Amanheceu e no hospital da cidade estão Inácio e Fernanda no quarto com Anderson.

– Chega, eu não aguento mais ficar neste hospital.

– Tenha paciência, pai, o doutor Marcos…

-Esse doutorzinho não sabe de nada, acho que quer me deixar preso aqui pra ficar perto da Fernanda.

-Anderson, não seja tão mal agradecido. Se o doutor Marcos ainda não te deu alta é porque ainda precisa está internado.

– Eu quero sair daqui. Eu quero voltar a minha vida. O Décio esteve aqui e foi embora e não pude assinar os papeis do divórcio porque estou impossibilitado com esses braços engessados.

-Quem é Décio? – perguntou Fernanda.

-Meu advogado, formos sócios e somos amigos desde a época da faculdade.

-Esse seu divórcio está sendo consensual ou litigioso? – perguntou Inácio.

– Verônica está querendo dificultar, como todos sabem que ela me impôs a condição de assinar o divórcio se eu doasse as minhas terras ao Darlan, eu já cumprir o combinado, então, vamos dizer que esse acidente adiou a dissolução do meu casamento para enfim está livre para minha ribeirinha.

– Pra você tudo vale a pena para tê-la, não é? Até mesmo passar pelos meus direitos como filho.

-Inácio. – falou a mãe o repreendendo.

-Mamãe, por favor, esse assunto só diz respeito a mim e a ele.

-Não sabia que tinha tanto interesse naquelas terras, Inácio.

-Engana-se, meu pai, eu não tenho interesse algum, o que me dói é essa sua falta de consideração comigo.

-Olha quem fala sobre consideração. Você não teve nenhuma comigo quando decidiu fazer o curso de direito, se formou, passou no exame e não me disse nada.

– Não disse porque você não se importa!

-Por favor os dois não comecem. Não é possível que até no hospital vão ficar se enfrentando?

– Esse guri do mato não me respeita e vem com essa conversinha de que não tenho consideração com ele.

Logo, entra Anahí que naquele dia estava de plantão no hospital.

-Bom dia.

-Bom dia. –responderam os três quase ao mesmo tempo.

Anahí e Inácio trocam olhares.

– Como está, tio?

-Entediado. Eu quero ir embora desse bendito hospital.

-Eu te entendo, tio. É preciso ter um pouco mais…

-De paciência. É o que todos me dizem e eu já a perdi há tempos. Onde está aquele doutorzinho metido a besta?

-Anderson. –disse Fernanda o repreendendo.

– O doutor Marcos está em uma cirurgia de emergência, talvez vá passar por aqui pelo começo da tarde. Tio, eu vou auferir a sua pressão e sua temperatura, com licença.

Anahí começa a examinar Anderson enquanto Inácio percebe discretamente os hematomas nos braços dela.

Na cozinha do casarão da fazenda Dois Rios, estava Jacinta, Tânia e Florzinha conversando.

-Estou feliz por você ter voltado, Jacinta. – Florzinha abraça a governanta.

-Todos nós sentimos sua falta. – disse Tânia.

-Obrigada, queridas. Eu também sentir saudade de todos.

-Essas fumaças das queimadas estão deixando muita gente doente. Lá em casa é o Expedito e o Lino que estão doentes por causa disso.

-Lino está muito doente? – perguntou Florzinha preocupada.

-Um pouco, mas como é teimoso não quer ir ao hospital e nem tomar remédios. – respondeu Tânia.

-Temos que pedir a Deus que a chuva amenize esse fogaréu. –falou Jacinta.

-Eu vou indo para a escola. – pegou uma maça que estava na mesa. – tchau. – Florzinha saiu.

-A Florzinha saiu e agora posso te dizer da novidade. – disse Tânia.

-Qual? – perguntou Jacinta.

-Inácio encontrou uma moça fugindo das terras do Darlan. Ela está muito assustada e com medo de um tal de Diogo.

-Minha nossa!

-Pois é, ela está aqui nos quartos dos fundos da fazenda. Só os patrões Rafael e Luana que sabe além de eu e Inácio.

