circulo
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Custódio entra no quarto e encontra a cama de Raquel vazia. Suspira aliviado, ao vê-la na cozinha, sentada ao lado da mesa, conversando com a mãe, em voz baixa. Sofia queria saber notícias. Raquel, sem querer preocupá-la com os fatos ocorridos, mente, dizendo que encontrou Custódio em casa. A mãe quer saber o motivo de não seguirem viagem. Antes que Raquel inventasse outra mentira, Custódio quem responde no lugar. Também mente: — Ouve um pequeno imprevisto na fábrica e não consegui resolver. A viagem será adiada. — Observa Raquel, que não se manifesta.

E, sem desviar a atenção, querendo ver como Raquel reage, prossegue: — Bom, minha sogra e meu sogro podem ir no lugar, se quiserem. Seria uma longa viagem. No caso dos dois, acredito que poderiam prolongar. Faço questão de cobrir todos os gastos. Não precisam de pressa para retornarem. Podem conhecer outros países, além dos programados. O que diz a minha sogra? — pergunta, ainda fixo em Raquel, que permanece intacta.

Sofia animada — Vou adorar fazer a viagem. — vira-se para a filha. — Falarei com seu pai, é claro que vamos fazer a viagem sim! Sempre foi um sonho meu, viajar, por vários países, sem hora de retorno. Seu pai nunca quis, dessa vez, ele terá que concordar. Será um desperdiço perder essa oportunidade, já que os dois não podem ir. Que pena, não é filha?

Custódio, sem deixar de olhar Raquel, que continua cabisbaixa. — Quem sabe podemos ir daqui alguns dias.

Sofia — Podemos nos encontrar depois. Podemos traçar uma rota, filha, assim, saberemos onde nos encontraremos depois.

Raquel — Melhor não, mãe! Quem sabe acontece outro imprevisto e não podemos ir.

Custódio balança a cabeça em gesto positivo. Raquel não se move da cadeira, nem mesmo quando a mãe vai embora, apenas toma um gole de leite, calmamente. — Não vai me dizer nada, Raquel? Não tem nada para me dizer?

Raquel — Podemos seguir viagem se quiser?

Custódio — Para quê? Para você continuar me tratando friamente como está? — Sem a reação dela, lamenta: — Pena, eu não ter conhecido Adalgisa antes que você. Seria mais agradável ela como esposa. Como amante você também seria uma negação. De graças a Deus, todos os dias, nascer em berço de ouro, e não uma pobre coitada, como a outra, que foi capaz de vender o próprio corpo para ajudar no sustento da família, pelo pai estar doente, sem poder trabalhar.

Raquel, em baixa voz, com um nó na garganta. — O primeiro erro não foi meu!

Custódio, ao perceber que a escrava prestava atenção na conversa, enquanto fazia os deveres, fica bravo: — Caia fora daqui! Não a quero mais dentro desta casa.

Mafalda — Quem vai fazer o serviço, patrão?

Raquel, surpresa, o olha.

Custódio — Minha esposa vai fazer tudo o que tiver que ser feito. A outra, com certeza, deve saber fazer todo o serviço doméstico muito bem.

Raquel não contem ás lágrimas.

Ao ver que a escrava continua a observá-los, Custódio grita: — O que ainda faz aqui parada? Não a mandei ir embora daqui!

Mafalda — Aonde eu vou patrão?

Custódio — Vá para a fábrica. Lá será mais útil, agora.

Mafalda ainda fixa Raquel antes de sair. Custódio pega as panelas, na prateleira, e colocou-as, na frente de Raquel. — Prepare o almoço. Volto mais tarde para almoçar.

Raquel seca os olhos encharcados e procura firmeza — Não pode fazer isso comigo!

Custódio deixava a cozinha, olha para trás, ameaça lhe dizer algo, muda de ideia e se afasta. No quarto, muito abalado, suspira profundo. Chuta, com violência as malas prontas viagem. Abre-as e esparrama as roupas pelo chão. Depois sai pela porta da sala.

Na cozinha, Raquel, olhos cheio d’água pega as panelas. Não queria mostrar fraqueza diante o marido, e se queima, quando mexe na madeira em brasa, no fogão a lenha. Chora, soprando as pontas dos dedos, para aliviar a dor. — Não vou perdoá-lo nunca. O primeiro erro não foi meu!

