Estação medicina

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Capítulo 16

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 16

MANDALA

 FADE IN

 

CENA 01/SÃO PAULO/MOOCA/CAFETERIA AMORES LILASES/EXTERIOR/VARANDA/TARDE

Bernardo estava nitidamente sem saber o que fazer. Tentou negar enquanto Pâmela o fitava saboreando aquele prazer de vê-lo em apuros.

BERNARDO – Que história é essa? Da onde você…

Ela o interrompe.

PÂMELA – Não tente negar que é pior, você matou a minha mãe e agora você vai ter que pagar.

BERNARDO (se levanta fingindo indignado) – Pagar o quê? Isso é um absurdo!

Pâmela se levanta.

PÂMELA – Senta aí, se não quiser que eu faça um escândalo e te entregue para a polícia porque vontade não me falta.

Bernardo respirou fundo, percebeu que algumas pessoas já o olhavam, voltou a sentar.

PÂMELA – Isso! Bom mocinho…

Bernardo tremia.

PÂMELA – Isso, neném, treme, treme, sofre pelo mal que você causou na minha vida.

BERNARDO – Como é que você descobriu?

PÂMELA – Aeeee (e bate palma). Agora sim, estamos falando a mesma língua. Não te interessa como descobri, o que importa é que eu descobri que você estava como mandante deste sequestro e eu não vou descansar enquanto não zerar sua conta bancária, se antes você queria dar uma pensão mequetrefe para seu filho, agora você vai dar tudo que você tem.

BERNARDO – Ainda dá tempo de abortar se você quiser, te pago uma clínica boa, onde não terá complicações…

PÂMELA – Nem fale uma blasfêmia dessa, ninguém tem o direito de tirar a vida do outro, só Deus.

BERNARDO – Sejamos melhores, Pâmela. Ficar usando argumento religioso para sustentar essa gravidez desconfortável, é muito primitivo.

PÂMELA – Cala essa boca, se não quiser que eu saía daqui agora e te entregue para a polícia!

Close na face engolidora de sapo de Bernardo.

PÂMELA – Mermão, se você não entendeu o lance, eu quero muito dinheiro, muito mesmo para mim e para essa criança que está na minha barriga, já que ela não tem pai, te dou 24 horas para conseguir 3 milhões de dólares!

Bernardo esbugalha os olhos.

BERNARDO – O quê? 3 milhões de dólares?

PÂMELA – Exatamente. Tá achando pouco? Posso aumentar esta primeira parcela se você quiser…

BERNARDO – 24 horas é pouco tempo, preciso de pelo menos uma semana para conseguir isso, se não vai dar na vista.

PÂMELA – Que mané uma semana, te dou 3 dias!3 dias para me tornar a nova milionária do pedaço, se não quiser ver o seu mundinho desmoronar e você ir parar na cadeia, onde nem o seu maridinho vai conseguir te tirar.

O garçom traz o seu café com bolachinhas.

PÂMELA – Ah, muito obrigada. Vou querer mais esse salgado de 15 e esse…é sorvete isso? Sorvete de 25 conto. (ele sai). Ah e nem preciso dizer que você vai pagar essa conta né?

Bernardo a olha bravo e ela gargalha alto na cara dele.

CENA 02/RORAIMA/BOA VISTA/IMAGENS AÉREAS

São mostradas imagens aéreas da cidade. Anoitece.

CENA 03/RORAIMA/BOA VISTA/APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Epífita chora no ombro de Odin sentado num sofá de três lugares, Vitória Régia está tricotando um gorro no outro. A televisão está ligada no telejornal.

EPÍFITA – Por Maíra! Nossa piá Odin, piá de Epífita e Odin desapareceu! Será que ela tá passando fome? Tá passando frio? Tem algum lugar para dormir…

VITÓRIA-RÉGIA – Eu ainda acho que Epífita está se preocupando a toa. Ela deve estar com alguma angiru, isso se não tiver com macho.

EPÍFITA – Você odeia, sua neta, né sy? Admite! Vitória nunca gostou de Araponga!

VITÓRIA-RÉGIA – Não é isso, Epífita.

EPÍFITA – É isso hee!

VITÓRIA-RÉGIA – Ani é! A única coisa que faço é não passar a mão na akã para as atitudes de Araponga que algumas você sabe até mesmo quais são.

Epífita faz sinal para ela não falar nada perto de Odin.

