Estação medicina

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Capitulo 12

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 12

INFARTO

 

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Entardece na Avenida Paulista…

CENA 02/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/ EXT. RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/TARDE

Instrumental explosivo. Close-up repentino. Focar em Eliane observando Fabiana pegando comida e Guto atrás. Samuel aparece ao lado dela. Ela leva um susto

SAMUEL – Calma, Loirinha. Não mordo não.

Eliane fez uma cara de contragosto e ficou a olhar para o casal que agora se sentava.

SAMUEL – Você quer acabar com eles, né?

Eliane se vira robótica.

ELIANE – Eles não, ela. Eu preciso dar um jeito nesta chimpanzé.

SAMUEL – Que tal um susto?

Ela sorri para ele.

ELIANE – Um susto?

SAMUEL – Um susto para ela aprender a nunca mais aparecer em nossos caminhos. Você sabe, estou querendo dar uma lição nela também, nunca me esqueci daquele enfrentamento na primeira semana de aula.

ELIANE – E como seria este susto?

SAMUEL – Vou te contar…

CORTAR PARA:

INT. RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO

Fabiana se senta e Guto a acompanha.

FABIANA – Mas você não desiste mesmo, né?

GUTO – Não. Eu não desisto. Eu sei muito bem o que eu quero e você sabe também.

Marcela ri olhando para Viviane.

MARCELA – O que será que a Fabi sabe também.

Viviane gargalha. Fabiana a olha meio brava.

Em outro canto da mesa, Goram está perdido em pensamentos sobre a conversa com Mateus, sorri maquiavélico até que percebe que Suzy estava o chamando.

SUZY – Goram! Goram!

Ele desperta e bate sem querer o braço no garfo que estava na ponta do prato voando no cabelo de Dandara, sentada do lado dele, oposto ao que Heloísa estava.

DANDARA – Hey, velho! Cuidado!

GORAM – Égua nossa! Desculpa Dan, não foi minha mo’ã te sujar de espaguete.

André ria muito alto pondo a mão na barriga.

DANDARA – Para de rir, André. Não tem graça nenhuma.

ANDRÉ – Eu não consigo. (Ri alto). Ficou uma franja com o macarrão na sua cabeça.

As meninas se voltam para ela e começam a rir.

DANDARA – GORAAAAAM!

Ela fala meio brava, mas acaba rindo com todos.

SUZY – Ai Goram, você é o cara mais atrapalhado que eu já conheci, deixa o celular cair na fossa do metrô, foi atropelado por ter se perdido em pensamentos e agora esse…esse aplique de franja comestível.

Todos riram mais uma vez.

HELOÍSA – Mas então, Su, repete como foi ontem lá na garagem da Nara para o Goram que estava nas nuvens, ouvir.

SUZY – Veja se presta atenção, hein, senhor Guajajara! Foi incrível, a garagem dela parece um estúdio de gravação, é muito bem adaptada, meio gótico, adoro. E o pessoal da Fada Madrinha é muito legal, eu achei que só tinha a Nara de mulher na banda, que nada, estamos em vantagem, porque ela tem Pilizuk, uma amiga da psicologia que toca teclado, um encanto de pessoa, tem uma energia meio ocultista, meio bruxinha, maravilhosa e tem o Dennis que toca violão e guitarra.

DANDARA (Terminando de limpar o cabelo com nojo) – Mas não tinha um baterista ruivo também? Lembro-me dele no dia da fala do reitor.

SUZY – Nem me fala dele, porque na hora eu reconheci, ele é da turma do Samuel.

DANDARA – Ah velho…

HELOÍSA – Não acredito nisso.

SUZY – Pois é, mas até agora, ele não veio encher, ficou no canto dele, mas se ele vim para cima de mim, querer fazer trote, ele vai se ver comigo.

George então aparece na frente do refeitório acompanhado por uns amigos.

GEORGE – Galera queria um minutinho a atenção de vocês.

Boa parte dos alunos se viram.

GEORGE – Meu nome é George, sou quartanista do curso de medicina e estou aqui para falar a vocês sobre os problemas da nossa universidade.

GUTO – Problemas?

GEORGE – Todo mundo pensa que pela nossa Universidade ser a melhor do país no nosso curso, ela não enfrenta dificuldades, mas é aí que se enganam, nos últimos anos tivemos um corte brutal do orçamento pelos nossos investidores que apesar de terem assinado documentos se responsabilizando por um teto mínimo de despesas, por conta de conluios com a Reitoria, Diretoria e Indústria Farmacêutica, acaba não investindo nem o mínimo o que traz um conjunto de problemas, como a demissão de professores-pesquisadores sem justa-causa, diminuição no número de ligas acadêmicas, demissão de funcionários de limpezas tanto da faculdade, quanto do hospital, vocês devem ter acompanhado recentemente a questão, a nossa grade é muito puxada, com quatro horas direto de aula, sendo que neurocientistas do mundo inteiro defendem que nosso cérebro não aguenta aula por mais de 50 min sem pausa e vocês sabem os professores passam matéria como se não houvesse amanhã, não há vaga para  todos que querem participar das monitorias, nossa hortinha orgânica foi destruída ano passado por cortarem os insumos, não há capacitação para metodologia científica e vocês sabem como essa disciplina é dada nas coxas, além da problemática do trote que ainda assombra nossa instituição, ferindo seriamente os direitos humanos.

Fabiana sorriu. Marcela se levantou interessada.

