Estação medicina

VOCÊ ESTÁ LENDO

Capítulo 22

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 22

SANGUE QUENTE

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/QUARTO DE HÓSPEDE/NOITE

DO LADO DE FORA DO QUARTO

Goram respira ofegante de asco.

INTERIOR QUARTO

MATEUS – Fale baixo, seu velho. Você quer que a criadagem escute?

AKIKO – Quem mandou você ficar negando ajuda a mim? Você deve obediência mim porque além deu ser mais velho e exigir respeito, eu sei de muitos detalhes do seu segredinho.

MATEUS – Cala boca, seu velho miserável.

E tapa a boca do homem com força, depois pensa em enforca-lo. Akiko provoca.

AKIKO – Isso! Mate seu titio avô, mate. Quero pagar para ver como você vai escapar de novo? Não pensa que voltei para o Brasil sozinho, não. Tenho amigos que estão comigo em Sampa, basta um deslize seu e eles vão direto na polícia entregar todas as provas comprometedoras que eu tenho de você, do seu amante e desse seus criados mudos.

Mateus pula irado. Akiko nota uma sombra estranha do lado de fora da porta.

DO LADO DE FORA

Catarina percebe que Goram estava do lado de fora da porta espreitando.

CATARINA – Perdeu alguma coisa, seu Goram?

Ele leva um susto. Disfarça.

GORAM – Égua nossa! Goram ia perguntar para o Doutor Mateus, se meu caderno ficou lá em karape no escritório.

CATARINA (sério) – Vamos lá, não precisa incomodá-lo, eu levo você até lá, era só ter mandado me chamar.

Goram engole seco.

GORAM – Endy!

ESCRITÓRIO

Catarina acende a luz. Goram finge procurar, mexe nas poltronas.

GORAM – Ué, Por tupã! Onde será que Goram deixou?

Catarina desconfia.

GORAM – Leseira Baré, Goram não tá achando. Será que Doutor Mateus levou para outra tenda?

CATARINA – Se você quiser esperar, quando ele descer, peço para ele vir aqui.

GORAM – Não há necessidade, koerõ quando Goram voltar para aula, procuramos. Bom, mba’eichapa nde phayre.

CATARINA – Te acompanho até o portão. Vou pegar um guarda-chuva também porque a chuva está aumentando.

Quando eles estão a caminho do portão, percebe-se que alguém os espiona pela janela, era ninguém menos que Akiko. Está sozinho no quarto.

AKIKO – Será que era esse garoto? O que será que ele ouviu?

CENA 02/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROL/INTERIOR/SALA/NOITE

Carol observa pela janela de vidro que Guto está sentado no chão abraçado com os joelhos, encharcado pela chuva bem na porta de entrada.

CACAU – Isso que a Fabiana está fazendo não está certo!

Ela abre a porta, Guto levanta a face tremendo de frio e pingando água.

CACAU – Entre, entre. Deixe jeito você vai pegar um resfriado, garoto.

Gustavo se levanta meio sem jeito.

CACAU – Enxugue os pés aqui no tapete. Fica aqui vou pegar uma toalha para você.

Ela vai para dentro e instantes depois volta.

CACAU – Vamos, vamos. Enxugue-se.

Gustavo espirra.

CACAU – Veja só, já se resfriou. Depois você vem aqui na cozinha, vou preparar uma bebida quente para você.

Ele se enxuga e diz quando ela some.

GUTO – Essa sogrinha gostou de mim, pai!

CORTAR PARA:

CENA 03/SÃO PAULO/BEXIGA/POSTO DE GASOLINA/NOITE

José e Alexandre estão sentados num concreto alto um pouco afastado dos frentistas. O homem mais velho puxa o isqueiro e acende o cigarro.

ALEXANDRE – Você entendeu né? A Nossa batata tá esquentando, Mateus quer que demos um jeito depressa no velho.

JOSÉ – Eu nem sei como pude entrar nessa, que furada!

ALEXANDRE – E você não pensa que me arrependo também, tudo bem que eu não posso reclamar do meu emprego, tenho certeza de que dentro da minha profissão sou muito privilegiado, eu e minha família, temos nossa casa própria, convênio, viagem quando quisermos, sem chefe chato na orelha, mas isso tem um preço, tudo na vida tem o preço. 

JOSÉ – Eu me pergunto como pudemos fazer aquilo naquela noite, como pudemos…

LIGAR FLASHBACK

CENA 04/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/RUAS ATRÁS DA MANSÃO/NOITE.

LEGENDA: 2002…

Alexandre entra batendo a porta do carro.

ALEXANDRE – Tudo certo, eles acabaram de dormir.

José inseguro, respira fundo e abre o porta-luvas.

JOSÉ – Toma, pegue uma máscara!

ALEXANDRE – Você acha que tem necessidade disso?

JOSÉ – Claro que tem, as câmeras da mansão vão continuar gravando.

ALEXANDRE – Está bem.

José hesita um momento.

ALEXANDRE – Que foi? Não temos muito tempo.

JOSÉ – Você tá ligado que é um caminho sem volta.

ALEXANDRE – Claro que sim, mas vai ser rápido e depois vamos ter uma vida boa, parceiro. Mateus e Bernardo prometeram um futuro brilhante para gente.

JOSÉ – Será que isso vale duas vidas humanas?

ALEXANDRE – Se você não pisar neste acelerador, pode deixar que eu faço…

JOSÉ – Não, eu vou.

ALEXANDRE – Então vai logo.

José respira e pisa no acelerador, indo sentindo da mansão e consegue abrir o portão com o carro que já estava meio aberto, escancarando.

Bernardo aparece fingindo desespero na frente e como combinado, vemos pelas câmeras, Alexandre de máscara portando uma arma e o fazendo de refém, empurrando para dentro. José de máscara abre o porta-mala e retira as barras de ferro, indo para o interior da mansão.

