Estação medicina

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Capítulo 03

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Estação Medicina

Capítulo 03:  A Galinha dos ovos de ouro

 

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CENA 01/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ AUDITÓRIO ANCHIETA/MANHÃ

 

Ligar instrumental melodramático

 

Vitor percebe que Goram está no auditório e acena para ele. Mas o mocinho sai transtornado pela lateral do local em silêncio guiando-se por placas até um banheiro, onde levanta a tampa da privada e vomita desesperadamente. 

 

BANHEIRO AUDITÓRIO

 

GORAM – Maldito! Assassino desgraçado! Égua não! Como abá pode dizer que herdou o hospital? Ele não tem direito a nada! 

 

Liga a torneira, deixa a água cair, lava a boca num gesto maquinal.

 

GORAM – Mas os dias dele estão contados! ESTÃO CONTADOS! 

 

Instrumental explosivo. Close no rosto vingativo do mocinho olhando o próprio reflexo no espelho.

 

Goram volta e sorrindo para Vitor passa por entre alguns alunos e senta em seu lado. 

 

VITOR – Está tudo bem, parceiro? Você correu para o banheiro!

 

Goram disfarça.

 

GORAM – De rocha! Sim. Ainda estou um pouco de ressaca das bebedeira da semana no Bar do Esteto. 

 

Aumentar voz do auditório

 

MATEUS – Como deve ser de conhecimento de todos, o curso de medicina tradicionalmente possui 6 anos. Os dois primeiros terão contato com o ciclo básico, onde aprenderam matérias gerais necessárias para todas as profissões da área da saúde : Biologia Celular, Anatomia, Neuroanatomia, Fisiologia, Epidemiologia, Biofísica, Semiologia, Farmacologia, Discussão de caso clínico, entre outros. Os dois na sequência serão de ciclo clínico, terão o primeiro contato com as especialidades sabendo as principais doenças, tratamento, exames complementares de Ortopedia, Ginecologia, Cardiologia, Neurologia, Endocrinologia, Oncologia, entre outros. E por fim os dois anos finais de Internato, onde passarão pelas mesmas especialidades com a diferença que darão plantões nelas e terão contato com os residentes. Mas não se acomodem. Um bom currículo lattes implicará além da graduação, trabalhos de campos, extensões, pesquisa, pós-graduação, doutorado, pós-graduado, projeto-voluntários, intercâmbios. Explorem a universidade. Tem lugar para todos aqui crescerem aqui. Somos privado, somos gratuítos, somos cinco estrelas. Boa vinda a todos, sigam aos veteranos e dinos, estas duas primeiras semana serão apenas de apresentações. 

 

Os alunos se levantam para aplaudir. Goram aplaude num tom de repulsa completa.

 

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CENA 02/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/EXT. ATRÁS DO PRÉDIO PRINCIPAL/MANHÃ

 

Nara, uma sextoanista canta O Tempo Não Para de Cazuza num pequeno palanque junto com Escova, ruivo, magro, jeito bagunçado, um baterista do terceiro-ano e Dennis um violonista negro, magro, cabelo cor-de-rosa, do segundo.Alguns estudantes acompanham. 

 

NARA – Disparo contra o sol, sou forte, por um acaso, minha metralhadora cheia de mágoas, eu sou um cara…

 

Suzy surge no meio da multidão encantada.

 

NARA – Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não para.

 

Ela acaba esbarrando sem querer em Dandara, uma jovem rica, de undercut curto, piercing, bem punk. 

SUZY – Ai, me desculpa. Não foi minha intenção!

 

DANDARA – Relaxa. Nossa, velho, você não acha que tem algo de errado com essa banda? Me incomoda muito. A começar pelo nome Fada Madrinha.

 

SUZY (Estranha) – Para dizer a verdade para mim está muito bom.

 

DANDARA – Como bom? Só tem uma mulher nesta banda, sendo que somos maioria neste país. Machismo estrutural é foda. E esse nome rememorando o conto da Cinderela, em que uma guria se submete a crueldades como borralheira e se supera num relacionamento monogâmico que a esvazia por completo em sua identidade, a figura masculina a salva de ter uma vida ruim. Para mim já deu. 

 

Ela sai meio irritada, Suzy se incomoda.

 

CENA 03/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/BIBLIOTECA DA MEDICINA/MANHÃ

 

Goram está terminando de olhar a estante de anatomia e acaba ao puxar uma edição brilhante com uma caveira perfeita que o encanta, derrubar todas as outras.

 

GORAM – Égua não! 

 

Ele percebe que a bibliotecária o encara de longe e faz sinal de silêncio. VERGONHA. Ele se abaixa para pegar os livros. Quando uma mão delicada surge para ajudar. Ele olha para cima. Era Heloísa.

 

HELOÍSA – Deixa que te ajudo. 

 

Goram se perde no tempo. Instrumental romântico.

 

GORAM (fala arrastada) – Claro… Caralho, que porã!

 

Ele começa a babar, então percebe e se limpa desesperado. Heloísa se cora levemente, rindo baixinho. 

 

Ela vai simultaneamente colocando os livros na estante junto com ele e ele observa seu jeito meio nerd toda compenetrada em organizar. Close alternado de mudanças de expressão dele intercalado por ações dela. 

 

André aparece.

 

ANDRÉ – Hey Goram! 

 

O protagonista se vira e quase derruba os livros novamente. Heloísa segura junto com ele as edições e eles trocam olhares muito perto.

 

ANDRÉ- Hey cara! Tá tudo bem? 

