Estação medicina

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Capítulo 20

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 20

ANDAR PARA TRÁS

 

 

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/ESCRITÓRIO/MADRUGADA

Instrumental melodramático começa a tocar. Bernardo anda de um lado para o outro enfurecido, esmurra a parede várias vezes.

BERNARDO – Não tô acreditando numa coisa dessas, aquele pilantra sabia da mudança do cativeiro!

Ele se senta

FLASHBACK RÁPIDO: Bernardo se lembra da noite que ele parou o carro numa estrada e viu pelo retrovisor que Goram desceu da bicicleta e veio em sua direção, depois quando ele abriu a porta, o jovem fugiu.

BERNARDO – Ele queria se certificar que eu iria estar no cativeiro e Pamela me flagrar lá! QUE ÓDIO! QUE ÓDIO!

OUTRO FLASHBACK RÁPIDO: Bernardo se lembra de quando os capangas relataram que alguém estava escutando o antigo cativeiro do lado de fora e conseguiu fugir, sem ser visto pelas câmeras.

BERNARDO – Ele descobriu o endereço, estava nos espionando o tempo todo! Mas como ele soube que Ângela foi sequestrada, vamos lá Bernardo pensa, deve ter tido alguma ocasião…O JANTAR COM OS INVESTIDORES!

OUTRO FLASHBACK RÁPIDO: Bernardo se recorda de quando Ângela estava no jardim ameaçando que se ele não assumisse decentemente a paternidade da filha de Pamela que ela iria contar a todos o que ele fez. Recorda-se de ter escutado barulho da porta do lavabo por meio da janela que se estendia para o jardim.

BERNARDO – Filho da mãe! (Ele se levanta). Era ele, era ele no lavabo, ele ouviu tudo aquela noite, ele descobriu o meu segredo! Como é que eu pude dar esse mole? (Ele anda de um lado para o outro de aflição até que para)

BERNARDO – Mas eu não posso deixar ele namorando a minha irmã. Simplesmente não posso. Eu não sei quem é esse sujeito, ele joga às escondidas, pode estar tentando me atingir, envolvendo-se com ela. Preciso saber mais informações disso, sinto que ainda muita coisa por debaixo desta história.

Instrumental explosivo. Big-close-up em seus olhos ora amedrontados ora decididos.

CENA 02/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLÍMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/EMERGÊNCIA/EXTERNO/MADRUGADA

Uma ambulância chega a todo vapor, abrindo espaço entre carros com sua sirene. Ela estaciona em frente a emergências, muitos profissionais veem a seu encontro. Heloísa desce transtornada, chorava muito.

HELOÍSA – Pelo amor de Deus, ela não pode morrer!

Mostrar corpo de Suzy sendo retirado da ambulância, os pulsos contidos por faixas para não perderem mais sangue, mas o corpo dela ainda seco de sangue coagulado. Heloísa corre para junto dos profissionais ao lado da maca.

Caio e Meire que saiam para um intervalo de um plantão, chocam-se com a cena.

HELOÍSA – Eu não vou aguentar ficar sem você, não sei porque você fez isso com você, mas eu só espero que fique bem e possamos conversar sobre.

Ela é barrada de entrar depois de uma porta e chora muito, deixando-se cair nos degraus de entrada da emergência. Meire e Caio se aproximam, acolhendo-a

CAIO – O que houve? O que aconteceu?

HELOÍSA – Eu cheguei em casa e ela havia cortado os vasos do pulso estava perdendo muito sangue, está em choque hipovolêmico, ela tentou se matar!

Os dois sentaram um de cada lado, abraçando-a.

HELOÍSA – Eu não posso perder, minha amiga, Meire, eu não posso. Hoje o dia está sendo tão difícil.

Meire coloca a cabeça dela em seu peito e a acaricia.

MEIRE – Vai ficar tudo bem, você vai ver, nada de ruim vai acontecer com ela.

E ela troca olhares de preocupação por cima com Caio. Fechar no estado de intenso desespero de Heloísa.

CENA 03/SÃO PAULO/ALGUM LUGAR/DESCAMPADO/MADRUGADA

Instrumental de ação. Os capangas param o carro com brutalidade. Um deles joga Fabiana para fora com violência, ela bate o queixo no chão, estava com os braços amarrados.