RENAN – Assim, queremos propor nestas eleições para o diretório acadêmico, uma chapa que lute pelos direitos dos estudantes, dos professores, dos funcionários, que seja uma pedra no calçado da instituição. Muito diferente da outra chapa chamada Jaleco Branco que é uma continuidade da geração de chapas que insistem em falhar na representatividade aos alunos, sendo muito amistosa com a instituição e pouco combativa.

Dandara cochichou animada para André.

GEORGE – Convidamos vocês para participarem da composição da nossa chapa chamada Coração de Estudante, vamos ter uma reunião aberta hoje de tarde atrás da biblioteca, estejam lá para nos conhecer e propor novas ideias.

Alguns estudantes veteranos batem palma, Goram sente a necessidade de fazer também, Heloísa o acompanha, Suzy e André também. Mas o afrodescendente nota que Romeu está numa mesa com uma turminha da atlética que vaia de longe aquela apresentação.

CENA 03/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/INT. HOSPITAL UNIVERSITÁRIO/UTI/TARDE

Odélia chega para visitar a sobrinha.

RITA – Nossa, tia Odélia, você aqui em São Paulo?

ODÉLIA – Ainda bem que eu cheguei, não é amada? Se não, não teríamos como entrar naquele apartamento e te resgatar.

RITA – Eu me esqueci completamente da sua vinda. Tanta coisa acontecendo.

ODÉLIA (senta na maca) – Fiquei sabendo pela televisão, você foi exposta publicamente, né?

RITA – Nem me lembra disso, depois ainda fui atacada no estacionamento por transfóbicos.

ODÉLIA – Você precisa resistir, minha filha, você sabe o que penso de tudo isso, vai ser muito difícil, mas é você e se é você, minha flor, vale a pena lutar.

RITA – Eu fico muito feliz de saber que existem pessoas da sua geração que são abertas a reflexões. Isso me dá esperança do mundo.

ODÉLIA – Mas você sabe que isso é muito difícil não é? Mariã.

RITA – Nem me lembra dessa mulher que só me fez parir e…Foi ela que me entregou para o maçom do Mateus, não foi?

ODÉLIA – Eu não tenho como afirmar nada, minha filha, mas ela recebeu uma quantia boa de dinheiro, deu entrada num carrinho para seu irmão.

RITA – ORDINÁRIA! RATA! Entregar a cabeça da própria filha numa bandeja.

Nesse instante, Jesuína chega trazendo um panfletinho e um livro.

RITA– Jesuína! Você sempre vindo me visitar.

Jesuína cumprimenta Odélia.

Jesuína– Pois é, professora Rita. Dessa vez te trouxe um livro, acho que vai gostar.

RITA – AAAAAA. Cartas para Lênin, você é muito maravilhosa.

JESUÍNA– Magina, maravilhosa é a senhora.

RITA – E esse panfletinho?

JESUÍNA– É a chapa Coração de Estudante para diretório acadêmico, estão as propostas.

RITA – Que notícia incrível. George saindo como presidente, Renan de vice. Esse diretório parece muito forte.

JESUÍNA- E ainda vai entrar mais gente, eles ainda estão construindo a equipe de maneira coletiva e democrática.

RITA – Fico muito feliz por isso. Mas nós sabemos da tradição, a chapa rival está com os investidores. Será que dessa vez conseguiremos mobilizar todo corpo estudantil?

JESUÍNA– Espero que sim. Precisamos retomar as manifestações sobre as mais de 100 demissões dos funcionários de limpeza.

RITA – Sim. Eu, às vezes, esqueço dos meus compromissos, mas estava pensando aqui e acho que já sei por onde começar…

Close-up em sua expressão misteriosa.

CENA 04/SÃO PAULO/SANTO AMARO/BURACO QUENTE/INT.CASA DE PAMELA/SALA

Pamela anda de um lado do outro desesperada. TENSÃO. Bernardo bate palma. Ela abre e o abraça.

PAMELA – Minha mãe, desapareceu! Desapareceu Bernardo!

BERNARDO – Calma, minha linda. Mas você não ligou a ela, não disse que ela estava vendendo roupa em outra cidade.

PAMELA – É mentira. Ela me disse que estava com Leda, mas eu consegui o telefone dela, ela me disse que não estava em Campos do Jordão e minha mãe não estava com ela. ONDE MINHA MÃE SE METEU, BERNARDO? ONDE?

Ela dá um chacoalhão nele de nervoso e ele por um momento acredita que ela sabe que ele é o responsável.

Ele pensa em fazer um pedir para um de seus capangas provocar um telefonema de Ângela a ela, mas acha muito arriscado, porque ela poderia desconfiar.

BERNARDO – Meu Deus! E o que você pensa em fazer?

PAMELA – CHAMAR A POLÍCIA, É CLARO!

Ele então tem uma sacada.

BERNARDO – Pois está, certa. Vamos no meu carro, conheço uma delegacia que não enfrentará tanta fila e será atendida.

Ela confirma.

PAMELA – Vamos.

Instrumental explosivo. Ela pega uma blusa e sai com ele, discretamente mostrar ele escrevendo uma mensagem para o delegado França.

CENA 05/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ ATRÁS DA BIBLIOTECA/EXTERIOR/TARDE

Uma brisa leva uma folha seca ao rosto de Goram que coça e percebe o lindo pôr-do-sol que está acontecendo no horizonte, ele se dá conta que Heloísa está ao seu lado e passa o braço por cima do ombro dela.

Plano geral. Mostrar que alguns estudantes estão sentados em uma roda circular. Ligar vozes deles.

GEORGE – Gente, uma palavra de ordem, vamos encerrando o debate, estamos há duas horas aqui. Acho que podemos falar de permanência estudantil.

SEXTOANISTA – Próxima fala é da Suzy.

