Estação medicina

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Capítulo 10

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 10 – TRÁGICA LEMBRANÇA

 

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/JABAQUARA/FAVELA BABILÔNIA/INT. GALPÃO ABANDONADO/NOITE

Bernardo ri.

BERNARDO – Retirem essa venda da boca dela!

Um dos segurança do hospital Orlando Moça, chamado Caíque retira com força. Ela grita.

BERNARDO – Agora você pode falar, sua baleia velha.

ÂNGELA – Eu quero voltar para casa, eu quero ver, minha filha, seu animal.

BERNARDO – Ué? Ver a sua filha? Mas você não telefonou a ela e disse que estava com Leda, sua amiga, vendendo roupas em Campos do Jordão?

Ele ri. Ângela grita, batendo as pernas.

ÂNGELA – POR QUE EU ESTAVA COM UMA ARMA NA CARA, SEU DESGRAÇADO!

Bernardo põe a mão nos ouvidos.

BERNARDO – Esmurrem essa nojenta para ver se ela aprende a conversar direito.

Reinaldo agride ela com um soco na cara. Ela sofre um pouco.

ÂNGELA – Covarde! Batendo em uma idosa!

BERNARDO – Para de choramingar. Escuta aqui, isso aqui é para você entender uma coisa, comigo não se brinca, você foi até a mansão me ameaçar, dizendo que iria me entregar para o meu marido, botar a boca no trombone. Você não vai fazer isso, você tá ouvindo?

ÂNGELA– POIS QUANDO EU SAIR AQUI, SAIBA, A PRIMEIRA COISA QUE EU VOU FAZER É…

Instrumental explosivo. Bernardo retira do casaco um revólver e aponta para ela.

BERNARDO – Termina essa frase, só para você ver o que eu faço com seus miolos, termina…

Ângela estremece.

EXTERIOR DO GALPÃO

Goram se recorda de ter trazido seu celular e tenta ligar.

GORAM – Égua, é hora de uma foto disso tudo, Tupã!

Ele tenta ligar o celular para fotografar, mas não consegue.

GORAM – Anichéne que a bateria desse celular pifou logo agora, que merda. Como vou usar isso a meu favor agora?

INTERIOR DO GALPÃO

Reinaldo veda novamente a boca de Ângela.

BERNARDO – Melhor você ficar assim, calada. Dá menos trabalho! Foi bom você saber que eu estou por trás disso, achou mesmo que ontem quando eu te deixei no ponto de táxi, não estava tudo esquematizado? Eu sabia que naquele ponto demorava para sugir uma única alma viva de motorista, foi só questão de poucos minutos para tudo ficar resolvido. Aquele segurança da mansão, o Élder, é um velho parceiro meu, resolveu tudo quando encaminhávamos para o banco…Aliás, não preciso dizer que…

Ele pega uma bolsa que estava no chão.

BERNARDO – Essa ninharia que eu te dei para você voltar para casa, pertence-me de novo.  Agora, boa noite para você, creio que essa noite seja menos traumática do que a anterior, já deve ter acostumado com a nossa hospedagem, morcegos e ratazanas te farão companhia. Até amanhã.

E some na escuridão.

EXTERIOR

Goram fica em silêncio, escorado na ponta da casa, observando ele abrir a porta da frente e sair com o carro. Assim que ele vai embora, o mocinho fica observando o interior do barraco, mas não percebe nenhuma movimentação estranha até que ele esbarra em uma garrafinha de vidro que rola para frente da casa, fazendo muito barulho ao se quebrar. Instrumental de ação é ligado.

GORAM – Droga!

Ele então olha para a janela e vê que Caíque o encara lá de dentro.

CAÍQUE – Tem um espião! REINALDO, DEPRESSA, VAMOS LÁ PARA FORA.

As luzes da frente são acesas. Goram passa pela câmera e por pouco não é filmado, olha para rua deserta. Respira fundo e desata a correr. Segundos depois, Caíque e Reinaldo começam a correr atrás dele com lanternas e um pastor alemão.

Eles passam por uma casa abandonada e por poucos centímetros, Goram não é pego. Assim que eles vão embora, ele solta um gemido aliviado.

GORAM(V.O) – Égua Nossa! Agaite encontrar alguém que me guie por aqui…

E sai do esconderijo numa direção oposta.

CORTAR PARA:

CENA 02/SÃO PAULO/PRAÇA DA SÉ/INT. IGREJA MATRIZ/NOITE

Fabiana mexe no celular.

FABIANA – Meu plano acabou, estou sem sinal.

GUTO – E o meu ficou no carro.

FABIANA – Pelo menos parou de chover, mas o que adianta, se estamos trancados.

Ela deixa se deslizar pela porta da igreja. ENTEDIADA.

Guto acompanha e se senta ao lado dela.

GUTO – Talvez teremos que passar a noite por aqui, gatinha.

FABIANA – Sim…infelizmente talvez sim.

GUTO – Mas vem cá, você falou da sua mãe, mas e seu pai?

FABIANA – Meu pai faleceu quando eu era bebê de colo. Minha mãe diz que morreu num acidente de carro.

GUTO – Puxa vida, eu sinto muito em ter tocado neste assunto.

FABIANA – Tá tudo bem…não tinha como você saber.

GUTO –  E os namorados?

FABIANA (riu) – O que que tem eles?

GUTO – Teve quantos?

FABIANA – Para que quer saber disso?

GUTO – Sou curioso.

FABIANA – Stalker, você quer dizer. Tive 2.

GUTO – Duraram muito tempo?

Fabiana riu alto.

FABIANA – Um deles, que foi o primeiro, durou um ano e dez meses e o outro apenas 4 meses.

GUTO – Caraca, como puderam deixar uma mina chamorsinha como você?

Fabiana balançou a cabeça achando graça.

FABIANA – Agradeço o elogio, mas isso é pouco para me definir.

Ele riu.

