Estação medicina

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Capítulo 23

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 23

CLIMÁTICO

 

FADE IN

CENA 01/MAIRIPORÃ/ESTRADA DESERTA/FIM DE TARDE.

Instrumental explosivo. Assistimos pelo visor de Goram o espancamento de Pamela. Close no rosto do jovem que gravava transtornado.

Depois de mais alguns chutes, Bernardo cansa.

BERNARDO – Parem! Parem!

Ele tenta aferir o pulso jugular de Pamela e não encontra.

BERNARDO – Ela já não está mais entre nós. Tá morta!

Voltar bruscamente para Goram. Enojado.

BERNARDO – Só fico pensando no que essa filha da puta sabia a meu respeito, como é que ela descobriu desse crime e vocês bico fechado em relação ao que ela disse, são meus parceiros, estamos juntos nessa.

CAÍQUE – Claro, seu Bernardo. Estamos juntos!

REINALDO – Disse tudo Caíquinho.

BERNARDO – Ótimo! É bom saber que posso contar com vocês, agora enterrem esse cadáver em algum lugar por aí, vou voltar para capital, já está anoitecendo.

CAÍQUE – Pode deixar. Você trouxe a escavadora e a pá?

REINALDO – Tá no meu carro.

Bernardo bate a porta do carro amedrontado com as falas de Pamela, as falas ecoam em sua cabeça, ele faz um giro de 360º e pega a estrada principal. Goram desliza para a ponta da grande pedra e o observa partir meio taquipneico.

CENA 02/SÃO PAULO/BIXIGA/APARTAMENTO DE JOSÉ/INTERIOR/COZINHA/FIM DE TARDE

Marcela termina de lavar a louça junto com José.

MARCELA – Nossa, você acredita que ela não quis contar para gente sobre o diagnóstico que ela pensa, deixou num clima de mistério. Heloísa pesquisou e comentou comigo uma demência que ela pensa, mas estamos bem ansiosas.

JOSÉ – Que bom, minha flor. Fico feliz que esteja se envolvendo bem com a medicina.

Ele encerra meio assunto e Marcela nota que ele está preocupada.

MARCELA – O que tá acontecendo?

JOSÉ – Como assim?

MARCELA – Eu tô te sentindo diferente, ontem você chegou em silêncio e caiu no choro no sofá da sala.

José ficou surpreso por ela ter percebido.

JOSÉ – Foi um amigo, um amigo caminhoneiro, ficamos sabendo que ele faleceu de repente na estrada, bateu o caminhão.

MARCELA – Foi isso que aquele seu colega veio avisar?

José mente.

JOSÉ – Foi. Uns amigos nos reunimos no posto, trocamos uma ideia, tá todo mundo arrasado.

MARCELA – Nossa, Zé, eu nem sei o que te dizer, ele era muito especial para você? Eu conhecia?

JOSÉ– Não, você não o conhecia, ele vivia na estrada, mal parava, mas quando parava era sempre uma alegria no posto.

Marcela o abraça por trás.

MARCELA – Vai ficar tudo bem, eu estou aqui se precisar.

E o acaricia por trás, close nos olhos esbugalhados de José de preocupação.

CENA 03/SÃO PAULO/TATUAPÉ/BAR DO ESTETO/INTERIOR/NOITE

Guto termina de beber mais um chope, vemos que ele está um pouco bêbado.

ELIANE – Você não acha que está bebendo muito?

GUTO – Eu tô muito mal, gatinha. Dor de amor, temos que beber para esquecer.

ELIANE – Mas será que vale a pena sofrer por quem não nos merece?

Guto a olha chapado.

ELIANE – Você é um cara legal, gostoso, forte, não merece nenhuma mina que fica fazendo joguinho, fazendo você sofrer.

Guto se aproxima dela a encarando, ela fica taquicárdica achando que ele vai beijá-la, mas ele cai em seu colo, chorava.

GUTO – Eu não entendo porque ela fez isso comigo, eu gosto tanto dela.

Eliane fica fervendo de ciúmes. Começa a fazer cafuné nele.

ELIANE – Mas ela não te merece, existem muitas mulheres neste mundo que te daria muito mais amor, vai por mim.

Guto chora alto. Eliane o acaricia.

ELIANE – Não chore, você vai ganhar o mundo, meu amor, só precisa de uma mulher de verdade ao seu lado, uma de fibra, que não brinque com seus sentimentos, que cozinhe, passe, lave e roupa, cuide de seus filhos, seja sua princesinha.

Instrumental explosivo. Close na face ofídia da loira.

CORTAR PARA:

CENA 04/SÃO PAULO/PENHA/CASA DE ELEONOR/INTERIOR/COPA/NOITE

Eleonor terminava de jantar com o filho, o garoto estava nitidamente cabisbaixo.

ELEONOR – Que foi, filho, tô te sentindo tão baixo astral, tá acontecendo alguma coisa?

ANDRÉ – Nada, mãe. Só as provas que começam amanhã, faculdade tá ficando puxada.

ELEONOR – Eu te conheço, esse cara aí, é de paixão não correspondida.

ANDRÉ – Ai, mãe. Que isso, até aparece!

ELEONOR – Você nunca foi de fazer academia, meu filho, nunca foi chegado, vejo essa cara e vejo seu movimento, não é muito difícil adivinhar que você quer impressionar alguém.

ANDRÉ – Eu só quero cuidar mais de mim, mãe, só isso.

Toca um reloginho na arca, ela se levanta apertando.

ELEONOR – Deu o horário do meu remédio para pressão. Nossa, eu já ia me esquecendo, precisar colocar essas notas na nossa moleira.

Ela abre o armário e deposita o dinheiro que estava em seu casaco numa antiga moleira que fora de sua avó.

ELEONOR – Quase todo dia guardo esses trocadinhos para emergências, deve ter uma fortuna aqui.

De relance, vemos os olhos de André brilharem. Ela guarda no armário e se volta para o filho, dando um beijo na testa.