SALA DE ESTAR

Mateus cochicha para os dois que passam.

MATEUS – Andem depressa, não temos muito tempo, o quarto é por aqui.

E indica com a mão o alto das escadas.

Bernardo(cochicha) – Nos façam de refém até o alto.

As câmeras da sala registram os dois sendo feito de refém e sendo levados escada acima.

BERNARDO(encena) – Me largue! Me largue!

MATEUS (encena) – O que vocês querem com a gente? Nos deixem em paz!

QUARTO DO CASAL

Não havia câmeras. O casal dormia na cama.

BERNARDO – Branquinho, nem acredito que vamos nos ver livre dos seus pais!

E eles se beijam.

Os homens altos entram de supetão, empurrando a porta. Giovane berra.

GIOVANE – PAI!

Orlando Moça se levanta assustado, quando José lhe confere a primeira contundência com a barra de ferro.

Eloá acorda assustada com os grunhidos de Orlando de socorro.

ELOÁ – O QUE TÁ ACONTECENDO? O QUE ESTÃO FAZENDO COM ELE? NÃO! PAREM!

Alexandre confere golpe de ferro contra a face da mulher que cai na cama urrando de dor e tenta se proteger com a mão, mas os golpes continuam contra seu crânio, Orlando cessa os sons. Close rápido no pequeno Giovane sujo de sangue desesperado, na sua boca a frauda que Mateus colocou para abafar seus gritos, o olhar do vilão era de euforia. Close nos braços de José manchados de sangue. Instantes depois, Eloá cessa os sons também.

BERNARDO – Estão mortos!

Mateus larga o irmão e pula hilariante no colo de Bernardo.

MATEUS – Agora poderemos viver nosso amor, ricos e milionários.

José ofegante pelo esforço, retira a máscara momentaneamente e Alexandre faz o mesmo.

Percebemos que José encara o cenário na cama e sente um remorso terrível, a situação se agrava quando seu olhar se encontra com o de Giovane que estava em lágrimas, desamparado.

DESLIGAR FLASHBACK

CENA 05/SÃO PAULO/BIXIGA/POSTO DE GASOLINA/NOITE

ALEXANDRE – Hey, cara, cara!

E o chacoalha. José se desperta de sua lembrança.

ALEXANDRE – Onde você estava, cara?

JOSÉ – É melhor eu nem dizer.

ALEXANDRE – Mas é isso, preciso voltar para mansão, Mateus deve combinar conosco os próximos passos em relação ao velho depois que conversar com Bernardo.

Ele pula do concreto para o chão.

JOSÉ– Não sei se vou participar disso.

ALEXANDRE – Como não sabe? Estamos em risco, precisamos fazer algo, não podemos ficar de braços cruzados.

JOSÉ – Eu prometi a mim mesmo que nunca mais faria isso na vida.

ALEXANDRE – Foda-se a sua promessa! Temos que fazer algo, para de noiar. Para de noiar. Entro em contato contigo de novo.

Eles se cumprimentam e Alexandre entra em seu carro. José o observa partir.

CORTAR PARA:

CENA 06/SÃO PAULO/BIXIGA/APARTAMENTO DE JOSÉ/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

SILÊNCIO.

Ouvimos o virar da maçaneta. José entra e fecha a porta. Larga-se no sofá e sozinho naquela escuridão começa a chorar baixinho. SOFRIMENTO. Close rápido, vemos que Marcela o observa compadecida, sem nada entender.

CENA 07/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/QUARTO DE SUZY/NOITE

SUZY – Minha nossa, então você quase foi assaltada?

GEORGE – Por um triz!

HELOÍSA – Eles pareciam que queriam…fazer outras coisas comigo também.

SUZY – Ai, que horror!

HELOÍSA – Se não fosse o George aparecer, nem saberia o que seria de mim.

GEORGE – Imagina.

Suzy nota que George está levemente interessado em Heloísa que está sem graça com a presença dele.

GEORGE – Bom, mas agora deu tudo certo, vou para meu plantão que amanhã depois que eu voltar dele e descansar, ainda vou dar aula em cursinho popular.

SUZY – Você dá aula em cursinho popular? Esses cursinhos pré-vestibular que ajudam as pessoas que não podem pagar a conquistarem a seus sonhos?

GEORGE – Exatamente!

HELOÍSA – Genial. Gente, eu sempre quis dar aula em cursinho, como é o trabalho, é voluntário? Só profissionais da área?

GEORGE – Sim, sim. Não, não. Tanto que eu dou aula de história do Brasil para eles, sempre fui apaixonado por política interna, sabem?

HELOÍSA – Vocês estão precisando de professores de Química? Eu sempre amei essa matéria!

GEORGE – Que coincidência, estamos sim, Geografia e Química!

HELOÍSA – Ah, então vocês não precisam mais se preocupar, pois já acharam uma professora!

George sorri.

GEORGE – Que demais!

SUZY – Ah, eu também fiquei com vontade de participar, sou mais das artes, vocês tem disciplina de história da arte?

GEORGE – Não. Mas nada que não possamos conversar nas nossas reuniões que são sempre abertas e ensinar. O Cursinho é dos alunos da nossa faculdade mesmo. Não funciona dentro do Campus porque com o diretor e reitor que temos, vocês já sabem, né? Mas é perto daqui, umas ruas para trás do Campus, numa casinha que alugamos com nossas feirinhas orgânicas e vaquinhas, existem alguns médicos que nos ajudam, professora Rita é uma delas.

Heloísa sente uma leve desconforto ao ouvir este nome. Suzy percebe.

GEORGE – Bom gente, deixa eu ir que o plantão do internato vai ser longo, segunda depois das aulas aparecem por lá, começamos às sete e vamos até às dez da noite.

SUZY – Se eu tiver alta até lá, pode deixar.

