Estação medicina

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Capítulo 01

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NAVEGAR

Estação Medicina
Capítulo 01
Vida Roubada

 

LEGENDA : Setembro de 2002…

FADE IN:

CENA 01/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/INT. MANSÃO DOS MOÇA/QUARTO DE MATEUS/CREPÚSCULO

INSTRUMENTAL DRAMÁTICO. CUT UP nos olhos esverdeados atordoados de um rapaz de 18 anos. Chamava-se Mateus. PLANO PRÓXIMO ele sentado na beira da cama : Branco, cabelos pretos, magrelo, alto e com barba falhada no queixo. Ao fundo, uma varanda anunciava tempos sombrios. Suava frio, estremecia. As janelas batiam-se violentamente, percebia-se que os ruídos do ambiente atropelavam-se com os pensamentos do rapaz. Ele ansiava por um esperado momento. Quando seu telefone tocou, esboçou um sorriso maquiavélico.

FIM INSTRUMENTAL DRAMÁTICO

FUSÃO PARA:

LEGENDA : Dias anteriores…

FADE IN

CENA 02/SÃO PAULO/ JARDIM AMÉRICA/ INT. MANSÃO DOS MOÇA/ QUARTO DO CASAL/NOITE CHUVOSA

Mateus terminava de se pegar com Bernardo(Moreno, 25 anos, cabelos pretos, forte, nem tão alto como Mateus, com barba grossa) na cama de seus pais. TAKES ALTERNADOS DOS DOIS.

CORTAR PARA :

CAM SUBJETIVA avança da porta do quarto até a porta da sala em slot motion. Gemidos eram audíveis pelo corredor.

CENA 03/SÃO PAULO/ JARDIM AMÉRICA/ INT. MANSÃO DOS MOÇA/SALA DE ESTAR/NOITE CHUVOSA

A porta da sala se abriu, mas não o suficiente para os amantes perceberem.

Eloá(Branca, 45 anos, ruiva, cabelos cacheados, advogada criminalista) entrou depressa com seu filho mais novo : Giovani (criança branca, cabelos pretos, 5 anos) cobrindo-o por um casaco grande, ele estava em seu colo.

ELOÁ – Meu Deus, Orlando! O menino podia ter pegado uma gripe. Como nosso carro foi quebrar justo na entrada de Guarulhos nesta noite chuvosa? Nem o guarda-chuva deu conta de nos abrigar. Veja! Estamos encharcados!

Orlando (Branco, 50 anos, cauvo de cabelos pretos, cirurgião geral e empresário)terminava de trazer uma das malas na companhia de seu motorista quando escuta os gemidos. Ele troca olhares com a esposa.

ORLANDO- Você ouviu isso?
Eloá se desespera.
ELOÁ – Está vindo do nosso quarto, parece ser a voz de…

CORTAR PARA:

Ao escancarar a porta de seu quarto, o casal flagrou o filho mais velho em relações íntimas com um homem.

ELOÁ (Nervosa) – Mas o que está acontecendo nesta casa?! Filho! O que você está fazendo na nossa cama com esse marmanjo?

Eloá cobriu os olhos do filho mais novo o levando para o quarto. Mateus se petrificou, tentou-se cobrir com o lençol. Contudo, num gesto violento, Orlando o puxou fora de si.

ORLANDO (Bravo) – Eu não tenho um filho viado! Eu não batalhei tanto na minha vida para ter um desgosto como esse.

Mateus se apavorou. Bernardo interrompeu as falas do cirurgião.

BERNARDO (desesperado) – Calma, Doutor Moça! Nós podemos explicar!

Mas o homem não deu ouvidos. Tirou uma vara de marmelo de trás de uma cômoda e tratou de agredir o filho. Mateus berrava de dor. Bernardo tentou impedir, mas Eloá sacando uma arma de uma gaveta com fechadura apontou para o rapaz.

ELOÁ – Vai-te embora daqui! Se tu tens amor a sua vida. Eu nunca atirei em ninguém. Mas se eu precisar salvar a minha família, eu não medirei esforços. Não pague para ver.

Bernardo observou o sofrimento do parceiro e sentiu muita raiva daquela situação injusta. As pernas, os braços de Mateus ardiam a cada golpe certeiro. Ele chorava por não conseguir sair dali. Seus olhares foram de encontro com Bernardo pedindo ajuda, mas o outro nada podia fazer. Antes de sair da mansão, confrontou a matriarca.

