Estação medicina

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Capítulo 17

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ESTAÇÃO MEDICINA 

CAPÍTULO 17

DESEQUILÍBRIO

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/CENTRO/HOTEL MODESTO/INTERIOR/2º ANDAR/CORREDOR/TARDE

Goram observa tudo enojado, respirando com asco.

GORAM (V.O.) – Por Maíra, Macuna-íra! Até Araponga, esse crápula está enganando! Há’e tá enraizado até na vida de minha família adotiva!

Neste instante, por cima do ombro de Araponga, Bernardo percebe que Goram está lhe observando.

BERNARDO – Você aqui?

Instrumental explosivo. Goram entra correndo no corredor das escadas.

Araponga olha para onde Bernardo está olhando e não entende.

ARAPONGA – Égua! Você quem, cabocô?

Instrumental de ação. Bernardo avança em direção a porta de emergência e abre o corredor, olha dentro procurando por Goram.

CORREDOR DAS ESCADAS

ARAPONGA – Por tupã! Calme aperreado! O que foi, amor? Tu viu alguém?

BERNARDO – Ele!

CAM NERVOSA. E começa a descer os lances de escada.

ARAPONGA – Égua de largura! Ele quem?!

HALL TÉRREO

Bernardo abre a porta do corredor das escadas no térreo, dá uma olhada em volta no hall, olha no ponteiro do elevador e percebe que o mesmo objeto se encontra parado no térreo e desata para fora, procurando pelo indígena.

EXTERIOR

 

 

BERNARDO – Hey, hey! Você viu um cara estranho saindo daqui correndo?

PORTEIRO – Eu não vi ninguém, senhor, estava ajudando na garagem.

BERNARDO – Seu merda! Incompetente! Nem para ficar plantado nesta portaria, você presta!

O homem fica sem graça. Araponga se compadece.

ARAPONGA – Eita homem de Deus! Se acalme!

Desfocar do casal. Instrumental explosivo. Há poucos metros ali, percebemos a cabeça de Goram se esgueirando por detrás de uma grande lixeira, escutamos sua respiração ofegante.

CORTAR PARA:

CENA 02/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/CORREDOR DA PEDIATRIA E NEONATOLOGIA/TARDE

Instrumental dramático. Meire, Doutora Bomga e Bella se aproximam desesperadas da vitrina da maternidade. Muitos profissionais circundam a cubeta de Clarinha, impedindo o campo de visão.

BELLA – MINHA FILHA! EU QUERO VER A MINHA, FILHA!

Ela esmurra o vidro da maternidade, mas Meire e Bomga a afastam de leve.

MEIRE – Se acalme, amiga. Você tá muito agitada!

BELLA – E você quer que eu fique como, Meire? O Sinal cardíaco da minha filha parou!(fala desesperada)

BOMGA – Calma, vamos esperar.

CORTE DESCONTINUO

MATERNIDADE.

Aumentar o volume do instrumental dramático. Closes alternados bruscos. Tentam a reanimar Clarinha com as mãos pela última vez, mas não conseguem. O médico responsável ali faz o sinal para pararem. Abaixa a cabeça triste, olha o relógio de pulso.

MÉDICO – Hora da morte : 16 horas e 52 minutos!

Ele sai e dá a notícia para Bella que se desprende dos braços de Meire e Bomga.

CORREDOR DE PEDIATRIA E NEONATOLOGIA

BELLA – E então, doutor, a minha filha, filha ficou bem, né?

Expressão séria.

BELLA (Se desmonta) – Por favor, não diga que…

MÉDICO – Eu sinto muito, senhora, mas não teve jeito, a crise hipercianótica foi muito forte, ela não resistiu.

BELLA – NÃOOOOOO!

E dá um grito estridente, Meire e Bomga tentam acalmá-la. Ela as empurra com força e se joga no chão desesperada.

BELLA – CLARINHA! CLARINHAAAA! Não pode ser! (E foi ficando sem falta de ar). Não! (Agitada).

Lentamente, Meire se aproximou e se sentou no chão, abraçando a amiga forte. Bella chorava como criança.

CORTA DESCONTINUO

LANCHONETE DO HOSPITAL     

Bella transtornada chorava sendo carregada arrastada por Doutora Bomga e Meire que estavam tentando assim como ela conceber a notícia que acabaram de receber.

MEIRE – Por favor, vê um chazinho de camomila!

Bomga coloca Bella para se sentar, o esqueleto da mãe órfã resistia.

Rita chega ao local também mal e se compadece com a cena de Bella chorando aos soluços.

RITA (cochicha para Meire) – O que aconteceu?

MEIRE – Perdeu a filha por insuficiência cardiorrespiratória de Tetralogia de Fallot!

RITA – Meu Deus, que tragédia!

MEIRE – Você também parece bem abatida, aconteceu algo?

RITA – Você não vai acreditar : Fátima perdeu o bebê!

MEIRE – O QUÊ?! NÃO ACREDITO! Como isso foi acontecer?

RITA – Ela foi me ver na Neurologia e quando fomos descer para cá, ela tropeçou e caiu da escada, bateu a barriga, começou a sangrar, nossa, isso acabou com meu dia, coitada, depois de tanto tempo depois que perdeu a filha, fez produção independente e agora me acontece isso.

MEIRE – Meu Deus! Coitada da Fátima! E no caso dela nem foi aborto, porque ela já tinha passado de 20 semanas. As chances dela conseguir engravidar de novo são tão remotas, ela já tem quase 45 anos.

RITA – Tá arrasada também.

MEIRE – Que dia foi esse, amiga? Duas mortes de bebês indefesos.

