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Episódio XV – Desejo de vingança (parte dois): último episódio

 

EPISÓDIO XV

DESEJO DE VINGANÇA (PARTE DOIS)

*

8h59min

Álvaro jogou uma bituca de cigarro no chão, pisou-a com o pé e puxou outro do bolso de sua calça. Já era seu quarto cigarro desde que chegara ao local em que marcou de se encontrar com Antônia e ela ainda não havia dado nenhum sinal de que viria ou não.

Caçou o isqueiro no bolso da camisa de botões quadriculada. Era o mesmo que usava desde os tempos de universidade, quando o hábito de fumar se tornara mais frequente e mais prazeroso. Sentiu que o seu corpo estava tremendo e que o pé esquerdo batia nervosamente no chão quando mordeu com força o lábio inferior e acabou se ferindo.

Limpou o filete de sangue que escorria da sua boca com o polegar. Ela não vai vir, pensou. Não tem porque ela vir, eu a abandonei, publiquei uma matéria cuja fonte principal é uma gravação dela vomitando os podres da família. No lugar dela, eu não viria, concluiu Álvaro.

Por outro lado, ele se animou, nós tivemos uma conexão verdadeira. Caralho, eu nunca senti isso antes com outra pessoa. Será que ela sentiu o mesmo? Álvaro sorriu e passou a língua por cima da sua ferida. Tinha gosto de metal.

Olhou para cima e soltou uma baforada. Cuspiu no chão, pôs o cigarro de volta na boca e mexeu a terra com o sapato para esconder sua saliva.

Dez minutos depois das 9h. Haviam marcado para às 8h40, Antônia não viria mais. Poderia, ao menos, ter declinado educadamente o convite. Riu. Logo ele estava cobrando educação?

– Álvaro?

Ele saiu do seu torpor ao ouvir seu nome flutuando docemente no ar. Virou-se. Ali estava Antônia, de braços cruzados e curvada, como se sentisse uma dor no peito. Álvaro quis sorrir, puxá-la para um abraço forte e enchê-la de beijos no pescoço, no rosto, na boca.

Conteve-se a respondê-la secamente.

– Antônia.

– Por que você me chamou para uma conversa?

– Não queria que terminássemos desse jeito.

– Terminar o que, Álvaro, se nunca começamos nada?

Aquelas palavras atingiram-no como uma flechada certeira no coração. Ele tentou não esboçar nenhuma reação.

– Você sabe que…

– Eu não me reconheço mais, Álvaro – Antônia o cortou rispidamente. – Não sei mais quem eu sou ou qual é o meu propósito aqui nesse mundo.

Antônia comprimiu os lábios para segurar o choro.

– Desde que você foi embora, desde que o Coronel morreu, na verdade, desde que eu retornei a Timbaúba: eu não sei mais quem eu sou. Me sinto como um remendo de todas as mentiras, os mistérios, as maldades que a minha família já cometeu e quero ser a pessoa que pagará por isso, só assim eu conseguiria me sentir em paz ou, pelo menos, suficientemente morta para não lembrar de mais nada.

Antônia descruzou os braços para limpar uma lágrima que se atreveu a escorrer pelo seu rosto, deixando-lhe um rastro preto de rímel.

– Agora você aparece dizendo que quer conversar, que não gostaria de que terminássemos desse jeito – ela estalou a língua no céu da boca. – Cê tem noção de como a Jurema reagiria ao saber que eu sou a principal entrevistada nessa sua matéria? Aliás, você parou para pensar em como eu reagiria ao ler em todos os jornais que a minha família é composta por assassinos sádicos e sem qualquer tipo de remorso ou sentimento de culpa?

Antônia se calou como quem espera por uma resposta. Álvaro a acompanhou no silêncio.

– Eu imaginei que não. Você é incapaz de se pôr no lugar do outro.

– As coisas não são assim, Tônia.

– E como são, Álvaro? – a moça se exaltou. – Você me usou para um furo idiota de reportagem, para subir na carreira e ficar famosinho no círculo cult de homens misóginos que você deve tentar a todo custo agradar.

Álvaro não conseguia se expressar. Algo lhe trancava a garganta, colava a sua língua na boca e o impedia de formar sequer uma frase.