FABIANA – Ai, que dor! (Chora). O que vocês querem comigo?

Samuel faz questão de pisar com seu tênis na cabeça dela esfregando na terra. Ele ri quando ela tenta se mexer, mas não consegue. Depois retira o tênis e os outros gargalham, ela tosse desesperada.

FABIANA – Por que estão fazendo isso comigo?! Tsc. Tsc. O que foi que eu fiz para vocês, caralho?

SAMUEL – Tá bravinha a macaquinha! Pega lá o chicote!

FABIANA – Chicote? Que chicote?

SAMUEL – Já já você vai saber.

Um dos capangas chega trazendo e Samuel ordena.

SAMUEL – Trata de sentar chicote no lombo dessa Quilombola!

FABIANA – NAZISTAS, FASCISTAS NOJENTOS! Ai…Para…Tá me machucando. Chora alto.

SAMUEL – Todos aqui são negros que eu saiba, não há ninguém racista aqui. Você fala demais!

Escutamos os ruídos e gemidos de dor e desespero de Fabiana a cada chicotada.

SAMUEL – Você vai se afastar do seu namoradinho, ouviu? Vai largar o malandrinho tatuado que vive correndo atrás de você!

Fabiana escuta já cuspindo sangue.

CORTAR PARA:

CENA 04/SÃO PAULO/PENHA/CASA DE ANDRÉ/INTERIOR/QUARTO DE ANDRÉ/MADRUGADA

André volta da cozinha com um copo de leite, quando a luz da rua cega seus olhos ao passar pelo espelho, fazendo-o parar. SILÊNCIO. Instrumental dramático. Ele se aproxima do espelho lentamente, passa mão em sua face e percebe que seu nariz é muito grande, seus lábios são muito grossos por conta de etnia africana e sofre.

ANDRÉ – Como eu queria ser branco! Tudo seria mais fácil! As pessoas não achariam toda vez que entro no mercado que estou querendo roubar alguma coisa, os seguranças no shopping não ficariam me parando, nem a polícia. Tio Timóteo… (Seus olhos se enchem de lágrimas)

LIGAR FLASHBACK

CENA 05/SÃO PAULO/ANOS 2003/PENHA/QUADRINHA DE FUTEBOL/FIM DE TARDE

André com apenas de 7 anos de tarde, faz o pênalti, acertando o gol. Seus colegas vibram, o treinador também.

TREINADOR – Mandou bem, garoto!

André percebe a presença de um homem negro com sorriso largo do lado de fora e vai ao seu encontro correndo.

ANDRÉ – Tio Timóteo! Tio Timóteo! Você veio me ver jogar?

Ele pula no colo do tio que o abraça.

TIMÓTEO – Ah, Andrezinho, você sempre manda bem na pelada, hein? Vai ser um Pelé da vida! 

ANDRÉ – Não tão bom quanto o senhor.

TIMÓTEO – Vai ser melhor, eu só comecei a jogar depois dos quinze. Mas vamos para casa, sua mãe pediu para te buscar, gostou da surpresa?

ANDRÉ – Sim, tio. Saudades.

TIMÓTEO – Também, Andrezinho.

Ele coloca o menino no ombro e começa a caminhar.

CORTE DESCONTINUO

Eles passam por uma viela, cheia de arte grafite, cortando caminho, ainda durante o dia, quando começa uma gritaria numa daquelas casas e traficantes fogem pelo telhado. Timóteo vê policiais se aproximando.

TIMÓTEO – Merda!

Ele se esconde numa das travessas. Quando a troca de tiro começa. Policial se aproxima dele.

POLICIAL – O Senhor é traficante também, né? Está fechado com eles?

TIMÓTEO – Eu estou com meu sobrinho no colo, sou trabalhador, um homem honesto, jamais faria algo desse tipo.

POLICIAL – Mostra sua identidade! Vira de costas!

Timóteo obedece.

TIMÓTEO – Mas eu estou dizendo, não tenho nada a ver com isso.

O Policial o apalpa, enquanto outros correm atrás dos traficantes. Em dado momento, Timóteo é quase atingindo e sai correndo com André no colo e é quando o policial branco atira sem piedade contra Timóteo.

