Estação medicina

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Capítulo 21

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ESTAÇÃO MEDICINA

Capítulo 21

Tio Avô

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/HALL DE ADELAIDE/TARDE

ADELAIDE – Vocês se conhecem?

ARAPONGA – Por Tupã! Ele é o galalau por quem estou apaixonada, tia Adelaide.

ADELAIDE (jogando charme) – Agora, estou entendendo tudo.

BERNARDO – Você é prima dele?

ARAPONGA – Não que Araponga quisesse ser, mas sou, por quê?

Adelaide fica encantada com a beleza do homem.

ADELAIDE – O Senhor não quer entrar? Tomar um café? Acabei de passar, é morador novo do prédio, pelo visto se mudar há pouco, talvez seja com fome.

ARAPONGA – Tu se mudou para este prédio, homem de Deus?

Themise encara tudo apreensiva. Laurinha ri.

BERNARDO – Na verdade, estou estudando a mudar, procurando apartamentos pelo local, coincidência você estar aqui amor.

Araponga fica desconfiada.

ARAPONGA – Égua! Coincidência mesmo. Aliás, Bernardo disse Goram, estava a procura dele?

BERNARDO – Na verdade, Goram citou lá na mansão sobre apartamentos ótimos no prédio dele, acho que todas vocês sabem que ele está fazendo aula particular com o reitor da universidade, acabei me interessando e vindo conhecer.

Araponga não engole aquela história. Adelaide fica mais encantada.

ADELAIDE – Pois você mora na mansão Moça? Que espetáculo de homem, queira entrar, queira entrar

THEMISE (irritada) – CHEGA MÃE!

ARAPONGA – Chega mesmo, quenga. O caboco é meu! É de Araponga!

BERNARDO – Bom, só queria confirmar mesmo, já vou indo, foi um prazer conhecer todas vezes e te rever amor.

Ele a rouba um beijo, mas ela ainda fica encabulada. Themise fica agitada com a rapidez dos acontecimentos, vai para dentro a fim de tentar avisar Goram. Araponga fica reflexiva ao Adelaide fechar a porta.

CENA 02/SÃO PAULO/VILA MADALENA/PRAÇA PÔR-DO-SOL/INTERIOR CARRO RITA/TARDE

Goram e Rita param de se pegar loucamente nus.

GORAM – Égua! Goram não deveria ter feito isso de novo, ani devia! E desta vez foi sóbrio.

RITA (sem falta de ar) – Ninguém controla os desejos, Goram.

GORAM – Leseira Baré! Goram é compromissado Doutora Rita, tenho uma porã e tu sabe muito bem quem ela é.

RITA – Eu sei quem ela é, uma menina adorável e eu também não gosto de enganá-la, ela não merece isso, mas o que posso fazer com as minhas vontades? Desde que te vi pela primeira vez naquela delegacia, você todo perdido, indefeso, me deu um senso de cuidado e ao mesmo tempo eu senti algo a mais, uma fome, um desejo, esses seus lábios carnudos, Goram, tocando os meus.

E ela lhe rouba um beijo, eles se pegam mais um pouco.

Goram fica ofegante.

GORAM – A mboe’hara também mexe muito com Goram! Mas é que nem a mbói tentando Eva!

Rita gargalha alto.

RITA – Ah não, Goram! Temos maneiras mais sofisticadas de lidar com isso, não precisa apelar para a religião.

GORAM – Égua! Foi o que veio na mente de Goram, você é um danada gato réi.

RITA – Sou, é?

E eles se beijam com mais vontade. Ele acaba esbarrando a mão na genitália dela. Silêncio.

RITA – Que foi?

GORAM – Ixi! Isso é muito novo para Goram, eu nunca…nunca…

RITA – Ficou com alguém trans?

GORAM – Hee.

RITA – O que você teme?

GORAM – Ani sei, parece que Goram está fazendo algo de vai, não sei.

RITA – Isso foi o que a sociedade introjetou na sua cabeça, precisamos começar a naturalizar homens de vulva e mulheres de pênis.

GORAM – Tu se vê como uma mulher?

RITA – Mais ou menos, em muitos momentos sim, mas quando estou sozinha, tanto faz. Eu sou uma pessoa gênero-fluído, flutuo. Mas ainda estou descobrindo isso na psicoterapia. Mas pode me tratar como uma mulher, eu gosto.