ELEONOR – Você tira a mesa para mim, acho que vou me recolher, estou um pouco cansada, mas antes preciso pegar um copo de água na cozinha.

ANDRÉ – Retiro sim, boa noite, mãe.

ELEONOR – Boa noite, filho.

Ela sai e ele fica pensativo.

FLASHBACK RÁPIDO: Ele se lembra na academia do suplemento e de seu preço caro.

ANDRÉ – Não, eu não posso fazer isso!

Ele olha para a arca um instante e se levanta retirando a mesa e indo para cozinha.

CENA 05/SÃO PAULO/METRO/INTERIOR/NOITE

Instrumental melodramático. Entre passageiros, sentado num canto isolado, vemos a face transtornada e assustada de Goram.

Ele se emociona ao dar play mais uma vez no vídeo que gravara.

GORAM – Pamela…

Ele levanta a cabeça, fechando os olhos, tentando esquecer a cena que esquecera, mas não consegue. Estava com olheiras de tanto sofrer, seus cabelos despenteados, gola da camiseta suada e franzida.

GORAM – Por tupã! Essas tragédias precisam parar de acontecer, esses jejukas precisam ir para atrás das pyha.

FLASHBACK RÁPIDO: Goram se lembra ainda quando criança quando presenciou o assassinato de seus pais naquele quarto.

GORAM – Uvá! Isy! Eu sinto tanta falta de vocês, tanta falta de não poder ter vivido minha infância e minha adolescência ao lado de vocês. Coração de Goram sangra ao saber que vocês não podem estar mais aqui, porque foi lhes retirado o akatuápe de viver e de uma forma tão injusta, tão brutal. Me perdoem, Goram queria ter impedido, ter feito algo, mas eu era apenas uma mitã e eu nada pude fazer.

Lágrimas transbordaram em seus olhos. O metrô para numa estação e num semblante de um casal na plataforma, ele enxerga seus pais. Contempla uns instantes. Eles sorriem para ele, acenam. Goram põe a mão no vidro e retribui.

GORAM – Eu amo vocês e para sempre amarei.

As portas do metrô se fecham. A imagem de Eloá e Orlando se volatizam no ar. SOFRIMENTO. Semblante desesperado de Goram. Solidão infantil.

O metrô mais uma vez avança a toda velocidade.

CENA 06/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Amanhece na capital paulista ao som Samba de Verão de Caetano Veloso. A margem do Rio Pinheiro salta aos nossos olhos pelos raios da luz solar que incidem sobre suas águas translúcidas. Vemos uma fila de cruzar quarteirão na calçada do SESC Pinheiros. Funcionários do Shopping Eldorado indo trabalhar, ligando as escadas rolantes, abrindo as lojas. No Instituto Butantan, vemos funcionários no serpentários coletando a peçonha de algumas espécies e levando para laboratório, em outra ala, vacinas sendo produzidas. Tudo integrado ao complexo da Universidade Estadual de São Paulo (USP)

CENA 07/SÃO PAULO/CENTRO/BORDEL BOVARY/INTERIOR/QUARTO DE BOVARY/MANHÃ

Bovary terminava de se aprumar, quando seu telefone com cabo encaracolado ressoa alto. Ela senta em sua penteadora toda posuda e atende.

BOVARY – Pois nã? Oh! Gilberto, é você, meu gringo predileto? Quanto tempo! Está em São Paulo e a que devo a honra de sua ligação, meu amigo. Uma ninfetinha! Sei, você não muda mesmo (e ri alto), olha a mais nova que eu tenho, tem 12 anos, mas assim, você sabe, tudo tem que ser na surdina, não quero ter problema com conselho tutelar, polícia, você sabe como é o dia de hoje. Que bom que me entende, 24H exclusiva? Claro! Mas você sabe que não vai ser tão barato assim, né? Posso fazer meu preço! Perfeito então. 3 mil. Ótimo. Vai vir pegar quando? 10h! Vou aprontar a danada. Um abraço. Outro. Tchau tchau.

Ela desliga extasiada, balançando os dedos num tom grotesco de exploradora de menor.

CORTE DESCONTINUO

COZINHA

Giovana joga um balde de água com sabão no assoalho e coloca o pano no rodo puxando.

BOVARY – Hey, boneca!

Giovana se vira.

BOVARY – Larga esse rodo! Vai se aprontar!

GIOVANA – Me aprontar? Mas para quê?

BOVARY – Cliente das antigas querendo a puta mais nova e você sabe que é a menor daqui.

GIOVANA – Mas não foi esse o combinado, eu sou virgem ainda, comprometi com os programas, mas quando eu tivesse próximo dos dezoito, você disse que eu poderia ficar com os serviços domésticos.

BOVARY – Em primeiro lugar não é você, é senhora, ou Dona Bovary! Segundo lugar, quem manda nessa joça e a partir do momento que você depende financeiramente de mim, eu sou dona do seu corpo também. Fora que você cozinha muito mal, passa roupa tudo de qualquer jeito!

GIOVANA – A senhora até outro dia tava elogiando meu almoço!

BOVARY – Mudei de ideia, conheci outras jovens que queriam estar no seu lugar, ter um teto para dormir, um prato para comer, que são muitos melhores. E quer saber de uma coisa, chega de perguntas, vai lá para dentro se aprontar!

A jovem se desespera.

GIOVANA – Por favor, Dona Bovary! Não faz isso comigo.

BOVARY – Para de enrolar, garota!

Giovana se joga aos pés da cafetina e se agarra nas vestes de sua roupa.

GIOVANA – Não faz isso comigo!

Bovary a chuta forte. A menina se avermelha e começa a chorar. A velhaca se aproxima irritada e puxa a face dela.

BOVARY – Engula esse choro! Chega de palhaçada! Se você não estiver daqui há 2 horas, pode pegar suas coisas, porque você tá no olho da rua.