– Como se chama essa guria?

-Amélia.

– Quero ver quem é essa moça.

-Vem comigo.

Anahí termina de examinar Anderson.

– Está tudo bem, tio. Em breve vai ter alta do hospital.

-Hum, parece mais promessa de político que nunca se cumpre.

-Anderson não seja tão resmungão. – disse Fernanda.

Inácio e Anahí se afasta enquanto Fernanda se aproxima de Anderson.

-Como você está? – tocou nas mãos dela. – Estou vendo essas marcas em seus braços. Foi ele, não foi?

– A gente conversa depois, Inácio. Só peço que não haja de cabeça quente. Eu não quero que você se prejudique com isso.

-Quando podemos conversar?

-Hoje estou de plantão no hospital e volto para casa amanhã pela manhã. Vá amanhã pela tarde na fazenda.

-Está bem, eu vou. –a abraça e Anderson os observa. – Te amo, e vou te proteger sempre, Anahí. –falou em tom baixo no ouvido dela e acarinhou o rosto.

-Eu sei. –sorriu e desfez o abraço. – Eu vou indo, melhoras tio Anderson estou na torcida. – seguiu em direção a porta.

-Tchau, não sei qual dos meus dois filhos terei o prazer de tê-la como minha futura nora.

Fernanda olha para Inácio e Anahí que ficam tensos. Imediatamente Anahí sai e fecha a porta do quarto.

-Anderson, o que quis dizer? Deixou a guria envergonhada.

-Estou quase aleijado, mas não estou cego e nem louco, eu vi muito bem o que está acontecendo entre o guri do mato e essa índia.

-Sim, eu não tenho mais o porquê de esconder. Eu e Anahí a gente se ama e estamos juntos.

-O quê? – disse Fernanda se surpreendendo.

-Eu sabia.

-É a verdade, mãe. Não dá mais para nós dois esconder esse sentimento.

-Inácio, o Darlan já sabe disso? – perguntou a mãe.

-Já sabe, eu acho.

-Você nem tem certeza se ele sabe? Não acredito que foi capaz de furar os olhos do teu irmão roubando a mulher dele, guri do mato isso não se faz.

-Pai, não me venha bancar o puritano, você não é exemplo de fidelidade. E não fizemos nada de errado, a Anahí terminou com o Darlan ontem à noite, porém, suspeito que ele fez algo com ela porque não sei se vocês notaram que ela está com os braços cheios de hematomas.

-Não é possível. –falou Fernanda.

-Inácio, eu não admito que você julgue o seu irmão sem provas. O Darlan tem um temperamento difícil assim como você entretanto jamais chegaria a esse ponto.

– Como pode duvidar? Esqueceu o que ele fez com a minha mãe? Ele a insultou e você mesmo deu uma surra nele.

-É diferente.

-Diferente, por quê?

-Darlan estava confuso e nervoso por ter descoberto que você e sua mãe existem. Ele ficou muito revoltado por saber que quem eu amo é a Fernanda e não a mãe dele.

-Não justifica, pai. Você está dizendo isso porque ele insultou a mulher que você diz que ama, ao contrário com Anahí você diminui e até duvida que ele tenha feito algo contra ela. Por que? Agora me explica.

-Você não conhece essa índia como acha que conhece.

-Como é? Eu e Anahí crescemos juntos. A conheço muito bem. Nem ela e nenhuma mulher merece ser machucada como ela está cheia de hematomas nos braços.

-Rafael e Luana se já sabem do que ocorreu devem estar arrasados. Eu desconfiei que eles estavam escondendo algo quando estiveram aqui. Coitada da Anahí. 

-Fernanda, não tome conclusões precipitadas. Essa índia está brincando com os dois, como pode dizer que ama o Inácio se estava namorado com Darlan aos beijos com ele para cima e para baixo na fazenda? Vocês dois caíram no conto do vigário, daqui a pouco ela arruma uma barriga e quero ver como vão ficar os dois sem saber quem é o pai.