Ezequiel, ao surgir ao lado dela, intercomunica: — O erro também não é dele! Lembra-se de Roberto Lacerda?

Como se ouvisse a voz do anjo, Raquel se lembra do momento em que Roberto entra na sala, levando Custódio. Também recorda Custódio lhe dizer ser uma brincadeira de Roberto e pedir-lhe perdão.

Ezequiel – Quem ama perdoa. Quem reconhece o erro pede perdão.

O anjo espera, em silêncio, a reação dela, que sai à procura de Custódio. Fica desapontada, ao encontrar no quarto e ver a bagunça. Sem nada questionar, dobra os joelhos no chão, e, sem pressa, recolhe as roupas.

Custódio, ao entrar no escritório da fábrica pergunta para Roberto. — Quanto pagou a ela?

Roberto surpreso, não esperava vê-lo tão cedo — Você não viajou com a sua esposa? Não viajaram em lua de mel?

Custódio — Responda a pergunta que lhe fiz.

Roberto solta risos, maliciosos: — O presente perderá o valor, se eu dizer o preço.

Custódio — Quero saber se o valor compensou o presente.

Roberto brica — Admite! Você amou o presente que lhe dei. E que presente…! Acertei não foi?

Custódio — Você sabe que me apaixonei por Raquel no primeiro momento em que a vi. Desejava me casar com ela, construir uma família, ser feliz.

Roberto — Espere, aí, antes de me acusar, fica sabendo que foi uma brincadeira da minha parte. Uma festa de despedida de solteiro que fiz a você. Falei que não precisava ficar mais que meia hora com Adalgisa, lembra? E o que foi que você fez? Será que preciso dizer tudo para refrescar a sua memória? Gastei uma grana preta nessa brincadeira, fiz o que fiz por ser meu amigo irmão. Não faria essa loucura a outro…. Tenho esposa, filhos para sustentar. — sorri — Mas se quiser se livrar do presente está em tempo, aceito devolução. Em pouco tempo, Adalgisa me devolverá em dobro o que paguei a ela.

Custódio — Um presente, que pelo jeito eu também vou pagar caro.

Roberto rindo — Vamos falar a verdade. O que você fez com Raquel não merece perdão! Eu estou chocado e imagina ela. Se você gostou tanto da outra, dissesse não, na hora do sim, ou, não aparecesse na igreja. Teria sido justo com Raquel. Nunca vi um noivo se atrasar tanto. Noiva é normal, mas noivo…

Custódio — Aquela garota colocou drogas na minha bebida. Acordei na hora marcada do casamento. Pensei que não encontraria Raquel na igreja me esperando.

Roberto, surpreso — Drogas!!? O que está dizendo? Explica essa história direito!

Custódio, sério, o encara. Roberto se expressa — Não me olhe assim. Sei que não tenho boa fama, mas eu juro — beija os dedos cruzados — Por tudo que é sagrado, que jamais prejudicaria a sua felicidade com Raquel. Se a outra colocou drogas na sua bebida eu não tenho nada ver com isso. — Custódio ameaça ir embora — Espere? Ainda pretende viajar com Raquel em lua de mel, ou, vai tomar posse do que é seu? Olha que eu estava tomando gosto, com a ideia de trabalhar no seu lugar. Depois de uma vida inteira parado, sem muito que fazer, não é ruim ser dono de uma fábrica inteira, pelo menos por um dia, caso querer o seu cargo de volta. Quer um sócio? Posso pagar minha parte, na sociedade, com meu trabalho. — e rindo — O que me diz? Prometo não decepcioná-lo. Cuidarei de tudo direitinho sem que você precise se preocupar. Pode ficar numa boa, cuidando apenas das mulheres lindas que você tem, pelo resto da vida. Viu como sou um ótimo amigo. Acabei arrancando de você um sorriso.

Custódio — Não sei, onde estava com a cabeça, quando me tornei seu amigo. Você não vale nada! Pode continuar no meu lugar até segunda ordem, como iria ficar. Vou tentar consertar minha vida com as duas mulheres lindas que você colocou no meu caminho, antes que elas me levam direto para o inferno.

Roberto — Isso quer dizer que Raquel não o perdoou?

Custódio nada diz. Prefere ir embora. Quando chega em casa, encontra Raquel perdida com as panelas. Ela não lhe dá confiança, e se apressa com a salada, enquanto ele, tenso, pega uma bebida, na garrafa, encima da mesa, puxa a cadeira, senta e pede que Raquel lhe sirva.

