Kapittel femten

XXIX – Deus está aqui!

O bebê Obarth chorava alto dentro do casebre. Freya tentava acalmá-lo enquanto Thórin tentava entender o que tinha acontecido. Cartrolous estava nervoso, andava de um lado para o outro e não conseguia se explicar.

– Calma, Cartrolous! – disse em tom alto o novo Earl de Gudwangen.

Cartrolous pegou a taça de chifre curvado e tomou todo o hidromel em um só gole.

– Eles chegaram, Thórin! Eles chegaram! – dizia o irmão de Freya.

Thórin bateu com o punho cerrado sobre a mesa.

– Eu nunca tive medo de cristão nenhum. Não vai ser agora que eu vou ter.

– Mas deveria, Thórin. – disse Cartrolous tentando se acalmar. – Eles estão muito mais fortes do que antes. – completou ele aproximando-se de sua irmã e acariciando o bebê que começava se acalmar.

Thórin observou a cena com o pensamento longe. Estava pensando no que iria fazer caso os cristãos chegassem em Gudwangen. Agora ele era o Earl e as decisões passavam todas pela sua permissão.

Cartrolous pegou o bebê Obarth no colo enquanto Freya servia-se de hidromel e bebia.

– Como Margreet foi morta, meu irmão? – perguntou Freya.

Cartrolous conversava com o bebê e acariciava seu pequeno rosto.

– Ele tem os olhos da Margreet. – começou Cartrolous.

Thórin e Freya o observavam.

– Ela estava tentando protegê-lo. Se eles são como diziam, porque permitiram deixar um ser indefeso sem sua mãe? – Cartrolous segurava Obarth junto ao seu peito.

Freya fez menção de se aproximar, mas foi impedida por Thórin, que ergueu a mão para ela parar e deixar Cartrolous continuar.

– Quando arrombei a porta o maldito segurava Obarth em um braço e com a espada na outra mão cortou a garganta dela… – Cartrolous suspirou fundo e começou a chorar.

Freya estava apreensiva.

– …mas eu juntei forças não sei de onde, acho que Odin e todos os deuses se juntaram à mim. Tirei meu pequeno Obarth dos braços daquele desgraçado e o coloquei em um canto protegido… – continuou Cartrolous contando o que aconteceu com o sangue fervilhando em suas veias.

Thórin serviu mais hidromel e alcançou para o cunhado.

– …e depois, Thórin. Eu peguei minha faca e cortei aquele maldito em muitos pedaços. Eu só parei quando o irmão da Margreet apareceu. – disse Cartrolous bebendo em um só gole o hidromel servido por Thórin.

Freya se aproximou e pegou Obarth novamente. O pequeno garoto já cochilava e ela tratou de colocá-lo dormir sobre os agasalhos de pele.

Longe dali, próximo à uma floresta que fazia divisa com a vila de Gudwangen, um grupo de soldados cristãos se aproximavam montados em seus cavalos e armados “até os dentes”. À frente deles estava o jovem rei Estherood II. Usava uma capa de cor azul escura que se deslizava pelo lombo do animal que ele montava. Ele sorriu ao ver os telhados dos casebres da vila de Gudwangen. O seu fiel escudeiro Myrell chegou ao seu lado montado em seu cavalo.

– Tem certeza que esta é a vila dos responsáveis pelo último ataque à Nielisen? – perguntou Myrell.

– Eles não perdem por esperar, meu amigo. Eles que me aguardem. Mande um grupo pra fazer reconhecimento. Quero ter certeza do que estou fazendo. – respondeu o jovem rei.

Myrell observou o lugar ao longe e sacou sua espada em sequência.

– Deus está aqui hoje, Myrell. E ele vai passar por cima dos deuses dele. – disse o rei Estherood II beijando o crucifixo pendurado ao seu pescoço.

XXX – Salve Earl Thórin!

Uma mecha locomoveu-se para o meio, mas acabou encontrando-se na esquerda. Uma outra também deslocou-se para o meio, mas quedou-se para a direita. A terceira permaneceu parada e, então, estabeleceu-se no meio, não por muito tempo, pois logo foi conduzida para a esquerda. Outra vez tentou destinar-se ao centro, mas acabou encaminhando-se para a direita. As três mechas de tanto tentarem o mesmo caminho, ficaram entrelaçadas formando uma trança perfeita. Puxadas e enroladas, se formaram no centro, com alguns finos e delicados grampos de prata e de ouro alternados. Finalmente, Freya terminou sua última trança bem no alto de sua cabeça, interligando todo o seu cabelo. Pegou pequenas correntes douradas e enrolou por volta das tranças, mais parecendo uma serpente. Ficou alguns instantes pensativa, passou a mão sobre a cicatriz em seu rosto e sorriu. Apesar de tudo, tinha orgulho. As cicatrizes de batalhas eram motivos de orgulho para os nórdicos.

Suspirou fundo e arrumou o seu vestido. A saia caía até a altura dos seus calcanhares e era de um verde como o grosso musgo que corria nas rochas de um rio de águas tranquilas, junto a pequenos detalhes de uma costura delicada. O balançar da cortina de paus despertou a atenção de Freya. Ela virou e se deparou com Kaira, usando uma túnica vestido de cor clara contrastando com seus cabelos vermelhos.