HELOÍSA – Uai, É claro que você terá alta até lá.

George as cumprimenta e sai

HELOÍSA – Esse George é tão legal, né?

Suzy olha meio enviesada e bem-humorada.

SUZY – Sim…ele é muito legal!

CENA 08/SÃO PAULO/BROOKLIN/APARTAMENTO DE UMBERTO/INTERIOR/COZINHA/NOITE

Instrumental melodramático. Big close-up nos olhos de Dandara. Close-up em suas mãos. Ela pega a jarra de suco na geladeira, deposita na mesa, pega um colher coloca ao lado, retira do casaco uma embalagem com pozinho meio corpuscular, lê-se: RATOL. Ela joga o conteúdo na jarra do suco de uma só vez e solubiliza, misturando bem. Close-up em sua face tremendo de medo, mas ao mesmo tempo com uma raiva determinada.

Ela joga a embalagem no lixo, lava a colher na pia, depois volta o suco para a porta da geladeira. Respira fundo. Caminha em direção a seu quarto, mas quando está saindo da cozinha. PARALISADA. Começa a chorar. Tenta continuar a andar para frente, mas não consegue. Volta correndo para geladeira em meio as lágrimas, pega a jarra e joga todo conteúdo no ralo da pia, liga a torneira deixando a água escorrer. OFEGANTE. Chora desesperada, abafando o choro.

DANDARA(V.O.) – Não! Eu não sou uma assassina, eu não sou uma assassina!

CENA 09/SÃO PAULO/VILA MARIANA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Goram chega exausto.

GORAM – Por tupã! Por tupã!

Themise que o aguardava dormindo no sofá acorda.

THEMISE – Goram! Goram!

GORAM – Eita Égua! Themise, tu está aí? Tava esperando Goram chegar?

THEMISE – Sim. Eu levantei da cama para comer uma fruta e acabei resolvendo te esperar, mas peguei no sono.

GORAM – Tu não sabe o que jehu?

THEMISE – Novidades? Eu também tenho Goram! Mas fala você primeiro.

GORAM – Goram nem lembrava mais que eu tinha um tio avô chamado Akiko, para Goram a geração dos meus ramõi já teriam partido, mas ele está vivo e o pior está jajapova com Mateus e Bernardo.

THEMISE – O quê? Seu tio avô está envolvido na morte de seus pais?

GORAM – Ani diretamente, pelo que Goram entendeu, mas como cúmplice. Ele chantageia o Mateus, Mateus o manteve fora do país por anos, bancando tuvy, mas parece que ele gastou tudo em cassino e teve que retornar para pedir mais dinheiro. E égua Nossa, tu não sabe da maior? Há’e sabe também quem foram os caras que executaram o serviço k’ya, há’e sabe quem foram os caras que macetaram o crânio de meus pais até a morte. (Diz isso com lágrima nos olhos)

THEMISE – Primo, eu vejo o seu sofrimento e não tem como não me solidarizar, mas eu acho que cada vez mais que você mexe nessa história, mais ela te domina. É um vespeiro!

GORAM – Não tem como Goram não mexer. O matira atual da mansão foi um desses caras, o outro eu preciso descobrir quem foi. Eu preciso fazer justiça pelos meus rus, a morte deles não pode passar impune, ani pode!

Themise fica um minuto de silêncio.

THEMISE – Tenho uma notícia não tão legal para te dar também. Bernardo esteve aqui!

GORAM – Como?

THEMISE – Ele veio aqui mais cedo para te procurar, inventou uma desculpa esfarrapada para minha mãe que abriu a porta, dizendo que queria ver apartamento para morar o prédio, mas estava na cara que ele estava te sondando. Mas ele viu Araponga, Araponga estava aqui, depois que ela voltou a falar com a família, minha mãe tem falado com ela sempre e chamou ela para fazer as unhas aqui, manicure já ia vir e não é que Bernardo descobriu que vocês são primos!

GORAM – Por Maira e Macuna-íra! Isso não podia acontecer ani podia acontecer!

THEMISE – Mas aconteceu, Goram. E agora ele sabe. Você precisa conseguir logo as provas que tanto precisa para incriminá-lo ou para afastá-lo do Mateus como você me disse, porque agora que ele sabe que sua prima é Araponga, se cavoucar o seu passado, pode descobrir que você foi adotado e mais que você se chama Giovane e era o cunhado que ele tentou matar.

GORAM – ANI! ISSO NÃO VAI ACONTECER! Eu não posso ter nadado tanto para morrer na praia! Goram precisa ficar mais na tocaia, redobrar a atenção com a sondagem dele. Goram está muito dança de rato e sapateado de catita! Talvez insistir com Pamela, tekoteve trazer a Pamela para o meu lado, eu sinto que ela tá presa a ele porque está chantageando. E se ela não quiser me ajudar, preciso separar ele de Araponga, nem que Goram precise contratar uma quenga para promover essa traição e Araponga flagrar! Marcela deve kuaa de alguém para fazer isso.

Themise sofre com a agitação de Goram.

GORAM – Não posso perder mais upérõ, eu preciso dar as próximas cartadas, custe o que custar.

Close-up em seu olhar determinado.

CENA 10/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Ao som de Pacato Cidadão, a capital paulista amanhece, vemos os camelôs de celulares, tablets e dvds lotados na 25 e cinco de março. Feirinhas de bairro por perto começando. Mercado Municipal abrindo as portas.

CENA 11/SÃO PAULO/SANTO AMARO/BURACO QUENTE/CASA DE PAMELA/INTERIOR/QUARTO DE PAMELA/MANHÃ

Vemos um espelho vazio, só com reflexo dos móveis do fundo, quando Pamela aparece acariciando o barrigão.