-Você não tem o direito de julgar a Anahí desse jeito! Ela não é você que brincou com os sentimentos de duas pessoas!

-Me respeita, guri do mato! Você não se meta nos meus assuntos. Eu só estou querendo abrir os seus olhos. Ela fez isso com seu irmão e vai fazer com você, vai botar na sua cabeça é um monte de chifres.

-Eu vou embora, eu não sei porque insisto em perder o meu tempo vindo aqui. – Inácio saiu.

-Tá vendo, Fernanda? Isso é jeito do guri do mato me tratar?

-Anderson, você procura essas discussões. Eu vou embora também porque tenho que voltar ao trabalho. –seguiu em direção a porta.

-Vai sair sem me dá um beijo?

-Me poupe, Anderson. – saiu e fechou a porta.

-De algo tenho certeza é que meus filhos herdaram o meu bom gosto para mulheres, eles não negam serem filhos de quem é. –sorriu. – filhos de Anderson Barreto.

Jacinta e Tânia entram no quarto onde estava Amélia parada em frente à janela.

-Amélia, essa é Jacinta a governanta da fazenda, ela quer te conhecer.

A jovem olha desconfiada para Jacinta.

-Não tenha medo, guria, não vou te fazer mal.

Amélia se agacha acuada ao lado da cama.

-Ela não diz nada?

-Quase não fala.

-Será que tem algum problema? Pode ser doente da mente e a família deve estar preocupada a procurando.

-Não acho, ela entende bem o que a gente fala. Eu desconfio que ela passou por algum trauma e tem a ver com o tal de Diogo.

-Diogo, quem é?

-Não sabemos ainda. Ela tem muito medo dele e disse que está perseguindo ela.

-Pobre guria. –aproximasse da cama. – Amélia, o que acha de tomar um ar lá fora?

Amélia olha para Tânia.

-Vamos juntos, Amélia, é melhor pra você se distrair porque faz dias que está presa neste quarto.

Amélia se levanta e caminha em direção as duas.

-Eu vou fazer um pudim para você se animar.

-O pudim da Jacinta é um dos melhores, tenho certeza que você também vai gostar, Amélia.

-Então, vamos para cozinha?

Amélia balança a cabeça confirmando.

-Vamos. Você vai lamber os dedos quando provar o pudim que a Jacinta faz.–disse Tânia empolgada.

As três saem do quarto.

Marcos acaba de sair da sala de emergência e encontra Anahí no corredor.

-Doutor Marcos, hoje está tendo uma superlotação de pacientes e temo que já não tenha mais leitos.

-Anahí, acabei de receber alguns resultados de exames dos pacientes e algo me chamou atenção. Venha comigo na minha sala.

-Sim, doutor.

Os dois caminham pelo corredor e entram em uma sala.

-Na sala vamos poder falar reservadamente. A maioria dos pacientes que estão se internando no hospital são devidos ao quadro de insuficiência respiratória pelo fato das queimadas durante esses dias, porém, nos exames que solicitei ao laboratório em quase todos os pacientes internados também estão com intoxicação e com quadro de vomito, cefaleia e diarreia.

-Intoxicados? Com o quê?

-Mercúrio. Veja você mesma um dos resultados dos exames. – entrega uma prancheta para ela.

-Não pode ser. –lia e folheava os papeis. – Isso significa que…

– Eu ouvi de alguns pacientes dizendo que tem um garimpo no povoado de Riacho Paraíso.

-Doutor Marcos, você sabe o que significa se um garimpo retornou ao povoado.

-Eu sei, por isso que achei melhor te dizer.

-Meus pais Raoni e Potira morreram para proteger as terras dos Toriba. Foi por causa de um garimpo que perdi os meus pais. Se um garimpo está no povoado é porque estão à procura da nascente.

