Kapittel fem

IX – Sangue cristão

Traição, ganância e brutalidade existiam tanto de um lado quanto do outro. Haviam ocorrências místicas tanto no terreno da cruz de Jesus quanto no território do martelo de Thor. Se os nórdicos matavam em nome de Odin, os soldados cristãos não ficavam para trás em nome de Cristo. Os guerreiros vikings invadiram um à um o porão da igreja em que os cristãos estavam escondidos. Alguns homens, intitulados soldados de Deus, formavam um pequeno grupo com suas espadas e olhos apavorados tentando proteger o seu povo. Diante deles, os nórdicos, embora ali dentro em menor número, batiam com as espadas e machados sobre os escudos de carvalho e lançavam olhares ávidos por sangue para seus adversos.

No altar da igreja dois nórdicos mantinham Castelli e o monge Bishesmun como reféns. Os dois cristãos estavam ajoelhados diante da cruz de Cristo com as mãos amarradas para trás. Thórin e Kaira entraram na igreja e se depararam com aquela cena.

– Estão lá embaixo? – perguntou Thórin se aproximando do altar.

Um dos vikings, mais alto e mais robusto, se virou. Tinha a barba longa suja de sangue.

– Tão lá. Escuta. O massacre já deve ter começado. – disse o nórdico soltando uma alta gargalhada.

– E estes aí? – perguntou Thórin.

– Estes aqui…

O nórdico pegou o monge pela cabeça e o levantou.

– …vamos levar com a gente. Um monge olha só! – o nórdico puxou a cruz de ouro que Bishesmun carregava pendurada ao peito.

Thórin parou em frente ao monge e o segurou em seu rosto.

– E o outro aí? – Thórin voltou a perguntar.

O outro viking, careca, magro e com um andar arcado, segurou Castelli por baixo do braço e o levantou virando seu rosto. Kaira, que estava mais atrás, baixou o olhar no momento em que viu de quem se tratava. Castelli correu com ela por aquelas ruelas de Nielisen durante toda sua infância. Aquele rosto, que agora sangrava e chorava, lhe trazia boas lembranças de um passado distante.

Bishesmun não se conteve. Se contorceu e encarou os olhos vívidos de Thórin.

– Vocês pagãos, profanaram o santuário de Deus, derramaram o sangue dos santos ao redor do altar, destruíram a casa da nossa esperança e pisotearam os corpos dos santos, como esterco na rua…isso não vai ficar assim. – exclamou o monge sem medo do que estava à sua frente.

Thórin era um sujeito fácil de lidar, mas se faltassem com o respeito com ele ou tentassem lhe enfrentar, iriam conhecer a sua pior face. Após as palavras de Bishesmun, ele pegou o pescoço do monge com suas mãos calejadas e colou seu rosto barbudo na cara lisa daquele homem franzino.

– Santuário? Chama isso de Santuário? Vocês são tão patéticos com esta crença. Sabe o que eu vou fazer com este teu Santuário?

Castelli desviou o olhar para não ver aquela cena. Ele encarava constantemente a jovem Kaira, que demonstrava estar incomodada com tudo aquilo. Já os outros dois vikings se divertiam com os acontecimentos. Thórin empurrou Bishesmun que, por estar com as mãos amarradas, faltou-lhe equilíbrio. Ele caiu e bateu com a cabeça na quina da mesa da sacristia e desmaiou. Transtornado, Thórin destruiu com todo o altar jogando tudo ao chão, sob gargalhadas dos companheiros nórdicos e olhares incrédulos de Kaira e Castelli.

No porão da igreja nórdicos e cristãos travavam uma batalha de sangue. Gritos raivosos, espadas cortando o ar e cortando cabeças, machados cortadores de membros atuando com maestria. Mesmo em menor número os vikings estavam em vantagem. Quando notou que a batalha estava ganha, Sigmund levantou o braço e gritou pedindo para que acabasse os confrontos. Aos poucos tudo foi silenciando. Em meio à corpos destroçados naquele porão de igreja, o Earl jogou sua espada suja de sangue ao chão, largou também seu escudo e encarou os rostos das mulheres, crianças e idosos assustados em um canto do abrigo.

– Cadê o rei de vocês? – perguntava ele em tom agressivo. – Cadê este rei que teve a audácia de reerguer o que eu já tinha colocado abaixo?

O rei que conseguiu levantar a vila de Nielisen também reestruturou toda a região costeira e suas outras vilas. Seu castelo ficava em Merliensen, a maior de todas as vilas. Provavelmente não houve tempo para ser avisado da chegada dos nórdicos e, por isso, seu exército cristão ainda não havia aparecido.