SUZY – Bom gente, penso que sobre essa pauta, seria muito importante pensarmos em pressionarmos a direção para construção de uma moradia estudantil dentro do campus mesmo, porque o que sei não é fácil conseguir vaga na casa dos estudantes, eu e Heloísa tivemos sorte, porque andamos sondando bem antes, mas tem gente que vem de muito longe e não tem ideia de como funciona, acaba tendo ficar de favor na casa de veterano e a gente sabe como é problemático isso, porque nem todo mundo é receptivo, fiquei sabendo de casos de estupro.

Vitor chega ofegante a reunião, guardando o jaleco na mochila

VITOR – Acho que me atrasei, o trânsito na Tietê estava horrível, o Pronto Socorro do hospital estava mais lotado que o normal hoje.

GEORGE – Tudo bem, cara, senta aí com a gente, estamos na última pauta, mas vamos fazer uma ata.

VITOR – Valeu.

Ele se senta ao lado de Goram que o cumprimenta.

SEXTOANISTA – Me inscrevo e o próximo da lista é Renan.

RENAN – Então, Suzy. Gostei muito do que você trouxe e é real essa realidade, existe um prédio que começou a ser construído, inclusive dentro do campus atrás do largo que o pessoal do atletismo utiliza para correr, mas por motivos desconhecidos, as construções foram paralisadas. Encerro minha fala.

SEXTOANISTA – Próxima é a Nara.

NARA– Então Re, nós fomos atrás da diretoria na época e eles alegaram que haviam descoberto que a empresa que ficou responsável havia diversas acusações de caixa 2 e estava superfaturando a obra.

RENAN – Por que eles não contrataram outra então?

NARA – Pois é, né? Rs. Alegaram ter tido prejuízo.

VITOR – Isso não tem sentido algum. Por que não mostraram isso ao corpo estudantil já que é de interesse de muitos a construção daquela moradia.

SEXTONISTA – Gente, vamos evitar falarmos um atrás do outro, há mais gente na fila, inscrevam-se, se não vai ficar muito bagunçada a reunião aberta, a próxima a falar é a Marcela.

CORTAR PARA:

CENA 06/SÃO PAULO/SANTO ANDRÉ/PENITENCIÁRIA MASCULINA/DELEGACIA FRANÇA/ TARDE

Pamela chega acompanhada de Bernardo. Eles se identificam na recepção.

SEGURANÇA – Delegado França irá os receber!

PAMELA – Nossa, que rápido.

DELEGACIA

FRANÇA – Olá Bernardo! A que devo a honra de vê-lo por aqui?

Eles trocam olhares de encenação.

BERNARDO – Tudo bem, Delegado França. Nós precisamos notificar o desaparecimento de uma pessoa.

FRANÇA – Quem é essa pessoa?

PAMELA – Ela é minha mãe e se chama Ângela Maria de Jesus.

E se senta. França troca olhares cínicos com Bernardo.

CORTAR PARA :

CENA 07/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Anoitece na capital paulista ao som de Maria Maria de Elis Regina.

CENA 08/SÃO PAULO/TATUAPÉ/INT.BAR DO ESTETO

Vitor e Miguel entram no bar.

MIGUEL – A lá o Bolão no balcão.

VITOR – Até rimou, Bolão, Balcão.

Miguel ri. Eles se aproximam.

MIGUEL – Bolão?

O Dino vira sorrindo para eles, no braço guardava uma tatuagem de dragão.

BOLÃO – Acho que você deve ser o Miguel e você…Vitor, né?

VITOR – Isso mesmo, cara.

BOLÃO – Vocês querem breja? Heineken?

VITOR – Minha predileta.

BOLÃO – Esse é dos meus. (Rindo alto)

CORTE DESCONTINUO

Bolão deposita um copo vazio no balcão.

BOLÃO – Seguinte moçada, o segredo desse filho da mãe, que insiste em pagar de dono da faculdade, que eu sei dele é que o cara tem disfunção erétil e todas as experiências dele com as minas são frustrantes.

Miguel segura o riso que escapa pelos seus lábios. Vitor se satisfaz com a informação.

CENA 09/SÃO PAULO/TATUAPÉ/EXTERIOR REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/NOITE.

Goram termina de beijar Heloísa, apoiando ela na parede.

DONA NOZ-MOSCADA raspa a garganta. Eles se assustam.

DONA NOZ-MOSCADA – Vocês não acham que está muito tarde para ficaram se agarrando na rua desse jeito, há idosos que moram por aqui, se virem, podem passar mal?

GORAM – Égua! Mas ainda são sete e meia da noite, kuña.

HELOÍSA – É melhor não discutir com ela, não. Ela é muito rabugenta!

DONA NOZ-MOSCADA – O que foi que você disse, menina?

HELOÍSA – Nada. Disse que já está tarde e é melhor eu entrar. A gente se fala, amor. Até amanhã.

GORAM – Até jaguare, minha princesa.

Heloísa se adentra e a caseira observa Goram partir na bicicleta.

DONA NOZ-MOSCADA – Mas essa geração tá perdida mesma.

CORTAR PARA:

CENA 10/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/CALÇADA DO ESTACIONAMENTO.

Goram desce da bicicleta.

GORAM – Será que Goram consegue uma brechinha para visitar mbo’ehára Rita?

Instrumental explosivo. Close-up na face dele se transformando, ele vê Caíque entrando no carro de Bernardo.

GORAM – Leseira Baré! O Cativeiro!

Goram se esconde atrás de um árvore para não ser visto e montando o capacete sai atrás deles com a bicicleta.