– Nem sei o motivo de eu ter vindo aqui perder o meu tempo com você.

Antônia lançou um olhar profundamente triste para Álvaro e deu de costas. Ele quis correr, segurá-la pelos braços e impedi-la de ir.

Não conseguiu.

Antônia se distanciava cada vez mais, e ele permanecia petrificado no mesmo lugar.

9h25min

Olavo Gusmão apoiou-se no braço do sofá. Sua cabeça dava voltas e voltas, como se a Terra estivesse girando mais rápido, mas freasse de repente e a força da inércia quisesse atirá-lo para a frente.

Vera voltou da cozinha com um copo d’água, que chegou na metade devido ao tremor de suas mãos, para o marido. Encontrou-o com o queixo encostado no peito, as pálpebras apertadas uma contra a outra e a ponta dos dedos branca por causa da força com a qual segurava a bengala em uma mão e apertava o braço do sofá com a outra.

– Olavo?

Ele não a respondeu.

– Tudo vai ficar bem, o Quim é forte o suficiente para sair dessa.

– É tudo culpa minha, Vera – ele sussurrou. – Tudo culpa do meu egocentrismo e da minha vaidade imbecil de querer, a qualquer custo, destruir o Coronel. Agora aquele desgraçado está a sete palmos do chão e o demônio que assumiu o lugar dele quis se vingar de mim.

– Não pense assim, não pense assim – Vera pousou o copo na mesinha de centro. – Os únicos culpados são os Pinheiro.

– Como, Vera? Como? Nosso único filho está preso, acusado de um crime que não cometeu e, para piorar, está numa cama qualquer de hospital entre a vida e a morte. Se eu não tivesse sido tão caprichoso, tão cego, o Quim estaria aqui com a gente.

– Eles pagarão por tudo o que fizeram, Olavo. A justiça de Deus tarda, mas não falha.

– A justiça de Deus permitiu que o meu filho fosse preso injustamente!

Olavo bateu a bengala com força contra o chão e abriu os olhos.

– Injustamente!

Vera notou que o rosto de seu marido estava banhado em lágrimas. Foi abraça-lo, porém ele se afastou. Levantou a cabeça.

– Quando iremos vê-lo?

– É uma viagem longa, Olavo. Treze horas. Você não está em condições.

Uma expressão de ódio tomou conta do rosto de Olavo Gusmão.

– Ninguém vai me impedir de ver o Quim, ouviu? Ninguém! – bradou.

No mesmo instante, pôs a mão no peito e fechou seu rosto em dor.

– Olavo!

Vera correu para acudi-lo. Ajudou-o a sentar-se no sofá.

– Eu vou chamar a ambulância!

Olavo a segurou pelo pulso.

– Não deixe que nada de ruim aconteça com o Quim de novo, Vera.

Nós não deixaremos, Olavo! – Vera afirmou.

Vera se soltou e correu para pegar o seu celular na estante da televisão. Discou e voltou-se para Olavo.

O peito dele não se movimentava.

Serviço de urgência hospitalar, com quem eu falo? – disse uma voz masculina do outro lado da linha.

O celular escorregou da mão de Vera e caiu no chão.

Bom dia! Serviço de urgência…

Vera já não escutava mais nada. Caminhou incrédula até Olavo e pôs a mão sobre o seu peito.

– Olavo?

Nenhuma movimentação.

Deitou o ouvido para tentar escutar o coração dele.

E só ouviu silêncio.

9h40min

– Como assim, Jurema? – questionou Domingos. – O silêncio nunca é a melhor resposta!

– Domingos, embora você seja um homem bastante inteligente, não deixa de ser o meu empregado.

Domingos de Carvalho sentiu-se profissionalmente ofendido, mas o silêncio era a melhor resposta naquele contexto.

– Então eu não devo nem lançar a nota no site da prefeitura?

– Não. Por enquanto, nada.

– Ora, ora, Jurema, bem dizem que um dia é da caça e outro, do caçador.

A prefeita não sabia se ficava surpresa ou assustada ao ouvir aquela voz.

– Miguel Sampaio? – Domingos de Carvalho pareceu assustado.

– Veio se oferecer para tirar férias duradouras em Serrinha, Miguel? – debochou Jurema.