– Como se chama este rei de vocês?

Todos lhe encaravam, mas ninguém o respondia.

– Eu posso esperar até o próximo amanhecer, se nenhum de vocês abrir a boca, eu vou ser obrigado a matar um por um aqui.

Ouve murmurinhos logo contidos por alguns nórdicos.

– Éower! – Sigmund chamou e um homem de cabelos prateados e longos usando um tapa olho surgiu na sua frente. – escolha alguns moleques e algumas mulheres sadias para levarmos para Gudwangen. Os velhos e aqueles sem serventia deixa em um canto. Serão os primeiros que vou dar fim.

Thórin desceu as escadas segurando Castelli pelo braço seguido de Kaira e dos outros dois nórdicos carregando o monge desmaiado.

– Aqui tem um que pode servir. – disse Thórin empurrando Castelli aos pés do Earl.

Thórin olhou para os companheiros nórdicos, todos cobertos de sangue cristão.

– Dimithria, alguém viu? – perguntou ele.

– Está com o outro grupo saqueando as casas. – respondeu Sigmund erguendo Castelli do chão e encarando seu rosto assustado.

X – O caminho de volta

Os últimos guerreiros nórdicos que travaram a batalha no porão da igreja se retiravam da casa de Deus, alguns carregando artefatos de ouro e outros carregando pelo braço àqueles que serviriam de escravos em Gudwangen. Kaira, agarrada ao braço de uma jovem loira cristã apavorada, parou e observou a igreja. Éower saía de dentro e o fogo começava ganhar altura queimando todo aquele santuário sagrado.

Ao verem o fogo consumir a igreja, o outro grupo viking comemorou batendo suas espadas e machados contra os escudos feitos de carvalho. Era mais uma vez o fim de Nielisen e a expressão de dor e perda estava estampada nos rostos daqueles sendo levados como reféns. Kaira apressou o passo e juntou-se à amiga Dimithria, que carregava uma bolsa de couro cheia de ítens valiosos.

– Dimithria…e agora? – perguntou Kaira na língua nórdica para que a jovem loira cristã não entendesse.

– Parece que tivemos sucesso. – respondeu Dimithria abrindo parte da bolsa e lhe mostrando tudo que conseguiu pegar.

– Eu preciso te contar uma coisa? – falou Kaira virando o rosto na direção de Castelli sendo levado por Thórin.

– O que é que tem?

– Aquele que Thórin está levando. Eu o conheço…ele era meu amigo de infância. E ele também me reconheceu, tenho certeza. – disse Kaira.

– Agora está feito. E tu está do nosso lado. Não deixa Thórin e muito menos o Earl saber disso. Ou pode ser o fim dele…e o seu. – respondeu Dimithria que tinha mais experiência que a jovem Kaira nestes assuntos.

Ao chegarem na praia todos começaram a subir nas embarcações atracadas e, aos poucos, os “drakkar” ganhavam novamente as águas do mar.

Quando todos os barcos já estavam em alto mar, no topo do morro surgiu o rei Estherood com seu exército cristão. Um homem de porte médio, cabelos pretos e curtos e olhar esperto. Muito sereno e imponente sobre o seu cavalo, ele observou a fumaça no ar e viu o fogo consumindo o solo sagrado de Nielisen.

– Malditos nórdicos! – esbravejou o rei.

Nas suas costas o exército armado interrompia o percurso.

– Pobre Nielisen…mais uma vez sucumbe às vontades destes pagãos! – complementa Estherood.

Ao longe no horizonte as embarcações vikings ganhavam uma velocidade absurda aos olhos de quem via. Glória de uns e flagelo dos outros. Os “drakkar estavam carregados com muito tesouro e valiosidades, além de alguns escravos. Cada barco comportava no máximo 30 tripulantes e não havia muito espaço. Os reféns estavam assustados com aquilo. Não sabiam se comeriam no tempo deste trajeto e se quisessem urinar ou defecar deveriam fazer em alto mar. O monge Bishesmun, com o rosto visivelmente machucado, cruzou as mãos sobre o peito e fechou os olhos em sinal de oração pedindo à Deus proteção nesta jornada.

O saque seria dividido entre todo o povo de Gudwangen, mas o mais importante era saber que ninguém poderia passar por aquele povo, nem pelo que já tinham feito no passado e nem pelo que podem fazer no futuro. Sigmund tinha uma expressão contente em seus olhos admirando a beleza do mar à sua frente. Olhou o horizonte e pediu em silêncio a proteção de Odin e todos os deuses.

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