-É lamentável que ainda existem pessoas que insiste em uma lenda atrás de ouro e por causa disso contaminam os rios. A maioria dos pacientes com esse tipo de intoxicação por mercúrio são ribeirinhos, indígenas e pessoas que trabalham nas fazendas, ou seja, a classe mais vulnerável economicamente que não tem acesso a água potável e que consomem da água dos rios.

-Fez bem em ter me falado, doutor Marcos, eu vou ter que descobrir onde está esse garimpo antes que tentem invadir a aldeia a procura da nascente.

-Eu vou comunicar a secretaria de saúde do município sobre estes casos de intoxicação de mercúrio e que possam tomar as medidas cabíveis. A população já está sofrendo com as queimadas e a intoxicação nos rios.

-Os rios já ficam intoxicados com a folhagem por conta das queimadas e além do mais com o mercúrio, é uma pena que por causa de ganância estão destruindo a natureza.

-O ser humano pode avançar na tecnologia, porém, suas paixões e ambições continuam as mesmas de milênios atrás. A natureza tem capacidade de se regenerar, já não posso dizer o mesmo do ser humano.

-Tem toda razão, doutor Marcos. Agradeço por ter me comunicado. Eu vou defender bravamente as terras dos Toriba mesmo que preciso tenha que perder a minha vida como perderam os meus pais.

Suelen acabava de chegar em casa e ver Roberta sentada a mesa catando feijão.

-Demorou a voltar. Pode me dá a grana.

Suelen tirou uns maços de dentro do decote e tirou alguns notas guardou de novo no decote e jogou as outras notas em cima da mesa.

-Você não tem vergonha, não é? Esse dinheiro é meu, todo meu.

-Mal agradecida. –pegava as notas de dinheiro. – Tem o que tem por mim. Já rodei esse povoado todo e não achei a infeliz da Amélia, parece que um buraco engoliu aquela maldita guria. Quando eu a encontrar vou dá uma surra que não vai se aguentar andar.

-Eu conheci o dono do garimpo, ele procurou por Amélia ontem e o Diogo deu uma desculpa que ela estava com outro cliente.

-E esse homem tem dinheiro?

-Muito, é jovem, bonito, tem um corpão, loiro dos olhos azuis, insaciável e muito atraente. Amélia tem sorte de ter caído no gosto dele.

-Não me diga que ele não gostou de você?

-Ele não gosta nem de mim e nem de Amélia. O Darlan está louco de paixão por uma índia que o traiu com o próprio irmão.

Roberta dá uma gargalhada.

-Que peninha desse playboyzinho com tantos atributos só o restou um único defeito: ser corno. –risada.

-É, ele pagou bem. Fiquei lá ouvindo as dores de cotovelo dele e quando fui embora encontrei Maurício, um outro cliente meu, e ouvi algo bastante interessante dos dois.

-O quê?

-O garimpo não está dando lucro nenhum e a índia é quem sabe onde está a nascente e vão força-la a dizer onde está nem que preciso seja derramar sangue.

-Será que essa nascente realmente existe? Por mim é só uma lenda. Muitos garimpeiros já passaram pelo povoado e nunca a encontraram. Eles vão perder tempo ao se meterem em confusão com aqueles índios.

-E se a nascente realmente existe? Eles vão ficar tão ricos que vão andar cobertos de ouro. Eu bem quero ter essa sorte por isso vou ser bem amigável com os três: Darlan, Maurício e Diogo, quem sabe eu consiga algo pra mim e saio dessa pobreza e me livro de você de uma vez por todas.

-Antes de pensar em lucrar em cima dessa estória de lenda da nascente, procure sua prima Amélia porque se não a encontrarmos vai sobrar para nós duas e o Diogo cumpre com as ameaças que ele faz, você bem o conhece.

De tarde, Darlan chega no hospital com um buquê de rosas vermelhas e procura por Anahí que se encontrava na sala de enfermagem preparando alguns medicamentos de frente para a mesa.

-Anahí. –parou atrás dela.

-Darlan? –virou-se de frente a ele e o buquê chamou atenção. – o que faz aqui? Quem te deixou entrar?

