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Episódio XIV – Desejo de vingança (parte um)

EPISÓDIO XIV

DESEJO DE VINGANÇA (PARTE UM)

 

*

8h

– Um café sem leite e um pão na chapa – pediu.

Miguel Sampaio ajeitou a pala do boné para que escondesse ainda mais o seu rosto e limpou migalhas de biscoito água e sal, que viera comendo, da barba. Ainda não havia se acostumado com a barba grande, mas esse era um mal necessário. No caminho, pensara que seria reconhecido assim que pusesse os pés em Timbaúba, porém estava começando a perceber o seu engano. Parecia que ele nunca esteve ali. A cidadezinha se ajeitou muito bem sem a presença dele.

–…de acordo com as informações da reportagem, veiculada na edição de hoje do jornal Gazeta da Bahia, o ex-prefeito e ex-vereador de Timbaúba, o senhor José Carlos Pinheiro, conhecido como Coronel Juca Pinheiro, é responsável por diversos assassinatos que ocorreram na cidade ao longo das últimas décadas – o sinal do rádio estava ruim, no entanto foi possível ouvir grande parte da notícia.

Notícia que fez Miguel Sampaio arregalar os olhos e quase soltar um palavrão. Quem foi a pessoa corajosa que escreveu uma matéria sobre a família Pinheiro? Com certeza merecia um prêmio ou, pelo menos, um desconto no caixão.

Apesar disso, as pessoas na lanchonete – dois garçons, um senhor lendo a bíblia em uma mesa perto da porta, duas mulheres simpáticas sentadas ao balcão e um rapaz bebendo o café em pequenos goles enquanto os dedos se mexiam velozmente pela tela do celular – não pareceram ouvir o que o radialista estava dizendo.

Era quase como se aquilo não fosse nenhuma surpresa. Talvez, por esse motivo, as pessoas não se importassem. Ou, quem sabe, tinham medo de esboçar qualquer reação e pararem na mira da família Pinheiro.

– Senhor, o seu pedido – disse um dos garçons enquanto colocava sobre a mesa em que Miguel estava o café em uma xícara de vidro e um pão de sal cortado na diagonal.

– Você pode colocar esse pão para viagem?

O garçom assentiu e deu meia volta, levando as duas fatias do pão consigo. Miguel apurou a audição para acompanhar o restante da notícia.

–…nossas fontes afirmam que a reportagem menciona, além disso, diversos crimes de responsabilidade e uma série de jogadas políticas para que a família Pinheiro se mantivesse no poder – continuou o radialista. – Para os nossos ouvintes que não conhecem a fama dessa família, se isso for possível, os Pinheiro são a mais tradicional linhagem do oeste baiano e comandam a pequena cidade de Timbaúba há bons anos.

O garçom voltou com um saco de papel pardo e o entregou a Miguel, que jogou duas notas de dinheiro na mesa e saiu em disparada. Precisava comprar a edição da Gazeta. Ao chegar à banca, na Pracinha da Matriz, deu de cara com as portas fechadas. Bufou e atirou o saco de papel pardo contra o chão.

– Você sabe se o seu João da banca abre hoje? – perguntou a um dos passantes, uma mulher esguia e com a farda de uma dos supermercados da cidade.

– Não sei não – a mulher sequer parou para respondê-lo.

Miguel olhou para o céu como se esperasse uma resposta. Havia poucas nuvens e o sol já tinia forte, ainda que fosse pouco mais de oito horas da manhã. Pensou que não poderia ter escolhido momento melhor ou pior para fazer o que estava planejando desde que fora escorraçado de Timbaúba.

Jurema estaria vulnerável, provavelmente mais cuidadosa, mas ainda assim indefesa.

Seria o momento ideal.

8h05min

Jurema queria mandar pôr fogo na tipografia que imprimia aquele jornaleco. Mais, queria colocar um batalhão para ir Bahia a fora rasgando cópia por cópia daquela ediçãozinha tendenciosa. Pior ainda, queria encontrar o autor anônimo e expurga-lo da face da terra.

– Anônimo é a desgraça! – vociferou a prefeita. – Eu sei bem quem é o responsável por esse mar de mentiras! – deu um murro na mesa e encarou Camila. – Eu quero a minha equipe jurídica aqui agora! Vou processar esse jornalzinho de quinta até a sétima geração!

Camila se sentia minúscula. Tinha a impressão de que, a qualquer momento, a prefeita iria pisá-la e esmagá-la como se ela fosse uma barata. Os gritos de Jurema ecoavam pela sala e a estremeciam.