Raquel suspira de leve, se sentindo humilhada, mesmo assim, coloca arroz, feijão, batatas e carne no prato, colocando diante a ele que olha seriamente o alimento, mexe o arroz, um grude, os feijões crus, a carne crua e as batatas queimadas. Na salada uma lagartinha verde passeia livremente. Custódio também olha Raquel, que havia se afastado, indo lavar os talheres na bacia com água, ao lado. Ele volta ao alimento, tira com cuidado o inseto, colocando numa folha verde, na planta, do vaso, também encima da mesa. Raquel, ainda mexendo na água, nada percebe a gentileza dele com o bichinho.

Custódio — Você não vem almoçar?

Raquel — Almoço depois!

Custódio balança a cabeça afirmando, sem questionar a decisão dela. Pega arroz e o encara bem, antes de levá-lo na boca, e com esforço, engoli, com um pouco de água. Raquel que continua lavando as panelas, nada percebe. Ele se coloca de pé, e sai dizendo: — Vou comer em outro lugar.

Raquel fixa o prato feito, suspira, seca as mãos no avental, faz gestos negativos com a cabeça, procurando espantar a tensão que sente. Leva um pouco de arroz na boca, e corre indo cuspir no lixo, bebendo muita água. Desapontada, volta olhar o alimento, junta tudo em uma panela e sai no jardim, se aproximando do escravo, cuidando dos canteiros de rosas. De longe, estende-lhe a vasilha. — Coma isto! Não, não coma, apenas experimente. Sei que está horrível. Preciso saber o que está faltando.

Tião pega a vasilha, come um pouco do arroz e cuspi fora.

Ela insisti, com a demora dele, verificando cada um dos alimentos. — Diz logo, o que está faltando?

Tião — Não está faltando nada, madame.

Raquel — Como assim, não está faltando nada?! Experimentei. Está horrível. Não sei o que está faltando. Nunca cozinhei nada. Não sei fazer se quer uma omelete, admito isso. Mas se você me disser o que está faltando, quem sabe…

Tião — Não está mesmo faltando nada, senhora. Está passando. O arroz passou no cozimento. Tem que colocar menos sal e menos água. Cozinhar o feijão um pouco mais e menos as batatas e a carne, assim não queimam.

Raquel — Menos sal, menos água! Cozinhar mais, cozinhar menos. Acho que entendi! Espero fazer melhor o jantar. — ameaça sair, volta: — Obrigada, pela explicação. Vou aprender a cozinhar. Mostrarei ao meu marido que isso não é humilhação para uma mulher — e se afasta de vez.

O escravo olha o arroz dentro da vasilha, desapontado coça o couro cabeludo.

Custódio, do estábulo, assiste tudo, sem que Raquel lhe vê. Ele se aproxima de Tião e lhe estende moedas: — Compra alguma coisa para comer. Se ingerir isso daí, com certeza vai morrer de indigestão.

Tião — Por que o patrão resolveu fazer isso com a vossa senhora? A Mafalda me contou, antes de ir para a fábrica.

Custódio, grosseiro, sem mais o riso estampado. — Não é da sua conta! E não mando você também para a fábrica e coloco Raquel para cuidar do jardim, porque quero que fique de olho nela. Se Raquel sair de casa ou receber visitas, me avise. — e se afasta.

Não demora, ele está sentado ao lado da mesa, na cozinha do bordel, diante o prato com massa e molho de tomates.

Adalgisa, querendo agradá-lo. — É meu prato predileto. Espero que também goste. — e senta ao lado, para lhe fazer companhia. Os olhos vibram, quase o devorando, ansiosa, esperando a resposta.

Custódio experimenta e saboreia. — Como pode ser tão perfeita?

Adalgisa morde os lábios delicadamente, enquanto pensa numa boa explicação que pudesse pressioná-lo ainda mais. — O que diria, se eu lhe dissesse que me apaixonei por você desde o primeiro momento?

Custódio fita-a aos olhos, enquanto engole, sem pressa, o alimento, depois pergunta: — Quer ser minha esposa?

Adalgisa se espanta — Esposa??! Claro que isso é brincadeira. Você tem esposa. O que vai fazer com Raquel? Melhor, o que dirá ela quando souber disso?