GORAM – Por Maíra e Macuna-íra! Como Goram faz?

RITA – Você pode começar a brincar com ele…

GORAM – Isso é tão kuna’i para Goram, mas ao mesmo tempo me atrai.

RITA – Não precisa fazer se não quiser, vamos com calma, é só um detalhe. Essa sensação de sentir esquisito é muito comum, nossos corpos sofrem exotismo, com o tempo vai passar, vai pegar o jeito.

Ela o beija, ele a devolve, apertando seus seios.

Finaliza com Stupid Love de Lady Gaga na maior altura.

CENA 03/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITARIO ORLANDO MOÇA/INTERNO/PSIQUIATRIA/TARDE

Heloísa e Marcela seguem Boina e Remo até a ala onde Eulália está internada junto com outros pacientes.

HELOÍSA – Pergunta ali para aquela enfermeira sobre o prontuário da paciente que está internada naquele quarto ali, é a única mulher, ele deve saber.

MARCELA – Ok, volto num minuto.

Heloísa observa de longe os pacientes sedados e escuta a conversa de Remo e Boina.

REMO – Eu não me conformo de ver sua mãe assim como os outros doentes, ela está dormindo há horas.

BOINA – Tomou sossega leão, também.

REMO – Essas pessoas que estão aí parecem sem vida, parecem que estão vegetando, desde que cheguei não vi nenhum familiar por aqui e todo dia eles tem horário para visita.

Heloísa sentiu mal com aquela informação.

MARCELA – Aqui, Helô. O Nome dela é Eulália e está com suspeita de esquizofrenia.

HELOÍSA – Suspeita e doparam a coitada.

MARCELA – O que foi que você disse?

HELOÍSA – Eu não me conformo com essa conduta. Nossa saúde mental é muito desvalorizada, ela nem sequer passou por mais de um laudo psiquiátrico e já deixaram ela sedada por horas. Esse excesso de intervenção médica, essa iatrogenia medicamentosa, precisamos falar mais sobre isso.

MARCELA – Isso me lembrou as nossas aulas de ética médica.

HELOÍSA – E não é? Não vamos conseguir saber nada agora vamos ter que voltar em outro momento, gostaria de entender mais sobre este quadro, psiquiatria é uma das especialidades mais difíceis a meu ver.

MARCELA – Sim. Eu vou liberar as crianças daqui a pouco e mais tarde talvez eu volte, me mantenha informada se souber de alguma novidade para o caso.

HELOÍSA – Pode deixar.  

CENA 04/SÃO PAULO/TATUAPÉ/APARTAMENTO DE MEIRE E CAIO/INTERIOR/QUARTO DO CASAL/TARDE

Meire termina de editar o vídeo para seu vlog.

MEIRE – É um absurdo o que fizeram, reprimir os estudantes com essa violência toda! Uma manifestação pacífica! Olha o que fizeram com a Justina, jogaram a coitada no chão!

Instrumental dramático. Ela então sente uma leve vertigem com a luz que entra pela janela.

MEIRE – Nossa!

Ela se levanta para fechar as persianas, quando cai desmaiada no tapete. Plano geral.

CENA 05/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE ADELAIDE/INTERIOR/COZINHA/TARDE

Fabiana chega do quarto com muitas dores.

FABIANA – Se as dores piorarem, não vai ter jeito, vou precisar ir ao médico.

Carol aparece do nada da lavandaria, dando um susto nela.

CACAU – Dores? Que dores, filha?

Fabiana disfarça.

FABIANA – Cefaleia, mãe. De cabeça!

CACAU – Quer um remédio?

FABIANA – Já tomei. Olha, eu procurei o advogado, viu?

CACAU – Você comentou meio por cima no telefone. Eu ainda acho isso muito arriscado.

FABIANA – Arriscado nada, você não mereceu ser tratada assim, aliás nenhum ser humano merece ser tratado como você foi. O que ela fez é mobbing, assédio moral no trabalho, tortura psicológica. Quem ela pensa que é? Tem gente que olha para nossa cor e já se enxerga numa posição de senhor de engenho, é asqueroso.

CACAU – As coisas sempre foram assim, filha. Nunca vão mudar, medir força com essa gente é bobagem, vamos perder, eles possuem mais dinheiro que a gente, o que podemos fazer é entregar na mão de Deus.