VITÓRIA-RÉGIA – Pois é, Araponga sabe bem. Eu não passo a mão na cabeça não e do jeito que sei que aquela curuminha é levada, não iria me admirar em nada, se ela tivesse na casa de algum…como que mitã aja fala, boymagia.

Ouve-se no telejornal a reportagem sobre um casal de artistas que estavam hospedados em São Paulo para a gravação da próxima novela.

VITÓRIA-RÉGIA – Esses homens brancos nunca abordam a região norte, Roraima, Odin já reparou nisso?

ODIN – Égua! O eixo Rio-São Paulo dá mais lucro!

EPÍFITA – Esses atores vão protagonizar a próxima novela das nove da Lícia Manzo.

VITÓRIA-RÉGIA– Gosto desta haihára, lembra muito as novelas do Manoel Carlos.

Focar na televisão, neste momento, mostrar o casal tomando café da manhã no hotel e mostrar de fundo Araponga andando para pegar os quitutes. Instrumental explosivo. Close alternado. A face de Vitória-Régia se transforma. Epífita se levanta do ombro de Odin e se inclina surpresa para a televisão. Odin encara estático a cena.

VITÓRIA-RÉGIA – É Araponga!

EPÍFITA – Por Tupã, minha filha tá em São Paulo. Mãe, ela tá São Paulo, Araponga está bem, Araponga está num hotel de luxo?

VITÓRIA-RÉGIA – Isso é inacreditável, ahe deve ter ido de avião para lá.

Epífita se joga no chão, aproximando a TV.

EPÍFITA – Não sei como Araponga foi, só sei que está bem, está kove!

VITÓRIA RÉGIA – Vitória só se pergunta como Araponga conseguiu dinheiro para as tape e para se hospedar num hotel de luxo no bairro da Liberdade?

Ela troca olhares com Odin, eles sabiam bem. Dolly out neles, revelar num plano americano a felicidade de Epífita próxima da televisão com os olhos procurando por mais alguma imagem.

CENA 04/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/BIBLIOTECA/INTERIOR/3ºANDAR/NOITE

Heloísa está dormindo sobre livros, quando Goram sobe as escadas e a localiza, ele vai a seu encontro e a acorda com um carinho em seus cabelos.

GORAM – Mborayhu, acorda, tu está dormindo na biblioteca.

Ela abre os olhos, sonolenta.

HELOÍSA – Nossa! Que horas são?

GORAM – Quase dez horas da pyhare, daqui a pouco a biblioteca fecha.

HELOÍSA – Meu Deus! Eu aqui toda compenetrada no caso que esqueci que não estou na rep.

GORAM – Égua! Caso?

HELOÍSA (começa a ajuntar os livros e fechar o estojo) – É um caso do hospital que estou acompanhando. Uma bebê começou a ter inchaço nas pontas dos dedos, teve um desmaio, depois foi hospitalizada e começou a chorar alto com melhora quando pega no colo. Mas o mais engraçado foi o sopro que eu ouvi no foco pulmonar

GORAM – Sopro?

HELOÍSA – É. Um achado na ausculta cardíaca, a pediatra responsável não percebeu, mas eu sim, embora a bebê esteja estável ao que tudo indica, preciso dar um jeito de encontrar com Meire e avisá-la. Tô pensando que pode ser estenose pulmonar, pelo que li.

Ela se levanta pegando seus cadernos e estojo, Goram a segura pelo braço.

GORAM – Amanhã Heloísa fala com Meire. Ela deve até já ter ído para casa, vamos para oga, Goram te leva.

Heloísa pensou em contra argumentar, mas cedeu.

HELOÍSA – Tá certo, amor, vamos.

CORTAR PARA:

CENA 05/SÃO PAULO/TATUAPÉ/RUA DA REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/NOITE

Goram e Heloísa caminham pela rua toda fechada pela copa de grandes árvores, ao longe se escutam a orquestra de grilos. Encontram-se de mãos dadas.

HELOÍSA – Sabe…eu fico pensando que algumas doenças parasitárias poderiam ser erradicadas se o saneamento básico chegasse a todos no território brasileiro.

GORAM – Goram, às vezes, pensa sobre isso, esquistossomose, doença de chagas, malária.

HELOÍSA – E ainda tem gente que quer acabar com o SUS, privatizar algumas áreas dele, restringindo o acesso a maior parte das pessoas que não podem pagar por um convênio, eu não posso pagar por um convênio e olha que sou classe média baixa, imagina quem passa fome na rua.