BERNARDO (Enfrentativo) – Essa situação não vai terminar assim!
E recolhendo suas vestes dirigiu-se para área externa da frente.

VOLTAR AO QUARTO DO CASAL

MATEUS (Suplicante)– PARA PAI! PARA!
Mas Orlando não parou.

FADE OUT com a voz do rapaz silenciando

LEGENDA : FEVEREIRO DE 2020…

CENA 04/RORAIMA/BOA VISTA/MANHÃ

FADE IN

Música de fundo: Respirar de Sandy
FADE IN

Um avião risca o céu a partir do Aeroporto Atlas Brasil Cantanhede. São mostradas imagens aéreas da capital de Roraima, com trabalhadores correndo pelas principais avenidas de Boa Vista como a Avenida Brigadeiro Eduardo Gomes. Comércios desde pequenas bancas de jornais até shoppings centers são abertos com o aprofundar daquela solar manhã. Casais saem cedo para caminhar pela Orla Taumanan. Crianças fazem fila para entrar num grande amarelo ônibus escolar, enquanto babás empurram carrinhos pela calçada do mesmo lado que velhinhos compram orquídeas nas floriculturas escondidas naquela pequena travessa na Getúlio Vargas.

CORTAR PARA:

CENA 05/ BOA VISTA/ CAÇARI/ R. DA BACABEIRA/ INT. APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/INTERIOR/ QUARTO DE GORAM/MANHÃ/

CUT UP nos olhos de insônia castanhos-escuros da pele café com leite de Goram Guajajara. 23 anos.

Alternar por alguns segundos com zoom nos dedos finos do rapaz a dedilhar o teclado para redirecionar a página dos aprovados em medicina da Universidade Olímpius em São Paulo capital.

Close tela do computador também.

Iracema bate na porta do quarto trazendo torradas com geleia de mangaba acompanhado de leite quente de castanha-do-pará.
IRACEMA – Uiqueuê! Tu dormistes bem essa noite? Não está com uma cara boa! Se alimente um pouco!

Goram sai do computador e se joga na cama frustrado.

GORAM – Égua! Está demorando demais para sair esse resultado! Era para ter saído às 09hoo. Vai fazer uma hora daqui a pouco. Não deviam sacanear desse jeito a vida de um pobre vestibulando. Já basta um ano naquele cursinho preparatório que mais parecia um manicômio com aquelas matérias sendo socadas goela abaixo, agora querem provocar na gente um infarto fulminante?

IRACEMA delicadamente levanta o filho de criação, faz-lhe sentar na cama e o entrega uma torrada.

IRACEMA – Tu sabes o que eu penso! Eu vi sua dedicação, dia após dia, ano passado, saía daqui antes das sete com essa mochila velha nas costas, apenas com um caderno, um estojo e um pouco de dinheiro para se alimentar e voltava depois das dez. Eu nunca vi ninguém com sua determinação, meu menino. A certeza da sua vitória já estava escrita por Maíra-ira e Mucura-íra!

GORAM – Até parece que eu fiz tudo isso, sozinho, minha ouitê. Existe essa grande falácia da meritocracia, em que nós vencemos por esforço próprio. Mas a grande verdade é que dependemos na maior parte dessa trajetória de ajuda de muitos, de mãos-amigas, se não fosse tu e o papai me sustentando, pagando aquele cursinho pré-vestibular, ter pago escola particular para mim a vida inteira, ter me dado bases psíquicas com terapia desde cedo, uma educação muito bem planejada assim como nossa estabilidade financeira, eu muito provavelmente não teria tido a escolha de estudar, teria que trabalhar como a maioria dos jovens deste país são obrigados a fazer.
Nesse instante, a irmã indígena

do protagonista entra correndo no aposento com um celular nas mãos.

RAÍSSA – Oheinê! Goram! Tu passastes na Olímpius! Pai d’égua! PASSASTES EM MEDICINA!

Goram troca olhares esperançosos com a mãe e carrega a página de seu computador, comprovando tudo.

GORAM – Mãe! Ixé passei! Eu passei! Vou ser médico na melhor universidade desse país. EU NÃO ESTOU ACREDITANDO.

Começa a tocar Trevo de Ana Vitória

IRACEMA se emociona em voz alta.