– O que você está fazendo aí parada? Mova-se! Anda! – Jurema bateu o pé no chão da mesma maneira que faria se fosse espantar um animal raivoso. – E você, Domingos? Eu quero para ontem um planejamento de marketing estratégico para limpar a minha imagem, sei lá, fazer o mundo se esquecer dessa matéria.

Camila sentia a sua visão escurecer quando se lembrava que Álvaro, o autor anônimo da matéria, estava em sua casa como em férias de verão de filme americano.

– Prefeita Jurema, primeiro vamos precisar de uma resposta a altura para essa matéria – respondeu Domingos.

Jurema Pinheiro fuzilou Domingos de Carvalho com o olhar.

– Não é para isso que eu pago o seu salário, Domingos?

O homem ficou sem palavras. Não lhe restou outra opção além de balançar a cabeça e bater em retirada.

– Eu não faço ideia de como…

– Sem lamentações! – Jurema cortou a secretária de comunicação. – Eu quero ação.

– Você acha que a prisão do Silvero vai piorar a nossa situação?

A prefeita se virou para a ampla janela de vidro que ficava atrás de sua cadeira. A pequena Timbaúba, sua cidade, sua casa, se estendia. A praça, o comércio, o barzinho da esquina sempre com um ou outro bêbado pedindo mais um copo, a moça que vendia cocada e amendoim cozido, a barraquinha de lanches. Lágrimas vieram aos seus olhos, desejou que o seu avô estivesse ali. Ele saberia contornar a situação, dar um ponto final e ainda sair por cima. A quem ela queria enganar? Não chegava nem aos pés do Coronel, não havia aprendido nada com ele. Três meses sozinha e já conseguira destruir a reputação da família, o sonho do seu Juca Pinheiro. Queria deitar no colo dele, ouvi-lo contar histórias entre um gole e outro de café preto forte, a sua voz rouca pela idade preenchendo os espaços vazios da sala de televisão. Tamborilou os dedos da mão em sua coxa, precisava pensar, precisava encontrar um meio de driblar aquela adversidade, retomar as rédeas da situação.

– Jurema? – Camila chamou.

A prefeita sobressaltou-se. Ainda de costas, respondeu-a.

– Sim.

– A prisão do Silvero pode gerar algum efeito negativo para nós? – perguntou novamente.

– Eu não sei… – a voz de Jurema estava distante, como se ela mesma não estivesse ali.

– Ainda há como voltar atrás?

Jurema deu um leve sorriso de quem sente que perdeu.

– Já está feito – disse. – Agora, precisamos seguir em frente.

Camila respirou fundo. Sentia-se como Nero, observando Roma arder em chamas sem fazer absolutamente nada.

Ela sabia que isso poderia acontecer.

Só não achou que isso fosse acontecer.

8h20min

Laurinda deu um sorriso tímido ao ver Salete Pinheiro descer do táxi que a trouxe de volta para casa. A pobre mulher parecia mais magra, menor, mais fechada para dentro de si, mas ainda assim Laurinda estava feliz em revê-la e poderia jurar que Salete também esboçou um sorriso ao vê-la. Provavelmente era imaginação sua, as emoções de Salete eram tão mudas quanto ela.

– Espero que tenha sido uma boa experiência – disse para Salete enquanto ajudava o taxista a levar as malas da pobre mulher para dentro da casa colonial.

Salete assentiu.

– Fiz aniversário essa semana. Sessenta e um anos, passou tão rápido – Laurinda atrasou um pouco o passo para caminhar lado a lado com a cunhada. – Pensei em fazer um bolo, só que não tive animação. Não tinha ninguém para comer…

Eu matei o Juca – Salete sussurrou as primeiras palavras depois de décadas em silêncio e continuou andando como se nada tivesse dito.

Laurinda congelou. Sentiu um misto de surpresa, confusão, medo, acima de tudo, felicidade. Aos seus olhos, Salete ganhou metros de altura e uma força inumana. Queria rir, queria pegar a mulher a sua frente e jogá-la para o alto, queria contar para todos que conhecia o feito de Salete, queria saber todos os detalhes: a sensação de tê-lo expurgado da Terra, as últimas palavras do Coronel, como foi a reação dele ao receber o primeiro golpe.

Porém sabia que Salete não voltaria a falar.

E sabia que não seria preciso: o ato dela valia mais do que o melhor discurso já feito.

Laurinda apressou o passo.

– Que tal um bolo de chocolate? Lembro que é o seu preferido – disse para a cunhada e, de imediato, experienciou uma cumplicidade tácita entre as duas, como se tivessem sido geradas no mesmo ventre e desde as primeiras palavras, compartilhassem os segredos da vida entre si e saber que ela havia sido responsável pelo fim do Coronel não fosse muito diferente de saber o nome da primeira paixão adolescente.

Laurinda percebeu que há muito tempo não se sentia tão feliz.

