No hospital, Anderson, Inácio e Marcos estavam no consultório.

—Finalmente estou livre desses gessos, dessa cadeira de rodas e voltei ser independente eu estava cansado de depender dos outros isso é péssimo. —se levantava da maca.

—Daqui e diante é só se cuidar e fazer alguns exames de rotina. —disse Marcos.

—Vamos, guri do mato, tenho que pegar um avião, voltar para Campo Grande e assinar o meu divorcio com Verônica. Eu vou tomar um novo rumo na minha vida.

—Certo, vamos, mas antes de irmos, eu quero agradecer mais uma vez ao doutor Marcos por ter salvado a sua vida e por ter cuidado de você, pai.

—Obrigado, Inácio, esse é o juramento que nós médicos fazemos quando nós formamos: enquanto houver vida somos incansáveis.

Anderson fica de frente para o médico.

—A faça feliz, eu tinha toda a chance de ter tido uma vida maravilhosa ao lado da Fernanda, mas eu escolhi errado, fui egoísta e a perdi.

—Está desistindo dela? —perguntou Marcos.

Inácio expõe uma expressão de surpresa.

—Eu não desistir dela, eu a perdi há muito tempo porque quis. Obrigado, por me salvar apesar de sermos rivais porque ainda a amo e sempre vou ama-la.

—Não há o que agradecer, Anderson, se cuida.

—Vamos embora, guri do mato.

—Tchau, Marcos.

—Tchau, Inácio.

Anderson e Inácio saem da sala e andam pelo corredor.

—Vai desistir mesmo da minha mãe?

—Você deve estar muito feliz e aliviado por eu estar deixando sua mãe ficar com o doutor e agora por favor não quero mais falar sobre isso.

—Tudo bem, não vou tocar mais nesse assunto. Eu estou feliz por ver você bem e caminhando.

Anderson olha para Inácio e fica em silêncio.

Em uma cabana no meio do mato estava Anahí sentada numa cadeira de madeira e amarrada com cordas enquanto Darlan em pé carregava uma arma ao lado de uma mesa.

—Me solta, Darlan, desista dessa loucura! —chorava.

—Silêncio! Não vai adianta você ficar chorando e pedindo que te solte. —aperta o rosto dela a fazendo olhar para ele. —Isso tudo é culpa sua, Anahí. Se tivesse sido sincera comigo seria tudo muito diferente e não foi! É uma mentirosa! Traidora!

—E você é um louco. Será que não ver que está fora de si? As autoridades vão pegar você, Darlan, será preso e vai pagar por seus crimes.

—Você é minha índia! Minha! —a rouba um beijo. —Me diz qual dos beijos que você gosta mais? É o meu ou do Inácio? —a rouba novamente um beijo e ela o morde o lábio. —Ai! Vadia! —deu um tampa no rosto dela e sua boca sangrava. —Você mordeu a minha boca, tá sangrando! —toca na ferida da boca. —Está querendo brincar comigo, não é? —deu uma risada irônica. —Marcas de amor não dói, amor.

—Socorro! Socorro!

—Ninguém vai te ouvir, Anahí, vai gritar à toa, meu amor. Só você pode acabar com tudo isso se me disser onde está a nascente e aí finalmente será minha mulher, vai comigo para bem longe deste pantanal, do bastardo, da aldeia e de toda essa gente caipira. O que acha?

—Darlan, a nascente não existe, é uma lenda, um folclore, uma estória criada há muitos anos neste povoado. Eu nunca vi essa tal nascente, existem outras nascentes aqui, mas nenhuma delas tem ouro, diamantes ou qualquer tipo de pedras preciosas.

—Mentira! Tudo mentira! Eu quero a nascente!

—Ela não existe!

—Quem sabe se o meu irmão bastardo participar desse nosso encontro talvez te incentive a falar?

—Não! Não faça mal ao Inácio! O seu problema é comigo, Darlan. Deixe o Inácio fora disso!

—Minha índia, não vou perder está oportunidade de dá uma apimentada na nossa relação. —deu uma risada.

—Monstro!

No sala do casarão da fazenda Dois Rios, Inácio acabava de chegar e ver Luana e Rafael.

—Tios, acabei de deixar o pai no aeródromo, ele pegou um jatinho e voltou para Campo Grande decidido a se divorciar da Verônica.

—Anderson não desiste de reconquistar a ribeirinha. —disse Rafael.

—Por incrível que pareça ele desistiu.

—Como assim? Meu cunhado desistiu mesmo da Fernanda?

—Sim, ele diz que continua a amando e que está deixando o caminho livre para que minha mãe fique com o Marcos.

—Demorou, mas o meu irmão tomou vergonha na cara.

—Essa foi de surpreender. —falou Luana.

O celular de Inácio toca e ele atende.

—Alô? Anahí? Estou na fazenda. Está bem, me espere. Te amo. Tchau. —desligou. —Eu vou sair, a Anahí me ligou pedindo que eu fosse encontrar com ela na cachoeira.

Inácio chega na cachoeira e procurava por Anahí.

—Anahí! Cadê você? Anahí! —caminhava pelas pedras.

De repente Darlan sai de trás de uma arvore apontando a arma para Inácio.

—Bastardo!

—Darlan!

—Que bom que apareceu por aqui.

—Onde está a Anahí? O que você fez com ela? —partiu para cima dele.

—Fique parado aí, se você se mexer eu atiro.

Na fazenda, Tânia estava estendo as roupas no varal até que Amélia se aproxima.

—Tânia.

A empregada se vira e ver Amélia.

—Amélia! —a abraça. —Como você está guria? O que aconteceu com você depois que saiu daqui?

—Aconteceram muitas coisas, Tânia.

—Vem, vamos entrar e aí você me fala.

Darlan abre a porta da cabana e apontando a arma na cabeça de Inácio.

—Inácio! —gritou Anahí ao vê-lo.

—Maldito! A liberte e acerte suas contas comigo!

—Se ajoelhe, bastardo! Eu não quero perder mais tempo! —o empurra.

Inácio se ajoelha em frente a Anahí.

—Fala onde está a nascente ou eu atiro neste bastardo! Fala, logo!

—Não! Não atire no Inácio!

Florzinha estava em seu quarto e ligava para o celular de Diogo.

—É estranho, muito estranho. Faz dias que ligo para o Diogo e ele não atende. Será que desistiu de me tornar uma modelo? Não, não pode ser. —saiu do quarto.

Na sala estava Amélia estava conversando com Tânia, Rafael, Luana e Jacinta. Enquanto Florzinha acaba de descer as escadas.

—Diogo está morto? —perguntou Luana.

—Sim, morto. — respondeu Amélia.

Florzinha fica tensa e pensava consigo se estavam falando do mesmo Diogo que conhecia.

—Com licença, de quem estão falando? —perguntou Florzinha se aproximando.

—De um homem que fez muito mal essa guria. —respondeu Jacinta.

—Vocês a conhece de onde? Nunca a vi.

