Kapittel sytten

XXXIII – O funeral

A manhã iniciou com uma neblina densa, que por si só já deixava o clima parcialmente enlutado. Ou talvez esta era a sensação que Kaira sentia. Não conseguira dormir nada durante a noite. Manteve os olhos abertos a noite toda relembrando os bons momentos ao lado daquela mulher que a respeitava e que ela admirava. Tomou seu desjejum em profundo silêncio e se retirou para a beira do mar.

Kaira estava agachada observando a maré mansa daquele dia cinzento quando Thórin, envolto em um agasalho negro, se aproximou, tirou sua espada da cintura largando-a na areia e agachou-se ao seu lado.

– Eu vou sentir falta dela, Thórin. – disse Kaira com voz chorosa olhando para as ondas.

– E eu então, Kaira. E eu… – respondeu Thórin baixando a cabeça encarando a areia molhada.

– Ela era um exemplo para mim. – continuou Kaira encarando o novo Earl de Gudwangen.

Com a ponta dos dedos calejados, Thórin riscava a areia.

– Ela vai entrar pelos portões de Valhalla e vai nos esperar para a grande batalha. – disse o Earl.

Thórin virou o rosto para a jovem ao seu lado.

– Você sabia que Freya já tinha conhecimento da sua morte? – perguntou Thórin.

Kaira fez uma expressão surpresa.

– O oráculo tinha lhe avisado. Se o corcel negro indomável pastasse em nossos quintais era a hora da “Walquíria” lhe buscar. – disse Thórin.

– E o corcel negro apareceu? – perguntou Kaira.

Thórin sorriu.

– Eu acredito que sim, Kaira. – respondeu ele acariciando os cabelos vermelhos da jovem.

Flashback pós batalha contra os cristãos

Como os cristãos não atacaram os nórdicos nas ruínas, os vikings juntaram seus feridos e seguiram para a vila sentindo as dores de uma derrota inimaginável. Thórin, Kaira e Dimithria correram para ajudar Freya, que não conseguia esconder todo o seu sofrimento por estar gravemente ferida.

Quando chegaram ao casebre, Freya pediu para se deitar e ficar sozinha. O pedido foi prontamente atendido e, Thórin, Kaira e Dimithria foram para o celeiro preocupados.

Freya deitou-se de barriga para cima com a mão pressionando sua ferida. Gemia de dor, mas ela sabia que seria assim. Ouviu um relincho de cavalo próximo ao casebre. Levantou com muita dificuldade e, com as mãos trêmulas, abriu a porta se deparando com aquele cavalo negro de longas crinas brilhantes pastando em seu quintal. Ao contrário do que se pode imaginar, Freya não sentiu medo. Sorriu sabendo que sua hora havia chegado.

O corcel negro levantou a cabeça encarando a mulher parada na porta do casebre. Seus olhares se cruzaram e, Freya pôde ver, no fundo daqueles olhos, o fogo de uma embarcação em alto mar.

De volta ao dia nebuloso em Gudwangen

Thórin arrumou um antigo barco de pesca no riacho que cercava o vilarejo. A embarcação estava a muito tempo abandonada e, antigamente, era usada por vikings pesqueiros que levavam sustento para a vila, principalmente através da pesca de salmões, comum naquele riacho. Por sorte, o barco não possuía danos estruturais e iria flutuar sem maiores problemas.

Thórin posicionou um pouco de lenha seca, espirrou generosas borrifadas de uma bebida alcoólica e afofou tudo com palha e lã removidos de um velho colchão. Com a ajuda de Kaira, Thórin posicionou o corpo de Freya naquele ninho. Alinhou suas mãos contra o peito e acariciou aqueles cabelos loiros. Ficou alguns instantes observando a mulher que tanto lhe deu alegrias e que agora estava prestes a entrar em Valhalla.

– Ela está linda. – disse ele.

Kaira parou ao seu lado e pôs suas mãos sobre as mãos de Freya.

– Coloquei o vestido que ela mais gostava. – disse Kaira.

Freya estava usando uma túnica vestido de cor azul bebê, a sua favorita.

Ouviu-se passos se aproximando fazendo Thórin e Kaira se virarem. Era Dimithria, trazendo consigo algumas flores rasteiras. Ela se aproximou da embarcação colocando as flores ao lado do corpo de Freya.

– Eu me sacrifico por ela. – disse a jovem escudeira loira arrancando olhares surpresos de Thórin e de Kaira.

– Não. – interviu Kaira. – Se alguém tem que ir com ela, este alguém sou eu. – indagou a jovem de cabelos vermelhos.

Dimithria virou de frente para a companheira de batalhas e colocou suas mãos sobre os ombros dela.

