capa Estação medicinaa (2)
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ESTAÇÃO MEDICINA

CAP 25

SEPARAÇÃO

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/FIM DA MANHÃ

Goram encara Bernardo com cinismo. Mateus volta a questionar Bernardo.

MATEUS – E então, o que você queria me dizer?

BERNARDO – O que eu tenho a te dizer?

Goram debocha disfarçadamente pelas costas de Mateus. Bernardo tremia.

MATEUS – Sim…

BERNARDO – Eu…queria te dizer que te amo muito e que nunca vou te largar.

E abraça Mateus meio amedrontado, o herdeiro retribui o abraço sem entender. Goram faz sinal para Bernardo que ele está ferrado (faz um sinal como se o pescoço dele estiver cortado).

MATEUS – Bom, mas vocês afinal estavam brigando?

GORAM – Égua! Imagina, Doutor Mateus, Bernardo só estranhou o fato de Goram estar aqui, afinal não é sempre que estou aqui, não é mesmo Kuimba’e?

Bernardo percebe o tom de ironia.

MATEUS – Como não, Goram? Você sempre está aqui para as aulas de inglês.

GORAM – Leseira Baré, é verdade, mas talvez para seu Bernardo isso não seja uma verdade já que quando Goram vem aqui, quase sempre ele está capango o gato!

BERNARDO – Sim, estivemos brigados por um bom tempo, mas agora nos acertamos, não é amor?

MATEUS – Com certeza! Voltamos a ser um casal de verdade!

GORAM – Acho vocês tão ogegueroviay’vã, realmente parecem que nasceram um para o outro, espero que o destino ajude a tus a ficarem juntos para sempre.

Bernardo disfarça a raiva nos lábios.

MATEUS – Bom, vamos almoçar. Dá para sentir o cheiro do escondidinho de carne seca daqui! Vamos almoçar, Goram?

GORAM – Claro, Goram vai adorar! Só vou johei minha mão no lavabo e já apareço por lá.

Bernardo acompanha Mateus cabreiro olhando para a televisão.

NO LAVABO

Goram liga para Themise, contando aos risos tudo que aconteceu.

GORAM – Themise precisava ver a cara dele quando eu mostrei a ta’ãnga, Bernardo se cagou todo e ainda pedi para ele falar a Mateus o que ele tinha vindo falar, ele fraquejou feito lobo-guará na mata. É uma questão de tempo para eu botar esses dois atrás das grades!

CORREDOR

Akiko escutava tudo e balbucia.

AKIKO – Então Giovani está vivo! Mas que virada, quem podia imaginar? Eu preciso avisar Crisálida, ela precisa saber desta notícia urgentemente.

CORTAR PARA:

CENA 02/SÃO PAULO/SÉ/CLÍNICA DE ONCOLOGIA/INTERIOR/QUARTO DE GUILHERME/FIM DA MANHÃ

Fabiana confronta a mãe.

FABIANA – Eu ouvi bem? Esse homem abusou de você?

CACAU – Não foi bem isso, filha, eu…

FABIANA – Como não foi? Eu ouvi saindo da boca dele que ele fez isso contigo e você simplesmente deixou? Quando foi esse estupro? Como você namora um cara assim?

GUILHERME – Por favor, minha filha, deixe-me explicar…

FABIANA – Eu não sou sua filha e eu não sei o que você está fazendo na vida da minha mãe. Nenhuma mulher merece ser estuprada, isso é um verdadeiro absurdo! E você aqui quase todos os dias tentando ver como ele está! Será que você não tem um pingo de amor próprio?

CACAU – Minha filha, as coisas são mais complexas do que podem parecer, Guilherme está precisando de ajuda, você sabe da situação dele.

FABIANA – Eu sei da situação dele, o que eu não entendo, é como você pode passar um pano numa situação dessas e estar aqui? Isso não é um ato de compaixão, dona Carolina, isso é um ato de piedade. Como você pode se humilhar desse jeito?

E sai do quarto, correndo pelos corredores

CACAU – FABIANA! FABIANA!

Guilherme passa mal e vomita sangue junto com fezes. Instrumental drama médico.

CACAU – Minha nossa senhora da Aparecida!

Ela corre para apertar o botão de emergência. Não demora muito, alguns enfermeiros surgem na sala.

ENFERMEIRO – Ele está vomitando muito sangue, pode entrar em choque hipovolêmico!

Fade-out na face de Carol petrificada.