GORAM – Homens brancos transformam tudo em mercadoria, tudo tem que dar lucro para eles, função social zero.

HELOÍSA – E os minions, então? Aí, meu Deus, não suporto essa gente.

Eles avistam uma pessoa em situação de rua tremendo de frio na rua dormindo num chão de concreto embaixo de uma marquise. O casal troca olhares.

HELOÍSA – Eu não consigo ver uma cena dessas. Temos condições de todos terem acesso a casa, a um teto.

GORAM – Hey, amigo, tu tá com ro’y? Tá com fome?

O mendigo vira para eles, estava cabeludo, barbudo, com roupas finas e rasgadas, descalço, agarra nos braços de Goram.

WALYSSON – Me ajudem!!! Eu não quero morrer, faz uma semana que não consigo dinheiro para um prato de comida, eu não consigo vaga em albergue.

GORAM – Fique calmo iru, Goram e Heloísa vai te ajudar. Amor, tu consegue buscar uma coberta para ele e trazer um prato de comida?

HELOÍSA – Vou ver o que posso fazer!

Heloísa sobe correndo para a república dos estudantes.

CENA 06/SÃO PAULO/BURACO QUENTE/CASA DE PAMELA/EXTERIOR/NOITE

Pamela caminha em direção a sua casa, quando percebe que Eleonor a aguarda sentada nas escadas que vão para a porta da sala.

ELEONOR – Minha filha, até que enfim te achei, onde você estava?

Pamela tenta a ignorar ao subir e abrir a porta. Eleonor se adentra.

INTERIOR

ELEONOR – Onde você estava, Pamela?

PAMELA – Eu encontrei com aquele marginal.

ELEONOR – O que foi que você fez?

PAMELA – Isso mesmo que a senhora ouviu, encontrei-me com ele, fiquei frente a frente e disse que agora o jogo virou.

ELEONOR – Você ficou maluca?

PAMELA – Maluca que nada, ele não sequestrou minha mãe e causou a morte dela, pois agora ele vai me pagar caro por isso em suaves prestações milionárias.

ELEONOR – O quê? Você tá chantageando ele?

PAMELA – Estou, agora ele vai me bancar e o filho que estou esperando dele, muito mais do que aquela pensão mixuruca que ele me propôs.

Eleonor pega Pamela pelos braços e a faz sentar no sofá.

ELEONOR – Para com isso, minha filha. Saia dessa história enquanto há tempo, não vê que ele pode fazer algo contra você.

PAMELA – Ele não é nem besta de fazer algo comigo, tem muita gente que sabe dessa história. Eu tô por cima, Dona Eleonor, a senhora pode apostar nisso.

Close alternado. Olhos de Pamela brilham. Eleonor a olha preocupada.

CENA 07/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/QUARTO 12/INTERIOR/COZINHA

A porta da sala do apartamento está encostada. Heloísa retira o prato de comida do micro-ondas e coloca num prato, joga a saladinha que estava fazendo por cima.

SUZY – Goram ficou lá com ele?

HELOÍSA – Ficou, precisava ver o estado dele e ainda tem gente que diz para não dar comida para gente de rua, porque incentiva essas pessoas a permanecerem na rua.

SUZY – Já ouvi essa frase em algum lugar.

HELOÍSA – Foi da Bia Dória, esposa do governador. Bom, miga, deixa eu ir lá.

SUZY – Vou pegar um copo de suco com ele.

HELOÍSA – Pega a coberta também que deixei ali no sofá.

CORREDOR 1º ANDAR

Elas abrem a porta do apartamento e Dona Noz-Moscada está escutando.

DONA NOZ-MOSCADA – Você vai fazer isso mesma menina? Dar comida para vagabundo que não quer trabalhar?

SUZY – Oi? Você pirou veia?

DONA NOZ-MOSCADA – Olha o respeito com mais velhos, menina, já percebi que você é muito mal educada. Não façam isso, ele vai trocar a comida por droga.

HELOÍSA – Dona Noz-Moscada, a senhora está muito equivocada, essas pessoas não são vagabundas e nem querem trocar comida por drogas, querem ter direito a sua dignidade e falar de dignidade é falar de ter acesso a uma base alimentar para sua sobrevivência. A senhora já passou fome?

DONA NOZ-MOSCADA – Nunca, minha filha.

HELOÍSA – Então, a senhora não sabe o que é isso!

E sai, deixando Noz-Moscada resmungando pelos ares.