Slow Motion, vemos os tiros em zoom nas costas de Timóteo, André escorrega pelo corpo dele e cai no chão, o homem cambaleia para frente, pondo a mão no peito, vira-se para o sobrinho, tenta fazer algo, mas acaba caindo de joelhos no chão e desmaiando em sua frente.

ANDRÉ (desesperado) – TIOOOOOOOOOO….

DESLIGAR FLASHBACK

CENA 06/SÃO PAULO/PENHA/CASA DE ANDRÉ/INTERIOR/QUARTO DE ANDRÉ/MADRUGADA

André estava em lágrimas.

ANDRÉ – Este é o fim de muitas vidas negras! Isso quando não morremos por dentro diariamente.

Ele retira sua camiseta e vê seu corpo no espelho. Magro.

ANDRÉ – Preciso ganhar massa muscular para compensar isso.

Ligar Flashback rápido: Ele se recorda de Romeu rindo dele no refeitório.

ANDRÉ – Para que ele possa me notar. Para que eu possa existir…

CORTAR PARA:

CENA 07/SÃO PAULO/ALGUM LUGAR/DESCAMPADO/MADRUGADA

SAMUEL – Pode parar.

O Capanga para de dar chicotadas. Close-up em Fabiana gemendo com as costas machucadas e os lábios vermelhos de sangue.

SAMUEL – Você ouviu, né? Não quero mais ver você perto desse cara. Se eu ver você perto de novo dele, a próxima a sofrer as consequências é a sua mãe. E nada de contar para alguém sobre a gente.

Fabiana geme alto de dor.

SAMUEL – Agora peguem ela e a levem de volta para o carro. Por hoje, esse corretivo já basta! Mas dá próxima vez não vou ser mais tão bonzinho assim.

E eles a capturam de novo, ela não estava aguentando nem abrir os olhos direito.

BATEM A PORTA DO CARRO. ZARPAM COM O CARRO.

CORTE DESCONTINUO

CENA 08/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/EXTERNO/PONTO DE ÔNIBUS

Largam o corpo de Fabiana ali ainda com o carro com algum movimento, depois jogam o telefone sobre ela.

Ela com as mãos machucadas e trêmulas, digita chamando o uber. Chorava de dor.

FABIANA – Covardes! Covardes!

Cospe sangue pela boca, sentada na calçada. Sofre ainda mais ao ver seus joelhos sangrando.

CENA 09/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Ao som de Fade Into Darkness de Avicii…Amanhece nas imediações da Avenida Matarazzo. Vemos o estádio Allianz Parque com pássaros voando dele. No terminal Barra Funda, vemos a classe proletária batalhadora de sempre pegando no batente cedo. O Memorial da América Latina é mostrado. Casas noturnas de hip-hop em espaços industriais virando a noite ainda animada.

CENA 10/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/RECEPÇÃO EMERGÊNCIA/MANHÃ

Heloísa dormia no colo de Meire quando Caio se aproxima.

CAIO – Acabei de me informar, a jovem já acordou e o quadro dela é estável.

Meire acaricia Heloísa.

HELOÍSA – Helô, Helô, acorde.

A jovem abre as olheiras.

MEIRE – Suzy acordou e passa bem.

Heloísa sorri.

CORTAR PARA:

CORTE DESCONTINUO

Heloísa está sentada na cama, Suzy ainda meio fraca com pijama hospitalar. Meire e Caio no quarto.

CAIO – Ela foi transferida às cinco para o quarto, passou a maior parte da noite na UTI.

MEIRE – Por que você fez isso com você?

Suzy olhava envergonhada.

SUZY – Eu não sei, às vezes isso acontece comigo, eu sinto uma dor imensa, uma vontade de ter nascido de novo, de outro jeito, em outra vida.

HELOÍSA – As cicatrizes nos seus punhos não eram arranhar de gatos, né?

SUZY – Não.

HELOÍSA – Você precisa de ajuda, amiga.

E pegou em sua mão.

SUZY – Tá sendo muito difícil para mim.

HELOÍSA – Você precisa entender o que está acontecendo com você e uma profissional pode te ajudar. Eu não quero te perder, nunquinha.

Elas se abraçam emocionadas.

SUZY – Nem eu quero te perder, você é uma irmã que caiu dos céus na minha vida.