O semblante de Miguel Sampaio era de determinação. Ele caminhou em direção a Domingos.

– Se você não se incomoda, eu gostaria de ter um particular com a prefeita. Feche a porta quando sair.

Sem maiores questionamentos, Domingos o obedeceu.

Miguel procurou por qualquer reação de medo ou defesa em Jurema, mas a mulher era expert em esconder seus sentimentos.

– Você sabe que – Jurema tocou o telefone fixo de sua mesa com o dedo indicador – não é preciso muito para a polícia vir te buscar aqui em menos de dois minutos, não é?

– Eu tenho cara de quem se importa?

– Creio que se eu te dissesse o que penso de você, terminaria processada.

– Seu humor decaiu bastante, hein, prefeita…

– Miguel, não sei se você percebeu, mas eu estou no meio de um probleminha político e não tenho tempo para seu ego.

– Probleminhas? – Miguel gargalhou. – Pelo que eu li na matéria, você tem grandes chances de ir fazer companhia ao Joaquim Gusmão no presídio.

– Temo que você esteja enganado, Miguel.

– Não me surpreende essa sua sensação de intocabilidade, de quem está acima da lei, da verdade.

– Há bastantes coisas que o dinheiro pode comprar, Miguel, isso sim te surpreenderia – caçoou a prefeita.

Ele levantou a camisa para mostrar um revólver, escondido entre seu corpo e a sua calça, a Jurema.

– Quando eu cheguei em Timbaúba hoje cedo, estava certo que iria te dar um tiro bem no meio da cara, certeiro, e beber uma cerveja enquanto eu esperava a polícia vir me buscar olhando o seu sangue escorrer pelo chão desse gabinete.

Jurema fez uma cara de desdém.

– Mas mudei de ideia no caminho para cá. Vai ser muito mais divertido ver a sua queda daí de cima do seu pedestal até se espatifar no chão.

– A sua covardia é vergonhosa.

– Em seu lugar, eu não brincaria com um homem armado.

– Nunca te vi como cem por cento homem, no máximo um marmanjo que precisa demonstrar muita virilidade para se sentir um homem.

Miguel ficou atordoado.

– Não teve cacife para impedir a morte da esposa, se casou com uma dondoca fútil e vazia que não servia nem para fazer presença nos eventos por ser tão idiota quanto uma porta, viu o próprio filho ser assassinado e não deu sequer um grito de raiva, foi expulso da cidade e não teve a mínima coragem de se defender das acusações como um homem de verdade faria e, por fim, decide vir aqui achando que vai me intimidar com uma arminha que você nem deve saber usar – Jurema balançou a cabeça. – Isso é patético, Miguel.

Ele pôs a mão na arma, indeciso se a puxava ou não.

– Nem para engatilhar essa arma você tem coragem.

Jurema abaixou a cabeça e voltou a ler algo na tela do seu computador enquanto Miguel estava a sua frente, congelado.

– Caso já tenha acabado, pode dar licença, por favor?

Miguel sacou a arma.

– Quem você acha que é para falar assim comigo, Jurema? – ele engatilhou-a e apontou para a prefeita. – Aliás, quem você acha que é para mandar e desmandar na vida das pessoas como se fosse Deus?

Jurema levantou a cabeça para encará-lo.

– Talvez eu seja a reencarnação de Jesus.

Miguel girou levemente o corpo e deu um tiro na janela atrás de Jurema.

– Acho que você errou.

Ele caminhou na direção da prefeita com a arma em punho.

– Eu pensei melhor e concluí que vou fazer um favor ao mundo te dando um tiro, Jurema.

– Ao contrário de você, Miguel, eu tenho uma família e um legado.

– Eu ainda teria família se o seu avô não tivesse assassinado um por um!

– Sua autobiografia seria um sucesso de vendas.

Miguel sentiu o ódio e o desprezo por Jurema lhe subirem pela garganta. Fechou os olhos e atirou.

Contou até três e os abriu novamente. Esperava ver o corpo de Jurema tombado, entretanto não viu nada. Ficou confuso. A cápsula da bala estava no chão e, na janela, havia um segundo buraco de bala.

De imediato, ele olhou para trás.

Sentiu um objeto pesado atingir-lhe a cabeça.