CENA 11/SÃO PAULO/JARDIM AMÉRICA/INT.MANSÃO DOS MOÇA/SALA DE VISITA.

Mateus termina de jogar a último dardo num alvo circular, localizado no alto de uma parede.

MATEUS – Que tédio. É sempre essa mesmo desfecho, eu passo as noites nesta mansão, sozinho.

Ele disca para Bernardo pela nona vez e ele não o atende.

MATEUS – Capaz desse boçal tá me traindo de novo com alguma mulher.

Ele se levanta e abre a sala de vista, encaminhando pelo saguão renascentista até a sala de estar.

SALA DE ESTAR

Ele abre um baú e retira uma ração, faz vozinha fofa.

MATEUS – Oh, Cecilinha do pai, olha o que tenho para você.

Ela sai da rocha e vem comer, ele observa-a e depois a acaricia.

Ele se perde em pensamentos.

Ligar flashback rápido: Recorda-se de Goram, desde o momento que o conheceu, depois da visita na mansão, quando o visitou no hospital depois do atropelamento, na reunião com os investidores e na Reitoria.

MATEUS – Goram! Que nome…bonito.

CORTAR PARA:

CENA 12/SÃO PAULO/SANTA EFIGÊNIA/EXTERIOR CASA DESCONHECIDA

O portão branco se abre e o carro preto de Bernardo de vidro fumê se adentra, Reinaldo o aguardava lá dentro, fazia de refém uma mulher, do outro lado da rua, alguém para de pedalar, pondo um all-star verde no chão.

GORAM – Égua. Então Goram estava certo, pee mudaram o cativeiro. Achei, o novo esconderijo!

Plano Americano. DETERMINADO.

CENA 13/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Ao som de uma música instrumental oriental e doce. Mostrar pessoas andando de um lado para o outro para liberdade. Comerciantes abrindo suas lojas. Orquídeas sendo colocadas na frente da uma Floricultura. Uma lojista de quimonos de seda vendendo uma peça para uma rapariga sardenta. Uma idosa gritando num Hortifrútis sobre desconto do preço das maçãs.

CENA 14/SÃO PAULO/CENTRO/INT.BORDEL MADAME BOVARY/COZINHA/MANHÃ

Marcela deposita um bolo de laranja na mesa para as meninas que vibram.

TIFANNY – Você é muito talentosa, Ma. Cuida tão bem de nós.

JUSTINA – Esse café está perfeito, nunca fomos tão bem tratadas.

JOSÉ – Esse foi por minha conta.

Toca o alarme no celular de Marcela.

MARCELA – Puxa, estou atrasada, a aula de histologia vai começar dentro de alguns minutos, preciso ir.

JOSÉ – Mas você não vai comer nada?

MARCELA – Como lá na facul mesmo.

Ela dá um beijo na cabeça de cada menina e percebe que Larissa e Persépolis não estavam ali.

MARCELA – Cadê Larissa?

TIFANNY – Ela foi comprar pães, já deve estar saindo.

MARCELA – E Persépolis?

TIFANNY – Ainda não voltou do programa de ontem.

MARCELA – Vocês já sabem, né?

TIFANNY – Se aquela velha rabugenta ter alta e dar as caras por aqui, na hora ligar para você.

MARCELA – Isso mesmo.

JOSÉ – De dou uma carona até lá.

MARCELA – Então vamos, Zé.

EXTERIOR

Marcela está entrando no carro quando avista Larissa chegando com Persépolis quase que nas costas, ajudando a jovem trans a caminhar. A Face de Zé se transforma com os gritos de horror de Marcela.

MARCELA – O QUE ACONTECEU PERSÉPOLIS? PORQUE VOCÊ ESTÁ NESSE ESTADO? DESSE JEITO?

PERSÉPOLIS (cuspindo um pouco de sangue) – Cliente saiu comigo e depois surtou…ele me esfaqueou.

Ela não aguenta e desmaia. Marcela grita.

MARCELA – CHAMEM UMA AMBULÂNCIA, ELA ESTÁ ENTRANDO EM CHOQUE HIPOVOLÊMICO!

José disca disparado. As meninas se aproximam do corpo atordoadas. A cena se apaga.

CENA 15/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/SALA DE ESTAR.

Goram termina de tomar a xícara de café e pega a mochila em cima do sofá.

GORAM – Estou atrasado para burro. Preciso capar o gato! Mas você entendeu né Themise? Aguive, eu preciso dar um jeito de fotografar aquele cara dentro do cativeiro na frente daquela mulher. E aí será o fim dele e do monstro que um dia eu chamei de érmano.

Ele abre a porta para sair e leva um susto ao ver Mateus.

GORAM – AAAAAAAAA. Égua de largura!

O jovem dá um salto estridente e acaba caindo no chão. Themise contempla a cena assustada também.

MATEUS – Minha nossa, Goram, eu não quis assustá-lo, perdoe-me o jeito, eu iria apertar a campainha quando você abriu a porta.

Ele dá a mão e Goram se levanta recuperando o ar.

THEMISE – Nossa, mas o porteiro não avisou nada que você tava subindo.

MATEUS – Para você mera mortal, é Professor Doutor!

Themise bufou esbaforida. Goram o olhou profundamente para ver se ele não era uma assombração.

GORAM – Ahári avisou mesmo, Themise.

MATEUS – Eu decidi fazer uma surpresa.

GORAM – Pois tu conseguistes, égua de largura!

Mateus ri alto.

MATEUS – Pensei em te dar uma carona até a faculdade.

GORAM – Eita? Uma carona?

MATEUS – Sim, sim. Podemos tomar café em minha sala também.