—Eu me chamo Amélia, e fui acolhida nesta fazenda após ter sido vendida por Diogo. Eu estava fugindo dele, me faz muito mal.

—Como que todos acolhem essa garota na fazenda e eu não fico sabendo de nada?

—Filha, esse assunto é muito sério e você é ainda uma criança… —disse Rafael.

—Não! Eu não sou nenhuma criança, pai! Eu cresci, sou madura suficiente para entender o que se acontece. É interessante como ninguém nesta fazenda me leva a sério, sou tratada como uma criança por todos! —saiu.

—Maria Flor tem um temperamento difícil, não liga para ela. —falou Rafael.

Florzinha estava escondida atrás da parede ouvindo a conversa.

—Quando fugir, eu passei alguns dias andando pela mata até que fui acolhida pelo padre Manoel, ele foi muito bom comigo, atencioso, confessei tudo que aconteceu e depois…

—O quê? —perguntou Tânia.

—Soube que além do Diogo, a minha prima Suelen também foi morta naquele dia. Eu vi os comentários das pessoas dizendo que ele atirou nela antes de morrer.

—Minha nossa! —disse Jacinta.

—Pelo menos o Diogo não vai mais te atormentar. —disse Luana.

—É sim, porém, aquela cena da Suelen atirando nele e depois de o ver caído no chão as vezes eu lembro e me entristeço. Ela salvou a minha vida e isso nunca vou esquecer. Antes de tentarmos fugir, a Suelen me disse que nossa tia Roberta havia nos sequestrado de nossas famílias.

—Que triste. E você voltou a ver a sua tia? —perguntou Luana.

—Não e eu não quero mais voltar a ver.

Dentro da cabana, Anahí continuava amarrada na cadeira, Inácio de joelhos na frente dela e Darlan apontando a arma na cabeça dele.

—Eu vou dizer. É a nascente que você quer, você a terá.

—Isso, meu amor, sabia que o meu irmão bastardo nós ajudaria a nós entender.

—Me solte da cadeira e deixe o Inácio ir embora.

—Não, minha índia, ele vai junto com a gente, vamos desbravar esse mato os três!

—Eu não quero que Inácio vá com a gente, Darlan, o ouro que tem lá é só nosso. —olha para Inácio demonstrando que está fazendo um jogo com Darlan.

—Quando chegarmos na nascente eu dou um fim nele.

—Me desamarra, eu sou tua índia, não sou? —olha provocante para Darlan.

—Sim, minha. —acariciava as pernas dela e mantinha a arma apontada para Inácio.

Inácio se continha em silêncio ao ver Darlan tocando em Anahí.

—Bastardo, se levante!

Inácio se levantou.

— Se vira que eu vou te amarrar.

Darlan amarra as mãos de Inácio com uma corda e depois o amarrou na pilastra da cabana.

—Desse jeito você não escapa, bastardo!

—Amor, me tira daqui, vai. Vou te mostrar a nascente, seremos tão ricos e tão felizes juntos.

Darlan, coloca a arma sob a mesa e a beija.

—O que fez mudar de ideia? —a beija.

—É melhor um futuro com você do que com esse bastardo. O que ele pode me oferecer?

—Ouviu isso, bastardo? —olhou para Inácio. —A índia me quer e não quer você um caipira sem eira e nem beira. —a desamarra e agarra. —Não vejo a hora que será minha, vou te cobrir de ouro, de joias, vou te tornar uma rainha, eu quero que me dê muitos filhos…

—Sim, me faça sua rainha, me dê todo ouro que tiver daquela nascente. Vou te dá muitos curumins. —o beija.

—Eu quero te fazer minha na frente do bastardo para ele ver que te perdeu e que você tem dono, que você é minha! Minha índia! — a beija, a coloca nos braços e a deita na cama.

Os dois se beijam até que Anahí fica por cima dele e discretamente tira o punhal que estava de baixo da saia e amarrado com uma tira de couro em uma de suas coxas. Quando Darlan começou a tirar a blusa, ela cravou o punhal na barriga dele.

—Ai! Índia maldita!

—Inácio! Vamos! —pulou para fora da cama e seguiu em direção a Inácio.

Anahí passa a lâmina do punhal na corda que amarrava Inácio e a corta.

—Vamos, Anahí! Corra! —pegou a mão dela e saíram correndo para fora da cabana.

—Miseráveis! Maldita índia! Maldito bastardo! —se levanta da cama, pega a arma que estava na mesa e sai correndo com a mão sob o corte na barriga que sangrava.

Inácio e Anahí corriam até que chegaram na cabeceira da cachoeira e escutam tiros.

—Ele está se aproximando. —a índia olha para atrás e ver Darlan alguns metros de distância. —ele vai nós alcançar, Inácio! O que vamos fazer?

—Eu tive uma ideia. —parou de frente a ela. —eu te amo, Anahí, seja o que acontecer eu sempre vou te proteger. —a beija.

—Te amo, Inácio. —o beija.

—Se lembra de quando a gente era criança? —ela balança a cabeça afirmando. —Eu vou contar até três…um…dois…três…

O casal pulou de mãos dadas da cachoeira. Darlan chega na cabeceira da cachoeira, os ver pular e atira em direção a eles.

—Malditos! —ajoelhou-se. —Ela é minha índia! Minha! Seu bastardo miserável!

Lino conduzia os policiais em direção à cachoeira.

—Ele está ali! —o capataz apontou para Darlan.

Os policias detém Darlan.

—Não podem me prender! Sou inocente! Sabe de quem eu sou filho? Meu pai é o juiz Anderson Barreto e o meu avó é o ex- desembargador Tomás Gouveia.

—Você pode ter tudo isso, mas pelo que eu saiba quem defende não é o juiz ou o desembargador e sim o advogado e você vai precisar de um. —disse o policial que colocava as algemas nele.

Em Campo Grande no final da tarde na mansão Gouveia na sala acabavam de entrar Anderson, Verônica e Décio após terem ido ao cartório registrar o divórcio.

—Agora sim estou livre de você. —disse Anderson com os papéis do divórcio a mão.

—Nunca mais terei o desprazer de ver a sua cara, Anderson Barreto. Pelo menos eu fiquei com a maior parte dos bens porque não era possível que após passar tantos anos te aturando eu sairia com pouco.

—Verônica, não seja tão amarga.

—Você que me tornou uma mulher amargurada, Anderson. Vá atrás da sua ribeirinha, daquela rameira pantaneira e do seu filho bastardo aquele bicho do pantanal.

—Uau, quanta ofensa. —Décio riu.

—E você não se meta onde não foi chamado. —Verônica o apontou.

—Eu vou pegar o resto das minhas coisas que acabei esquecendo.

—Enfim, o divórcio já foi registrado em cartório, os dois estão finalmente divorciados e eu fiz a minha parte. Se precisarem de mim é só me chamar. —disse Décio.

Logo, o celular do Anderson toca.

—Espere. —atende à ligação. —Diz, Rafael. —faz uma pausa. — O quê? —Verônica e Décio percebem o semblante nervoso de Anderson. —Eu estou voltando agora mesmo para Corumbá. Me aguarde, Rafael.