GUTO – Cheia de si!

FABIANA – Emponderada apenas, meu querido. Tanto que fui que terminei com eles.

GUTO – Marvada. Deixaram os trutas chupando dedo?

FABIANA – Ah, relacionamento abusivo não dá mais para mim, já sofri muito. Com o primeiro foi por conta disso, o segundo, a mãe se intrometia muito, não ia com a minha cara, ele defendia ela quando ela tava errada, não tínhamos privacidade.

GUTO – Nossa, que ruim, velho. Sei bem como é isso.

FABIANA – Agora é minha vez…E como foram os seus?

GUTO – Ah…namorar sério, nunca namorei.

FABIANA – Não acredito! Um garoto super..

Ela hesita um instante. Ele se acha.

GUTO – Super?

FABIANA – Super…popular como você, nunca ter namorado, é de surpreender.

GUTO – Você ia dizer outra coisa, né?

Fabiana disfarça.

FABIANA – Não…era isso mesmo.

GUTO – Sei.

FABIANA (sem graça) – É verdade.

GUTO – Nunca fui de namorar, sempre achei isso muito sem graça, gosto de liberdade, de curtir a vida, fiquei com muitas garotas, mas nunca me descuidei ou perdi a cabeça por nenhuma delas…talvez só agora que eu esteja…

FABIANA – Esteja o quê?

GUTO – Perdendo a cabeça por uma delas…

Música tema do casal começa a tocar : Esquecimento de Skank. Ele a comeu pelos olhos, ela se levantou e mexeu no celular.

FABIANA – Acho que o sinal voltou.

Guto se aproximou por trás com uma voz galanteadora.

GUTO – Jura? Não tô vendo nenhum sinal que…

Ele se assustou e ao se virar, caiu em seus braços. Fabiana tentou se desvencilhar.

FABIANA – Acho melhor…

Ele não a esperou terminar de falar. Beijou-a forte. Ela tentou evitar, mas foi ganhada pelos beijos, chamegos na nuca, cedeu, apoiando em seu ombro, ele a deitou no chão delicadamente e os dois sobre o luar se entregaram um para o outro romanticamente.

CENA 03/SÃO PAULO/JABACUARA/ FAVELA BABILÔNIA/BAR DE ESQUINA/NOITE

GORAM – Grásia, senhor.

Ele bate um copo de cerveja no balcão cumprimentando o dono do bar e joga uma nota de cinco para ele. Um uber chega e ele entra.

CENA 04/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/ÁREA DE SERVIÇO/NOITE

Themise termina de regar as margaridas de sua mãe, quando percebe que uma delas morreu.

THEMISE – Nossa…O que aconteceu com você?

Ela acaricia a flor de olhos fechados e de alguma forma consegue sentir seu sofrimento. Emociona-se e se lembra :

FLASHBACK RÁPIDO: Goram chegando com Rita puxando a mala. Ela flagrando Goram beijando Heloísa no Bar do Esteto. Depois quando ele desabafou com ela tudo que aconteceu no seu passado e ela o vendo vulnerável perto de si e se sentindo especial. Quando flagrou aquele beijo no hospital entre Goram e Heloísa. Quando ele questionou o que ela sentia por ele antes de Vitor chorar.

Themise se senta no chão a luz do luar, ao lado do tanque e abafa seu choro.

THEMISE – Acho que realmente, eu estou gostando dele. Como vou fazer para esquecê-lo, se encontro com ele todo dia aqui em casa. Envolver-me com Vitor parece que não está adiantando muito.

Laurinha aparece na porta da varanda comendo uma maçã.

LAURINHA – Não acredito que você vai ficar aí chorando.

Themise leva um susto.

THEMISE – Ai maninha, quase me matou de susto. Deixa-me em paz, não estou bem.

LAURINHA – Que você não está bem, isso é nítido. Só me questiono se compensa você ficar desse jeito pelo Goram.

THEMISE – Eu já disse que eu não quero falar sobre isso.

LAURINHA – Vou te deixar em paz, você está no seu direito de sofrer. Mas quero que reflita se vale a pena você chorar por um cara que não gosta de você.

Themise se levanta irritada.

THEMISE – Para de me lembrar sobre isso! Por que você não pode ser uma irmã normal e se comportar como uma garota de dez anos?

LAURINHA – Quem sabe como eu devo ou não devo me comportar, isso é por minha conta. Ser normal? O que é ser normal? Isso é tão vago para mim. E não adianta você transferir sua dor para me atingir, nós duas sabemos que está mal desse jeito por uma paixonite não correspondida.

Themise bate o pé e se tranca em seu quarto. Laurinha balança a cabeça com um tom de superioridade.

LAURINHA – Nessas horas eu só penso como as pessoas perdem tempo sofrendo por um amor consumista que é uma construção burguesa. Mas agora, vejamos se temos leite de soja na geladeira, se não terei que pedir a papai para comprar.

CORTAR PARA:

CENA 05/SÃO PAULO/PRAÇA DA SÉ/ INT. IGREJA MATRIZ/ NOITE

Fabiana se desvencilha do beijo de Guto se levantando.

FABIANA – Nós não deveríamos ter feito isso!

GUTO – Por quê?

FABIANA – Como por quê? A gente mal se conhece.

GUTO – Mas nos gostamos à beça.

E Puxa de novo entre seus braços. Ela tenta evitar, mas não aguenta, entrega-se a seu beijo.

A Igreja abre nesse instante, uma freira e um padre acendem a luz, ele se afastam.

FREIRA – Mas o que está acontecendo aqui? A Casa do senhor virou um motel para vocês se pegarem desse jeito?

FABIANA E GUTO FALAM ATRAPALHADAMENTE – Nós estávamos presos na igreja, o temporal tava de matar lá fora e…

PADRE – Chega! Desse jeito não dá para entender nada, fale um de cada vez, você, senhorita, poderia nos explicar?