THEMISE – Ele já tomou café aqui!

Mateus a olha com tédio.

GORAM – Sim, eu já tomei. Mas aceito a carona estou um pouco ñemboare.

MATEUS – Ótimo, ótimo. Assim te explico melhor como se darão as aulas de inglês, que pretendo começar hoje a noite mesmo.

GORAM – Hoje? Ãga?

MATEUS – Sim, hoje.

Goram troca olhares com Themise sem nada entender e pegando sua mochila sai com Mateus. Themise tem um péssimo pressentimento.

CENA 16/SÃO PAULO/PARAISÓPOLIS/INT.CASA DE CACAU/COPA

Fabiana terminava de recolher os livros quando vê sua mãe passar no celular e se esconde.

CACAU – Pode falar que acho que Fabiana já saiu.

A jovem se esconde embaixo da mesa e a empregada doméstica vai até o quarto da filha conferir.

CACAU – Vou colocar no viva-voz que tá muito ruim a ligação. Você amanheceu muito amarelo? Amarelo ouro? Isso não é normal, não, pai do céu. Fica onde está que precisamos ir ao médico.

Ela desliga e vai para o quarto se trocar.

FABIANA(cochicha para si mesmo)- Ictérico talvez? Só pode ser o namorado dela.

Minutos depois, Cacau sai apressada. Fabiana se levanta.

FABIANA – Sinto muito histologia, mas hoje esse mistério acaba.

CLOSE-UP em seu olhar decidido.

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/QUARTO EXECUTIVO.

Rita deixa seus pertences em cima da cama, a haste onde estava conectado o soro é levada por uma enfermeira. Odélia abria a janela e aprumava o travesseiro.

RITA – Não sei qual a necessidade de me transferirem para um quarto executivo, coloquem uma família grande aqui, eu não preciso todo desse luxo.

ODÉLIA – Eita mulher porreta. A militância não desgruda de você um minuto.

Meire entra no quarto com Caio gravando.

MEIRE – E o vlog dessa semana será com ninguém menos que uma grande profissional aqui do hospital Orlando Moça.

RITA (sorrindo de felicidade) – Ah! Eu não acredito.

A enfermeira e Odélia sorriem também.

MEIRE – Doutora Rita Sanders.

E a filmagem se transforma na filmagem da câmera de Caio. Zoom em Rita corada.

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/ESTACIONAMENTO.

Mateus pede para Elder estacionar o carro.

MATEUS – Chegamos. E então, você entendeu?

GORAM – Entendi sim. Jaikúi do zero e teremos aula todos os dias da semana durante a phyare lá na mansão pelo menos até o meu intercâmbio.

MATEUS – Isso mesmo.

GORAM – Então, nos vemos agã mais tarde.

Ele tenta abrir a porta, mas estava travada. Mateus solicita.

MATEUS – Espere!

Silêncio. Goram se vira para ele, disfarçando a raiva.

MATEUS – Queria só reforçar meus agradecimentos a você por desde cedo fazer o nome da nossa Universidade ser ainda mais prestigiado. A Entrega das medalhas acontecerá na quinta-feira da semana que vem, os pratistas e bronzistas estarão lá para te invejar, mas isso não vai te abater, porque você é muito mais que isso.

Goram estranha todos aqueles excessos de elogios.

GORAM – Só estou tratando ápe como se fosse minha família, cherogaygua, é realmente um lugar muito acolhedor, acredito que até já fiz parte disso em outras vidas.

Mateus ri alto.

MATEUS – Realmente as religiões indígenas parecem fascinantes nas suas pretensões em imitar o Kardecismo.

Goram o encara sério. Mateus controla sua emoção.

GORAM – Até hoje ka’arupytu.

A porta é destravada e o índigena sai.

MATEUS – Até…Goram!

E sorri de canto de boca.

CORTAR PARA :

CENA 19/SÃO PAULO/TATUAPÉ/INT. CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/BANHEIRO MASCULINO TÉRREO/MANHÃ

Goram entra correndo com nojo e lava o pescoço, os braços desesperadamente tentando tirar O impregnado do perfume doce de Mateus.

GORAM – Maldito! Jejuka! Jehuvai! Cínico! Como ele pode ser tão falso? Mas quando Goram puser as mãos…

ANDRÉ – Puser as mãos em quem, Goram?

Goram se vira assustado e acaba derrubando ao bater o braço o celular do amigo. André voltava de uma das cabines sanitárias.

GORAM – Desculpa, mano. Eu nem sei onde eu tava com a akã. Eu…

Ele vê a foto de plano de fundo de André.

GORAM – Aipo mulher!

ANDRÉ – Que mulher?

Goram pega o celular.

GORAM – Égua braba! É ela mesma!

ANDRÉ – Ela quem?

GORAM – Quem éha’e? (Ele aponta)

ANDRÉ – É Ângela, uma antiga vizinha, aqui está a filha dela, eu, papai e mamãe.

GORAM – É ela mesma. A sequestrada.

ANDRÉ – Sequestrada? Do que você tá falando, cara?

GORAM – É uma longa káso, acho que eu sei onde essa mulher está.

ANDRÉ – VOCÊ SABE? Filha dela esteve antes de ontem lá em casa, mamãe me contou.

GORAM – Mas essa história é segredo tembireko!

ANDRÉ – Por quê? Não vai me dizer que você está metido neste sequestro?

GORAM – Leseira Baré, mano, claro que não. Mas tem a ver com uma história minha de infância. Che promete que vau te contar com calma depois, não tem gui esconder de você. Mas você tem o endereço dessa guria?

ANDRÉ – De Pamela?

GORAM – Nei!