IRACEMA – Fôlego! Meu Guyrá criou asas e agora está pronto para voar. Coração de mãe nunca se engana. Vai conquistar o mundo, meu menino!
Raoni, pai de criação de Goram e Teçá, irmão mais velho entram no quarto sem entender nada com aquela gritaria.

RAONI – Eita Porra! O que está acontecendo aqui , Iracema?
Goram revela a novidade

GORAM – Vigia bem! Passei no vestibular da Olímpius, pai! Vou ter a chance de curar as pessoas como as histórias do Pajé Moacir que sempre me contava antes de dormir. Vou ser doutor e transformar o mundo com minha sede por justiça. TODOS MERECEM ACESSO A UMA SAÚDE DE QUALIDADE NESTE PAÍS!

Raoni vibra com o filho e o pega no colo quando ele pula em sua direção. Goram não era alto, tinha por volta de um metro e sessenta e cinco.

Focar no rosto de Teçá que não está tão feliz. INVEJA. No canto do quarto, invisível pelo guarda-roupa, sobre os abraços dos familiares, Goram percebe um ursinho de pelúcia sem um dos olhos de botão, meio cabisbaixo, tinha um colar de pena azul. MELANCOLIA.

Cortar para:

CENA 06/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/ INT. MANSÃO DOS MOÇA/ QUARTO DO CASAL/MANHÃ

Ambiente semelhante aos quartos dos pais no início, mudou-se apenas a coloração da parede e os lençóis de cama. Mateus, agora de terno, aos 36 anos, observa um desenho, era de um garotinho pequeno segurando um ursinho de pelúcia junto a seus pais, estavam no jardim, em determinado ponto havia uma pena azul desenhada. Sorriso Maquiavélico. Alarme de celular toca, ele estava atrasado, fecha e sai abruptamente.

CORTAR PARA:

CENA 07/SALA DE ESTAR

Ambiente luxuoso, com poltronas brancas próximas, tapete belga, pilastras jônicas separadas. Mateus chega diante de um criadouro de acrílico com vozinha de criança e cumprimenta sua naja de estimação.

MATEUS – Ah, que cobrinha mais lindinha do pai. Olha ela gente, toda jeitosa se esfregando nas pedras. Tá com fome, Cecília, tá?

Ele retira de um grande balde ao lado resto de pequenos animais e joga a ela. A serpente corre a abocanhar. Ele se perde bobamente satisfeito com atitude, depois sai da mansão.

CAM POR DENTRO DO CRIADOURO FOCANDO AO FUNDO, NELE CAMINHANDO ATÉ SUMIR NO HORIZONTE EXTERNO DEPOIS DE ABRIR A PORTA DA SALA.

CENA08/BOAVISTA/PARAVIANA/CASA DOS AVÓS DE GORAM/INTERIOR/SALA/TARDE

Goram está sentando com seus avós paternos e uma tia tomando café com leite e Beijú, um bolo de mandioca, típico da culinária tupi contando a boa nova.
VITÓRIA-RÉGIA- Mas esse meu neto já fala como Poropoano! Só precisa tirar esse jenipapo do rosto! Vai vestir jaleco branco com o rosto pintado? Assim não dá!
Goram se manifesta.
GORAM – Jaryi! Sei que não sou um indígena propriamente dito. Fui adotado por vocês muito pequeno, sou filho de homem branco. Mas me sinto parte dos Guajajaras! Cresci aqui. Todos os valores! Costumes. Noções de amor ao próximo foram vocês que me ensinaram. Jamais abandonaria minhas raízes. Ainda que sejamos urbanos. Essa pintura tem um significado muito grande para mim. Ela representa o meu renascimento!
CACÍQUEUM – Mas ouvir esse meu neto me enche de orgulho! Poupa da bacaba. Muita gente tem uma visão muito miudinha. Gala seca. Chamam a gente de bom selvagem. Erroneamente de Índio.Pensam que vivemos em tribos, dançamos para chuva! Batemos na boca. Pulamos feito abestado. Que não temos acesso a tecnologia. Quanto atraso, égua!
GORAM – Sim! Acham que somos folclóricos. Sem contar, avô, todo massacre a nossa etnia. A bancada ruralista. O Avanço da Fronteira Agrícola contra nosso povo. As demarcações antigas sendo desfeitas. As novas não saindo do plano do papel. É uma vergonha o silêncio que esse governo que está aí anda tendo! Agronegócio. Garimpeiros nos matando. E nos botando a culpa da exploração das terra, do desmatamento, das queimadas que eles estão negligenciando na Amazônia.

