Morava na cidade de São Paulo, e toda manhã era despertado por um beijo e a prece matinal:

– Amor, está na hora. Vai se atrasar.

O chuveiro de sempre, um rápido café. A vida se mostrava estável e imutável. Do jeito que sempre acreditei que deveria ser. Entrava no carro e rapidinho, vinte minutos no máximo, chegava à universidade. Era praxe, Carolina, minha assistente, correr atrás de mim, sempre aos tropeços, tentando me acompanhar enquanto recitava metodicamente a maldita agenda. A pergunta rotineira que eu mais temia fazer era se haveria alguma entrevista com a mídia no dia. Detestava encarar aqueles repórteres sensacionalistas.

Entediante maratona de trabalho à parte, o que mais gostava era a coleta de dados e a análise de relatórios dos experimentos. Apreciava ver o que havia dado certo, sem deixar de incluir os experimentos que deram errado. Sempre acreditei que também aprendemos com o fracasso.

Horas vagas eram difíceis, mas quando surgia alguma, tornava secretamente a trabalhar numa teoria que há muito dera início, quando ainda estava na graduação: Comunicação celular. Após meu doutorado em neurociências, a curiosidade para entender como as células se comunicavam prevalecia. A interação celular sempre foi um tema amplamente abordado e explorado na literatura científica, mas a intuição me dizia que poderia ser aprofundado. Escolhi os neurônios como objeto de pesquisa. Na verdade, eu era assolado pela ideia de que as eles poderiam possuir diversas formas de comunicação além dos sinais químicos. Estes seriam lentos para justificar a rapidez de suas reações. Um neurônio é capaz de receber e transmitir um sinal sem que jamais tenha sido estimulado vias normais dos sentidos básicos: visão, tato, audição, paladar ou olfato. A intuição é um exemplo. Uma reação premonitória vinda de onde? O cérebro é consciente somente de trinta por cento do que capta através dos cinco sentidos. Ou seja, aproximadamente cinquenta gigabytes de informação por dia. Outros trinta por cento representam aquilo que captamos e é depositado no inconsciente. No entanto, quarenta por cento restante representam informações vindas de algum lugar que não dos sensores físicos. Bem, um mistério que me motivou a desenvolver um equipamento, o qual seria capaz de captar o impulso emitido por um neurônio e transformá-lo em um sinal de áudio e vídeo. Dessa forma conseguiríamos conversar com a célula e desvendar seus segredos.

Antes do desenvolvimento do aparelho, eu não sabia por onde começar. Com essa ideia insólita, sentia-me inseguro de pleitear incentivos ou quaisquer formas de apoio governamental. Os motivos eram claros, primeiro: deveria ter o domínio total do conhecimento, segundo: obtenção de resultados concretos e terceiro, teria de ter cautela quanto a confidencialidade do projeto e amplo direito ao meu ineditismo da descoberta. Para dar início, a saída, então, foi utilizar os equipamentos de segunda mão existentes no laboratório da própria universidade. Não precisava de nada muito sofisticado: Microeletrodos, um osciloscópio com saída para áudio e vídeo, acoplado a um computador.

Aos poucos, formei uma pequena equipe e contratei André para ser meu assistente. Fora meu aluno. Bolsista, de origem humilde e sofrida, abandonado pelo pai quando ainda menino. Contudo, brilhante mesmo com sua pouca experiência, a qual era compensada pela argúcia em questões técnicas e operacionais.

Iniciamos por captar e pesquisar os impulsos neuronais de lulas. Esses moluscos possuem neurônios grandes e muito fáceis de manipular. Conseguimos receber os primeiros sinais: um conjunto de ruídos, chiados e imagens nebulosas, que mais pareciam se confundir com interferências. Não era o que buscávamos. Sabia que conseguiríamos algo bem mais interessante.

Mais tarde, dados coerentes surgiram. Os primeiros gráficos e sons demonstravam que o neurônio era de fato capaz de produzir sinais que poderiam ser captados e traduzidos como informação. Estávamos, portanto, no caminho certo. A célula tentava dizer algo. Bastava saber entendê-la. Cheguei a supor que ela fosse portadora de algum tipo de memória magnética, o que abriria outro universo de possibilidades.

Especulei sobre a possibilidade de monitorar o neurônio de alguém que tivesse sido assassinado, por exemplo, e conhecer, por meio de imagem e som, o causador da fatalidade. Só o que teríamos que fazer seria reproduzir os sinais de seus últimos momentos. Quantos crimes poderiam ser solucionados assim!

No entanto, apesar dos esforços as primeiras leituras estavam longe de nossas expectativas. Como um neurônio geraria impulsos traduzíveis em sons e imagens tão coerentes? Hesitei por muito tempo diante dessas e de outras considerações. Quase desisti, principalmente ao deparar-me com uma problemática de outra ordem: a necessidade de mutilar o animal para instalar os eletrodos em seu cérebro, procedimento que resultaria em muito sofrimento, sem falar nas infecções, o que comprometeriam os testes.