PAMELA – É filho, chegou o dia de ficarmos milionário! Você nem sabe o que a mãe pensa em fazer com este dinheiro, vou te dar uma vida de rei, bem diferente que eu tive.

Ela pega o celular em cima da cama e manda uma mensagem para Bernardo.

“Não esquece do nosso encontro de hoje, é tudo ou a sua derrota”

CORTAR PARA:

CENA 12/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/GARAGEM/MANHÃ

Bernardo desliga o carro e vê a mensagem de Pamela.

BERNARDO – É aí que você se engana, vagabunda, hoje é a sua derrota.

Ele liga para Caíque.

BERNARDO – Alô, Caíque, sim, exatamente. Quero que você chame novamente o seu amiguinho, mas desta vez não é para sequestrar, é para matar mesmo.

Close em sua face sedenta pelo acontecimento.

CORTE DESCONTINUO

INTERIOR/SALA DE ESTAR

Bernardo chega arrumando seu terno quando leva um susto ao ver Akiko descendo as escadas.

BERNARDO – AKIKO? VOCÊ AQUI?

AKIKO – Hellow, Bernardinho. Vim diretamente do inferno de Dante para fazer dos seus piores pesadelos, a sua realidade.

Bernardo se revolta incrédulo.

Mateus aparece saindo do escritório.

MATEUS – Ah, finalmente você apareceu. Iria te avisar da doce volta do meu titio.

BERNARDO – Isso não pode estar acontecendo. O que esse cara quer aqui, velho? Já não tava bom toda mordomia que estava tendo nos Estados Unidos?

MATEUS – Está, até que estava, mas ele torrou tudo em cassino clandestino.

AKIKO – Vícios. Todos temos os seus…

BERNARDO – Inacreditável!

Mateus faz sinal para ele ir até o escritório. Bernardo obedece, enquanto Akiko com uma bengala grita o nome de Catarina que aparece.

AKIKO – Você tinha que estar aqui, minha filha, plantada me esperando. Estou com fome, fez o mingau de avelã que te falei para preparar para mim.

CATARINA – As cozinheiras estão fazendo.

AKIKO – Como estão fazendo? Era para já estar pronto! Meu estômago está morrendo de fome, santa incompetência a de vocês hein? Sai da frente!

E se encaminha para cozinha.

ESCRITÓRIO

BERNARDO – O que vamos fazer com este cara? Como assim ele volta sem mais nem menos sem avisar?

MATEUS – Eu tive um troço alguns dias atrás quando ele me ligou dizendo que estava embarcando dentro de minutos. Ele vai ficar na nossa cola, ontem me ameaçou, dizendo que sabe que matamos o meu irmão também, que sabe quem são os nosso cúmplices, já mandei o Alexandre procurar o José, todos nós precisamos estar a par disso e decidimos o que vamos fazer com este homem. Mas ele está com parceiros na cidade, não podemos dar um passo em falso, ainda não é a hora de acabar com ele, precisamos trazer descobrir quem são esses parceiros, recuperar as provas e trazê-los para nosso lado.

BERNARDO – Que situação! Até quando isso vai durar?

MATEUS – Seria mais fácil mandar ele de volta para Nova York, mas ontem ele veio com um papinho que estava com saudades do Brasil, que quer passar uma temporada por aqui.

BERNARDO – E em meio a isso tudo, estamos brigados né?

Mateus abaixou a cabeça e virou as costas, olhando a janela.

MATEUS – Por sua culpa, que foi um estúpido comigo, quando eu pedi por mais dedicação a nossa relação.

Mateus cruzou os braços, mas Bernardo o puxou. Mateus ficou de frente para ele.

BERNARDO – Puxa vida, branquinho. Você sabe que eu gosto de você. Desculpa se eu não tenho me mostrado um bom marido, mas as minhas obrigações são tantas, tantos problemas.

MATEUS – Eu também tenho as minhas obrigações, Bernardo. Mas nem por isso deixo de pensar em nós, sinto que nossa relação já não é mais a mesma faz tempo, desde daquela traição com aquela franguinha, sinto que você mudou, tá diferente.

BERNARDO – Impressão sua, meu sentimento por você não mudou nada e me arrependo muito por ter te traído, mas eu juro, juro que não estou mais.

Mateus o contempla.

MATEUS – Eu gosto muito de você.

BERNARDO – Eu também gosto muito de você.

E eles se abraçaram trocando um beijo molhado.

MATEUS – Vamos lá para cima, estou com saudade do seu corpo.

BERNARDO – Eu também estou com saudade do seu.

E eles saíram meio que fazendo cócegas safadas um no outro.

CENA 13/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/COZINHA/MANHÃ

Goram toma a terceira caneca de café, seus olhos estão vermelhos de insônia, seu cabelo meio despenteado.

THEMISE – Nossa, vamos com calma aí, pode fazer mal para o seu estômago, você que é estudante de medicina, deveria saber disso.

GORAM – Goram ani conseguiu pregar os olhos a noite toda, eu tô muito preocupado com o rumo que as tembiasakue estão tomando, tô sentindo que Goram está perdendo o controle.

THEMISE – Se acalma, apegue-se ao concreto, ele ainda não sabe quem você é, ele tá desconfiado de que você não é uma boa pessoa, mas daí para afirmar que você é caçula dos caras que ele matou é um salto gigantesco.

GORAM – Ndaikuáa, porque aquele jejuka já deve ter se encontrado com Araponga e talvez se aberto com ela sobre suas desconfianças, Araponga como me odeia, deve ter falado para ele que não sou indígena de nascença, que fui adotado. Fico pensando que ele pode pota ir para Boa Vista e dar uma prensa nos meus pais ou ficar sondando por lá, embora eu nunca tenha falado para ninguém sobre meu passado, Iracema sabe onde me encontrou, Bernardo deve se lembrar onde me jogou no rio.