Giovana chora.

BOVARY – Você não ouviu, não? Tá surda? PARA COM ESTE CHORO! Vamos levanta daí, basculho.

Giovana se levanta, suas magreza e sardas se destacam, ela corre agitada lá para dentro estancando o choro.

BOVARY – Era só o que me faltava essa agora!

CENA 08/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/APARTAMENTO 12/INTERIOR/QUARTO/MANHÃ

Suzy percebe que já é de dia lá fora e se lembra rapidamente de algo. Apressada ela se levanta do 2º andar do beliche e leva um tombo da cama.

SUZY – CACETE!

Ela pega rapidamente seu celular sobre a escrivaninha.

SUZY – Aí, vinte minutos atrasada!

Ela corre para a cozinha.

COZINHA AMERICANA

Ela fecha a geladeira pegando uma geleia e pão, quando se depara que na mesa da sala, próxima a janela.

SUZY – Miga, você tá bem?

Heloísa estava sonolenta, muitos papeis espalhados jogados na mesa, no chão, a jovem tomava mais uma xícara de café enjoada, mexendo na pálpebra dos olhos.

HELOÍSA – Estou.

Suzy se aproxima com seu lanche e pega a garrafa de café.

SUZY – Nossa, tá vazia essa garrafa!

HELOÍSA – Desculpa, amiga. Se quiser, posso fazer mais café para você, mas passei a noite em claro estudando, tive que tomar café para aguentar.

Ela termina de beber a xícara

SUZY – Você não dormiu? (Senta à mesa e morde o pão com geleia)

HELOÍSA – Não consegui, eu tô com muito medo dessa prova, aliás de todas as provas, sinto que não tô preparada, é muita coisa.

SUZY – Nossa, se você não tiver preparada, imagine eu! Eu praticamente não estudei, estou indo mais pelas minhas anotações de aula.

HELOÍSA – Estudei tudo pelo Moore, mas a inserção dos músculos dos membros superiores e inferiores mais os ossos, é muito nome, eu confundi várias vezes inserção com origem, troquei eles. Ai, é muita coisa!

SUZY – Você só tem ela hoje?

HELOÍSA – Hoje sim, mas amanhã continua, as disciplinas práticas estão me deixando ainda mais preocupadas.

SUZY – Dinorazinha, né?

HELOÍSA – Principalmente. As partes de colocação de luvas sem se contaminar já é difícil, imagina métodos de emergência de parada cardíaca, intubação oro traqueal, massagem, ampola de adrenalina em boulos, Assistolia, AESP! Nem sei a ordem disso! É muita pressão!

SUZY – Nossa, eu nem lembro disso, mas minha prova dela é depois de amanhã, vou revisar até lá. Amanhã a tarde tenho prova do Antônio.

HELOÍSA – Essa é outra também, nossa começou com necrose e apoptose, depois falou das organelas, citoesqueleto, daí começou a falar de tipos de receptores e biofísica, não entendi mais nada, é muito confusa a organização da aula dele.

SUZY – Sim, mas ele explica bem.

HELOÍSA – Mas é bem desorganizada a aula!

SUZY – Vou tomar uma ducha rápida. A prova começa em 10 minutos.

Ela sai correndo. Heloísa perde o olhar lá fora, preocupada.

CENA 09/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/QUARTO DO CASAL/MANHÃ

Mateus está dormindo de conchinha com Bernardo em sua grande cama de casal, só que embora, o ambiente esteja tranquilo, as pálpebras do herdeiro se mexem a todo vapor.

MOSTRAR SONHO : Mateus se recorda do dia que estava no apartamento de Adelaide e descobriu o ursinho caolho. SUSTO. Ele pergunta para Adelaide sobre a procedência deste ursinho e ela fala que é de Goram. DESESPERO. Era o mesmo ursinho? Themise chega e diz que deu a Goram quando ele chegou a cidade. Mateus olha de novo e percebe que o ursinho sumiu. De repente, o ursinho o cutuca na ponta da cama.

Ele berra. Acorda assustado. Bernardo acorda também.

BERNARDO – O que foi, amor? O que foi?

Mateus respira ofegante, procurando em volta, olha em baixo da cama.

MATEUS – Ele, ele!

BERNARDO – Ele quem?

MATEUS – O ursinho caolho!

BERNARDO – Que ursinho?

Mateus mexe nos olhos assustado como se quisesse realmente acreditar que havia sonhado. Aos poucos, acalma-se.

MATEUS – Você se lembra que meu irmão tinha um ursinho de pelúcia caolho com um colar de pena azul?

BERNARDO – Você diz o Giovane?

MATEUS – Sim.

BERNARDO – Me lembro.

MATEUS – Pois então, há algumas semanas atrás quando estive no apartamento de Goram, eu encontrei um ursinho muito parecido.

Instrumental explosivo. A Face de Bernardo se transforma.

BERNARDO – Na casa de Goram? No apartamento da família dele?

MATEUS – Sim, lá na Vila Madalena! Eu encontrei um ursinho que…sei lá, parecia muito real, a prima dele deu a ele quando chegou em São Paulo, perguntei onde ela havia comprado e ela me disse que numas lojas de conveniência na Liberdade, eu fiquei encucado com isso, porque parecia muito o ursinho, mas posso ter me enganado, existem tantos ursinhos iguais, acabei deixando quieto depois.

Bernardo fica reflexivo.

CENA 10/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/CORREDOR/MANHÃ

Themise está passando para guardar as roupas, quando percebe que a porta do quarto de Goram está entreaberta, ela abre e percebe que Goram está com os olhos vermelhos deitado no tapete, folhas avulsas correm aos seu lado.

THEMISE – Goram! Está tudo bem?

GORAM – Ani!

Ela deposita a roupa na cama e se agacha.

THEMISE – O que aconteceu?

GORAM – Themise nem imagina.

THEMISE – E esses papeis todos?

Goram se levanta.

