Nosso amor não nasceu aqui.Ele veio de outras vidas.

Próximo a banca de frutas, Isabel vê Luiz chegar na companhia de um amigo. A madre se alegra, com a satisfação do rapaz, vendo Maria chegar com a mãe.

Miguel também atento em Maria, ao lado de Dora. — Não sei como a mãe dela não descobriu o namoro de vocês.

Luiz – Experiência!

Miguel — Só se for em outra vida. Vamos ver onde fica a sua experiência nesta, na hora que o pai dela e o seu, descobrirem. – ri, se despede e vai embora.

Madre, continua atenta em Luiz, que se aproxima de Maria, cabisbaixa, pegando batatas. Disfarçadamente o rapaz assovia. Maria olha para trás, entre demais pessoas, também Dora. Luiz fica de costas. Uma mulher percebe Luiz falar com Maria, usando mímica.

Maria nada entende, e se refere a mãe, de costas para Luiz, na banca de frutas. — Mãe, vou pegar maças na outra banca. — e se afasta indo em outra, passa por Luiz que se aproxima, falando quase aos ouvidos. — Vai abrir outra sessão de costura na fábrica, para novas costureiras, pensei em você. Assim podemos nos ver mais vezes durante a semana.

Maria — Perto dos nossos pais também!

Luiz — Faz tempo que estamos montando a fogueira, está na hora de botar fogo.

Maria também ri. Amélia atenta no casal, fala: — Tem mãe que é cega!

Dora olha a mulher, na sua frente. — O que disse, dona Amélia?

Amélia — Nada! Bobagem minha. Só pensei alto.

Luiz percebe Dora se mover na banca, falando com Amélia. Ele coloca dentro do pacote de Maria uma maça que pegou na banca, enquanto fala com ela. — Pensa no que falei e coloco o seu nome na lista. — E sai. Maria também vê a mãe vindo em sua direção.

Dora — Já pegou maças?

Maria — Falta pagar. — e estende o dinheiro ao comerciante, enquanto sua atenção volta para Luiz. Ele joga um beijo, usando a ponta dos dedos. Maria sopra. Luiz faz gestos com as mãos, como se pegasse-o de volta, beijando a mão fechada.

Madre, ainda observando os dois se emociona.

Amália também sorri em deboche. — O amor é lindo!

Em casa. Dora e Maria encontram Moreira na sala. — Trouxeram a feira pra dentro de casa? Demoraram muito, estou morrendo de fome.

Dora — Deixei quase tudo pronto antes de ir na feira, o almoço já vai sair.

Maria senta ao lado dele na poltrona. — Pai, posso trabalhar na fábrica também?

Moreira — O que você vai fazer lá?

Maria — Vai abrir uma nova sessão de costureiras. Vão contratar mulheres a partir do mês que vem.

Moreira coça atrás da orelha, meio cabreiro — Como está sabendo disso? Eu que trabalho lá dentro não estou sabendo de nada.

Maria disfarça, pega uma maça na fruteira, que a mãe havia colocado no centro da mesa. – Ouvi por acaso, lá na feira.

Moreira — Você também ouviu isso, Dora?

Dora — Não, mas se isso for verdade eu também quero trabalhar na fábrica dessa vez. Quero ter meu próprio dinheiro, assim, não fico ouvindo reclamação, de que gasto muito na feira.

Moreira — Não deixei você ir quando começou, não vou deixar agora. Mulher minha tem que ficar cuidando da casa.

Dora — Moreira, não tem nada de mais eu trabalhar, faz três anos que muitas mulheres daqui da rua estão trabalhando lá, e estão muito bem satisfeitas.

Moreira — Não entendi até hoje, a razão do seu Afonso montar uma fábrica de costura, junto com a fábrica de tecido.

Maria — Ele quis continuar o que aquele filho dele começou, antes de morrer.

Moreira — Menina, você tem informação de mais. Preciso descobrir de onde vem esses telegramas.

Dora lembra do assovio, depois a filha se afastando, as palavras de dona Amália. — Tem mãe que é cega! E também ver Luiz se afastando rápido. Ela olha a filha, comendo lentamente a maça, falando com o pai.

Maria — A mãe estava em outra banca, por isso não ouviu.

Dora — Maria, vamos na cozinha terminar o almoço. Preciso da sua ajuda – e sai

Maria — Já vou mãe! E o senhor pai, ainda não respondeu minha pergunta. Posso ir fazer a inscrição semana que vem?

