Estação medicina

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Capítulo 14

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ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 14

REVELAÇÃO

 

FADE IN

CENA 01/GUARULHOS/AEROPORTO/LANCHONETE/MANHÃ

Araponga pega seu café no balcão e se senta numa mesa. Bernardo com olhares perdidos já sentado à mesa.

ARAPONGA – Estou tão feliz de estar aqui com você. Por Maíra e Macunai-íra! Tu é muito mais bonito do que pelo computador!

BERNARDO – E você muito mais gostosa…

Araponga se envergonha.

ARAPONGA – Bernardo não vai pedir nada?

BERNARDO – Não, vou esperar você comer.

E perde seu olhar novamente.

ARAPONGA – Tu está bem? Estou sentindo meio aéreo.

BERNARDO – Uns problemas. Mas não é nada com você.

Araponga pega suas mãos.

ARAPONGA – Se Araponga puder ajudar…

BERNARDO – Pior que não consegue, só eu posso resolver. Mas me conta como você conseguiu enganar sua família e vim para cá? Sua avó não ficava na sua cola?

ARAPONGA – Aquela coruja velha nem sabe, saí quando sy’y foi ao mercado, deve achar que Araponga ainda deve estar dormindo, porque tranquei o quarto.

BERNARDO – Você é uma sapeca.

ARAPONGA – O Mundo é dos espertos, meu fio.

Ele ri alto e eles trocam beijos maliciosos.

CORTAR PARA:

CENA 02/RORAIMA/BOA VISTA/VISTA ÁEREA

CORTAR PARA:

CENA 03/RORAIMA/BOA VISTA/APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/COZINHA/MANHÃ

Mostrar a cidade com vistas aéreas antes.

VITÓRIA-RÉGIA bate na porta de Araponga.

VITÓRIA-RÉGIA – Curuminha, acorda. Vamos, tu precisa ajudar a sua ouitê a vender a roupa!

Mas ninguém responde. Vitória pega um pouco de café. Gole brusco.

Epífita sai do quarto pronta.  

EPÍFITA – Ela ainda não acordou?

VITÓRIA-RÉGIA- Que nada, está dormindo, feito pedra; Deve ter saído para as noitadas dela, isso sim e voltado meomé

EPÍFITA – Por tupã, mas eu preciso de Araponga, não vou conseguir passar em todos os bairros que preciso e deixar as encomendas.

A mulher bate no quarto da filha.

EPÍFITA – Piá, mamãe precisa de você! Se não vou ter que remarcar as entregas. Acordar, Piá.

VITÓRIA-RÉGIA – Mas essa curuminha é muito folgada, isso é falta de cobrar, Epífita. Você é muito mole com a ekuela dela, umas boas palmadas quando criança, resolveria, mas você quis ensina-la na base da psicologia.

EPÍFITA – Ensinar com violência não é o caminho, minha itajýra cresceria revoltada comigo. Educar é com o diálogo.

VITÓRIA- RÉGIA – É tanto com o diálogo que hoje ela te agride, Vitória Régia sabe.

EPÍFITA – Ani exagera, mãe!

VITÓRIA-RÉGIA – Ani exagera, mãe? Pensa que não vejo os hematomas nos seus jyvá? Pensa que não escuto as brigas de vocês? Tu pode enganar o seu marido, mas a Vitória Régia não engana.

EPÍFITA (volta a bater) – Abre a porta, piá. Puxa vida, a Epífita vai ter que remarcar muitas entregas.

Vitória balança a cabeça num tom de reprovação.

EPÍFITA – O jeito é remarcar, porque Araponga pelo jeito não vai sair tão cedo.

E sai. Vitória-Régia diz para si mesma.

VITÓRIA-RÉGIA – Quando Epífita vai aprender a lidar com essa curuminha?! Égua braba!

CENA 04/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/EXTERIOR HOSPITAL

GORAM – Se acalma, mano. Tu está muito agitado!

ANDRÉ – Como não vou estar? Você sabia de uma informação que poderia ter evitado toda essa tragédia!

GORAM – Ani é bem assim, André. Goram vai te explicar.