CENA 03/SÃO PAULO/CENTRO/BORDEL BOVARY/EXTERIOR/TARDE

Gilberto para o carro em frente ao Bordel.

GILBERTO – Chegamos, bonequinha! Tá em casa!

E beija molhadamente o pescoço de Giovana. Ela treme de asco.

GILBERTO – Logo mais a gente se vê de novo, isso aqui é por você ter ficado boazinha!

E coloca umas granas a mais entre os seios dela. Ela abre a porta do carro e ele bate em sua bunda.

GILBERTO – Gostosa!

Ela cambaleia com seus saltos altos assim que o carro parte. Sozinha ali na rua, ela retira o dinheiro do sutiã com força e joga no chão, pisoteando e gritando de raiva.

CORTAR BRUSCAMENTE PARA:

INTERIOR/SAGUÃO DE ENTRADA

Giovana caminha em silêncio pelo local com os olhos bem abertos e umedecidos, descalças, segurando os sapatos pelas mãos. Sobe o primeiro degrau da escada, quando deságua a chorar e cai sentada.

Larissa e Tiffany que estavam na cozinha, chegam correndo e percebem a amiga.

LARISSA – Ela chegou!

Elas sentam junto dela na escada e abraçam.

TIFFANY – Como foi lá? Ele te machucou?

Mas Giovana não conseguia dizer nada. Era apenas uma pré-adolescente de doze anos, agarrou aquelas irmãs mais velhas de profissão e chorava, chorava cada vez mais alto.

Não demorou muito para Bovary surgir no alto da escada.

BOVARY – Mas que porcaria é essa aqui? Para que esse chororô todo? Caceta! Minha casa virou velório por acaso?

Giovana ignora e continua a chorar.

BOVARY – Feda puta, pedi para você fechar essa matraca! Que isso?

Ela vê que a menina segura numa das mãos junto com o sapato, algumas notas.

BOVARY – Mais verdinhas? Passa essas notas para cá!

Giovana esconde a mão atrás das costas.

BOVARY – Meninaaaa, eu não tô brincando!

Ela desce as escada num tom brusco e Larissa e Tiffany entram na frente para impedi-la.

BOVARY – Saiam da frente! Esse dinheiro é meu!

E termina de descer as escadas.

LARISSA – Que seu o quê? Esse dinheiro é dela e nem chega perto de todo sofrimento que ela passou nesse dia na mão do seu cliente!

BOVARY – Que sofrimento o quê? Sexo dá prazer, ela deveria aprender a curtir macho, aqui não tem lugar para 44 não, ouviu?

TIFANNY – Não tô acreditando! Agora essa velha virou homofóbica?

LARISSA – Não sei qual a surpresa, Tifanny!

BOVARY – Podem me xingar desses nomes, moderninhos de vocês, quero esse dinheiro, ele é meu.

E avança para cima de Giovana, Larissa dá um empurrão que a Bovary vai ao chão.

BOVARY – Desgraçada! Vai me agredir agora, é? Então você vai ver o que é bom para tosse, vou acionar a segurança agora.

Mas antes que ela pense em ligar, Tifanny tapa a boca dela enquanto Larissa joga o celular longe.

LARISSA – Chega dessa palhaçada, ontem além de você ter sido uma verdadeira exploradora de menor, trancou a mim e Tiffany naquele porão fedorento por horas, saímos de lá com estômago roncando de fome! Pois é você que vai para lá, coruja velha!

Bovary começa a espernear, tenta morder a mão de Tifanny, mas as duas juntamente com Giovana levam a velha até o porão.

PORÃO

As três jogam a velha num local e amarram a boca dela com um pedaço de pano que estava no chão. Bovary tenta gritar, mas logo elas conseguem impedir. O Pano é um pouco longo, o que permite que elas a amarrem na perna de uma mesa pesada de madeira aos fundos

LARISSA– Quem vai ver o que é bom para tosse, é a senhora! Velha miserável!

E bate a porta que emperra, impedindo a passagem, deixando-a histérica lá dentro, debatendo e a mesa pouco tremendo.

CORREDOR

Ouve-se ruídos histéricos de Bovary

Elas assistem a cena em meio aos risos. Larissa e Tiffany abraçam a novata.

LARISSA – Vai ficar tudo bem! Eu te prometo!

E beija a testa da amiga. Giovana se sente acolhida.

CENA 04/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE JANTAR/TARDE

Goram com um sorriso debochado está sentado na mesa de frente para Bernardo, na cabeceira está Mateus e a poucos assentos está Akiko.