GORAM – Goram estava estudando para as provas que tenho hoje, mas provavelmente ficarei de recuperação. Égua! Não tô com Jahei’y para isso.

THEMISE – O que houve?

Goram se levanta e vai até um móvel no fundo do quarto, abre a gaveta e retira o seu celular.

GORAM – Veja com os seus próprios esas!

Ele procura o vídeo e dá o play, Themise pega de suas mãos, instrumental catastrófico, assiste horrorizada ao assassinato de Pamela.

THEMISE – Eu não quero mais ver isso.

E devolve o celular para ele.

GORAM – Agora, tu entende, minha pochy por essa gente? Meu senso de justiça?

THEMISE – Eles mataram ela dessa forma? Ela foi espancada até a morte?

GORAM – Hee. Pamela morreu dessa forma.

Themise começa a chorar.

THEMISE – Que coisa mais horrível, que cena pesada e cruel. Como seres humanos podem fazer isso uns com os outros? (Ela se volta para ele). Você tem um trunfo na mão, Goram. Um trunfo! Essa a prova que você precisa para colocar esse assassino na cadeia!

GORAM – Goram pensou muito nisso a phyare toda, mal consegui pregar os olhos, minhas últimas noites tem sido vai, mas ainda não é a hora de entregar para a polícia.

THEMISE – Como não é a hora? Olha o que esses caras fizeram? Ela estava grávida!

GORAM – Égua! Eu sei. Mas se Goram mandar Bernardo para cadeia, Mateus vai dar um jeito de tirar. Eles foram cúmplices no passado! Bernardo deve ter provas contra Mateus. Eu preciso faze-los joka, roubar essas provas e aí sim eu os mando para a ka’irãi. Mas por hora, qualquer passo em falso boto tudo a perder.

THEMISE – Olha o jeito que você está falando, Goram? Você está falando como um articulador, como um estrategista, vidas estão sendo perdidas, você precisa é pôr um fim nisso tudo o mais rápido possível, antes que você seja o próximo.

GORAM – Ah, mas eu quero pagar para ver, quero ver se ele vai ter a py’aguasu de pôr um dedo em Goram, depois deste vídeo.

Close na face de Themise preocupada.

GORAM – Eu vou espalhar esse vídeo para várias nuvens e vou gravar em pen-drive e deixar com algumas ava. Os dois vão comer na minha mão, Themise, escuta o que estou te dizendo. Esse Ikatu tem dias para acabar.

Instrumental explosivo. Close em sua face sedenta por justiça.

CENA 11/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/EXTERNO/MANHÃ

 

André chega a faculdade e para um minuto em frente ao portão. Ele vê Romeu e um outro jovem fazendo cócegas um no outro voltando do treino de futsal. CIÚMES.

FLASHBACK RÁPIDO: André se recorda do dinheiro da sua mãe guardado na moleira. Ele reflexivo.

ANDRÉ(V.O.) – Eu devo pegar este dinheiro, é minha única chance agora de começar a ter resultados mais rápidos na academia.

Ele nem percebe que uma jovem esbarra nele, ele olha. Era Dandara.

ANDRÉ – Dandara!

A jovem se vira retirando o capuz.

DANDARA – Andrezinho!

Ele se aproximam e se abraçam.

ANDRÉ – O que aconteceu, amiga? Você sumiu!

Dandara disfarça.

DANDARA – A Faculdade começou a ficar puxada, entrei meio em neura, mas já estou melhor.

Ele nota um hematoma no antebraço dela.

ANDRÉ – O que é isso?

Ela percebe e puxa o braço rápido.

DANDARA – Nada, devo ter batido em algum lugar.

André percebe outros hematomas pela perna dela. Ela fica meio constrangida de estar sendo analisada.

DANDARA – Vamos entrar, já deve começar a prova de anatomia da primeira turma.

Ela o puxa e eles entram junto no prédio principal.

Fabiana chega correndo no campus e avista algo que a paralisa. Eliane chegando com Guto.

GUTO – Cara, nem acredito que dormimos no bar! Como a gente tava mamado!

ELIANE – Você, né? Eu não estava tanto! Mas o cara do bar foi tão gente boa, o bar fechou e ele só foi acordar agora de manhã.

GUTO – Disse que a gente era um casal bonito, por isso que não se importou.

ELIANE – E ele está certo, não é?

Guto riu e não respondeu nada.

Fabiana ao longe abaixa a cabeça e entra para fazer a prova.

CENA 12/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/LABORATÓRIO DE ANATOMIA/EXTERIOR/MANHÃ

Os alunos da primeira turma aguardavam conversando no corredor. Goram chegou um pouco atrasado e se aproximou de Heloísa e Suzy.

GORAM – Oi, porã.

Heloísa o abraçou.

HELOÍSA – Onde você estava? Não consegui falar contigo ontem o dia todo.

GORAM – Apaiñuãi de família.

HELOÍSA – Tá tudo bem?

GORAM – Ani, mas vai ficar.

Heloísa estava sudoreica, suas pupilas dilatadas.

Rogério abriu a porta.

ROGÉRIO – Podem entrar, turminha. Sentem aleatoriamente um por mesa e por banco ao lado das mesas, serão três provas diferentes.

LABORATÓRIO DE ANATOMIA – INTERIOR

Heloísa ficou apavorada, seguiu o fluxo da turma, deixou sua mochila no armário.

GORAM – Mborayhu, vamos sentar ali?

Ela balançou a cabeça, pálida.

SUZY – Boa prova, amiga. Boa prova Goram!

Heloísa não conseguiu responder.

GORAM – Boa prova, Suzy!

Goram sentou num banco ao lado da mesa que Heloísa tremendo se sentou.

O professor esperou os alunos se acomodarem.