ANDRÉ – Então me explica, porque eu não sei mais se posso confiar em você.

GORAM – Como assim, cara?

ANDRÉ – Quem me garante que você não está envolvido com isso.

Goram o chacoalhou, incrédulo.

GORAM – André ficou maluco? Sou eu, Goram, seu angirú.

ANDRÉ – Eu nem sei mais se posso te chamar de amigo.

GORAM – Égua nossa…Senta aqui.

Eles se sentam no banco. Goram fica receoso de contar.

ANDRÉ – Me conta, cara. O que você sabe?

Goram respira fundo.

GORAM – Está bem…Goram vai te contar. Mas eu vou te pedir para tu não contar para ninguém.

ANDRÉ – Você sabe que pode contar comigo.

GORAM(DISPARA) – Goram sabe quem sequestrou Dona Ângela!

ANDRÉ – QUEM?

GORAM(DISPARA) – O cúmplice do meu kyvy.

ANDRÉ – Seu irmão? Lá de Roraima?

GORAM – Ani.

ANDRÉ– Eu não tô entendendo mais nada.

GORAM – Minha família de sangue não é lá de Roraima, eles me adotaram, Goram é herdeiro de Orlando Moça.

André esbugalha os olhos.

ANDRÉ – O Quê? Você é herdeiro desta faculdade?

GORAM – Hee, che.

ANDRÉ – Cara, você tá zoando com essa história, né?

GORAM – Queria estar zoando. Mas ani estou.

André(passado)- Mas então o seu irmão, não me diga, é o…

GORAM – Hee, Mateus Moça.

ANDRÉ– Mas, como assim, o cúmplice dele foi o mandante do sequestro?

GORAM – Eles são dois jejukas, assassinos, André. Meus pais não morreram numa tentativa de roubo a mansão e nem eu fui sequestrado por bandidos, eram mokoi o tempo todo. Aquele monstro que é meu irmão junto com o marido dele assassinaram meus pais a sangue frio e tentaram dar fim de mim, para ficar com todo dinheiro, mas Goram sobreviveu…eu sobrevivi e eu voltei…para fazer justiça pelos meus tuá.

Instrumental catastrófico. Seus olhos lacrimejavam de cólera. Tremia. A face de André se transformou.

CENA 05/SÃO PAULO/TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/EXTERNO.

Suzy sai pela calçada ao lado da ciclovia e está descendo a rua quando avista um casal de lésbicas atravessando a rua. Olhos vidrados. Casal atravessa rua feliz de mãos dadas. Uma das meninas performava masculino para Suzy, cabelo curto azul, camisa social, tatuagem. Ela se aproximou. Escuta.

MENINA – Eu te amo tanto, gato.

Suzy percebeu que a outra menina se tratava de um homem trans. Falava com uma voz mais grossa.

LUCCA – Nem preciso falar o que sinto por você, né?

Suzy sentiu-se mal. Encolheu-se. Uma folha caiu do alto daquelas árvores em seu cabelo, nem percebeu. Assustou-se quando uma moto buzinou para ela. Estava no meio da rua. Olhou para o relógio, estava atrasada para aula, apressou os passos.

CENA 06/SÃO PAULO/TATUAPÉ/QUADRA DE FUTEBOL

Eliane assiste de longe Guto fazer alguns gols sem camisa com o peitoral sarado.

ELIANE (sussurra)– De hoje ele não me escapa.

VIVIANE – Isso mesmo, entra em campo.

CORTE DESCONTÍNUO.

Guto vai vestir a camisa que pendurou num arame da quadra, despedindo-se dos amigos, quando Eliane aparece mordendo o indicador.

ELIANE – Você joga bem, hein?

Ele sorriu para ela meio sem graça.

GUTO – Você acha?

Eliane joga o cabelo.

ELIANE – Acho sim. Manda muito bem no pé, eu já mando melhor com as mãos.

GUTO – Ah é? Joga Hande?

ELIANE – Basquete!

GUTO – Que legal. Tá no time da atlética?

ELIANE – Estou sim.

GUTO – Ah…qualquer dia vou te ver lá, gatinha.