– Tens muito o que mostrar e provar ainda, Kaira. – ela disse. – E alguém precisa tomar conta do nosso Earl. – Dimithria completou olhando para Thórin e esboçando um leve sorriso.

Dos olhos de Kaira brotaram mais lágrimas. Ela não se conformava que além de perder Freya poderia perder a grande companheira de batalhas. Puxou a jovem escudeira loira e lhe abraçou. Thórin, ao lado, sabia que ali findava a era de Dimithria neste mundo, mas sentiu um grande alívio por saber que a jovem entraria em Valhalla ao lado de sua amada Freya.

– Eu não tenho mais nenhum familiar próximo aqui. Eu posso acompanhar Freya nesta jornada. – disse Dimithria.

As jovens se desfizeram daquele abraço sincero. Thórin, com a mão sobre o ombro de Dimithria, olhou dentro dos seus olhos em sinal de agradecimento.

– Este ritual lhes garante um pós vida plena junto de Odin. Apenas as melhores escudeiras são capazes de se sacrificarem por alguém. E você, Dimithria, filha de Katous, é uma delas. – disse Thórin com lágrimas nos olhos.

Mais tarde, à beira do mar, o povo de Gudwangen se reuniu para a grande despedida. A embarcação já estava na areia e Thórin e Kaira lado a lado vestindo seus melhores trajes. Tudo estava pronto para o ritual, a walquíria, ou o anjo da morte, uma mulher de forte expressão com o rosto pintado de preto com seus cabelos em um tom loiro quase branco, se posicionou em frente ao barco com o corpo de Freya. Ela tinha um frasco com algum óleo preto dentro. Com os olhos fechados ergueu aquela tigela e ofereceu aquele corpo para que entrasse em Valhalla.

– Quem vai entrar com Freya em Valhalla? – perguntou ela sem abrir os olhos.

Dimithria surgiu em meio ao povo usando uma túnica vestido de cor verde musgo, cabelos loiros presos em uma única trança que ia do topo de sua cabeça até quase a sua cintura. Os seus olhos estavam pintados de preto ao redor e ela usava as melhores jóias e adereços da guerreira deitada naquele barco. Ela caminhou e se parou em frente à walquíria, que abriu os olhos e ungiu sua testa com aquele óleo.

– A sua coragem denota dos grandes deuses. – falou ela.

Dimithria subiu no barco e sentou ao lado do corpo de Freya. Thórin deu a ordem e quatro guerreiros vikings, um em cada ponta, ergueram o barco para o alto até seus ombros e o carregaram mar adentro largando-os em alto mar, onde a água fria batia em seus joelhos. Todos ficaram observando a embarcação que ganhava cada vez mais distância. Kaira não conteve o choro e se aconchegou ao agasalho do Earl por alguns instantes.

– Tem que ser feito. – disse o Earl afastando Kaira.

Thórin então pegou um arco, contornou a ponta da flecha com um tecido encharcado de algo com um cheiro forte. Acendeu na bacia com fogo que estava ao seu lado e acoplou a flecha na corda flexível puxando firme.

A flecha incandescente cortou o ar esbranquiçado como se fosse uma estrela cadente, e atingiu certeira aquele ninho de palha, cujo fogo espalhou rapidamente sua chama consumindo os corpos de Freya e de Dimithria. Kaira escondeu o rosto novamente no agasalho do Earl para não ver o corpo da amiga viva ser tomado pelas chamas.

– Sentirei falta delas. – disse ela.

– Eu também. – respondeu Thórin enquanto observava friamente o fogo consumir aquele barco em alto mar.

Longe dali, no acampamento montado pelos cristãos, um dos fiéis guardas do rei Estherood II entrou em sua barraca e o encontrou ferido e caído.

– rei Estherood II está ferido! – gritou ele.

Em questão de segundos a barraca foi tomada por outros guardas e um monge. Conduziram o corpo para fora da barraca temendo o pior. Examinaram-o e então, Estherood II deu um longo suspiro de dor colocando a mão sobre o seu ferimento.

– Chame alguém para ver a ferida! – disse o monge. – peguem água e panos, rápido! – completou ele segurando a cabeça do seu rei erguida.

Rei Estherood II estava ferido, mas jamais desistiria de vencer esta guerra. Lutaria até o fim ao lado de seus homens. A morte do seu pai lhe tornara um homem decente, alguém que nem ele acreditava ser algum dia. Ganhou forças, se apoiou no monge e, com muita dificuldade, sentou-se encarando seu ferimento.

– Nós não vamos desistir de vencer esta guerra. Malditos pagãos não perdem por esperar! – disse ele com uma voz rouca.

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