Estação medicina

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Capítulo 15

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 15

AMORES LILÁSES

 

FADE IN

 

CENA 01/SÃO PAULO/BURACO QUENTE/CASA DE PÂMELA/EXTERIOR

PÂMELA – Isso é mentira, isso não pode ser verdade! Você tá mentindo, você nem conhece ele!

ANDRÉ – Eu jamais inventaria isso, Pâmela. O próprio Goram me confirmou. Bernardo armou tudo!

PÂMELA – Não pode ser ele, ele não pode fazer isso comigo. Ele não teve essa coragem. Ele me ama.

ANDRÉ – Você tem certeza disso?

Ela ficou um minuto em silêncio, chorando.

ELEONOR – Minha filha, não chore, ele não merece seu sofrimento.

Pâmela entrou correndo, bateu a porta atrás dela, a porta voltou sozinha a abrir.

CENA 02/INTERIOR.

PÂMELA – Não acredito nisso!!! Como ele pode fazer isso comigo?

André troca olhares com a mãe

PÂMELA – EU MATO ELE! EU MATO AQUELE CANALHA! AQUELE MONSTRO!

E começou a derrubar vaso, controle de televisão, copos no chão. Ouve-se um grande barulho de vidro se quebrando.

ELEONOR – SE ACALME, PAMELA, MINHA FILHA! PELO AMOR DE DEUS!

Ela não parava de jogar as coisas no chão e pisotear de raiva, nervoso. André a segurou.

ANDRÉ – Se acalma, se acalma!

PÂMELA – AQUELE ORDINÁRIO ME ENGANOU, FINGIU ESTAR PREOCUPADO COMIGO, SE IMPORTAR, SENDO QUE ELE ERA O RESPONSÁVEL POR TODA DESGRAÇADA QUE TAVA ACONTECENDO.

Ligar flashback rápido: Ela se lembra que logo depois que avisou Bernardo do sumiço de sua mãe, ela recebeu um telefonema. Ela se lembra dele levando ela na delegacia, abraçando ela quando ela chorava agarrada a perna da mãe morta e depois no velório e no enterro. Ela se lembra do bilhete.

Pâmela se volta para André.

PÂMELA – E o bilhete? Quem escreveu o bilhete?

André hesita um pouco. Engole seco.

ANDRÉ – Não sei, de que bilhete está falando?

PÂMELA – Eu recebi um bilhete indicando o local do cativeiro. Uma pessoa escreveu para mim.

ANDRÉ – Escreveu?

Ela percebe que ele não parecia não saber de nada. Senta na cadeira calma, Eleonor se aproxima trazendo um copo de água com açúcar, ela a toma. Big-close-up em André respirando fundo.

CENA 03/RORAIMA/BOA VISTA/IMAGENS AÉREAS

São mostradas imagens aéreas da cidade.

CENA 04/RORAIMA/BOA VISTA/APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/INTERIOR/COZINHA/NOITE

ODIN (retirando o celular do ouvido) – Eita porra! Onde essa piá foi se meter? Aí, ó, caindo na caixa postal de Araponga de novo. Falta de levar umas boas palmadas.

EPÍFITA – Deixe de ser lesado, homem. Você quer resolver tudo brigando, é por isso que nossa filha não confia na gente.

VITÓRIA-RÉGIA – Lesada aqui é você. Sabia que este é seu grande problema, Epífita, tu acha que diplomacia se resolve tudo, olha onde a diplomacia levou tu?

Epífita fica sem saber o que dizer.

ODIN – Por maíra, não podemos ficar aqui feito pau-brasil, precisamos ver se sy’y está na casa de algum parente, de algum amigo.

VITÓRIA-RÉGIA – Acho difícil essa curuminha estar na cidade, Araponga levou muitos trajes, deve estar longe há muito tempo, capado o gato.

EPÍFITA – Égua! Não fala uma coisa dessas mãe!

VITÓRIA-RÉGIA – Tô sendo realista, Epífita.

EPÍFITA – Pessimista, isso sim.

ODIN (com celular no ouvido) – Alô, Iracema, tudo bem? Aqui é Odin…

CORTAR PARA:

CENA 05/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS.

CENA 06/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Plano Americano. Viveiro. Mostrar Cecília se deslizando sobre as rochas lentamente e indo dormir dentro de uma abertura entre elas, uma espécie de pequena caverna.

Plano Geral. Goram e Mateus tomam vinho sentados em poltronas próximas, um de frente para o outro.