Nesse instante, uma prima chamada Araponga, 28 anos, indígena, magra, que escutava a discussão, intervém.

ARAPONGA (Irritada e enciumada) – Mas o que este curumim pensa o que está dizendo? Tu é homem branco! Um Vypóry! Olha só para tu. Sua pele. Arreda aê! Pare de Xarlar! Tu não tem lugar de fala. Não sabe o que é ser dispensado na fila da entrevista de um emprego por ter traços Guajajara. Ser agredido por pedras! Cara de pau! Cala-te!

Vitória Régia a repreende.
VITÓRIA RÉGIA – Égua moleque! O que é isso Araponga? Isso é jeito de responder a seu Yke?
ARAPONGA – Estou farta! Jaryl! Ninguém diz nada! Esse tipo de discurso nos invisibiliza. Será que você não percebe? Ignora toda a nossa dor, nossa luta. Romantiza a miscigenação! Daqui a pouco vai começar a recitar em voz alta Gilberto Freyre aqui nesta Oguy.
Goram se defende
GORAM – Ela está certa, avó! Preciso respeitar o lugar de vocês! Mas não é porque não tenho a genética de vocês que também não posso me manifestar. Logicamente, minha fala vale menos que a de vocês. Porém tenho o direito de me expressar! E quanto a Gilberto Freyre, está enganada, Araponga! Prefiro Darcy Ribeiro. O Beijú estava ótimo. Haevete família! Deixe-me pegar o beco!

O mocinho se despede dos familiares que tentam fazê-lo não ir. No entanto, Goram acha melhor ir embora. A sós, Abaporu quebra o gelo.

ABAPORU (bravo) – Tu não deveria ter feito isso, Araponga!

ARAPONGA (Satisfeita) – Eita porra! Eu sou sempre a Pissica da Braba dessa história! Mas um dia vocês vão ver o quanto estão enganados a respeito desse piá. Espero não seja tarde demais para me dar razão!

E arreda o pé. Todos se entreolham cansados.

CENA 09/BOA VISTA/ CAÇARI/ R. DA BACABEIRA/PRAÇA DA AMOCA/NOITE

Goram anda de um lado para o outro ansioso, até que é chamado por uma moça.

YARA – Goram! Que saudade estava de tu, amor! Como está o belo velho? Meu perfume predileto está usando!

E o beija, o rapaz se deixa levar, mas não retribui. Ela percebe que seu olhar está diferente.

YARA – Égua moleque! Que foi? Está pouco entregue!

GORAM – Passei! Passei no vestibular de medicina!

Yara pula de alegria.
YARA – Mas hoje vou virar o zezéu! Que notícia maravilhosa! O que estamos fazendo aqui? Não podemos comemorar essa Emiendu comendo Kikão. Vamos embora para casa de minha família! Vou te preparar um Pirão de Pirarucu que tu adora.
GORAM – Any Yara! Não vou!
YARA – Não vai. Mas por quê não vai? Tu…

Silêncio. Por um instante, ela compreende tudo ao observar a face do rapaz.

YARA – Égua não! Onde foi que tu passastes? Ava?
GORAM – Em São Paulo.
Ela começa chorar.
YARA – Em São Paulo?
GORAM – Sim. Em São Paulo! Eu não te contei que eu havia prestado para lá, por que sabia que você reprovaria.
YARA (magoada) – Mas é claro que sim, Goram! Tem a Federal da Roraima aqui! Por que você fez isso? Colocou nosso amor em prova. O que será de nhande agora?
Goram é direto.
GORAM – Não será Yara! Não há como se relacionar pela internet. Sei que muitos casais fazem isso, até se conhecem nela. Mas não estou disposto a seguir isso. É muito sofrimento. Perde-se a conexão diária. A linguagem abre brechas para interpretações equivocadas. Você não merece essa ausência física. Eu não mereço! Eu sabia que quando me dedicasse a este sonho, teria que abrir mão de outros. Eu sinto muito.
Yara começa a chorar em vagido. Goram tenta abraçá-la. Mas ela se desvencilha. Yara corre.
YARA – Me largue! Seu Tarep! Nunca mais me procure!
GORAM corre atrás
GORAM – YARA! Por Tupã!

Ela dá sinal para um ônibus e se adentra. Ele tenta falar com ela, mas o ônibus vai embora.