Moreira – Semana que vem vai ter nova inscrição? Vou ver amanhã, lá na fábrica, quem já está sabendo disso.

Maria — Vou ajudar a mãe com o almoço.

Moreira — Vamos ver se vai almoçar mesmo depois de devorar uma maça inteira. Você está muito magra menina, precisa comer um pouco mais.

Na cozinha, Dora vai direto no assunto: — Maria, o Luiz quem falou do emprego, eu vi ele na feira, e depois de um certo assovio você foi na banca de maças. Vi também quando ele se afastou, na hora que fui atrás de você. Estou certa, ou, vai dizer que estou errada?

Maria nada responde, fixa na mãe.

Dora — Seu silêncio diz que estou certa. Desde quando vocês dois estão se comunicando?

Maria — Amo o Luiz, mãe. Sempre amei.

Dora — Responde a minha pergunta. Desde quando vocês estão se encontrando?

Maria — Acho que é desde quando começamos a se entender por gente. A dona Mirtes contou pra mim e para o Luiz, o que aconteceu quando eu nasci.

Dora — Quando você nasceu Maria, começou uma guerra entre o seu pai e o pai dele.

Maria — Eu e o Luiz estamos namorando, faz quatro anos.

Dora — E desde quando a Mirtes sabe disso?

Maria — Faz tempo. Ela quis falar pra senhora, mas eu não deixei. Pra não ver a senhora preocupada, como estou vendo agora.

Dora faz gestos negativos com a cabeça, sua semblante não era a mesma. — Não sei porque, mas posso imaginar a reação do seu pai quando descobrir.

Maria — Ele vai brigar comigo, e talvez, nem me aceite mais como filha.

Dora arruma os cabelos negros da filha, quase caído aos olhos. — Também não é tanto, seu pai adora a filha que tem, e não vai ser contra se você não fizer nada de errado… E se realmente ama o Luiz, guarde bem as palavras que vou lhe dizer para não piorar a implicância do seu pai com o dele. O amor de vocês dois tem que ser muito forte, e puro. Nunca façam nada, antes do Luiz conseguir a confiança do seu pai.

Maria sorri aliviada, abraça a mãe com carinho. — Nunca vou envergonhá-la, mãe. Nem a senhora e nem o meu pai. Juro que não!

Dora — Luiz é um bom rapaz. Inteligente. Esperto. Bem educado. Tem boa vontade. Tem tudo para crescer na vida. Qualquer mãe, aqui do bairro, iria adorar ter ele como genro. Mas o seu pai não consegue ver essas qualidades dele, sempre diz que o Luiz é um garoto topetudo, sem juízo que não merece confiança, como o pai dele.

Maria — Não consigo entender essa implicância que tem meu pai do senhor Geraldo. O Luiz também não entende.

Dora — Eu acho que é porque seu pai queria um filho homem. Desde o momento em que ele soube que eu estava gravida dizia isso, e foi a maior decepção quando você nasceu.

Maria — E por que a senhora não deu a ele depois, o filho que queria?

Dora — Seu pai não quis, decidiu que você seria nossa única filha.

Maria surpresa — Meu pai decidiu isso?

Moreira — Quando ele soube que era uma menina, acabou falando uma besteira que eu não gostei, fiquei muito magoada na hora, e depois ele quis se desculpar, e alguma coisa de errado aconteceu naquela noite. Tanto que seu pai ficou em desespero, foi trabalhar preocupado, onde, acabou discutindo com o Geraldo. Seu pai achou um insulto ele querer unir você e o Luiz, num compromisso futuro, depois de você quase ter morrido. E conheço o seu pai Maria, ele não vai aceitar a sua união com o Luiz tão fácil, só pra não dar o braço a torcer para o Geraldo.

Maria — O que disse meu pai, quando soube que eu era uma menina, e a senhora não gostou?

Dora lembra.

Moreira entra no quarto, pergunta alegre para a esposa. — Como está?

Dora, feliz com a recém-nascida nos braços. — Pronta para outra. Você sabe que eu o amo muito. Não sabe?

Moreira puxa os panos para conhecer o bebê. — Sim! Claro que sei! E o que está querendo me dizer com isso? — sorri vendo o rostinho da neném.

Dora — Não me importo de passar pelo mesmo sofrimento que acabei de passar para lhe dar muitos filhos e filhas. Essa é a nossa primeira filha, e nada impedem de termos outros filhos.

Moreira, desapontado. — Filha? Você faz esse enredo todo para dizer que ganhei uma filha?