MATEUS – Como é bom ter sua companhia hoje para beber um vinho comigo, geralmente tenho tomado sozinho.

GORAM – Sozinho? Égua! Mas tu não tem a companhia de seu Bernardo?

MATEUS – Que nada, Goram! Faz tempos que não temos um momento como este, ele chega tarde da noite, vive tratando de negócios. (Ri). O que duvido muito! E já vai dormir, geralmente acordo mais cedo que ele, vou para reitoria e volto só de noite.

GORAM – Não estão mais fazendo aquelas tapetes matinais então?

MATEUS – Ultimamente tenho acordado meio indisposto, sabe? Mas quando estou querendo, ele não quer. Sinto que estamos nos afastando cada vez mais.

Instrumental explosivo. Big-close-up na face de Goram que se inclina na direção do vilão. Olhos do anti-herói brilham. Sorriso malicioso na face do indígena.

GORAM – Eita! Floresta Braba, é uma pena…Mateus! Tu é um companhia tão agradável, como Mateus pode estar perdendo isso?

Mateus se encanta com aquelas palavras.

MATEUS – Pois, é. Não sei como ele está perdendo isso.

Eles trocam olhares maliciosos. Goram, obviamente, encena.

GORAM – Goram pensa que quando não há mais diálogo possível entre mayma, o relacionamento fica mais difícil, furioso, não podemos nos deixar levar por vínculos kã, desertos, somos jovens ainda, o senhor é jovem, precisa viver a vida com a intensidade que merece.

Mateus se inclina na direção do rapaz.

MATEUS – Jura que me acha jovem? Eu já estou a caminho dos quarenta.

GORAM (esconde sua náusea) – Égua moleque e isso não é ser jovem? A Expectativa de vida média do brasileiro branco não é de 73 anos? O Senhor deve passar os 80 tranquilamente.

MATEUS – Você não sabe como me conforta ouvir isso, é verdade, eu preciso viver minha vida, começar a se preocupar mais comigo e com vínculos que se importam mais comigo.

GORAM – Sanhaçu! Esse é o espírito!

MATEUS – Brinda comigo?

GORAM – Hee.Com certeza.

Eles brindam.

MATEUS – Para que eu sempre me lembre disso!

GORAM (falso) – Para que Mateus se lembre disso…

Mateus bebe o vinho, fechando os olhos e sentindo o prazer da bebida. Goram o observa bebendo seu vinho e com vontade de vomitar.

CENA 07/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/QUARTO 12/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Heloísa está na varanda contemplando o luar. Está tocando a música Trevo de Ana Vitória.

Ligar flashback rápido: Goram e ela andando de bike pelo Ibirapuera, depois o primeiro beijo no hospital, a primeira transa, as flores que ele entregou a ela na saída da faculdade, quando Dona Noz- Moscada flagrou eles se beijando na frente da república.

Desligar flashback. Focar na face de Heloísa perdida em pensamentos. Mas ela desperta com a chegada de Suzy com o vilão na mão cantando alto.

SUZY – Que país é esse? Que país é esse? No amazonas,  NO Araguaia…Na morte eu descanso, mas o sangue anda solto, manchando os papéis, documentos fiés ao descanso do patrão…

Ela toca um pouco o violão.

HELOÍSA – Meu Deus, amiga. Eu já sabia que você cantava muito bem, agora tocar violão também?

SUZY (Deposita o vilão num canto e abre a geladeira para pegar seu iogurte) – Que nada, tô aprendendo, Nara tá me ensinando nos ensaios da Fada Madrinha.

HELOÍSA – Mal vejo a hora de ouvir você cantar num grande evento. Vocês tem previsão de algum?

SUZY(Senta no sofá) – Sim, vai ter a festa da Calorada daqui há duas semanas. Nara me disse que quer que eu cante junto com ela, tô extremamente nervosa, porque vem toda galera de med, dos outros cursinhos e até de outra faculdade.

HELOÍSA (Senta no sofá da frente) – Nossa, que responsa! Tão vendendo ingresso já?

SUZY – Não, ainda não. Vão começar na segunda que vem.

HELOÍSA – Show! Espero que não seja muito caro.

SUZY – Né, não. Cinquenta conto acho.

HELOÍSA – Ah, tranquilo então.

SUZY – E o Goram?

HELOÍSA – O que tem o Goram?

SUZY – Veio te dar uns amassos aqui hoje?