CENA 08/SÃO PAULO/TATUAPÉ/RUA DA REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/NOITE

Heloísa e Suzy chegam trazendo a coberta e a comida, Goram terminava de medir a frequência de pulso.

WALYSSON – E aí, futuro doutor, vou morrer?

GORAM – Cagado! Está ainda dentro da normalidade! Vai nada, cara. Está bem.

Walysson vê Heloísa e se levanta fracamente em sua direção.

WALYSSON – VOCÊ TROUXE COMIDA, FILHA!

Ele pega o prato e já senta para comer. Heloísa o olha feliz. Suzy deixa a coberta ao lado dele, quando ele come o prato desesperadamente.

SUZY – Aqui está.

WALYSSON – Muito obrigado.

Goram abraça Heloísa e eles trocam selinhos, felizes pelo bem que haviam feito aquele senhor.

CENA 09/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Amanhece no Itaquera, vemos artistas fazendo arte nos muros da rua 23 de maio, estádio Corinthians-Itaquera se abrindo para jogadores treinarem, vemos barriquinhas de pasteis abertas, pessoas indo ao Poupa Tempo.

CENA 10/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/QUARTO DO CASAL/DIA

Mateus está dormindo profundamente quando alguém o toca no pé, ele mexe as cobertas e abre os olhos, percebe uma bandeja no café de manhã nas mãos de Goram.

GORAM –Égua! Sou um destrambelhado na cozinha, mas resolvi preparar algo para Goram e Mateus comerem.

Mateus sorri ao perceber o gesto.

MATEUS – Nossa, está cedo (olha no relógio da cabeceira). Você dormiu aqui?

GORAM – Claro que Goram dormiu, esqueceu do que Mateus e Goram fez na pyhare passada?

Mateus percebe que Goram está de pijama e ao olhar para o seu travesseiro sente o cheiro do indígena.

MATEUS – Não me diga que…

GORAM – Não te direi nada, vou te mostrar, dar o grau!

E se aproxima dele, roubando um beijo, ele sobe em cima do vilão e morde seu pescoço, passando forte a mão pela cabeça, depois voltam a se beijar e ele retira a roupa de Mateus, depois retira a sua e eles se amam na cama.

CORTAR IMEDIATAMENTE PARA:

CENA 11/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/QUARTO DO CASAL/DIA

Toca o despertador. Mateus acorda transpirado e ofegante, caindo da cama.

MATEUS – Goram!

Passa mão em seus lábios, percebe que eles estão secos. Ele olha para os lados e percebe que está sozinho no quarto.

CENA 12/SÃO PAULO/VILA MARIANA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

GORAM – Por Tupã! Goram perdeu o horário. Vou ter que deixar para pegar o passe universitário de kaaru!

Ele entra na cozinha

Themise que estava passando roupa na sala, para o que está fazendo e vai até ele.

COZINHA.

Goram verifica que ainda tem um pouco de tapioca.

GORAM – Ufa! Ainda bem que ainda tem um pouco, mas acho que a banana acabou na guavirana. Se avia, Goram!

THEMISE – Gô, você não sabe o que aconteceu? Avó Vitória, sua mãe, seu pai, tia Epífita, tá todo mundo louco por lá.

Goram coloca a massa na panela e se vira para ela.

GORAM – Meus ru? Mas o que aconteceu?

THEMISE – Araponga desapareceu por lá e por um telejornal, eles viram que ela tá hospedada num hotel luxuoso na Liberdade.

Goram deixa os talhares cair no chão.

GORAM – GASTURA! O QUÊ?!

Close em sua expressão de surpresa.

CENA 12/SÃO PAULO/LIBERDADE/HOTEL DE LUXO/INTERIOR/FLAT DE ARAPONGA/MANHÃ

Araponga observa a 15º ligação que sua família faz para ela do seu celular naquele dia, mas ela ignora.

ARAPONGA – Vocês não cansam, não? Teyi não percebem que eu não quero atender vocês?

A campainha toca e ela abre a porta.

ARAPONGA – Amor, tu por aqui?

Ela tenta beijá-lo, mas ele entra depressa.

ARAPONGA – Égua Nossa! Que fora foi esse? Tu tá fazendo hora, é?

BERNARDO – Você precisa sair daqui, você apareceu ontem num telejornal de alcance nacional.

ARAPONGA – Não acredito.

BERNARDO – Pois acredite se quiser.

ARAPONGA – Por isso que minha família tá que nem doida ñapyti para mim.