Bernardo meio enfurecido e amedrontado acaricia as mãos de Mateus que retribui. Goram irrompe o silêncio.

GORAM – Por tupã! Sabe que é tão porã ver o temiandu de vocês, é tão leve e ao mesmo tempo intenso, lembra muito o romance clássico de Hamlet.

Mateus se encanta com as palavras de Goram. Bernardo esbugalha os olhos num tom colérico. Akiko gargalha alto. Mateus não gosta do tom do tio avô, Bernardo percebe que ele entendeu o que estava acontecendo.

AKIKO – Eu concordo com o índio, o amor de vocês é tão lindo como nota de 3 reais!

Bernardo cerrou os punhos.

MATEUS – QUE?

Goram contempla risonho a fala do velhaco.

AKIKO – Um sentimento tão altivo, uma pena que sustentado com tantas contradições, mas isso vocês resolvem com o tempo, não é mesmo? Se conseguirem!

E olhou provocativo para Bernardo que o jogou um copo de suco e se levantou da mesa. Goram escondeu o riso.

GORAM – Pode deixar que Goram vai atrás dele, Doutor Mateus.

E saiu disparado atrás. A sós com o velho, Mateus proferiu.

MATEUS – Mas você é um miserável, mesmo. Consegue estragar tudo mesmo, não respeita um momento de paz.

AKIKO – É aí que você se engana meu sobrinho, não há como ter paz, com os bastidores em ebulição!

E solta uma risada coringa. Mateus ameaça jogar o seu suco nele.

NA ESCADA

Bernardo sobe a escada revoltado, quando Goram o alcança já alguns degraus acima e impede que ele continua.

GORAM (irônico) – E aí, cunhadinho, tu tá gostando do inferno em que Bernardo veio parar? Saiba que isso é apenas o começo!

BERNARDO – Maldito! Canalha! Você perdeu a completa noção do perigo! Esqueceu do que eu faço com as pessoas? Não me falta pouco para você ter o mesmo fim da empregadinha…

GORAM (O encarou firme nos olhos) – Goram não tem medo de você, aberração, entendeu?!Goram é da luta! Não esquece que quem está com as cartas na mesa, sou eu!

BERNARDO – Vamos ver por quanto tempo? E se tem alguma aberração nessa história toda, é você!

E tenta subir, mas Goram o impede.

BERNARDO – O que que é? Vai me impedir de subir para o meu quarto?!

GORAM(sarcástico) – Quarto de Bernardo?

BERNARDO – Sim, meu quarto. Por que eu não sei se você sabe? Eu moro aqui!

GORAM – Morava!

BERNARDO – Deixa de falar bobeira, demônio! Eu e seu irmão temos um relacionamento de anos!

GORAM – Tinha! A partir de agora tu não tem mais! Jejuka desgraçado!

BERNARDO – Como é que é? Você enlouqueceu de vez?

GORAM – Não. Goram está muito lúcido, quem está enlouquecendo aqui é tu, que insiste em me peitar sendo que eu posso acabar com a sua kove a qualquer momento.

A face de Bernardo se transforma.

GORAM – Ah que que é Bernardo? Só tu quer ser o bandido dessa tembiasakue? Deixa um pouco de vilania para mim, eu garanto que serei um excelente anti-herói!

Bernardo perde a paciência.

BERNARDO – É melhor você sair da minha frente, senão eu sou capaz de fazer uma besteira!

GORAM (Sarcástico) – Que besteira? Me bater e correr o risco de ser desmascarado? Você tá fumando numa quenga mesmo!(Ri alto). Ah Bernardo, nem Goram te subestimo tanto assim, sério que acredita mesmo que vai ser capaz disso? Seria um ato tão burro da sua parte, mas você conhece você mesmo melhor que ninguém, então quem sabe né, que Bernardo seja essa anta mesmo?!

Bernardo esmurra o corrimão e acaba ferindo a mão. Goram ri.

GORAM – Égua moleque, usando táticas psicoterapêuticas para canalizar sua raiva, isso mesmo! Um verdadeiro galala! Goram te disse, Bernardo não é tão toupeira assim!

Bernardo se volta para ele esbaforido e vermelho.

GORAM – Que foi gente, que cara feia é essa? Nem vem dizendo que é a sua de todo dia, porque geralmente ela é pior.

BERNARDO – Para de me atazanar, seu pirralho dos infernos!