RITA – E eles ainda eram do particular, imagina quantos não morrem neste Brasil a fora por uma falta de assistência médica adequada, falta de saneamento básico, falta de locais de saúde.

MEIRE – Estamos melhorando, mas ainda é considerável. Acho que a cada mil crianças, 8 ainda morrem antes do primeiro mês.

RITA – Isso quando não são vítimas de violência doméstica dos próprios pais. Ai, não gosto nem de imaginar. Por favor, me vê um energético, querida. (Ela se dirige a balconista)

CORTAR PARA:

CENA 03/SÃO PAULO/CENTRO/MERCADO/EXTERIOR/TARDE

 

Goram chega ofegante ao mercado com uma cara revoltada. André já sentado num banco, identifica-o e vai ao seu encontro.

ANDRÉ – Cara, onde você estava? Você sumiu!

GORAM – Égua! Aquele monstro!

ANDRÉ – Quem? Seu irmão?

GORAM – Ani. O Amante dele!

ANDRÉ – Bernardo? O que tem ele?

GORAM (se coça de nervoso) – Uma prima de Goram desapareceu lá de Roraima e Goram acabou de encontra-la saindo deste mercado, fui seguí-la e a flagrei aos beijos com aquele jejuka!

ANDRÉ – O Bernardo? Você tem certeza?

GORAM – Absoluta! Acho que há’e me viu! Mas Goram correu tanto, capei o gato e me escondi que ele não deve ter ficado com essa certeza, deve achar que se engabelou.

ANDRÉ – Caramba! Esse cara parece que está em toda parte!

GORAM – Por mais que Goram não se simpatize com Araponga, tekovetê fazê-la se afastar deste sujeito, se não ela pode acabar que nem a Ângela. Morta!

ANDRÉ – Meu Deus!

GORAM (bate o pé enfurecido) – Goram precisa conseguir alguma prova logo contra este cara! Ele precisa ser ñapiti, sair logo de campo, pagar por tudo que fez a mim a estas pessoas de uma vez por todas!

Instrumental explosivo. Big-close-up com sangue nos olhos. Ele dá sinal para um ônibus e corre até o ponto, André o acompanha.

ANDRÉ – Hey Goram! Espere! Espere!

CENA 04/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Anoitece no Minhocão…

CENA 05/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROLINE/INTERIOR/COZINHA/NOITE

Carolina chega do serviço aterrorizada com o serviço que Úrsula lhe deu para fazer. Ainda estava de uniforme.

Fabiana termina de lavar a louça, ela percebe quando a mãe se senta e põe a mão na cabeça aliviada.

FABIANA(enxuga a mão com os panos e o larga rápido em cima da bancada) – Mãe, que cara é essa? Você tá bem?

Carolina começa a chorar de alívio.

FABIANA – Que foi? É algo com o Guilherme? Ele piorou?

Carolina se vira para ela e nega com a cabeça.

FABIANA – Não é com ele? Mas então o que aconteceu? Fala para mim!

Carolina chora e se levanta, dirigindo-se para seu quarto.

CAROL – Vou descansar um pouco!

FABIANA – Mas o que aconteceu?

Carolina não responde e vai para seu quarto, trancando-se. Fabiana tenta bater na porta, mas desiste de insistir, fica olhando para a porta do quarto preocupada.

CENA 06/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/ESCRITÓRIO/NOITE

Mateus analisa umas planilhas orçamentárias da universidade, está com óculos de leitura na ponta do nariz.

MATEUS – E eu que achei que com o nosso desempenho na Olímpiada brasileira de Medicina fosse reverter isso, ingenuidade minha! Com essa crise feita por aquela topeira da ex-presidente, não era para menos. Ah, mas eu não vou ficar sem aumentar o meu lucro, não! Vamos fazer um corte estratégico e cirúrgico.

E esboça um sorriso maléfico, começa a folear as planilhas.

MATEUS – Não posso aumentar os impostos sobre nossos produtos, não posso sugerir o aumento da alíquota das ações, mas posso cortar investimentos do atendimento de graça! Minha faculdade é caridade por alguma acaso? Essa merda de SUS só emplaca o orçamento! Tem que ser privado essa merda logo, cobrar algo desses moribundos.

Ele puxa o gancho de seu telefone com fio e disca maestralmente para a vice-reitora.

MATEUS – Alô…Dani, Professor Doutor Mateus aqui. Seguinte, põe a seguinte pauta de votação com urgência para amanhã cedo com os acionistas, investidores e patrocinadores: corte de 40% do nosso capital na ala de abrangência do sus. Agradeço sua agilidade, querida. Tenha uma boa noite.

Ele desliga satisfeito, vai para a sala de estar.

SALA DE ESTAR

Ele se acaricia do viveiro de Cecília e acaricia sua filha de estimação, depois ele se volta a câmera.

MATEUS – Vou mandar a votação para aqueles cambadas de sindicalistas não me acusarem de ter tido uma decisão monocrática! Desse mal eu não morro!

E dá uma gargalhada alta que ressoa pelo aposento. Fechar em plano geral.

CENA 07/SÃO PAULO/VILA MADALENA/EDIFÍCIO DE ADELAIDE/EXTERIOR/NOITE

Goram desce do ônibus e atravessa a rua em direção ao prédio. Respira fundo contemplando a verticalidade do edifício, ainda passado com o que vira e se adentra.

HALL DE ENTRADA

Close na conversa de whatsaap de Goram com sua mãe. Ele escreve: “Achei Araponga, ela está bem, está no centro da cidade”.