 

Goram desperta. 

 

GORAM (fala rápido)- Hey mano, como vai? Semana yrupê, falei tão pouco com tu no dia da matrícula.

 

ANDRÉ – Estou bem, acabei de voltar de uma reunião do atletismo, me inscrevi para participar.

 

GORAM – Que barato! Vitor me chamou para entrar para o vôlei, porque haynu, mas acho que vou esperar um pouco até pegar mais familiaridade com as disciplinas.

 

Ele volta o olhar para o lado e percebe que Heloísa havia sumido. 

 

Flashback rápido Goram se lembra do beijo no bar do Esteto quando estavam bêbados. 

GORAM(V.O.) – Será que ahê se lembrava? 

 

ANDRÉ – Quer almoçar no bandejão? Acabei de pegar meu cartão na secretaria.

 

Indígena confirmou meio perdido.

 

GORAM – Bora capar o gato! 

 

CENA 04/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ENFERMARIA MOLÉSTIAS INFECCIOSAS/ TARDE

 

Rita sorri para Laurinha, criança indígena, 10 anos, magra, cabelos até as costas.

 

RITA – Sabe o que eu vim fazer aqui hoje, mocinha?

 

LAURINHA – Claro, Doutora. Vai me dar alta, né? Não aguento mais.

 

Adelaide ri.

 

ADELAIDE – Filha, isso é jeito de falar com a Doutora Rita!

 

Rita concorda.

 

RITA – Ela tá certa, Adelaide. Ninguém aguenta ficar internado por mais de uma semana, lugar de criança não é em hospital, é na escola e com os amigos no parquinho. Não é, Laurinha? 

 

Laurinha acena positivamente

 

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CENA 05/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ESTACIONAMENTO/TARDE

 

Rita está saindo para almoçar, quando percebe que Jesuína, uma funcionária de limpeza idosa chorava sentada na guia. Ela foi ao seu encontro.

 

RITA- Jesuína, o que aconteceu? Por que está chorando, mulher de Deus? 

 

JESUÍNA- Perdi meu emprego, dona Rita. Eu não sei o que será de mim agora. 

 

RITA (incrédula)- Como é que é? Conta essa história direito.

 

JESUÍNA – Política do hospital, seu Mateus quer cortar gastos desnecessários, diminuiu a equipe de limpeza, começando pelos idosos.

 

RITA – Mas que desumanidade. Ele sabe que você terá dificuldade para se inserir no mercado, pela idade, pela pouca especialidade. Então ele voltou a agir assim mesmo depois da nossa última conversa. Ele que me aguarde e você enxuga esse choro Jesuína que isso será revertido. Eu te garanto! 

 

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CENA 06/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/TARDE

 

Goram passa seu cartão na entrada junto com André. 

 

GORAM – Égua. Muito barato! Três conto o almoço.

 

Atravessa a catraca depois de passar. Um grande salão se revela em sua frente com estudantes das mais identidades, dos mais variados cursos da área da saúde humana : farmácia, fisioterapia, odontologia, medicina, terapia ocupacional, psicologia. Goram fica procurando Heloísa, mas não a encontra. 

 

ANDRÉ – Caraca velho. Olha só para isso, esse lugar não parece ter fim. 

 

GORAM – Nem essa fila, olhe só para ela. Nunca vi algo tetekue. 

 

Eles entram. André se encanta por um rapaz branco de camiseta listrada, fortinho, que numa primeira impressão parecia muito popular com a camiseta da atlética de medicina. Tratava-se de Romeu. Ele desvia o olhar quando uma das meninas da mesa que Romeu se sentou, percebe seu olhar. Ele olha para sua cor negra. SENTE INFERIORIDADE.

 

Chegam a vez dele, as merendeiras simpáticas servem uma porção de arroz, feijão, purê de batata e um bife no ponto. 

 

GORAM – Está com uma cara boa por demais essa embu’i.

 

ANDRÉ – Nem me fale.

 

Eles pegam salada, suco e se sentam na primeira mesa que avistam lugares próximos e vazios.

 

GORAM – Ufa. Não aguentava mais guatá. 

 

ANDRÉ – Sim, ainda mais neste sol, está um calor de rachar.

 

É quando um cara que estava do lado de André com o garfo rouba um pouco de purê do rapaz. Goram estranha. O sujeito nojento era Pedro, um sextoanista barbudo de cabelos raspados, valentão. André fica com medo. Goram percebe que o afrodescente ficou calado e reage.

 

GORAM (enfrenta) – Hey cara, esse é o purê do meu angirû. Como tu faz uma coisa dessas e mete seu garfo nele? 

 

Pedro levanta e junto com ele vemos Escova, o baterista ruivo da banda  Fada Madrinha e Samuel, também sextoanista que fazia boxer, era negro, mas não retinto como André. 

 

PEDRO (ri, batendo na mesa) – Olha só o indiozinho tomou as dores pelo namoradinho. Você não deve me conhecer, mas sou Pedro, mando na calourada toda, então abaixa essa bola aí, beleza, se não quiser problemas. 

 

SAMUEL – Sem contar que esse calouro é negro, velho(aponta para André) a raça dele tá sujeita a escravidão. Tá acostumado a levar porrada, não é nada.

 

Fabiana que estava na mesa ao lado,  levanta-se irritada ao ouvir aquilo.

 

FABIANA – O que você disse? Seu racista de merda! Repete, se você for homem! 

 

Closes alternados. André estremeceu. Goram aprovou a postura dela. Pedro e Escova ficaram sem palavras. Samuel a olhou persuasivo. 