Close no rosto arrasado dele

CENA 10/ BOA VISTA/ CAÇARI/ R. DA BACABEIRA/APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/INTERIOR/ QUARTO DE GORAM/NOITE
Iracema termina de passar algumas camisetas do filho e as guarda num guarda-roupa do quarto do rapaz, quando encontra uma caixa de fotografias antigas, ela senta na cama e abre. Aniversário de seis anos, lê-se atrás de uma foto que Goram sopra velinhas com vestimentas indígenas.

Começa a tocar Palavras Ao Vento de Cássia Eller

IRACEMA – Que gracinha…Bons tempos que não voltam mais.
A próxima fotografia que encontra é de um torneio de flecha com oito anos que ele participou junto com amiguinhos de uma escola.
IRACEMA – Época que ele estava ainda na escolinha Bamboí da aldeia. Este aqui não seria Uiqueuê de Ninalva? Gente, vi ele outro dia desses na Loja de Dona Conceição, estava um porrudo de grande!

Ela se emociona ao ver tirando foto ao lado do Cacique Ramon já falecido.

IRACEMA – Ramon! Seja onde estiveres, meu amigo, espero que esteja bem.

Neste instante, Goram chega a porta do quarto e em silêncio observa a mãe chorando junto as fotos. Não revelar direto. Close nos pés num tom misterioso e subindo progressivamente até revelar sua face branca porém com aa pinturas indígenas características dos Guajajaras.

IRACEMA – Olha essa! Estava todo decidido de si! Xarlando! Quando voltou com esse peixão ao lado de Raoni.
Ele sorri
GORAM – Égua moleque! Lembro que nesse dia deu maior trabalheira para tirar essa foto por que o peixe não parava de se mexer.
Ela leva um sustinho de sobressalto.
IRACEMA – Filho! Tu estava aí?
GORAM – Não é cuia! Estava sim! Observando de perto esse amor lindo que sente por mim!
Ele se agacha aos pés dela e a abraça. Ela chora.
IRACEMA – Não está sendo fácil para mim, Goram. Saber que tu vai partir. Parece que um pedaço daqui de dentro vai junto, sabe, embora. Meu mirim!
Goram acaricia os cabelos escuros da mãe.
GORAM – Ah, mãe! Como eu te amo. Não pensa que eu não vou sentir sua falta também. Sempre tão doce, tão carinhosa, descrição perfeita da personagem romântica de José de Alencar! (Ela ri). Tenho uma missão,Mothokariwe. Missão de curar as pessoas com a ciência! Abri mão de tanta coisa por isso. Acabei de voltar da praça. Terminei tudo com Yara.
Iracema se preocupa.

IRACEMA – Coitada! Como ela está?
GORAM – Péssima! Mas foi inevitável. Não podia dar esperanças a ela e terminar tudo na véspera da guatá. A última pessoa no mundo que eu queria magoar era ela.Sou eternamente grato a tudo que vivemos nesses cinco anos juntos. Espero que ela encontre alguém que a faça feliz como ela me fez durante todo esse tempo.
IRACEMA – Você não a amava tanto, né filho? Se não teria continuado o namoro a distância, sei que faria isso.

Goram se levanta e admite de costas para mãe. Foco nele e embaçar a mãe ao fundo.

GORAM – Fôlego! Você me conhece melhor do que ninguém neste mundo. Não consigo enganar a senhora. Eu gostei muito dela. Mas de uns tempos para cá, eu sentia que queria ficar sozinho, sabe? Eu tava levando a vida muito no automatismo. Não sei. Fazendo coisas sem pensar muito. Agora que vou recomeçar longe daqui, quero estar conectado comigo num ponto a me entregar totalmente a minha nova vida.

Embaçar ele e focar em Iracema ao fundo com uma face meio melancólica. Voltar e close up em seus olhos contemplando a lua.