8h25min

Camila gostaria de se atirar contra uma parede de concreto em alta velocidade.

No entanto, os próximos passos da sua agenda eram muito piores do que isso.

Respirou fundo ao abrir a porta de sua casa e ver que Álvaro estava checando o cabelo através do reflexo de seu rosto em uma bandeja de aço.  

– Vai sair? – Camila perguntou-lhe.

– Quando estava vindo para cá, mandei uma mensagem para a – Álvaro limpou a garganta. – Antônia. Achei que ela não fosse me responder, mas ela o fez. Marcamos um encontro.

– Precisamos conversar, Álvaro.

– Tudo bem que seja na minha volta? – ele pousou a bandeja sobre a estante da televisão. – Estou com um pouco de pressa.

– Não. Agora.

Álvaro franziu o cenho.

– Aconteceu alguma coisa, Cami?

Camila fechou a porta e coçou a cabeça. Não havia se decidido ainda, estava entre a cruz e a espada. Álvaro poderia ser a sua salvação ou a sua pena capital.

– A Jurema sabe você é o autor anônimo da matéria – disse. – Bom, por isso ser verdade, você sabe do que essa gente é capaz de fazer para obliterar qualquer tipo de oposição.

Os cantos da boca de Álvaro se curvaram para baixo.

– Eu não tenho medo de Jurema Pinheiro – ele disse, soturno. – Ela que deveria ter medo de mim.

Camila mordeu o lábio inferior. Pensou em ligar para Jurema e confirmar o paradeiro de Álvaro e, ao mesmo tempo, sentiu que não queria ser a responsável por fazerem com ele o mesmo que fizeram com o Henrique Sampaio.

– Por que Jurema Pinheiro deveria ter medo de você?

Álvaro deu um sorriso sombrio.

– Você realmente achou que eu publicaria essa matéria e viria para cá sem garantir a minha segurança, Cami? – disse. – Então, nossa, você é mais ingênua do que eu pensei.

– O que você fez?

– Mistérios da meia-noite, que voam longe, que você nunca não sabe nunca se vão, se ficam, quem vai, quem foi – Álvaro cantarolou, jactante.

– Você está no território dela, num lugar em que os Pinheiro têm dois olheiros por centímetro e realmente consegue se sentir a salvo de qualquer coisa?

– Acho que você está muito encantada com os super poderes de Jurema Pinheiro, Cami – disse. – Ela pode até ser forte, mas só aqui em Timbaúba. O mundo é muito maior do que ela, e eu tenho certeza de que a própria prefeita sabe disso.

Uma sensação de fúria, de ódio, fez o corpo de Camila tremer como se a própria terra debaixo dos seus pés estivesse tremendo. As palavras de Álvaro foram como um tiro certeiro em sua generosidade.

– Se esse é o seu pensamento, eu espero que tenha assinado um bom contrato de salvaguarda antes de vir para cá.

Álvaro deu de ombros e foi caminhando até a porta. Antes de abri-la, parou ao lado de Camila e sussurrou em seu ouvido:

– Eu sei o que você está pensando em fazer.

E foi-se embora.

8h35min

Jurema se sentia pequena e indefesa. Parecia que ela havia voltado a ser criança e precisasse urgentemente de um adulto para salvá-la dos arroubos mundanos. Não sabia se deveria sentir ódio, impotência ou desejo de vingança. Sequer tinha a noção de o que fazer diante daquele furacão que a sua vida tinha se tornado nas últimas horas.

Desligara o celular. Não queria receber ligações.

Trancara a porta de seu gabinete. A simples ideia de olhar para alguém lhe deixava nervosa.

Fechara as persianas da janela. Sua única, ainda que incipiente, vontade naquele momento era a de ficar na completa escuridão.

Seu avô nunca havia a preparado para uma situação como aquela?

Certa vez, alguns anos antes, quando ela nunca poderia imaginar que o Coronel teria um fim tão trágico, em uma tarde chuvosa de julho, seu avô lhe dissera algo importante:

– As maiores dificuldades não vêm para pessoas fracas, minha neta – o Coronel encostou a sua bengala na parede. – E você é uma pessoa forte, então, deve ficar preparada para as surpresas que a vida pode te preparar.

Naquele momento, Jurema considerou um grande clichê, facilmente o seu avô poderia ter lido aquela frase em um dos livros da biblioteca. Anos depois, sentia o peso daquelas palavras.

Não seria fácil, nada na vida é fácil, mas ela conseguiria dar a volta por cima. Afinal, não carregava o seu sobrenome à toa.

8h40min

Miguel se escondeu em uma rua sem saída. Respirou fundo, onde estava com a cabeça para se arriscar em ser reconhecido? Com certeza encontraria a notícia na internet, não precisava parar as pessoas na rua para pergunta-las sobre a banca de jornal.