Ele deposita a cabeça estalando no espelho, contempla seu semblante totalmente revoltado, arrasta-se até o botão do elevador e o chama.

APARTAMENTO DE ADELAIDE

Goram abre o apartamento, entra e fecha a porta, respira fundo, largando a mochila no chão da sala.

PAMELA – Então você é Goram Guajajara?

Instrumental explosivo. Goram se vira com susto. Ela o encara fundo.

PAMELA – Preciso que você me conte o que sabe sobre Bernardo e se foi você que me mandou aquele bilhete?!

Close no rosto de Themise sentada no sofá preocupada com a situação. Pamela determinada encarando séria o rapaz e Goram com os olhos esbugalhados ainda assustado.

 

CENA 08/SÃO PAULO/CENTRO/HOTEL MODESTO/APARTAMENTO DE ARAPONGA/INTERIOR/NOITE

Bernardo senta na cama ainda cismado. Araponga o abraça.

ARAPONGA – Eita porrudo! Calme. Calma, meu amor, vai ficar tudo bem!

BERNARDO – Não é a primeira vez que esse cara aparece me espionando, o que ele quer?

ARAPONGA – Não havia ninguém lá, nenhum cabocô, tu deve ter se engabelado, amor. Acalme-se.

Bernardo se levanta irritado.

BERNARDO – Eu tenho certeza que vi, ele estava lá.

ARAPONGA – Ele quem?! Por tupã. Vem, vamos beber algo, você tá muito agitado.

Bernardo descansa e ela consegue o puxar até o frigobar, entregando-lhe uma cerveja, ela pega uma também.

ARAPONGA – Bebe com Araponga?

Ele pensa um pouco e depois executa.

ARAPONGA – Isso ae, esse é o Galalau que conheço.

Ela retira a roupa e joga um pouco de cerveja dela sobre o corpo.

ARAPONGA – Vem experimentar corpo de Araponga!

BERNARDO – Aquele que desce redondo?

ARAPONGA (diz aproximando os lábios para beijá-lo) – Isso, aquele que desce redondinho.

BERNARDO – Tu é uma quenga mesmo! (Ri maliciosamente)

Eles se agarraram feito animais e se jogam na cama

CENA 09/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

PAMELA – E então Goram, me fala, foi você que escreveu o bilhete?

GORAM – Themise, seus ru estão dormindo?

THEMISE – Tão sim!

Goram respira fundo e se aproxima de Pamela.

GORAM – Fui Goram hee, é verdade.

Pamela olha para cima.

PAMELA – Eu sabia! Quando André me contou que Bernardo era o mandante do sequestro, ele mencionou que você o tinha contado, só podia ser você o autor do bilhete.

Goram a encarou se recuperando do susto.

PAMELA – Por que você não me contou logo de uma vez que era ele? Porque me mandou um bilhete anônimo super enigmático que me deixou doida e me fez dar um susto na minha mãe que não resistiu?

GORAM – Égua! Com todo respeito, Pamela, a tua dor, mas daqui a pouco você vai querer responsabilizar Goram pela morte da sua mãe e Goram não é. Eu não podia monda a minha identidade e correr o risco de você contar para Bernardo sobre Goram.

PAMELA – E por que Bernardo não podia saber que era você? O que você teme?

Goram solta tudo de uma vez. Instrumental explosivo.

GORAM – Este desgraçado, jejuka, matou os meus pais junto com o amante dele, o Mateus.

PAMELA – O que é que você está dizendo?

GORAM – É isso que tu ouviu! Goram é Giovane, o irmão caçula que o Mateus vive espalhando por aí que foi sequestrado no dia que seus pais foram assassinados, mas aquele ijapúva não conta que foi o mandante do crime e tentou me matar, mas Goram sobreviveu, eu vivi para voltar para terra de homem branco e acabar com ele de uma vez, ele e o amante dele.

E diz isso num tom enfático. Pamela cai sentada, preservando a barriga.

PAMELA – Mas esse cara é muito pior do que eu imaginei.

Goram se aproxima dela.

GORAM – Mas tu tem que me prometer, Pamela, mi, que não vai contar a ele, não vai jogar isso na cara dele, eu estou querendo reunir provas e manda-lo para prisão.

PAMELA – Mas tem a minha história, porque você não a usa para entregar esse cara?

GORAM – Porque se Goram fizer isso antes de derrubar Mateus, Mateus vai logo tirar ele da prisão, os dois são cúmplices, Mateus temerá que seus okendavoka sejam revelados.

PAMELA – Meu Deus, eu tô zonza com tudo isso, eu não posso ter sido cega há tanto tempo.

Goram se ajoelha próximo de Pamela. Themise fica preocupada com o estado de ânimo do rapaz.

GORAM – Tu precisa me prometer, Pamela. Que não vai contar nada a ele e me deixar acabar com esses dois.

Pamela se levanta passada, Goram vai atrás.

GORAM – Égua mãe, Pamela, me prometa, prometa a Goram que não vai contar nada.

Ela abre a porta, passando mal. Themise o impede de ir atrás.

THEMISE – Ela está grávida, Goram! Goram! Fica aí, eu vou atrás dela.

Goram abafa o choro pressionando o joelho contra o peito. Instrumental de mistério. Laurinha aparece no corredor, ouviu-tudo, estava passada.

ÁREA EXTERNA DO EDÍFICIO.

Themise alcança Pamela.

THEMISE – Pamela, você está bem, quer alguma coisa?

PAMELA – Que família de maluco, bando de loucos, vocês todos.

THEMISE – Quer que eu chame um uber para você? Por favor, Pamela, não conte a ninguém sobre o que ouviu aqui hoje.