FABIANA – Lógico que não! São por pensamentos assim que essas violências continuam a se propagar. Precisamos nos posicionar. Você já parou o quão primitivo e bárbaro é classificar uma sociedade inteira com base na produção de um pigmento de pele? Nossa carga genética em 99% é igual a um branco, não existe esse lance de raça, o que nos diferencia é que produzimos mais melanina na nossa pele, um processo de evolução por conta de nossos antecedentes viver em clima muito quente, como desertos, então para evitar cânceres de pele, isso foi um mecanismo selecionado e a Europa chegou lá e começou a ditar regras para poder escraviza-los. É muito escroto.

Cacau fica impressionada com o conhecimento da filha.

O Telefone toca. Cacau atende.

CACAU – O quê?

Fabiana se aproxima preocupada.

FABIANA – O que foi? É alguma coisa com o Guilherme?

Cacau desliga colocando o telefone no gancho.

CACAU – Ele foi para UTI.

Instrumental explosivo. Close no rosto de Fabiana extremamente preocupada.

CENA 06/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Anoitece nos arredores da Pinacoteca…

CENA 07/SÃO PAULO/BEXIGA/APARTAMENTO DE JOSÉ/INTERIOR/QUARTO DE JOSÉ/NOITE

José e Marcela estão rindo na cama.

MARCELA – Não acredito, Zé. Então a senhorinha indefesa que seu amigo caminhoneiro também deu carona na verdade era uma pistoleira da marca maior?

JOSÉ – Velha da porreta, saiu a todo vapor com o caminhão.

Marcela gargalhou alto.

MARCELA – Seu amigo deve ter ficado traumatizado.

JOSÉ – Sim. Nunca mais parou para dar carona para ninguém. Também, o prejuízo que ele teve.

Toca a campainha.

MARCELA – Temos visita.

JOSÉ – Deve ser alguém novo no posto pedindo orientações sobre as cargas.

SALA DE ESTAR

José abre a porta. Instrumental explosivo. Seus olhos se apavoram ao ver Alexandre, o segurança da mansão Moça na sua porta.

MARCELA – Quem é, Zé?

JOSÉ (cochicha) – O Que você tá fazendo aqui? Eu não pedi para você não me procurar mais…

ALEXANDRE – Temos novidades no caso, parceiro. Tive que te avisar a mando da chefia.

JOSÉ (cochicha) – Que novidades? Essa história já deu o que tinha que dar para mim, arrependo-me muito do que fiz.

ALEXANDRE – Eh, mas o passado não vai mudar só porque você se arrependeu.

Marcela chega mais perto.

MARCELA – Quem é ele, Zé?

José troca olhares com Alexandre.

JOSÉ – Um novo caminhoneiro no posto, eu não disse. Vou dar uma palavrinha com ele no quarteirão, está bem, passar as coordenadas.

MARCELA – Nossa, mas está tão frio lá fora, não é melhor vocês conversarem aqui mesmo?

José olha para Alexandre que dá de ombros.

JOSÉ – Ele está com pressa, minha flor.

Marcela desconfia.

MARCELA – Está?

Alexandre confirma.

ALEXANDRE – Estou.

JOSÉ – Volto num minuto.

Ele pega seu casaco no porta e sai com o homem. Marcela estranha.

CENA 08/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/EMERGÊNCIAS/NOITE

Suzy acorda e percebe que uma enfermeira meio andrógena, com vestimentas e cortes mais masculinos troca o medicamento de outro paciente sedado. GATILHO.

LIGAR FLASHBACK RÁPIDO: Silêncio. Ela chega na frente do espelho de seu quarto aos onze anos e percebe que o uniforme da escola não fica mais do mesmo jeito, há saliências em seus peitos, retira a camisa e constata: eles cresceram. AFLIÇÃO. Percebe que sua cintura está diferente também, está mais larga. NAUSEA.

SUZY (V.O) – Eu só queria que isso nunca havia acontecido comigo, eu estava tão feliz com aquele corpo indefinido, mas a mãe natureza estragou. Malditos hormônios!

Ela olha para o pulso enfaixado e começa a chorar. Depois aumenta o choro ao notar que seus seios ainda estão lá, puxa as cobertas e olha para a cintura. DESESPERO.

CENA 09/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITARIO ORLANDO MOÇA/INTERNO/PSIQUIATRIA/NOITE

Eulália acorda e percebe que Remo está a contemplá-la. Ela o reconhece, acena para ele. Ele a chama pelo vidro.