Custódio — Nada! Raquel não tem que dizer nada. Faço da minha vida o que bem entender. Mulher nenhuma manda em mim, e o que acontecer de agora para frente, entre nós dois, será da minha maneira. Para começar, não quero que fale o nome de Raquel comigo. Está bem assim?

Adalgisa, — Desculpe! — E sorrindo — Quanto eu ser sua esposa o que significa? Que vai me dar uma casa bem grande, linda, com muitos quartos, jardins, etc, etc?

Custódio — Para que quer uma casa grande?

Adalgisa — Filhos! Como boa esposa quero lhe dar filhos. Ou, você nunca pensou em ter uma porção de pirralhos lhe chamando de pai? — coloca a não no abdômen. — Quem sabe já tem um a caminho. Não tomei precaução.

Custódio, fixa ela seriamente, enquanto se lembra de suas palavras falando com Raquel a respeito do filho que poderia ter deixado dentro dela. — Filhos… — indaga, concordando: — Sim! Quero que você me dê muitos filhos. Vai ser bom, se tiver um dentro de você. Amanhã de manhã vamos procurar a casa que você quer. Do jeito que você quiser, e onde quiser. Está bem assim?

Adalgisa corre e senta no colo dele, e lhe dá beijinhos, apressados. — Vou fazer de você o homem mais feliz deste mundo. Recompensarei com amor e muitos filhos. O quanto você desejar.

Custódio tira do bolso do casaco uma joia, e estende a ela: — O que diz disso? Comprei de presente para Raquel. Iria entregar depois do nosso casamento.

Adalgisa — Você pediu para não falarmos nela. Então, não vamos falar. — Pega a joia com satisfação. — É linda! É maravilhosa! Nunca vi uma dessa antes. Deve custar uma fortuna. — e quer colocar no pescoço.

Custódio ajuda. Ao se virar para ele, ainda segurando os longos cabelos no alto da cabeça, como Raquel, Custódio imagina ser ela diante de seus olhos, e murmura, querendo beijá-la na boca: — Amo você, Raquel! Eu a quero para mim. — Totalmente constrangida, Adalgisa se afasta para trás, soltando os cabelos… — Desculpe? — E totalmente acanhado, ameaça ir embora.

Adalgisa o impede: — Tudo bem! Tudo bem! — repete em alegria. — Vamos fazer de conta que não aconteceu nada. — e toca na joia, pendurada no pescoço. — É lindo o presente. Amei! — e o abraça pelo pescoço, sussurrando em seus ouvidos. — Não importo que ame Raquel. O importante que está aqui comigo e será todo meu. — e beija-o na boca, com a intenção de mantê-lo ali.

Custódio fica paralisado, pensativo, tão concentrado, que ela percebe. — Quero fazê-lo feliz. Tudo que quero.

Ouvindo conversas na sala, ele puxa-a, pela mão. — Vamos embora daqui. Não mais quero vê-la dentro desta casa. — e saem pela porta do fundo. Passam o resto do dia e a noite numa pensão. No amanhecer, andam pela cidade a procura da nova moradia. Ela escolhe, e o beija satisfeito, ao constar seu nome na escritura.

Ezequiel surgi, observando a felicidade dela, e depois desaparece, surgindo ao lado de Raquel. Sentada ao lado da mesa, ela chora, em silêncio, se sentia sozinha, sem notícias dos pais e de Custódio que não retorna.

Raquel disfarça a tristeza quando Tião aparece na porta. Ela lhe serve com a refeição preparada para o jantar. Na cama, entristecida e frágil, observa o lugar de Custódio vazio, e lamenta pelo que acontecia em sua vida que mudará totalmente após o casamento.

Ezequiel, disposto em ajudar, apaga a vela acesa, na mesinha, no canto do quarto.

Raquel, assustada, rapidamente acende. — Vou ser forte! Juro que serei forte! Não me entregarei a tristeza, nunca! — seca o rosto molhado, volta para a cama, pega o travesseiro que seria dele e aperta entre os braços, e procura dormir.

No outro dia, no jardim, Tião pega moedas oferecidas por Mafalda. Ezequiel se aproxima dele e lhe diz: — Ontem, você elogiou a refeição de Raquel. Disse que está melhor a cada dia. Manda esse recado para o seu patrão. Quero ver qual será a reação dele, quando souber que Raquel é determinada.