 

9h47min

Silvero não dormira. Entre três garrafas de vinho e incontáveis doses de conhaque, vislumbrara o seu futuro.

Preso. Talvez Serrinha, se Jurema assim se empenhasse, ou em qualquer cela superlotada da região. Quantos anos? Provavelmente recairiam sobre ele alguns agravantes. A prefeita era uma ótima roteirista, criaria um sem-número de cenas para mantê-lo enjaulado pelo máximo de tempo possível.

Como seria a vida no presídio? Certamente não conseguiria vinho, conhaque ou até mesmo uma cerveja com facilidade. Não tinha família para visita-lo. Se conseguisse ser esperto, talvez pudesse sair da cadeia ainda vivo. Quanto tempo da pena poderia reduzir por bom comportamento? Daria sorte se conseguisse sair antes dos cinquenta.

O que seria de sua vida após cumprir a pena por um crime que não cometeu?

Levou a taça à boca e só então percebeu que estava vazia. Esvaziou também a última garrafa de conhaque e o lhe restou um frasco de perfume e álcool etílico. Atirou a taça contra a parede.

– Vagabunda!

O seu rosto efervesceu. Jurema era uma psicopata, sádica, desonesta e ingrata. Silvero esteve ao seu lado durante anos e o que receberia em troca? Prisão. Se houvesse justiça no mundo, não sobraria sequer o pó dos Pinheiro.

Ficar sentado esperando pelas batidas da polícia em sua porta era angustiante. Doloroso. Poderia levar dias ou semanas, mas ele abriria sua porta e já saberia que o próximo passo seria estender os punhos para receber as algemas. Ferro frio contra sua pele. Mais frio era quem orquestrou todo aquele teatro movido por um desejo de vingança fútil, torpe, ridículo.

De repente, sua cabeça pareceu ter sido atingida por um golpe de machado. Silvero gemeu de dor. Massageou as têmporas inutilmente, aquilo não resolveria e ele não conseguiria se levantar da cama para pegar um analgésico no armário do banheiro.

Quis morrer ali mesmo. Sozinho, bêbado, triste e sem perspectivas. O triste fim de Silvero Santana. Poderia ser trágico se não fosse cômico.

Um dia ele amou Jurema Pinheiro. Não fazia mais do que dois meses, mas pareciam que anos tinham se passado. Hoje, ela estava tramando para prendê-lo e por quê? A presença de Silvero no governo nunca fizera tanta diferença.

A única motivação real era a de que Jurema se tornara o seu próprio avô.

9h50min

– Tentou te matar?

Cícero Amaral tentou conter o riso que teimou em escapar. Jurema aparentou não perceber.

– Eu já deveria estar preparada para isso, sabia que o Miguel não reagiria bem a tudo o que aconteceu com ele nos últimos tempos – avaliou Jurema.

– O que você fará agora?

– Foi para isso que te chamei aqui.

Cícero sobressaltou-se, escabreado.

– Você acha que eu tenho coragem de fazer mal às pessoas, Cícero? – inquiriu Jurema.

– Bom, ninguém é santo.

– Espero que você não esteja se deixando levar pela matéria.

– De maneira nenhuma – atalhou o vereador. –  O que você quer de mim, afinal?

– Leve-o à Barreiras e alugue um quartinho de hotel para ele, nada muito caro.

Cícero encarou a prefeita.

– Jurema, eu admiro a nossa relação e prezo por ela, mas você acha de bom tom que eu faça esse tipo de serviço?

– Eu não estou te pedindo para ocultar um cadáver – ela deu de ombros. – Além do mais, qualquer um pode fazer isso. Só não o levo porque não sairei da prefeitura enquanto meus próximos passos não estiverem planejados.

– Pensou em minha proposta?

– Um pouco – respondeu Jurema.

– É a sua única saída nesse momento.

– A vida não é tão estanque assim, Cícero.

– Há casos em que é.

– Por que eu deveria confiar em você?

– Tem outra pessoa para ocupar o meu lugar nesse momento?

Jurema abaixou a guarda e sorriu.

– Meu maior receio é o preço que terei de pagar por essa confiança.

O vereador se manteve impassível.

– Nós seremos uma boa dupla, Jurema.