ROGÉRIO – Galerinha, seguinte, a prova vai funcionar da seguinte maneira, vocês vão passar pelas cinco mesas da fileira, cada uma tem 4 marcações com alfinetes nas peças anatômicas, sendo que entre elas, vão ficar no banco para responder as questões teóricas, deixei o tempo de 2 minutos para cada parada, é tempo suficiente para fazerem a prova com calma. No final, entreguem as a prova com as pranchetas para os monitores.

Ele repassou com os alunos o sentido de revezamento das mesas e os bancos. Algumas alunas ao fundo cochichavam pela beleza do professor.

Heloísa segurou a prancheta tremendo, Goram percebe.

GORAM – Psiu gato réi! Tá tudo bem?

Heloísa balançou a cabeça que sim com uma face meio querendo chorar. Ele não se convenceu.

Começa a prova. Heloísa olha para o músculos.

HELOÍSA (cochicha) – Ai, esse é o redondo maior ou redondo menor? Qual faz mesmo a rotação interna, adução e retroversão?

Ela não consegue se lembrar, então o professor pede para trocar e ela vai para o banco.

HELOÍSA(V.O.) – Meu Deus, eu não fiz as outras duas marcações. Perdi duas questões.

Ela fica mal por um tempo por não conseguir marcar e então se lembra que precisa fazer as perguntas teóricas e começa a responder os casinhos clínicos de ortopedia que pedem para identificar qual músculo ou osso foi lesado ou fraturado. Logo o professor pede para mudar e ela vai para outra mesa preocupada, sensação de sufocamento, taquipneica.

HELOÍSA(V.O.) – Esse músculo está parecendo pela altura o soleo ou seria o gastrocnêmico? Eu preciso prestar atenção no osso! Acho que esse é mais tranquilo, é o côndilo lateral do fêmur!

Professor pede para mudar de novo. Ela fica em apuro. Goram enquanto anota observa Heloísa com preocupação.

Na hora de revezar ela se perde na posição do rodízio e derruba a prancheta. Todos param para olhar, alguns seguram o riso. Goram tenta se aproximar para ajudar.

ROGÉRIO – Fique aí, garoto! Pode deixar que eu ajudo ela. Você precisa prestar mais atenção, eu expliquei o rodízio em todas as fileiras, vocês viram 3 vezes como funciona!

HELOÍSA – Me desculpa! Me desculpa!

Mais risos. Ela estava pálida. Goram não gostou nem um pouco da falta de paciência dele.

No final da prova, Heloísa entregou a prova e saiu correndo. Rogério olhou impaciente por cima do olho.

ROGÉRIO – Cada uma!

SUZY – Caralho, o que aconteceu com ela, velho?

Goram ficou preocupado.

GORAM – Não tenho apytu’u. Mas Goram vai ver.

CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ EXTERIOR

Ele corre no sentido que ela saiu, mas não a encontra. Anda de um lado para o outro, rodeando a entrada principal, mas nada.

CORTAR PARA:

CENA 13/SÃO PAULO/JD.AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/INTERIOR/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Instrumental de suspense. Bernardo está tomando um uísque em silêncio quando se recorda de alguns momentos.

FLASHBACK RÁPIDO: Quando flagrou Goram junto com Mateus no portão da mansão. Quando flagrou Goram o seguindo de bicicleta naquela estrada a noite. Quando o flagrou espionando ele e Araponga no prédio dela no centro. Quando descobriu numa madrugada que a letra dele era idêntica a do bilhete anônimo. Quando descobriu que Araponga era prima dele. De Pamela dizendo que os dias dele e de Mateus estavam contados. Quando ela o contou que ele foi adotado e agora quando Mateus o revelou do ursinho caolho.

Ele perdia o olhar de um lado para o outro até que fixou num ponto fixo. Zoom lentamente em sua face que se transformou.

BERNARDO – Não é possível? Será?

Ele se levanta preocupado e vai para o jardim. Akiko o observa desconfiado voltando da cozinha.

CORTE DESCONTINUO

JARDIM

 

O Vilão liga para Araponga.

BERNARDO – Amor, oi, tudo bem? Como você está aí no flat? Seguinte, preciso que você faça um favor para mim, que espione o apartamento de sua tia e veja se consegue descobrir algo. Eu estou com um péssimo pressentimento!

Instrumental explosivo. Close em seu rosto aterrorizado.

CENA 14/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA /EXTERNO/MANHÃ

Goram está procurando Heloísa.

GORAM – Heloísa! Porã! Onde você está, meu amor? Por Maíra e Macuna-Íra!

Quando esbarra em doutora Rita. Seu corpo começa a ficar dormente, ela lhe acaricia.

RITA – Goram! Que surpresa boa te encontrar aqui.

GORAM – Também.

Eles trocam olhares maliciosos.

CORTAR PARA:

HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/CONSULTÓRIO DR. RITA

Rita fecha a porta, Goram está sem camisa, eles se pegam loucamente. Entre beijos, abraços e amassos fortes, Meire abre a porta junto com Caio.

MEIRE – Miga, nós queremos saber se você topa tomar um café com…

Eles se chocam.

MEIRE – Goram?

O indígena se envergonha. Rita veste sua camiseta.

RITA – Ai, amiga, não é nada do que você está pensando, nós…

Meire ri disfarçando trocando olhares com o namorado.

MEIRE – Você estão tendo um caso às escondidas!

Caio estava boquiaberto. Meire tira onda.

MEIRE – Então ele é o homem que te faz suspirar, amiga?

Goram riu.

RITA – Até parece que fico suspirando.

MEIRE – Pois fica sim, não fica amor?

CAIO – Sou testemunha viva!

RITA – Hey, vocês dois, vocês me respeitem, hein? Fui professora de vocês!

MEIRE – Calma amiga, só viemos te convidar para um coffe, mas já vi que o lance está mais interessante no seu consultório.

Goram já de camiseta vai até Meire.

GORAM – Por favor, Meire, tu não comente nada com Heloísa

MEIRE – Fica tranquilo, Goram. Eu não tenho nada a ver com a vida de vocês, mas seria interessante conversar com ela, já que ela gosta de você e não é legal ficar traindo, né?