ELIANE – Vai sim, vou adorar.

GUTO – Agora, preciso ir, porque vou dar um pulo tomar uma ducha e ir para academia, hoje não tenho mais aula.

ELIANE – Puxa, eu ainda tenho correlação clínica, caso da queimadura.

GUTO – Ah é, você é da minha turma, eu esqueci, nossa, que chato que vai ter mais aula hoje, eles dividiram em pequenas turmas, né?

ELIANE – Sim. Tédio.

GUTO – Mas, relaxa, é um caso rápido.

ELIANE – Tomara. Porque dermato não é minha praia.

GUTO – Nem a minha. É isso, nos vemos por aí.

ELIANE – Com certeza.

Ele a cumprimenta com um beijo no rosto e ela treme por dentro.

GUTO – Até mais…como é seu nome, gatinha?

ELIANE – Eliane!

GUTO – Prazer Guto!

ELIANE (PARALISADA) – O Prazer é todo meu!

Ele sorri para ela e parte. Ela se segura no arame. Viviane que escutava meio escondida, perto, aproxima.

VIVIANE – Eu não falei que o flerte, vinha?

ELIANE – Ele é um deuso! O meu deuso!

VIVIANE – Sim, dá um bom caldo.

ELIANE – Agora só preciso me certificar que aquela preta saia do meu caminho, porque eu vou lutar por este homem.

Close em seu rosto determinado.

CENA 07/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/EXTERIOR HOSPITAL

ANDRÉ – Você tá me dizendo que ela foi sequestrada porque chantageou ele?

GORAM – Isso mesmo, mano. Goram ouviu no dia que fui num jantar na mansão com alguns investidores, ela ia contar a Mateus, a imprensa, sobre a vida dupla dele, aquele jejuka ficou desesperado e tratou de dar um sumiço na mulher.

ANDRÉ – Eu ainda estou…sem ar com toda essa história. Quem mais sabe disso? Olha o que esses dois fizeram com você, com seus pais, com a vida de Pamela, eles são perigosos, muito perigosos.

GORAM – Só tu e minha prima Themise que sabe. Podem até ser, mas eu não tenho medo não.

ANDRÉ – Você está louco? Se eles descobrirem quem você é, não vão pensar duas vezes e vão tentar te apagar.

GORAM – Eles é que não são loucos, eu não sou mais aquele piá idiota que tinha medo deles, eu voltei de longe para botar aqueles dois atrás das grades, se alguém temer alguém, são eles em relação a mim. Hikúai não sabem do que eu sou capaz. E eu vou fazer a vida deles um inferno, isso André pode ter certeza.

Heloísa volta com seu açaí.

HELOÍSA – Certeza de que amor?

Goram mudou rápido de assunto.

GORAM – Certeza de que Goram será aprovado em bolsas de pesquisa internacionais, tava contando aqui para o André sobre possibilidades que o intercâmbio vai me mee.

HELOÍSA – Isso, sem dúvidas. Mas você tá bem abatido André. Aconteceu algo?

André se levanta do banco.

ANDRÉ – Não, só a mãe de uma antiga vizinha que faleceu de infarto. Ela era muito querida por nós.

HELOÍSA – Nossa, eu sinto muito mesmo.

ANDRÉ – Obrigado.

GORAM – Bom, acho que já deu o horário da aula, vamos capar o gato?

HELOÍSA (ri) – Vamos capar o gato, que eu odeio chegar atrasada.

Os amigos trocaram olhares, enquanto Heloísa ia na frente sem desconfiar de nada.

CENA 08/SÃO PAULO/IMAGEM AÉREA

Mostrar alguns terminais de metrô. Arte grafite em alguns muros. Prédios em construção. Sinais abrindo. Transeuntes atravessando Av. Paulista. Entardece.

 

CENA 09/SÃO PAULO/TATUAPÉ/APARTAMENTO DE MEIRE/INTERIOR/SALA DE ESTAR/TARDE

 

Toca a campainha. Ela abre a porta. Mulheres vibram ao fundo. Na entrada, se vê uma mulher quarentona com olhos vendados com uma fita e grávida. Ela estava acompanhada de mais duas mulheres.