Pamela explode.

PAMELA – Eu não vou contar, caralho. Não vou! Quero ver esse cara mais ferrado do que nunca. Agora onde tem ônibus nessa rua

Themise mostra o ponto de ônibus e Pamela chega tomando um ônibus alguns instantes depois.

APARTAMENTO DE ADELAIDE

Themise volta para a sala e encontra Goram chorando com as pernas pressionadas junto ao peito.

GORAM – E agora e agora? Que tragédia! Por Tupã! Se Pamela contar para o Bernardo, estou kañymby, ele quase me flagrou hoje.

THEMISE – Se acalme, Goram. Ela me prometeu que não vai contar a ele.

Ela senta ao seu lado e o abraça, ele deixa a cabeça cair no ombro dela.

CENA 10/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Amanhece na Capital Paulista. Mostrar o momento que o grupo de acionistas pela internet aprovam a decisão de Mateus por unanimidade.

 

CENA 11/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE RITA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

 

Rita anda preocupada de um lado e de outro falando com Jesuína pelo  celular.

RITA – Mas isso é um absurdo! Como ele reduziu o investimento em 40% das áreas da participação privada do capital filantrópico para áreas do SUS no hospital. Já falta insumos, seringa, salas de atendimento adequadas, gaze, algodão e agora vamos ter que reorganizar o orçamento em cima de 60% do valor inicial. Vai dar um pane no sistema inteiro! E o diretor e vice-diretor do hospital estão de acordo com essa atrocidade? Claro! Foram promovidos, mas é uma corrupção deslavada essa instituição! Exatamente Jesuína, temos que nos manifestação, organização sindical, porque com certeza vão demitir mais uma leva de funcionários. Okay, nos falamos mais depois. Abraço, querida, tchau tchau.

Ela desliga o celular e se revolta.

RITA – É cada medida inacreditável que aquele Mateus Moça aprova! E o pior é que aquela corja neoliberal deita e rola, mais lucro, mais especulação das ações e quem necessita do serviço é que se dane! Não é mesmo? Eles tem acesso a um atendimento privado, de qualidade, a trabalhadora que trabalha de sol a sol para sustentar a família merece morrer de uma septicemia por Neisseria.

Ela para um momento, reflexiva e liga para George.

RITA – Alô, querido. Tudo bem? Preciso que você organize o corpo estudantil, você não sabe da maior que o reitor aprontou.

CORTAR PARA:

CENA 12/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/CORREDOR DE PEDIATRIA E NEONATOLOGIA/MANHÃ

Heloísa chega com Suzy e percebe pelo vidro da maternidade que Clarinha não está mais na cubeta.

SUZY – Será que ela teve alta?

HELOÍSA – Pode ter recuperado da cirurgia de estenose pulmonar. 

Meire que passava, escutou a conversa e parou.

MEIRE – Infelizmente não.

Heloísa e Meire se viraram para ela.

MEIRE – Clarinha não resistiu.

SUZY – Como é que é?

HELOÍSA (Os olhos vão a lágrimas) – Não!

SUZY – Como isso foi acontecer?

MEIRE – Os resultados do ecocardiograma e outros exames saíram e foi constatado que ela tinha uma doença congênita de comunicação entre os ventrículos cardíacos, mais dextraposição da aorta e outros fatores chamada Tetralogia de Fallot.

HELOÍSA (chora desesperada) – Meu Deus! Eu li isso no livro, mas não consegui identificar. Eu poderia ter salvo a vida dela se tivesse lido com mais atenção.

SUZY – Se acalme, amiga.

HELOÍSA – Eu fui negligente, eu indiretamente matei essa bebê!

MEIRE – Pare de dizer, bobagens, Heloísa, você é primeiroanista, não tinha como saber. Não estava óbvio para ninguém, a Doutora Bomga que é uma pediatra renomada não conseguiu identificar o sopro cardíaco de estenose que você chegou a identificar.

Heloísa senta no banco em lágrimas, Suzy e Meire tentam acalmá-la.

MEIRE – Vou pegar uma água para você, fique calma.

SUZY (senta ao lado dela) – Amiga, essas coisas acontecem, vai ser rotina na nossa profissão, você não teve culpa de nada, chegou a investigar, a ler, a tentar, mas não é exatamente o que lemos que se traduz na vida real, cada organismo reage de um jeito.

Heloísa recebe a água que Meire traz.

MEIRE – Aqui!

Close nos olhos passados da nerd.

CENA 13/SÃO PAULO/JD AMERICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/SALA DE JANTAR/MANHÃ

 

Instrumental explosivo. Mateus joga maestralmente com o dedo mínimo direito levantado, pedaços de salmão para Cecília que está posta na cadeira ao seu lado, comer. A naja salta abrindo a boca num gesto de bote.

Bernardo chega para o desjejum e leva um susto.

BERNARDO – Caralho, o que esse bicho tá fazendo aí de novo?

MATEUS – Me acompanhando e esse bicho não, porque ela tem nome e sobrenome, chama-se Cecília Moça!

BERNARDO – Você e essas suas manias estranhas!

Ele senta na cadeira do outro lado e pega o jornal que estava no fim da mesa.

BERNARDO – Mas esse jornal é de ontem, Catarina não trocou a edição. CATARINA!

MATEUS (diz com uma voz de vilão) – Eu pedi a ela para não fazer isso!

Bernardo fica surpreso.

BERNARDO – Posso saber, porque fez isso? Você sabe muito bem que eu gosto de ler exemplares novos toda manhã.