9h55min

Laurinda não conseguia parar de pensar nas palavras de Salete. Tampouco podia conceber como aquele corpinho foi capaz de assassinar o Coronel Juca Pinheiro de maneira tão fria e calculista. À parte isso, estava feliz. Poderia ter sido ela a mata-lo, mas Salete sofrera tanto quanto Laurinda nas mãos do Coronel. Cobiçava apenas ter estado presente no momento da morte, ter visto o sangue do velho maldito jorrar e sujar a faca, as mãos de Salete, as paredes do quarto; ter ouvido os gritos de dor do desgraçado. Seria um deleite!

Salete comia uma fatia do bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro que Laurinda mandara trazer da padaria como se não tivesse revelado um segredo. Aos olhos da cunhada, parecia mais frágil, porém mais forte. Uma pobre antítese.

Laurinda se assustou quando a porta da frente bateu com força. Antônia subiu as escadas como um foguete, sequer notou a presença das duas sentadas à mesa de jantar.

– Sua filha já sabe que você chegou?

Sem retirar os olhos do bolo, Salete negou com a cabeça. Laurinda levantou-se e empurrou a cadeira em direção à mesa.

– Acho que vocês precisam ter um relacionamento de mãe e filha, já passou da hora – advertiu. – Foi a Antônia que pediu para Jurema te trazer de volta, ela sempre sentiu a sua falta.

Salete manteve a cabeça baixa.

– Antônia não tem culpa do que aconteceu.

A pobre mulher bateu com força o garfo no prato de vidro.

– Nem você tem culpa, Salete – a voz de Laurinda soou tão doce quanto não soava há anos.

Salete começou a balançar o corpo para a frente e para trás como se estivesse em uma gangorra.

– Calma – Laurinda se aproximou da cunhada e pôs a mão em seu ombro. – Uma coisa de cada vez.

Quando olhou para o vidro da porta do armário em sua frente, a viúva poderia jurar que viu o reflexo do Coronel. Virou-se para trás, assustada. Ninguém estava ali.

– Vai de retro, demônio! – esconjurou.

Salete não notara nada. Laurinda sentiu a boca ficar seca.

– A Antônia precisa de pessoas que não tratem o Juca Pinheiro como um deus – disse enquanto enchia um copo com água do filtro de barro. – Ela precisa.

Levou o copo a boca e bebeu a água em um gole.

10h05min

Álvaro se sentia um estorvo. Um monte de lixo. Um desgraçado insensível, vil, perverso. Antônia tinha razão em não o perdoar: ele era egoísta, se punha em primeiro lugar e pouco se importava com quais meios atingiria seus objetivos. Usava qualquer um sem culpa e sem remorso. Merecia viver sozinho, morrer sozinho, nunca experimentar um amor recíproco a menos que pagasse para tê-lo.

– Achei que seu encontro fosse se estender até a noite – desdenhou Camila ao vê-lo entrar em sua casa.

– Não estou com paciência para você agora, Camila – retorquiu Álvaro.

– Em seu lugar, eu não me preocuparia: o São João começa amanhã e eu tenho absoluta certeza de que você esquecerá a Antônia rapidinho.

– Esse não é o horário de você estar na prefeitura lambendo o chão que a Jurema pisa? – Álvaro atacou-a.

Camila fez uma expressão de tédio.

– Às vezes é chato ser uma secretária municipal e ter gente para fazer o meu trabalho – disse.

– Quanto maior a altura, maior o tombo.

– Você que o diga.

Álvaro franziu o cenho.

– Ainda não me entregou à prefeita? – questionou.

– Eu tenho motivos para tal ato?

– Inveja, ego, posso fazer uma pequena lista.

– A ideia me atrai, eu não posso negar – disse Camila. – Há chances de você me entregar a Jurema de bandeja e, depois dessa matéria, eu ganharia muitos pontos com ela te delatando – a secretária fez uma pequena pausa e, logo em seguida, concluiu: – No entanto, eu não ganharia nada com isso. Até hoje não me recuperei do Henrique Sampaio.

Álvaro respirou fundo.

– Se você não me entregar, eu não te entrego, certo?

Camila piscou o olho.

– Certo.

Álvaro contornou Camila para ir à cozinha.