FABIANA – Eu peço mil desculpas pelo beijo, eu nem queria beijar esse…infeliz. Acontece que ficamos presos aqui dentro por conta do temporal.

GUTO – A porta bateu e nos prendeu, estamos a horas tentando pedir para alguém, chamar por socorro

FABIANA – Estava tentando usar meu celular, mas fiquei sem sinal.

GUTO –  E eu deixei meu celular no carro.

Padre troca olhares com a Freira.

FREIRA – Bom, padre, narrada essa história. O que o senhor acha?

PADRE – De fato, a igreja estava bem fechada pelo lado de fora.

O casal olhou-se entre si, apreensivos.

PADRE – Acho que nos resta ajudar. Precisam de dinheiro para ir embora?

FABIANA – Não, não. Eu tenho aqui, muito obrigada.

E cumprimentando-os, saiu. Guto fez a mesma atitude.

EXTERIOR IGREJA – PONTO DE ÔNIBUS

Fabiana correu para o ponto de ônibus, Guto foi a trás.

GUTO – Eu te dou uma carona, vamos, está tarde para você ficar aqui.

FABIANA – Não comece com essa história de novo e esquece o que aconteceu lá dentro.

GUTO – Esquece por quê? Foi tão bom, eu gosto tanto de você, gatinha.

FABIANA – Pois eu não gosto de você!

GUTO – Claro que gosta, eu vi lá dentro o quanto você me quer.

FABIANA (dá sinal para o ônibus) – Para com essa história!  A gente não se conhece, estamos cursando medicina, ralamos muito para entrar, temos que dar valor ao nosso esforço e a tudo que as pessoas próximas de nós fizeram para chegarmos até lá. Não dá para se envolver, eu não quero.

Começa a tocar Esquecimento de Skank. E entrou no ônibus. Ele abaixou a cabeça, o ônibus partiu. Ele sentou-se num banco molhado, estava mal, mas ao se lembrar do beijo, sorriu de felicidade.

CORTAR PARA:

DENTRO DO ÔNIBUS

Fabiana já sentado ao lado de um janela, olhando para fora com um sorriso no rosto.

CENA 06/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS/MANHÃ

Imagens aéreas da cidade de São Paulo : Ponte Estaiada. Ceagesp. 25 de Março com seu comércio popular. Zoológico mostrando Girafas comendo folhas as mais altas árvores. Macacos brincando nos galhos e onças-pintadas rugindo para as famílias que ali passavam, indicando que o dia amanheceu. 

CENA 07/SÃO PAULO/JARDIM AMÉRICA/INT.MANSÃO DOS MOÇA/SALA DE JANTAR

 

Mateus terminava de tomar café da manhã, lendo seu jornal, quando Bernardo aparece para fazer seu desjejum também e leva um susto ao ver que a Cecília estava em seu lugar. Instrumental explosivo.

BERNARDO – Mas o que essa cobra está fazendo aí no meu lugar?

MATEUS – Você demorou tanto para descer e ela estava com fome, apenas ocupei o seu lugar, por ele estar mais próximo de mim e seria mais fácil alimentá-la assim, né, Cecilinha do pai?

O celular de Mateus toca. Ele atende.

MATEUS – Ótimo. Alow? Como você está? Sabia que você iria ligar, há tempos venho querendo propor uma parceria relacionada ao Campus Universitário. Estou com certos probleminhas, acho que você me entende, empresas fantasmas e preciso torna-las reais, acho que sua corporação farmacêutica é uma excelente candidata ao cargo. (Ele gargalha). Que bom, que você me entende.

Bernardo o observa comendo torrada e olha cabreiro para a naja no banco ao lado dele. Big close-up na cobra balançando a linguinha.

CENA 08/SÃO PAULO/VILA MADALENA/INT. APARTAMENTO DE ADELAIDE/MANHÃ

Goram terminava uma videoconferência com sua mãe.

GORAM – Hai’sy, eu tenho tanta saudades de você, do papai. Até mesmo do Teça. Je’e para Raissa que não me esqueci dela. Vou ver com tia Adelaide se consigo jogua parcelado o patins no cartão dela e quando voltar aí levo para Raissa.

IRACEMA – Que isso, cheraa. Até parece. Deixa seus tios fora disso, se estão fazendo muito de te abrigar em São Paulo, te ajudar com alimentação, tudo bem que a mãe manda dinheiro, mas eles ñopytyvõ também. O Patins da Raissa a gente vê depois. Ela até mudou de interesse agora, a mania da vez é um brinquedo da Fênix Negra, aquele filme da Marvel lançado ano passado.

GORAM – Sei, sei. Fez um baita sucesso, como sempre. As crianças são tão desapegadas, às vezes, Hechakuaa, que falta isso, nos relacionamentos atuais

IRACEMA – Acho que tu pensou na Yara? Acertei?

GORAM – Sim, ela tem me mandado marandu em todas as redes sociais, no começo eu até respondia, mas atualmente ñeñandu uma vontade enorme de me afastar, preciso deste espaço.

IRACEMA – Ela tem sofrido bastante, já apareceu algumas ka’aru aqui, dizendo que sentia falta de mim e do seu pai, mas nós sabemos que a maior falta ela sente de você.

GORAM – Eu sei… mombe’u que às vezes penso nela, mas é raro. Sinto um enorme carinho, mas só isso… Eu conheci outra mitãkuña.

CORREDOR

Temise que passava no corredor, carregando roupas de seu pai e sua irmã que havia passado, para um instante ao escutar isso atrás da porta.

QUARTO DE GORAM

IRACEMA – Uma curuminha, meu filho? Mas já?

GORAM – Hee. O Nome dela é Heloísa. Uma nerdzinha mineira tão doce, cheias de sardinhas na bochecha, óculos maiores proporcionalmente para o tova dela, ingênua. Iporã. Olho para o jeito dela e me identifico tanto, você sabe que acabo por ser atrapalhado.