Sacou o celular do bolso, seus dedos suados escorregaram na tela e atrapalharam-no de desbloqueá-la. Conseguiu na terceira tentativa e logo abriu o navegador para buscar resultados sobre um nome: Jurema Pinheiro.

Àquela altura, diversos portais de notícia já haviam replicado o conteúdo da Gazeta da Bahia. A maioria sequer trazia uma foto da prefeita (medo?), outros traziam apenas fotos da cidade. Nenhuma passagem sobre o autor original, que era apenas tratado como “um dos mais respeitados jornalistas brasileiros”. Miguel Sampaio leu a notícia em diversas fontes, se deliciou com as palavras, com as acusações, com a possibilidade de Jurema perder o cargo ou, quem sabe, ir para a cadeia. Desejou que ela passasse o resto da vida medíocre numa solitária, sem ver o sol ou ouvir outra voz além da sua consciência cobrando-a pelo que ela fez com ele, com o seu filho, com a sua primeira esposa, com Joaquim Gusmão.

Miguel tentou visita-lo por duas vezes no presídio em Serrinha, antes de ir embora para Sergipe, sem sucesso. Na terceira vez, Joaquim aceitou vê-lo. Tiveram uma conversa tão longa quanto o tempo de visita permitiu.

Quim contou-lhe sobre a sua vida na cadeia, sobre o que sentia todos os dias ao acordar e perceber que estava preso por um crime que não cometera, sobre ser tratado como um criminoso insaciável pelos agentes penitenciários e pelos outros presos, sobre quando brigou com um dos seus colegas de cela e passou duas semanas na solitária sem ter os seus ferimentos tratados, sobre quando um rapaz que não aparentava ter mais de vinte anos foi assassinado em sua frente por outro detento após uma discussão idiota sobre o uso do banheiro.

Miguel Sampaio passou grande parte da conversa se questionando como Joaquim aguentaria passar tanto tempo na cadeia, nunca o vira como sendo o tipo de pessoa forte e resiliente. Na verdade, Quim sempre lhe parecera uma pessoa frágil, meio abobada, incapaz de sobreviver ao inferno por mais do que dois dias.

Surpreendeu-se com o homem a sua frente. Antes de tudo, um forte. Mordera a língua, talvez Quim tivesse a resiliência necessária para aguentar os anos que se seguiriam.

Miguel limpou a garganta e soltou o ar preso nos pulmões. Não poderia se perder do seu propósito em Timbaúba que, com certeza, vingaria Joaquim Gusmão também.

8h47min

– Eu vim assim que soube.

Cícero encostou-se no umbral da porta, parecia apreensivo. Jurema girou a cadeira para vê-lo.

– Sabia que você viria – respondeu a prefeita.

– Não gostaria de te ver passar por toda essa situação sozinha, Jurema – disse. – Embora devamos manter profissionalidade, me agrada manter uma boa relação com você.

Jurema meneou a cabeça com um sorriso sofrido nos lábios.

– Existe a possibilidade dessa matéria se retirada do ar?

– Depois que todos os jornais e a televisão já espalharam aos quatro ventos, eu acho difícil, Cícero.

– E de processar quem a escreveu?

– Para o bem e para o mal, vivemos em uma democracia – lamentou Jurema.

Cícero deu dois passos para dentro do gabinete e fechou a porta.

– Você sabe que há grandes chances da sua oposição protocolar um pedido de impeachment, não é?

– Preciso lidar com a realidade.

– O que você está disposta a fazer para não sair por baixo? – Cícero praticamente sussurrou.

Jurema lhe lançou um olhar desconfiado.

– Não deveríamos manter uma relação profissional?

Cícero passou a mão no rosto e caminhou em direção à mesa, para perto de Jurema.

– Digamos que um impeachment seu traria consequências devastadoras na bagagem. Não seria bom nem para os governistas nem para a oposição, ainda mais com a possibilidade de renúncia do Silvero.

– Nesse caso, Cícero, você se tornaria o prefeito de Timbaúba – Jurema puxou uma mecha do seu cabelo e a enrolou no dedo indicador. – Esse não é o sonho de todo vereador?

Cícero riu.

– Por trinta dias, de acordo com a nossa lei orgânica.

Jurema arqueou uma sobrancelha.

– Há algo por trás disso que eu preciso saber?

Cícero negou com a cabeça e deu a volta na mesa para ficar cara a cara com a prefeita.

– Eu posso te ajudar a reverter essa situação, Jurema.

CONTINUA…

*

Na próxima terça, 25, às 22h, o último episódio da temporada de

A CANDIDATA

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