—Anderson. —segura a mão dele.

—Onde…estou? O que aconteceu?

—Você sofreu um acidente e está no hospital.

—Acidente?

—Sim.

—Onde estão… meus filhos?

—Inácio está lá fora e o Darlan estava no hospital, mas saiu.

—O guri do mato…quase…conseguiu o que queria…

—Não pense nisso, Anderson, o Inácio está muito preocupado com você.

—É mesmo? Deve ser remoço…mas eu…entendo o guri.

—Esqueça essa bobagem, Anderson.

—Se eu morrer agora vou…está muito feliz…porque estou nos braços da minha…ribeirinha. —deu um leve riso.

—Não diga essas coisas, Anderson. Não tem graça.

Logo, entra Marcos.

—Boa tarde.

—Não acredito que…o doutorzinho salvou a minha vida?

—Sinto em te dizer que sim que foi o doutor Marcos que está salvando a sua vida.

—Anderson que bom ver que você já acordou. Passando por aqui para saber como está.

—Doutorzinho…teve a oportunidade de se livrar de…mim…somos arqui-inimigos.

—Neste caso tenho que dizer que o juramento que fiz está acima de qualquer interesse. —olhou para Fernanda. —Me deixa te examinar? —retorna a olha para Anderson.

—Ele não tem o que querer, pode o examinar, Marcos.

—Se a minha ribeirinha ordenou, então, nada posso fazer a não ser…obedecer.

Marcos começa a examinar Anderson enquanto Fernanda os observa de lado.

 

Dentro da mata estava Sami de olhos fechados e sentado envolta de um fogueira, fumava um cachimbo e pega um punhado de uma mistura de sementes, raízes e pétalas de rosas que estavam dentro de um prato de barro. O pajé entrou em estado de elevação espiritual e um vento faziam dançar as campinas até que ele abre os olhos e joga o punhado da mistura sobre o fogo quando de repente um lobo-guará aparece em frente a fogueira. Sami olha nos olhos do animal.

—Oh! Grande Espírito! —abriu os braços.

O vento em total força sobrenatural passou por Sami que viu pelos olhos do lobo-guará uma visão de um fogaréu causando destruição por todo pantanal, os animais fugindo assustados e outros mortos e a aldeia Toriba sendo também consumida pelo fogo e os índios correndo desesperados.

O lobo-guará foi embora e Sami fechou os olhos, fechou os braços e abaixou a cabeça como reverência.

—Agradeço. Liberto. Desperto.

 

Fernanda e Marcos estão conversando no corredor do hospital.

—Como ele está, doutor?

—O quadro de saúde está melhor do que ontem, ainda bem. Se continuar assim logo saíra da UTI e ir para o quarto.

—Graças a Deus, assim espero.

—Estou feliz em te ver apesar dessa não ser uma situação agradável. Sinto saudades.

—Quando tudo isso terminar apareça lá no Almirante.

—Sim, claro.

Uma enfermeira se aproxima do casal.

—Com licença, doutor Marcos, chegou uma paciente em trabalho de parto.

—A gente se fala depois, Nanda.

—Até mais, Marcos.

Marcos sai junto com a enfermeira em direção a um quarto. Fernanda seguiu em direção a sala de espera onde encontra Rafael, Luana e Inácio.

—O Anderson acordou.

—Graças a Deus. —disse Luana.

—Como o pai está?

—Bem, o Marcos o examinou e disse que ele está melhor do que ontem e se continuar assim sairá da UTI e irá para o quarto.

—Ainda bem. Espero que meu irmão continue se recuperando e saia logo desse hospital e cabe com esse pesadelo.

Anahí e se aproxima da família.

—É melhor vocês irem para casa e descansarem.

—Mãe e tios vão pra casa que eu fico.

—Inácio, não se preocupe que eu estou de plantão e vou ficar atenta sobre o estado de saúde do tio Anderson.

—Vamos pra casa, filho, você precisa descansar, comer algo.

—Certo, eu vou pra casa, mas a noitinha eu retorno. Anahí qualquer novidade seja qual for sobre o meu pai, por favor, me liga.

—Pode deixar comigo, Inácio.

 

Na sala do casarão,  Darlan está sentado no sofá enquanto Tânia colocava uma bandeja com uma garrafa de aguardente e um copo em cima do móvel.

—Isso, coisinha.