Heloisa pega uma almofadinha do seu sofá e joga contra Suzy num tom de brava bem humorada.

Suzy gargalha alto.

HELOÍSA – Tu me respeita, viu? Eu só lá de amassos.

SUZY – Que que tem, mana? Você é muito careta! Todo jovem saudável tem uma vida sexualmente ativa!

Suzy volta a rir. Heloísa pega outra almofadinha e joga contra a amiga.

HELOÍSA – Fecha a boca, desgraça!

SUZY – Mas ele veio ou não?

HELOÍSA – Não veio, ele tá fazendo aula particular com o reitor.

SUZY – Aula particular?

HELOÍSA – Sim, aulas para melhorar o inglês dele por conta do intercâmbio.

SUZY – Ah sim, esqueci que ele é nerd igual a você. E seu irmão?

HELOÍSA – O que tem ele?

SUZY – Não apareceu mais por aqui?

HELOÍSA – Pois é, anda meio sumido.

SUZY – Ele ainda tá de galhinhagem para cima do marido dele?

HELOÍSA – Não sei.

SUZY – Preparada para assumir novamente o papel de amante?

HELOÍSA(riu) – Só faltava! Não sei se te contei, mas também morre aqui, o meu irmão é casado com o Mateus Moça.

Suzy quase cuspiu o iogurte.

SUZY – Seu irmão é casado com o reitor? Que tá dando aula para Goram?

HELOÍSA – Sim, sim.

SUZY – Meu Deus e você teve todo esse esforço para passar numa universidade super difícil sendo que ele podia ter facilitado as coisas para sua entrada.

HELOÍSA – Até parece, miga. Isso é antiético! Eu jamais aceitaria essa barganha! A vaga deveria ser fruto do meu esforço e das oportunidades que pude ter na vida, jamais pelo meu cunhado, é tão estranho falar assim, ser herdeiro de toda a universidade.

SUZY – Eu teria aproveitado!

HELOÍSA – Além do mais, eu nem sabia que meu irmão estava casado com ele, porque meu irmão mal dá notícias para gente lá em Poços de Caldas! Fazia anos que não o via.

SUZY – Tendi, mas vocês trocam mensagens pelo menos, né?

HELOÍSA – Tentamos nos falar algumas vezes na semana. Meu irmão é tão especial, queria muito apresenta-lo ao Goram, tenho certeza que ele irá gostar.

SUZY (termina de tomar o iorgute) – Fico imaginando a surpresa de Goram ao saber que o marido do reitor da universidade que ajuda ele com o intercâmbio é na verdade seu irmão.

Heloísa concorda.

HELOÍSA – Com certeza, será um grande choque.

CORTAR PARA:

CENA 08/SÃO PAULO/BURACO QUENTE/CASA DE PÂMELA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Pâmela esmurra a mesa, irada.

PÂMELA – Aquele desgraçado precisa ser responsabilizado por tudo que fez!

André a observa, ele estava com celular na mão.

Eleonor chega da cozinha.

ELEONOR – Eu lavei a louça e guardei que estava na pia.

PÂMELA – Que isso, Dona Eleonor, não precisava.

ELEONOR – Precisava sim, no estado que você está seria capaz de quebrar a casa inteira.

PÂMELA – Bem que eu queria mesmo!

ELEONOR – Só que aí quem se ferra é você mesma. Por que vai te que comprar pratos novos.

PÂMELA – Nem me lembra disso! Minha raiva aumenta!

E volta a esmurrar a mesa.

ELEONOR – Hey, vamos parar com isso! Hoje você dorme lá em casa.

PÂMELA – Que isso, vou dormir aqui mesmo.

ELEONOR – Você não está em condições de ficar sozinha, pode se machucar.

André concorda com a mãe, levantando do sofá.

ANDRÉ – Minha mãe tem razão, Pâmela. É melhor você dormir lá em casa, pelo menos essa noite.

Pâmela o encara nos olhos.

PÂMELA – Até quando você sabia dessa história e escondeu de mim?

ANDRÉ – Fiquei sabendo hoje de manhã ou melhor ontem (olha no relógio de pulso), já passou da meia-noite.

ELEONOR – Vamos para casa, minha filha, está tarde já.

PÂMELA – Okay, vou arrumar minhas coisas, volto num minuto.

André finalmente consegue falar com Goram.