GORAM – Atima porã! Sabia que podia contar com cheraa.

MEIRE – Magina e amiga, depois me conta tá? O sabor do pau-brasil.

E ri alto junto com Caio.

RITA – Mas vocês são podres mesmo, né? Não!

Eles saem e ela tranca a porta. Virando-se para ele.

RITA – Onde nós estávamos?

GORAM – Por Tupã! Será que é hekopete isso que estamos fazendo? Olha, não leve Goram a mal, mas acho que quero capar o gato.

RITA – Mas já?

GORAM – Preciso pôr a cabeça na tenda, Heloísa saiu ñani por aí, estava tremendo na primeira prova de anatomia.

RITA – Puxa, então ela realmente precisa de você. Posso ajudar de alguma forma?

GORAM – Se você ver Heloísa em algum canto do tasyo, você pode me avisar? Vou continuar procurando amo fora!

RITA – Tudo bem.

Ela o beija no pescoço. Ele estremece.

GORAM – Até qualquer ára desses.

Ele a olhou apaixonado. Ela retribuiu.

RITA – Até.

Ele sai, sozinha, ela sorri bobamente.

CORTAR PARA:

CENA 15/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Entardece com crianças jogando bolas nas ruas no Campo Limpo…

CENA 16/SÃO PAULO/VILA MADALENA/CLINICA DE PSICOLOGIA/INTERIOR/CONSULTÓRIO DE LEOPOLDINA/TARDE

Leopoldina fecha a porta.

LEOPOLDINA – Seja muito bem-vinda, Suzy, em que eu posso te ajudar?

Suzy a contemplou em silêncio. Nada disse.

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/QUADRA DE BASQUETE/TARDE

Fabiana erra o arremesso e se sente mal, perde a bola fácil nos passes e seu time acaba perdendo. As meninas que geralmente vibram com ela, a deixa sozinha. Ela senta num banco cabisbaixa. Eliane contempla a cena com êxtase. Viviane tem compaixão, se aproxima.

VIVIANE – Tá tudo bem?

Fabiana estava com os olhos marejados.

FABIANA – Não muito.

VIVIANE – Quer conversar sobre?

FABIANA – Acho que não.

VIVIANE – Posso te dar um abraço?

Fabiana sorriu e Viviane a abraçou. Eliane se surpreendeu com o gesto de sua amiga. Ficou possessa.

CORTE DESCONTINUO.

As meninas saiam da quadra, Fabiana já estava bem longe, quando Viviane passou por Eliane.

ELIANE – Que grande amiga você é, hein?

VIVIANE – Do que você está falando?

ELIANE – Como é que você abraça a minha rival?

Viviane ficou sem ter o que dizer.

ELIANE – Você sabe muito bem que eu não gosto dela, sabe que meu homem fica de quatro por aquela macaca e você vai lá e a abraça?

VIVIANE – Desculpe amiga, eu nem imaginava que você fosse…

ELIANE – Como não imaginava? Fiquei muito magoada com você. Amiga da onça!

E saiu, deixando Viviane sem a chance de se explicar.

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ACADEMIA DOS ESTUDANTES/INTERIOR/TARDE

André termina uma série de exercícios com uma certa dificuldade, não aguentava puxar muito peso.

ANDRÉ(V.O) – Tenho que me esforçar, preciso ficar com o corpo perfeito, logo!

Ele vai para o supino e resolve colocar mais peso do que consegue puxar na barra. Ele deita na prancha e tira dos ganchos, quando vai descer a barra, não aguenta o peso e quebra costelas.

ANDRÉ – AAAAA!

Ele tenta virar o corpo, a barra cai para fora do supino. Ele urra de dor. O professor e outras pessoas param para ver. Ele não para de gritar.

Plano americano. Fade out.

CENA 19/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/TARDE

Toca a campainha. Ninguém atende. A campainha é pressionada novamente. Adelaide sai do corredor à esquerda e se encaminha para a porta da sala.

ADELAIDE – Já vai!

Ela abre e sorri.

ADELAIDE – Araponga, você por aqui?

Instrumental de mistério. Araponga sorri e mostra uma sacola azul.

ARAPONGA – Araponga passou no shopping, trouxe bombons para tu.

A anfitriã aumenta o sorriso.

CENA 20/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/EXTERNO/HORTA ORGÂNICA/TARDE

Heloísa está sentada num canto mais escuro e molhado da parte coberta da horta, chorando em vagido.

FLASHBACK RÁPIDO: Ela se lembra da prova de Anatomia e do momento que ela errou o lugar e derrubou a prancheta, ouviu os risinhos no canto e a grosseria do professor.

VERGONHA.

HELOÍSA– Como que eu vou me tornar uma grande médica assim?

GEORGE – Tornando.

Ela leva um susto.

GEORGE – Desculpe, não quis te assustar, eu tava cortando caminho por aqui, para sair na entrada lateral da universidade mais próxima do cursinho popular.

HELOÍSA – Tudo bem.

GEORGE – Você não me parece bem.

HELOÍSA – Acho que fui mal na prova de anatomia, embora eu tenha estudado muito.

GEORGE – Prova do Rogério, né?

HELOÍSA – Sim.

GEORGE – Sempre são mais difíceis mesmo. Mas se você fez sua parte e não conseguiu ir bem, não foi sua culpa, aconteceu, os momentos de prova são muito tensos, não deveríamos ter isso como método de avaliação, os alunos deveriam ser avaliados ao longo do semestre, com trabalhos e outros atividades também, aos poucos, tem professor que já avalia assim, mas a maioria fica com essa tradição superficial e numérica, quantidade, produtividade, capital.

Ela sorriu para ele.

GEORGE – Não quer comigo conhecer o cursinho? Talvez se sinta melhor.

Ela se levantou limpando a roupa.

HELOÍSA – É…pode ser que seja interessante.