MATEUS – E eu gosto de sexo selvagem, tchaca tchaca na buthaca, de amor, carinho, companheirismo e cumplicidade, valores que há muito tempo não aparecem por aqui.

BERNARDO(incrédulo)– O quê? Deixa eu ver se eu entendi, então você…

MATEUS – Então eu retirei os seus exemplares novos para que você prestasse mais atenção em mim, nesta conversa e não ficasse mais distante como sempre. Bernardo, você já reparou que não para mais em casa? Que chega tarde da noite e rejeita meus carinhos, vive saindo correndo de manhã, nem fazemos mais a nossa caminhada matinal?

BERNARDO – Você precisa entender que eu sou um homem de negócios, eu tenho meus empreendimentos fora da marca Moça, é uma correria para mim, você sempre foi tão compreensivo com isso, não estou te entendendo.

MATEUS – A gente vai levando…levando, mas chega uma hora que temos que falar, porque aquilo nos sufoca, você sabe que nunca gostei de grude, mas muito desprendimento cansa também, machuca. E essa desculpa de que sou um homem de negócios é uma furada, eu vivo com a agenda lotada lá na Universidade e nem por isso me falta tempo para sentir sua falta, querer estar com você.

BERNARDO – Você pode conseguir dar conta da sua agenda, mas eu não consigo, não pode me comparar a você. Me admira muito que essa rotina de anos te sufoca.

MATEUS – Você me traiu muitas vezes nesses anos todos, eu fazia vista grossa, recentemente com aquela garota sardenta, eu sempre relevei, perdoei, mas agora…

BERNARDO – Mas agora? Fala!

MATEUS – Eu não sei se estou disposto a continuar perdoando, definitivamente não sei.

BERNARDO – Espere um momento? Você está me acusando de te trair? Esta achando que tenho outro ou outra?

MATEUS – Bem que eu queria achar, eu tenho certeza!

Bernardo se levanta fingindo demência e irritado.

BERNARDO – Eu não estou acreditando numa coisa dessas, saiba que uma das bases de um matrimônio é a confiança, se você não confia em mim, esse vínculo não tem o porquê acontecer.

Mateus se desespera com a possibilidade do término.

MATEUS – Você está pondo nosso relacionamento em xeque?

BERNARDO – Quem está o colocando é você e saiba que o amor é como um diamante, depois que uma vez trinca, não há volta, jamais será o mesmo outra vez.

E se levanta, deixando Mateus em lágrimas. Ele vai a seu encontro.

SALA DE ESTAR

MATEUS – Me perdoa! Eu não sei onde estava com a cabeça de te acusar, estou sentindo sua falta, não consigo…

Catarina observa tudo do alto da escada.

BERNARDO – Pois que pensasse nisso antes de jogar essas desconfianças na minha cara!

MATEUS – Eu estou sentindo sua falta, não sei o que fazer, sinto que não somos mais os mesmos um com o outro.

BERNARDO – Desse jeito, não seremos mesmo.

Ele pega seu blazer, mala pretos em cima do sofá branco e sai pela porta da sala.

Mateus chora e quebra os vasos de porcelana que decoravam o arco da sala de estar que dava passagem para a sala de jantar, gritando alto e depois caindo no choro, jogando-se no chão e deslizando suas mãos, agora ensanguentada pelos cacos de vidro. Catarina observava a cena imóvel.

MATEUS – Por que ele faz isso comigo? Por quê?

 

 

 

CENA 14/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/MANHÃ

 

Goram pega salada e volta a mesa onde sua turma encontrava sentada.

GORAM – Toma, porã, sua salada!

SUZY – Por favor, Heloísa, tira essa ideia da cabeça que você foi responsável pela morte da menina que você não foi.

GORAM – Sim, mborayhu. Suzy tá certa, foi uma fatalidade.

ANDRÉ – Teremos muito tempo para aprender sobre as patologias, ouvi dizer que teremos dois anos com um professor muito fera.

MARCELA – Espero que não seja tão machista quanto o de Biocel.

FABIANA – Nossa, essa fala é muito a cara da Dandara!

GUTO – Álias, por onde ela anda?

MARCELA – Pois é, faz algumas semanas que ela sumiu, até comentei com o Goram e o André ontem.

FABIANA – Precisamos identificar uma forma de conseguir o número dela, endereço quem sabe. Você sabe de algo André?

ANDRÉ – Sei que ela mora lá para o lado de Jardins, eu tinha o número dela, mas acho que ela trocou, porque quando ligo dá número inexistente.

FABIANA – Ela deve ter desativado a linha antiga!

MARCELA – Nossa gente, mudando de assunto, eu não sei o que eu faço com aquela velha?!

GORAM – Que endiabrada! A Cafetina Quenga que maltrata as suas amigas de profissão?

MARCELA – A própria. Pode falar prostituta mesmo, não estamos roubando, nem matando ninguém, não tem o porquê de ser tabu este assunto. Mas enfim gente, olha, não podemos entrega-la, porque se não temos onde colocar as meninas e são muitas meninas.

FABIANA – Mas não é possível que existam outras cafetinas tão ruins que não queiram ajudar, acolher essas meninas e dando a elas um trabalho decente dentro da prostituição?

MARCELA – É difícil, viu amiga? São muitas meninas no pensionato, teríamos dificuldade para abriga-las, tem muita menina de menor, as cafetinas não gostam de se comprometer.

FABIANA – Mas o que mal tem se denunciar? Elas vão para um orfanato, um abrigo de menores, isso é ruim?

ANDRÉ – Muitos desses abrigos são até piores que pensionatos de prostituição, ficam sem comer, sofrem agressão física diária como castigo ao não cumprimento de trabalhos exaustivos.