BERNARDO – Eu não quero problema para meu lado. Daqui a pouco eles botam a polícia atrás da gente.

ARAPONGA – Fica calmo, caboco, o flat tá no seu nome, não é? Não tem como eles descobrirem. Vou arrumar minhas coisas e Araponga e Bernardo já sai.

BERNARDO – Okay, eu vou acertando sua saída lá em baixo.

Eles trocam selinhos, ele sai e ela puxa a mala dela do guarda-roupa.

ARAPONGA – Puxa Flatinho, vou sentir falta de tu, corralinda!

CORTAR PARA:

CENA 13/SÃO PAULO/MORUMBI/MANSÃO DE ELIANE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Cacau está terminando de limpar o ventilador, quando Úrsula aparece.

ÚRSULA – Já terminou por aí? Tenho um trabalho para você lá no porão.

Cacau a olha com receio.

PORÃO

Úrsula deposita no alto da escada um balde com ratoeiras e lhe entrega um saquinho de queijo do mercado.

ÚRSULA – Quero que você espalhe por este porão inteiro essas ratoeiras para que ratos imundos não venham a nos importunar.

CACAU – Por nossa senhora da Aparecida, dona Úrsula, eu morro de medo deles, não faz isso comigo não.

ÚRSULA – E quem vai fazer, sou eu por acaso, Carolina?

CACAU – Contrata um serviço de desratização, não é possível que um condomínio deste porte não tenha um combinado sobre isso.

ÚRSULA – Tínhamos, Carolina. Tínhamos! Até trocarem a síndica e este que assumiu ser um irresponsável.

CACAU – Mas eu tenho medo de rato, Dona Úrsula.

ÚRSULA – E o que eu tenho haver com isso, Carolina? Você quiser ser empregada da minha casa, precisa se virar nos trinta, minha filha.

E vai em direção a porta.

CACAU – Por favor, dona Úrsula, não faz isso!

ÚRSULA – Para de mimimi, Cacau.

Cacau tenta impedir que ela tranque a porte.

CACAU – Pelo amor de Deus! Não faz isso comigo!

ÚRSULA – Que droga, Carolina! Você quer ser mandada para o olho da rua?

Cacau se estaca.

ÚRSULA – Não, né? Então vê se sossega este facho.

E a trancou no porão. Cacau começou a passar mal, escorou-se no corrimão, sentou na escada e viu um rato se mexer lá em baixo. Close em seu rosto aterrorizado. Uma gota de suor escorre pelo seu rosto.

CENA 14/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/ENFERMARIA DE NEUROLOGIA/MANHÃ

Rita terminava de fazer o teste index-nariz em uma paciente raquítica, quando Fátima apareceu na sala a chamando.

FÁTIMA – Tem um tempo para um cafezinho?

RITA – Amiga, há quanto tempo! Claro, claro, já terminei por aqui.

CORREDOR DA NEUROLOGIA

Médicos e enfermeiros transitam em velocidades diferentes no corredor. Rita e Fátima caminham

RITA – E ai? Fa! Quanto tempo! Ainda dá aula de Farmacologia para os meninos? Fiquei sabendo por Meire que está grávida aos quarenta e poucos anos?

FÁTIMA – Agora peguei licença, mas sou responsável sim pela disciplina no primeiro módulo. E Quem vê cara, não vê alma, minha querida. Tenho alma de 25, okay?

Rita ri alto.

RITA – Com certeza, mas me conta mais, é menina? Menino?

FÁTIMA – Menina.

RITA (vibra) – Uhuuuuul.

FÁTIMA – E até já pensei no nome, vai se chamar Betânia.

RITA – Que nome lindo!

FÁTIMA – Eu também acho, você acredita…

Ela tem uma alucinação e vê uma jovem com um roupão branco e cabelos longos pretos repartidos ao meio olhando para ela com um olhar triste.

FÁTIMA – Lorena…

Instrumental dramático. A mulher acaba se desequilibrando na ponta da escada e rolando lances de degraus abaixo, batendo a barriga, ela cai no chão e põe a mão na barriga, percebe que está encharcada de sangue, deixando Rita em choque.

CENA 15/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/CORREDOR DE PEDIATRIA E NEONATOLOGIA/MANHÃ

Meire está saindo do corredor, colocando seu crachá de residente para abrir a porta, quando Heloísa e Suzy aparecem ao seu encontro.

HELOÍSA – Meire! Que bom que te achei! Como Clarinha está?

MEIRE – Está estável. Mas você me parece com uma cara de preocupação, aconteceu alguma coisa?