 

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CENA 07/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/EXTERIOR/TARDE

 

Heloísa chega no endereço dado pela assistente social. Era uma casa de dois andares, branca, de janelas verdes, com um jardim de flores na frente. ENCANTAMENTO.

 

CENA 08/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/ QUARTO 12/TARDE

 

Dona Noz Moscada, uma anciã rabugenta de 74 anos, apresenta seu apartamento, havia uma pequena salinha-cozinha, um quarto e um banheiro. Era a caseira do local. 

 

DONA NOZ-MOSCADA – Temos regras muito claras sobre o uso de energia elétrica, depois da meia-noite, passo vistoriando, todos devem estar dormindo. Banho de no máximo dez minutos para homens e vinte para mulheres. Coleguinhas até seis da tarde, namorado até às oito. Festinha sem muito barulho aos sábados até às sete. Você entendeu? 

 

Heloísa acenou que sim rapidamente.

 

DONA NOZ-MOSCADA – Ótimo. Pode me procurar para qualquer coisa, estou no térreo, apartamento 1, logo depois do extintor de incêndio próximo a entrada. Ah, sim, cuidado com o gás, tem que durar para o mês inteiro e o botijão é pequeno…

 

Heloísa se perde no beliche. Nunca havia visto um de perto. A anciã percebe.

 

DONA NOZ-MOSCADA – Ah sim, mas uma mocinha irá dividir o quarto contigo, são dois por apartamento para menina e quatro para meninos. 

 

Nesse instante, Suzy aparece retirando seu óculos de sol.

 

SUZY – Acho que é aqui.

Heloísa se vira. 

 

DONA NOZ-MOSCADA – Falando da própria…

 

HELOÍSA – Vai morar aqui também? 

 

SUZY – Sim, você também? 

 

Heloísa sorri e a cumprimenta.

 

HELOÍSA – Prazer. Chamo-me Heloísa.

 

SUZY – Eu me chamo Suzy, a colega de rep e cantora mais talentosa que você vai conhecer.

 

Heloísa riu e se simpatizou logo de cara.

 

HELOÍSA – E eu a nerd mais amável que você irá conhecer.

 

Dona noz-moscada as interrompe, voltando-se para Suzy.

 

DONA NOZ-MOSCADA- Bom, garota, preciso te apresentar as regras sobre a república dos estudantes…

 

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CENA 08/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/TARDE

 

FABIANA – Vamos! Fala de novo se você é homem! 

 

SAMUEL (ri) – Não preciso provar para ninguém que sou homem, não tenho problemas com isso. 

 

FABIANA – Mas um racista nojento não hesita em ser, mesmo sendo negro. 

 

SAMUEL – Acho que você precisa de um óculos, porque eu não negro. Sou moreno.

 

Pedro e Escova riem alto.

 

FABIANA – Aí que você se engana, meu querido. Pelo visto não conhece o conceito de colorismo, não importa a tonalidade mais retinta como a dele ou não, seus traços, sua fisionomia é afrodescente, é negro. 

 

Goram bate palma alto. 

 

SAMUEL – Essa guria viaja, tinha que ser mulher também. 

 

Dandara que passava perto, cospe em seu rosto. 

 

DANDARA – Alto lá, seu babaca machista. Quem você pensa que é para falar assim com ela? Cientificamente nós mulheres somos muito mais ágeis para lidar com muitas tarefas, temos inteligência emocional e intelectual mais elevada, somos maioria da população!

 

Pedro entra na conversa sarcástico.

 

PEDRO – Shi…Essa aí é feminista! 

 

DANDARA – Sou, com certeza. Com orgulho, justamente para impedir que babacas que nem vocês existam. 

 

SAMUEL – Moçada, essa aí com certeza não casa cedo, além de feia, beira sapatismos.

 

Dandara esmurra o veterano que tenta partir para cima dela, mas Vitor chega e o enfrenta.

 

VITOR – Tá maluco, velho? Vai bater numa garota? 

 

SAMUEL – Vou sim, por quê? Você vai me impedir? Essa vadia me bateu!

 

DANDARA – Vadia é a sua masculinidade frágil que precisa tratar mulheres e outros negros dessa forma para se sentir algo na vida. Mas você é um bosta! Um merdinha. 

 

Samuel tenta partir, mas Vitor o esmurra. Estudantes gritam porque eles se envolvem em um confronto. Pedro e Escova tentam ajudar o amigo até que seguranças do restaurante apartam.

 

SEGURANÇA 1 – Vamos parar com isso! 

 

SEGURANÇA 2 – Acabou a briga! Se continuarem vou levar a direção! 

 

Samuel, Pedro e Escova vão embora junto com uma galera da atlética. Samuel estava com nariz sangrando.

 

SAMUEL – Vocês todos vão me pagar! Principalmente você, vadia. 

 

André se sente mal ao ver que Romeu apoiou os valentões ao longe. Goram se volta para Vitor.

 

GORAM – Cara, você nos ajudou. Muito Aguijé.

 

VITOR –  Magina. Esses caras não podem tratar ninguém assim. Fazer trote com vocês.

 

FABIANA – Isso é uma merda. Essa política de muitas faculdades têm que acabar, não somos propriedades deles. 

DANDARA – Isso é cultural, mulheres inferiorizadas, cara assim não tinha nem que estar vivo, homem é tudo igual.

 

GORAM – Goram não é assim. 

 

VITOR – Nem eu. 