ANDRÉ – Goram, finalmente eu te localizei…

CENA 09/SÃO PAULO/VILA MADALENA/PRÉDIO DE ADELAIDE/FRENTE/EXTERIOR/NOITE

Goram cumprimenta com um tchauzinho falso, Mateus, que estava no banco de trás de seu carro com motorista particular. Ele entra no hall e chama o elevador.

CENA 10/HALL

GORAM – Égua de largura! O que aconteceu, André?

O elevador se abre, ele se entra. Ele deixa no viva voz e se choca ao ouvir : “Pâmela descobriu tudo”

Ele desliga o viva voz e pressiona o aparelho em sua face.

GORAM – Pelas águas de Solimões! COMO ISSO FOI ACONTECER? Conta essa tembisakue direito!

Elevador se fecha com ele dentro e sobe.

CENA 11/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS/MANHÃ

Amanhece na Capital Paulista ao som de Pacato Cidadão. Mostrar os trabalhadores pegando metrô no Tucuruví. Feirinhas de hortaliças abrindo no Ceagesp. Pessoas em Situação de Rua fazendo fila para sair de um Albergue no Santa Ifigênia. Trânsito em frente ao MASP na Avenida Paulista.

CENA 12/SÃO PAULO/SÉ/CLÍNICA ONCOLÓGICA/INTERIOR/QUARTO DE GUILHERME/MANHÃ

CAM SUBJETIVA mostrar alguém acordando e as feições de Fabiana de máscara se revelando pelo olhar. Plano mediano, mostrar que quem estava deitado na maca era Guilherme.

GUILHERME – Minha filha?

FABIANA – Gostou da surpresa, Guilherme? Vim fazer uma visita para você, saber como você está, mas não comenta com minha mãe que ela pode achar que é perseguição da minha parte.

GUILHERME (Pisca para ela, achando graça da filha que não sabe que ele é seu pai) – Combinado, é segredo nosso.

FABIANA – Como está sendo o tratamento? Começou a fase de aplasia, né? Está praticamente sem imunidade.

GUILHERME – O Doutor me avisou, mas não tem outro jeito, né? Estou me sentindo fraco, boca seca.

Fabiana percebe que tem uma jarra de água na cabeceira da cama.

FABIANA – Tome um pouco de água.

Ela entrega a ele que agradece.

FABIANA – Você não tem parente Guilherme?

GUILHERME – Tenho, mas estão longe.

FABIANA – E você não tem o contato deles?

GUILHERME(mente) – Não nos falamos muito, sempre fui meio afastado.

FABIANA – Mas esse é um momento de se reaproximar, você está doente.

Guilherme pega na mão da filha.

GUILHERME – Sabe que eu sempre quis ter uma filha como você?

Momento de silêncio. Guilherme se emociona. Fabiana percebe e se emociona junto.

FABIANA – Que isso, Guilherme? Sou tão cheio de defeitos, se você convivesse comigo todos os dias mudaria de opinião facilmente.

GUILHERME – Até parece, você é uma menina de ouro que sei.

FABIANA – Tô estranhando esses elogios todo, minha mãe não é de falar bem de mim assim.

GUILHERME – Sua mãe não precisa me dizer nada, é nítido.

Fabiana se encanta.

FABIANA – Que nada!

Nesse instante, Doutores da Alegria invadem o quarto de máscaras.

PALHAÇO 1 – É aqui que é do quarto do vovô marrento!

Fabiana ri alto.

GUILHERME (entra na brincadeira) – Marrento é o teu…

PALHAÇO 2 não deixa ele terminar, colocando a mão com luva na boca dele.

PALHAÇO 2 – Não termine essa frase, sua mãe nunca te ensinou que quem fala palavrão tem que lavara boca com sabão.

PALHAÇO 1 – Isso não é verdade, Bebeu.

PALHAÇO 2 – Claro que é Dumdum!

PALHAÇO 1 – Né não? Qualquer um pode lavar a fuça com sabão (e pressionando uma flor no paletó por baixo do jaleco espirra água com sabão na cara de Bebeu)

Fabiana e Guilherme riem alto enquanto o Bebeu se recompõe.

CENA 13/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/ENFERMARIA GERAL/SALETA DE REGISTROS/MANHÃ

Zoom mostrando as sardas e os olhos frenéticos de Heloísa por debaixo do óculos preto, folheando os prontuários.

PLANO Americano. Ao fundo da jovem, alguns enfermeiros digitam nos computadores.

HELOÍSA – Bom, parece que não há nenhum caso interessante, hipertensão, diabete, infarto.