MEIRE – Ah, chegou quem estava faltando. Fátima. Nossa grávida. Agora sim, podemos começar a festa.

CORTE DESCONTINUO.

Ela é sentada numa cadeira e várias mulheres vão a pintando, umas borram o batom, outras fazem da pele sobre a barriga um alvo de dardo, outras fazem olheiras. Gargalhadas altas.

MEIRE – Tá ficando bonita, hein? Essa futura mamãe!

Ela pinta o rosto de Fátima com canetas vermelhas, fazendo sardinhas na bochecha. A anfitriã se aproxima de uma empregada.

MEIRE – Pode já servir os doces.

Depois, segue para seu quarto.

CORREDOR

MEIRE – Tudo certo, Bella? Conseguiu amamentar a Clarinha?

Ela abre a porta de seu quarto e escuta um chiado estridente, os peitos de Bella estão às mostras.

QUARTO DE HÓSPEDE

MEIRE – O que aconteceu?

BELLA – Ela parou de mamar, está chorando muito.

MEIRE – Mas começou do nada?

BELLA – Sim. Não consigo fazê-la parar.

MEIRE – Deixe me ver, dê-me a aqui.

Instrumental de drama médico. Big-close-up nas pontas dos dedos de Clarinha arroxeada.

MEIRE (sussurra) – Baqueteamento digital.

A bebê de sete meses para de chorar. Meire estranha e percebe que a bebê desmaiou em seu colo. Close no rosto de preocupação de Bella.

BELLA – O que aconteceu? O que aconteceu? Ela desmaiou?

Uns segundos em silêncio enquanto Meire deposita Clarinha na cama do quarto. Contra-Ponglée. Zoom na face de Meire que se transforma. Cortar brusco para ela tocando o pulso carotídeo da bebê.

MEIRE – Ao que parece sim.

Fecha no rosto de Bella desesperada.

 

CENA 10/SÃO PAULO/CENTRO/CEMITÉRIO DAS FLORES/TARDE

Algumas pessoas caminham ao redor de um túmulo numa espécie de procissão. O caixão é descido na cova. Takes mostram um padre abençoando aquela alma que partira. Outras pessoas fazem o sinal da cruz, oram um pouco, aproximam-se da cova. Uma delas vestida de preto, em lágrimas era Pâmela estava acompanhada de Bernardo meio a contragosto. Ele estava de óculos escuros.

PÂMELA – Ai, mãe. Como você vai fazer falta, eu te amava muito, muito e vou para sempre te amar.

E começou a chorar. Bernardo acariciou a jovem meio entediado. Outras pessoas se aproximaram para acalentá-la.

Por trás dele, vemos no fundo, André acompanhado de sua mãe. Num primeiro momento, ele não desconfia de nada.

BERNARDO – Vai ficar tudo bem, meu amor. Você é forte.

PÂMELA – Nada mais importa agora para mim, só esse filho que estou esperando. Nosso filho.

BERNARDO – Fale mais baixinho. Sou uma figura pública.

Corte descontínuo. As pessoas jogam rosas brancas ao som de um marcha fúnebre. Corvos piam alto em algum lugar. Plano Geral. As pessoas se dispersam pelas várias saídas do cemitério. Eleonor se aproxima de Pâmela no portão.

ELEONOR – Minha filha.

Elas se abraçam. Pâmela chora em seus braços. André percebe um tom sombrio naquele homem.

ELEONOR – Eu tenho certeza que a justiça vai ser feita e esses criminosos logo mais estarão atrás das grades.

PÂMELA – Nós não tínhamos praticamente nada financeiramente, Dona Eleonor. Só tínhamos amor e até isso foi nos tirado. Por quê, Dona Eleonor. Por quê?

ELEONOR – Isso, apenas Deus sabe. Mas eu tenho certeza que sua mãe está num lugar melhor.

PÂMELA – Ela morreu num ato de desespero, porque me viu na ponta de uma revólver, você tem ideia do que é isso? Eu me sinto tão culpada.