EULÁLIA – Nossa, meu velho, estou me sentindo tão cansada.

REMO – Jura, Eulália, você dormiu muito, quase o dia todo.

EULÁLIA – Álias, o que eu estou fazen…

Instrumental drama médico. Ela tem uma alucinação de que milhares de crianças correm ao redor dela brincando de ciranda. Ela escuta as vozes das crianças se divertindo.

EULÁLIA – Parem de me perseguir, suas pestinhas. Parem de me perseguir.

REMO – O que está acontecendo com ela? Enfermeira!

Mostrar ela no chão, deitada de lado, mexendo as pernas loucamente, enquanto tapa o ouvido tentando não ouvir as crianças.

EULÁLIA – Vão embora, vão embora daqui!

Remo se desespera com o malabarismo aleatório que Eulália emprega aos movimentos da perna.

REMO – Você vai quebrar as pernas, pare já com isso!

Mas Eulália não consegue parar. Enfermeira chega.

ENFERMEIRA – Isso deve ser efeito do antipsicótico. Vou chamar o doutor!

E sai correndo, deixando Remo traumatizado com a cena.

CENA 10/SÃO PAULO/TATUAPÉ/APARTAMENTO DE MEIRE E CAIO/INTERIOR/QUARTO DO CASAL/NOITE

CAIO – Amor, eu não via a hora de chegar em casa, Liceu estava me matando hoje por que não conseguiam e lembrar dos diâmetros da abertura superior, média e inferior da Pelve. Acredita?

Ele constata que Meire está caída ao chão, desacordada.

CAIO(DESESPERO) – MEU AMOR! O Que aconteceu?

Ele a acode e ela desperta de leve.

CAIO(DESESPERO) – Vamos para o hospital agora!

CENA 11/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ACADEMIA DOS ESTUDANTES/INTERIOR/NOITE

André quase morrendo de tanto correr na esteira porque não estava fisiologicamente preparado, aumenta a velocidade.

ANDRÉ – Vamos, seu fracote! Desse jeito você não vai chegar a lugar nenhum, nunca vai ter um corpo perfeito!

Gustavo que terminava sua prancha se sentindo mal por Fabiana tê-lo bloqueado sem motivo. Mostrar celular. Distrai com a fala do rapaz e ri.

GUTO – Não vai ter o corpo perfeito assim mesmo, irmão. Você tá queimando toda sua série aqui. Como quer ganhar massa assim, sangue bom?

André se sentiu mal.

GUTO – Saca só, você não precisa fazer tanto cardio, é magrelo demais. Seu metabolismo já deve ser rápido, então tu tem que lutar contra ele e mudar a alimentação.

ANDRÉ – Você diz comer mais proteína né?

GUTO – Sim, mas não só. Eu tomo Whey Protein.

ANDRÉ – O que é isso?

Guto tira onda.

GUTO – É um suplemento proteico a partir do soro do leite. Tem um aporte proteico muito bom, mas ele é um dos essenciais junto com BCA que são cápsulas que você toma depois do treino para ajudar na síntese das miofibrilas, manja?

ANDRÉ – Sei, lembro-me das aulas de fisiologia muscular.

GUTO – Isso man. Então já passa na lojinha e compra se puder. Estou indo para casa, tenho que resolver uns lances. Tamo junto, irmão.

E o cumprimenta com um toque forte. André para a esteira. Respira fundo e enxuga a cabeça. Vai até a loja no fundo da academia.

LOJINHA

Ele olha para os suplementos e se surpreende com os preços.

ANDRÉ (V.O) – Nossa, mas é muito caro. Não tenho dinheiro para comprar e agora?

CENA 12/SÃO PAULO/SÉ/CLÍNICA DE ONOCOLOGIA/INTERIOR/CORREDOR UTI/NOITE

Elas observam Guilherme entubado atrás do vidro transparente no corredor.

CACAU – Eu nem sabia que existia UTI aqui dentro.

FABIANA – Essas clínicas de oncologia geralmente possuem, os pacientes, muitas vezes, pioram do dia para noite.

CACAU – Como ele está abatido, essa doença está acabando com ele.

FABIANA – Sabe que nós temos nos aproximado muito nos últimos tempos, venho aqui visita-lo, ele sempre tão alto astral, risonho. Está sendo uma surpresa muito boa saber que vocês estão juntos, ele é uma pessoa adorável, com certeza seria um ótimo pai para mim, um pai que nunca tive.