– Que cara é essa, Kaira? O que aconteceu? – perguntou Freya notando a expressão pensativa e triste da jovem.

Kaira se aproximou de Freya pegando em sua mão e a convidando para sentar.

– Está me deixando preocupada, querida. – disse Freya atendendo o pedido da jovem escudeira.

Kaira deu um longo e profundo suspiro. Freya notou toda a aflição da jovem de cabelos vermelhos e acariciou seu rosto tentando acalmá-la.

– Hoje é dia de comemorações. – falou Freya.

– Eu sei. E não quero estragar este dia para Thórin. – respondeu Kaira. – Mas eu preciso desabafar com alguém. – ela continuou.

– Você tem a mim, querida. O que aconteceu?

Kaira baixou a cabeça…

Flashback de Kaira com Castelli na beira do mar

Ao lado do jovem Castelli, usando um longo e pesado agasalho negro como aquela noite e um capuz que deixava apenas a ponta dos seus cabelos vermelhos à mostra, Kaira apreciava as águas calmas daquele mar sereno enquanto um vento gelado soprava em direção contrária aos seus olhares. Castelli, de pé ao seu lado, cruzou os braços encolhendo-se tentando se proteger do frio.

– Eu tenho uma coisa pra te contar, Kaira. – disse ele.

Kaira não tirou os olhos do mar à sua frente.

– Se são lembranças de Nielisen é melhor deixar pra lá. – disse ela.

Castelli sorriu antes de continuar.

– Eu acho que é algo que te aflige desde que você foi condenada à viver com estes nórdicos. – ele falou com raiva e desprezo no olhar.

Kaira tirou os olhos das águas e o encarou.

– Eu não fui condenada à viver com eles. Pelo contrário, me deram um lar e uma nova chance de recomeçar.

Castelli se agachou e ficou a olhar as ondas que beijavam as areias.

– É sobre sua mãe, Kaira. Tem certeza que não quer saber o que aconteceu com ela? – perguntou Castelli.

Kaira permaneceu em profundo silêncio por alguns instantes. Era nítido em seus olhos a dor que ela sentia. Saber notícias de sua mãe era o que ela mais queria ao longo de todos estes anos. Não houve um dia sequer que ela não se perguntava o que teria acontecido com a mamãe. Ela passou a mão no rosto.

– É claro que eu quero. É tudo que eu mais quero em todos esses anos, Castelli. – respondeu ela sem mover o olhar.

Castelli se levantou.

– Ela sobreviveu ao ataque…

Neste momento os olhos de Kaira brilharam.

– …mas a vila estava toda destruída…os amigos, conhecidos, todos mortos ou gravemente feridos. E o principal, Kaira. A filhinha dela havia sido levada para longe. – finalizou Castelli.

– Ela ainda está viva, Castelli? – perguntou firme a jovem de cabelos vermelhos.

– Viveu com muita dor em seu coração por longos seis meses. Mas não comia, sequer bebia alguma se não fosse nós insistirmos muito.

Castelli se virou para Kaira.

– Ela não aguentou o sofrimento de saber que não tinha mais você, Kaira. Depois de seis meses foi encontrada morta… – Castelli falou.

Kaira tentou ser forte, mas foi em vão a sua tentativa. As lágrimas rolaram pelo seu rosto e ela nem fez questão de limpá-las.

– …sinto muito. – disse Castelli.

De volta ao casebre

Freya abraçou a jovem escudeira e a consolou em seus braços. Ela sabia por quanto tempo aquela menina pedia da mãe verdadeira causando, inclusive, uma certa irritação em Thórin.

– Sinto muito, Kaira. – disse Freya. – Talvez era disso que você precisava saber. Pra tirar esta angústia do seu peito. – complementou ela.

Kaira se desfez do abraço e encarou a mulher à sua frente. Limpou as lágrimas e sorriu.

– Talvez sim. – respondeu Kaira. – Você está linda. – ela ainda falou tentando mudar de assunto.

– Obrigada, querida. Você também está linda. – respondeu Freya.

Alguns minutos mais tarde

O povo estava agitado dentro do grande salão. Aguardavam ansiosos pela chegada do novo Earl. Freya surgiu radiante no pequeno palco e foi recebida com louvor por todos. Kaira, sempre ao seu lado, olhava admirada aquele poder que agora eles tinham.

Freya fez sinal com a mão sorrindo e pedindo a palavra.

– Silêncio, por favor… – começou ela.

O povo atendeu seu pedido e foi silenciando. Freya os observava com um sorriso no rosto. Sabia que àqueles que ali estavam seguiriam o novo Earl de olhos fechados se fosse preciso.

– …recebam o novo Earl. – ela reverenciou a chegada de Thórin, envolto em um pesado agasalho com adereços dourados.

– Salve Earl Thórin! Salve Earl Thórin! Salve Earl Thórin! – clamava o povo com suas mãos para o alto.

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