 

DANDARA – É cultural, acabam sendo inconscientemente. Por isso que sou lésbica, não consigo me envolver. 

 

FABIANA – Vamos continuar o almoço, se ainda for possível…

 

VITOR – Claro, claro. 

 

Eles se sentam e continuam o almoço. André contém o choro. Eles se apresentam em off. 

 

CENA 09/SÃO PAULO/ IMAGENS AÉREAS/ANOITECE

 

Mountain sound, hit de abertura da web-novela é mostrado no refrão com imagens da capital anoitecendo, trânsito da marginal Tietê. Bares noturnos acendem suas luzes. Baladas ligam seus neons. Aviões riscam o céu no horizonte. 

 

CENA 10/SÃO PAULO/CENTRO/ BORDEL BOVARY/NOITE

 

Marcela termina de pegar suas roupas, quando Bovary do alto da escada joga seu perfume importado

 

BOVARY (irônica) – Era seu, né? Perdoe-me!

 

Marcela ri. 

 

MARCELA – Você acha que estou saindo daqui humilhada, sua velhota ? É um dia de glória para mim saber que depois que passar por aquela porta nunca mais precisarei olhar para sua cara! 

 

Larissa se aproxima com outras meninas

 

LARISSA- Nós vamos sentir sua falta, amiga! 

 

E a abraça chorando. Tiffani, 16 anos, negra a abraça. 

 

TIFFANY – Sim! Fará muita falta nesta casa. Rainha.

 

Marcela promove um abraço coletivamente

 

MARCELA – Saibam que esta história não terminará assim! Eu vou voltar para buscar todas vocês! 

 

BOVARY – Mas que papinho mais para boi dormir! Termina logo isso e volta para casa daquele mendigo que te abrigou esses dias até a dondoca resolver voltar aqui e pegar as tralhas dela. 

 

Germana. 24 anos. Ruiva.

 

GERMANA- Você nos enche de orgulho! É uma inspiração para todas nós! 

 

 

MARCELA(emocionada) – Vocês que são uma inspiração para mim! Exemplos de coragem diária! Não é porque vendem o corpo que merecem ser destratadas, inferiorizadas. Vestir um jaleco branco é fichinha perto de rodar bolsinha na Paulista quatro da manhã. 

 

Bovary se irrita

 

BOVARY – Ai chega desse chororô aí em baixo! 

 

MARCELA – Não se preocupe, sua coruja velha, já estou de saída! 

 

Ela sobe as escadas e aponta o dedo na cara da cafetina

 

MARCELA – Só mais uma coisa, sua demônia. Por mim eu te denunciava por exploração sexual de menor! Você bem que merecia pegar uma cana bem braba. Passar os seus últimos dias na cadeia. Mas por conta delas, por conta de saber que se essa espelunca fechar elas ficarão na rua da amargura, que eu não poderei ajudá-las tão breve, só por isso eu não te denuncio. Mas ai deu saber que você maltratou, humilhou uma delas. Eu viro bicho! Eu volto para te matar, sua desgraçada! Você entendeu? 

 

E saiu batendo o pé, enquanto Bovary a maledicia a quatro cantos.

 

A música Trevo de Anavitória começa a tocar

 

Na calçada da frente, um amigo ajudava Marcela a colocar a bagagem no porta-mala de seu velho chevette. Ela dá um último abraço nas meninas e mulheres antes de partir, Larissa chora alto. 

 

MARCELA (já no carro) – Obrigada Zé! Pela força que está me dando. Sem você, não sei o que seria de mim! 

 

José: Homem branco e obeso. 53 anos. Divorciado. 

 

JOSÉ – Imagine, minha flor! Não é todo dia que temos um mulherão desses dentro do nosso carro e hospedada na nossa humilde residência.  

 

Marcela ri.

 

MARCELA – Você não tem jeito mesmo, Zé. Agora toca para bem longe daqui! 

 

JOSÉ – Como quiser, minha deusa! 

 

Ela acena para as meninas, fazendo um coração no vidro.

 

Após o carro virar a esquina, Bovary aparece cobrando.

 

BOVARY – Vamos parar com essa tempestade e gastar toda essa energia naquela louça imunda na pia e o chão do salão. Clientes vão chegar, não podemos afugentá-los. 

 

Larissa e as meninas a encaram resistentes e se adentram.

 

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CENA 11/SÃO PAULO/REPÚBLICA/EMISSORA BOITEMPO/ EDIÇÃO JORNALISTA/CORREDOR/NOITE

 

Rita sorri satisfeita ao sair de um elevador. 

 

RITA – Agora você está ferrado, seu Mateus Moça! Vai aprender a tratar gente simples com humanidade também.

 

Ela ri e fazendo uma dancinha para comemorar sai do prédio. 

 

CENA 12/SÃO PAULO/ VILA MADALENA/ CASA DE ADELAIDE/ INTERIOR/QUARTO DE GORAM/NOITE

 

O mocinho está sentado na sua cama quando se recorda da noite de assassinato de seus pais e de quando Mateus decidiu o sequestrar  

 

INÍCIO DO FLASHBACK

 

CENA 05/SÃO PAULO/ JARDIM AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/ SALA DE ESTAR/NOITE CHUVOSA

 

BERNARDO – Seu irmão viu tudo! 

 

MATEUS – Você acha que sou cego? Bernardo! Agora nós temos que sumir com esse moleque de vista. Antes que esse mini-humano abra a boca! E eu não duvido não, pentelho do jeito que é.