FADE OUT

CENA 11/ BOA VISTA/ AEROPORTO ATLAS BRASIL/MANHÃ
Legenda Algumas semanas mais tarde…
FADE IN :

É anunciado o vôo de Goram. Ele puxa sua mala de rodinhas e se levanta. Iracema começa a chorar.
IRACEMA – Eu contei tanto para esse dia chegar. Que eu não me dei conta que seria tão difícil.
Goram a abraça. Ele sente a dor de sua partida. Lágrimas aumentam e ela começa a soluçar. O mocinho limpa-as com seu polegar, fazendo um carinho no rosto dela.
RAONI abraça o filho
RAONI – Tu sabe, hein Piá! Nada de sumir e deixar sua família preocupada sem notícia! Se não dou um jeito de te achar em São Paulo e vai se ver comigo. Não se esquece de procurar sua tia Adelaide quando chegar no aeroporto.
Goram ri
GORAM – Até parece que sou um Piá! Ueivô! Tenho 23 anos! Pode deixar, prometo que não vou fugir da minha tia. Vou sentir falta de tu, pai. Sempre tão brincalhão, sempre fazendo aquela torta de pêssego maravilhosa e é claro perdendo para mim no Mortal Kombat.
Raíssa cai na risada. Raoni tenta se recompor.
RAONI – Zé ruela! Tu é muito égua de largura! Na verdade, sempre te deixei ganhar. Mas aguarde para ver. Das próximas vezes, de rocha, ganharei!
Goram pega a irmã no colo
GORAM – Diga-me, o que quer que te trago de São Paulo nas férias? Peça qualquer coisa e eu te trarei!
RAÍSSA(animada) – Tá cheroso, mano? Jura? Qualquer coisa? Bom… Quero aquilo que as gurias colocam embaixo dos pés para andar no gelo.
Teçá entra na conversa meio desdenhoso.
TEÇÁ – PATINS, Ouitê! Patins! Não precisa pedir para Goram trazer. Pode comprar no centro da cidade ou encomendar da internet. Mercado Livre é mais econômico!
Raíssa rebate
RAÍSSA – Não tem na cidade, Teçá! E daí que posso comprar pela internet? O frete deve sair caro até mesmo de Manaus! Meus pés são pequenos, não deve precisar de bagagem adicional!
TEÇÁ – Ainda que seja, o que fará com patins? Que eu saiba não neva por aqui! Está perdendo muito tempo vendo desenhos animados, Curuminha!
RAÍSSA – Leseira Baré! Vou guardar! Guardar para quando fizer minha primeira viagem para o norte do Canadá.Conhecer a população Isquimó, visitar um iglu.Sabia que eles possuem um sistema de caça de peixes muito semelhante a nós Guajajaras?
Teçá não respondeu. Focar em seu rosto entediado.

A última chamada do vôo de Goram é feita.

A música Dádiva de Ana Vilela começa tocar

GORAM – Ê Caroço! Chegou minha hora de capar o gato!

Ele dá um aperto de mão no irmão. Dá um último abraço em sua mãe que não consegue conter o choro.

GORAM – Não precisa chorar, minha Ueivô! Fique de Bubuia. Isso não é um adeus, é apenas um até breve…

Ele se despede dos familiares e some no interior da plataforma de embarque.

Cortar para :

CENA 12/AVIÃO/INTERIOR/MANHÃ
Imagens aéreas de Goram se acomodando dentro do avião, depois o avião decolando. Sua família assistindo ao vôo naquelas grandes janelas de vidro.

“Eu só quero agradecer, por ter vocês. Para acompanhar minhas loucuras. Me deixar bem mais segura daquilo que eu posso ser se eu somente acreditar. Por almoçar depois do horário. Falar mal do Bolsonaro. E desenhar duendes, mares, cogumelos sem parar. Por dar risada de tudo e sempre colorir meu mundo. Com as cores mais bonitas que eu já vi alguém pintar. Por me amarem com a mesma intensidade e por serem de verdade a melhor família que eu pudesse ganhar.”

CENA 13 /SÃO PAULO/ PARAISÓPOLIS/ RUA MANOEL ANTONIO PINTO/MANHÃ
Fabiana, uma jovem afrodescendente de 22 anos caminha com sua mãe em direção ao ponto de ônibus.
FABIANA – Hoje começa uma nova página em nossas vidas, mãe. Sei que corre o risco da senhora não se aposentar com essas novas regras absurdas. Por isso dentro de alguns anos, quero já estar dando plantões para sustentar a senhora.
CACAU – Você tem que pensar em você, minha filha. Primeiramente em você. Não se importe comigo. Já estou no bico do corvo, trabalhar mais alguns anos a ter que se aposentar não fará muita diferença.
Fabiana dá sinal para o ônibus e se volta para a mãe.
FABIANA – Deixe de falar lorota, Dona Carolina. A expectativa de vida brasileira é 73 anos. Tem muito ainda que viver. E seguridade social é um direito a todos!
Elas se adentram no ônibus, passam na roleta e Fabiana pede licença.
FABIANA – Ei bonita. Você pode dar lugar para minha mãe sentar?
Cacau tenta a repreender porque a jovem sai meio sem jeito.
FABIANA – Nada de olhar com cara feia mãe! Lei sancionada pelo FHC em 2000. Acessibilidade no transporte coletivo.
CACAU (já sentada) – Você leva a vida muito a risca. Eu não preciso sentar, aguento muito bem em pé. Tenho 60 anos, mas estou inteira.
FABIANA – É por conta dessas e de muitas mentalidades que a senhora aguenta todas as humilhações nos seus trabalhos diários como doméstica. Pensa que não te pego chorando de madrugada. Pagam-te essa miséria a ponto de você precisar de 3 empregos.
Cacau abaixa a cabeça envergonhada, enquanto o ônibus acelera.