Eleonor a abraça novamente.

ELEONOR – Esses pensamentos não vão te levar a nada por agora. Você precisa entender que eles é que possuem culpa por isso, você não tem culpa de nada.

PÂMELA – Há tantas pontos em aberto nesta história, como a pessoa que me mandou o bilhete de onde era o cativeiro.

Os olhares de André se perderam, sabia quem era a autoria do bilhete. Mostrar momento que Goram o revela ainda sentado no banco. Ao recuperar o olhar na situação encontra os de Bernardo que ainda a pouco também estava perdido em pensamentos.

ELEONOR – Vai para casa, toma um chá quente, tenta descansar.

PÂMELA –Está sendo muito difícil fechar os olhos.

ELEONOR – Cuide dela. É seu namorado?

Pâmela trocou olhares com ele.

PÂMELA – É meu ex-chefe. Tem sido generoso comigo. Bernardo Moça.

ELEONOR – Moça? Isso me lembra o curso de medicina do meu filho. Meu filho estuda na faculdade Moça!

PÂMELA – Então estão falando da mesma família Moça.

Bernardo o olha desconfiado. André tem um péssimo pressentimento.

BERNARDO – Ah é? Como esse mundo é pequeno, não é mesmo? Tá cursando medicina, por lá?

ANDRÉ – Estou. Mas nunca te vi por lá.

BERNARDO – E nem me veria, mesmo, quem trabalha lá, é o meu marido, herdeiro da faculdade, Doutor Mateus Moça. Você  deve conhecer?

Instrumental explosivo. André sacou tudo. Revolta.

ANDRÉ – Conheço sim. É o Reitor, né?

BERNARDO – Isso mesmo! Bom, deixe-me ir, vou leva-la para casa e depois voltar a mansão, tenho muito que fazer por hoje.

ELEONOR– Imagino. Fique bem, minha querida. Qualquer coisa que precisar, me ligue, estou a disposição.

PÂMELA – Obrigada, Dona Eleonor. Tchau André.

ANDRÉ – Tchau.

Petrificado com a cara de pau de Bernardo.

ELEONOR – Eu jurava que eles eram um casal. Você também não achou, filho?

ANDRÉ – Sabe que não.

Estava novamente com os olhares perdidos, mas agora focados em Bernardo. Náusea.

CENA 11/SÃO PAULO/VILA MADALENA/APARTAMENTO DE RITA/SALA DE ESTAR/ TARDE

Rita termina sua chamada de vídeo com uma responsável pela organização Brenda Lee, casas de acolhimento a pessoas trans marginalizadas espalhadas pelo país. É possível perceber isso por um diálogo introdutório entre as duas.

RITA – Então, é isso, querida, comprometo-me há uma vez ao mês depositar essa quantia de 20 mil para a organização de vocês. Se precisarem de mais, avisem-me. Magina. Um grande abraço.

A neurologista percebe que o cheirinho de hortelã de seu incenso acabou e sai para cozinha buscar mais. Quando ela retorna para janela da sala, percebe que um beija-flor está cheirando suas flores.

RITA – Neste andar e você por aqui?

Ela tenta acariciar o bichinho, mas ele voa assustado. Ela sai do parapeito e fecha a cortina.

COZINHA

Pega um sorvete de frutas vermelhas na geladeira e puxa uma cadeira, a qual senta.

Ligar flashback: Na delegacia, ela conhece Goram que tentava a todo momento justificar porque André estava preso. Depois quando lhe deu carona e o deixou no apartamento de Adelaide. Quando ele apareceu na UTI.

Desligar flashback. Ela sorri encantada.

CENA 12/SÃO PAULO/LIBERDADE/HOTEL/INTERIOR/TARDE

Bernardo abre a porta, Araponga pula em sua direção. Ele a pega no colo e eles trocam beijos.

ARAPONGA – Achei que tu não vinha mais por hoje!

BERNARDO – Eu prometi que vinha, não prometi.

ARAPONGA – Tu e essa sua vida dupla. Seu ména não desconfia que você joga nos dois times?