ANDRÉ – Aqui não, mas ela deixou com minha mãe. Posso ver com ela.

GORAM – Mina, faz isso.

ANDRÉ – Você vai até lá?

GORAM – Vou sim. Já gueteri sei como conseguir uma aliada.

CORTAR PARA:

CAPÍTULO 20/SÃO PAULO/EXT.CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/MANHÃ

Samuel, Escova e Pedro estão zoando de um calouro quando Vitor chega com Miguel.

SAMUEL – Chegou o ladrão!

VITOR – Será que eu sou o ladrão ou você armou para mim?

SAMUEL – Ui, ele tá hoje me acusando. Você não sabe não reconheceu que é um ladrão, que roubou a mochila do treinador de vôlei com a carteira dentro e que seu plano deu errado e ele te flagrou?

VITOR – Verônica Bacamarte. Rafaela Monteiro.

A face de Samuel se transformou em pânico. Miguel trocou olhares sarcásticos com Vitor.

PEDRO – Vocês piraram? Quem são essas pessoas?

VITOR – E então, Samuel, será que vamos poder conversar a sós por um minuto.

Samuel desce do banco.

ESCOVA – Você vai com eles?

SAMUEL – Vou sim, qual o problema? Sei me cuidar.

CORTE DESCONTINUO.

ATRÁS DO PRÉDIO CENTRAL

Vitor taca Samuel na parede.

VITOR – Você vai reconhecer para o treinador que armou para mim, que plantou a mochila dele no meu armário, você tá ouvindo? Se não a facul inteira vai saber do seu probleminha sexual com as mulheres. (Ri). Que nem o Viagra funciona!

Miguel gargalha.

Vitor solta a gola de Samuel.

VITOR – Quero que até o final do dia essa situação esteja resolvida, se não, já sabe.

E deixa Samuel entre a cruz e a caldeirinha.

CENA 21/SÃO PAULO/MINHOCÃO/EDÍFICIO MASCARENHAS/APARTAMENTO 74/SALA/MANHÃ

CACAU aperta a campainha e com muita dificuldade Guilherme abre.

CACAU – Meu Deus, Guilherme! Você não está nada bem! Vou chamar um uber para gente agorinha mesmo.

GUILHERME – Eu dirijo até a clínica!

CACAU – Você ficou maluco? Nesse estado?

A campainha toca novamente.

CACAU – Você tava esperando alguém?

GUILHERME – Não. Talvez seja o mecânico, chamei ele para ver a tubulação do gás, mas não me lembro se era hoje…

Cacau abre a porta e dá de cara com a filha que se adentra.

FABIANA – Então esse é o seu namorado, mamãe?

Cacau fica boquiaberta. Guilherme contempla com os olhos mareados a filha.

CENA 22/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/ENFERMARIA ENDOCRINO/MANHÃ

André, Heloísa e Suzy conversam com Doutora Gabriele.

HELOÍSA – Então agora o quadro dele é estável?

Ao fundo observamos Hector descansando.

GABRIELE – Sim, deu tudo certo com a cirurgia.

SUZY – Fico feliz, porque pelo que pude acompanhar do caso por Helo, era bem complexo.

GABRIELE – Sim, tudo começou com as moscas volantes por conta do descolamento de retina oriundo do Diabetes Melittus tipo 2 que na verdade fora causado por excesso de cortisol dado a síndrome de cushing. Entretanto, não havia motivos para ele ter excesso de cortisol já que havia realizado há alguns anos a retirada das adrenais, assim só um tumor hipofisiário para explicar esse excesso.

ANDRÉ – Ual! Que caso clínico!

GABRIELE – Mas não se acostumem, nem sempre teremos casos clínicos mirabolantes, o que vocês mais vão ver é Infarto, DPOC, IRA

ANDRÉ – DPOC?

HELOÍSA – É doença pulmonar obstrutiva crônica, geralmente associada ao tabagismo. São duas comorbidades: bronquite crônica associada a enfisema pulmonar.

SUZY – E IRA? O que significa?

HELOÍSA – Insufiência Renal Aguda.

GABRIELE – Muito bem, Heloísa. Quando chegar a semiologia terá muito mais facilidade no segundo ano.

ANDRÉ – Gente, vamos visitar a Doutora Rita, soube que ela foi transferida para o quarto.

Heloísa fica meio sem jeito. Suzy concorda com André.

CORREDOR DOS QUARTOS EXECUTIVOS

Rita está saindo para caminhar com Odélia pelo hospital a fim de tomar um ar quando o trio chega.

ANDRÉ – Professora!

RITA – Olá, meus queridos. Chegaram bem na hora que eu iria fazer minha voltinha pelo jardim. Querem me acompanhar? Onde está Goram?

Heloísa se incomoda com aquela pergunta.

ANDRÉ – Foi resolver uma questão familiar.

RITA – Uma questão familiar? Está tudo bem?

Marcela aparece no final do corredor extremamente mal.

SUZY – Gente, aquela é Marcela?

HELOÍSA – É sim.

ANDRÉ – Ela tá chorando.

Eles se aproximaram e a ex-prostituta os abraça.

RITA – O que aconteceu Marcela?

MARCELA – Uma das minhas irmãs de profissão está morrendo.

Close alternado. André sente-se mal. Heloísa põe a mão no ombro do Suzy que se desespera. Rita troca olhares com Odélia.

CENA 23/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS.