CENA 14/AVIÃO/INTERIOR/TARDE
Goram termina de ouvir uma música no celular e retira os fones de ouvido.

Um instrumental de suspense começa a tocar.
Ele abre a mochila e se apossa de um caderno antigo de colagens de capa marron-escuro.
Focar em seu semblante obcecado. A primeira página do caderno contém fotos de uma revista antiga do início dos anos 80 em que uma mulher grávida posa com o barrigão junto marido, concedendo uma entrevista, sobre a manchete estava escrito: seus planos para o futuro. Lê-se ao lado da imagem, em minúsculo, advogada criminalista Eloá Cristina Pacheco Moça. Já o homem que estava ao seu lado, estava identificado como Orlando Alberto Rocha Moça seguido de uma pequena descrição: ” um dos grandes herdeiros da fábrica de laticínios Moça, aclamado cirurgião geral do hospital das Clínicas na FMUSP e criador da universidade de medicina Olimpius.”
Lágrimas escorreram pelos olhos do rapaz ao ver folheando as páginas que uma delas continha uma imagem de um garotinho loiro levantado no ar, de mãos dadas com os pais : Eloá e Orlando, na legenda se lia o nome desta vez de Mateus.

Close na face de profunda revolta e transformada de Goram. Ele fecha os punhos com força nas extremidades do caderno, deixando um nítido amassar.

Mais adiante, já para os meados dos anos noventa como revela o cabeçalho, novamente se observa Eloá grávida, com o marido e o filho pré-adolescente Mateus, o semblante do garoto loiro revela uma feição meio estranha, os olhos pareciam vazios e levemente narcísicos num tom meio psicótico. Então o protagonista encontra no primeiro parágrafo da entrevista o nome que lhe fora dado ao nascimento “Giovane” e completa com o resto “é o nome decidido ao segundo filho.”

Neste exato momento, Goram se recorda daquela fatídica noite.

Início do Flashback
CENA 15/NOITE CHUVOSA/SÃO PAULO/ JARDIM AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/ QUARTO DO CASAL
Giovane(Goram), aos cinco anos de idade, está com dificuldades para dormir num colchão no chão do quarto dos pais, quando escuta a voz do irmão Mateus, parecia vir da porta da sala.
MATEUS – Andem depressa! Não temos muito tempo!O quarto é por aqui.
Dois jovens altos mascarados entram armados com barras de ferro. Bernardo aparece logo em seguida e rouba um beijo do amado.
BERNARDO – Branquinho! Nem acredito que vamos nos ver livre dos seus pais.
É ouvida uma gargalhada que não se sabe de quem a originou.
Instrumental dramático começa a tocar.
Os homens entram de supetão no quarto, empurrando com brutalidade a porta. Giovane berra.
GIOVANE – PAI!
Orlando se levanta assustado na cama quando é atingido na cabeça. Eloá grita, mas é atingida também. Giovane assiste o assassinato de seus pais a pauladas. Sangue atinge o menino que grita assustado fazendo Mateus invadir o quarto esgueiramente e por uma frauda na cavidade oral da criança. Giovane tenta gritar, mas não consegue. Morde a frauda tentando se desvincilhar, mas o vilão a aperta mais para dentro.
MATEUS – Isso, bom garoto.
Giovane abafa o pânico cansado de tanto se esforçar. Instrumental explosivo.
BERNARDO – Estão mortos!
Mateus larga o menino com um safanão no chão e contempla a cena emocionado.
MATEUS – Agora poderemos viver nosso amor e ricos, milionários.
E grita hilariante pulando no colo de Bernardo. Enquanto Giovane depara atônito com aquela tragédia sobre a cama. Observa as faces miseráveis daqueles dois sujeitos altos dispostos cada um a um lado da cama literalmente satisfeitos. Jamais se esqueceria daquela imagem.