 

Giovane (Goram) que estava contido pelos capangas em seu quarto, escutando a conversa, escapa e enfrenta o irmão mais velho.

 

GIOVANE – Eu não sou pentelho! Vou te entregar para a polícia. Você e seu namorado vão ser presos! 

 

Mateus o esbofeteia. 

 

MATEUS – Para de encher o saco! Tá vendo Bernardo, esse ser precisa sair de circulação.

 

Ele para um instante. Olhos dilatados. Sorriso maldoso. 

 

MATEUS – Mas como eu não pensei nisso antes? Um sequestro! E ainda enfatizo a minha performance de órfão desesperado! 

 

Ele se abaixa e contempla o irmão com um olhar sádico.

 

MATEUS – E se der tudo certo, será a última vez que você vai pisar nesta casa!

 

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CENA 13/SÃO PAULO/ VILA MADALENA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ INTERIOR/QUARTO DE GORAM/NOITE

 

Olhos avermelhados. Grito de dor. Taquicardia. Close no corpo estacado de Goram. Fecha em sua mão com um copo de água quebrado pelo esforço. 

 

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CENA 14/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/ QUARTO 12/NOITE

 

Suzy estava tomando banho quando o chuveiro queima, caindo água gelada em seu corpo. Ela grita. Heloísa, uma de suas colegas de quarto, aparece no banheiro.

 

HELOÍSA – O que aconteceu? Você está bem? 

 

SUZY – Essa merda queimou! E pior que nem ensaboei o corpo. Vou ter que terminar com essa água gelada.

 

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CENA 15/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/ CORREDOR TÉRREO/NOITE

 

Suzy aperta a campainha acompanhada de Heloísa que arruma os óculos redondos. Escutam uns resmungos e um andar arrastado até que a porta se abre.

 

DONA NOZ-MOSCADA – O que querem a essa hora? Já não acham que está tarde para duas mocinhas estarem fora da cama? 

 

SUZY (Ri) – Quantos anos a senhora pensa que nós temos? 12?

 

HELOÍSA – Calma Suzy! Viemos aqui Dona Noz-moscada porque a resistência do chuveiro queimou e estamos sem água quente! A Senhora não teria o telefone do zelador ou de algum mecânico? 

 

A senhora resmungou 

 

DONA NOZ-MOSCADA – Vocês me acordam só por isso? Que foi, demoraram muito tempo no banho, né? (Suzy olha com desdém para cima) . Não poderiam ter esperado até amanhã? Aguardem só um minutinho.

 

Ela entra soltando bufos e depois de alguns minutos retorna trazendo uma resistencia velha empoeirada.

 

SUZY – Mas que raios é isso? 

 

DONA NOZ-MOSCADA – Aqui não é hotel cinco estrelas, não, minhas filhas. É uma simples república de estudantes.

 

SUZY – Mas essa mulher só pode estar de brincadeira com a nossa cara. 

 

Heloísa contesta.

 

HELOÍSA – Dona Noz-moscada, nós não temos curso técnico na área. Como vamos montar? 

 

DONA NOZ-MOSCADA – Isso já não é problema meu. Agora parem de me importunar e vão dormir! 

 

E bate a porta na cara delas. Heloísa fica incrédula. Suzy explode.

 

SUZY – Por pouco eu não acabei com essa velha. Eu me segurei! 

 

HELOÍSA – Calma. Não ia adiantar nada. E agora como vamos arrumar o chuveiro? 

 

Gustavo que voltava da academia ouvindo e gingando David Guetta se surpreende ao vê-las ali de pijama. 

 

GUTO – O que as gatinhas estão fazendo aqui? Precisam de algo? 

 

HELOÍSA – Você conhece algum contato de um mecânico? Nosso chuveiro queimou e a Dona Noz-Moscada nos entregou essa resistência para colocar no lugar da outra. Mas nós não sabemos arrumar! 

 

GUTO – Caralho! Que coroa lunática, velho! Ela entregou a resistência para vocês assim? 

 

SUZY – Eu não sei como me deixam uma LOUCA tomar conta de uma república de estudantes!

 

Suzy profere alto a fim de atingir a mulher. Guto toma da mão de Heloísa.

 

GUTO – Pode deixar comigo, gatinhas. Eu aprendi com meu velho pai. Conserto para vocês.

 

As duas se olham surpresas.

 

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CENA 16/  SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/ QUARTO 12/NOITE

 

SUZY – Não tem perigo você levar choque, irmão? 

 

Gustavo terminava de arrumar o chuveiro em cima de uma cadeira.  Ele a fim de pregar uma peça começa a estremecer, fingindo ter levado choque.

 

GUTO – Caralho! Desliga essa merda. Vou morrer torrado!

 

As duas ficam desesperada sem saber o que fazer. Até que ele desce em gargalhada.

 

GUTO – Brincadeirinha! Prontinho, madames! 

 

Suzy cerra os punhos e avança para aproxima dele. Heloísa a segura por um instante. Ele sai rindo do apartamento. 

 

HELOÍSA – Obrigada Guto! 

 

SUZY – Vontade de socá-lo. Ele quase me matou de susto! 

 

HELOÍSA (abre o chuveiro) – Pelo menos a Dona Noz-Moscada nos deu uma resistência que preste. Desse mal não morremos. 

 

Suzy observe sua imagem no espelho e sente a mesma melancolia de sempre.

 

SUZY – Sim. Pelo menos desse mal não morremos! 