—O que aconteceu? —perguntou Décio.

—O Darlan está preso.

— Meu filho está preso! Por que prenderam o meu filho?

—Ele sequestrou a Anahí e o depois o Inácio, tentou os matar com uma arma.

—Não, não pode ser. Meu filho é um menino bom e jamais faria algo ruim. Deve ter sido um engano, estão acusando o meu filho sem provas e por algum motivo que ainda não sabemos…

—Verônica, ainda não tive tempo para falar com você desde que cheguei hoje na capital, e tem muita coisa do Darlan que você não sabe: ele estava foragido da polícia porque construiu um garimpo nas terras que eu dei a ele, mandou homens armados invadirem uma aldeia indígena atrás de uma tal nascente lendária que dizem que há ouro nela e por isso causou um derramamento de sangue e além do mais agrediu e tentou violentar a Anahí porque não aceitou que ela terminasse o namoro e por ela está namorando com o Inácio.

—Cadê as provas? Eu já sabia do garimpo e daí? Quantos existem por aí e ninguém se importa?

—Eu não acredito nisso, Verônica, você foi cúmplice.

—Fui sim, e não me arrependo de ter o ajudado. O guri queria ganhar dinheiro e qual mãe negaria em ajudar?

—Verônica, o Darlan cometeu crimes muito graves. Pessoas morreram tanto índios como garimpeiros porque ele mandou invadir a aldeia.

—Qual o problema? Só porque são índios não quer dizer que são bonzinhos não, tá? Pode mandar investigar que vão descobrir que esses índios tentaram algo contra o meu Darlan, e o meu bebê apenas retrucou, apenas quis se defender.

—Eu não estou ouvindo isso, eu estou perplexo como você não consegue ver todo o mal que o Darlan cometeu.

—É amor de mãe! —bateu a mão no peito.

—Não é! o amor de uma mãe quando ultrapassa certos limites se torna doentio. Ele agrediu a índia e tentou violenta-la e tem mais que quase ia me esquecendo: ele pagou uma garota para passar uma noite, sendo que ela tinha sido sequestrada por um cafetão e obrigada a fazer o programa.

—São duas sem-vergonha, mulheres fáceis e interesseiras tanto a índia como também a prostituta. Com certeza inventaram essas mentiras contra o meu filho porque ele não as queriam mais e estavam procurando o momento certo para darem o tal golpe da barriga, ele é homem e se cansa rápido e anseia por novidades.

—Eu desisto! Você é inacreditável, Verônica, e ainda bem que me livrei de você.

—Você vai tirar nosso bebê de lá daquela prisão.

—Aí é que você se engana, eu não vou ajudar o Darlan a sair da prisão, por mim ele vai ficar preso e responder por seus crimes e quem sabe desse jeito ele aprenda a lição e se responsabilize por seus atos.

—Anderson Barreto! É o nosso filho!

—Eu não vou ajudar o Darlan. Se quiser, contrata um advogado, aproveita que o Décio está aqui e contrata ele. Eu vou voltar para Corumbá. —saiu.

—Não! O meu filho não é nenhum criminoso! —chorava e se sentava no sofá. —Te odeio, Anderson! Te odeio!

Marcela e Tomás entram na sala.

—Que gritaria é essa? —perguntou Marcela.

—Mamãe! Papai! O Darlan está preso!

—Mais uma vez! É inadmissível! —falou Tomás.

—Papai, eu imploro. —se ajoelhou aos pés do pai. —solte o Darlan, ligue para os seus conhecidos e solte o meu bebê.

—Não!

—O Anderson não quer ajudar, papai. Vai negar em ajudar o seu próprio neto?

—Levanta, Verônica. —a levanta a segurando pelos braços. —Esse meu neto é uma vergonha! Eu não vou ajuda-lo! Não vou! —a solta e sai.

—Não, papai! Não!

—Tomás! Tomás! —Marcela saiu atrás do marido.

Décio se aproxima e se senta no sofá ao lado de Verônica.

—Existe uma possibilidade dele ser meu filho e você não está em condições de não aceitar a minha ajuda.

Na sala do casarão, Inácio e Anahí entram e encontram Rafael, Luana, Fernanda, Jacinta, Tânia, Florzinha e Amélia.

—Meu filho! —Fernanda o abraça e o beija o rosto. —meu amor.

—Mãe, que bom te ver de novo.

—Os seus tios me ligaram e sair correndo pra cá. Como você estão?

—Bem, apesar do susto que tivemos.

Rafael e Luana abraçam Anahí.

—Filha, o Darlan te machucou? —Perguntou Rafael.

— Ele fez algo com você? —perguntou a mãe.

—Estou bem, meus pais.

—Anahí, que bom que você e o Inácio conseguiram escapar do Darlan. —Florzinha abraça a irmã. —Por que não me disse o que estava se passando?

—Eu não queria te deixar preocupada, Maria Flor, foi um jeito de te proteger.

—Me alivia saber que o Darlan está preso e espero que fique mofando na cadeia. —disse Jacinta.

—Quem avisou a polícia? —perguntou Inácio.

Lino entra na sala.

—Fui eu. Eu estava andando por aquelas bandas perto da cachoeira e vi o Darlan apontando a arma pra você, segui os dois até entrarem numa cabana e depois sai em disparada até a fazenda e avisei a todos e chamaram a polícia. Quando a polícia chegou eu os levei ao local da cabana e aí vimos o momento que vocês dois se jogaram da cachoeira e o Darlan atirando lá do alto da cabeceira.

—Lino você estava no momento certo. Obrigado.

Lino e Inácio se abraçam.

—Não precisa agradecer, você é o irmão que não tive.

—Meu filho é um herói, meu orgulho. —Tânia o abraça e o beija no rosto.

—Vocês dois se arriscaram muito em pular daquela cachoeira. —disse a ribeirinha.

—Era o único jeito da gente se proteger do Darlan, mãe.

—O susto passou e vocês estão aqui a salvo. —disse Amélia.

—Amélia que surpresa ver você na fazenda. —falou Anahí.

—Inácio e Anahí, eu quero pedir desculpas a vocês por ter saído da fazenda sem me despedir e também por te me omitido sobre o Diogo na delegacia.

—Não precisa se desculpar, Amélia, eu te entendo e passamos por situações parecidas. Nós duas formos vítimas de pessoas más.

—Amélia, eu te desculpo e imagino que não seja fácil viver com medo do Diogo…

—O Diogo morreu. —disse Amélia.

—Morreu? —perguntou Inácio.

—Sim, foi morto. Depois eu explico a vocês tudo que aconteceu comigo.

—Agora os dois precisam vestir roupas secas para não pegarem um resfriado e descansar desse susto e enquanto isso eu vou preparar uma comidinha pra todos.

—Eu te ajudo, Jacinta. —disse Tânia.

Jacinta e Tânia saem.

Dois policiais colocavam Darlan dentro da cela na delegacia.