Ela coloca a pasta dos pacientes de volta no lugar e acaba colocando de mal jeito, fazendo que outros prontuários caírem da estante num estrondo.

Heloísa estaca vermelha.

ENFERMEIRA-CHEFE – DROGA! DROGA! Olha o que você fez, menina? Derrubou todos os prontuários, olha essas folhas, vai dar um trabalhão para arrumar!

HELOÍSA (Sente-se culpada) – Desculpa…

Ela se esquiva, saindo da saleta.

CENA 14/CORREDOR DA ENFERMARIA GERAL

Esbarra em Meire que passava pelo local.

HELOÍSA – Me perdoa, de verdade! Eu não quis…

MEIRE – Que isso, Helô! Essas coisas acontecem, é muito comum os profissionais darem uma trombada pelo corredor.

Heloísa sorri timidamente.

MEIRE – Acompanhando algum caso por aqui?

HELOÍSA – Na verdade, eu estava procurando um caso interessante, daqueles mirabolantes que estávamos investigando na semana passada, mas não achei nada demais por aqui, só hipertensão, DPOC, diabetes…

MEIRE – Pois é melhor “jair” se acostumando…(ri). A maioria dos casos que vamos atender durante nossa vida profissional são de casos assim, epidemiologicamente doenças crônicas se destacam.

HELOÍSA (meio despontada) – Jura?

MEIRE – Juro. Mas salvar vidas não tem preço e nossa profissão nos proporciona este retorno lindo. Mas sabe? To acompanhando um caso interessante na neonatologia e Pediatria.

HELOÍSA – Um caso mirabolante?

MEIRE – Digamos que sim (ri)…Um caso mirabolante.

HELOÍSA – Posso acompanhar com você?

MEIRE – Claro! Chega mais.

CORTAR PARA:

CENA 15/CORREDOR DA ENFERMARIA DE NEONATOLOGIA E PEDIATRIA

Meire chega acompanhada de Heloísa e mostra a bebê do vidro da maternidade.

MEIRE – É aquela ali a terceira da quarta fileira!

HELOÍSA – E ninguém não tem ideia do que possa ser?

MEIRE (cochicha) – Eu tô com medo de ser câncer.

HELOÍSA – Câncer?

Bella com os olheiras de tanto chorar, acorda de cadeiras no corredor e ao perceber que Meire está ali vai ao encontro dela.

BELLA – Amiga?

Meire se vira e a abraça. Bella chora.

BELLA – Eu não quero perder, minha filha, amiga, pelo amor de Deus, ela é tudo para mim.

MEIRE – Se acalma Bella, se acalma. Nada de ruim vai acontecer com a Clarinha, eu te garanto.(Troca olhares com Heloísa de preocupação por cima do ombro de Bella.

E acaricia as costas da amiga em prantos. Uma enfermeira se aproxima trazendo um exame.

ENFERMEIRA – Doutora Meire?

Bella se afasta do abraço.

MEIRE – Pois não?

ENFERMEIRA – Saiu o resultado da dosagem dos índices séricos de eritropoietina da paciente Clara Nunes.

BELLA – Minha filha!

Meire pegou o exame e abriu. Heloísa se aproximou para ver.

MEIRE (Sorriu) – A Dosagem tá elevada.

HELOÍSA – O que isso significa?

MEIRE – Que ela não tem câncer!

BELLA – Meu Deus! Você estavam achando que ela tinha câncer?

MEIRE – Cheguei a pensar, amiga. Mas agora está tudo bem.

HELOÍSA – Eu não entendi nada.

MEIRE – A eritropoietina é um hormônio produzido marjoritamente nos rins que estimula a produção de hemácias. Se a eritropoietina viesse normal, com o número aumentado de hemácias e plaquetas já achado no hemograma, com certeza a causa seria um distúrbio proliferativo na medula óssea vermelha, independentemente deste hormônio, o que abriria brechas para câncer. Porém, deu alta, então provavelmente o distúrbio é metabólico, ou seja, a eritropoietina está causando o aumento do número de glóbulos vermelhos.

HELOÍSA – O que ela tem, então?

Drama médico começa a tocar. Dolly Shot. Meire perde seu olhar contemplando Clarinha pelo vidro da maternidade.

MEIRE – Eu bem que queria saber.

Close alternado. Bella sorrindo pela notícia. Heloísa olhando lateralmente para Meire. Fechar em Clarinha sedada.