GORAM – Pois é esse pirralho dos infernos que vai provocar a sua separação de nossas vidas para sempre! Te dou até o final do dia para romper o noivado com o jejuka de meu irmão!

BERNARDO – O Quê? Você só pode estar brincando!

GORAM – É para jokar a merda dessa relação de fachada, entendeu? Até porque convenhamos, estamos carecas de saber que você adora botar chifres por aí! Quero Bernardo longe das nossas vidas e nem reclama da minha decisão porque você estará de bucho cheio, vai poder sair pela okê da frente, com o mínimo de dignidade que ainda lhe cabe! E não esqueça (aponta para televisão), estou com muitas cópias da sua arte, curimim levado (vozinha de bebê)

E aperta a bochecha dele descendo as escadas, quase levando um soco na cara.

GORAM – Ui! Goram te ama tá, porã! Fica fumando numa quenga comigo não, é pelo bem da memória dos meus rus que você fez questão de mandar matar!

Goram sai piscando e mandando beijo para ele. Bernardo vai esmurrar novamente o corrimão agora sozinho, mas desiste.

CENA 05/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/EXTERIOR/TARDE

Guto chega da faculdade e estranha ao ouvir um homem gritando nos fundos do sobrado junto com latido. O jovem dá a volta pela lateral.

QUINTAL

Guto se depara ao atravessar o muro de margaridas com uma cena bizarra: O morado de rua Wallyson puxando um vira-lata, possivelmente seu cachorro que mordia ferozmente a canela de Dona Noz-Moscada. Mas o detalhe mais assombroso é que mesmo sendo ferida, a velhaca não parava de gargalhar. Instrumental de suspense crescente. Close na face do jovem totalmente petrificado. A cena se apagou.

CENA 06/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ANFITEATRO DE PROCEDIMENTOS DE ENFERMAGEM/CORREDOR/TARDE

Os alunos aguardavam serem chamados. Heloísa tremia acompanhada de Suzy, Marcela e Dandara. Uma monitora apareceu na porta.

MONITORA – Próxima dupla é Heloísa e Suzy. Podem entrar!!!

Heloísa deixou o estojo cair. Suzy abaixou para pegar.

MONITORA – Não precisa!

SUZY – Ah não? Falaram que tem prova teórica também!

MONITORA – A prova teórica é oral!

SUZY – Ah é? Então nem precisa Helô!

Heloísa levou um baque com a informação e concordou com a cabeça e tentou rapidamente colocar nas calças, apertando para caber.

INTERIOR DO ANFITEATRO.

Elas desceram as escadas junto com a monitora. A primeira fileira próximo ao centro onde estava a professora, uma monitora sentada segurava uma prancheta e outra de pé segurava uma caixinha.

DINORAH – Tudo certo?

A monitora que acompanhava as meninas acenou positivamente.

DINORAH – Então pode sortear!

A professora se voltou para a monitora que segurava a caixa aberta. A jovem sacudiu a caixa e retirou dois papéis.

MONITORA – Ministração de Adrenalina e colocação de luvas!

DINORAH – Pela ordem alfabética…

Monitora que as acompanhava respondeu.

MONITORA – Heloísa ficou com adrenalina na prova prática e na teoria com a colocação de luvas e Suzy o inverso.

DINORAH – Certo! Vamos começar com Heloísa!

A jovem estremeceu.

DINORAH – Jamily, anote tudo que ela errar, está bem?

Monitora que estava sentada acenou positivamente com a cabeça.

DINORAH – Vamos lá, então querida…

E se voltou para Heloísa pálida.

DINORAH – Me diga como eu devo receber e pegar uma luva?

Heloísa travou, não se recordava do que havia estudado.

HELOÍSA – Eu…

Nada saia. Dinorah repetiu a pergunta.

DINORAH – Vamos querida é muito simples, como eu devo pegar uma luva.

Heloísa ficou vermelha e seus olhos se encontraram os de Suzy que tentou fazer mímica para ela, mas uma das monitoras percebeu.

MONITORA – Não pode passar cola!

Dinorah olhou com um tom de reprovação a Suzy.

DINORAH – Espero que isso não se repita, se não tiro ponto das duas, vamos para a prática, quem sabe depois você não se recorda, não é mesmo?

Heloísa suava frio.