HELOÍSA – Você verificou o foco pulmonar dela na ausculta cardíaca?

MEIRE – Não, a Doutora Bomga viu isso, está normal e anotado no prontuário.

HELOÍSA – Pois eu acho melhor você reavaliar, porque eu ouvi um sopro.

MEIRE – Um sopro? Você tem certeza?

Heloísa balançou a cabeça afirmativamente.

MEIRE – Nossa, deixe-me ver isso.

MATERNIDADE

Meire coloca seu estetoscópio sobre o foco pulmonar de Clarinha e de fato escuta um sopro.

MEIRE – É mesmo! Que ouvido apurado para uma aluna primeiranista, você tem, hein?

HELOÍSA – Será que ela tem estenose pulmonar?

Meire pensa um pouco.

MEIRE – Muito provavelmente, isso explicaria o baqueteamento digital na ponta dos dedos e a alteração de eritropoietina, deve estar descompensada. Vou atualizar isso no prontuário dela, mas vou fazer mais, vou pedir uma radiografia de tórax e um eco e um eletro. Talvez ela precisa operar.

Heloísa e Suzy se entreolharam preocupadas.

CENA 16/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO/RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/EXTERIOR

Fabiana foge de Guto num gesto de brincadeira e ele a alcança, beijando-a de frente.

Desfocar. Instrumental explosivo. Zoom, mostrar Eliane encarando a cena de dentro do refeitório.

ELIANE – Maldita! Ela não descansa de roubar, meu homem.

Ela então percebe que alguém acaba de entrar no refeitório pela sua diagonal e esboça um sorriso, saindo do local onde está.

Ela se aproxima.

ELIANE – Finalmente sua detenção terminou, eu mal esperava reencontrá-lo para botarmos em prática nosso plano contra a neguinha.

Revelar a outra pessoa ser Samuel com olhares maliciosos.

CENA 17/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Entardece na Grande São Paulo…

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ULTRASSONAGRAFIA/TARDE

Fátima chora, Rita segura a mão dela.

FÁTIMA – Rita, eu não quero perder, minha filha, foi tão difícil engravidar, eu não posso…

Rita olhava para as imagens pasmada. O técnico termina de deslizar o aparelho sobre o gel na barriga de Fátima.

TÉCNICO – Eu sinto muito, mas o bebê veio a óbito dentro da sua barriga, não há nenhum sinal de vida.

FÁTIMA – Não!

A mulher chora alto. Rita a abraça.

FÁTIMA – Por que isso foi acontecer, comigo, por quê?

Rita aperta o abraço em lágrimas.

CENA 19/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/INSTITUTO DE FISIOTERAPIA/NEUROLOGIA/TARDE

A professora Miriam termina em seu banquinho de explicar os compartimentos por onde circulam o líquor cefalorraquidiano.

MIRIAM – Vamos lá, moçada, para terminar. Batidão do líquor para não esquecermos.

Guto fez um barulho com a boca imitando um batidão, todos riram e foram no embalo.

Começaram a cantar.

“ O LÍQUOR É PRODUZIDO VEJAM SÓ QUE LEGAL NOS PLEXOS COROÍDES DOS VENTÍCULOS, ISSO É SENSACIONAL. TEMOS OS VENTRÍCULOS LATERAIS QUE FICAM NO TELENCÉFALO, O TERCEIRO NO DIENCÉFALO E O QUARTO NO ANTIGO ROMBOENCÉFALO. OS FORAMES TAMBÉM NA SEQUÊNCIA SÃO, NOMEIE: MONRO, SYLVIUS, LUSCHKA E MAGENDIE. AGORA PARA TERMINAR VEJAM QUE ANIMAL, ESPAÇO SUBARACNIDEO É CRUCIAL E TERMINAM NO VILÕES DA FISSURA SAGITAL.

Todos bateram palma no final, extasiados.

MIRIAM – Isso, mesmo, moçada. Senti firmeza para nossa primeira prova daqui há duas semanas.

Heloísa sente um calafrio ao ouvir sobre a avaliação. Entra em transe. Goram se aproxima.

GORAM – Hey, porã, tá tudo bem? Goram te chamou umas cinco vezes.

HELOÍSA – Ah, oi. Estou sim, só um pouco cansada.

SUZY – Então vamos para casa, bonita?

Heloísa se levanta.

SUZY – Você e André vão dar um pulo na rep?