CENA 16/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/COZINHA/MANHÃ

Goram está com uma colher de sopa cheia de cereais com leite suspensa no ar, perdido em pensamentos e quando Themise chega a cozinha, ele derruba o conteúdo na roupa.

THEMISE – GORAM!

Ele derruba.

GORAM – Por tupã!

THEMISE (Ela se precipita para pegar um pano em cima da pia) – O que aconteceu? Você tava com os pensamentos longe.

GORAM (recebe o pano) – Atima porã. Senta aí, vou te contar. Goram tá muito preocupado.

THEMISE – Tô percebendo.

Themise puxa uma cadeira para sentar. Desfocar, atrás dela, Laurinha, no corredor, se aproxima para escutar.

GORAM – Themise se lembra daquele sequestro que terminou na morte da mulher empregada que jejuka de Bernardo estava envolvido?

THEMISE – Sim, aquela loucura que você ficava investigando e até carta mandou para filha dela.

GORAM – Pois é…a itajýra dela descobriu tudo.

THEMISE – O quê? Descobriu que você mandou a carta para ela?

GORAM – Ani, isso não, piá. Mas descobriu que Bernardo foi o mandante do sequestro.

THEMISE – Meu Deus!

GORAM – Ele tava dando maior apoio para ela durante o ñerokañy, pós óbito e tudo mais.

THEMISE – Ela deve estar com uma raiva imensurável dele.

GORAM – mbaʼéichapa e Goram queria que isso acontece de verdade, se não fosse o detalhe de André ter que ter contato que descobriu isso a partir de Goram.

Themise se preocupa.

THEMISE – Agora estou entendendo, o seu medo é que…

Goram a interrompe.

GORAM – Que ela jogue tudo no ventilador para o Bernardo e envolva Goram, daí, além dos meus plans irem por correntezas baixo, eu corro risco de vida.

Instrumental catastrófico. Big-close-up no rosto de Laurinha chocada. Close alternado de Themise preocupada. Goram respirando fundo.

CENA 17/SÃO PAULO/CENTRO/PENSIONATO BOVARY/INTERIOR/SAGUÃO/MANHÃ

Marcela está guardando os porta-retratos, pulseiras, vestimentas de Persépolis em caixas na sala. Larissa e Tiffany a ajuda.

MARCELA – Há muita roupa bonita, fiquei muito feliz quando Doutora Rita me disse que vai doar para algumas instituições de acolhimento a pessoas em situação de rua trans.

LARISSA – Eu também, aquela Doutora é fascinante.

MARCELA – Com certeza, meninas. Um exemplo de humanidade a todos nós.

A porta da sala se abre num furor estrondoso de rodar de chaves. As meninas se levantam assustadas. Marcela desloca a cabeça. Era ninguém menos Bovary que chegava.

BOVARY (irônica) – E aí, bonecas, saudades de mim?

Instrumental explosivo. Close alternado. Larissa põe a mão na testa. Tiffany desvia o olhar. Marcela a encara com revolta.

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/MATERNIDADE/MANHÃ

Heloísa e Suzy entram na maternidade acompanhadas de Doutora Bomga, pediatra.

DOUTORA BOMGA – Doutora Meire me disse que vocês são primeiranistas? É isso mesmo?

Suzy confirma.

SUZY – É isso mesmo, somos dois serzinhos adiantados, além do tempo, que já se interessam por semiologia.

DOUTORA BOMGA – Mas estão certíssimas, quando mais cedo começarem, melhor. Eu na idade de vocês levava mais de qualquer jeito, queria ter aproveitado mais.

Elas se aproximam do leito de Clarinha.

HELOÍSA – Miga, como essa menina é lindinha, nós vamos achar o que você tem e você vai ficar boa logo, tá bem?

Suzy se inclina achando graça.

DOUTORA BOMGA – Pulmãozinha dela parece estar tudo okay, vamos auscultar o coração…tudo tranquilo também.

HELOÍSA – Posso ouvir o coração?

DOUTORA BOMGA – Claro, existem 5 focos. Passe a mão forte nela no tórax, isso, pode passar. No segundo espaço intercostal, segundo ossinho que sentir, na direita dela, pensando num eixo central, é o foco aórtico, simetricamente na esquerda, é o foco pulmonar. Abaixo do foco pulmonar, você tem no terceiro espaço intercostal com foco aórtico acessório, abaixo dele, no quarto espaço o foco tricúspide e bem abaixo do mamilo no quinto espaço intercostal a esquerda, você tem o foco mitral. Devemos procurar por ruídos que podem ser sopros, bulhas estranhas aquele TUM-TA. Mas aí você não vai encontrar nada, ela está boa.