THEMISE – Hey! Você tá muito agitado! Por que ele iria querer ir até lá para sondar sua história, para isso ele teria que estar desconfiado de que você era o cunhado dele ou que você é uma pessoa muito perigosa, sei lá, não tem cabimento essa viagem, ele vai ficar por aqui, te sondando.

GORAM – Se Bernardo ficar aqui, Goram fica mais despreocupado, porque fora Themise, só Pamela e André sabem em detalhes da minha história.

THEMISE – Falando nisso, você vai até a casa dela convencer ela de novo?

GORAM – Goram precisa tentar, é a maneira mais limpa de afastar Araponga.

Instrumental explosivo. Focar em Goram bebendo mais um gole de café.

CENA 14/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/CORREDOR DE PSIQUIATRIA/MANHÃ

Heloísa e Marcela chegam no consultório e percebem que Eulália e Remo estão sendo atendidos. Boina que chega percebe a movimentação delas.

BOINA – Ouvindo atrás da porta, que feio hein?

Heloísa se cora.

MARCELA – Foi mal, Doutor. Mas estamos muito curiosas com o caso desta mulher, somos estudantes primeiranistas de medicina, ficamos sabendo que ela teve…

HELOÍSA – Discinesia!

MARCELA – Isso, aqueles movimentos loucos.

HELOÍSA – Descoordenados, irregulares e involuntários!

MARCELA – Isso mesmo amiga!

Boina sente de estimular as alunas.

BOINA – Exato e estão desconfiando da medicação que deram para ela.

HELOÍSA – Eu sabia! Ficam dopando os pacientes com transtornos mentais, vai acabar refletindo em áreas motoras!

Boina não gosta muito do jeito que ela fala. Rita aparece.

RITA – Olha quem eu encontro por aqui? Quanto tempo, meu amigo e o que essas primeiranistas lindas estão fazendo aqui?

Ela se sente culpada ao perceber que Heloísa não gostou da sua presença.

BOINA – Elas estão querendo entender o caso da minha mãe, estão suspeitando de psiquiatria, mas ontem ela começou a ter sintomas extrapiramidais intensos, com movimentos muito descoordenados, parece que foi feito da medicação.

RITA – Ela tá tomando muito antipsicótico de segunda geração?

BOINA – Acho que só quetiapina mesmo!

RITA – Nossa, mas por mais que ela tome esses inibidores dopaminérgicos não-seletivos, estranho ela desenvolver esses sintomas.

Instrumental de drama médico. Neste instante, Eulália sai acompanhada de Remo e Rita nota que os movimentos oculares da mulher estão lentificados, existem tremores em suas mãos e sua marcha está levemente em bloco.

RITA – Espere um momento, isso aqui não é uma psicopatologia, é parkisonismo!

Eulália para estacada. Remo olha para o filho que encara sério Rita. Heloísa e Marcela trocam olhares.

CENA 15/SÃO PAULO/PENHA/CASA DE ELEONOR/INTERIOR/QUARTO DE ANDRÉ/MANHÃ

André está frente a frente do espelho.

FLASHBACK RÁPIDO: Lembra-se de quando foi preso junto com Goram. Lembra dos primeiros dias de aula quando no restaurante universitário sofreu bullying de outro negro e se recorda do derramamento de suco em frente a Romeu e a um outro cara que estava junto dele.

SOFRIMENTO.

ANDRÉ – Como eu odeio ser negro. Ter essa pele oleosa, esse cheiro forte. Ser branco me daria tão mais oportunidade, talvez ele olhasse para mim.

André pega no celular e entra no instagram aberto de Romeu.

ANDRÉ – Será que peço para seguir?

Vê as fotos de Romeu com várias pessoas da atlética, todo mundo popular.

ANDRÉ – Eu queria ter esta vida! Queria andar com essas pessoas, ser reconhecido por todo mundo.

FLASHBACK RÁPIDO: Ele se recorda de na academia, ter se lembrado que o suplemento estava caro.

ANDRÉ – Preciso dar um jeito de comprar esses suplementos, se não, não vou sair do lugar. Quero ficar forte, gostoso, assim a minha cor da pele se torna menos importante. Quem não acha um negão atraente?

Ele volta para o espelho, vemos que está chorando, ele limpa suas lágrimas num gesto rápido.

ANDRÉ – E homem de verdade não pode chorar.

CENA 16/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROL/INTERIOR/COZINHA/MANHÃ

Carol termina de mexer num Nescau gelado que prepara para Gustavo sentado já a mesa e comendo bolo de fubá.

CACAU – Se alimenta depressa! Fabiana não pode nem imaginar que você esteve aqui.

GUTO – Eu agradeço muito, sogrinha. Você é muito divina mesmo, ontem tava malzaço, a senhora colocou um colchão para mim na sala, cobriu, travesseiro. Eu tava sem condições mesmo para voltar para casa.

Carol ri do jeito que o rapaz fala.

CACAU – Você é uma comédia, nem casou com minha filha e já tá chamando de sogra! Mas eu gostei de você, eu vi o quanto gosta da minha família pelo pouco tempo que te conheci, não sei porque estão brigados, Fabiana é turrona, mas tem um coração de manteiga, já já vão estar de boa de novo.

GUTO (ri) – Nós nunca estivemos completamente bem, agora que a marrentinha tava começando a ceder, ela me bloqueou do nada, pediu para sumir da vida dela.

CACAU – Eu tô sentindo ela muito estranha ultimamente, sinto que está me escondendo algo, mas acho que é algo passageiro, deve ser algo dela mesmo.

GUTO – Tomara!

CACAU – Bom, agora agiliza aí, porque se ela acordar.

Guto enfia o último pedaço de bolo e bebe o Nescau rápido.

GUTO – Pronto, terminei.

E sai se levantando, Carol acha graça no jeito malandro do rapaz.

CACAU – Essa juventude!