Meire se emociona.

MEIRE – Escute, Suzy, eu tenho uma psicoterapeuta que ajudou muitas amigas minhas e pode te ajudar também, fica na Vila Madalena. Se você precisar de ajuda com as sessões, conte comigo e com o Caio.

Os dois se beijam neste momento.

SUZY – Obrigada gente, eu vou fazer isso sim, vou tentar entender o que está acontecendo aqui dentro.

Uma enfermeira chega trazendo o café da manhã de acordo com a nutricionista.

SUZY – Mas o que é isso?

MEIRE – Dieta restrita, você perdeu muito sangue, precisa ir com calma.

CORTAR PARA:

CENA 11/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/COZINHA/MANHÃ

Goram de pijama chega na cozinha, espreguiçando-se e percebe que Themise está cozinhando.

GORAM – Égua! O cheiro está bom! Goram está brocado. Adiantando o almoço?

THEMISE – Sim, dando uma força para meus pais poderem dormir até mais tarde.

GORAM – Isso é bom. Themise não sabe o que aconteceu kuehe lá na mansão?

THEMISE –  Na confraternização pós sua premiação?

GORAM – Hee. (Ele senta, puxando seu cereais para colocar na vasilha de leite). Bernardo estava lá.

THEMISE – E aí? Ele veio falar com você?

GORAM – Quase arrancou meu braço, deixou-me fumando numa quenga, aquele jejuka tá muito obsessivo desde que me viu lá no prédio de Araponga. Goram tá com medo que ele me investigue e descubra quem eu sou.

THEMISE – Toma cuidado, talvez seja um momento de você dar umas sumidas na mansão.

GORAM – Por tupã. Pensei nisso. Mas tenho que fazer mais, afastar Araponga dele.

THEMISE – Como você vai fazer isso? Ela veio para São Paulo só para conhece-lo, está redondamente apaixonada.

GORAM – Sim, leseira baré. Isso até Araponga não ouvi Pamela. Se a Pamela contar o que sabe a ela sobre Bernardo, Araponga pode não acreditar na hora, mas vai investigar.

THEMISE – E se Araponga contar a ele?

GORAM – Bernardo não vai fazer nada, está amarrado com a história do sequestro, se fizer algo, vai agravar a oiháicha. Mas Goram precisa acabar com esse elo que pode ligar o meu passado com o meu presente e fazê-lo descobrir tudo, Araponga precisa capar o gato.

Instrumental explosivo. Close em sua face determinada.

CENA 12/SÃO PAULO/PINHEIROS/AVENIDA/MANHÃ

George está fazendo cooper com sua roupa esportiva quando se depara com um manchete em um jornal numa banca. Ele para, incrédulo.

GEORGE – O QUÊ?

CORTAR PARA:

CENA 13/SÃO PAULO/PINHEIROS/INTERIOR/GARAGEM DA CASA DE NARA

Dennis termina de mexer em seu violão.

NARA – Dennis, agora não é hora do nosso ensaio!

GEORGE – Eu tô puto da vida com essa mídia golpista. Olha a porra desta manchete: “Renomada Universidade Olímpius tem seu patrimônio ameaçado pela invasão de alunos baderneiros e grupos terroristas”.

RENAN – Cara, não podíamos esperar menos dessa gente, quando o grande capital se alia, é isso que acontece. Tem muito patrocinador de mídia que é investidor da Universidade Olímpius como grandes indústrias farmacêuticas, esses caras vão querer ver o nome deles manchados pelas manifestações? Claro que não.

NARA – A tão boa e velha troca de favores.

GEORGE – E depois eu que sou o maluco quando quero propor o socialismo. Agora, os alunos vão ficar com receio de participar do movimento com medo de sofrerem retaliações.

NARA – Ge, quem está com a gente, está com a gente. Talvez na nossa próxima vez tenha menos gente, mas não vamos desistir.

GEORGE – Eu vou ligar por vídeo para a professora Rita.

CORTE DESCONTINUO

O quarteto está reunido em torno do notebook de George e Rita propõe.

RITA – Agora é hora de avançarmos mais, camaradas. Precisamos começar a distribuir na universidade o nosso jornal. Como está a sua produção?