DINORAH – Ali adiante estão dispostos todos os materiais que vimos ao longo do mês, de todos os experimentos, você deve ir até lá, pegar todos os materiais necessários para se montar uma dose de adrenalina e depois você deve ir até a maquete e simular a aplicação, falando da qual a posição correta da agulha, qual tipo de agulha necessária, a dosagem correta para uma paciente com as descrições que estão na mesa da maquete e possíveis reações que podemos ter…

Heloísa fechou os olhos tentando controlar o tremor que a dominava cada vez mais segundo a segundo. Heloísa se aproximou e pegou uma agulha qualquer e uma frasco que pensou estar escrito adrenalina. Dinorah questionou.

DINORAH – Você vai usar isso para aplicar a adrenalina?

Heloísa nervosa se voltou para a mesa e se recordou da epinefrina auto injetável, pegou-a.

DINORAH – Ah, bom!

Heloísa devolveu e tava se afastando.

DINORAH – Espera! Sempre usamos apenas a caneta de epinefrina? Não há outra maneira?

Heloísa não se recordava. Balbuciou.

HELOÍSA – Não sei…

DINORAH – Que foi que você disse?

HELOÍSA – Nada.

DINORAH – Não tá legal essa prova, hein? Você tá pensando muito para fazer e falar as coisas…

Suzy não gostou daquela pressão desnecessária que estava sendo feita em cima de Heloísa.

HELOÍSA – Intravenosa?

DINORAH – Isso, vai lá e pega então os equipamentos para ministrar.

Heloísa pega uma seringa e Dinorah chama a atenção.

DINORAH – Não acha que essa seringa é muito pequena para ministrar um medicamento endovenosamente?

Heloísa olhou, viu que marcava 1 ml. Mas não se mexeu.

DINORAH – É de 3 ml para cima! No caso intravenosamente se deve ministrar várias doses, então o recomendado é uma seringa maior, pode ser a 10 ml ou 20 ml.

HELOÍSA – Entendi…

DINORAH – E quanto a agulha? Qual usamos neste caso e como deve ser a aplicação?

Heloísa olhou para Suzy que girou a cabeça lentamente para o lado para fazê-la se lembrar da angulação, mas ela errou.

HELOÍSA – 45 graus?

DINORAH – Não! 45 é na ampola subcutânea, a caneta que você pegou! No caso da aplicação intravenosa é 25º. Enfim, vamos para a prova prática!

Heloísa fechou os olhos e abaixou a cabeça num tom de mal-estar profundo, ao avistar no boneco a palavra asma brônquica, ela entrou em pânico.

HELOÍSA (V.O.) – Um paciente poderia estar morrendo de asma brônquica e eu não sei fazer, eu não sei como agir! Isso é imperícia! É negligência médica!

Ela berrou alto. Suzy se preocupou com a amiga, que passou que nem um foguete pelas monitoras e desatou a correr em surto de pânico subindo as escadas.

DINORAH – Mas o que está acontecendo aqui?!

Suzy foi atrás, face de preocupação e zelo.

CENA 07/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/QUADRA DE VOLEI/INTERIOR/BANHEIRO MASCULINO/TARDE

Os rapazes saem zoando um e outro e Vitor os cumprimenta, entrando no local.

VITOR – Beleza, Marquinhos! Theo!

Ele percebe que não há ninguém no banheiro e tem a liberdade para retirar sua roupa ali mesmo no corredor das cabines de chuveiros.

Quando ele percebe que está ficando mais fortinho e para na frente do espelho, nu, para bater fotos do seu corpo.

CORTAR PARA:

Miguel entra no banheiro.

MIGUEL – Devo ter deixado esse relógio cair em algum lugar!

Ele chega no corredor dos chuveiros e fica boquiaberto ao ver o amigo, que se vira surpreso e tapa a parte íntimas com a mão.

VITOR – Velho, eu não vi você entrar!

Miguel fica envergonhado e tampa os olhos

MIGUEL – Eu acabei esquecendo meu relógio.

Ele abre as cabines, uma a uma rapidamente meio trêmulo e não encontra o relógio.

MIGUEL – Puts, agora eu tenho a certeza que perdi mesmo!

Ele sai. Vitor grita.

VITOR – Me espera lá fora, vamos passar no bar do Esteto!

Mas Miguel não o ouviu.

PÁTIO CENTRAL DA QUADRA DE VOLEI

Miguel ainda constrangido para de correr, olha a sua volta até que seus olhos param em um ponto fixo.

CENA 08/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/INTERIOR/FIM DA TARDE

Fabiana chorava enquanto comia sentada numa mesa o prato da janta do dia já servida. Marcela que estava na fila identifica a cena e se aproxima.

MARCELA – Fabi, está tudo bem?