Cacau sente um leve incomodo com aquela fala. Fica apreensiva.

CACAU – É, mas ele não é seu pai. Seu pai infelizmente morreu.

Fabiana se sente mal com aquela fala. Sente dor nas costas.

FABIANA – Vou dar um pulo no banheiro, já volto.

BANHEIRO

Ela chega no local e retira a camiseta, ficando apenas de sutiã, suas costas ardem com as marcas do chicote. Ela as lava com delicadeza e quando acaba de colocar a camiseta de volta, sua mãe entra.

CACAU – Nossa, filha, que marcas são essas nos seus braços?

Instrumental explosivo. Fabiana revela.

FABIANA – Essas marcas? São…da queda de escada que tive ontem na facul ontem de tarde.

CACAU – Você caiu da escada?

FABIANA – Caí, na pressa. Daí me arranhou toda. Que foi? Acidentes acontecem, não sou desastrosa.

E saiu. Cacau balançou o dedo.

CACAU – Aí tem coisa, caiu da escada? Essa história não está me cheirando bem.

CENA 13/SÃO PAULO/BROOKLIN/APARTAMENTO DE UMBERTO/INTERIOR/QUARTO DE UMBERTO/NOITE

Umberto ronca feito um porco na escuridão do quarto e Dandara o observa em silêncio na porta, com lágrimas de cólera nos olhos.

CORTE DESCONTINUO.

COZINHA

Instrumental de suspense. Ela observa um faca no porta-faca. Aproxima-se. Puxa pelo gume e vê seu reflexo nele. SILÊNCIO.

DANDARA – Não…não pode ser uma morte muito violenta e rápida, ele tem que sofrer, sofrer muito.

E devolve a faca para o lugar. Senta num banco e fica a refletir.

CENA 14/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAAR/NOITE

Catarina abre a porta para Goram.

CATARINA – Seja bem-vindo, senhor Goram.

GORAM – Pokatu, desculpa o atraso.

Mateus vem do escritório.

MATEUS – Pensei que não vinha mais, Goram. Você sumiu o dia todo!

GORAM – Desculpa Goram, mas acabei perdendo o horário, podemos ñepyru com as aulas de inglês ainda?

MATEUS – Claro, claro querido. Vamos entrando.

Neste instante toca novamente a campainha e Catarina abre.

CATARINA – Nossa, que estranho, o interfone nem tocou. Quem será que é?

Ela abre e Mateus se desfalece ao ver a presença daquele ser. Goram percebe o espanto e se vira para observar. Um velho charlatão, com vestimentas a lá Romero Britto, meio corcunda e com cabelos espanados brancos circundando a careca deposita sua mala cubista no chão. Sorri provocativo pra Mateus.

AKIKO – Meu sobrinho neto predileto! Há quanto tempo!

Goram estranha toda aquela situação e volta a olhar para Mateus tentando buscar uma resposta.

MATEUS (meio transtornado) – Quanto tempo, tio Akiko!

Goram pressente que há um elo entre os dois.

Close alternado mostrando as emoções das personagens.

CENA 15/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Themise anda de um lado para o outro.

THEMISE – Atende Goram! Atende! É muito importante você saber que Bernardo esteve aqui!

Toca a campainha. Themise olha pelo olho mágico e sente um leve remorso, abre a porta.

THEMISE – Vitor? Você aqui?

VITOR – Tudo bem?

Ele lhe dá um beijo no rosto.

VITOR – Trouxe flores para você!

Themise recebe meio desconfortável.

THEMISE – Muita gentileza sua, elas são lindas.

VITOR – Como você…Queria te chamar para jantar hoje, estou pensando em te levar para comer comida japonesa.

Themise reflete um pouco.

THEMISE – Eu acho que hoje não estou muito afim de sair, me desculpa.

VITOR – Tudo bem, podemos passar a noite juntos aqui então.

Themise demora um pouco para responder.

THEMISE – Então, mas sabe o que é? Eu gostaria de ficar um pouco sozinha esta noite, não sei, é isso…acho que quero ficar sozinha.

Vitor se corou de leve, sentiu-se levemente rejeitado.

VITOR – Claro, claro, eu entendo. Bom, amanhã se quiser sair.

THEMISE – Claro, refaça o pedido, a gente vê.

Ele a cumprimenta com um beijo no rosto.