—Me tirem daqui! Eu exijo que me libertem! Vocês não sabem o problema que estão se metendo!

Os policiais o trancaram na sala e saíram.

—Eu sou Darlan Gouveia Barreto! —segurava nas grades e as balançava com força. — Meu pai é um juiz e vai me tirar daqui e vocês vão pagar caro! Cabeças vão rolar!

Uma gargalhada vinha da outra cela ao lado.

—Qual é a tua? Está vendo algum palhaço aqui? —gritou Darlan.

—Quase. —gargalhou.

Darlan furioso olhou para a cela ao lado e viu Nestor e deu um soco nas grades.

—Tá rindo do quê, seu velhaco?

—O patrão não está me reconhecendo? —ficou de frente para ele. —Sou Nestor, o velho garimpeiro, lembra que o finado Diogo te levou para minha casa atrás de saber informações sobre a nascente?

—Finado? O Diogo morreu?

—Morreu e faz uns dias. A guria Suelen atirou nele e depois ainda agonizado ele atirou nela. Os dois morreram, lamentável, não é? É o que todos comentam no povoado.

—Menos dois vermes para me preocupar. O que você faz aqui, velho?

—Uma briguinha boba por causa da cachaça e acabei matando um cara lá no bar. E o patrão está no xilindró por que?

—Não é da sua conta, velhaco!

—Conseguiu achar a nascente?

—Não! Quando eu sair daqui eu vou acha-la…

Nestor gargalhava.

—Para de ri de mim, seu velho caquético! —segurou pela gola da camisa.

—O patrão realmente acreditou naquela estória?

—O que está querendo dizer?

—A nascente não existe! —riu. —eu fiz o patrão de bobo, lero-lero. —riu.

—Seu velho maldito! —tenta bater nele, mas Nestor se afasta.

—Patrão, eu nunca estive naquela nascente. Acha mesmo que alguém conseguiria sobreviver dias com uma flechada no olho? —riu. — tudo que eu disse foi tudo inventado, o patrão caiu na prosa de pescador.

—Por que você mentiu? Fala seu velho mentiroso!

—Mentir porque precisava de uma graninha e foi boa a graninha que o patrão me deu, gastei tudo com cachaça e mulher.

—Seu velhaco mentiroso! —deu um soco nas grades. —Não pode ser mentira! Não pode!

No outro dia pela manhã, Anahí e Inácio caminhavam de mãos dadas pela fazenda.

—Ainda bem que Amélia conseguiu se libertar a tempo assim como nós dois.

—O problema que apesar de Diogo está morto ele ficou impune dos seus crimes. Amélia errou quando mentiu no depoimento que não conhecia Diogo e isso também se torna crime mentir ou omitir informações para as autoridades.

—Eu compreendo que ela agiu desse jeito por medo, o pesadelo dela acabou enquanto o nosso ainda não terminou, Inácio.

—Darlan vai pagar pelos crimes que cometeu, temos que confiar na justiça.

—Mesmo ele estando na prisão eu não vou me sentir segura em saber de que daqui há alguns anos ele será livre e…

—Não, não vamos permitir que Darlan ou qualquer outra pessoa ou situação que aconteça nós impeça de ser felizes juntos, meu amor. —a beija.

—Inácio, ainda não te contei que a cacica Jaci antes de morrer me escolheu para ser a nova cacica dos Toriba.

—Anahí isso é maravilhoso…

—Eu sei, eu me sinto honrada por ter sido escolhida, porém, ao me tornar a cacica terei que morar na aldeia definitivamente e enquanto a nós dois…

—Anahí, não se preocupe porque nada vai mudar entre nós.

—Não quero que sinta preso a mim, Inácio, você tem a sua carreira e a sua vida…

—Vamos deixar que tudo aconteça naturalmente, Anahí, vamos viver o que temos que viver. Se preocupar demais com o futuro nós impede de sentir tudo que estamos vivendo neste momento, neste presente.

—Então, vamos viver e permitir que tudo seja leve e simplesmente fluído como as correntezas. —o beija.

Na delegacia, Anderson se aproxima da cela e ver Darlan sentado no chão.

—Darlan.

—Pai! Pai! —segura nas grades. —Me tira daqui! Me tira desse inferno!

—Darlan, o que você fez da sua vida?

—Vamos parar com os sermões e me tire logo dessa pocilga.

—Não vou te tirar da prisão, Darlan, não vou!

—Como é que é?

—Isso que você ouviu, eu não vou te tirar do buraco que você se meteu. Como teve coragem de sequestrar a Anahí e o seu irmão? O que há dentro de você, Darlan? O Inácio é seu irmão! Ele é o seu sangue e você quis mata-lo como também quis matar a Anahí! Eu criei um monstro!

—Você agora me diz que ele é meu irmão, não é? Você mesmo fez questão de não o reconhecer, de o fazer um bastardo. Você é uma farsa, Anderson Barreto! Um advogadozinho caipira que engravidou a filha do desembargador para se dá bem e conseguiu, não é?

—Me respeita, Darlan! Eu não engravidei sua mãe de propósito!

—Aceite que você é o que é por mim!

—Não! Eu nunca precisei nem de você e nem de sua mãe. É uma pena que percebi isso muito tarde. Você uma decepção para mim, Darlan, eu devia ter dado uma lição enquanto ainda tinha tempo, eu e sua mãe somos culpados por você se tornar o que você se tornou.

—Agora eu me tornei a ovelha negra da família? Me poupe. Se você não me ajudar, o vovô vai.

—Seu avô já disse que não vai te ajudar.

—O vovô não pode me deixar preso! Não pode me abandonar! Foi você que o convenceu a não me ajudar, você quer me destruir!

—Você se destruiu, Darlan, e antes de eu ir embora saiba que aquelas terras nunca foram suas.

—Como? O que está dizendo?

—Você estava tão ansioso, tão ganancioso para ser dono das minhas terras que não percebeu que o contrato que assinou era de locação e não de doação.

—Você me enganou! Mentiroso! Quando a mamãe souber…

—Eu já me divorciei da sua mãe, Darlan, e da próxima vez que for assinar um contrato leia antes.

—Te odeio! Odeio! —balançava as grades da cela.

—Eu sei que você me odeia e isso é uma pena, Darlan. Eu te amo, meu filho, e esse meu amor me cegou ao ponto de passar por cima dos seus erros, hoje pela primeira vez na vida não vou limpar a tua barra, não vou te livrar da prisão. É triste saber que tive que me acidentar e sentir o seu desprezo por mim enquanto tive a atenção, o amor e o carinho do Inácio, que eu amo, mas por egoísmo não o reconheci. Eu não merecia que seu irmão tivesse compaixão ou amor por mim e ele me ama apesar de tudo.

—Suma daqui! Vai embora! Eu te odeio! Odeio! —gritava e balançava as grades.

Anderson sai.

Florzinha ver Amélia sentada no sofá da sala do casarão.

—Amélia, eu quero te mostrar uma reportagem pelo meu celular sobre um crime que aconteceu e quero saber se o Diogo que você conheceu é o mesmo que conheço. —ela entrega o celular para Amélia.