IRACEMA – Como Iracema sabe…(risos). Quando você foi para o cursinho com a camiseta do avesso, não percebeu. Ou quando tava louco da vida, porque achou que tínhamos pego um caderno seu por engano e colocado em outro lugar na hora da faxina e depois você jekuaauka que havia esquecido no carro de um amigo.

GORAM – Nem me mandu’a disso(corado). Foram situações extremas. Mas é isso, mãe, preciso correr aqui, tô ñemboare para tomar café.

Neste instante, Raoni, pai de Goram, entra na videochamada.

RAONI – Zé ruela braba. Tá perdendo, hein Corintiano?

Goram ri.

GORAM – Égua, Peve parece que isso é por muito tempo. Palmeiras não tem muita história, é só uma onda de jarareka.

RAONI – Sorte? O que esse piá está dizendo? Não temos história?

IRACEMA – Ele precisa ir, johayhu.

GORAM – Sim. Ñarymba que você entrou só agora,pai!

RAONI – Ah, mas outras oportunidades não irão faltar. Saudades desse garoto aqui jogando Country Strike comigo.

GORAM (ri) – E Mortal Kombati. É isso, gente, amo vocês, grásia por tudo. Viver esse hecha kepe, só é possível, por conta de todo jatyko emocional e financeiro que me deram.

Ele se despede e fecha o notebook. Vê seu ursinho na ponta da cama e o abraça forte. Percebe a sombra de alguém na porta. Vira-se.

GORAM – Themise, tu estava aí?

THEMISE (meio sem jeito) – Estava levando a roupa que passei para o quarto de meus pais.

GORAM – Javy’a precisamos conversar.

THEMISE – Eu não quero falar sobre isso.

E vai para o quarto dos pais. Goram vai atrás.

QUARTO DE ADELAIDE

GORAM – Eu sei que Themise sente por mim, eu vi, naquele aje’i no hospital.

THEMISE – Você tá vendo coisa, eu só levei o ursinho e bombom para você.

GORAM – E jehe’a quando me viu beijando a Heloísa.

THEMISE – Eu estava com pressa.

Goram bate à porta do guarda-roupa, impedindo que ela continue guardando.

GORAM – Eu quero que neko’e saiba, que eu respeito muito esse seu sentimento e eu sinto muito de não poder te retribuir, você é uma arapoty muito especial.

THEMISE – Para de me falar essa coisas, eu já disse, você está vendo coisa. Vamos mudar de assunto? Como anda, a vingança contra o monstro do seu irmão?

Goram consentiu a vontade dela.

GORAM – Goram depois que passou na Olímpiada, tornei garoto propaganda da Olímpius, acho que isso você sabe, mas não achei que fosse conhecer alguns investidores tão akuã

THEMISE – Você conheceu?

GORAM – Sim, fui num jantar na mansão esses umi dias atrás.

THEMISE – É verdade, eu vi que você pôs uma calça social para lavar.

GORAM – Sim. Mas eu descobri uma grande marandu neste jantar.

THEMISE – Algo sobre seu irmão?

GORAM – Égua não! Ele não é meu irmão, Themise. Eu recuso a chamar uma criatura daquela jejuka como irmão.  Aivy fez o que ele fez, destruindo uma família inteira por ganância, não pode nem sequer ser chamado de ser humano. Não foi sobre ele, mas sobre Bernardo.

THEMISE – O Cúmplice dele?

GORAM – Sim. Tu não sabe da mais nova hipocrisia desse relacionamento para lá de doente. Bernardo o traiu com uma empregada ao que tudo indica eu cheguei a conhece-la quando entrei na mansão pela primeira vez, depois que voltei, eu presenciei a demissão dela, foi tão repugnante a forma como sy era tratada por ele. Mas eu notei que ela estava aparentemente grávida e isso foi confirmado no jantar. Adivinha por quem? Pela há’i sy dela no jardim da mansão! Ela tava chantageando ele, dizendo que se ele não desse uma grana para ela e assumisse a paternidade, arcando com as responsabilidades de pai, armaria o maior guarani e contaria a Matheus tudo.

Themise põe a mão na boca.

THEMISE – Meu Deus, que história! Parece coisa de novela.

GORAM – E não é?

THEMISE – Então aquele monstro tem um cúmplice que não é nada confiável.

GORAM – Sim e é por aí que Goram se cria. Além disso, para dar um susto na sogrinha dele, ele a sequestrou.

THEMISE (incrédula) – O QUÊ? COMO ASSIM?

GORAM – Égua de largura, Tá sequestrada. Eu descobri que ele tem um cúmplice que é um segurança lá da universidade, foi por sem querer hendu esse segurança no celular que acabei descobrindo essa bomba, segui e tive acesso ao cativeiro, é um barraco lá no Jabaquara. Quase me pegaram hoje, quebrei uma garrafa, sem querer, que estava por lá, nunca corri tanto na minha vida.

THEMISE – Por tupã, Goram!!! Isso está ficando mais perigoso do que eu pensava. Não sei mais se compensa você continuar com seus planos.

GORAM – Égua nossa! Você ficou maluca? O fato deu ter vindo para cá, foi haguã por isso. A Medicina não é o mais importante para mim enquanto essa chara não tiver um fim. Eles e os executadores do meus pais vão ter que pagar caro. ESSE ASSASSINATO NÃO PODE FICAR IMPUNE, NÃO PODE!

E esmurra o guarda-roupa de raiva.

THEMISE – Às vezes eu me preocupo com esse sentimento que você tem guardado há tanto tempo dentro de si.

GORAM – Não se jepy’angata, a fera aqui só vai mostrar as caras para eles, na hora certa.

Ele se senta na beirada da cama do casal.