Tais questões elementares eram desanimadoras, mas a curiosidade mantinha a motivação. Aliás, a vida de um cientista é assim: cheia de dúvidas e decepções. É; decepções. Aprende-se a lidar com elas. O mais emocionante, contudo, é investigar o desconhecido, apesar das pressões internas — que beiram a obsessão em descobrir algo relevante para a humanidade — e externas, pois o mundo científico exige resultados de um pesquisador. Com isso, o ser humano por trás do título acadêmico corre o risco de ser engolido assim que veste o jaleco branco e torna -se prisioneiro da própria vaidade. Arrogância é um veneno.

* * * * *

Após várias tentativas frustradas e discussões com minha reduzida equipe, decidi interromper a pesquisa para um balanço. Precisávamos encontrar uma forma melhor de transduzir os impulsos neuronais em imagens e sons.

– Pessoal, nossa pesquisa precisa ser mais bem elaborada e dimensionada. Temos que interrompê-la por algum tempo. Duas semanas. Assim que resolvermos as questões técnicas, retornaremos.

André mostrou-se decepcionado com a decisão e veio falar comigo:

– Caso encontre alguma solução, posso contatar o senhor?

Meneei e embora visivelmente decepcionado, o rosto do rapaz brilhou de satisfação com a abertura que lhe proporcionara. Minutos depois, Carolina me informou que o reitor desejava falar comigo. E era urgente. Imaginei mais uma daqueles polêmicos incêndios jornalísticos. O bombeiro? Sim, eu. É claro que teria de fazer o trabalho de apagar o fogo daquelas mentes leigas e sensacionalistas. O reitor era um homem de senso prático, mas pouco resistente a pressões. O roçar de seus dedos na testa indicava grande preocupação e ansiedade. E foi assim que o vi quando entrei em sua sala. Então, fui logo perguntando:

– Bom dia, reitor. Qual é o assunto? — Embora já tivesse imaginado a ladainha de sempre. Então, ajeitando sistematicamente os papéis sobre a mesa o reitor respondeu:

– O governo decidiu interromper as pesquisas com células embrionárias. Parece que a Igreja condenou formalmente o uso desse tipo de célula. A notícia desencadeou fortes restrições às pesquisas em todo mundo.

– Minha nossa! Seremos condenados à fogueira social. Parece que a coisa já foi decidida. O que podemos fazer?

– Professor, o senhor lidera uma das maiores equipes do país. Sua palavra será importante. Os jornalistas desejam uma coletiva. E o aguardam no auditório.

“Odeio isso.” – Pensei.

Precipitei-me até lá. Ao longo do caminho, vários argumentos passaram pela mente sem que soubesse ao certo qual usar. Um deles justificaria a continuidade das pesquisas: “A universidade destacou-se mundialmente com os resultados das pesquisas com células embrionárias, mas agora é alvo de condenação política e popular”.

Na verdade, com a tal condenação da Igreja, haveria um retrocesso significativo no progresso científico, além da possível perda do incremento financeiro internacional à universidade cujos números chegavam a alguns milhões de dólares.

 Caminhava para o auditório enquanto tentava desesperadamente encontrar algo para dizer, quando, do nada, lembrei-me de um sonho recorrente. Era sobre um menino. Esta simples lembrança deflagrou uma reação intrigante: Uma espécie de visão (alucinação?), porém dotada de detalhes bem reais. A criança, que aparentava ter uns seis anos, encarava-me atentamente esboçando um sorriso que a mim parecia familiar e… real. Tive a impressão que poderia tocá-lo. Acelerei o passo, mas era uma visão de natureza fugidia.

Quando já perto da entrada do auditório, tudo se desfez.

Encontrava-me diante da entrada quando notei que o local estava abarrotado. Tive que me desvencilhar da sensação de estranheza para me recompor. No entanto, o marulhar produzido por aquela onda de jornalistas, fez a irritação emergir. Suspirei e procurei me controlar. Tinha de agir racionalmente. Também não descartei a ideia de consultar um neurologista o quanto antes.

E por que os sonhos frequentes com aquela criança? Jamais comentara com Lara a respeito. Para quê? Só aumentaria mais a sua frustração por não termos tido filhos. Sou estéril. Lara chegou a pensar em adoção, mas rejeitei a ideia.

 

A Widcyber está devidamente autorizada pelo autor(a) para publicar este conteúdo. Não copie ou distribua conteúdos originais sem obter os direitos, plágio é crime.

Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

Publicidade

Inscreva-se no WIDCYBER+

O novo canal da Widcyber no Youtube traz conteúdos exclusivos da plataforma em vídeo!

Inscreva-se já, e garanta acesso a nossas promocionais, trailers, aberturas e contos narrados.

Leia mais Histórias

>
Rolar para o topo