-Tenho o meu jeito, amor. –se aproxima e acurralou entre a mesa e ele. –O que achou do buquê? Lindo não é? Quando o vi pensei em você, minha índia.

-Se afasta de mim! – o empurrou.

-Vem cá, não fuja de mim como um animalzinho indefeso. Gosto de te ver como aquela índia brava, selvagem com um punhal e não vestida com essa uniforme de enfermeira que faz perder a sua verdadeira essência, se vestindo assim fica igual as demais.

-Eu não quero o seu buquê, eu não quero que você se aproxime de mim, Darlan!

-Amor, me perdoa. –a puxa com força e abraça.

-Me solta! –tenta se desvencilha dele, mas ele a contém.

-Vamos começar do zero, minha índia, meu amor. Eu até perdoo a sua pulada de cerca, quem nunca errou não é? As vezes o ciúmes dá um tempero na relação. –tenta beija-la força.

-Não!

A enfermeira chefe entra na sala.

-O que está acontecendo aqui?

Anahí olha assustada para a enfermeira.

-Sou apenas um homem apaixonado que quer reconquistar a mulher que ama. Só quero uma chance com Anahí, quero ela de volta pra mim.

-Esse não é o local para resolver problemas amorosos. Enfermeira Anahí, preciso que vá na sala de pediatria imediatamente.

-Sim, vou agora mesmo. –saiu apressadamente.

-Enquanto a você, eu quero que o senhor se retire desta sala e caso o encontre novamente no local sem autorização vou chamar os seguranças para expulsa-lo.

-Não precisa chegar tanto. –colocou o buquê em cima da mesa. – Nunca se apaixonou? É o amor. Eu sou louco por aquela índia, louco por aquela mulher. –disse saindo da sala.

A enfermeira fecha a porta da sala.

Anderson estava com Inácio no quarto do hospital.

-Não sei porque voltou. Estou bem sozinho, não preciso da sua ajuda.

-É mesmo? –sentado no sofá.

-Sim, você é um filho ingrato.

-Cadê o Darlan, pai? Faz dias que está no hospital e teu filho querido não aparece.

-Seu irmão está trabalhando e ocupado com a construção do hotel fazenda.

-Hum, não tem um tempinho para te visitar? Não comece a querer defender o Darlan, como pode ser tão cego com ele? Como?

-Darlan pode erra algumas vezes, mas é um menino bom.

-Bom? Insulta e agride mulheres é um menino bom? Menino não é mais, já é homem feito.

-Não julgue, você não sabe o lado dele da estória e você é o mais errado nisso também roubou a namorada do seu irmão, com tanta mulher neste mundo teve que se interessa justamente com aquela índia.

-Eu amo a Anahí, você fala como se o que sinto por ela fosse algo apenas sexual e não é somente isso.

-Não seja frouxo. Se entregar demais em pouco tempo é correr risco de se decepcionar. Ela tá usando você e depois não vem me dizer que não te avisei.

-Você nunca sentiu o que sinto. Mulher para você sempre foi um objeto de disputa e para satisfazer seus desejos.

-Engano seu, eu a amo sim, eu sei o que é amar uma mulher. Eu amo sua mãe.

-Só me responda uma única pergunta: como pode amar uma mulher e não amar o filho que teve com ela?

Anderson fica em silêncio e encara Inácio.

-Responda!

De repente entra doutor Marcos que percebe o clima pesado entre os dois.

-Com licença. Eu vim te dá uma boa notícia, Anderson.

-Qual?

-Você vai receber alta.

-Até que fim, já não aguentava mais esse quarto e esse guri do mato acabando com o resto de juízo que ainda eu tenho.

-Quando será, doutor? –Inácio levantou-se do sofá.

-Agora.

-Excelente! Inácio pode ligar para a Fernanda que eu quero sair desse hospital do lado dela.

-A mãe está trabalhando a essa hora.

-Então, chame o Rafael…

-O tio está muito ocupado para evitar que as queimadas invadam as terras da fazenda.

-Ainda não apagaram esse incêndio?