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CURSINHO POPULAR OLGA BENÁRIO/INTERIOR/SALA DE AULA

Heloísa observa a tintura na parede da escola pública, recorda-se dos tempos nostálgicos da adolescência.

GEORGE – Desculpem o atraso, pessoal, vamos começar nossa aula de história do Brasil. E ai gente, vocês sabem quem foi Zumbi dos Palmares?

Heloísa notou que a maioria dos estudantes eram bem mais velho que eles, humildes, mães ou pais de família, de pele preta e que davam tudo para aprenderem.

JACÍRA – Foi o líder do Quilombo dos Palmares depois que Ganga-Zumba saiu.

GEORGE – Perfeito Jacira. Isso mesmo! E como está na sua casa, tudo bem com Lumena e Karol?

JACÍRA – Elas são arteiras que só, precisam ver o trabalho que dão, Lumena é um pouco menos, mas apronta muito também, Karol nem falo, elas fizeram bullying com outro coleguinha negro como elas, acredita. Falei para elas, isso é racismo, parem já com isso.

George ri.

GEORGE – Tá certa, a luta antirracista deve começar cedo.

DAMIÃO – Professor?

GEORGE – Pois não?

Era um rapaz com dezoito anos.

DAMIÃO – Já que o assunto da aula de hoje é sobre resistências negras, sempre me questiono se fizermos do jeito certo, porque quando leio, vejo muito pouco local de resistência, parece que ficamos meio inertes vendo tudo acontecer.

GEORGE – Engano seu, houve muitos movimentos, é que Palmares é mais famoso, mas os negros não aceitavam serem tratados como escravos, havia revolta, assassinato de senhor de engenho, rebelião e isso que precisa ficar claro para vocês quando lá na frente vermos a abolição da escravidão, não foi porque Princesa Isabel assinou uma carta, foi porque foi insustentável para uma série de acontecimentos que estavam acontecendo e principalmente porque foi conquistada com o sangue dos nossos antepassados.

DAMIÃO – Teve muita luta, então?

GEORGE – Muita. Nossa história não foi bonitinha como os livros de histórias tentam trazer, teve muito sangue para as coisas mudaram e melhorarem um pouco.

CORALINA – Bota pouco nisso. Eu não me conformo com o perfil dos nossos presidiários, mais de 64% são negros e cometeram crimes leves, muitas vezes, para não passar fome ou foram injustiçados e aguardam julgamento há anos.

GEORGE – Muito interessante o ponto que você trouxe, as prisões possuem cor e aí podemos fazer um paralelo de hoje com a época do nosso estudo de hoje. Jagunços eram homens que capturavam os escravos fugitivos, será que os jagunços de hoje não são os policiais que assassinam diariamente com a violência militar muitas comunidades periféricas negras?

DAMIÃO – Na minha favela mesmo, meu pai, uma vez, quase levou bala só porque voltava do trabalho e tavam procurando o chefe do tráfico. Queriam matar meu pai!

CORALINA – É o genocídio negro! Querem nos exterminar!

GEORGE – Será que o embranquecimento da população ainda persiste hoje na mentalidade das nossas policias? A quem serve? A elite! A desigualdade, meus queridos, tem cor!

Heloísa assistiu tudo com muita atenção, era empolgante o jeito revolucionário de George.

CENA 22/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/COZINHA/TARDE

Adelaide percebe ao abrir o armário que não há pão no armário.

ADELAIDE – Nossa, acabou o pó, acabou o pão. Vou na padaria para passar um café para gente.

ARAPONGA – Araponga não pota incomodar.

ADELAIDE – Imagina, incomoda nada não. Você me acompanha?

ARAPONGA – Estou muito kañeo, tia, se a senhora não se importar, vou ficar por ápe.

ADELAIDE – Claro que não. Não demoro.

Ela pega a bolsa no quarto e instante depois sai.

CORREDOR

Instrumental de suspense. Araponga corre para os quartos, verificando qual é de Goram, até que ela vê o ursinho caolho sobre a cama.

ARAPONGA – É aqui!

QUARTO DE GORAM

Ela fecha a porta e começa a procurar nos armários por alguma pista sobre o passado do jovem.

CENA 23/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/INTERIOR/INFORMÁTICA/TARDE

Um temporal avança pelos céus, por trás daquela janela do último andar, Goram não o percebe, estava terminando de passar para nuvem o vídeo do assassinato de Pamela.

GORAM – Égua! Pronto, dez contas de e-mail distintas. Espalhados e seguros! Agora tekoteve fazer umas cópias físicas e deixar com algumas tekoves de confiança.

Ele manda mensagem para Heloísa, mas ela não responde. PREOCUPAÇAO. Abre a mochila e retira três pen-drives.

Instrumental explosivo. Close na face de Goram determinado.

CENA 24/SÃO PAULO/CENTRO/BORDEL BOVARY/INTERIOR/SAGUÃO PRINCIPAL/TARDE

Bovary recebe Carol.

BOVARY – Você deve ser a nova diarista, bom, não tenho o costume de fazer entrevista de emprego, porque é muito chato, mas seu trabalho também aqui é pouco, a casa é grande, as meninas que moram comigo, ajudam a limpar, a manter organizada boa parte, só algumas suítes lá em cima, o meu quarto, além do jardim que contrato um serviço a parte. Vou observar o seu trabalho hoje e seu eu gostar está contratada.

CACAU – Eu agradeço, senhora.

Larissa e Tiffany se aproximam meio agitadas.

LARISSA – Bovary! A Giovanna sumiu!

TIFFANY – Procuramos ela na casa toda e não achamos.

BOVARY – Sumiu não, bonecas, foi ganhar a vida.

E soltou uma risadinha irônica, deixando-as boquiabertas.

Elas foram atrás.

SALA DE JANTAR

LARISSA – Ganhar a vida, ela foi fazer programa, apenas com 12 anos?