Dora — Deste quando engravidei você fala em menino.

Moreira sério olha a criança.

Dora — Está vendo? Tanto que ficou aborrecido sabendo que é uma menina. Quem sabe, daqui um ano nossa felicidade possa ser completa com a chegada de um menino.

Moreira solta um sorriso desiludido — Não se preocupe, Dora. Não vou rejeitar a nossa filha por ser menina. Se fosse um menino talvez eu já iria me sentir realizado como pai, e não ficaria tão ansioso nas próximas expectativa de ter um filho varão. Agora deixe eu conhecer melhor a nossa filha. Temos que escolher um nome bem bonito. Um nome que ela goste depois. Você já pensou em algum?

Dora observa a filha que dorme em seus braços. — Margaret.

Moreira — Por que Margaret?

Dora — Não sei! Acredito que ela vai gostar do nome. Maria é o nome da sua mãe. Gorete é o nome da sua avó, juntei o nome das duas, pra te agradar.

Moreira — Gostei de Maria. Vamos deixar o Margaret para a nossa próxima filha.

Dora fica boquiaberta.

Moreira — Não precisa me olhar desse jeito, mulher, apenas estou me prevenindo do azar de você me dar um monte de filhas.

Dora — Azar?! Moreira você ouviu o que acabou de falar. É azar ter uma filha?

Moreira coça a cabeça. — Estou com fome, com dor de cabeça com aquelas máquinas que quebram toda hora, acabei falando o que não devia.

Dora — Devia ter mordido a língua antes de falar besteira, isso sim!

Moreira — Desculpa Dora, falei sem pensar!

Desapontada, Dora aconchega a filha no peito, balança a cabeça negando.

Moreira — Dora eu pedi desculpas.

Dora — Deus quem vai perdoar suas palavras Moreira, e não eu. Fiquei magoada sim, pelo que disse, mas vai passar. Vou saber educar nossa filha, assim ela não vai lhe dar nenhum azar.

Moreira — Vou tomar banho, e depois comer. — e sai, fazendo gestos com as mãos.

No meio da noite, Moreira acorda com o choro da filha. Dora pega a menina do cesto. — Ela está chorando de novo? Parece que acabou o nosso sossego.

Dora — Filho homem também chora, até aprender não chorar atoa, e isso demora um bom tempo, caso meu marido não sabe disso.

Moreira volta a cabeça no travesseiro. — Não está mais aqui quem falou, deixa ela chorar à vontade.

A criança volta a dormir no colo da mãe.

Dora volta-a no cesto, e assim que se acomoda na cama, a menina chora. — Está certo, Moreira, acabou o nosso sossego.

Levanta e pega a filha, vai saindo do quarto.

Moreira — Aonde vai?

Dora percebe a filha parar de chorar. — Ela deve estar com frio, ou, não quer ficar sozinha. Vou ficar com ela na sala, assim você dorme, amanhã tem que sair cedo para o trabalho.

Moreira — Coloque ela aqui no meio de nós. Quem sabe fica quieta.

Dora — Moreira, você está maluco? Ela é tão pequenininha, tão frágil, que podemos amassá-la no meio de nós dois.

Moreira — Só estou querendo fazer as pazes com você e a nossa filha pela besteira que falei hoje. E vamos tomar cuidado.

Dora fica em dúvidas.

Moreira — E se ela chorar todas as noites, nunca mais vamos dormir juntos? E depois, ela estava acostumada de dormir no meio de nós, na sua barriga, não vai estranhar. Vai ver é por isso que está chorando! — E se acomoda na beira da cama, arrumando o travesseiro — Tem espaço para as duas.

Dora coloca a filha no meio dos dois. Logo dormem.

Ela conta para a filha — E como falei naquela hora, acordei com você aos gritos no colo do seu pai.

Moreira chega — O que as duas tanto fala aqui na cozinha que não terminaram de fazer o almoço. Estou morrendo de fome.

Maria — Come uma maça, pai, como eu fiz.

Dora ri — Isso mesmo Moreira, faz o que a sua filha sugeriu. Come uma fruta enquanto termino o almoço, assim, você não vai morrer de fome.

Moreira faz careta e sai mostrando a ponta da língua.

Na pensão. Miguel mexe em alguns papéis, agachado atrás do balcão, encontra em meio as papeladas uma foto de noivos. Ele olha fixamente o rosto da mulher.

Dona Lucia chega na sala, vendo-o parado, fixo na foto — O que está fazendo, Miguel?