 

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CENA 17/SÃO PAULO/ VILA MADALENA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ INTERIOR/COZINHA/NOITE

 

Goram termina de tomar leite com cereais e não para de pensar nas palavras de Mateus ao abrir a faculdade para os recém chegados. 

 

MATEUS(V.O) – Tem lugar para todos aqui crescerem aqui. Somos privado, somos gratuítos, somos cinco estrelas. Boa vinda a todos, sigam aos veteranos e dinos, estas duas primeiras semana serão apenas de apresentações. 

 

Themise entra na cozinha trazendo o kit bicho. Ela fica chocado ao ver a mão do rapaz enfaixada. 

 

THEMISE – Meu Deus! O que aconteceu com sua mão?

 

GORAM – Acabei quebrando um copo. Mas depois avisa sua sy que eu reponho sem falta! 

 

THEMISE – Mas você está bem?

 

GORAM – Estou sim! 

 

THEMISE (ela senta ao seu lado) – Estava terminando de ler o Kit Bixo que peguei emprestado com você, hoje cedo antes de ir na universidade. Essa faculdade é maravilhosa, além de ser um verdadeiro universo com diversos departamentos. Possui muitas atividades extracurriculares! E desde o começo viu? Tem uma olímpiada daqui duas semanas! 

 

GORAM(Curioso) – Eita Porra! Uma olimpíada? 

 

THEMISE – Sim! É mais o povo do sexto que faz tá falando. Cai matérias do ciclo básico e clínico. 100 questões de múltipla escolha para serem realizadas em 3 horas. Dizem que Olímpius sempre conquista medalhas de prata e bronze.

 

Goram se vira para ela animado, tomando o kit. 

 

GORAM – E de ouro? 

 

THEMISE – Não fala nada. Acredito que não. É um dos eventos mais aguardados no início do ano da faculdade. Dizem que em 2016, a galera que conseguiu pontuação mais alta na história da faculdade ganhou até um passeio de jatinho com homens importantes e investidores internacionais.

 

GORAM (Mais animado)- Só o filé de Gurijuba! Homens importantes? 

 

THEMISE – Sim! Citam o nome de um tal de Professor Doutor Mateus Pacheco Moça.

 

Close no rosto malicioso de Goram, o qual vai esbanjando gradativamente um sorriso amarelo. Hugo aparece na cozinha. 

 

HUGO – Thamise você pode me ajudar com o aspirador novo? Não estou entendendo nada. 

 

THEMISE – Claro pai! Já volto Goram!

 

Themise sai. 

 

GORAM(balbucia) – Agora eu te peguei, seu monstro! Tupã está comigo. Será o começo do teu fim!

 

Começa a tocar a música de abertura The Hardest Part da banda Coldplay com a transparência de seu olhar determinado se misturando a imagens de São Paulo.

 

CENA 18/IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/ MANHà 

 

Imagens aéreas da cidade de São Paulo : Ponte Estaiada. Ceagesp. 25 de Março com seu comércio popular. Zoológico mostrando Girafas comendo folhas as mais altas árvores. Macacos brincando nos galhos e onças-pintadas rugindo para as famílias que ali passavam, indicando que o dia amanheceu. 

 

Legenda : duas semanas depois…

 

CENA 19/SÃO PAULO/ PARAISÓPOLIS/ CASA DOS PEREIRAS/MANHÃ

 

Fabiana encontra a mãe chorando na área de serviço, enquanto puxa do varal o uniforme de doméstica. 

 

FABIANA – Mãe! Você está chorando? 

 

Carolina a surpreende com um abraço 

 

CACAU – Você não sabe como me enche de orgulho. Desde que seu irmão morreu, eu não tive nenhuma notícia boa. Agora, minha filha vai ser médica. Irão começar as disciplinas. 

 

Fabiana a abraça forte

 

FABIANA – E eu te juro mãe! A primeira coisa que vou fazer quando sair da faculdade é te dar uma vida confortável. Você vai pedir demissão em todos esses trabalhos humilhantes! Essa vitória não é só minha.

 

Carolina a pega na mão. 

 

CACAU – Eu te amo, minha preta! 

 

FABIANA – Eu também, mãe! E saiba que a casagrande surta quando a senzala vira médica!  Agora deixe-me ir que ainda tenho que falar com as meninas do basquete. 

 

A jovem sai animada 

 

Exterior da casa

 

Fabiana é seguida por Guto em seu conversível. Mostrar que ele está INTERESSADO. 

 

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Instrumental de mistério começa a tocar

 

Caroline retira de uma das gavetas da cozinha a foto de um homem negro que no passado formava junto com ela um casal

 

CACAU – Por que você tinha que voltar! Por quê? 

 

Fade out instrumental de mistério

 

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CENA 20/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ SALA DE APLICAÇÕES/MANHÃ

 

Goram terminava de olhar seus rascunhos das principais disciplinas que caem na Olimpíada. Estava abatido. Olheiras. Estômago roncando. Vitor estranhou quando o viu, o jogador de vôlei estava acompanhado de Zeca e Nara.

 

VITOR – Brother! Você sumiu! Mandei-te mensagens nas redes sociais nas últimas semanas! Chamar-te para tomar um goró na Bar do Esteto. Levar para conhecer a bateria da atlética! 

 

GORAM – Pior né? Foi mal! Eu estava estudando para Olímpiada! 

 

Zeca pergunta com desdém.

 

ZECA – Você? Um calouro, vai fazer a Olimpíada? Para quê? Não viu nada! Vai errar a maioria das questões! 