GORAM – Mas eu não sei o que vou fazer com essa informação, um lado de Goram diz para entregar para a polícia quando Bernardo estiver lá e ver aquele animal de uma vez por todas atrás das grades, onde sempre deveria estar, mas Mateus não ñetenta nenhuma consequência com isso e o pior pagaria para soltá-lo. Tenho receio de dar com burros n’agua porque eles podem ter mudado de apy(lugar) depois que acabaram por me ver.

THEMISE – Sim. Isso se não tiverem te caçando. Você acha que Mesmo diante a descoberta da traição, Mateus soltaria Bernardo?

GORAM – Eu prefiro não arriscar. Mesmo que os dois se separassem por conta da revelação, Bernardo oikuaa muita coisa de Mateus, ele conseguiria ser solto com bons advogados diante uma chantagem. Preciso derrubar Mateus primeiro e aí o ahygue cai junto. Goram precisava fotografar e chantagear Bernardo.

THEMISE – Para quê? Para acabar que nem essa mulher? Sequestrada.

GORAM – Mas Goram não seria trouxa, eu espalharia fotos, dúvido que ele mohenda um dedo em mim.

THEMISE – Ele é um bandido, Goram! Ele não vai te poupar!

GORAM – Acho que vou pagar para ver!

THEMISE – Mas eu não entendo. O que você pediria em troca dessa chantagem, dinheiro?

GORAM – Óbvio que não, o meu pedido é muito mais arandu.

THEMISE – E qual seria?

GORAM – A Separação de Mateus.

Instrumental explosivo. Close em Themise boquiaberta. Fecha em Goram ardiloso.

CENA 09/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/INT.CASA DE CACAU/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Cacau termina de arrumar seu uniforme e colocar dentro da bolsa.

CACAU – Ufa! Terminei por hoje! Partiu casa de Dona Úrsula, antes que ela me mate, se bem que esses dias que faltei, ela, em nenhum momento, foi prejudicada. Esse atestadinho aqui, ele…

Fabiana surge da cozinha arrancando ele da mão da mãe.

FABIANA – Explica muita coisa, Dona Carolina, como o porquê de você estar faltando em alguns trabalhos sobre este pretexto. Se fosse para você, tudo bem, mas é para cuidar de um homem desconhecido que chama Guilherme. QUEM É ESSE GUILHERME, DONA CAROLINA?

Close na face encurralada de Cacau. Fabiana estava com os olhos na iminência de saltar.

CENA 10/SÃO PAULO/TATUAPÉ/INT ACADEMIA NOVA ORLEANS/MANHÃ

 

Bernardo termina de correr na esteira e vai fazer supino, Guto acabara de terminar sua série.

GUTO – Vou tirar os pesos.

BERNARDO – Pode deixar, eu faço com mais.

GUTO – Beleza, sangue bom.

E sai. Bernardo cochicha.

BERNARDO – Se ele me conhecesse melhor, saberia que não sou sangue bom nem aqui, nem na China.

Ele se deita no aparelho e seu celular toca. Ele olha e vê que é Caíque.

BERNARDO – Alô, pode falar. O quê? Descobriram o cativeiro? E daí que vocês não estão conseguindo falar comigo, seus trouxas, é óbvio que é para mudar de lugar, estamos com risco de sermos descobertos. Mudem já de lugar, de preferência bem longe de Jabaquara!

E desliga.

BERNARDO – Incompetentes!

Ele se levanta irritado.

CENA 11/SÃO PAULO/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/UTI/MANHÃ

Meire abraça Caio. Rita ainda não havia despertado. Heloísa e Suzy chegaram.

SUZY– Nada até agora?

Meire balançou a cabeça negativamente.

Nara passou por eles

NARA – Suzy, hoje a noite, vamos ter um ensaio da Fada Madrinha lá na garagem de casa, se você quiser ir?

SUZY – Nossa, eu super quero. Sinto tanta falta de cantar.

NARA – Você toca alguma coisa também?

SUZY – Sei tocar violão e gaita.

NARA – Perfeito. Me passa seu whats, vou salvar aqui.

SUZY – Está certo.

Heloísa percebe que Hector, o paciente diabético estava andando com uma certa dificuldade com auxílio do enfermeiro. Ela notou alguns achados peculiares.

HELOÍSA – Extremidades muito finas para quem tem gordura localizada em região do dorso perto dos ombros.

Misteriosa, a menina o seguiu pelo corredor do hospital, até seu quarto, Doutora Gabriele, aguardava-o com uma enfermeira.

QUARTO DE HECTOR

GABRIELE – Então, Hector, estava te esperando. Vamos coletar um pouco do seu sangue. Mas não vai doer nada, Marilda tem as mãos de princesa. Gostaria de te fazer umas perguntas também.

Ele acenou concordando, deitou-se na cama. Heloísa apareceu na porta.

GABRIELE (alegre) – Primeiranista que estava conosco ontem!

Heloísa cumprimentou todo mundo timidamente. Ela notara um outro achado característico. As bochechas estavam extremamente arredondadas e avermelhadas.

HELOÍSA – Professora, ele tem diabetes melittus tipo 1?

GABRIELE – Não, não. Pelas nossas investigações ele possui o tipo 2, já que o problema dele é resistência à insulina e não destruição autoimune de células beta de Langherans no pâncreas.

HELOÍSA – Entendi. E qual foi o tratamento para ele ontem depois do choque de osmolaridade?

GABRIELE – Não, não. Ele não estava em choque, ele estava em estado hiperglicêmico hiperosmolar, choque é outra coisa que vocês aprenderam mais para frente em Patologia. Mas em relação ao tratamento, nas primeiras horas ministramos soro fisiológico isotônico, isto é, com a mesma concentração de sódio plasmático de 20 ml por kg por hora, porque o paciente se encontra muito desidratado e com aumento da quantidade de sódio sérico, abaixado o sódio sérico, continuamos com um soro por 500ml por hora, que foi o caso dele. No entanto, caso ainda tivesse alto, usaríamos um soro com metade da concentração plasmática.