—Sim, você o conheceu?

—Infelizmente sim. —começa a chora e se senta no sofá ao lado. —Ele se apresentou como empresário e me prometeu me tornar uma modelo e eu idiota cair na conversa dele. Quase me dei mal porque ele queria que fosse com ele para Bolívia para fazer uma seleção.

—Era tudo mentira, Florzinha. O Diogo seduzia muitas gurias com mentiras só para as enganar e as vender como garota de programas. Eu passei por isso e digo que você foi abençoada por não ter acontecido algo pior como aconteceu comigo.

—Eu estou muito mal com toda essa estória, e o risco que sofri em ter acreditado na conversa do Diogo. Peço que não diga nada a ninguém e nem aos meus pais sobre isso. Já tem muitos problemas.

—Tudo bem, quero deixar o passado para atrás e começar uma nova vida.

Logo, Tânia entra com uma bandeja com lanches.

—Trouxe os lanches. —colocou a bandeja em cima do centro.

—Nossa. —coloca a mão sob a boca. —só de sentir o cheiro dessa comida fiquei enjoada.

—É mesmo? Pra mim a comida está cheirosa. —pegou um pouco e comeu. —e muito boa. —disse Florzinha.

—Talvez nem deva ser a comida, eu estou tendo esses enjoos há alguns dias.

—Amélia, há alguma chance de você está grávida?

—Eu, grávida? Talvez. —olha assustada para as duas.

—Você pode estar grávida. Já foi ao médico?

—Ainda não fui ao médico.

—Se você estiver grávida esse filho pode ser do…

—Darlan, ele foi o único homem que estive em minha vida. Se eu estiver grávida ele é o pai do meu filho, mas não pode ser. Como vou criar dessa criança? Como?

—Não se preocupe, Amélia, a família dá um jeito de te ajudar. Você tem que saber rápido se está grávida ou não. —disse Florzinha.

Na casa de Fernanda, Anderson aparece e é recebido por ela.

—Anderson.

—Já estou sabendo do que aconteceu e acabei de sair da delegacia e fui ver o Darlan.

—Graças a Deus nosso filho conseguiu escapar e a Anahí também.

—Eu quero te pedir perdão pelo que o Darlan fez com o Inácio. Eu juro que nunca pensei que ele fosse chegar a esse nível de loucura ao tentar contra a vida do irmão.

—Ninguém tem culpa pelo erros do Darlan e agora ele vai pagar por seus crimes na cadeia.

—Não era esse futuro que queria pra ele. —olha as malas ao lado. —Essas malas são suas?

—Sim, eu vou embora e já que está aqui te entrego as chaves da casa. —entrega as chaves a ele. —Eu preciso seguir o meu caminho. Agradeço por essa casa e por ter me ajudado financeiramente a criar o Inácio nisso não posso negar que você cumpriu. Não quero mais que me dê a pensão e dessa vez é definitivo.

—Fernanda…essa casa é sua. —entregou novamente as chaves a ela.

—Mas…

—Eu quero que você vá comigo no cartório assinar o contrato de doação.

—Anderson, eu não acho que…

—Fernanda, por favor, aceite ficar com essa casa. Eu estou a doando a você. Eu posso até aceitar em não te dá mais uma pensão, mas não me tire a minha vontade de te dá essa casa.

Inácio acaba de chegar em casa e entra na sala.

—Pai?

—Inácio. —o abraça. —Como você está, guri do mato? Rafael me ligou, me disse o que aconteceu e voltei. Filho, eu sinto muito pelo que seu irmão fez…

—Darlan está louco de ganância e ódio. A justiça já está sendo feita, ele não pode ficar impune.

—Eu estive lá na delegacia, e apesar dele ter me pedido para tira-lo da prisão eu não vou ajuda-lo. Eu vim aqui em casa para pedir a vocês irem comigo no cartório.

—Para quê?

—Seu pai quer me dá essa casa. Inácio, eu não sei se devo aceitar.

—Por que não, mamãe? Essa casa já é sua.

—A gente vai no cartório para registrar o nome da sua mãe como proprietária dessa casa como também… —ele fica de frente ao filho. —Vou te registrar, guri do mato, como meu filho, como um Barreto.

—Meu Deus! Não acredito! — disse a ribeirinha surpreendida.

—Por que vai me registrar?

—Porque você é o meu filho, o meu guri do mato. Porque eu te amo, Inácio.

—Eu passei tantos anos esperando ouvir de você que me ama, pai. —chorava emocionado. —Por que demorou tanto a dizer?

—Eu errei muito, Inácio, me perdoa por tudo que fiz, sei que não podemos voltar ao passado e mudar o que se passou, porém a vida sempre nos dá uma oportunidade de escrever uma nova estória. Eu quero escrever novos capítulos com você, meu filho. Obrigado por ter cuidado de mim no hospital, nesta casa e ter aguentado esse meu jeito ranzinza as vezes…

—Mandão e cabeça dura. —Inácio riu.

—É, isso mesmo, você também é igualzinho a mim na teimosia.

—Eu tenho que concorda que os dois são bastantes teimosos. —disse Fernanda.

—Inácio, nós dois amamos a mesma mulher. —olha para a ribeirinha ao lado. —de maneiras diferentes: você como filho e eu como homem, mas é amor.

—Sim, amamos a ribeirinha e vou cuidar e a defender até o fim da minha vida. —olha para a mãe.

—Eu esperei tanto por esse momento. —a ribeirinha fica entre os dois.

—Inácio Barreto. —segurou o rosto dele. —Meu filho.

—Seu guri do mato. —abraçou o pai.

Décio para em frente a cela de Darlan e o vê cabisbaixo.

—Darlan, sou eu o Décio, sou seu advogado.

Darlan levanta o rosto.

—Você? Um advogadozinho mequetrefe? Eu quero o melhor criminalista desse país para me defender e não você um asno.

—Caia na real, Darlan, você está em uma enrascada. Nem o Anderson e nem seu avô Tomás vai te ajudar sair daqui. Eu sou o único que pode te ajudar.

—Foi minha mãe que te contratou?

—Não, eu mesmo me ofereci a te defender.

—Por que?

—Porque há uma grande possibilidade você ser meu filho.

Darlan dá uma gargalha.

—Décio, não seja ridículo, você sempre ficou na sombra do meu pai e tem o que tem, é o que é por causa dele. Duvido que minha mãe tenha tido a audácia de ter se deitado com você que não passa de um nerd paspalhão.

—Pois acredite que sim, sua mãe esteve comigo pra se vingar do seu pai quando descobriu que ele estava com a Fernanda e aconteceu quando eram ainda noivos. Eu e sua mãe ficamos várias vezes juntos.

—Mentira!

—Verdade! Sua situação tá complicada, Darlan, seus crimes são muitos e só tem uma pessoa que quer te ajudar que sou eu, então, ou faz o teste de dna ou não te defendo.

—Está me chantageando.