BOVARY – Foi, por quê? Algum problema nisso, eu comecei a rodar bolsinha com 10 porque minha mãe não tinha o que botar no prato.

LARISSA – Ah e por isso todo mundo tem que ter a mesma experiência que sua, sua miserável?

BOVARY – Olha o jeito que você fala comigo, sua ramera. Que sai do meu bolso a água quente do seu banho, o prato que você come todos os dias, o colchão macio que você dorme.

LARISSA – Com meu esforço, você quer dizer, né?

BOVARY – Tá falando igualzinho a Marcela, que foi? Passou uma temporada lá com ela no apartamento xexelento daquele velho que ela arrumou. Perdeu o juízo?

LARISSA – O que eu não perdi foi caráter, sua velha miserável! Mas esse mundo tá perdido mesmo, justamente por pessoas como a senhora! TRAZ A GIOVANA AGORA! ELA É UMA CRIANÇA!

E vai para cima da cafetina.

TIFFANY – Se acalma, amiga!

BOVARY – Vai bater em mim, vadiazinha? Mas não vai mesmo.

Ela pega o celular e manda uma mensagem. Os seguranças chegam.

BOVARY – Levem essas putas para longe daqui! Tranquem ela no quarto delas.

Eles a arrastam, elas tentam se desvencilhar.

LARISSA – Me largue!

BOVARY – Ah, vai para puta que te pariu, meu bem! Você que experimente me agredir, além de te denunciar, deixo você passando fome brava!

Carol assistia a cena atônita. Bovary se aproxima.

BOVARY – Liga não, isso tudo é fogo de saia! Bom, deixa eu te mostrar lá em cima.

E começa a subir a escada, Carol a segue cabreira.

CENA 25/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO OLÍMPIUS/SALA DE TOMOGRAGIA 1/TARDE

Eulália está dentro do tomógrafo. Rita conversa com neurorradiologista.

Instrumental de drama médico começa a tocar.

RADIOLOGISTA – Como podemos perceber, há uma atrofia considerável do Putâmen, o que pode explicar os sintomas parkinsonianos. Atrofia hipocampal. Hipometabolismo córtico-occipital. Córtex parietal e temporal repleto de acúmulo de alfa sunicleína.

RITA – Eureca! Eu estava certa!

CORTE DESCONTINUO

CONSULTÓRIO DOUTORA RITA

BOINA – E então, Ritinha, o que ela possui?

RITA – É uma demência, como eu pensei, ela vai precisar de ajuda e é muito importante que ela faça exercícios físicos regulares, exercícios cerebrais, durma bem, se alimente bem e toma os medicamentos corretamente quando eu passar.

REMO – É Alzheimer, Doutora?

Ele estava preocupado.

RITA – Infelizmente não e eu digo isso, porque a sobrevida dela diminui muito se não intervirmos imediamente. Ela tem Doença dos Corpúsculos de Lewy, uma proteína acumula de forma anormal no cérebro e algumas áreas sofrem atrofia concomitanmente, as funções cerebrais dela fica prejudicada, o que explica os delírios, o esquecimento, alteração da marcha e até a incontinência urinária.

Boina e Remo se abraçam dando apoio um ao outro. Rita observa tudo com zelo.

CENA 26/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/FIM DE TARDE

Themise recebe mensagem de Vitor em seu smartphone, mas não responde.

Um trovão a assusta, ela olha para fora e percebe que vai começar a chover, fecha as janelas.

A porta da sala abre, Goram chega.

GORAM – Égua Nossa! Quase peguei ama no caminho. Tá vindo um toró por aí. Ápe, tome esse pen-drive.

THEMISE – O que tem aqui?

GORAM – Aquele vídeo! Preciso que tu seja uma das guardiãs para mim.

Ela recebe meio assustada e guarda no bolso.

THEMISE – Não quero nem falar disso.

Vemos que a face de Araponga aparece no corredor ao fundo.

Goram senta no sofá.

GORAM – Tô preocupado com Heloísa, porã tava toda nervosa na prova, derrubou a prancheta, o mbo’ehara de anatomia foi um kabaju com ela, saiu assustada no final da prova, não me responde. Tô mal.

THEMISE – Nossa, coitada. Espero que fique tudo bem com ela. E a Doutora Rita, tem visto ela?

GORAM – Essa é outra questão que Goram precisa enfrentar. A gente ficou hoje no consultório, Meire, uma temimbo’e dela pegou.

Themise se sente mal com aquela descrição.

THEMISE – E ai?

GORAM – Disse que não vai ñe’e nada, mas não me sinto bem com essa situação, o problema é que não tenho jahe’y para olhar para isso, enquanto tem a minha história para lidar.

THEMISE – Você não acha que é perigoso se envolver com seu irmão? Com Bernardo?

Araponga se aproxima mais para ouvir melhor. Laurinha sai de seu quarto e percebe que Araponga está ouvindo uma conversa.

GORAM – Eu não tenho kyhyje deles! Eles precisam pagar caro pelo que fizeram a meus rus no passado, eu só vou sossegar quando puser aqueles dois atrás das grades, mas antes jejukas precisam sofrer heta na minha mão. Agora tem que ele cúmplice : o meu tio avô e os capangas assassinos que japete meus pais. Goram precisa, Themise, recuperar sua identidade, retirar a herança de meus pais e mudar o rumo dessa tembiasakue.

INSTRUMENTAL CATASTRÓFICO. Big-close-up na face de Araponga que põe a mão na boca. Seus olhos estavam bem abertos. Laurinha saiu gritando.

LAURINHA – Ela tá ouvindo! Ela tá ouvindo a conversa de vocês!

Araponga se assustou. Goram se inclinou no sofá preocupado. Themise se levantou.

Araponga agora estava no meio da sala. Goram trocou olhares desesperados com Themise. Congela na face encurralada da amante de Bernardo.

CONGELA

FADE OUT

CONTINUA…

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NAVEGAR

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