-Não. Infelizmente o fogo no pantanal ainda não terminou, pai.

-E esses gessos nos meus braços e nas minhas pernas? Já posso tirar?

-Não, você terá que ficar umas duas semanas com esses gessos e depois será reavaliado como estão os seus movimentos. Terá que ficar horas as vezes deitado, outras sentado de repouso. – disse Marcos.

-Inácio, me leve para fazenda.

-Pai, as queimadas no povoado estão maiores e é risco para você ficar lá caso precise de algum socorro. É mais seguro que fique na cidade.

-Eu vou ficar onde então?

-Lá em casa, já falei com a mamãe e decidimos isso.

-Melhor pelo menos eu sei que minha ribeirinha vai cuidar de mim. Ouviu essa doutor?

-Aí que o você se engana, pai, eu vou cuidar de você.

-O quê?

-Isso que ouviu. A mamãe já deixou claro que não ia cuidar de você. A partir de hoje está sob os meus cuidados.

-Ouviu essa Anderson? – perguntou o médico.

-Não, eu não quero ser cuidado por você, Inácio. Não! A minha ribeirinha tem que cuidar de mim.

-Ela não quer, aceita pai e não insista.

-Eu não aceito! Eu prefiro que Darlan cuide de mim até que eu fique bom definitivamente.

-Acha mesmo que o Darlan vai cuidar tão bem de você?

-Sim! Vai! Eu quero qualquer um menos você.

Marcos olha para Inácio quando de repente Darlan entra.

-Aí está o meu menino, o meu guri de ouro que chegou bem na hora de eu ir embora.

Darlan encara Inácio, mas evita confronta-lo por causa da presença do médico.

-Ir embora? Recebeu alta já? – perguntou Darlan.

-Já, vamos, meu filho, me leve com você.

-Como? Pai, eu não tenho onde colocar você. Eu morando em uma cabana improvisada lá nas minhas terras e não tenho tempo para cuidar de você.

-Mas filho, eu juro que não vou te dá muito trabalho o doutor disse que vou ficar com esses gessos  por duas semanas…

-Pai, você tem os tios, o bastardo e a sua amante são gente demais que pode cuidar de você. Eu tenho muito o que fazer, você comigo vai me atrapalhar.

Aquelas palavras de Darlan doeram em Anderson porque jamais ele pôde acreditar que seu filho no qual ele tanto se dedicou e tinha orgulho o virou as costas naquele momento em que ele mais precisava. Pela primeira vez o juiz sentiu na pele o gosto do fel da rejeição.

-Era somente isso que veio dizer, Darlan? –perguntou Inácio.

Darlan encara Inácio.

-Você ainda vai me pagar pelo que me fez. A índia é minha. –seguiu em direção a porta. –Até breve, pai. –saiu e fechou a porta.

Anderson ficou em silêncio.

-Enquanto vocês decidam onde vai ficar…- disse o médico.

-O pai vai ficar comigo. – olhou para Anderson na cama.

-Certo, eu vou assinar o termo da alta. Com licença. –saiu.

Uma lágrima cai do rosto de Anderson e esse fato surpreende Inácio.

-Pai?

-Me sinto…um inútil…

-Pai, não se sinta assim, logo vai tirar esse gesso e vai voltar ser aquele Anderson de antes.

-Não, Inácio, não serei mais o mesmo de antes. Me sinto um traste inútil que dependo dos outros. O meu filho Darlan se renegou a cuidar de mim. – chorando.

-Vamos arrumar as suas coisas. Você estava tão ansioso para sair deste hospital.

-Pode ri de mim, Inácio, sei que está se esbaldando com o que viu, deve estar gostando de ter me visto ser rejeitado pelo meu filho na frente do meu rival.

-Não, pai, aí que você se engana. –pega uma mochila de dentro do armário. – Se me conhecesse de verdade saberia que esse tipo de reação não seria a minha.

-O que você sente, então?

Inácio parou e olhou para o pai.

-Feliz porque você vai pra casa. –sorriu.

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