—Essa é a única forma de fazer você realizar esse teste. Eu passei anos com essa dúvida. É pegar ou largar, Darlan, está em suas mãos.

Anderson, Fernanda e Inácio chegam no casarão da fazenda, entram na sala e encontram Rafael e Luana.

—Rafael e Luana, eu registrei o Inácio e a partir de hoje legalmente ele é meu filho, um Barreto.

—Anderson, ainda bem que finalmente você registrou o Inácio. —falou Luana.

—Meu sobrinho sempre foi um Barreto! —disse Rafael.

Verônica entra.

—Que bonito, hein? A imagem da família perfeita.

—O que faz aqui, Verônica? —perguntou Anderson.

—Vim ver o meu filho que foi preso injustamente. Você deve ter alguma coisa a ver com isso, não é, rameira pantaneira?

—Não venha culpar as pessoas pelos crimes do seu filho. O Darlan é um criminoso e eu não tenho nada a ver com isso!

—Anderson você realmente me surpreende depois de tantos anos vivendo uma mentira e escondendo esse bicho do pantanal resolveu agora registra-lo? O que falta fazer é casar com essa ribeirinha morta de fome.

—Escuta aqui sua granfina metida a besta… —parte para cima de Verônica e Inácio a contém a segurando pela cintura.

—Não, mãe, não vale a pena. Dá para se entender quem foi quem o Darlan puxou.

—Chega de briga aqui em casa. Verônica, acho melhor você ir embora.

—Está me expulsando, Rafael? Eu fui sua cunhada, sou mãe do seu sobrinho e você me expulsa dessa casa na frente dessa rameira pantaneira e desse bicho do pantanal!

—Sim, estou, sabe por quê? Porque eu quero paz e desde que você entrou na minha família ela acabou. O que seu filho fez com a minha filha e com o Inácio foi um absurdo. Seu filho é um problemático e precisa de ajuda psiquiátrica urgente.

—E você não diz nada, Luana, e nem me defende e éramos tão amigas.

—Amigas nunca formos. Pra você sou uma caipira sem elegância e educação. Você nunca gostou da nossa família e é uma preconceituosa. Ver se toma vergonha na cara e vá embora!

Jacinta entra na sala.

—Pelo menos vocês não tem mais as terras que tinham antes, eu consegui dividir a fazenda Dois Rios em duas. Os Barreto não são mais os mesmos. —riu.

—Aí que você se engana, Verônica, eu não doei as minhas terras ao Darlan.

—Como?

—Ele estava tão obcecado em ter as minhas terras que assinou sem ler o contrato, ele assinou um contrato de locação e não de doação.

—Você me enganou! Desgraçado!

—Aquelas terras continuam minhas.—olha para o irmão. —continuam nossas.

—Isso significa que a Dois Rios continua sendo a mesma de antes? —disse Jacinta emocionada.

—Sim, Jacinta, a Dois Rios nunca deixou de ser a Dois Rios: as terras dos irmãos Barretos. —disse Rafael.

—Não foi somente você que mentiu todo esse tempo, Anderson.

—O que quer dizer, Verônica?

—Eu te trair com o Décio quando éramos noivos! E o Darlan pode ser filho dele.

—O Décio? Você teve coragem de me trair com o meu amigo.

—Chumbo trocado não doí, Anderson, enquanto você estava se deitando neste pantanal com esta ribeirinha, eu me vingava de você se deitando com teu melhor amigo, não existe uma vingança tão perfeita. Sinta como é se sentir enganado, ser o traído, o corno na frente de todos.

—Saia da minhas terras! Saia! —gritou Anderson puxando Verônica para fora.

—Eu te trair, Anderson! O Darlan pode não ser seu filho! Eu me vinguei! Me vinguei! —gargalhava enquanto era coloca para fora do casarão.

—Santo Deus que confusão. —disse Jacinta.

Anderson se aproxima.

—Anderson, cabeça fria.

—Eu vou sair, Rafael.

—Pra onde você vai? —perguntou Rafael.

—Vou atrás do Décio.

—Anderson não vá fazer uma besteira.

—Não vou, Fernanda, eu só preciso que ele me explique essa estória. —saiu.

—Aí meu Deus, o Anderson está descontrolado, ele pode fazer alguma coisa… —disse Luana.

—Vou lá atrás do pai. —saiu.

—Vá, Inácio, seu pai está fora de si. —disse Fernanda.

No restaurante do hotel estava Décio sentado em uma mesa e Anderson se aproxima.

—Décio!

—Anderson, eu acabei de chegar lá da delegacia… —levanta-se.

Anderson dá um soco no rosto de Décio.

—Traidor! Você teve um caso com a Verônica, ela me disse!

—Anderson, deixa eu me explicar.

—Não tem explicações, você traiu a minha consideração e a amizade que tinha por você por causa de mulher!

Inácio se aproxima e impede o pai de bater em Décio ficando entre eles.

—Não, pai, não vai adiantar bater, você vai perder a razão e arranjar problemas, pai.

—Eu me arrependo, Anderson, de ter me envolvido com a Verônica. Lembra quando te disse que tinha tido um caso com uma mulher que estava noiva e que suspeitava que tenho um filho com ela? Então, é a Verônica. Eu vou fazer o teste de dna para acabar com essa minha dúvida de anos e vou defender o Darlan.

—Faça o que quiser! Para mim a nossa amizade acabou! E espero que você realmente seja o pai do Darlan porque já livra de mim o peso de ter um filho como ele, um filho bandido!

—Vamos, pai, vamos.

Anderson e Inácio saem. E Décio em um dos olhos que ficou com um hematoma após levar o soco.

Dias depois na aldeia acontecia a celebração de Anahí como cacica dos Toriba. Todos os índios estavam reunidos em um grande círculo, também estavam presentes Luana, Rafael, Florzinha e Inácio.

Sami coloca o cocar sob a cabeça de Anahí.

—Hoje o sol nasceu para conhecer a nova cacica dos Toriba: Anahí, filha de sangue dos grandes guerreiros guardiões Raoni e Potira, e filha do amor de Rafael e Luana. —olha para o casal.

Dois casais de crianças indígenas colocam colares da semente de periquiti no pescoço de Anahí.

—Eu, Anahí, a cacica dos Toriba, lutarei e darei a minha vida se for preciso para defender meu povo os bravos e guerreiros Toriba que são igualmente aos outros povos indígenas nascidos nesta terra que os portugueses colocaram de nome de Brasil. Estamos aqui muito antes do que chamam de descobrimento, reinado, império, república, ditadura ou democracia. Essas terras para nós está muito além do olhar do homem branco no qual também respeitamos e queremos que nosso olhar e nossas maneiras de viver, a nossa cultura e a continuidade dela seja respeitada. Todos nós índios, brancos, negros, pardos, orientais, e outras raças, etnias e religiões deste país somos um só povo e que nossas diferenças são o que nós tornam o que somos: brasileiras e brasileiros, é por esse motivo que temos que ser guardiões proteger a nossa fauna, a flora, as águas, é preciso amar e cuidar do que é nosso e fazer nossa parte no planeta que é a nossa casa.