RENAN – Segue a todo vapor, daqui a pouco ligo para aquele meu amigo da gráfica.

RITA – Perfeito. Vou mandar um textinho que redigi de ontem. Eles querem nos botar medo, mas não podemos recuar. Temos que denunciar toda violência sofrida ontem pelos alunos no movimento de resistência.

DENNIS – Isso ae, ninguém solta a mão de ninguém.

Os outros riem se virando para ele que até aquele momento estava mudo, achando graça e confirmam.

CENA 14/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Mateus de roupão comemora conversando com um amigo da mídia pelo telefone, estava de posse de um exemplar na mão.

MATEUS – Ficou perfeito essa notícia na capa. Agora eles vão pensar duas vezes antes de querer se meter a besta comigo e com a administração.

Ele termina de falar e joga o telefone sem fio no sofá. Começa a dar pulinhos de alegria, vai até o viveiro de Cecília e a coloca em seu ombro, pulando com a naja para lá e para cá até que solta um grito de horror, largando a cobra que cai no chão e se esconde assustada embaixo do sofá.

Mateus fica petrificado por um momento.

O Vulto de seu pai estava olhando para ele do espelho da sala, debochado.

MATEUS – O que você está fazendo aqui, seu coisa ruim? Vai embora daqui!

O homem começa a rir intacto e sangue começa a jorrar pela sua boca. Mateus põe a mão em seu ouvido desesperado por uma dor de cabeça que começa.

MATEUS – Vai embora, você tá morto, tá morto!

Instrumental de mistério. O telefone que estava no sofá tintila alto. O vulto desaparece. Mateus se arrasta pelo chão desesperado e atende.

MATEUS – Nossa…Ligação Internacional! Alô? Sim, é ele mesmo que está falando… Como é que é? Você vai desembarcar no Brasil ainda hoje?

Close em sua face preocupada.

CENA 15/SÃO PAULO/BURACO QUENTE/CASA DE PAMELA/INTERIOR/SALA DE ESTAR

Toca a campainha e Pamela abre.

PAMELA – Goram?

GORAM – Será que podemos conversar?

Silêncio.

PAMELA – O que você quer aqui?

GORAM – Goram pode entrar?

PAMELA – Entra!

Ele se acomoda no sofá enquanto ela fecha a porta.

GORAM – Tá tudo bem com a gravidez de Pamela? Fazendo bem seu pré-natal?

PAMELA – Estou sim. O que você quer?

GORAM – Sua ajuda!

PAMELA – Minha ajuda?

GORAM – Sim. Goram precisa que me ajude a afastar uma ava da minha família de Bernardo.

PAMELA – Como assim? Pessoa da sua família?

GORAM – Vai história! Descobri recentemente que uma prima da juehepehe conheceu Bernardo pela internet e veio até São Paulo só para conhece-lo e viver um romance com ahe.

PAMELA – Mas aquele diabo não perde tempo!

GORAM – Por maíra e macuna-íra! Preciso que ajude a Goram a desmascará-lo para ela. Isso pode pôr os meus planos por y abaixo. Aliás, valeu por não ter contato nada a Bernardo depois daquela nossa ñomoneta.

PAMELA – Não se preocupe, Goram. Não sou leve e traz.

GORAM – E então, posso contar com Pamela?

PAMELA – Eu não sei se quero me envolver nessa história.

GORAM – Égua braba. Como assim? Tu está envolvida nessa história! Araponga queria tanto se vingar daquele jejuka. É uma akatúape sem interferir em planos de Goram.

PAMELA – Mas não é só o seu plano que importa. Minha mãe foi praticamente empurrada para morte, Goram. Eu não posso ser a próxima, isso colocaria em risco os meus planos.

Goram se levanta irritado.

GORAM – Deixe de fazer hora! Planos? Que planos?

Pamela não responde.

GORAM – Tu tá chantageando ele? É isso?

Pamela não responde novamente, corando-se.

GORAM – PAMELA TÁ PIRADA?

PAMELA – Acho que nossa conversa já acabou, por favor se retire.

GORAM –  Tu tá maluca, Pamela? Olha o que Bernardo fez com sua sy?

PAMELA – Saia Goram, eu vou correr risco de qualquer maneira, contando ou não. Vai que sua prima não acredita em mim e me entrega para ele, aí sim, ele pode querer fazer alguma coisa.