FABIANA – Nossa!

MARCELA – É minha filha, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.

Fabiana olha e percebe que está atrasada para a reunião do time de basquete.

FABIANA – Deixem-me ir, gente. Basquete me chama!

E sai, neste instante, George chega na mesa distribuindo folhetos informativos.

GEORGE – Amanhã vamos aproveitar a premiação das medalhas da Olímpiada e vamos denunciar essa pachorra que o reitor fez.

SUZY – O que esse danado aprontou desta vez?

GEORGE – Cortou 40% do investimento do capital misto do SUS no hospital.

SUZY – O QUÊ?

HELOÍSA (escandalizada) – 40%?

Goram troca olhares revoltados com André.

GORAM – Leseira Balé! Mas isso é inconsticional, cabocô, não é possível! Não fere a filantropia?

GEORGE – Ferir até fere, mas sabemos de que lado nossos governantes atuais estão, né? Se não nos mobilizarmos para revertermos isso, saibam, é só o começo.

André percebe que seu suco acabou, levanta-se e vai até a máquina do suco, próximo as merendeiras, encher seu copo, quando percebe a poucos metros de si, Romeu beijando um outro cara mais alto, estavam próximos a mesa da turminha do Samuel, André leva um susto, fecha os punhos num gesto de defesa e o suco acaba por cair sobre sua camiseta e caindo com estrondo no chão.

O casal próximo se vira para ver a cena, assim como outros e debocham do rapaz.

ROMEU – Faz medicina mesmo? Pai amado!

André sente uma vontade enorme de fugir dali, estar em outro lugar. Fica extremamente vermelho com aqueles olhares o encarando e aquelas gargalhadas. Abaixa a cabeça. Suzy, Marcela, Goram e Heloísa se aproximam.

GORAM – Por Tupã! Tu está bem, meu amigo?

HELOÍSA – Calma, tá tudo bem, meu amor, foi só um acidente!

SUZY – Que foi, gente? Vai dizer que isso não aconteceu com vocês não? São todos perfeitos!

MARCELA – Circulando, gente. Show de pirotecnia é mais tarde e em outro lugar!

André sofre e o quarteto lhe abraça.

Eliane que estava na mesa de Samuel aproveita a confusão para ir até Guto, rodando as trancinhas.

ELIANE – E aí? Situação chata essa que aconteceu, né?

GUTO – Não é? O cara só derrubou suco nele mesmo, quem não passou por isso na vida?

ELIANE – Pois é, achei desnecessário a galera zoar. Vem cá, hoje a noite, tô pensando em ir no bar do Esteto, você topa?

GUTO – É….hoje a noite não tenho nada para fazer, por que não?

Instrumental crescente. Desfocar. Marcela observa tudo num tom de reprovação.

Goram recebe uma mensagem no celular de Mateus.

“ Aceita tomar um café da tarde comigo próximo a universidade? Tô precisando conversar um pouco”

Goram hesita num momento com raiva pela decisão dele, mas repensa e decide aceitar.

 

CENA 15/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Entardece no ABC Paulista…

 

CENA 16/SÃO PAULO/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/INTERIOR/SALA DE FARMACOLOGIA/TARDE

 

Fátima terminava de coletar os gizes quebrados que ficaram na borda da lousa, cabisbaixa. Não havia ninguém na sala, até que Meire apareceu.

MEIRE – Amiga?

Fátima se virou e Meire foi ao seu encontro com os olhos marejados, abraçando-a.

MEIRE – Eu sinto tanto, mais tanto, pelo que te aconteceu.

Fátima se emocionou.

FÁTIMA – Eu queria tanto ter tido esta criança, você sabe? Depois da morte de Lorena. Eu devo estar pagando toda negligencia que tive com ela.

MEIRE – Pagando nada, você fez o que estava ao seu alcance, a leucemia é uma doença muito agressiva, em alguns casos pode ser letal.

FÁTIMA – Ela implorava tanto para ser salva, eu como mãe deveria ter feito o impossível, saído por este mundo a procurar um doador de medula.

Meire a abraça de novo.

MEIRE – E se mesmo assim não encontrasse, os bancos são muito burocratizados e a histocompatibilidade mais rara ainda. Escuta, vamos tomar um chá naquele local indiano no Bexiga que fomos há alguns anos.

FÁTIMA – Especiairias & Sabores?

MEIRE – Essa mesma.

FÁTIMA – Vamos sim, vou só passar no banco para pagar uma fatura…

Elas saem da sala, câmera para num ponto fixo na parede dentro da sala, instrumental espiritual, vemos uma sombra caminhando.

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAFETERIA FURA BOLOS/ÁREA EXTERNA/TARDE

Goram chega a uma mesa e retira sua mochila, colocando no chão. Dali, conseguimos ver a lateral da universidade.

MATEUS – Que isso? Tem um monte de cadeira aqui, coloque no chão, não! Vai sujar!

Goram estranhou quando Mateus pegou sua mochila e colocou para ele num assento.

MATEUS – Pronto, assim está melhor! Tudo bem com você?

Goram fingiu um sorriso.

MATEUS – Precisamos conversar sobre a entrega das medalhas que acontecerá amanhã cedo no auditório da universidade e sobre o comes e bebes que darei a noite na Mansão para comemorar.

GORAM – Certo!

MATEUS – Depois, queria conversar com você sobre uns problemas pessoais, eu sei que você não vai me julgar por isso, é um menino tão educado e  doce, mas…eu e o Bernardo, nós brigamos.

