o que foi que você fez? Será que preciso dizer tudo para refrescar a sua memória? Gastei uma grana preta na brincadeira, fiz o que fiz por ser meu amigo irmão. Não faria essa loucura a outro…. Tenho esposa, filhos para sustentar. — sorri — Mas se quiser se livrar do presente ainda está em tempo, aceito devolução. Em pouco tempo Adalgisa me devolve em dobro o que paguei a ela.

Custódio — Um presente, que pelo jeito eu também vou pagar caro.

Roberto Lacerda ainda ri — Vamos falar a verdade? O que você fez com Raquel não merece perdão! Eu estou chocado e imagina ela, e se você gostou tanto da outra, dissesse não, na hora do sim, ou, não aparecesse na igreja. Teria sido mais justo, com ela. Nunca vi um noivo se atrasar tanto. Noiva é normal, mas noivo…

Custódio — Aquela garota colocou drogas na minha bebida. Acordei na hora marcada do casamento. Pensei que não encontraria Raquel na igreja, esperando.

Roberto fica surpreso — Drogas!!? O que está dizendo? Explica essa história direito.

Custódio, sério o encara, antes que dissesse algo, Roberto se expressa: — Não me olhe assim, eu juro, não tenho nada ver com isso. — beija os dedos cruzados — Jamais prejudicaria o seu casamento com Raquel. Sou capaz de dar a minha vida, pela sua felicidade. E Deus sabe que estou falando a verdade. Você é mais do que um irmão pra mim, e, eu jamais prejudicaria um irmão meu.

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