BERNARDO – Desconfiar ele pode até desconfiar, mas ele não arruma alguém como eu tão fácil, é difícil para ele me largar.

Araponga gargalha alto.

ARAPONGA – Nisso, Araponga concorda com ele. Porrudo como você tá para nascer e quando nasce dá para contar nas pontas do dedo.

BERNARDO – Tô morrendo de fome, tem algo no frigobar?

ARAPONGA – Só água. Mas pedi umas Heineken para gente e uma pizza.

BERNARDO – Qual sabor de pizza, você pediu?

ARAPONGA – Égua de Largura, cala-frango, não é sua predileta?

Bernardo se aproxima, beijando-a.

BERNARDO – Mas minha princesa, não se esquece de nada, não é mesmo?

ARAPONGA – Araponga ainda casa com Bernardo, você vai ver.

BERNARDO – Quem sabe? Vou tomar uma ducha, tirar cheiro de cemitério.

ARAPONGA – Tyvyty? Quem foi o presunto desta vez? Parente seu? Do outro lá?

Bernardo ri.

BERNARDO – De uma ex-empregada, fomos prestar nossos pêsames.

ARAPONGA – Pirarucu! Que ex-patrões legais tus são.

BERNARDO – Pois é, somos.

Ele entrou no banheiro e fechou a porta.

BANHEIRO

Estava tirando a calça, a camiseta, quando se recordou.

LIGAR FLASHBACK:

CENA 13/SÃO PAULO/SANTA IFIGÊNIA/CASA ABANDONADA/INTERIOR/DIA.

A polícia chega ao local, vê-se luzes coloridas lá fora.

Bernardo estava agachado abraçado com Pâmela que abraçava as pernas de sua mãe já sem vida. Ele se levanta e vai até a porta, depois volta com a polícia. Câmera subjetiva mostra a perna deles se aproximando, uma perna era de Bernardo, as outras duas de farda dos policiais.

BERNARDO – Amor, levanta. O IML chegou.

Ela entendeu depois de alguns segundos. Saiu do transe. Meio zonza, levantou-se e se agarrou nele chorando.

PÂMELA (transtornada) – O Bilhete! O bilhete tava certo!

BERNARDO – Que bilhete?

PÂMELA – Eu recebi um bilhete que dizia tudo sobre onde era o cativeiro.

BERNARDO(assustado) – Onde está este bilhete?

Pâmela estava sem força nas mãos, mas o consegue entregar, ele abre.

FIM DO FLASHBACK.

CENA 14/SÃO PAULO/LIBERDADE/HOTEL/INTERIOR/TARDE

 

Bernardo está olhando para o bilhete que acaba de retirar do terno, suas mãos tremem.

BERNARDO – Quem mandou este bilhete?

Instrumental explosivo. CORTAR BRUSCO PARA:

CENA 15/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/EXTERIOR/TARDE

Big-close-up no rosto de Goram. Fim do Instrumental explosivo. Ele aperta a campainha.

CATARINA – Tudo bom, seu Goram. Doutor Mateus já está descendo para a aula de vocês, preparei um lanchinho para você na cozinha. Pasta de Amendoim com Geleia.

Goram sorri e a cumprimenta com um beijo.

GORAM – Por Tupã! Como é que Catarina adivinhou, Catarina? Goram adora.

Ela sorri feliz pelo seu reconhecimento. Eles se adentram.

CENA 16/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS

Mostrar rodoanel. ABC paulista. Luzes das lojas se fechando no centro estendido. Jovens andando de skates num half. Anoitece.

CENA 17/SÃO PAULO/PENHA/CASA DE ANDRÉ/QUARTO DE ANDRÉ/NOITE

André tenta ficar quieto deitado na cama sobre o lençol, mas não consegue. Levanta. Anda de um lado para o outro aflito. Tenta ligar para Goram.

CORREDOR

Neste instante, sua mãe Eleonor passa pelo corredor e percebe a agitação do filho, observa pelo vão da porta entreaberta.