Ela abaixou a cabeça num tom de sofrimento e acenou negativamente.

MARCELA – Own, querida. O que está acontecendo?

Ela abraça amiga.

FABIANA – Minha mãe, Ma. Minha mãe…eu não sei como ela pode estar fazendo isso com ela mesma, é muito humilhante…

MARCELA – O que ela está fazendo com ela mesma?

FABIANA – Ela está cuidando de um homem que está a beira de um câncer terminal, que ela diz que é namorado dela, mas ele estuprou ela!

MARCELA – Como é? Me conta essa história direito!

FABIANA – É revoltante, eu fiquei sabendo disso hoje de manhã, saiu da boca dele e a minha mãe preocupada com ele e me levando junto. Estou muito decepcionada com ela, ela não toma iniciativa, é responsável também por tudo de abusivo que acontece na vida dela. Eu queria dar um tempo, sumir para ver se ela acorda. Sinceramente, Ma, eu queria muito te perguntar se você não consegue me ajudar…

MARCELA – Como posso te ajudar?

FABIANA – Me abriga na sua casa por alguns dias?

MARCELA – Abrigar?

FABIANA – Sim. Quero sumir, pensar sobre tudo…

MARCELA – Claro, pode ficar alguns dias lá em casa. Zé não há de se importar…

Fabiana abraçou Marcela. Neste instante, Suzy se aproximou.

SUZY – Gente, acabei de sair da prova de Enfermagem.

MARCELA – Deu tudo certo, então? A professora deixou você fazer de novo?

SUZY – Sim! Com aquela cara dela, mas sim. Só que estou preocupada com Helô, ela fugiu e não consegui acha-la. Pior que agora tenho psicoterapia, vou ter que dar uma corrida lá na Vila Madalena! Se vocês virem ela, vocês me dão um toque, por favor.

MARCELA – Pode deixar, Su! Avisamos sim.

SUZY – Valeu gente!

A japonesa agradeceu e saiu. Fabiana não entendeu.

FABIANA – O que aconteceu com Heloísa? Não estou sabendo!

MARCELA – Ela está tendo crises de pânico em relação as provas, está literalmente surtando…

FABIANA – Coitada.

CORTAR PARA:

CENA 09/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/ALA DE NEUROLOGIA/ENFERMARIA/ FIM DA TARDE

Vemos Dona Noz-Moscada rindo tomando soro já com curativo na perna enquanto longe, no corredor, Rita a observa próxima a Walysson e Guto.

RITA – Já está tomando amoxicilina com clavulanato para evitar infecções pela ferida, mas temos que observar este animal que a mordeu, se adoecer de raiva, ela precisa fazer a profilaxia antirrábica.

GUTO – Mano, que loucura! Como isso foi acontecer? Até agora tô brisando!

Rita riu da maneira dele falar.

WALYSSON – Eu fui pedir um prato de comida a ela, estava acompanhado de meu cachorro quando ela tentou me agredir com a vassoura, não deu outra, ele avançou para cima dela, ela correu e foi pega no jardim.

GUTO – Ela também é uma verdadeira bruxa!

RITA – O que me estranha é essa risada dela, parece possui alguma patologia mental.

GUTO – Eu nunca a vi assim, ela geralmente é bem rabugenta!

RITA – Estranho ela estar gargalhando num momento de sofrimento. Pode ser que ela tivesse transtornos de humor e não suspeitássemos e por algum motivo ela teve recidiva. Alguma coisa aconteceu nestes dias de incomum? Ela recebeu alguma notícia? Mostrou agitação? Mostrou-se estar delirando?

GUTO – Não que eu me lembre, se bem que alguns dias atrás de tarde, ela estava reclamando na recepção central sobre o ar-condicionado, que havia causado febre alta nela, que ela não tinha há tempos e descobriu isso quando o técnico veio verificar porque não estava ventilando e descobriu que a água não estava sendo filtrada e estava podre.

RITA – Ar-condicionado? Ela teve febre? Idosos geralmente não apresentam febre alta, são imunosenescentes!

GUTO – Foi o que ela disse!

RITA – A menos que…

Instrumental drama médico. Seus olhos rapidamente se voltam para dentro da enfermaria e se fixam em Noz-Moscada.

WALYSSON – A menos que o quê, Doutora?

RITA – A menos que ela tenha sido infectada por uma bactéria muito forte…Legionella!

GUTO – Legio, o quê…?