Tião, como se ouvisse as palavras do anjo, devolve as moedas para Mafalda. — Entregue de volta para o patrão. Diz a ele que não precisa mais. A madame está cozinhando muito bem. — aponta Mafalda — Ela está cozinhando melhor que você.

Mafalda — Você sempre elogiou meus pratos. Muitas vezes, lambeu os dedos e os lábios também.

Tião dá de ombros. — Você não está aqui para cozinhar pra mim, então, devo elogiar a comida da madame, que está muito boa mesmo. Ela está cozinhando melhor que a dona da pensão, onde busquei comida pronta todos esses dias. A madame está se tornando uma cozinheira profissional. Pode abrir um restaurante que vai se sair muito bem. E, bom, a sua também é boa, não vou desprezar. Não quero te ver de birra comigo. Está melhor assim?

Mafalda vai saindo de mansinho. Tião puxa-a pela cintura. — Tem uma coisa que nunca vou poder elogiar a madame. — e beija-a no pescoço. — Estou sentindo falta do seu aconchego, durante a noite, na minha cama. Nessa briga do patrão com a madame levamos a pior, ficando longe um do outro. Dá um pulinho aqui está noite. Vem dormir na minha cama. Ou, podemos ir agora para o quartinho.

Mafalda — Agora, nem pensar! O patrão pediu que eu não demore — faz um charme. — Quem sabe, até a noite penso melhor no assusto.

Tião — Não mereço nem se quer um beijinho.

Mafalda vira-se rápido para trás, estalando os lábios nos dele, fica envergonhada em ver Raquel. — Desculpe, madame. — aponta o escravo, também envergonhado. — A culpa é do Tião, já era para mim ter voltado para fábrica. — Ameaça ir embora, volta — A Madame está bem? Sempre, quando venho trazer moedas para o Tião, não a vejo, está dentro da casa.

Raquel — Saí para dar uma volta, de repente me senti sufocada dentro de casa.

Ezequiel ali, ouvindo a conversa, olha para trás. O de…, da discórdia…, se alegra quando Mafalda elogia Raquel. — A madame está magra, elegante, como sempre. A outra também é bonita, mas não chega nem aos pés da senhora.

Raquel — Então, você conhece a outra? — faz um gesto qualquer com as mãos. — Bobagem minha, se está falando dela, claro que a conhece.

Custódio — O patrão quem me pediu, outro dia, para levar compras, na casa dela.

Raquel — Casa dela!?

Custódio — Na casa que o patrão comprou para ela.

O de…, da discórdia, satisfeito desaparece, quando Tião pega Mafalda pelo braço, interferindo na conversa. — Mafalda, você não disse que o patrão pediu para não demorar. Está demorando por quê? Vai embora e para de fazer fofocas.

Mafalda ainda fala com Raquel. — A madame me desculpe, mas isso estava entalado na minha garganta. Não é justo o que faz o patrão com a senhora. Que tem o direto de saber da verdade.

Raquel, muito abalada, agradece: — Obrigada. E agora me diz outra coisa, seu patrão está morando com ela?

Mafalda — A madame quer mesmo saber da verdade?

Raquel — Já tenho sua resposta, obrigada. — e sai.

Tião, ainda segurando o braço de Mafalda, fica bravo. — Viu o que você fez, Mafalda? Não basta o que a madame está passando, e ainda faz intrigas.

Mafalda — Não acho justo a madame ficar se esforçando, fazendo a obrigação que era minha, enquanto a outra tem duas de mim, fazendo os deveres da casa.

Tião — O que você vai ganhar fazendo fofocas da outra com a madame? Devia ter mordido a língua em vez de querer piorar a situação dela com o patrão. Espero que isso não venha sobrar ainda mais a nós dois. Ou, acha que o patrão vai gostar de saber o que você fez? Não tem nada de mais ele ter duas mulheres. Ele pode ter quantas mulheres quiser, nem eu e nem você tem com isso.

Tião — Vocês homens acham tudo normal. O homem pode ter quantas mulheres quiser, e a esposa tem que engolir sapos. Arrume outra, e você vai ver quem é que vai engolir sapos. Nunca mais deixo tocar em mim… Eu, no lugar da madame, não estaria aqui. Teria voltado para a casa do meu pai, no mesmo dia.