Entardece na Capital Paulista na música Entrelinhas de Ana Vilela…

CENA 24/SÃO PAULO/SANTO AMARO/BURACO QUENTE/CASA DE PAMELA/TARDE

Instrumental dramático. Um uber estaciona, a porta de trás abre, dele um sombra sai e se encaminha até a casa, olhando pelas janelas para ver se havia alguém lá dentro. Vemos por uma janela que vai encontro a outra atrás da casa, o reflexo difuso de um homem. Ele nota também um porta-retrato de Pamela e Ângela em cima de um móvel. Volta-se para a caixa de correio encostada na porta da sala. Olha-se para a rua ao redor. Sem sinais de alguém, empurra uma carta para dentro que foi retirada do bolso da bermuda. A imagem volta de supetão para Goram ansioso.

CENA 25/RORAIMA/BOA-VISTA/IMAGENS AÉREAS

CENA 26/RORAIMA/BOA-VISTA/APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/QUARTO DE ARAPONGA/TARDE

Araponga termina de fazer uma montagem no photoshop em que ela une sua foto a de Bernardo.

ARAPONGA – Meu amor! Mal vejo a hora de estar junto contigo.

Ela pega a passagem e abraça junto ao peito.

Ela então salva a montagem em sua pasta de fotos e o computador acaba travando numa foto dela com Goram ainda crianças. O ursinho de pelúcia do rapaz estava na imagem também.

ARAPONGA – Mas o que essa foto ainda está fazendo aqui? Eu odeio esse falso índigena. Merda! Não consigo apagar essa foto!

Até que ela consegue.

CENA 27/SÃO PAULO/SÉ/INT. CLÍNICA LAURINDO PEIXOTO/TARDE

Fabiana terminava de conversar com o oncologista responsável. Guilherme mesmo enfraquecido e ictérico em cima de uma cama contemplava o jeito da filha. Assim que terminou de conversar, ela se aproximou deles.

CACAU – Eu ainda não engoli essa história da senhora me seguir, ouviu mocinha?

FABIANA – Mas uma hora isso iria acontecer, a senhora faltando no trabalho, mantendo esse mistério todo.

GUILHERME – Deixe ela Cacau. Apenas uma jovem curiosa.

CACAU – Curiosa e desconfiada da mãe, isso sim.

GUILHERME – Mas me conta, filha…

SILÊNCIO. Ele troca olhares com Cacau.

GUILHERME – Mas então menina, o que o médico disse?

Fabiana nem suspeita que o vocativo era literal.

FABIANA – Bom…ele disse que é muito importante você se hidratar e descansar, porque logo mais iniciará as sessões de quimio.

Era perceptível um tom de compaixão na voz dela, dado a gravidade do quadro de Guilherme.

GUILHERME – E quanto a icterícia?

FABIANA – É esperado no quadro, já que há compressão dos ductos biliares pelo tumor pancreático. Vão tentar desobstruir com alguns fármacos.

CACAU – Vai ficar bem, meu querido. Logo logo.

Fabiana abaixa a cabeça melancólica.

CENA 28/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPOS UNIVERSITÁRIO OLIMPIUS/QUADRA DE VOLEI/TARDE

Treinador percebe que Miguel e Vitor estão sentados num banco assistindo aos treinos.

TREINADOR – O que esse ladrãozinho está fazendo aqui? Será que você não entende que seus dias como jogadores nesta universidade acabaram?

VITOR – Eu não sou ladrão e o senhor não pode me proibir de assistir aos jogos. E creio que ainda hoje essa história irá se esclarecer.

Samuel chega acompanhado de Escova e Pedro. Troca olhares com Vitor que o intimida.

SAMUEL – TREINADOR!

Vitor e Miguel se levantam.

TREINADOR – Samuel? O que fazes aqui?

SAMUEL – Será que posso ter uma palavrinha com o senhor em particular?

TREINADOR – Claro, claro. Assim que terminar o treino, conversamos.

CORTE DESCONTINUO.

Os jovens estavam indo para o vestiário masculino.

SAMUEL – Eu queria pedir desculpas pelo que fiz.

TREINADOR – Desculpas? Mas pelo quê?

SAMUEL – Eu armei para o Vitor e implantei a sua mochila no armário dele.

TREINADOR – VOCÊ FEZ O QUÊ?

SAMUEL – Eu implantei sua mochila no armário dele! Porque eu queria que ele parasse de treinar.

Treinador olhou para o Vitor nos bancos que o olhava meio sentido.

TREINADOR – Nós vamos levar essa questão para diretoria do curso agora! Por que o que você fez foi…moleque!

E puxa o jovem pelo braço. Vitor respira fundo. Miguel abraça o amigo.

CENA 29/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/ENFERMARIA DE EMERGÊNCIAS CLÍNICAS/TARDE

André, Rita, Odélia, Marcela, Heloísa, Suzy chegam no leito onde Persépolis tremia a calafrios. Larissa segurava a mão da jovem trans.

RITA – Já fizeram a reposição volêmica dela?

ENFERMEIRA – Já sim, mas o nível de saturação continua caindo, estamos pensando em entubá-la.

RITA – Como você se chama, minha linda?

Persépolis pegou na mão dela com força.

PERSÉPOLIS – PERSÉPOLIS! Você…vejo nos olhos, é igual a mim?

RITA – Eu não entendi…

PERSÉPOLIS – Você é uma mulher trans também.

Rita ficou em silêncio, os outros trocaram olhares.

RITA – Não sei se sou.

PERSÉPOLIS – Claro que você sabe.

Rita ficou em silêncio.

PERSÉPOLIS – Talvez…tenha apenas medo de assumir, assumir quem é. Mas eu não te condeno, é um caminho, sem volta e lidar com o preconceito nem sempre é fácil.

RITA – Quantos anos você tem?