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/APARTAMENTO 12/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Suzy abre a porta e percebe que o apartamento está vazio. SOLIDÃO.

BANHEIRO

Ela acende a luz e fica diante o espelho, novamente suas feições femininas a incomodam, nota seus seios salientes por cima da roupa larga, depois olha para o chão e nota uma pequena mancha de sangue que não fora limpada em baixo da pia. Lágrimas escorrem pelos seus olhos.

SUZY – Eu preciso de ajuda.

QUARTO

Ela sobe em seu beliche e retira um cartão do bolso. Estava escrito : “CONSULTÓRIO PSICOLÓGICO POR-DO-SOL VILA MADALENA, DRA. LEOPOLDINA MADUREIRA”.

Ela liga para o telefone que estava junto. Suas mãos apertavam o celular com força.

SUZY – Alô, meu nome é Suzy e eu gostaria de agendar uma sessão de terapia com a Doutora Leopoldina.

CORTAR PARA:

CENA 18/SÃO PAULO/SANTO AMARO/BURACO QUENTE/CASA DA PAMELA/EXTERIOR/MANHÃ

Goram pede para o taxi aguardar um momento. Ele está na esquina do quarteirão que segue para casa de Pamela, quando está saindo do carro, percebe que Bernardo estaciona seu carro em frente à casa de Pamela.

PAMELA – Trouxe meus milhões?

BERNARDO – Na verdade estou indo ao banco agora buscar

PAMELA – Não foi isso que combinamos. Quero meu dinheiro!

BERNARDO – Vou buscar agora no banco, não acho certo trazer essa dinheirama aqui para você, você pode ser assaltada, é melhor te dar o dinheiro lá, daí podemos ir para alguma agência sua e você já colocar em conta.

PAMELA – Está bem, acho que isso faz sentido. Mas não venha com nenhuma gracinha, Bernardo. Nem pense em me sequestrar, por exemplo, tenho amigos do bairro que estão comigo.

BERNARDO – Claro, claro.

Instrumental explosivo. Bernardo abre a porta do carro e assim que Pamela entra, bate à porta.

Ao longe, Goram já dentro do carro, pede.

GORAM – Mudança de planos, cheraá, vamos seguir aquele carro.

Close em seu rosto determinado.

CENA 19/SÃO PAULO/TATUAPÉ/APARTAMENTO DE MEIRE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Meire está terminando de gravar seu vídeo junto com Caio para o canal deles.

MEIRE – Então gente, nós estamos muito felizes com esta notícia da gravidez, Caio tá louco para ser papai, não para de beijar minha barriga.

Caio sorri bobão na frente da câmera.

Toca a campainha.

MEIRE – Nossa, quem será?

Ela abre a porta.

MEIRE – RITA!

RITA – Parabéns, nova mamãe!

E traz um pacotão de presente para ela. Elas se abraçam. Meire corre na frente das câmeras.

MEIRE – Olha o que a doutora Rita me deu!

Ela abre o presente e revela.

MEIRE – O Primeiro macacãozinho. Há fraudas aqui também.

RITA – Como não sabemos se é menina, menino ou intersexo, pensei em comprar algo polissex, se bem que menino veste rosa e menina veste azul também.

MEIRE – Com certeza.

Eles desligam a câmera se despedindo.

CORTE DESCONTINUO.

Os três tomam café numa mesinha na sala mesmo.

RITA – Essa chipa de goiabada está maravilhosa.

MEIRE – Estou notando algo diferente em você também, amiga. Está mais alto astral, mais para cima.

RITA – Impressão sua, boba.

MEIRE – Ela não tá diferente, amor?

CAIO (que estava meio distraído) – Tá sim, bem diferente.

RITA – Bobagem!

MEIRE – Está sorrindo mais pelo canto da boca, eu diria que está apaixonada.

Rita se engasga, tossindo alto.

MEIRE – E pelo visto é isso mesmo.

Rita se recupera.

RITA – Não é nada disso.

MEIRE – Não negue, tem homem na parada que eu sei, só resta saber quem é.

Rita sorri de volta.

RITA – Você não tem jeito mesmo. Mas tem homem sim, um homem muito especial.

Meire a abraça.

MEIRE – OWN e quando é que vou conhecê-lo.

RITA – Isso, minha cara, só o destino sabe responder…

CORTAR PARA:

CENA 20/SÃO PAULO/MOEMA/BANCO/INTERIOR/TARDE

Bernardo telefona para Reinaldo.

BERNARDO – E então, tudo certo com a mulher? Ótimo! Pamela achou que tinha uma amiga a quem contar por aí, só não queria acreditar que todo ser humano é comprável. Agora posso dar prosseguimento a meu plano e você trate de ir para aquele lugar que combinamos.

Ele fecha uma mala de papel picado e se encaminha para o exterior.

EXTERIOR

Ele se vira numa rua do lado e vai em direção a seu carro. Pamela o aguarda.

PAMELA – Finalmente, você trouxe o meu dinheiro.

Bernardo aperta o botão do controle remoto do porta-mala que abre aos poucos, sem ela não perceber.

BERNARDO – Eu disse que podia confiar em mim.

Pamela recebe a mala, Bernardo sorri ao ver caíque saindo do porta-mala e preparando uma solução. A poucos metros, vemos Goram observando tudo inconformado dentro do táxi.

Pamela abre a mala e constata que só tem papel picado.

PAMELA – Mas que piada é essa? Você tá achando que tem alguma otária aqui?

BERNARDO (rindo, arqueando a sobrancelha) – Quem sabe?

Quando ela vai responder, Caíque a surpreende do lado de fora do carro e a dopa com clorofórmio, ela reluta, mas acaba inalando a substância e desmaiando.

BERNARDO – Pronto, agora ficou mais fácil. Entra no banco de trás Caíque, vamos nos desfazer dessa infeliz.