Tião rindo — Quem ama perdoa. Se a madame prefere ficar é porque ama o patrão, e tem esperança de um dia tudo acabar bem entre eles.

Mafalda — Então, eu não te amo tanto assim! Não te perdoaria mesmo. — e saia.

Tião que ainda ri — Não esqueça que te espero á noite. Não vai faltar, se não arrumo outra também. Faço igual o patrão. Afinal, sou de carne e osso.

Mafalda, já sai na rua, olha para trás e mostra a língua.

Tião — Pra mim, só existi você na minha vida, nega. Te amo. — e joga um beijo, beijando as pontas dos dedos.

Mafalda acaba rindo.

Assim que chega na fábrica, devolve as moedas para Custódio, que não acredita: — Raquel, aprendeu a cozinha? Duvido! Tenho que ver para crer. Melhor, sentir o paladar para acreditar, mas não me atrevo, nunca mais. Ainda sinto o gosto horrível do que ela preparou no primeiro dia. Não me curei do trauma. Não consigo comer arroz.

Mafalda — Raquel é uma madame, patrão. Ela nasceu para ser servida e não para servir.

Custódio olha com espanto para a escrava, e repeti as palavras. — Raquel nasceu para ser servida e não para servir. Vou anotar essa sua frase na minha memória, quem sabe assim, começo mudar o meu comportamento com ela, quando for lá, para saber como ela está vivendo, sozinha naquela casa. Raquel sempre viveu em meio ás bajulações. Confesso, ela está me surpreendendo. Não pensei que fosse conseguir. Pensei que entregaria os pontos nos primeiros dias. Pediria socorro a mim.

Mafalda — A madame deve estar querendo provar que é capaz de tudo pela felicidade dela.

Custódio pensa antes de responder: — Quero ver onde ela é capaz de chegar. Agora volte ao trabalho. Já perdeu tempo de mais conversando comigo.

Mafalda vai para o barracão, enrolar charutos. Custódio matuta, pensando em Raquel. Os olhos brilham quando lembra o momento em que a conheceu. Raquel estava linda, bem vestida, elegante e o sorriso acanhado se tornou mais belo, o rosto corado, quando ele a elogia dizendo que a beleza dela lhe preenchia os olhos.

Custódio sente tristeza — Não era para ser assim, Raquel! Não era para ser assim! E você é mais forte do que eu podia imaginar, e se eu ir além, tenho impressão que vai preferir morrer de fome do que me pedir arrego. — Sorri com os olhos ganhando brilhos. — Você é uma mulher surpreendente. Encantadora e de única opinião, como eu. Vai ver, foi por isso que o destino resolveu nos colocar frente a frente. O amor entre nós será um grande desafio. — Suspira profundo. — Não quero apenas ver você, Raquel. Quero viver com você o maior amor do mundo.

Ezequiel ali, todo o tempo — Faça realizar seus desejos. Enfrente o que pede seu coração. Você e Raquel, juntos, cultivaram a flor da vida. Fizeram desabrochar o mais puro sentimentos do amor e se tornaram apenas um para viverem de corpo e alma um eterno amor. E o puro sentimento traz a verdadeira felicidade… Perdoar é fácil. O difícil é admitir o erro e pedir perdão… Todo o amor verdadeiro tem suas provações, e as tentações existem, elas fazem parte de um todo, e se manifesta para que o amor, o perdão prevaleça. O certo e o errado fazem partes do saber e querer. Basta ouvir a voz do íntimo da alma e do coração, assim enfrentará, com firmeza, as tribulações.

Custódio levanta, anda de um lado para o outro. As palavras de Raquel lhe dizendo não ser dela o primeiro erro volta lhe a mente. Em passos largos ele passa pelo barracão, onde escravos trabalham. No celeiro, monta no cavalo e sai a galope.

Raquel, enquanto prepara o almoço, transtornada, entre ódio e tristeza, murmura com ela mesma: — Um dia ele vai voltar. Um dia Custódio vai aparecer e não vou perdoá-lo. Juro que não vou!

Ezequiel — Não faça juramentos, que poderá interromper o círculo de vida, entre as Almas Gêmeas. O amor deve prevalecer.

Raquel sente desespero. Tapa os ouvidos para não ouvir seu subconsciente. — Não vou perdoá-lo, nunca! Nem que ele me implore perdão de joelhos. Mesmo que chegasse agora eu iria. — Vendo Tião grita com ele. — O que está fazendo aí parado? Tem algo mais que queira me dizer do seu patrão?