Tânia pega a garrafa e o serve. Darlan bebe de uma vez o copo de aguardente e colocou-o em cima do móvel.

—O que foi? Tá aí parada olhando para minha cara, por que?

—Nada.

—Vá embora procurar o que fazer, lavar uma louça ou caçar jacaré, chispa daqui coisinha.

Tânia sai irritada. Luana e Rafael entram na sala.

—Boa noite, tios.

—Boa noite. —falavam o casal quase ao mesmo tempo.

—Como está o pai?

—Seu pai acordou e está melhor do que ontem. —respondeu Luana.

—Isso é bom.

—Darlan, você avisou a sua mãe que seu pai sofreu um acidente?

—Não, tia, foram tantas coisas acontecendo que acabei me esquecendo. Eu vou ligar pra ela daqui a pouco. Bom, eu vou para o meu quarto porque amanhã tenho que acordar cedo para trabalhar.

—Você não vai ao hospital ver seu pai?

—Pode ser que eu passe lá amanhã pela tarde ou quando tiver um tempinho. —levantou-se e seguiu em direção a escada e subiu.

—Inacreditável como consegue ser tão dissimulado. —falou Luana.

—Percebe-se que ele não está nenhum pouco preocupado com o pai.

 

Diogo e Suelen estavam dentro de uma caminhonete aos beijos no banco de trás.

—Estou chateada com você, Diogo, muito.

—O que fiz dessa vez?

—Amélia, eu sei que você vai a entregar para o seu novo sócio.

—Ela tem o que você não tem mais. E vou ganhar muito dinheiro não só com ela, mas com o garimpo.

—Garimpo?

—É, esse é o meu novo negócio. Vou ficar muito rico, vou ter muita grana.

—Acha mesmo que tem alguma coisa aqui? Nestas terras não tem nada.

—Aí que você se engana, Suelen, já ouviu falar da lenda da nascente em Riacho Paraíso?

—É apenas uma lenda, acredita que ela exista?

—Sim, eu conheço uma pessoa que já esteve lá.

—Então, se você ficar rico com a nascente vai dividir esse ouro comigo? Vai me levar com você para longe daqui?

—Você? —deu uma risada. —vou levar a Amélia.

Suelen tenta dá uma tapa no rosto de Diogo, mas ele segura a mão dela.

—Não se atreva, Suelen, porque se eu me irrita com você, eu juro que te vendo na fronteira.

—Não, Diogo, não me venda na fronteira, me desculpa, eu faço qualquer coisa. —beijava a mão dele desesperada.

—Se comporta, dona Suelen, se comporta.

Ele a encara e ela o olha com medo.

 

Darlan estava no quarto e sentou-se na cama e liga para a mãe que se encontrava sentada no sofá na sala da mansão Gouveia.

—Mãe.

—Darlan, o que aconteceu que você não me respondeu mais as minhas mensagens?

—O pai sofreu um acidente de carro.

—Acidente?

—Sim, ele tá no hospital e o estado é grave. Hoje teve uma melhora.

—Pouco me interessa o que acontece com o Anderson, isso pra mim é castigo por ter me deixado para ir atrás daquela rameira pantaneira.

—Veja pelo lado bom, mamãe, se ele morrer você vai ficar com a maior parte dos bens dele. Como ainda não se divorciaram, você será a viúva. —riu.

—Viúva de um homem que nunca me amou? É isso que vou ganhar após passar anos casada com seu pai?

—Mãe, sem dramas, por favor. Não me diga que apesar de tudo que o pai fez você ainda gosta dele?

—Você não entende, Darlan. Não era isso que eu sonhava para minha vida, eu queria ter sido amada, respeitada…

—Mas não foi assim, mamãe, aceite que ele nunca te amou e caso morra pelo menos te deixará os bens.

—Seu pai não morreu, Darlan, é estranho ouvir você falando como se ele já tivesse.

—É só uma hipótese, mãe, tudo pode acontecer.

—Filho, eu sei que tudo que está acontecendo está mexendo com você, porém apesar de tudo não quero que guarde rancor do seu pai, eu também errei. Ninguém é totalmente inocente nesta estória a não ser você, meu amor.

—Como acha que estou me sentindo depois de descobrir que eu segurei um casamento cheio de mentiras? Que você e o papai só estavam juntos porque eu nasci? E que tudo que vivi era uma mentira? É fácil dizer que não devo ter ódio, nem raiva e nem rancor, mas quem gostaria de ficar no meu lugar?