QUARTO DE ANDRÉ

ANDRÉ – Não tá certo, isso. Ela precisa saber. Ela precisa saber quem foi que sequestrou a mãe dela, aquele cara não pode continuar enganando ela daquele jeito, ela não merece. Dona Ângela foi sempre uma pessoa e tanto, ela não podia ter tido um final assim, não podia!

Naquele momento, Eleonor abre a porta.

ELEONOR – Filho! Você sabe quem sequestrou a Dona Ângela?

Instrumental explosivo. André esbugalha os olhos, gritando de susto.

ELEONOR – Você viu a Pâmela e você escondeu isso?

ANDRÉ – Não, eu não quis…

ELEONOR – Como não quis, filho? Isso é muito grave! Você acabou de falar que Goram também sabe, vocês precisam contar isso a Pâmela! Eu vou ligar para ela agora.

André corre até ela e tampa a passagem da porta.

ANDRÉ – Não, mãe. Eu jurei a Goram que não contaria! Quanto mais gente souber desta história, mais gente vai se machucar.

ELEONOR – Já existem pessoas machucadas nesta história. Do jeito que você fala parece que Goram está envolvido neste sequestro.

ANDRÉ – Ele não está, mãe. Eu te garanto. Por favor não faça nada.

Eleonor passa embaixo do braço.

CORREDOR

ELEONOR – Eu não posso mais permitir uma situação dessas! Se não serei cúmplice disso. Pâmela não merece isso.

Ela tenta ligar do telefone fixo, mas André puxa da tomada.

ANDRÉ – Por favor, mãe. Não faça isso!

ELEONOR – Para, moleque! O que você teme tanto? Está envolvido também?

ANDRÉ – Claro que não.

Eleonor se tranca no quarto e liga para Pâmela. Sem forças para continuar impedindo, o jovem negro se deixa deslizar pela parede do corredor.

ANDRÉ – Meu Deus! O que será desta história agora?

CENA 18/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/MATERNIDADE/NOITE

Caio chega e beija a companheira Meire. Ela estava de frente para um berçário, onde a bebê estava sendo tratada.

CAIO – Meu estágio acabou agora! Bella está bem?

MEIRE – Arrasada! Não entendemos como isso foi acontecer com Clarinha.

CAIO – Você desconfia de alguma coisa?

MEIRE – São muitas possibilidades, eu estava desconfiando de descompensação cardiorrespiratória porque ela tava com baqueteamento digital, mas não encontramos nenhum achado incomum na ausculta pulmonar e cardíaca.

Neste instante, uma enfermeira chega com o hemograma da bebê.

ENFERMEIRA – Doutora, você não vai acreditar no achado do hematócrito.

Meire pega o exame e se choca.

MEIRE – Caramba. Ela está com um quadro eritrocitose muito aumentado, trombocitose também. Ela pode ter problemas sérios com a formação de coágulos, isso pode parar no pulmão. Procure Doutora Bomga, ela deverá saber se a bebê pode ou não tomar aspirina.

Enfermeira sai correndo e Meire se apoia na vidraça no Berçário.

CAIO – Que foi amor, você ficou pálida com este resultado?

Ela volta com os olhos cheios de lágrimas.

MEIRE – Eu tô começando a achar que é Policitemia Vera.

CAIO – Policitemia Vera?

MEIRE – Sim. Câncer, amor. Câncer!

Close no rosto passado de Caio.

CENA 19/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/SALA DE JANTAR/NOITE

Mateus serve-se vinho.

MATEUS – E então entendeu o simple past? Me acompanha com o vinho?

Goram confirma escondendo seu incômodo.

GORAM – Goram entendeu sim, sua aula me ha muito a revisar.  Hee, Goram acompanha.

Mateus se levantou e o serviu. Os lábios do vilão estavam dormentes. Encheu a taça do indígena.

GORAM – Está bom.

O vilão depositou a garrafa na mesa, voltou ao seu lugar.

MATEUS – Posso te fazer uma pergunta indiscreta, meu rapaz?

Goram estranhou.

GORAM – Claro.

MATEUS – Você tem namorada? Namorado?

Instrumental explosivo. As pupilas do anti-herói se destacaram. Um sorriso malicioso surgiu no canto da boca. Big close-up. Hesitou em responder.