Instrumental explosivo. Goram virou a face fingindo tossir e esboçou um sorriso satisfeito, depois voltou ao irmão fingindo preocupação.

GORAM – Por Maíra! Brigaram?

MATEUS (triste) – Brigamos e dessa vez foi feio.

O olhar de Goram parecia interesse, mas a verdade é que pulava de alegria. Diretores, explorem esta ambiguidade!

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES EXTERNO/TARDE

Bernardo para sua BMW, vemos Dona Noz-Moscada espreitando, puxando a cortina aos fundos, de dentro da república.

O Celular do vilão toca indicando uma notificação, ele olha e percebe que é uma mensagem de Pamela.

“Espero que esteja cuidando do meu dinheiro, você só tem mais um dia”.

Bernardo olha a tela com ódio.

BERNARDO – Agora essa puta vai ficar fazendo ameaças. Ela não sabe na encrenca que está se metendo, ah se ela soubesse.

Heloísa sai pela porta da frente.

HELOÍSA – Irmão! Você veio mesmo!

E corre ao seu encontro, pulando em seu colo. Eles se abraçam forte.

BERNARDO – Eu não disse que eu não vinha, maninha? Cumpro com minha palavra.

Suzy olhava a cena da porta de entrada quando eles se aproximaram felizes.

HELOÍSA – Amiga, este é o meu irmão, Bernardo! Maninho, esta é minha melhor amiga, Suzy.

SUZY – Prazer!

Eles trocam beijos no rosto. Suzy fica meio sem graça, Bernardo percebe.

BERNARDO – Olha, Suzy, eu não mordo não. Posso ser casado com o reitor, mas não sou um Deus.

HELOÍSA – É isso mesmo, amiga, ele é gente como a gente. Vem irmão, vou te mostrar os bolinhos de chuvas que estou preparando para gente.

BERNARDO – Bolinhos de chuvas? Ah, não, você pegou meu ponto fraco.

Eles sobem correndo e Dona Noz-Moscada profere.

DONA NOZ-MOSCADA – Fiquem a vontade! A República é de vocês!

Suzy ridiculariza.

SUZY – Interesseira!

DONA NOZ-MOSCADA – O que você disse garota?

Mas Suzy já havia subido. Dona Noz-Moscada faz um sinal de irritada com a mão e corcunda, volta para dentro de sua casa.

CENA 19/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAFETERIA FURA BOLOS/ÁREA EXTERNA/TARDE

Mateus está desabafando com Goram e Goram se diverte mentalmente com a ingenuidade do vilão de confidenciar as coisas a ele.

MATEUS – Ele jogou que não confio nele, mas como posso confiar numa pessoa que já me traiu, vive mais tempo na rua do que em casa ou cuidando do nosso patrimônio.

GORAM (encena)– Goram achou que Mateus foi certíssimo tu expor suas dores, falar de como tu estava endu, veja como ele manipulou as ñemomarandu, leseira baré e te culpabilizou.

MATEUS – Pois é. Eu só estava querendo que a gente se acertasse.

GORAM (falseia) – Goram gosta muito de você Mateus, de verdade. Tem sido uma pessoa tão especial a Goram. ajudado muito, ensinando-me inglês para o intercâmbio. Corralinda não merece ser tratado assim, de verdade.

Para sua surpresa, Mateus coloca suas mãos em cima das do indígena e as acaricia.

MATEUS – E você é um fofo, querido. Essas palavras me confortaram muito.

Goram o observa e percebe que Mateus o olha fixamente meio vidrado. Goram, rapidamente, retira suas mãos. Mateus continua a dizer, enquanto Goram tenta entender o que estava acontecendo para Mateus, misturava-se uma revolta no olhar dele.

MATEUS – Bernardo é meu parceiro de anos, juntos nós enfrentamos, vencemos tanta coisa, a violência de meus pais é um exemplo.

Instrumental explosivo. Goram o encara com raiva.

GORAM – Égua! Violência dos seus pais?

MATEUS – Sim, meus pais não aceitavam nossa união, para você ter uma ideia, eles nos flagraram na cama deles quando voltaram de uma viagem, a gente não sabia que eles voltariam tão já e levamos um baita susto quando papai apareceu e me agrediu com uma vara de marmelo.

GORAM (V.O) – Papai? Que Gastura! Como é que esse jejuka pode chama-lo de papai depois de tudo que fez? Eu não acredito que agora Goram está ouvindo uma possível jaipuru para aquele crime hediondo, não é possível!

Na fala de Mateus a seguir, ir fazendo closes alternados, enquanto ele fala, com expressões de asco de Goram.

MATEUS – Minha mãe tentou atirar no Bernardo, atirar nele quando ele tentou me defender, enfrentamos tanta coisa para hoje estarmos assim, nós somos carne e unha, Goram. Quando meus pais morreram naquele assalto a mansão, você deve saber da nossa história, saiu em todo quanto jornal na época, eu sofri tanto, só que ao mesmo tempo era um alívio, sabe? Um alívio, porque tínhamos nos livrado daquela pressão que tanto impedia a gente de ser feliz e vivermos nossa sexualidade.

Nesse instante, a raiva de Goram foi tanta que ele se levantou brusco da cadeira e derrubou sua xícara no chão.

MATEUS – Meu Deus, Goram, está tudo bem?

Goram o olhou profundamente para ele com uma raiva imensa.

MATEUS – Nossa, Goram! Eu te fiz algo?

Goram se levantou meio atordoado.

GORAM – Goram é mesmo um destrambelhado! Não, Goram só está se lembrando da minha isy e do meu tuvá…lá em Roraima, estão passando fome para me sustentar aqui, problemas familiares com alguns tios.