Goram se encaminha para a porta, depois se vira a ela.

GORAM – Só uma mbae…Não diga que depois Goram não te avisou.

Ele vai embora e ela fecha a porta se assegurando.

CENA 16/SÃO PAULO/CENTRO/APARTAMENTO DE ARAPONGA/MANHÃ

Araponga está colocando seu vestido floral enquanto conversa com os pais pelo viva voz do celular.

ARAPONGA – Égua Fiquem tranquilos! Meu Galalau não é fuleiro. Araponga está bem em São Paulo. Estou feliz com meu cabocô. Ani estou me vendendo. Araponga não é quenga. Tudo sobre controle. Vou até gravar um tour pelo meu flat simples para verem.

Ela passeia pelo quarto, mostrando os móveis.

ARAPONGA – Satisfeitos? Agora, Araponga preciso ir. Tenho unhas daqui a pouco na casa de tia Adelaide. Ñehetu.

Ela acaba de colocar o celular e toca de novo.

ARAPONGA – Ixi! Tia Adelaide, segura a pinta-unha aí que já Araponga está chegando.

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/PRÉDIO ADMINISTRATIVO/INTERIOR/REITORIA/MANHÃ

Daniela e Bernardo estão discutindo.

DANIELA – Eu já disse, Doutor Bernardo, por mais que o senhor seja cônjuge do Professor Doutor Mateus, eu não posso passar dados de aluno para o senhor.

BERNARDO – É um caso grave que ameaça a minha segurança, a de Mateus e a de todos naquela mansão, Daniela.

DANIELA – Por que Doutor Mateus não veio me pedir então?

BERNARDO – Porque ele tá hipnotizado pelo menino. Acha que o rapaz é um anjo e que só trouxe ventos bons para o futuro da universidade. Eu preciso desta informação, se você não me der, eu vou fazer de tudo para você ser demitida e acabar com sua reputação no mercado.

DANIELA – Eu não tenho medo do seu barulho, meu chefe é o seu marido, já disse que não posso fornecer dados, agora me deixe trabalhar que mereço terminar minhas atividades mais cedo para ainda curtir o sábado.

E sai.

BERNARDO – Diaba! Deixa só eu reatar com Mateus para você ver onde você vai parar.

Ele então percebe que o banheiro da sala de Daniela está interditado, vê Albânia, preparando cafezinho e tem uma ideia, vai em sua direção.

CORTE DESCONTINUO.

SALA DE DANIELA

Albânia entra.

ALBÂNIA – Trouxe o seu café com 7 gotas de adoçante, Doutora Daniela.

DANIELA – Pois pode…

Albânia joga o café na roupa da secretária.

DANIELA – Mas o que é isso?

ALBÂNIA – Me desculpa, Doutora Daniela, achei que era para dar o café da senhora…

DANIELA – Você é uma desastrada mesmo, agora vou ter que descer lá embaixo para limpar isso.

Ela sai esbaforida pelo corredor. Do canto oposto, atrás de uma pilastra, Bernardo faz joia para Albânia e acerta com ela.

BERNARDO – Aqui está o que combinamos. Agora vai atrás dela e segura ela no banheiro.

Ele entra na sala e começa a procurar por dados dos alunos. Abre todas as portas dos armários, olha os papeis.

BERNARDO – Pelo jeito aqui não é.

Olha nas gavetas da mesinha e não encontra nada.

BERNARDO – O Servidor!

Ele entra e verifica que tem senha.

BERNARDO – Droga!

Ele olha para o lado de fora. Ainda nem sinal delas.

BERNARDO – Tem que ter algum jeito…

Ele nota uma pasta preta escrito: “Olímpiadas de Medicina”

Ele começa a folhear e encontra a ficha de Goram. Identifica o endereço.

BERNARDO – Bingo!

Neste instante, ele escuta as vozes de Albânia e Daniela e se esconde no banheiro interditado.

DANIELA – Ai que saco, Albânia. Está tudo bem! Não vou pedir para Professor Doutor Mateus te mandar embora! Agora me deixa trabalhar, que eu tenho muita coisa para fazer.

Albânia percebe que não há ninguém na sala e se alivia.