Miguel disfarça. — Estou arrumando as papeladas debaixo desse balcão, está uma bagunça. — Mostra a foto — Quem são os noivos?

Linda — Eu e meu finado marido.

Miguel — A senhora era muito Linda. Quero dizer ainda é.

Dona Linda, com um largo sorriso, brinca. — O nome você quer dizer, não é?

Miguel — Não estou falando do nome. A senhora é mesmo muito bonita. — Em silêncio, entreolham profundamente. Mas, se afastam disfarçadamente.

Adalberto chega — Como passou, tia Linda?

Linda — Melhor agora vendo você de volta.

Adalberto cumprimenta Miguel. — Como vai meu amigo?

Miguel, um pouco acanhado – Bem. E como foi a viagem do doutor?

Adalberto — tranquila — e vira para a tia — Meu pai mandou um forte abraço. Disse que qualquer dia aparece aqui.

Maria, na janela, vê Geraldo seguir em uma direção na rua, rapidamente sai de casa e bate na porta.

Luiz atende, olha em direção à rua para ver se Geraldo não estava. — Meu pai acabou de sair e disse que não vai demorar.

Maria — Eu queria falar com você, é bem rápido.

Luiz puxa-a pela mão e a leva para o quarto, enquanto explica: ¬— Minha mãe foi entregar uma encomenda.

Maria — Vi seu pai saindo e aproveitei.

Luiz — Isso quer dizer que posso colocar o seu nome na lista.

Maria — Meu pai não vai deixar, mas eu vou tentar convencer ele.

Geraldo retorna, e na mesa pega a carteira que havia esquecido. Ouve a conversa, se aproxima da porta e vê Maria e Luiz no quarto. Ele pensa, e decidido sai na rua, olha em direção à casa de Geraldo, e segue uma direção.

No quarto, Maria explica a conversa de Dora. — Por essa razão que os nossos pais se desentenderam.

Luiz — Pelo menos agora já sabemos o motivo certo da briga dos dois. — sorri e toca de leve o rosto dela com a palma da mão. — Nosso amor não nasceu nesta vida, foi em outra que eu a conheci.

Maria — E o que a gente faz quando sente que o nosso amor veio de outras vidas?

Luiz — Não temos como fugir desse amor, mesmo sabendo que seu pai é contra.

Maria — O seu também.

Luiz — O destino irá nos unir de alguma forma.

Maria — Eu não quero viver sem você na minha vida.

Luiz — Se o nosso amor vem de outras vidas, talvez morri sem encontrar a felicidade, nesta eu só encontro alegria, quando estou perto de você.

Maria — Eu nasci amando você.

Luiz repete, — Eu nasci amando você.

Emocionados entreolham profundamente. Os lábios teriam se unidos, se não ouvissem barulho.

Luiz – Fique aí, deve ser meu pai.

Na sala, ele sente alivio ver a mãe chegar. Ela percebe a tensão dele.

Mirtes — O que foi? Porque está tão assustado?

Luiz suspira — Pensei que fosse meu pai. A Maria está aqui.

Maria assustada aparece na sala. Ela corre em direção a porta, e se refere a Luiz: — Estou indo embora, antes que seu pai chega.

Mirtes, sem se mover, fixa a porta que Maria deixou aberta. Ameaça falar com o filho. Luiz fala primeiro: — Não aconteceu nada entre eu e a Maria, estávamos só conversando.

Mirtes — Claro, filho, acredito em você. Já conversamos muito a respeito disso, não piore o que está ruim.

Luiz — Eu vou conquistar o seu Moreira.

Mirtes — Você vem falando isso faz tempo, e ainda não conseguiu. Isso prova que ele é duro na queda, então, tome cuidado, não quero ver você sofrendo.

Luiz — Ninguém vai me separar da Maria, nem mesmo a morte.

Mirtes bate na madeira da mesa – Hei, vire essa boca pra cá. Falar em morte é última coisa que eu queria ouvir hoje. Quer um pedaço de pão? Acabei de pegar na padaria.

Maria entra correndo em casa. Esbarra em um móvel.

Moreira, na sala lia o jornal. Ele implica com a filha que quase cai. — Precisava entrar correndo desse jeito? E onde você estava.

Maria — Lugar nenhum, eu só fui dar uma volta.

Moreira fala com Dora, que chega na sala. — Você fica atenta com essa menina. E aproveita, leva ela pra fazer uma consultar com o doutor Custodio, estou achando ela muito magra. Cada dia parece que some mais.