MATEUS– Nossa, eu posso ajudar com alguma coisa? Eu…

GORAM – Tu me dá licença, o kafery estava ótimo, mas eu acho que vou para casa.

MATEUS – Você deve estar tendo uma crise de ansiedade por tudo que te contei e pela sua realidade financeira e familiar. Não quer ir ao médico? Em um pulo estamos no hospital, eu te acompanho.

GORAM – Goram prefire ir para ogã.

MATEUS – Tudo bem, peço para o Alexandre te deixar lá na Vila Madalena.

GORAM – Goram vai de ônibus, aguyje a solidariedade, mas Goram preciso pensar um pouco.

MATEUS – Nossa, mas não é perigoso? Você tá agitado, tá tenso, não é bom ficar sozinho.

Goram respirou fundo e tentou ficar calmo, encenar.

GORAM – Veja, Goram já estou melhor, foi só um susto. Mateus não precisa se preocupar.

E saiu disparate, Mateus ficou se sentindo mal.

MATEUS – Eu incitei nele esta crise, fico falando de problemas, espero que ele fique bem.

CORTAR PARA:

CENA 20/SÃO PAULO/TATUAPÉ/BAR DO ESTETO/INTERIOR/SALÃO/TARDE

Goram chega correndo no bar e entra no banheiro, deixando Chico, dono do dar, sem entender nada.

BANHEIRO

Goram abre sua mochila desesperado e abraça seu ursinho caolho e abafa seu sofrimento gritado com ele. TENSÃO.

GORAM – Volta pai, volta mãe, eu quero ter a minha mitã, infância de volta, a minha kove também!

CENA 21/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS.

Anoitece na Oscar Freire ao som de Something Just Like This da banda ColdPlay…

CENA 22/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROLINE/INTERIOR/COZINHA/NOITE

Carolina termina de separar os feijões e acaba misturando eles um pouco na hora de arrastar mais para olhar e começa a chorar.

CAROLINA – Que droga!

Fabiana que chegava da faculdade, questiona a mãe.

FABIANA – O que está acontecendo, mãe?

CAROLINA – O Feijão, eu estou tendo que separar de novo, outra vez.

FABIANA – Até parece que o feijão ia te deixar assim. O que está acontecendo?

Carolina dispara.

CAROLINA – A Dona Úrsula me obrigou a colocar ratoeiras num porão cheio de ratos mesmo eu pedindo pelo amor de Deus!

FABIANA – Que foi? Como é que é? Mesmo ela sabendo que você tem pânico de rato? (Ela se senta ao lado da mãe)

CAROLINA – Isso que você ouviu, filha, Úrsula, me obrigou a desratizar um porão cheio de rato.

Fabiana ficou enraivecida com o que acabou de ouvir.

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/BAR DO ESTETO/INTERIOR/SALÃO/NOITE

Goram bebe compulsivamente no balcão, copo de cachaça pós copo de cachaça. Enquanto isso, num canto, Eliane bem vestida conversa com Samuel.

SAMUEL – Você entendeu gostou do meu plano, né gatinha?

ELIANE – Claro que fazendo algumas adaptações. Mas o mais importante é o susto, trauma psicológico que aquela chimpanzé vai sofrer quando ser a vítima de um sequestro relâmpago. (Ri alto). Imagina a cara dela, com aquele nariz em pé, tendo que ceder.

SAMUEL – Será cômico mesmo.

Neste instante, Guto entra no local.

ELIANE – Ele veio! Meu príncipe tá lindo! (Ela bebe o resto do licor). Deixa, meu tio, entrar em campo.

E vai em direção a Guto, puxando assunto.

CENA 22/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

 

HELOÍSA – Então, essa foi a história miga, do dia que eu por conta de uma formiga, pus todo plano de acampamento da minha família abaixo.

Bernardo ria alto.

BERNARDO – Eu me lembro disso!

SUZY – Gente, do céu, é tanta loucura que vocês contam, que às vezes fico com medo, pensando se vale a pena a amizade vocês.

Heloísa ri.

HELOÍSA – Uai, é claro que vale. Nossa, irmão, você precisa conhecer o meu namorado, você vai amá-lo.

BERNARDO – Vou?!

HELOÍSA – Vai sim. Tenho uma foto no celular com ele, você vai se surpreender. Achei.

Ela entrega a ele e Bernardo leva um susto deixando o celular cair no chão.

BERNARDO – Ele! É ele?!

Heloísa trocam olhares com Suzy sem nada entender.

HELOÍSA – Nossa maninho, não sei se é para tanto. Acredito que você deva tê-lo visto antes, lá na Mansão, porque ele está tendo aulas de inglês com seu marido.

BERNARDO – Esse cara me espiona!

SUZY – Oi?

HELOÍSA – Goram te espiona?

Close alternado.

CENA 23/SÃO PAULO/TATUAPÉ/BAR DO ESTETO/INTERIOR/SALÃO/NOITE

Goram joga umas notas do bolso que pagavam a conta no balcão, até excedia e sai com um garrafa de vodka pela calçada.

ÁREA EXTERNA

Ele começa a achar que o vulto daquelas pessoas passando atrás ou na frente dele, são seus pais.

GORAM – São tus,rus,que estão aí?

Ele atravessa a rua sem olhar e quase é atropelado, cai no aslfalto de bêbado sobre o farol daquele carro que Rita conduzia.

RITA – GORAM?!

Ela freia bruscamente. Instrumental crescente.

Close no rosto dela estarrecido, depois no de Goram chapado.

CONTINUA 

FADE OUT

 

 

 

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