DANIELA – Nossa, esse armário está foda, nem fechando direito as portas está mais.

Ela senta em seu gabinete.

BANHEIRO INTERDIDATO

Bernardo espiona a movimentação pelo buraco da fechadura.

BERNARDO – É…agora não dá para sair por aqui.

Ele olha para o documento satisfeito.

BERNARDO – Vila Madalena!

Ele vê que a janela e está aberta.

BERNARDO – Será que consigo?

Ele dobra o papel e guarda no bolso da calça e escala, passando pelo vão da janela e caindo no telhado.

EXTERNO

Ele procura um ponto mais baixo até o térreo e pula de um jeito para não se machucar, caindo atrás do prédio administrativo.

BERNARDO – Deu certo.

E sai correndo esperançoso.

CENA 18/SÃO PAULO/BROOKLIN/APARTAMENTO DE UMBERTO/QUARTO DE DANDARA/MANHÃ

Umberto abre a porta. Dandara tremia de fraqueza.

UMBERTO – Anda, desce. Fiz miojo para você.

CORREDOR

Sem pensar duas vezes, a jovem se arrasta pelo quarto e pelos corredores, sob o riso dele e chega faminta na mesa.

COZINHA

Dandara começa a comer apressadamente, lambuzando-se toda. Umberto debocha.

UMBERTO – Como com calma, tá filinha. Não foi assim que papai te ensinou, tenha modos na mesa.

Instrumental explosivo. Close de Dandara com raiva o encarando.

CENA 19/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROL/INTERIOR/QUARTO DE FABIANA/MANHÃ

Instrumental triste. Fabiana acorda, observa suas mãos machucadas com a luz do sol que escapa pelas cortinas. Os hematomas na sua perna ardem.

BANHEIRO

Ela abre a torneira e leva o rosto. SOFRIMENTO. Lábios estão inchados, arranhões por toda face.

O Celular vibra. Ela olha. Era mensagem de Guto. Sente um alívio.

Mas logo se recorda da noite anterior.

FLASHBACK RÁPIDO: Eles a jogam para fora do carro e dão chicotadas intermináveis.

Ela olha para suas costas toda marcada. MEDO. Vai até o celular. Ela o bloqueia.

CENA 20/SÃO PAULO/MORUMBI/CONDOMÍNIO DE ÚRSULA/INTERIOR/QUARTO DE ELIANE/MANHÃ

Eliane vibra sambando por cima da própria cama no telefone com Samuel.

ELIANE – Mas essa parte da chicotada, foi a melhor. Agora aquela chimpanzé deve estar pensando muito antes de se relacionar com Guto. Ele deve ficar desamparado pela princesinha dele tê-lo abandonado e é aí que eu entro em jogo, para ganhar.

E deita na cama, balançando as pernas para cima num êxtase sem limites. Seus cabelos loiros oxigenados se despenteiam.

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ACADEMIA DOS ESTUDANTES/EXTERIOR/MANHÃ

André chega por uma rua na calçada oposta, em frente ao local.

ANDRÉ – Sei que estou gastando minha mesada, mas é por uma boa causa. Quero que ele me note.

E se aproxima do local.

CENA 22/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/LANCHONETE ENFERMARIA/MANHÃ

HELOÍSA – Pode ser este lanche natural e o suco da máquina de graviola, por favor.

Ela percebe que Marcela está ali com algumas crianças de baixa renda.

HELOÍSA – Marcela, você por aqui? Em pleno sábado?

MARCELA – Fala, Helô. Pois é, me inscrevi num projeto para aprender e ajudar crianças com defict na área motora de Broca e Wernicke que podem evoluir para problemas de aprendizagem. Este é o Júlio, ele tem dislexia. Aquela é Ananda, tem Afasia de Broca.

Heloísa sente uma leve aflição e auto cobrança.

HELOÍSA – Acho que a professora de Neuro falou na aula, a área de Broca está relacionada com a motricidade da fala, localizada no córtex pré-frontal póstero lateralmente e na parte pré-motora enquanto que a área de Wernicke, localizada na porção posterior da circunvolução do córtex temporal superior, está relacionada com a compreensão e interpretação da fala.

MARCELA – Isso mesmo. Eu não conseguiria falar todos desses detalhes, mandou muito.