GORAM – Não vai dar, Su. Goram e André vamos ter que capar o gato e ver nosso bilhete universitário na empresa de ônibus lá no centro.

MARCELA – É a melhor coisa que você faz, metade do preço da passagem que está muito cara.

FABIANA – Nem me falem gente, cinco conto é muita coisa.

MARCELA – Zé está me esperando no carro, se quiser, damos uma carona para vocês até lá.

GORAM – Ah, gato réi, nós aceitamos.

VITÓRIA – Nossa gente, estou notando que Dandara não vem as aulas faz um tempinho, será que aconteceu alguma coisa?

ANDRÉ – Também queria saber

Goram se despede da galera e vai para o carro de José junto com André e seguindo Marcela. No caminho, ele tranquiliza sua mãe por uma mensagem de whatsaap:

“Fica tranquila que vou dar um jeito de achar Araponga.”

Big-close-up na tela.

CENA 20/SÃO PAULO/CENTRO/HOTEL MODESTO/INTERIOR/APARTAMENTO SEGUNDO ANDAR/TARDE

ARAPONGA – Ah, não. Tô fumando numa quenga! Isso só pode ser um pesadelo! Bernardo tirou Araponga daquele flat maravilhoso para alocar Araponga aqui? Nem ar-condicionado tem esse cubículo.

Bernardo termina de reiniciar o celular de Araponga.

BERNARDO – Se você ficasse num hotel de luxo, ia dar na telha. Pronto, formatado. Agora, este será seu novo celular com seu novo número.

ARAPONGA – Que exagero! Tu quer fazer hora com cara de Araponga, Galalau. Você está pensando que sou menor de idade?

BERNARDO – Óbvio que não, mas prefiro pecar por excesso. Você tratou de desaparecer para eles, agora eles vão vir atrás e são capazes de me acusar de sequestrador.

ARAPONGA – Bem que Bernardo tem cara de sequestrador!

Instrumental explosivo. Bernardo gelou. Silêncio.

BERNARDO – O que foi que você disse?

Ela gargalhou alto.

ARAPONGA – Sua cara foi ótima. Eu tô só frescando!

Ela o abraçou, ele demorou um pouco para retribuir o gesto, mas ainda o fez de forma meio mecânica.

BERNARDO – Nunca mais fale uma barbaridade dessas…

ARAPONGA – Égua, tá bom, calma.

BERNARDO – Eu tô calmo!

ARAPONGA – Ah, por Tupã, pelo menos, eles tem um frigobar.

Ela abre, mas não tem nada.

ARAPONGA – Mas tá vazio essa merda! Um bando de empaizinado vieram aqui e ó… Ah, Araponga vai morrer aqui dentro, vou ter que ir ao mercado.

Ela mexe no celular, enquanto Bernardo senta pensativo na cama.

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/ENFERMARIA DE PEDIATRIA/TARDE

Meire está tomando um café preto quando Caio chega.

MEIRE – Amor, não conseguimos estar juntos no almoço, que surpresa boa.

Eles trocam um beijo apaixonado.

CAIO – Ainda cuidando daquele caso da filha da Bella?

MEIRE – Pois é, estamos achando que é estenose pulmonar, você acredita que a Heloísa identificou um sopro crescendo-descrecendo diastólico em foco pulmonar.

CAIO – Heloísa é a?

MEIRE – Namoradinha do Goram.

CAIO – Ah sim, a nerdzinha sardenta de cabelos curtos preto no pescoço?

MEIRE – Essa mesma.

CAIO – Caraca, ela identificou um sopro cardíaco no primeiro semestre?

MEIRE – A garota é gênia e Doutora Bomga não identificou.

Nesse instante, uma enfermeira entra trazendo os exames.

ENFERMEIRA – Doutora Meire, saiu o resultado dos exames de Clarinha. Raio-x de toráx, eletro e eco.

MEIRE – Obrigada.

Ela pega o raio-x e coloca para ver, soltando um grito alto. Instrumental drama médico.

MEIRE – Meu Deus do céu.

Caio terminava de ler os exames cardíacos.

MEIRE – Ponta cardíaca elevada, arco médio retificado, dextraposição aórtica, ventrículo direito hipertrofiado, diminuição da trama vascular de uma maneira geral. Coração em forma de bota.

CAIO – Comunicação interventricular perimembranosa e estenose infundibular no eco pelo laudo. E no eletro, acho que mudança abrupta do complexo QRS nas derivações de V1 e V2, com ondas P altas, com desvio para a direita.