Final do Flashback

Cortar para:

Semanas mais tardes…

CENA 16/NOITE/REGIÃO NORTE/RIO BALIZA

Inicio do Flashback
Numa região rural, não habitável. Mateus arrasta o irmão para a margem de um rio acompanhado de Bernardo e outros homens.

MATEUS – Agora que nossos pais já estão a sete palmos daqui. Vamos acabar de uma vez por todas com esse sequestro! Todos acreditam que você foi sequestrado quando assaltaram a mansão e mataram nossos pais, virei o orfãzinho mais falado do país. Mas chega, tudo tem um fim, não aguento mais olhar para a sua cara azeda de criança mimada, maninho.
Giovane se desespera ao ser pego por brutamontes e ser aproximado do leito do rio em altas correntezas.
GIOVANE – Me solta! Eu vou acabar com todos vocês!
MATEUS (solta uma gargalhada) – Acabar com quem? Pirralho! Se enxerga! Eu matei nossos pais. Sequestrei você para acharem que tinha desaparecido. Serei o único herdeiro de tudo! E você ainda vem cantar de galo, por aqui! Ai, Giovaninho! Não seja ridículo!
GIOVANE – Você é um monstro! Eu quero meus pais!
MATEUS – Pois você os verá muito em breve, eu te garanto…
GIOVANE (esbraveja) – Quero que você morra!
Bernardo dá um chute no estômago do menino.
MATEUS – Um dia eu irei, assim como todos irão! Bom…Creio que devemos terminar logo com essa palhaçada.

E com um golpe certeiro, empurrou o irmão de apenas cinco anos de idade dentro do rio.

Final do Flashback
Cortar para:
CENA 17/TARDE/AEROPORTO DE GUARULHOS
Goram enxuga as lágrimas e chega na plataforma de desembarque, puxando a mala.

GORAM(V.O) – Eu prometi, meus uievôs, que um dia eu voltaria. Iêbyr para fazer justiça por vocês. E cá estou. Agora, se depender de mim, esse monstro não terá um dia de paz! Égua! Ele vai conhecer o inferno que tanto ama de perto. Vai pagar caro por tudo que fez!

Instrumental de Congelamento. Close em seu rosto determinado.

FADE OUT

Continua….

Atenção: A Widcyber tem a autorização do autor para publicar este conteúdo.

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NAVEGAR

  • Enfim, um bom capítulo s2 Um roteiro impecável em termos técnicos, só achei que as descrições dos personagens foram enfadonhas, às vezes muita explicação acaba deixando o texto engessado e foi o que senti, mas pra quem nunca fez roteiro antes, você foi incrível. Parabéns!

    • Obrigada, querido. Vou anotar sua sugestão. Sempre se posicione. Espero que continue acompanhando, no próximo capítulo conheceremos as demais personagens.

  • Olá. Curti demais o Capítulo de estreia. Protagonista forte, que com certeza vai render muitas reviravoltas. Tecnicamente gostei da escrita, não perdendo sua essência na escrita. As descrições são detalhadas, o que acho muito válido. Bom, Leitornático vai analisar este capítulo, não perca hehe. Ansioso pelos próximos capítulos. Parabéns pela história.

  • Que estreia!
    Goram é um protagonista muito forte, estou ansioso pra saber os próximos passos dele.
    O roteiro, apesar de ter algumas descrições mais literárias, é muito bom e nos faz enteder melhor a história e os personagens.
    Amei a abertura, transmitiu o clima jovem da web.
    Parabéns e muito sucesso!!

    • Continue acompanhando. Muitas águas ainda vão rolar na história de nosso protagonista. Até sexta você conhecerá as demais personagens e no capítulo 2 abriremos um caso clínico que se fecha no 3.

      Eu tô viciado nessa abertura, ficou incrivelmente bom. Mas não chega aos pés da sua.

  • Opa, o Castiel não kkkkkkk.
    Tô ansioso pela continuação. Quer dizer que próximo episódio promete então, só quero ver!
    Estação Medicina será um grande sucesso. Um Protagonista forte que você criou, que com certeza, isso será demonstrado em cada capítulo. Sucesso sempre! Abraços!

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