HELOÍSA – Nossa…que interessante.

GABRIELE – Mas não acaba por aí, não. Quem dera fosse simples assim… Paralelamente a esse processo entramos com Insulina intravenosa em boulos, ou seja, para aumentar rapidamente a concentração de insulina a cada litro de soro fisiológico que ministramos. Quando atingimos a marca de 300 mg/dl de glicose sérica, devemos parar e ministrar soro glicosado porque uma queda muito abrupta da glicose sanguínea pode levar a edema cerebral.

HELOÍSA – Muita responsabilidade. Tenho tanto medo de errar ou me esquecer de alguma coisa.

GABRIELE – Não se preocupe, você terá tempo para aprender.

A enfermeira terminara de coletar sangue.

MARILDA – Prontinho, Doutora Gabriele, pode fazer seu exame físico.

GABRIELE – Obrigado, querida. Aproxime-se mais…Como é seu nome?

HELOÍSA – Heloísa.

GABRIELE – Prazer, Doutora Gabriele.

Elas se cumprimentaram.

GABRIELE – Vou te ensinar a fazer a ausculta pulmonar, um procedimento básico de todo exame clínico.

Heloísa se entusiasmou.

GABRIELE – Tome, segure o esteto.

Ela coloca ao contrário. Gabriele ri.

GABRIELE – A curvinha tem que cair para frente. Isso. Agora, você tem que auscultar simetricamente de um lado e de outro, começamos pelo dorso utilizando a coluna vertebral como parâmetro.

HELOÍSA – Assim?

GABRIELE – Mas temos que pedir para o Hector tirar a camiseta, auscultar por cima dela, tá errado. Então, Hector, você pode tirá-la?

Ele acena que sim e ao retirá-la, eis que Gabriele leva um susto. Close-up nas estrias abdominais violáceas do homem com gordura centrípeta. Instrumental drama médico começa a tocar.

HELOÍSA – Nossa, tá bem, feio isso aí, né?

GABRIELE – Como eu não pensei nisso antes? Estrias Violáceas, fácies em meia-lua, olha só como essas bochechas estão rosadas.

HELOÍSA – Professora, eu achei esquisito essa gordura no ombro dele na parte de trás.

GABRIELE – Corcunda de búfalo que falamos. Tudo aponta para…cadê a hiperpigmentação?

Ela procura pelo corpo e não encontra algum achado. Então pede para ele abrir a boca e encontra.

GABRIELE – Nas mucosas! Ele tem síndrome de Cushing! Isso explica muito a diabetes, ele teve um diabetes decorrente do estresse por conta do aumento do nível de cortisol sérico que degradou seus aminoácidos e algumas reservas de gordura transformando em glicose e jogando na corrente sanguínea, isso com o tempo levou a resistência a insulina.

Nesse instante, Sara invade o quarto trazendo um arquivo do paciente.

SARA – Você não vai acreditar no que eu descobri nesse histórico antigo dele, no antigo hospital que ele frequentava, ele teve síndrome de Cushing e por isso teve retirada bilateral de adrenais há 7 anos.

Gabriele olhou para o ficheiro sem entender.

GABRIELE – Ué, mas se ele retirou as adrenais, porque cargas d’agua está manifestando clinicamente cushing? O excesso de cortisol que causa todos esses sintomas vem dessas glândulas.

Close alternado. Gabriele sem nada entender. Sara pensativa. Hector olhando para elas fazendo beicinho. Heloísa achando um máximo.

CENA 12/SÃO PAULO/VILA MADALENA/INT. APARTAMENTO DE ADELAIDE/QUARTO GORAM/MANHÃ

Adelaide abre a porta do quarto dele e Laurinha entra trazendo panos de chão e baldes.

ADELAIDE – Bom, filha, só faltou dos quartos, este para limparmos.

LAURINHA – Espero que terminemos logo com isso, preciso terminar de assistir umas aulas sobre química capilar.

ADELAIDE – Para quê? Vai pintar o cabelo?

LAURINHA (decidida) – Vou.

ADELAIDE – Você não acha que é muito nova para essas coisas?

LAURINHA – Você não acha que está muito nova para ter comportamentos preconceituosos de gerações mais velhas que você? O Mundo hoje mudou, precisa se atualizar, mamãezinha. E o Cabelo é meu, então sou eu que mando nele, tá?

Adelaide não gostou nada daquela grosseria.

LAURINHA – Um ursinho, nem tinha reparado que ele tinha um, mas tá faltando um botão neste olho.

ADELAIDE – Acho que é melhor tirarmos essa mala daqui, se não ficará difícil para limpar, esse criado podemos deixar no corredor.

LAURINHA – Também acho.

SALA DE ESTAR

Laurinha deixa a mala de Goram num canto da sala e seu ursinho com o colar de pena azul em cima dela. Instrumental misterioso. Zoom em slow motion.

 CENA 13/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/INT. CASA DE CACAU/SALA DE ESTAR/MANHÃ

FABIANA – Quem é Guilherme, mãe?

Caroline tentou disfarçar.

CACAU – Guilherme? Não sei de quem você está falando?

FABIANA – Ah…você não sabe? Estranho Sebastiana ter me contado isso e neste atestado vir o nome dele.

Caroline ficou muda.

FABIANA – Tá vendo, como mentira tem perna curta?! Agora o que eu não entendo, é porque você tá me escondendo isso, qual o problema deu saber da existência desse homem, nós nunca tivemos segredos uma para outra. Agora que é estranho, é, um homem que faz você sair dos seus empregos mais cedo para ir até com ele numa clínica oncológica. O que é que está acontecendo, você pode me explicar?

Caroline pensou naquilo que veio primeiramente em sua cabeça.

CACAU – É meu namorado!

FABIANA (faz uma cara de contragosto) – Namorado?

CACAU – Sim, algum problema? Agora só porque sou idosa, não posso ter esse direito, não?