Heloísa respira aliviada. Neste instante, Remo chega estressado, elas observam a movimentação.

REMO – Para que interna-la? Aquele psiquiatra disse que ela pode colocar em risco a própria vida e a de semelhantes em torno dela, mas ela está bem. Coitada. Sedaram ela sem motivos.

BOINA – Pai! Eles sabem o que estão fazendo. Ela está vendo duendes, tentou me agredir, agrediu os enfermeiros da psiquiatria, ela está precisando de ajuda.

Close alternado. Marcela troca olhares com Heloísa

MARCELA – Eu sei muito bem qual é este olhar…

HELOÍSA (ri) – Exatamente, quero a partir de agora saber tudo deste caso.

MARCELA – Este, eu acompanho por inteiro.

CENA 23/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Entardece…

CENA 24/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/EXTERIOR/JARDIM/TARDE

Mateus está preocupado esmagando uma rosa com força sentado num banco de mármore quando Alexandre se aproxima. Instrumental de mistério.

ALEXANDRE – Mandou me chamar, Doutor Mateus? Eu estava esperando o outro segurança voltar do restaurante para deixar a cabine.

MATEUS – Mandei sim, para te dar uma lamentável notícia.

ALEXANDRE – O Que aconteceu?

MATEUS – Meu Tio Akiko está voltando.

ALEXANDRE – Como?

MATEUS – Isso mesmo que você ouviu, cansou da vida farta que dei a ele durante todos estes 18 anos em Nova York.

ALEXANDRE – Ele vai fazer das nossas vidas um inferno.

MATEUS – Com certeza, se longe já chiava, de perto então. Preciso avisar Bernardo ainda hoje. Em relação àquela outra pessoa, peço para você pessoalmente procura-la. Todos nós precisamos nos reunir para pensarmos no que vamos fazer.

Alexandre sai preocupado e Mateus olha perdido para a paisagem, seus cabelos acompanham o movimento do vento.

CENA 25/SÃO PAULO/VILA MADALENA/PRAÇA POR DO SOL/TARDE

Goram caminha sobre a calçada indo para casa da tia.

FLASHBACK RÁPIDO: Lembre-se de momentos que passou com Rita. Desde a troca de olhares na delegacia pela primeira vez até os outros momentos que compartilharam juntos.

Quando alguém buzina para ele. Ele se vira. Rita abaixa o vidro do carro.

RITA – Indo para casa? Quer uma carona?

Goram sente seu coração bater mais forte. Ela era muito atraente.

GORAM – Maitei! Goram acha que vou a pé mesmo.

Ele lhe dá as costas, mas ela segue com o carro.

RITA – Você não tem que se sentir mal. Não fizemos nada de errado, aconteceu.

GORAM – Goram tem uma porã e não gosto trai-la. Heloísa é fiel a Goram.

RITA – Eu sei que é difícil ouvir isso que eu vou te dizer agora, mas existem pessoas que amam simultaneamente mais de uma pessoa, eu sou uma delas.

GORAM – Deixei de gaiato. Entendo, mas Goram acha que não sou é este jegutaha.

E se vira, continuando a andar. Rita para o carro e vai atrás dele.

RITA – Goram, espere.

Ele se vira e ela o beija forte. Ele se entrega aquele beijo e começam a se pegar loucamente, indo parar dentro do carro.

CENA 26/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/HALL DE ADELAIDE/TARDE

Bernardo chega ao local. SILÊNCIO. Respira fundo e aperta a campainha.

Adelaide abre.

ADELAIDE – Pois não? Quem é o senhor?

BERNARDO – Me mudei para o andar de baixo, estou um pouco perdido, se a senhora puder me ajudar.

Instrumental cortante. Araponga com as unhas pintadas anda para trás na sala e se choca ao ver Bernardo ali parado na porta. Close no rosto dele de espanto.

ARAPONGA – Mborayhu, mas o que tu está fazendo aqui homem de Deus?

Themise se desespera.

BERNARDO – Eu é que pergunto o que você está fazendo na casa de Goram?

ARAPONGA (desdém) – Goram é primo de Araponga.

Instrumental explosivo. Close na face de Bernardo desesperado.

FADE OUT

CONTINUA…

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NAVEGAR

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