Heloísa foi testando e comparando várias vezes para ver se havia aprendido a auscultar, tentou ouvir o TUM-TA em todos, mas ao repassar o foco pulmonar escuta um barulho esquisito.

Mas ela não consegue perguntar, porque Clarinha começa a chorar alto, irritada e estranhamente o ruído desaparece.

DOUTORA BOGMA – Vocês podem aguardar lá fora, por favor.

Elas concordam e saem. Enquanto enfermeiras entram no local para acalmá-la.

CENA 19/CORREDOR DA NEONATOLOGIA E PEDIATRIA

Heloísa percebe que a bebê ao ser pega no colo para imediatamente de chorar. ESTRANHAMENTO. Close-up na face da estudante tentando entender.

CENA 20/SÃO PAULO/LIBERDADE/HOTEL/TÉRREO/MANHÃ

Araponga chega ao térreo e percebe que há uma mesa de café da manhã para os inquilinos do hotel. Ao fundo, mostrar repórteres entrevistando um casal de famosos.

Araponga enche o patrão com guloseimas e senta na mesa faminta.

ARAPONGA – Por Maíra e Macuna-Íra, comida descente para Araponga! Para aquela terra de índios, não volto ni nemaño!

CENA 21/SÃO PAULO/PENHA/CASA DE ANDRÉ/INTERIOR/CORREDOR.

Eleonor acorda saindo de seu quarto, ainda bocejando, quando percebe que o quarto de Pâmela está aberto. Ela vai até lá e percebe que a Pamela não está.

ELEONOR – PÂMELA?

A Filmagem continua no corredor. Depois mostrar ela entrando nos outros cômodos da casa por portas e saindo, sem sucesso de encontrar.

ELEONOR – Minha nossa senhora de aparecida, PÂMELA?

Close em seu rosto desesperado.

ELEONOR – Onde foi que essa menina se meteu, meu Deus?

CENA 22/SÃO PAULO/CENTRO/PENSIONATO BOVARY/INTERIOR/SAGUÃO/MANHÃ

BOVARY – Que foi gente, o gato comeu a língua de vocês? Ninguém vai me dar as boas-vindas? Puxa, vou ficar magoada, hein? Tô recuperada, finalmente. Não aguentava mais estar sumida da nossa história.

MARCELA (se levanta e vai em sua direção) – O que você tá fazendo aqui sua infeliz?

BOVARY – Alto lá!

Ela bate palmas e dois seguranças musculosos altos entram em cena de terno escuro e óculos preto.

BOVARY – Pronto, pode continuar, quero ver você me bater agora, vamos, agrida, bata nessa velha agora.

Marcela a encara.

MARCELA– Eu tenho nojo de você, sua velha porca, nojo!

BOVARY – Já que você não vai acabar comigo, eu vou acabar com você. Rapazes dão um jeito neste lixo.

E os homens seguram Marcela pelos braços.

MARCELA – Me soltem!

LARISSA(grita) – Larga ela!

TIFANNY – Por favor, deixe ela em paz!

BOVARY – Que que isso, gente? Agora isso aqui virou casa de caridade para todo mundo saindo defendendo essa puta, não, não. Acho melhor vocês reverem o posicionamento de vocês, se não quiserem ficar sem um prato de comida. Pode jogar essa coisa na sarjeta, que é lá que é o lugar dela.

As meninas gritam ao verem os seguranças jogarem com força Marcela na rua.

CENA 23/EXTERNO

LARISSA – PARE COM ISSO!

As meninas que estavam no Pensionato despertam e gritam descendo as escadas. Bovary tranca a porta da sala.

BOVARY (se aproxima e aperta a mandíbula de Marcela com suas unhas) – Agora sim, cada um no seu devido lugar. Vê se me esquece, se não quiser mais problema para você. E eu não tô brincando.

As meninas gritam quando os seguranças entram e as impedem de irem até Marcela. Bovary fecha a porta. Marcela chora alto de raiva.

CENA 24/RORAIMA/BOA VISTA/IMAGENS AÉREAS

São mostradas imagens aéreas da cidade.

CENA 25/RORAIMA/BOA VISTA/DELEGACIA/EXTERNO/MANHÃ

EPÍFITA – Eu ainda acho que essa história de Vitória Régia e Odin está precipitando os guajajaras, Araponga deve estar na casa de alguma amiga.