FABIANA – Poder até pode. Mas porque me esconder isso e ficar faltando no seu trabalho?

CACAU – Ué, filha, você não é a primeira a me aconselhar a me aposentar, a parar de trabalhar. Agora sou eu que não estou te entendendo. Não escondi, apenas ocultei por uma questão simples de privacidade. Não é nada sério, ainda, é um namorico de nada. Satisfeita agora?

FABIANA – Ele tá fazendo tratamento de câncer?

CACAU – Sim, mas não é nada, sério, não metastou nem nada, um tumorzinho no pé. Agora, você pode me dar licença, preciso trabalhar para sustentar a mim e a você.

Pegando sua mochila, saiu para trabalhar. Fabiana ouviu a porta bater.

FABIANA – Essa história ainda está muito esquisita, ainda tem poeira debaixo deste tapete.

CORTAR PARA:

CENA 14/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS/ TARDE

Entardece na Grande São Paulo ao som de Sabiá de Tom Jobim…

CENA 15/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/EXTERIOR/TARDE

 

Miguel aguarda ansioso por uma notificação no celular, quando ela acontece, era ninguém menos que Bolão. No exato momento que ele aceita, Miguel já manda mensagem para ele : “ Fala cara, tudo bem? Aqui é Miguel, estou cursando med na Olímpius, eu e meu amigo precisamos da sua ajuda, é sobre o Samuel”.

Big-close up da tela do celular.

CENA 16/RORAIMA/BOA VISTA/INT. APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/QUARTO DE ARAPONGA

 

Araponga troca mensagens quentes com o nickname Paulistano Misterioso.

ARAPONGA – Não vejo a agave desse carnaval chegar, falta um pouco menos de duas semanas, quero muito te conhecer pessoalmente, ñe’e por aqui faz tanto tempo.

Nickname responde : Eu também, estou louco para te conhecer e rolar muita pegação.

Ela gargalha alto.

CORTAR PARA:

COZINHA

Araponga abre a geladeira para pegar água de coco, puxa a cadeira e suspira alto. Vitória Régia aparece.

VITÓRIA-RÉGIA – Ijapýpe, Araponga saiu do quarto.

ARAPONGA – Ai, não enche, machu. Não quero discutir com a senhora.

VITÓRIA-RÉGIA – Você não quer jua’o comigo, mas vive trancada no quarto, quando deveria estar arandueka, procurando um emprego, fazendo algo de útil para sua vida.

ARAPONGA – Mas Araponga está trabalhando (ri sarcástica)com bordados e costuras, a senhora sabe disso.

VITÓRIA-RÉGIA – Isso lá é mba’apo? Costura não enche barriga não, aliás, Araponga, tanto não enche que tu vive infernizando a vida de sua mãe para conseguir que ela atenda seus caprichos, até agredir ela, neko’e faz.

ARAPONGA – Tu não sabes o que você está dizendo!

VITÓRIA-RÉGIA – Não sei, é? Ela me hechahare o desgosto que ela sente quando isso acontece, vontade de não ter tido você.

ARAPONGA – Pois eu não pedi para vir ao mundo, quem mandou me ter?

E arredou o pé, fechando-se no quarto.

Close no rosto de reprovação de Vitória-Régia.

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/INT. PRÉDIO CENTRAL/VESTIÁRIO FEMININO/TARDE

Dandara está terminando de arrumar o cabelo quando Viviane entra. Elas trocam olhares de encantamento pelo espelho. DOCE.

DANDARA – Puxa vida, acabou minha pasta de dente e eu nem percebi.

Viviane na hora retira do seu estojo uma pasta.

VIVIANE – Pode usar a minha, tem bastante aqui.

DANDARA – Obrigada.

CAMERA DESCONTINUA

Elas terminam juntas de escovar o dente. Silêncio. Olham-se. Coram-se. Mas Viviane acaba por sair do banheiro. Dandara faz uma expressão de estou tentando entender.

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/EXTERIOR/TARDE

Heloísa e Suzy estão saindo do prédio central quando Goram aparece com alguns lírios na mão, na outra estava com a bicicleta de seu tio.

GORAM – Para você, Porã.

E entrega para Heloísa que os abraça, achando fofo.

SUZY – Goramzito, vou te confessar uma coisa, eu ralo para entender sua linguagem tupi-portuguesa, às vezes, é quase impossível.

HELOÍSA – Porã significa bonita. E eu agradeço pelo elogio.

GORAM – Isso mesmo. Acho que com o tempo vou me acostumando com a haisyry de vocês, mas é gostoso ter um pouco das linguagens tupi. Posso não ser indígena fenotipicamente, ãicha que por isso, não me inscrevi nas cotas raciais, no entanto, gosto de manter minhas guares

SUZY – Tá tudo bem, Goram. Eu que peço desculpas, se fui muito franca, não foi minha intenção.

GORAM – Tudo bem. Égua braba! Helo, peguei esse lírios no jardim da Universidade atrás da biblioteca, Goram veio te buscar para um cineminha comigo hoje, já comprei os jeikos(ingressos) e depois te deixo lá na república dos estudantes.

Heloísa ficou pensativa.

SUZY – Aproveita, eu não vou estar em casa tão cedo, miga, porque daqui a pouco tenho ensaio da Fada Madrinha.

HELOÍSA– Tudo bem.

GORAM – Pois então hupi nessa bicicleta e vamos que vamos para o Shopping Villa Lobos. Nossa sessão de Parasite começa às 18h.

HELOÍSA – Não vai dar nem tempo deu me trocar.

GORAM – Mas você tá linda desse hendáicha.

HELOÍSA – Own!

SUZY – Muito fofo esse indiozinho, miga. Vontade de apertar.

Ele riu e desatou a pedalar com Heloísa garupa, ela coloca o capacete e se firma nele.