RITA – Pode ser que estamos diante de uma quadro de doença dos Legionários!

Guto troca olhares com o morador de rua sem entender. Fecha no rosto da médica trans.

CENA 10/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Anoitece na Capital Paulista ao som de João Gilberto em sua canção Desafinado.

CENA 11/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Bernardo desce as escadas em silêncio. Observe se não há ninguém na sala de estar.

BERNARDO – Ufa! Acho que aquele garoto já foi.

Ele leva um susto quando de relance Cecília salta no viveiro.

BERNARDO – Argh! Cobra maldita! A sua sorte é que eu não estou com a minha arma aqui, se não mandaria você para o inferno, na hora!

Do escuro do corredor da cozinha, uma sombra de revela.

AKIKO – Mas você se ferrou de vez desta vez, hein rapaz?

Bernardo leva outro susto.

BERNARDO – Sai de reto, assombração! Vai jogar comida para pombo, dama com os outros velhinhos gagás como você.

AKIKO – Eu prefiro deitar e rolar no dinheiro que você e meu sobrinho amado possuem depois do crime que vocês cometeram!

BERNARDO – Pois você deveria tomar cuidado, como deve ter percebido, eu não brinco em serviço.

AKIKO – Realmente, você não brinca! Com pessoas otárias! Por que com os espertos você não tem chance alguma, só olhar para a volta de Giovaninho, esse sim, me dá orgulho, sobreviveu as trevas!

BERNARDO – Você deveria ser um pouco mais inteligente, seu velho toupeira e pensar que daqui para ele descobrir que você ocultou isso da polícia é um pulo. Ou você acha que mantivemos tudo isso às escondidas sem a sua ajuda? Você é cúmplice de toda essa história!

AKIKO – Até parece, eu sou velho como você mesmo disse, falo que vocês me ameaçaram, quero ver vocês negarem, conseguirem provar o contrário…

BERNARDO – Existe algo chamado de presunção de inocência, todos são inocentes até que se prove o contrário, você teria que provar que te ameaçamos, como isso não será possível, vão suspeitar da nossa versão, que você nos chantageava e vão ver logo que isso é real, afinal sua conta bancária por anos foi sustentada com nossas generosas doações.

De repente a porta da sala de visita se abre e dela sai Mateus e Goram.

Bernardo se desespera.

MATEUS – Amor, você estava se saída?

BERNARDO – Eu…

Goram o encara risonho. Xeque-mate. Instrumental explosivo.

CENA 12/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROL/EXTERIOR/NOITE

Guto aperta a campainha. Cacau atende.

CAROL – Meu rapaz! Entre, entre! Me diga, você sabe onde está minha filha?

GUTO – Fabiana? Mas ela não está por aqui?

CAROL – Nós brigamos hoje cedo, ela foi para faculdade, mas até agora não voltou!

GUTO – Como assim, minha senhora?

CAROL – Minha nossa senhora de Aparecida, eu ligo para o celular dela e só dá caixa postal. Onde está essa menina, Meu Deus!

Guto tenta ligar novamente para Fabiana. Vemos que ele tentou 22 vezes no visor de seu celular. Mas ele não consegue.

GUTO – Algo deve ter acontecido para ela não ter voltado! Estou com minha moto aqui, vamos voltar para faculdade e procura-la, ela só pode estar por lá.

CAROL – Vou só pegar uma blusa…

E some no interior do corredor dos quartos. Desesperado, Guto tenta novamente ligar para a amada.

CENA 13/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ESTACIONAMENTO DO HOSPITAL/NOITE

Rita destrava seu carro com o controle remoto e guarda seu jaleco, Esteto e otoscópio no banco de trás quando sente um perfume impregnado nos bancos.

RITA – GORAM!

Ela acaricia o banco.

Ligar flashback rápido: Ela se recorda dos dois nus, se amando, na praça pôr-do-sol naquele banco. Desligar flashback.

Ela entra no carro ao som de Stupid Love, música tema dos dois. Ela solta o aplique sensualmente, balançando-o ao vento e retoca o batom pelo retrovisor, bate a porta e pisa no acelerador.

CENA 14/SÃO PAULO/VILA MADALENA/PRAÇA-POR-DO-SOL/NOITE

Rita chega a sessão de psicoterapia quando vê Suzy saindo meio apressada.

RITA – Querida, você por aqui?

SUZY – Doutora Rita!

RITA – Faz sessão com a Leopoldina também, que coincidência!

SUZY – Meire me indicou!