GORAM – Ani reko, por quê?

MATEUS – Curiosidade mesmo, um jovem tão bonito e inteligente como você não podia estar solteiro, concorda comigo?

Goram pensou novamente.

GORAM – É… Mateus reko razão.

MATEUS – Né, não? Brinda comigo?

GORAM – Égua. Brindo sim.

Eles brindam e Mateus o come pelos olhos. Goram percebe um interesse.

Na mochila do lado, mostrar o celular vibrando com a luz acesa, mas ele não percebendo. Vemos que era André.

CENA 20/RORAIMA/BOA VISTA/VISTAS AÉREAS

Mostrar a cidade com vistas aéreas.

CENA 21/RORAIMA/BOA VISTA/APARTAMENTO DOS GUAJAJARAS/COZINHA/NOITE

Epífita chega na cozinha trazendo algumas bolsas com roupas e estranha ao ver que o quarto da filha ainda está fechado

EPÍFITA – Esse oga ainda está fechado?

Ela deposita as bolsas na mesa e volta a bater no quarto chamando a jovem.

EPÍFITA – Araponga! Tu ainda está aí? Araponga?

Vitória chega da sala.

VITÓRIA- RÉGIA – Vitória-Régia percebeu agora de pouco que Araponga não saiu do quarto. Chamei ela para almoçar, mas nada.

EPÍFITA – Epífita está preocupada, ela está muito quieta.

Odin chega ao local.

ODIN – O que vocês estão fazendo aí?

VITÓRIA – Araponga não saiu do quarto desde cedo.

EPÍFITA – Estou muito preocupada com ela, amor.

Odin bate mais forte.

ODIN – Araponga! Tu está aí? Leseira Baré. Araponga ou você abre ou eu vou abrir essa porta!

Não se escuta nada.

Ele pula em cima da porta e estoura a porta.

EPÍFITA – Por Maíra, Odin!

O trio entra no quarto e notam que ela não está.

QUARTO DE ARAPONGA

VITÓRIA-RÉGIA – Cadê essa curuminha?

Odin revira os lençóis, olha embaixo da cama. Epífita abre o guarda-roupa e nota que muitas peças sumiram.

EPÍFITA – As roupas!

VITÓRIA-RÉGIA – Araponga levou as roupas?

ODIN – A mala sumiu!

EPÍFITA – A minha piá foi embora de casa?!

Instrumental explosivo. Close alternado. Odin furioso. Vitória balançando a cabeça num tom de reprovação. Epífita preocupada.

CENA 22/SÃO PAULO/BURACO QUENTE/CASA DE PÂMELA/SALA DE ESTAR/INTERIOR

CAM SUBJETIVA. Pamela abre a porta da sala com certa brutalidade. Um uber para em frente, dele saem Eleonor com o filho. Pâmela vai ao encontro de André enquanto Eleonor acerta a corrida.

PÂMELA – Quem sequestrou, minha mãe, André? Fala, Fala de uma vez.

Os olhos dela estavam vermelhos. O Uber parte e Eleonor solicita ao filho.

ELEONOR – Vamos, André. Fale logo quem foi o mandante do sequestro, você sabe que eu sei.

André começa a estremecer.

ANDRÉ – Pombas! Eu prometi para o Goram que eu não falaria nada, eu não posso trair ele.

ELEONOR – Mas trair a Pâmela, sua vizinha de infância, você pode? Ela perdeu a mãe, filho. Você não pode ser tão cruel nessas horas e não perceber o sofrimento que ela está passando. Esse não foi o filho que eu criei, não pode.

André encara Pâmela e ela estava banhada em lágrimas.

PÂMELA – Fala para mim, André. Por favor. Fala.

André se aproxima e toma coragem.

ANDRÉ – Foi aquele homem que te acompanhou no cemitério, ele a sequestrou porque ela chantageou ele com sua gravidez.

Instrumental catastrófico. Close alternado. André põe a mãos nos olhos. Eleonor se horroriza. Pâmela fica incrédula.

FADE OUT

CONTINUA….

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