VITOR – Fica bem, se precisar de algo, você já sabe onde me encontrar.

THEMISE – Sei sim.

Ele a cumprimenta com um tchau de mão e ela retribui fechando a porta delicadamente. Deposita o buquê sobre o sofá, pensativa. Adelaide observa tudo reflexiva.

CENA 16/SÃO PAULO/CENTRO/APARTAMENTO DE ARAPONGA/INTERIOR/NOITE

Bernardo senta na cama, retirando o tênis e Araponga o questiona.

ARAPONGA – Agora que tu chegou, quero que myesakã direito o que foi aquela visita na oga da minha tia? E que história é essa do Goram estar fazendo aulas na mansão com o cara que você engana lá?

BERNARDO – Foi o que eu disse, amor. Fui visitar o prédio em busca de apartamento porque o Goram sugeriu, disse que é muito bom morar por lá. Ele começou às aulas de inglês com Mateus por conta de ter tido uma ótima classificação na Olímpiada de medicina. Mateus está ajudando ele com o intercâmbio.

ARAPONGA – Isso pode até ser añete, mas Bernardo procurando apartamento justamente no mesma tenda que Goram mora e indo lá dizendo que já havia se mudado. Conta outra, Bernardo. Araponga conhece Bernardo muito bem, sei quando está mentindo para mim.

Bernardo não a encara.

ARAPONGA – Égua! Se abre com Araponga homem de Deus, o que tá pegando? Você tá estranho desde aquele dia que jurou que viu uma ava ali no corredor.

Bernardo confessa.

BERNARDO – Era ele!

ARAPONGA – Ele quem? Galalau?

BERNARDO – Goram!

ARAPONGA – Que tu disse? O Goram estava nos espionando?

BERNARDO – Sim. Vou te contar a verdade. Faz tempo que pego este cara me sondando, aquele dia eu fiquei puto porque vi que ele estava aí fora nos vendo, tentei ir atrás, mas ele desapareceu. E o que me mata é que não sei o que ele quer comigo, porque ele está fazendo isso.

ARAPONGA – Essa tembiasakue está muito estranha. Que interesse Goram teria em te seguir?

BERNARDO – Eu queria bem saber.

ARAPONGA – Tu tem certeza que era Goram?

BERNARDO – Sim, absoluta.

ARAPONGA – Eu sempre achei aquele curumim muito vaípe mesmo, com uns discursos inflados, forçados, defendendo a causa Guajajara.

BERNARDO – Normal, muitos indígenas fazem isso. É a mesma coisa com os negros nos movimentos.

ARAPONGA – Só que acontece que Goram não é indígena de verdade, ele foi adotado.

Instrumental explosivo. Surpresa na face de Bernardo.

BERNARDO – Ah é, ele foi adotado?

ARAPONGA – Foi. Tia Iracema adotou Goram quando criança, não sei muito bem a história, só sei que esse curumim vive pagando que é indígena, falando de boca cheia, sendo que mesmo dentro da aldeia quando ainda vivíamos em comunidades nem sequer sofreu o mesmo preconceito que sofremos pelos homens brancos que lá exploravam. Por Tupã! Pelo contrário, era tido como mascote por eles.

BERNARDO – Nossa, que situação injusta.

ARAPONGA – E não é? Mas Araponga agora fica pensando em qual interesse Goram teria para espionar Bernardo.

BERNARDO – É..eu também.

Close em sua face com olhar perdido num ponto fixo. Raciocinando.

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/PRONTO SOCORRO/NOITE

Meire está sentada numa cadeira tomando medicamento para enjoo acompanhada de Caio, quando a enfermeira chega risonha.

MEIRE – Por que você está rindo?

CAIO – O que está acontecendo, Celloura?

ENFERMEIRA CELLOURA – Parabéns aos novos papais.

Meire troca olhares felizes com Caio. Caio se emociona.

MEIRE – Como é?

ENFERMEIRA CELLOURA – Você está grávida, Meire. Produzindo BHCG nas alturas.

MEIRE – Amor! Vamos ser pais?

Caio a beija apaixonado, abraçam emocionados.

Música Entrelinhas de Ana Vilela toca a todo vapor.

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/APARTAMENTO 12/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Heloísa finalmente termina os exercícios de revisão de anatomia. Ela começa a corrigir e percebe que está errando aos montes.