RITA – Foi a partir dela também que eu conheci. Você parece preocupada, o que houve?

SUZY – Impressão sua, não é nada.

RITA – Impressão minha, sei.

O Celular de Suzy toca e ela atende.

SUZY – Themise! O Goram ainda não voltou da mansão Moça! Não está conseguindo falar com ele, puxa a vida, eu não sei mais onde Heloísa pode estar, porque em casa, na facul, procurei por toda parte.

RITA – Heloísa desapareceu?

SUZY – Qualquer coisa, você me avisa. Me telefona assim que ele chegar, porque o celular dele para mim tá dando caixa postal. Até mais.

Ela desliga.

SUZY – Sim…Ela tem enfrentado um pânico com as provas!

Rita fica surpresa.

RITA – Bom, vamos procura-la. Eu vou só avisar a Leopoldina e remarcamos a minha sessão!

SUZY – Que isso! Não precisa!

RITA – Claro que precisa, ela pode estar passando apuros por aí e não sabemos.

CORTAR PARA:

CENA 15/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

BERNARDO – Estava indo jogar com alguns amigos, sinto falta de boa e velha corrida de cavalos.

MATEUS – Nossa, amor. Faz tanto tempo que você fala nisso, não vai garanhar, não né? Você está comigo, temos uma história, lembre-se disso!

BERNARDO – Que isso, amor. Até parece! Se quiser, podemos ir juntos.

MATEUS – Vou não! Mas eu confio em você, tava só brincando.

E o beija, Goram o encara com ódio e faz sinal que o pescoço dele será degolado. Bernardo responde mostrando a língua.

BERNARDO – Sabe que às vezes eu me sinto meio mal de te deixar sozinho aqui.

MATEUS – Mas isso é fácil de resolver, é só não ir. (Rindo).

BERNARDO – Pois é, mas você sabe como é esse meu gosto, se não ceder, depois vira vício. Mas prometo não voltar muito tarde.

MATEUS – Olha lá, hein? Vou ficar te esperando…

Bernardo se encaminha para a porta e Mateus percebe que sua cobra não se alimentou.

MATEUS – Nossa, esqueci de te alimentar, filha. Onde está a reação. Cadê a Catarina?

Ela desaparece pela cozinha e Goram corre para estacionamento a céu aberto da mansão. Akiko só observa achando graça.

ESTACIONAMENTO DA MANSÃO.

Goram impede que Bernardo feche a porta do carro.

GORAM – Pai d’égua! Onde tu pensa que você vai?

BERNARDO – Me deixa em paz, sua peste! Mas será possível, acabou com meu dia e agora quer acabar com a minha noite.

GORAM – Bernardo não viu nada ainda! Anda, volta lá e termina a droga dessa noivado!

BERNARDO – Eu já disse com todas as letras que EU NÃO VOU FAZER ISSO!

GORAM – Ah, o guatá não vai? (Rindo)

BERNARDO – Guatá…fala direito, caralho. Nem sei como a universidade pode permitir selvagens como você!

GORAM – Então, tá perdi Goram perdeu a paciência com você! Vou mostrar agora esse pen-drive aqui (e retira do bolso) para seu love e depois para a polícia!

E desata a voltar correndo para dentro da mansão. Irado, Bernardo buzina e abre a porta do carro, ele volta para dentro da mansão.

SALA DE ESTAR

Goram entra na sala e Mateus que voltava da cozinha com Catarina, se surpreende com ele, quando servia petiscos a Cecília.

MATEUS – Goram, você estava lá fora?

GORAM – Seu Mateus, Goram tem que…

Bernardo abre a porta da sala, gritando.

BERNARDO – NÃO DÁ MAIS!

Akiko o encara não entendendo nada. Goram vira lentamente a face para ele, sarcástico.

MATEUS – Não dá mais?

BERNARDO – Não dá mais, eu preciso parar de mentir, eu preciso, por respeito a você e a tudo que vivemos…

MATEUS – Do que você está falando?

A face de Mateus se transformou. Goram escapa uns bufos de felicidade. Akiko compreendeu.

BERNARDO – Eu não sinto mais a mesma coisa por você, nós…precisamos terminar!

MATEUS – O QUÊ?!

Os olhos do vilão herdeiro se encheram de lágrimas. Bernardo sofreu ao dizer aquilo. Akiko contemplou a sagacidade estampada do indígena. Goram, por sua vez, esboçou um sorriso de contentamento. CONGELA.

FADE OUT.

CONTINUA…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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