—Viva a cacica Anahí! Viva! —gritou os índios.

Os Toriba começam a vibrar e a dançar.

Luana, Rafael, Florzinha e Inácio se aproximam de Anahí.

—Filha! —abraçou Luana. —Me emociona em te ver uma cacica.

—Ah, meus pais, nunca me imaginei um dia chegar a me tornar uma cacica.

—Vou sentir saudades, na verdade todos nós vamos sentir sua falta lá na fazenda, minha irmã. —Florzinha a abraçou.

—Eu vou continuar visitando vocês na fazenda, ou seja, não vou se livrar de mim tão facilmente. —riu.

—Minha filha, que honra ter criado uma mulher tão forte, tão cheia de garra, sou um pai babão e orgulhoso pela minha filha, minha guria Anahí. —a abraça.

—Ah, pai, eu os agradeço por terem me recebido na casa e nas família de vocês. Sou uma Barreto também é uma honra fazer parte de toda essa estória.

—Você foi e é um presente de Deus em nossas vidas, Anahí. —disse Luana.

—Eu tenho que concorda com a tia Luana, um presente de Deus e o grande amor da minha vida. —a beija.

—Hum-hum, que romântico está esses dois pombinhos. —brinca Florzinha.

Os dois casais riam das caretas que Florzinha fazia.

Fernanda está no salão do restaurante Almirante e conversava com seu Clemente e o Tito.

—Vou sentir saudades suas, seu Clemente. —a ribeirinha o abraça.

—E eu também, são quase trinta anos em Corumbá e agora retorno para minha cidade de Três Lagoas, vou sentir falta do meu Almirante, de vocês, dos clientes, acho que de todos.

—Também vou sentir saudade do senhor seu Clemente. —disse Tito.

—O Almirante vai ficar em boas mãos, nas mãos da melhor cozinheira de Corumbá e na companhia do garoto mais esperto que já conheci. Eu desejo que você seja feliz, Fernanda.

—Obrigada, seu Clemente por ter me dado a oportunidade de trabalhar neste restaurante. —os dois dão as mãos. —tudo se resolveu comprei o Almirante e o meu Inácio foi registrado.

—E o coração?

—Eu e o Marcos estamos namorando e está tudo bem e tudo tranquilo.

—Tudo tranquilo? Tudo Bem? Será que é o que você quer, ribeirinha?

—Seu Clemente, onde quer chegar?

—Você sabe.

Um ano depois, no presídio Darlan andava pelos corredores conduzido por um agente carcerário, entrou no parlatório e ver Décio.

—Darlan, meu filho com você está?

—Não me chame de filho, mesmo que aquele exame de dna tenha confirmado que você é meu pai, eu não te considero meu pai! Não é e nunca vai ser!

—Trago notícias da filha de Amélia, da pequena Maria Vitória.

—Não quero saber das duas! Ela não é minha filha até que o exame de dna prove o contrário.

Décio abre um envelope e coloca sobre o vidro.

—Ela é sua filha, Darlan. A Maria Vitória é sua filha.

—Não! Eu não aceito uma filha de uma garota de programa!

—Você sabe que Amélia foi sequestrada por Diogo e vendida para passar uma noite com você e dessa noite vocês geraram essa criança. Eu estou a conhecendo e vejo que é uma boa guria, quer estudar, é simples, é uma ribeirinha.

—Eu não a quero! Eu não vou registrar essa coisa! Não vou!

Décio pega uma foto da pequena Maria Vitória e coloca sob o vidro.

—Veja a foto da sua filha. A guria nasceu com os olhos azuis iguais os seus.

—Ela nasceu negra!

—Darlan, eu vou deixar o resultado do exame e a foto da Maria Vitória para os agentes te entregar. Eu vou embora, meu filho, e espero que um dia você possa me reconhecer como seu pai e a sua filha.

—É fácil você dizer isso, não é você que vai passar quinze anos apodrecendo neste inferno! Quando eu sair desse presídio eu vou resgatar o que é meu! O Inácio vai ter que me devolver a minha índia!

Décio sai.

—Eu vou me vingar daquele bastardo infeliz! A Anahí é minha! Minha índia! Minha!

Na mansão Gouveia em Campo Grande estava Verônica em sua suíte máster e chorando na cama ao lado da mãe.

—Filha, você precisa agir porque ficar chorando não muda nada.

—Meu filho está preso, descobrir que o Décio é o pai dele e o pior que tenho uma neta de uma ribeirinha. Qual desgraça é pior do que essa mamãe?

—Eu e o seu pai conversamos e chegamos numa conclusão.

—Qual?

—Vamos nós aproximar da ribeirinha Amélia porque queremos participar da criação da Maria Vitória. Você devia fazer o mesmo por ser a avó.

—Nunca vou aceitar essa neta! Nunca!

Dias depois em uma amanhã acontecia uma moda de viola na frente do casarão da fazenda Dois Rios. Rafael, Inácio, Expedito, Zeca e outros peões estavam sentados tocando violas e violões.

—Ter uma viola não o faz ser violeiro. Para se tornar um bom violeiro é preciso tocar a viola até se fazerem calos nas mãos e nem sentir mais os dedos de tanto dedilhar. É só preciso fazer da viola a extensão do seu corpo, é como uma ligação dos braços, do coração e da alma. O violeiro e a viola precisa se tornar um só para assim ter uma harmonia perfeita. —disse Rafael.

—Falou tudo, patrão. —disse Expedito.

—Toca aí uma moda das antigas, Zeca.

—É pra já, patrão. —começa a tocar a viola.

Florzinha passa na frente de Lino que estava encostado numa árvore.

—Maria Flor.

—O que foi, Lino?

—Caramba, precisa me responder nesse tom? Quanta grosseria.

—E queria que eu respondesse o como? Que eu estendesse um tapete vermelho pra você?

—Quer dançar?

—Não!

—Mas…

—Um ano atrás você não me deu bola, fico de namorico pra lá e pra cá com a tal de Cristina e outras, tá? Me chamou de fedelha e só porque hoje já tenho dezoito anos você vem querer se aproximar é ruim, hein, Lino.

—Florzinha, eu…

—Eu nada. Perdeu cowboy, essa guria aqui você perdeu, aceita que dói menos. —saiu.

—Que guria ardida!

Sentada em uma cadeira estilo namoradeira na varanda estava Amélia amamentando a pequena Maria Vitória. De repente aparece Décio e se aproxima.

—Como está a netinha do vovô Décio?

—Cada vez mais comilona.

—Esses dias eu fui ver o Darlan. —sentou ao lado delas. —Entreguei o resultado do exame.

—Ele deve ter reagido mal. Eu não quero ele perto da Maria Vitória.

Anderson ver de longe Décio sentado ao lado de Amélia e da menina.

—O mais importante é que Maria Vitória está crescendo cheia de saúde. —disse Décio.

Anderson se aproxima.

—Décio.