PERSÉPOLIS – Tenho 25 e como muitos trans vou partir antes da nossa tão divulgada e escandalizada expectativa de vida de 35 anos.

LARISSA – Oxi, Perse, deixe disso. Você vai viver mulher!

PERSÉPOLIS – Tudo que eu quero agora é uma boa dose de realismo. Falam tanto que somos o país que mais mata, que temos essa expectativa, mas nada é feito pelas políticas públicas. Ninguém nos olha, na real.

RITA – Eu sinto muito isso também…

PERSÉPOLIS – Sente nada, a senhora é médica, tem o que comer, onde dormir, todos os dias e consegue um namorado ou uma namorada num piscar de olhos, o dinheiro move o mundo, Dona e quem dele possui se farta do que quer.

RITA – Mas nem sempre foi fácil, eu vim de uma família muito simples do interior da Bahia.

PERSÉPOLIS – Mas nunca passou fome, certo?

Rita concordou.

PERSÉPOLIS – Então a senhora não sabe o que é isso. As ruas de São Paulo fingem nos cartões postais parecerem organizadas, belas, mas o que muita gente não sabe, é que por trás de tudo isso, escondem a marginalização de pessoas como nós, prostitutas, ainda mais se você for trans.

Rita nada disse, emocionou-se.

PERSÉPOLIS – Os caras saem com você por um exotismo, por te acharem muito diferente, usam nossos corpos com mero fetiche, porque temos geralmente muitas possibilidades a oferecer, mas depois nos jogam fora, isso quando nos matam. Quando o verniz da civilidade é rompido, dona, vemos o quanto monstruosa a natureza humana consegue ser.

Rita estava nitidamente chorando.

RITA – Você tá certa, não podemos comparar situações tão distintas. Eu sinto muito por tudo que te aconteceu…

PERSÉPOLIS – Sente nada, se sentisse iria estar na rua, dando emprego a essas pessoas, montando fundações, patrocinando as poucas lideranças que olham para nós. Não basta apenas levantar a bandeira de inclusão, dona, tem que pôr a mão na massa.

A jovem começa a tossir muito, geme e suspira, falecendo de olhos abertos.

Larissa leva a mão no rosto num ato de amparo. Marcela abraça os amigos. Rita chora feito criança deitada no corpo da jovem. A cena se apaga.

CENA 30/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

ANOITECE AO SOM DE SOMETHING JUST LIKE THIS DA BANDA COLDPLAY.

CENA 31/SÃO PAULO/SANTO AMARO/BURACO QUENTE/EXT.CASA DE PAMELA/NOITE

Pamela estava sentada na escadinha do lado de fora da sua casa observando o amarelado da iluminação da rua. Ao longe se ouvia latidos de um vira-lata.

PAMELA – Mãezinha, onde você está?

Ela põe a mão na nuca de uma forma brusca num ato de preocupação e se levanta para casa, quando percebe que na caixa registradora havia documento.

PAMELA – Claro. As contas já chegaram!

Ela percebe que só havia uma carta sem remetente.

PAMELA – Uma carta anônima?

Ela abre rapidamente e percebe ser um aviso:

Eu sei onde está sua mãe. Ela foi sequestrada. Está no seguinte endereço que segue abaixo, isso não é um trote, aconselho você ir até lá no período noturno, porque talvez se encontre com o mandante de tudo isso. Coragem. Estou contigo. Se precisar chamar a polícia, faça isso, sem pestanejar.

ENDEREÇO

Pamela leva a carta junto ao peito. DESESPERO.

CENA 32/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/EXTERIOR/NOITE

Catarina chega ao encontro de Goram.

CATARINA – Desculpa a demora, eu estava terminando de orientar os cozinheiros para o jantar.

Goram percebe que Bernardo está saindo de casa em seu carro, do jeitinho que pensara.

GORAM – Égua braba, eu me esqueci chovy do meu laptop. Acho que vou ter que jujevy para casa.

CATARINA – Não se preocupe, temos muito computa…

Goram olha em sua mochila e constata a bateria de seu celular, monta na sua bicicleta e sai disparado atrás de Bernardo. Catarina fica sem entender.

CENA 33/SÃO PAULO/SANTA EFIGÊNIA/EXTERIOR CASA DESCONHECIDA/NOITE

Um ônibus passa a toda velocidade na avenida, revelando a presença de Pamela com a carta na mão, ela guarda na bolsa e enxuga as lágrimas.

PAMELA – É aqui!

Ela respira fundo e avança em direção a casa, apertando a campainha. Não demora muito para Reinaldo aparecer.

REINALDO – Pois não?

Mas em um golpe certeiro na sua genitália, Pamela consegue entrar correndo.

SALA DE ESTAR.

PAMELA – MÃE!

Ela se depara com Ângela amarrada numa cadeira, amordaçada, num aspecto deplorável de higiene. A idosa esbugalha os olhos.

PAMELA – O que fizeram com a senhora?

Reinaldo surge por trás e contém a menina com arma na cabeça.

REINALDO – Infeliz! Vou mandar você para o inferno pelo golpe que me deu!

Caíque surge na sala sem entender, vindo dos fundos e Ângela grita pondo a mão no peito, tem um infarto fulminante.

SILÊNCIO.

SLOW-MOTION. Caíque vira a face para a idosa se debatendo. Reinaldo e Pamela param de se enfrentarem. Ouve-se batidas aceleradas num até que um único ruído como se um monitor multiparâmetro multicardíaco estivesse conectado a idosa.

Close-up no rosto desolado de Pamela.

PAMELA – MANHÊEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!

CONTINUA…

 

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NAVEGAR

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