Instrumental explosivo. Bernardo entra e bate a porta do carro. Caíque faz o mesmo. Bernardo dá rápido a ré para depois poder arrancar o carro.

Segundos depois o táxi com Goram sai, indo atrás.

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/NEUROLOGIA/TARDE

Rita termina de examinar Eulália. Boina, Remo, Heloísa e Marcela assistem.

RITA – Fecha os olhos.

Eulália fecha e ela toca no ombro contralateral ao lado que está da idosa e Eulália pende quase caindo no chão. Remo troca olhares preocupados com o filho.

RITA – Pode abrir os olhos, agora segure as minhas mãos e fique na ponta dos pés e volta, fique na ponta dos pés e volta.

Eulália obedece, mas se desequilibra.

RITA – Por fim, tente marchar. Pés atrás do outro e tente andar em linha reta.

Eulália não consegue, além de andar mais lentamente, seus movimentos acabam sendo descoordenados.

EULÁLIA – Nossa, o que está acontecendo?

RITA – Acalme-se. Pode sentar.

BOINA – Então, Rita, o que ela tem?

RITA – É..com certeza há parkisonismo.

REMO – Minha mulher tem Parkinson?

MARCELA – E pensar que trataram ela com medicamentos antipsicótico, achando que ela tava doente da cabeça!

HELOÍSA – Mas isso é comum, pacientes com patologias neuropsíquicas sofrem com auto medicalização, quando não são dopados nas clínicas e hospitais. Não se busca uma intervenção alternativa, terapêutica, acolhedora, é socando remédio goela abaixo e a indústria farmacêutica lucra muito com isso.

RITA – Não é propriamente doença de Parkinson, doença de Parkinson é um tipo de Parkisionismo chamado de Idiopático, porque não se se sabe a causa, mas a causa pode ser infecciosa, heredo-degenerativa, atípica…

De repente, Eulália começa a chorar. Instrumental de drama médico.

EULÁLIA – O que eu tô fazendo aqui?

Rita que estava escrevendo, levanta a cabeça para ela.

EULÁLIA – Era para eu estar no casamento da Dinalva, minha mãe quer eu esteja no altar junto com Remo, meu grande amor.

REMO – O que você está dizendo amor? O Casamento de Dinalva foi há mais de 40 anos.

Rita se levanta estranhando aquelas manifestações.

EULÁLIA – Amor, é você? Nós não podemos nos atrasar, vamos se troque, precisamos ser os primeiros a estar na igreja!

REMO – O meu amor, o que está acontecendo com você?

RITA – Isso não pode ser doença de Parkinson, parece que… Eulália, você lembra daquela posição que falamos.

EULÁLIA – Desculpe, mas não me recordo da senhora, vai ao casamento de Dinalva também?

RITA – Parece Alzheimer, mas não há tempo para se desenvolver.

Ela começa a andar em círculos pelo local.

RITA – Talvez ela tenha sim manifestado a discinesia por conta do medicamento, ela está sensível a antipsicóticos, uma manifestação de discinesia tardia.

Ela corre para prontuário. Mexe, remexe. Heloísa e Marcela se aproximam da sua mesa.

RITA – Alucinações visuais recorrente detalhadas com crianças e duendes. Ilusões sistematizadas. Flutuação cognitiva e tudo isso simultâneo ao Parksonismo. Tudo parece se encaixar.

MARCELA – O que ela tem, Doutora?

RITA – Eu acho que já tenho um diagnóstico provável, algo intermediário entre Parkinson e Alzheimer, uma demência. Ela teve algum sintoma autônomo, Boina?

BOINA – Não que eu me… espere, ela tava tendo incontinência urinária, tanto que eu, comprei fraudas a ela.

RITA– É isso, só pode ser isso!

REMO – O quê, Doutora, fala, estão deixando todos nós ansiosos…

RITA – Eu vou pedir um exame específico para confirmar. Tomografia por emissão de Pósitron. Sei que a direção do hospital vai chiar, mas é crucial neste caso.

Close alternado nas pessoas tentando adivinhar o que estava acontecendo.

CENA 22/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/EXTERIOR/TARDE

Gustavo está sentado fumando um baseado, cabisbaixo, quando vemos um carro parar na estrada ao fundo, o vidro fumê desce, revela ser Eliane.

ELIANE – Eu sabia que ele iria estar assim com tudo que aconteceu. Vou descer aqui mesmo, Tadeu.

CORTE DESCONTINUO.

Ela caminha para perto dele, que a percebe.

GUTO – Você por aqui, gatinha?

ELIANE – Pois é, como pode perceber estou com roupa de ginástica, tive treino agora de pouco no basquete, resolvi caminhar um pouco, está uma tarde tão bonita, né?

GUTO – Pois é.

ELIANE – Mas você não parece nada bem. Aconteceu alguma coisa?

GUTO – Aconteceu sim, gatinha, tô malzaço com umas paradas, mas acho que é bobeira, sabe? Sempre tem gente que não valoriza muito a gente.

Ele fala isso com olhos mareados, Eliane percebe e se agacha perto dele, acariciando seus cabelos na nuca, embaixo do boné.

ELIANE – Como sei. Mas acho que temos que nos afastar de pessoas que não nos fazem bem.

GUTO – Exatamente. Nossa, que mãos de princesa, você tem hein? Tão levinhas.

ELIANE (se satisfaz) – Tá gostando é?

GUTO – Tô sim.

ELIANE – Quer tomar um chop no Bar do Esteto?

GUTO – Só se for agora.

Instrumental explosivo. Eliane sorri estridente.

CENA 23/SÃO PAULO/JD. AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/TARDE

Akiko está lendo um jornal quando Catarina passa.

AKIKO – Hey, Catarina. Psiu!

Ela vai em sua direção.

CATARINA – O que o senhor deseja, senhor Akiko?