CENA 19/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/PRÉDIO ADMINISTRATIVO/REITORIA/TARDE

Mateus termina de organizar papeis sobre sua mesa, quando se lembra de Goram. Ele sorri e chama Daniele. Instantes depois, ela entra.

DANIELA – Pois não? Doutor Mateus?

MATEUS – Quero o endereço de Goram Guajajara, aqui em São Paulo. Trata-se daquele rapaz que está cursando medicina e passou na Olímpiada Internacional com medalha de Ouro, deixando nosso grupo com muito orgulho.

DANIELA – É para já, Doutor Mateus. Já volto com essa informação para o senhor.

E sai. Big-close-up em seus olhos um pouco mais felizes que o normal.

CENA 20/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS/NOITE

Anoitece em São Paulo ao som de Pacato Cidadão

 

CENA 21/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ INT. REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/ QUARTO 12/SALA DE ESTAR/NOITE

 

Goram entra rindo com Heloísa.

GORAM – Égua mansa, que palhaçada foi aquela na praça de ñemongaru do shopping?

HELOÍSA – Nem me pergunte, só sei que o cara tava bêbado e querendo se vingar de todo mundo só porque ele chorou pela máquina de fazer sorvete do Mc Donalds havia estragado.

Goram ri alto.

GORAM – Por Maíra e Macunaíma. Ele não se conformava. Pelo menos não se gui da gente, não fomos nós que levemos ketchup e mostarda na cara. Eu não sei porque não tava com muita fome.

Heloísa ri.

HELOÍSA – Eu também não estava, agora parece que eu estou. Sim, fiquei com pena daquelas pessoas…

SILENCIO.

HELOÍSA – Você quer alguma coisa para comer? Uma água? Um suco? Um café? Temos miojo para fazer, acho que sobrou asinha de frango que compramos. Fique à vontade, vou tomar um banho rápido. Não tô confortável nesta roupa.

GORAM – Guéno, vai lá.

Ele vai a geladeira preparar um miojo quando escuta o barulho de água corrente do chuveiro.

BANHEIRO

Heloísa termina de se ensaboar e desliga o registro. Puxa a toalha. Começa a se enxugar. Goram aparece. Ela leva um susto.

HELOÍSA – Goram? Você aqui? Eu…

Ele não espera ela terminar, beija-a com os olhos fechados. A toalha cai no chão. Ela o joga contra a parede perto da porta, do lado de dentro e o domina, puxando o cabelo dele, enquanto se escora em seu corpo, ele revida e os dois vão para o quarto.

QUARTO DAS MENINAS.

GORAM – Qual é sua inimbe?

Heloísa aponta taquipnéica.

HELOÍSA – A de baixo do beliche!

E ele delicadamente a põe nela, retirando sua camisa sorrindo. Ambos sentem o cheiro um do outro, cheiro esse que nenhum perfume é capaz de chegar.

CORTAR PARA:

CENA 22/SÃO PAULO/SANTA IFIGÊNIA/ INT. CASA DESCONHECIDA/SALA/NOITE

BERNARDO – Nós precisamos dar um jeito de reconhecer a face desse sujeito que estavam nos espionando, se não, estamos ferrados. Pelo menos esta casa é mais discreta e segura do que a outra.

CAÍQUE – Calma, chefe. Reinaldo está analisando as imagens no quarto dos fundos, quando ele achar, vai nos chamar.

BERNARDO – Cadê a veia?

CAÍQUE – Está dormindo no outro quarto, demos um calmante para ela, tava grunhindo muito, mesmo com pistola na cabeça.

BERNARDO – Traz essa vaca aqui, vou acordar ela com um balde de água fria.

CENA 23/SÃO PAULO/PENHA/ EXT.CASA DE ANDRÉ/NOITE

TOCA A CAMPAINHA E ANDRÉ ATENDE.

ANDRÉ – PAMELA?

PAMELA – Olá, Andrezinho, quanto tempo! Saudades do tempo que éramos vizinhos. Sua mãe está? Queria ter uma palavrinha com ela.

ANDRÉ – Está sim, entra.

PAMELA – Obrigada. Com licença.

 CENA 24/SÃO PAULO/VILA MADALENA/ INT. APARTAMENTO DE ADELAIDE/SALA/NOITE

Adelaide olha pelo olho mágico e abre após constatar.

ADELAIDE – O Senhor é.. O herdeiro…?

MATEUS – Sim, isso mesmo, o herdeiro e sócio majoritário do Campus Universitário Olímpius.

ADELAIDE – Ai, eu acho que eu vou desmaiar…

Laurinha a impede.

LAURINHA – MÃE! MÃE! Não! Ele é apenas um humano.

MATEUS – Tenho minhas discordâncias com o apenas um humano, mas…queria saber de Goram, ele está em casa?

ADELAIDE – Não, mas já está voltando… (cochicha para Laurinha). Liga imediatamente para o seu primo. Queira entrar Doutor Mateus Moça.

MATEUS – Para você é Doutor Professor…

ADELAIDE – Claro, Doutor Professor Mateus Moça queira se sentar, você quer algo para beber?

MATEUS– Não…não, muito obrigado. Tenho uma dieta mais restrita. (E faz uma cara de nojo com o ambiente).

Então ele vê sobre a mala: o ursinho de Pelúcia faltando um botão no olho e com o colar de penas azuis.

FLASHBACK RÁPIDO: Seu irmão de cinco anos, Giovane, andando pela mansão com um ursinho parecido com aquele, sendo jogado dentro do rio abraçado no ursinho. Altas correntezas.

MEDO. SILÊNCIO.

MATEUS – De quem é esse ursinho?

ADELAIDE – É de Goram. Velhinho, né? Deve ter pelo menos uns 20 anos.

Instrumental explosivo. Volta para o rosto confuso de Mateus confuso. CONGELA.  

FADE OUT

 CONTINUA…

 

 

 

 

 

 

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