HELOÍSA – Meu Deus! Como fui trocar a inserção do músculo bíceps braquial com o tríceps braquial? Eu me esqueci do peitoral menor! Eu fiquei horas estudando isso, não tô conseguindo assimilar.

MEDO

HELOÍSA – Vou ligar para Goram!

Ela tenta ligar, mas não consegue falar com ele, tenta de novo, mas não consegue.

HELOÍSA – Eu não quero ficar sozinha aqui estudando. Vou ver como Suzy está.

Ela pega seu casaco e bate a porta de entrada.

CENA 19/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/QUARTO DE THEMISE/NOITE

Themise se prepara para dormir já de camisola, para um momento e senta na cama, observando o buquê que Vitor a trouxe. Adelaide bate em sua porta.

ADELAIDE – Filha! Posso entrar?

THEMISE – Claro, mãe.

Adelaide entra e senta na cama, percebe que ela está contemplando as flores.

ADELAIDE – Linda as flores que o Vitor trouxe, né?

THEMISE – Sim.

ADELAIDE – Mas você não gosta dele, né filha?

Themise tenta disfarçar.

THEMISE – Impressão sua, mãe. Gosto muito dele sim.

ADELAIDE – Eu sei que não, é nítido em seus olhos, ele está completamente interessado em você, mas não é recíproco.

Laurinha espreita para escutar na porta.

THEMISE – Que nada. Ele é especial para mim.

ADELAIDE – Mas não como um namorado, talvez como um amigo.

Themise não responde.

ADELAIDE – É tão raro, filha, encontrar alguém que goste da gente por quem somos, sem julgamentos. Eu se fosse você dava uma chance para o sentimento dele, talvez você possa se surpreender. Você sabe que a mãe é porra louca, dá em cima de todo mundo, mas de verdade, o que sinto nele por você é muito verdadeiro, não deixa isso passar.

Themise abraça a mãe.

ADELAIDE – Vou dormir agora, boa noite.

THEMISE – Boa noite, obrigada pelos conselhos.

Assim que Adelaide sai, Laurinha entra.

LAURINHA – Você é muito otária, mesmo!

Themise não gosta do tom.

LAURINHA – Está deixando o Vitor passar por conta de um amor não correspondido pelo Goram. Esquece o Goram, ele já tem uma garota e não é você.

E sai, deixando Themise com mal estar.

CENA 20/SÃO PAULO/BROOKLIN/ARMAZÉM/INTERIOR/NOITE.

Dandara chega ao local e retira seu casaco escuro.

VENDEDOR – Já estamos fechando, moça.

DANDARA – Ah, por favor, eu preciso muito comprar um produto de vocês.

VENDEDOR – Tudo bem, diga lá, o que precisa.

DANDARA – RATOL! Veneno de rato, minha casa está infestada deles.

Close em seu rosto sombrio.

CENA 21/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/CASA DE CAROL/EXTERNO/NOITE

Começa a garoar quando Fabiana e a mãe chegam em casa correndo a partir do ponto de ônibus. Instrumental explosivo. Gustavo está aguardando ela.

FABIANA – O que você está fazendo aqui?

Carol estranha o tom agressivo da filha.

GUTO – Você me bloqueou né? Do nada! Eu precisava ir para entender o que aconteceu? O que foi que eu te fiz, princesa, para você me tratar assim?

FABIANA – Para de falar assim comigo! Eu não sou sua princesa, nunca fui! Vai embora daqui!

Fabiana sente MEDO. Recorda-se do sequestro.

CACAU – Que isso, filha! Isso é jeito de tratar o rapaz?

FABIANA – Não se mete, mãe! Eu já falei para esse cara me deixar em paz, me esquecer, mas ele não me respeita, não vai embora, fica no meu pé.

GUTO – Eu fico no seu pé, porque eu gosto de você, porque sem você a vida não tem sentido para mim.

Cacau se emociona com as palavras do rapaz.

FABIANA – Vai com essa sofrência para lá. Agora me dá licença que eu vou seguir minha vida, porque não posso para-la por conta de uma obsessão. Entra mãe, vamos. Se você continuar me perseguindo, vou chamar a polícia.

E entra com a mãe, batendo a porta na cara dele.

SALA DE ESTAR

CACAU – Que isso, Fabiana?

Fabiana entra correndo no quarto chorando, tranca-se.

QUARTO DE FABIANA

Ela se deixa deslizar pela porta, chorando alto. Pega um travesseiro para abafar o choro.