Tião, muito desapontado — Mafalda não devia ter contado nada para a madame.

Raquel — Então, você sabia?

O escravo abaixa os olhos. Raquel envergonhada cobre o rosto com as mãos e chora. Tião se aproxima e sente pena da patroa. — Perdoe, madame? Como eu poderia falar nesse assunto com a senhora?

Raquel volta tapar os ouvidos. — Não me diz nada. Não quero ouvir a sua voz. Vá embora desta casa, você também. Quero ficar sozinha. Não preciso de ninguém. Não preciso de você comigo… — o olha — Você está aqui para quê? Para me vigiar? O seu patrão lhe deixou aqui para isso? — O escravo mira o chão, calado Raquel entende o gesto como sim. No armário pega um prato e coloca alimento. Despeja tudo em única panela e estende ao escravo que a observa. — Jogue no lixo o que não conseguir comer, ou guarde para comer durante o resto da sua vida, enquanto estiver aqui, ou, faça você mesmo a sua refeição a partir de hoje. Nada mais faço a ninguém. Faço apenas para mim, quando eu sentir fome. Quando eu achar que preciso comer… Vou fazer quando eu quiser… Como eu quiser… Ninguém manda em mim… Ninguém manda na minha vida e faço dela a partir de hoje o que bem entender. Agora vá embora. Desapareça você também. Não preciso de guarda me vigiando. — O escravo, sem pressa, pega a vasilha. Ameaça dizer algo. Raquel pega-o pelo braço, levando-o a saída, grita enlouquecida: — Pedi para ir embora. Não quero mais vê-lo dentro desta casa. Desapareça da minha frente. Da minha vida você também. Eu não preciso de você, eu não preciso de ninguém. Então, some daqui.

Tião, o primeiro ver Custódio entrar na cozinha. Ele fica tenso pela cena que presencia. Raquel solta o braço do escravo, seca, com as mãos, o rosto molhado de lágrimas, passando-as também pelos cabelos soltos, arrumando-os. Limpa melhor a face com um tecido que pega na mesa e fica de costas para os dois. Custódio faz um leve sinal com os olhos, para que o escravo sai. Raquel fica parada, com os olhos inquietos.

Custódio se aproxima. — Fiquei sabendo que você aprendeu a cozinhar. — e ri em deboches, passando as pontas dos dedos, tirando o pó do móvel, com telhas de arranhas no canto da parede. — Uma coisa boa você aprendeu. Isso que ouvir comentários. Não apreciei, então, não sei se é verdade. E vou lhe dar um ponto de consideração pelo seu esforço. — Limpa a ponta dos dedos no lenço que tira do bolso. — O chiqueiro onde meu pai conheceu minha mãe, com certeza, era mais limpo que está cozinha. — sorri novamente, enquanto a observava, e se sente um idiota, sem ela se manifestar. — Perdi o meu tempo vindo aqui. Pensei que encontraria pelo menos um almoço pronto, não almocei ainda.

Raquel olha as panelas vazias no fogão, e em voz mansa. — O escravo levou tudo que estava pronto. Na verdade, eu que pedi a ele que jogasse no lixo. Se eu soubesse que você fosse aparecer, pediria ao Tião que levasse o alimento para um chiqueiro, assim, serviria de alimentos aos porcos. Se o lugar onde seu pai conheceu a sua mãe era um chiqueiro, com certeza, sua mãe era tão porca quanto a mim.

Custódio se irrita — Veja como fala da minha mãe?

Raquel mira a mão dele lhe segurando o braço, e se mantem intacta, mesmo quando ele toca, com carinho a pele, com desejo de beijá-la, tanto que encosta os lábios aos dela. Raquel se move. Custódio se afasta para trás, para entre a soleira, e fica de costa — Me peça para ficar, Raquel. Caso contrário, não voltarei aqui nunca mais.

Raquel — Eu jamais serei a outra na sua vida. Nem que eu morra e nasça novamente.

Custódio encara-a. Não esperava a resposta. — Certo! Se você quer assim, assim será! — E num impulso sai definitivo. Raquel se deixa cair sentada na cadeira, frágil, chora.

Do lado de fora, Custódio para próximo ao cavalo. Venâncio o aguardava. O patrão foi perguntando: — Tem alguma coisa para me dizer? Espero que não seja a respeito do que aconteceu lá dentro.