AKIKO – Quero uma informação. Quem era aquele rapaz que estava aqui ontem?

CATARINA – Que estava tendo aula de inglês com Doutor Mateus? Era Goram!

AKIKO – Nossa que nome horroroso! Coitado deste menino. Eu vi que ele saiu daqui com você ontem bem depois de Mateus já ter subido, me deu a impressão de que ele estava nos ouvindo.

CATARINA – Eu não sei de nada não, seu Akiko.

O velhaco coloca uma nota de cinquenta reais no bolso dela.

AKIKO – Não sabe de nada mesmo?

Catarina fica sem graça e guarda o dinheiro.

Instrumental de mistério.

CATARINA – Ele estava ouvindo a conversa de vocês.

AKIKO – Eu sabia! Eu notei nele um jeito meio esquisito, ele já fez isso antes?

CATARINA – Isso eu realmente não sei.

AKIKO – Bom, mas obrigado pela informação, pode ir, vou contratar seu serviço, quero que fique de olho para mim, qualquer movimentação estranha deste rapaz, informe, porque de onde saiu esta nota, pode sair muitas outras.

Catarina piscou para ele.

AKIKO – Tô achando esquisito essa movimentação, ele é novo nesse nosso convívio, o que será que está buscando?

Close em Akiko mexendo no queixo, pensativo.

CENA 24/MAIRIPORÃ/ESTRADA DESERTA/FIM DE TARDE

Bernardo para o carro, vemos que as rodas levantam um excesso de poeira pelo microclima árido. Ele abre a porta, tosse.

BERNARDO – Caíque, traz ela aqui!

O Capanga a arrasta para fora do carro e a deixa no chão em frente o carro. Seus olhos abrem, o efeito do clorofórmio vai passando.

Vemos que um carro que estaciona, Bernardo sorri ao ver Reinaldo.

PAMELA – Onde estou? O que vão fazer comigo?

DESESPERADA. Bernardo se irrita.

BERNARDO – CALA ESSA BOCA!

E chuta a barriga dela.

PAMELA – NÃO!

Ele chuta novamente com força e Caíque vai no embalo.

PAMELA – PARA! É SEU FILHO QUE EU ESPERO!

BERNARDO – Eu nunca quis que você carregasse essa merda aí dentro!

PAMELA – Ai!

Ela começa a chorar. Põe a mão no vestido e percebe que ele está encharcado de sangue entre as pernas.

PAMELA – Não…Ai! Eu tô perdendo ele…Não!

BERNARDO – Ótimo! Menos mal…

PAMELA – MONSTRO!

Ela se desespera segurando as pernas em meio a quantidade excessiva de sangue que vaza pelo vestido. Pamela sofre. Bernardo assiste a tudo achando graça.

PAMELA – Meu filho…

Bernardo chuta com mais força a sua barriga.

PAMELA – PARAAAAAA!!!

BERNARDO – Pode chorar o quanto quiser, o leite da situção já derramou, você perdeu essa porra!

PAMELA – Como você pode ser tão mau caráter e monstruoso a ponto de matar o seu próprio filho?

Mostrar o desespero da mulher, mãos dela encharcada de sangue.

BERNARDO – Não se preocupe, seu sofrimento não irá durar muito tempo, porque seu dia termina aqui também.

PAMELA – Tem mais gente comigo nessa, você não é nem louco de fazer…

BERNARDO – Quem? A sua amada vizinha Gleisi? Ela já passou para nosso lado. Compramos ela.

Os olhos de Pamela se esbugalharam de pânico.

BERNARDO – Não adianta ficar assustada, como sempre, você confiou na pessoa errada, primeiro confiando em mim, achando que sua mãe tinha sumido por acaso, francamente, santa ingenuidade, você não serve nem para dar golpe nos outros. Aprenda uma coisa para que na próxima reencarnação você volte mais espertinha: todo ser humano é comprável, é corrupto. Sua amiga te trocou por míseros milhares, algo que você nem sequer cogitou dar a ela caso conseguisse os milhões.

Pamela o encara sofrendo com a perda do feto pela suas pernas.

BERNARDO – Você não sabe mexer com negócios, comprar as pessoas, isso é deprimente. Foi e está sendo tão fácil acabar com você.

Pamela o surpreende

PAMELA – É aí que você se engana, seu animal, seus dias estão contados, vão descobrir que matou os pais de Mateus.

Bernardo fica branco por ela saber desta informação.

BERNARDO – O que você tá dizendo?

PAMELA – Eu sei de tudo, eu sei o que vocês fizeram com o irmão mais novo do Mateus, vocês são dois criminosos, assassinos! Vocês vão começar a pagar muito em breve por tudo que fizeram…

BERNARDO – Cala essa boca, você não sabe…

PAMELA – Sei muito bem, tanto que sei, que vocês são muito idiotas também, porque o circo todo já está armado para sua queda e a queda dele, você pode fazer o que quiser, mas o seu fim está próximo, O SEU FIM ESTÁ PRÓXIMO!

Bernardo perde a paciência e chuta sua cara. Pamela cospe sangue.

PAMELA – COVARDE!

BERNARDO – Vamos acabar de uma vez por todas com ela.

E Bernardo, Caíque e Reinaldo começam espancar Pamela numa cena de carnificina.

A poucos metros, atrás de uma pedra, escondido pelo alto matagal, Goram observa tudo impotente, sente compaixão da mulher, grava tudo pelo celular.

GORAM – Pamela….Pamela.

Instrumental de congelamento.

FADE OUT.

CONTINUA…

Atenção: A Widcyber tem a autorização do autor para publicar este conteúdo.

cropped-wid-1.png

NAVEGAR

>
error: Este conteúdo é protegido! A cópia deste conteúdo não é autorizada em virtude da preservação de direitos autorais.
Rolar para o topo