DO LADO DE FORA

Guto tomando chuva e chorando ao som de Esquecimento de Skank. SOFRIMENTO.

CENA 22/SÃO PAULO/TATUAPÉ/TRAVESSA/NOITE

Heloísa meio cabreira atravessa um atalho que sairia na entrada lateral do hospital quando dois sujeitos a abordam.

SUJEITO 1 – E aí patricinha? Tá sozinha é?

SUJEITO 2 – Quer fazer uma brincadeira conosco?

Heloísa tenta correr, mas acaba tropeçando numa raiz de árvore e caindo no chão. Eles se aproximam.

HELOÍSA – Me deixem em paz!

SUJEITO 2 – Calma, docinho, não vai acontecer nada.

George surge do nada, esmurrando um dos rapazes.

GEORGE – Deixem ela em paz.

O outro cara tenta vir para cima dele e Heloísa começa a gritar.

HELOÍSA – Polícia! Socorro! Socorro!

Uma viatura começa a passar e eles param de socar George, fugindo.

HELOÍSA – Você está bem?

GEORGE – Estou. Eles fizeram algo com você?

HELOÍSA – Não deu tempo. Essa cidade está ficando cada vez mais perigosa!

GEORGE – Que bom que nada aconteceu. Para onde estava indo ao cortar caminho por essa travessa?

HELOÍSA – Para o hospital, visitar minha amiga de república que está internada.

GEORGE – Coincidência. Estou indo para o hospital cumprir plantão de Neurologia. Vamos juntos?

Heloísa se cora.

HELOÍSA – Vamos sim.

E eles saem caminhando juntos.

CENA 23/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/NOITE

Mateus abre a porta do escritório.

MATEUS – Bom, Goram. Por hoje, terminamos. Treine bastante os modais, hein? Eles são a cereja do inglês.

GORAM – Hekopete, Doutor Mateus!

MATEUS – Para de me chamar de Doutor Mateus, garoto. Mateus só para você.

E o abraça de uma forma carinhosa, Goram sente náusea.

Do alto da escada, mostrar Akiko observando tudo em silêncio.

MATEUS – Vou te acompanhar até a porta, CATARINA!

A governante aparece.

CATARINA – Pois não, Professor Doutor Mateus?

MATEUS – Meu tio está lá em cima? Alocou ele, desde que chegou.

CATARINA – Sim, está lá no quarto de hóspedes!

MATEUS – Ótimo! Já vou subir já para falar com ele. Acompanhe Goram até o portão, por favor. Tchau querido.

E lhe dá um beijo no rosto, mostrar face de Goram com repulsa completa.

EXTERNO MANSÃO.

CATARINA – Bom, até mais Goram!

GORAM – Ahátama, Catarina.

Goram finge que vai montar na bicicleta e espera ela sumir lá para dentro, abre o portão que ela deixou apenas fechado.

Instrumental ação, corre pela lateral da mansão, evitando as câmeras e se adentra pela cozinha.

SALA DE ESTAR

Sobe as escadas em silêncio e observando os detalhes.

CORREDOR DO SEGUNDO PAVIMENTO

Escuta Akiko rindo debochado no quarto de hóspede.

MATEUS – Você voltou para me infernizar, seu velho?

AKIKO – Magina, sobrinho. Eu estava com saudades de você, do Brasil, do Alexandre, do Bernardo, do…

MATEUS – Para de papagaiada! Eu te paguei uma dinherona todos estes anos e você me prometeu me deixar em paz. Nunca descumpri com nosso acordo.

AKIKO – Eu sei disso, você é um mocinho de palavra. Mas as coisas mudaram, fui dispensado do meu apartamento que dei entrada por conta do jogo.

MATEUS – Mas era só que me faltava agora! Que culpa eu tenho se você é viciado em cassino clandestino. Eu não administro seu dinheiro.

AKIKO – Pode não administrar, mas é a fonte pagadora, quero mais, muito mais para não abrir o seu segredinho e entregar todos os seus capangas no assassinato de Orlando e Eloá. Imaginem se souberem que você matou seu irmão também depois daquele sequestro falso? Imaginem só se souberem que um dos seus seguranças foi o cara que deu a paulada de ferro fatal em Orlando?

Close na face desesperada de Mateus. Goram escuta tudo chocado.

FADE ON

CONTINUA…

 

 

 

 

 

 

 

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