Tião — Não senhor, mas é quê… — Breca as palavras, sem querer prosseguir a conversa.

Custódio — Diz logo, eu não tempo a perder.

Tião — É a respeito do vosso amigo Roberto Lacerda. E se eu não disser para o patrão, e depois o senhor saber que ele esteva aqui, vai sobrar para mim. O patrão me pediu pra avisar, caso aparecesse alguém.

Custódio estranha — O que Roberto veio fazer aqui?

Tião — O senhor Roberto veio procurar a madame.

Custódio — O que Roberto queria com Raquel?

Roberto, naquele instante, saia de um estabelecimento no centro da cidade, e para cumprimentando duas mocinhas e uma senhora. Lucilara (12), Tereza (20). Ele abraça as duas. A mulher, ele cumprimenta formalmente.

Lucilara — Viemos comprar um presente para o papai. Eu e Terezinha fizemos um bolo.

Roberto Lacerda — Aniversário do velho hoje. Não me lembrava disso. Bom, será que você poderia dar dois abraços nele? Um de você e outro meu? Posso comprar um presente, mas não quero que fale a ele que mandei. Combinado?

Joana — Por que não vai pessoalmente dar um abraço no seu pai, Roberto? Esse seria o melhor presente que você poderia dar a ele.

Roberto pensa, e fala com a irmã caçula: — Esquece o que falei, maninha. Tenho que ir. Um dia desses nos encontraremos de novo. — Monta no cavalo e sai.

Lucilara — Mamãe, por que meu irmão Roberto não gosta do papai?

Joana — Caso, seu irmão não gostasse dele, não iria lhe pedir que desse um abraço no pai, por ele. Não concorda comigo? E um dia, não importa quanto tempo vai passar, eles vão acabar se entendendo.

Roberto chega na fábrica, estranha vendo Custódio tomar o último gole de bebida, direto da garrafa. — O que aconteceu? E deve ser algo muito grave, nunca o vi tomando em serviço antes, ainda mais direto na garrafa.

Custódio sem se mover, responde em voz mole. Era a segunda garrafa. — Estou pensando nas palavras do seu pai, no dia em que conheci o senhor Afonso.

Roberto ri, levando na brincadeira. — Vai dar um abraço nele, hoje é aniversário do velho. — Antes que Custódio dissesse algo, um escravinho entra, entregando um bilhete para Roberto. Ele percorre os olhos nas entrelinhas e sai, falando com Custódio, que o segui com o olhar. — Tenho um assunto para resolver agora. Não volto mais aqui hoje. Até segunda. Tiau.

Custódio esfrega o rosto. Pega o pedido que Roberto deixou em cima da mesa. Balança a cabeça negando. Uma sombra negra se coloca ao lado dele, que bufa de ódio, enquanto pega outra garrafa de bebida. — Mato você, Roberto Lacerda. Juro que mato você, no dia em que chegar perto de Raquel novamente… Mato qualquer um que chegar perto dela. — Leva a garrafa na boca, mas recua, com a energia positiva de Ezequiel também surgindo do seu lado e a sombra negra se afasta. Custódio joga a garrafa contra a parede: — Você não vai acabar comigo, Raquel! Você não é mais forte que eu. Jamais vou me rebaixar para ter o seu amor… — e satisfeito completa: — Adalgisa vai me dar um filho. Quando esse filho chegar, tudo será diferente. Você ainda vai comer em minhas mãos, Raquel. Você não é mais forte que eu. Não é! — E chora desapontado ao se lembrar do pai. — Não sou como o senhor, meu pai! — e repeti, várias vezes. — Adalgisa vai me dar um filho. Ela vai me dar um filho. Ela tem que me dar um filho.

Ezequiel faz um gesto negativo com a cabeça, entra por um portal que se abre na parede e caminha pelo corredor chegando na casa dos mortos.

Cristovam examinava alguns pacientes, inconscientes, estirados nas macas enfileiradas no grande hospital celestial, ao vê-lo, se alegra aprovando a visita do anjo. Lado a lado, caminham em um jardim, Ezequiel explica o motivo de sua visita.

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NAVEGAR

  • O orgulho é todo meu de ter uma amiga como você. Grande abraço, Zezé!
    Que Deus a proteja sempre!

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