Maria — Pai, não exagera. Eu estou bem, não preciso me consultar com ninguém, muito menos com o doutor Custódio.

Dora — Seu pai está certo, amanhã levo você no hospital, eu também já percebi que anda magra demais.

Maria — Mãe, eu não quero ir me consultar com o doutor Custódio.

Moreira — Qual problema nisso? Ele é filho do patrão e…

Maria corre para o quarto.

Moreira — Dora o que é isso? O que está acontecendo com essa menina?

Dora senta ao lado do esposo — Ela anda sem apetite. Quase não come nada.

Moreira — Você já devia ter levado ela pra se consultar.

Dora — Não é a primeira vez que ela se nega ir, disse que andou sonhando com o doutor Custódio e com aquele irmão dele que morreu. Mesmo depois da morte dele, ela continua sonhando.

Moreira — Que sonho?

Dora — Que ela está numa casa, deitada numa cama e o doutor Custódio aparece, aí vem uma moça, coloca ela pra fora. Ela sai andando sem rumo por uma estrada deserta, e depois se vê novamente em outra casa, também deitada na cama, chorando muito, e o finado aparece e quer levar ela embora, e ela se nega, e corta o próprio pulso, morre esgotada, disse que chega ver o sangue no chão.

Moreira — Que sonho mais tonto é esse?

No hospital, naquele momento, Estela em sonho, fala brava com Custódio. Eles estão num barracão — Eu não vou deixá-lo em paz, enquanto não me ajudar encontrar minha amiga.

Custódio — Você quem colocou a sua amiga para fora de casa, e eu que tenho que procurá-la agora?

Estela grita com raiva, indo por cima dele lhe dando socos. — Seu cachorro, ordinário, você que…

Custódio chama — Estela? Estela? Acorda!

Estela abre os olhos. Tinha a cabeça encostada numa das camas, na enfermaria. — Desculpa, doutor. Estava tudo tão quieto que me encostei e acabei dormindo.

Custódio — Você estava gemendo. Pensei que passava mal, por isso a chamei.

Estela — Eu e meus pesadelos. Sonhei que estava brigando com o doutor. Cheguei lhe dar socos de raiva.

Custódio ri, enquanto olha os prontuários. — Vou começar tomar cuidado com você. Posso saber porque estava me dando socos?

Estela — Acho que era por causa da Raquel. Só lembro que pedi ao doutor para me ajudar a procurar minha amiga. O doutor se recusou, dizendo ser culpa minha ela ter desaparecido. Eu, louca da vida, comecei lhe dar socos, e pior, o chamei de cachorro e algo mais que prefiro nem dizer.

Custódio muito sério a olha — Isso é uma direta?

Estela — Claro que não! Eu juro que não é! Foi mesmo um sonho. Um pesadelo que sempre tenho. Acho que é porque fico pensando na Raquel. Como ela possa estar.

Custódio — Fome não deve estar passando, pelo menos por um bom tempo, se saber usar a fortuna que levou.

Estela — Com certeza não! Bom, eu não estaria tranquila se não tivesse feito Raquel levar as joias com ela. Ia mesmo fazer o doutor procurar ela, comigo. Há se não ia! Com certeza, não ia deixa-lo em paz!

Custódio ri. — Ia me pagar a socos!

Estela — Se Raquel aparecesse aqui no hospital? Por que quem garante que ela não voltou morar em São Paulo, depois que o pai morreu. Sempre penso nisso.

Custódio fica surpreso. — Como você sabe que o pai de Raquel faleceu?

Estela fica sem jeito. — Venho guardando esse segredo comigo faz tanto tempo. Também, quem mande eu não ficar com a boca fechada. Falar demais.

Custódio — Estou esperando a sua resposta.

Estela — Fui procurar Raquel em Goiás, mas ela não morava no endereço que o doutor encontrou com os documentos do Beto.

Custódio — Lembro-me ter jogado no lixo.

Estela — Caiu fora do cesto, acabei olhando por curiosidade. Lembra que falei que estava indo no Rio de janeiro procurar meu pai. Menti. Fui até Goiás.

Custodio — Atrás de Raquel. Entendi! O que não entendo porque que você sempre está interferindo na minha vida?

Estela — Juro que eu também queria descobrir. Acho que vejo no doutor o irmão que não conheci. E posso lhe confessar uma coisa? Ajudei Raquel sair da casa para que o Beto não ficasse com ela, e acabei ficando sozinha e o doutor também.