—Anderson, eu estou na fazenda porque queria ver minha neta e já estou de saída. —levantando-se.

—Fica, Décio, essa guria não tem meu sangue, mas criei o pai dela. É minha neta também.

—Sei que talvez nada será como antes…

—Não será, porém, temos uma neta para ajudar a criar.

—É sim.

Os dois olham para Maria Vitória nos braços da mãe. Entram na varanda a Fernanda e o Marcos de mãos dadas e veem o Anderson.

—Anderson, não sabia que vinha a fazenda. —disse Fernanda sem graça.

—Pelo visto vocês estão se divertindo e parecem felizes.

Amélia e Décio observam os três.

—Muito felizes. —Marcos abraça e beija Fernanda.

—E você como está? —o perguntou Fernanda.

—Dando continuidade à minha vida lá em Campo Grande.

Na roda de viola, Luana está ao lado Rafael e o abraça.

—Meu violeiro e eterno apaixonado. —o beija.

—Você é a lua mais bela já vista neste pantanal, Luana.

Zeca termina de toca e todos aplaudem. Anahí se senta ao lado de Inácio.

—Eu quero que o Inácio toque uma moda.

—Vou tocar uma moda que o tio me ensinou a tocar há alguns anos, na verdade não vou somente tocar, eu vou cantar também.

Inácio começa a tocar e a cantar enquanto todos prestam atenção. Anderson, Fernanda e Marcos se aproximam da roda. Após Inácio terminar de tocar todos o aplaudem.

—Mandou bem, guri do mato, é bom violeiro. —disse Anderson.

—Com certeza eu tive como professor o melhor violeiro que todo esse pantanal já ouviu: Rafael Barreto.

—Sangue dos Barretos é sangue de violeiros, meu sobrinho, você teve a quem puxar. —disse Rafael.

De tarde, Anahí estava em frente a cachoeira, cai dentro d’água e começa a nadar até passar pela quebra d´agua e mostra-se um portal para uma outra realidade.

—Muitos procuraram onde está a nascente, quantas vidas foram perdidas pela busca insaciável pelo ouro e o poder que essa descoberta poderia levar.

Anahí está em uma aldeia construída de ouro e ver vários guardiões dançando em círculo ao redor dela.

— Sou mais uma guardiã entre todos esses… —ver seus pais Potira e Raoni ao lado de mãos dadas sorrindo para ela. —Onde está a nascente? — caminha até as margens de um rio de águas douradas, pega um pouco da água com a mão e a sopra uma poeira de ouro caí no céu escuro criando várias estrelas. —A verdadeira nascente é o que está dentro de nós, há um lugar dentro de cada nós seres viventes desta terra que guarda o nosso melhor: quem amamos, o que nós faz verdadeiramente felizes, as boas lembranças, nossa fé, nossas conquistas, nossos sonhos, a música, a dança, a literatura, nos risos, nos beijos e nos abraços… para mim a nascente se chama felicidade e ela somente pode existir dentro de nós. E se alguém ainda não a encontrou é porque precisa a procurar dentro de si e aí quando encontrar o caminho e achar a nascente finalmente vai encontrar o seu tesouro ou aquilo que uma dia chamaram de El Dourado. Acho que eu já tenho a felicidade no sangue, afinal, Toriba quer dizer felicidade.

Anderson estava em frente as margens do rio nas terras da fazenda Dois Rios até que Rafael aparece à cavalo levando uma boiada junto com outros peões.

—Anderson!

—Oi, Rafael, daqui a pouco vou dá uma passeio de lancha, faz tempo que não faço.

Rafael desce do cavalo e segue em direção ao irmão.

—É, olhando essa parte do rio é a divisa do rio Taquari e do Paraguai. Muita coisa mudou no pantanal durante esses anos e apesar de todas essas mudanças seguimos fortes. É como dizem que a natureza sabe se reinventar.

—Quando era jovem dizia que não gostava daqui, não dava muito valor e eu queria era viver na capital. Hoje acho que quando me aposentar vou voltar pra cá.

—Ótimo vou ter mais alguém pra prosear comigo.

—Só não espere que eu faça companhia pra tocar viola e fumar cigarro de palha. —riu.

—Quando olho para esses rios lembro dos nossos pais. Eu fiquei com a parte do rio Paraguai e você com a parte do rio Taquari, somos iguais esses dois rios completamente diferentes e que se encontram e se completam.

—Dois rios, dois irmãos, os Barretos.

—Eu vou seguir com a boiada. —seguiu em direção ao cavalo e subiu.

Rafael segue com a boiada enquanto Anderson entra na lancha e passava pelo rio e pelas vegetações se ver a onça pintada com seu filhote, depois as capivaras, o tuiuiú caçando nas margens, os jacarés na areia, as araras-azuis voando pelo horizonte até que ele passa por uma comunidade ribeirinha e viu Fernanda andando pelo cais.

—Fernanda?

Rapidamente ele atraca a lancha no cais e caminhou em direção a ela.

—Fernanda!

A ribeirinha estava de costas e vira-se para Anderson.

—Anderson?

—O que faz aqui?

—Vim visitar a Amélia e a guria.

—Não sabia que Amélia morava aqui. Esse lugar parece tanto a comunidade ribeirinha que você morava.

Fernanda se aproxima e fica de frente a ele.

—Parece, eu as vezes sinto saudades daquela casinha tão humilde que meus pais construíram.

—Como você está?

—Vou bem, vivendo e reformando o Almirante o deixando mais do meu jeito. Contratei mais gente.

—Isso é ótimo.

—Eu juntei um dinheiro esses anos todos e finalmente conseguir realizar o meu sonho de ter meu restaurante.

—Saudades do seu sarrabulho.

—Se quiser pode aparecer lá em casa, o que acha de irmos agora?

—Não sei se o Marcos vai gostar de saber que estou na sua casa e que você fez um sarrabulho para mim.

—Eu e o Marcos não estamos mais juntos. Anderson, eu percebi que não podia fingir que gostava dele, eu não podia…

—Quem você ama, minha ribeirinha? —ficou próximo aos lábios dela.

—Você, eu amo você, Anderson. —o beija.

—Minha ribeirinha! —a segura nos braços, a levanta e a gira. —eu te amo, Fernanda! —a desce e a beija.

—Um amor tão grande que não cabe em mim e não tenho como esquecer. —o beija. —eu tentei deixar de te amar e não consigo, Anderson, você é o amor que quero viver.

—A vida me deu uma outra chance para ser feliz com você e dessa vez nada me fará deixar escapar. —a beija. — Eu tô com saudade do seu sarrabulho, minha ribeirinha.

—Eu vou fazer o seu sarrabulho. —a beija. —e depois…

—Depois?

—Vamos nós amar. —o beija.

Anderson dirigia a lancha e Fernanda atrás abraçada a ele e seguiam pelo rio e o no horizonte o sol trazendo cores alaranjadas que se misturavam com o azul no céu daquele entardecer e uma chalana retorna de sua viagem e se despedia do pantanal.

FIM

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