MEIRE – Como eu não pensei nisso antes? Como? Ela precisa operar imediatamente!

Aumentar instrumental de drama médico. E sai correndo em direção aos corredores procurando doutora Bogma.

Caio não está entendendo nada.

CAIO – Amor, onde você? …Vai.

CENA 22/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/TARDE

Laurinha termina de passar esmalte nas unhas. Themise parar de aspirar o tapete da sala.

THEMISE – Nossa, mas essa sala tá com cheiro forte de acetona!

LAURINHA – Ué? É só abrir a janela. (E solta uma risadinha irônica)

Themise abre.

THEMISE – Era para senhora fazer isso!

LAURINHA – Eu por quê? Não sou eu que estou incomodada.

THEMISE – Mas você é muito da bocuda, hein? Merecia umas chineladas para parar de ser assim.

LAURINHA – Se me bater, entrego-te no conselho tutelar.

THEMISE – Ah, mas eu não tenho medo de você. Até parece que vai conseguir me manipular dessa forma.

LAURINHA – Não estou querendo que tenha medo de mim (ri debochando), eu nem mencionei isso, quero que me respeite.

THEMISE – Você é patética, acha-se demais.

Toca a campainha.

THEMISE – Nossa, estamos na Vila Madalena e esse prédio parece que sempre não tem porteiro.

Themise atende.

THEMISE – Pois não?

PÂMELA – Eu sou Pamela, gostaria de conversar com um tal de Goram. Ele mora aqui não é?

Laurinha para de pintar as unhas e encara a jovem. Themise engole seco.

CENA 23/SÃO PAULO/CENTRO/ PRÉDIO ADMINISTRATIVO DE EMPRESA DE ÔNIBUS/EXTERIOR/TARDE

Goram sai feliz junto com André.

GORAM – Por Maíra e Macuna- Íra. Goram nem acredita que está diante desta carteirinha, agora vou poder pytyvõ a economizar para meus velhos.

ANDRÉ – Eu estou com fome, vamos dar um algo para comer?

GORAM – Cagado, vi um mercadinho aqui perto, deve ter algo por lá.

ANDRÉ – Fechou.

CENA 24/SÃO PAULO/CENTRO/MERCADO/EXTERIOR/TARDE

André vê o sanitário masculino

ANDRÉ – Vou ao banheiro antes.

GORAM – Beleza, mano, aguardo aqui fora.

Instrumental explosivo. Araponga sai do mercado com sacolas e desce a rua de costas para Goram. Close em Goram surpreso por vê-la.

GORAM – Égua de largura! É Araponga! Achei tu diaba.

Ele resolve segui-la. Instantes depois André sai do banheiro.

ANDRÉ – GORAM? GORAM? Onde foi que ele se meteu?

CENA 25/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/CORREDOR DE NEONATOLOGIA/TARDE

Meire encontra Doutora Bogma em pânico no corredor, Bella gritava.

BELLA – Minha filha! Salvem a Clarinha!

MEIRE  – O que tá acontecendo?

BOMGA – Ela tá tendo uma crise hipercianótica, está descompensando muito.

MEIRE – Meu Deus! Ela precisa operar, precisa ir para sala de cirúrgia, olha esse laudo do ecocardiograma.

BOMGA – Minha nossa, mas isso aqui é…

MEIRE – Tetralogia de Fallot!

Neste instante, elas percebem que o monitor de batimento cardíaco de Clarinha parou.

CENA 26/SÃO PAULO/CENTRO/HOTEL MODESTO/EXTERIOR/TARDE

Araponga cumprimenta o porteiro e se adentra.

Do outro lado da rua, sai de trás de um poste, Goram.

Ele aguarda uns instantes e tem a sorte de o porteiro sair para ajudar um motorista a entrar no estacionamento, corre atravessando a rua e entra pela entrada de pedestres.

INTERIOR – TÉRRIO.

Olha o elevador e percebe que parou no segundo andar. Abre a porta da saída de emergências e desata a correr subindo as escadas.

INTERIOR – SEGUNDO ANDAR

Goram abre a porta da sala de emergência e se depara com uma cena que jamais esqueceria.

Instrumental catastrófico. Araponga apoiada na parede com as sacolas nas mãos, sendo beijada por Bernardo.

BERNARDO – O que você trouxe de bom aí, hein safada?

Voltar bruscamente para Goram. Close em sua face enojada.

FADE OUT.

CONTINUA…

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NAVEGAR

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