—Meu amor, meu bebê você foi o melhor que aconteceu em minha vida. Esqueça tudo que aconteceu, deixe seu pai, o bastardo, a ribeirinha, o pantanal e volte pra casa.

—Não posso voltar pra casa, mãe, eu tenho as terras e o meu negócio que você sabe do que se trata e também tem outro motivo.

—Qual?

—Estou apaixonado.

—Como? Quem é ela?

—Anahí, a minha índia.

—O quê? Você está saindo com uma índia, Darlan? Uma índia?

—Sim, uma índia belíssima e estou apaixonado como nunca estive, mãe, e acho que vou me casar com ela.

—É um absurdo, eu não admito, Darlan, eu não aceito que você case com uma índia, uma selvagem!

—É o amor, mãe, nada mais pode fazer. Eu sou dela, aquela índia me flechou, estou apaixonado. —riu.

—Darlan, escuta, eu proíbo você ficar com essa índia. Darlan, alô? Darlan? Filho? Desligou na minha cara!

Marcela entra na sala.

—Quem era, Verônica?

—Ah, mamãe você não vai acreditar, o Darlan me ligou dizendo que o Anderson sofreu um acidente e está internado no hospital.

—Nossa! E você vai para Corumbá?

—Eu não vou a lugar nenhum. Ele que fique aos cuidados da ribeirinha daquela rameira pantaneira. Eu vou ficar aqui.

—Você devia ir afinal ainda são casados.

—Não vou e pronto. Anderson merece isso e muito mais só pelo desgosto que ele me deu esses anos todos. Fora isso, o Darlan veio me dizer que está apaixonado por uma índia, como pode, mamãe? O meu filho com uma índia?

—E qual o problema?

—Como assim, mamãe? Perdeu o juízo? Eu não aceito que o meu filho se junte com uma índia. Me dá um pavor de imaginar um monte de crianças indígenas selvagens correndo nesta casa e destruindo tudo pela frente. Não se deve confiar em índios, muitos são até canibais.

—Filha não seja lunática. Índios canibais existiam há séculos no Brasil, como por exemplo a tribo dos Caetés que viviam pelas bandas das Alagoas, coitado do Bispo. Os tempos são outros, filha, e é uma ignorância você pensar assim. Muitas tribos estão conectadas com a tecnologia tanto que essa a proximidade com o homem branco gera certo distanciamento de suas culturas e as tradições vão se perdendo.

—Não precisa vim me dá aula de história ou de sociologia para tentar me convencer em aceitar essa índia na nossa família. Eu não quero e nada me fará mudar de ideia.

—Por mim vou ficar feliz em tem um monte de bisnetos caboclinhos correndo pela casa.

—Era só o que me faltava, já me bastava uma ribeirinha para atrapalhar a minha vida e agora tem uma índia também.

 

O fogo se alastra pelo pantanal na madrugada. Os animais correm assustados pelo fogaréu que consome as matas virgens e invadindo as porteiras das fazendas chegando nas terras da Dois Rios. Os gados perambulavam confusos com o incêndio, Rafael os peões tentam conduzi-los para o lugar mais seguro.

Amanheceu e Rafael olhava para a destruição que o fogo fez em suas terras e ainda havia chamas sendo contidas por brigadistas.

Expedito se aproxima do patrão.

—Seu Rafael.

—Quantos gados perdemos?

—A metade do gado, patrão.

Rafael encheu os olhos de lágrimas.

—Minhas terras.

O fazendeiro ajoelhou-se no chão e pegou um punhado de terra e começou a chorar e urrou pela dor de ver o estrago que o fogo fez na fazenda Dois Rios. Luana corre em direção ao marido.

—Rafael! Rafael! —ela o abraça por trás.

—Tá tudo perdido, mulher, tudo. Anos e anos de trabalho virou tudo em cinzas. —chorando.

 —Rafael, meu amor, nem tudo está perdido conseguimos salvar uma parte dos gados.

—Luana, vem comigo. —levanta-se e segura a mão da esposa e segue em frente.

 O casal para ao lado de um gado morto queimado.

—Nenhum bicho e nem gente merece uma morrer assim é malvadeza… —chora e abraça a esposa que o consola.

 

 

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