– E a Antônia? Pelo visto ela não te perdoou.

Ainda não me perdoou.

– Ainda?

– Agora que fizemos as pazes – Álvaro abriu a geladeira e pegou uma cerveja em lata. – Estou considerando passar mais um tempo aqui.

Camila sorriu.

– Tem certeza?

– Como dois e dois são quatro: Álvaro Fontes não desiste sem lutar.

Camila foi tomada pelo sentimento antigo de amizade e cumplicidade que nutria por Álvaro.

– No que depender de mim, você pode ficar o tempo que quiser.

Álvaro deu um gole na cerveja e a olhou com ar de gratidão, mas antes que ele pudesse falar algo, o celular de Camila tocou.

– Jurema? – ela atendeu e ficou em silêncio por uns instantes. – Estou indo para aí agora.

Camila pôs o celular de volta e fitou Álvaro.

– Você realmente achou que poderia destruir os Pinheiro?

10h45min

Chora de manso e no íntimo… procura

Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia:

O mundo é sem piedade e até riria

Da tua inconsolável amargura.

Jurema Pinheiro soltou todo o ar que estava em seus pulmões. Só saberia se aquela era a decisão certa quando a tomasse.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.

Aprende a amá-la que a amarás um dia.

Então ela será tua alegria,

E será ela só tua ventura…

Ajeitou o colarinho do seu blazer preto e posicionou-se no “x” que Domingos de Carvalho marcara com giz branco no chão. O diretor ligou a luz do softbox e correu rapidamente até Jurema para colocar o microfone de lapela no lugar, pois ele havia se soltado.

 

A vida é vã como a sombra que passa

Sofre sereno e de alma sombranceira

Sem um grito sequer tua desgraça.

Quando Domingos de Carvalho voltou para atrás das câmeras, Camila fez um gesto com a mão indicando que ele começara a filmar. Jurema se aprumou, encarou fixamente a lente e assumiu em seu rosto uma expressão austera, mas também triste.

– Meu querido povo de Timbaúba, todos vocês devem já ter visto as recentes notícias que a mídia espalhou sobre mim e sobre a minha família de maneira cruel e mentirosa: eu, meu pai e meu avô sempre cuidamos desta cidade como se fosse a nossa casa, sempre cuidamos de cada um de vocês como se fossem da nossa família. Nunca deixamos nada faltar: médico nos postos de saúde, emprego, comida na mesa, escola para as crianças. Esse é e sempre será o nosso compromisso, afinal fazer política não é nada mais do que dar ao nosso povo a vontade de sorrir por saber que não lhes faltará o pão de cada dia.

“Está no sangue da minha família prover meios e lutar com todas as forças para que Timbaúba não dependa de Barreiras ou Luís Eduardo Magalhães e, quando dependermos, que tenhamos dignidade e possamos ir de cabeça erguida. São anos dedicados ao cuidado com vocês. Por isso, saibam que todas as coisas ditas pelos jornais e pela televisão são mentiras sórdidas e absurdas. Se nós tanto cuidamos de vocês, não temos medo de ninguém. Nunca atuamos para impedir a manutenção do poder, nunca compramos voto e nunca assassinamos um opositor, pois a nossa palavra-chave é a democracia.

Contudo, nós também sabemos que toda essa situação cria um conflito de interesses movido pela minha presença neste gabinete. Não devemos nada a ninguém e nem temos nada a esconder.”

 

Encerra em ti tua tristeza inteira

E pede humildemente a Deus que a faça

Tua doce e constante companheira…

– É por esse motivo que eu, Jurema Pinheiro, renuncio ao meu mandato como prefeita democraticamente eleita de Timbaúba.

CONTINUA… 

*

Com mais uma temporada concluída, A Candidata tem mais fôlego do que nunca. Eu agradeço, de todo o meu coração, a todas as pessoas que acompanharam a temporada e aviso: se preparem, pois em breve Jurema Pinheiro e o seu clã retornará às telas do MV!

P.S.: O poema deste episódio é Renúncia, de autoria do poeta pernambucano Manuel Bandeira.

 

NESSA SEXTA, 28, ÀS 21h, A REEXIBIÇÃO DO ESPECIAL A CANDIDATA: MEMÓRIAS!

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