Custódio volta aos prontuários — Temos algo em comum! Nós dois somos sozinhos. Bom, você tem o seu pai, seu irmão, quem sabe um dia os encontre.

Estela — Já perdi a esperança. Nem procuro mais. — se alegra — Ainda tenho esperança de um dia encontrar um amor de verdade. E se o Beto encontrou Raquel, quem sabe o doutor a encontre também.

Custódio volta a olhar seriamente, depois de pausa — Gosto de você! Gosto muito. Você faz parte da minha vida, e acho que se um dia sair do meu calcanhar, não vou saber me virar sozinho. Chego considerá-la uma irmã. Então, não me pede para procurar Raquel. Ela faz parte do meu passado. Tanto que se o Beto não tivesse morrido, acredito que teria se casado com ela, e nós dois iriamos perder do mesmo jeito.

Estela não se contém, e chora. Custódio, puxa-a para perto e abraça-a com ternura.

Tereza, outra enfermeira e Adalberto param entre a soleira observando-os, de olhos fechados, dividindo a mesma tristeza. Tereza, meio acanhada chama lhes a atenção. — Desculpa atrapalhar, doutor Custódio. — Mostra Adalberto — Ele quer falar com o senhor.

Adalberto se apresenta. — Doutor Adalberto Trindade. Enviei meus dados antes de ir para a fazendo visitar meu pai. Estou de volta para saber se tenho chance de uma vaga no hospital.

Custódio — Claro! Vamos conversar na outra sala. — saem.

A outra enfermeira fala com Estela. — O paciente do doutor Custódio chegou. O dá pequena cirurgia.

Estela seca melhor os olhos, e vai preparar o paciente, passando pelas duas enfermeira que entreolham boquiabertas.

Tereza se alegra: — Parece que a Estela e o doutor começaram a se entender. Vou ajudar ela com o paciente. Estou curiosa para saber os detalhes.

Enfermeira — Me conta depois. — E sai em direção oposta.

Estela chega na sala. Tem duas pessoas.

Tereza, curiosa para conhecer os detalhes do abraço, disfarça, para não entrar direto no assunto. — Muito bonito, elegante e simpático o médico que chegou.

Estela — Como pode saber se ele é tudo isso, se acabou de chegar?

Tereza — Bastou eu olhar ele e fiquei apaixonada!

Estela rindo — Tereza, toma Juízo.

Tereza — Tem algum problema nisso, eu me apaixonar por um médico? Você e o doutor Custódio, por exemplo, são amantes há tanto tempo, e pensam que aqui dentro ninguém sabe disso!

Estela arregala os olhos. Aponta a companheira de trabalho. — Calunia! E isso é pecado, você sabia? Eu nunca olhei para o doutor Custódio com más intenções. Nunca me passou isso pela cabeça, e por parte dele também.

Tereza — Para de negar, Estela. Não foi somente eu que peguei os dois abraçadinhos lá na sala do doutor Custódio. Vocês dois demoraram tempo demais para assumirem em público, que estão apaixonados.

Estela boquiaberta. — Que absurdo você está dizendo!

Tereza ri. — Deixe de ser boba. Não tem nada de mais. Você é solteira e o doutor Custódio viúvo. Passou da hora dos dois saírem da moita. Não é mais novidades a ninguém aqui dentro. Todos comentam isso faz tempo, e vivem torcendo para que vocês dois se entendam de vez.

Custódio e Adalberto chegam na entrada da porta, ouvindo a conversa.

Estela — Boca abençoada é a boca de muitos. Não podem ver uma mulher e um homem terem amizade, logo dizem ser amantes. Não podem ver dois homens terem amizades e um é visto como homossexual e o outro também. Não podem ver uma mulher ter amizade com a outra que uma tem o sexo trocado. E, … deixe-me ver se existe algo mais. Há! Já sei! Se um irmão resolver sair na rua de braços dados com a irmã, é bem provável que vão dizer: Descobriram que não são farinhas do mesmo saco.

Todos gargalham, até mesmo o paciente que Estela preparava para fazer a cirurgia.

Estela, envergonhada, tapa a boca quando vê os médicos. — Falei demais.

Adalberto ainda ria, e se refere a Custódio. — Vou adorar trabalhar aqui. O pessoal é bem divertido.

Custódio — Eu que o diga! Aqui não é um lugar só de tristeza. Temos momentos de alegria também. — E pede que Tereza acompanha Adalberto pelo hospital, para que ele conheça.

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