 

GORAM – Eu fiz um cursinho pré-vestibular muito bom na minha tyba, aprofundou bem em biologia, depois sempre fui muito curioso, pesquisava muita coisa na internet sobre medicina. Sem contar que nessas duas últimas semanas estudei demais. 

 

ZECA – Para mim, você vai dar com os burros d’água! 

 

Nara percebe a impertinência do amigo com o rapaz

 

NARA – Muito provavelmente você vai se frustrar, querido. Mas não custa tentar. Assim você vai pegar o estilo da prova e poderá melhorar nos anos seguintes.

 

Goram sorriu. O Sinal tocou anunciando o início das provas.

 

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CENA 21/MANHÃ/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ ANFITEATRO DE PROCEDIMENTOS/MANHÃ

 

Dinorah, 56 anos, baixa, cabelo curto, aparentemente simpática, recebeu a turma de mais de 100 alunos animada.

 

DINORAH – Sejam muito bem-vindos, meus doces. Sou Professora Dinorah, vou trabalhar com vocês no primeiro semestre a disciplina de Práticas de Enfermagem! 

 

Eliane estranhou

 

ELIANE – Enfermagem? Mas nós não fazemos medicina? 

 

Alguns riram em sua volta. Dinorah explicou

 

DINORAH – Logicamente vocês cursam medicina, minha boneca. Como você se chama? 

 

ELIANE (cabreira)- Alessandra! 

 

DINORAH – Pois muito bem, Alessandra.Minha disciplina ensinará vocês alguns procedimentos básicos que posteriormente serão de muita utilidade. Principalmente os que desejarem seguir carreira cirúrgica. Vou ensinar vocês a lavar as mãos.

 

Muitos riram sem entender.

 

MARCELA – Lavar a mão? Professora?

 

DINORAH – Sim! Lavar corretamente a mão! Aposto que vocês não sabem fazer a antissepsia correta. A diferença entre assepsia e antissepsia. Há todo um procedimento correto, sempre de distal para proximal, movimentos circulares nos polegares! Irei ensiná-los tudinho.

 

A sala a olha com desdém. 

 

DINORAH – Mas não ficaremos apenas nisso! Aprenderemos a fazer todos os tipos de cateterismos envolvendo regiões nasais e orais com estômago e intestinos. Manuseios de tipos de agulhas! Amarelas para o subcutâneo. Cinza para o intermuscular. Como colocar luvas cirúrgicas. Ministrar medicamentos. Fazer uma correta traqueostomia.Dentre outros tantos procedimentos amigáveis.Mas agora para começarmos o ano animados! 

 

A sala estava amedrontada depois dessa descrição e ao mesmo tempo animada em pôr a mão na massa. Mostrar isso no rosto dos estudantes. Ela vai até a porta principal.

 

DINORAH – Façam-me o favor! 

 

Alguns monitores entram trazendo bonecos de procedimentos.

 

DINORAH – Vamos iniciar fazendo uma simulação! 

 

Ela pede para que eles desçam de seus lugares e se aproximarem dos autômatos

 

DINORAH – Todos estão prontos? 

 

Eles estranham. Os monitores apagam algumas luzes. Ela dispara um alarme de emergência. Instrumental dramático.

 

DINORAH(berra) – Andem logo seus incompetentes! Os pacientes estão morrendo! Salvem suas vidas! 

 

Os primeiroanistas se apavoram. Alguns correm de um lado para o outro. Alguns se viram para o lado e perguntam o que devem fazer. Mas a maioria se abaixa e começa a tentar fazer o procedimento. Dinorah passa entre eles.

 

DINORAH – Tá errado essa merda! Está matando o pobre coitado! Olhe para ela, ela está mais correta que você. Mas vocês são uns lixos mesmos. Não prestam para nada mesmo! 

 

Bárbara, uma jovem loira, baixinha, sai chorando da sala se achando péssima. Passados alguns minutos. Ela desliga o alarme e pede para acender todas as luzes. 

 

DINORAH – Por favor Cíntia e Abel vão atrás da jovem que saiu e tentem acalmá-la! Depois peça para ela falar comigo! 

 

Aqueles que escutam a fala, acham-na bipolar. Ela os tranquiliza.

 

DINORAH – Acalmem-se meus doces! Isso foi uma simulação do que enfrentarão nos anos de Internato. Não sou médica, mas conheço bem o ambiente. Por isso precisam estar preparados não apenas tecnicamente, mas psicologicamente! Isso que vivenciaram aqui foi uma simulação. Uma amostra. Mas fiquem sossegados. Não sou essa ditadora toda. Talvez só um pouquinho(ri)

 

GUTO – Só um pouquinho. Seu tamanho engana bem! A senhora é o verdadeiro cão chupando a manga! 

 

Alguns riem de nervoso.

 

DINORAH (ri estridente) – Sou nada, meu rapaz! Considero até uma das mais boazinhas dessa instituição.

 

Os alunos estacam. Ela gargalha.

 

DINORAH – Precisavam ver a cara de vocês! Impagável! Entra ano! Sai ano! É sempre as mesmas carinhas de pânico. Mas não precisam ter! Teremos seis meses praticamente para trabalhar todo o conteúdo! Isso será aprofundado depois em Técnicas Operatórias no sexto semestre e nas vivências no ciclo clínico. Agora sentem-se, vamos ver a teoria sobre técnicas de massagem em reanimação cardíaca. Inclusive em bebês! 

 

Suzy susurra para Heloísa.

 

SUZY – Que tapa na cara! Encerrou essa simulação praticamente dizendo não subestimem enfermagem. 