VITÓRIA-RÉGIA – Não interessa, Epífita. Araponga está odesaparece, não está na casa de amigos, nenhum parente, temos que denunciar, se ela aparecer, só voltarmos aqui e tirar denúncia.

Vitória caminha se aproximando da entrada, até perceber que Epífita ficou parada.

VITÓRIA-RÉGIA – Por Sumé! Anda ajýra, vamos.

Epífita respira fundo e balança a cabeça. Somem no interior da delegacia.

CENA 26/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS.

Entardece mostrando imagens dos transeuntes de Cidade Tiradentes e Grajaú

CENA 27/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/QUARTO DO CASAL/TARDE

Instrumental melodramático. Alguém deposita um copo com resto de conhaque na mesinha de cabeceira da cama, vemos que a pessoa possui um relógio dourado. Plano Americano. Vemos Bernardo perdido em pensamentos, deitado na cama de sapatos escuros.

BERNARDO – Quem mandou este bilhete? Caralho!

CENA 28/CORREDOR SEGUNDO PAVIMENTO.

Ele caminha até as escadas quando leva um susto com a porta de um quarto que abre abruptamente. Era o quarto de Giovane. Mostrar o motivo que causara aquilo: As janelas furiosas abertas, com cortinas esvoaçantes por conta de uma ventania. Bernardo pressente.

BERNARDO – Será?

Um minuto só com os ruídos da ventania que parecem devorá-lo. Seu celular vibra algumas vezes. Ele reage ao transe, pega do bolso, vemos no visor que são mensagens de Araponga.

“Me encontre em duas horas na Cafeteria Amores Lilases na Mooca, é muito importante para mim, estou me sentindo muito solitária”.

Ele hesita um pouco e depois responde.

“Ok. Estarei lá”.

Cessa o vento. Ele olha em silêncio para dentro do quarto meio amedrontado, depois desce as escadas.

CENA 29/SÃO PAULO/ESTAÇÃO METRÔ TATUAPÉ/TARDE

Fabiana desce a escada rolante correndo para não perder o metrô, mas muitos transeuntes em sua frente a impedem de passar e ela acaba perdendo.

FABIANA – Mas era só o que me faltava!

Ela se escora ofegante numa parede, quando alguém a puxa pelo braço. Era Guto malandro como sempre.

GUTO – E aí, gatinha, perdeu o metrô, foi? Por isso está toda ofegante deste jeito ou é por conta de mim?

Ele ri mascando chiclete e ela o empurra.

FABIANA – Me deixa em paz, garoto!

GUTO – Até parece que você aguenta ficar longe de mim.

E se aproxima impedindo ela de passar.

FABIANA – Sai da frente!

Ela empurra e começa a andar mais depressa, ele vai atrás. Ela então resolve brincar e começa a correr de verdade, muito, escondendo atrás de uma pilastra.

SILÊNCIO. Ela resolve espiar e percebe que ele não está. Respira fundo e resolve sair, quando ele a surpreende com um gesto e a joga contra parede.

GUTO – Achou que ia escapar de mim?

E rouba-lhe um beijo, ela cede aos seus amassos e retribui. De longe, Goram assiste a cena achando graça.

CENA 30/SÃO PAULO/MOOCA/CAFETERIA AMORES LILASES/EXTERIOR/VARANDA/TARDE

Bernardo chega e avista Pâmela, ele se encaminha até ela e se senta. Garçom lhe entrega o cardápio.

BERNARDO – Ah, obrigado. Você está bem, meu amor.

Ela estava de óculos escuros. Ele acaricia suas mãos. Ela entrelaça suas palmas retribuindo o carinho, ele sorri, até que percebe que ela colocou em sua mão, uma bolinha de papel.

BERNARDO – Que isso?

Ele desembrulha o papel e se choca com o que estava escrito nele. Instrumental Catastrófico.

“ Quando é que você vai me contar como sequestrou minha mãe, seu assassino?”

Ele volta o olhar para ela que agora estava sem óculos o encarando. MEDO.

PÂMELA – Você achou que ia me esconder isso até quando? Se minha mãe, te pediu milhares e perdeu a vida por conta disso, saiba que quero milhões para calar a minha boca e estou pagando para ver.

Enquadramento da feição determinada dela. Fecha com o rosto encurralado de Bernardo.

FADE OUT

CONTINUA…

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NAVEGAR

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