 

Heloísa sente falta de Goram na aula. 

 

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CENA 22/TARDE/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO

 

Goram está terminando de almoçar quando avista algumas pessoas da sala que o reconhecem e se aproximam dele. Heloísa se cora ao lembrar da noite que ficaram no bar do Esteto. Marcela quebra o gelo.

 

MARCELA- Meu Deus um indiozinho, uga-uga. Prazer, tia Marcela.

 

GORAM(ri) – Eu me chamo Goram Alves! Kunhã!

 

GUTO – Onde você estava? Brother! Não te vi na aula de Enfermagem! 

 

GORAM – Fui prestar a tal Olimpíada! 

 

Guto não havia lido com detalhes o Kit Bixo

 

GUTO – Olimpíada? 

 

ANDRÉ- Mas já? Pelo que vi, caem matérias básicas e clínicas! Geralmente é o 5º e 6º ano que prestam! Nós estamos começando agora! 

 

GORAM – Sim! Goram tentou estudar nessas últimas semanas! 

 

Viviane, uma caipirona mato-grossense aparece eufórica e se senta junto a mesa. 

 

VIVIANE- Misericórdia! A comida é danada de boa e por 3 conto! Belisquem-me que eu não tô sonhando! 

 

Marcela a belisca e ela grita alto.

 

VIVIANE – Ai! Não tão forte assim sua jumenta! 

 

A prostituta quarentona ri. 

 

Vitor aparece e toca no ombro do protagonista.

 

VITOR – Meu! Você não vai acreditar! Acabou de sair o resultado da Olimpíada em todo território nacional!

 

VIVIANE – Esse é o veterano que me adotou, gente. Mas ele não faz trote, está me abrigando enquanto arrumo lugar para melhorar. 

 

Todos o cumprimentam. Vitor se cora.

 

GORAM – Égua moleque, mas já?Que rapidola! 

 

VITOR – É máquina que corrige. Isso é histórico na faculdade! Um aluno primeiranista conquistar o primeiro lugar da Olimpíada! Mano, tu conquistou medalha de ouro! 

 

Instrumental explosivo. Goram se levanta com gosto. Instrumental crescente. Os outros estudantes ouvem tudo calados. Alguns sentem dor de cotovelo. Outros ficam felizes.

 

GORAM – Tá cheroso? Você tá de brincadeira, só pode maninho! Eu não pensava que conseguiria assim logo de primeira! 

 

VITOR – Não, man! Veja com seus próprios olhos! O Diretor e o Reitor da Olimpius estão extasiados lá na direção da medicina! Querem por que querem te conhecer e parabenizar! 

 

Goram sorri para seus novos colegas e acompanha Vitor 

 

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CENA 23/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ DIRETORIA DA MEDICINA/TARDE

 

Vitor aparece trazendo Goram. Estava um farfalhar de sextoanistas curiosos do lado de fora da diretoria. Zeca encarou o mocinho com cólera. Nara de boné sorriu de orelha a orelha. Renan, um oriental quinto-anista do tênis de mesa o abordou.

 

RENAN – Cara! Me ensina a fazer essa Olimpíada?

 

George, um monitor de neuroanatomia e ativista da UJC(União dos Jovens Comunistas) mostrou interesse. 

 

GEORGE – Qual teu segredo, camarada? 

 

Ele manda mensagem no celular para alguém. FOCAR no nome : Professora Rita. Focar na mensagem: “Hoje teremos a manifestação dos funcionários de limpeza juntos a Unidade Classista”

 

NARA – Mandou muito bem, cara! Inacreditável! 

 

Eles entram

 

VITOR – Professores! Aqui está Goram ! 

 

Mateus se vira e Goram fica frente a frente com seu irmão. Instrumental explosivo. O grande assassino de seus próprios pais. Por um momento sente receio de que ele o reconheça pelo olhar, contudo, depois de uns instantes de silêncio, o capeta irrompe em palavras.

 

MATEUS – Então você é o garoto que nos conquistou o título de primeiro lugar da faculdade na Olimpíada Med- Seller? Olha! Eu estou sem saber o que te dizer! É Inominável! Chegou a cursar um tempo de medicina em alguma outra instituição antes de vir para cá?

 

GORAM(nervoso) – Égua Não! Comecei o curso hoje! Ixé Fiquei sabendo pelo Kit Bicho há algumas semanas quando realizei a matrícula presencial na semana passada! 

 

DIRETOR – Mas isso é totalmente fora da curva. Podemos estar diante de um crânio. Mestre! Um crânio! 

 

Mateus o contempla de canto a canto por um instante, Goram disfarça sua náusea, depois Mateus rouba um aperto de mão.

 

MATEUS – É com muito orgulho que eu digo, seja bem vindo a nossa instituição e as nossas vidas! Muito prazer! 

 

Vitor admira o novo amigo, acha um barato. Diretor esfrega uma mão na outra como quem achou a galinha dos ovos de ouro. Mateus emana orgulho de dentro. Goram contempla o vilão semelhante o que uma aranha executa a uma mosca presa em sua teia. Profere.

 

GORAM – Imagina Professor Doutor! O prazer é todo meu! 

 

Voz ecoa. 

 

Instrumental explosivo. Close no seu rosto malicioso e sedento por vingança. Congela.

Fade out

CONTINUA…

 

  

 

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NAVEGAR

  • Mais um excelente capítulo. Os temas polêmicos sendo tratados com maestria. Gostei muito. Final top. Só quero ver onde isso vai levar!

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