Kapittel syv

XIII – Promessa de escudeiras

O tilintar das espadas batendo uma na outra poderia ser ouvido de longe. Os movimentos de ambas eram rápidos e estratégicos. Nenhuma delas era de se entregar fácil.

Kaira empunhava uma das espadas e se colocou em posição de ataque, debochando da adversária à sua frente. Ela sorriu e golpeou a jovem loira, que grunhiu de dor imediatamente ao golpe.

– Ahhh, desculpa Dimithria. Me empolguei. – disse Kaira com um sorriso disfarçado no rosto.

Dimithria sorriu e, em um golpe seco com seu machado, derrubou a espada de Kaira.

– Acho que já deve ter ouvido. Nunca pare antes de terminar o que está fazendo. – disse Dimithria.

Kaira fez cara feia.

– Droga. Eu ainda vou te surpreender.

– É claro que vai. – sorriu Dimithria lhe dando a mão para ser ajudada a levantar.

Kaira auxiliou a amiga à se levantar. Ao redor delas uma área verde aconchegante, sons de gaivotas sobrevoando o céu e um cheiro de ervas e flores que impregnava o ar.

– Muralha de escudos! Muralha de escudos! – gritavam alguns guerreiros e escudeiras formando uma grande parede com seus escudos coloridos de carvalho.

Um grupo estava em treinamento naquela área verde. Kaira e Dimithria caminharam lado à lado observando ao treinamento.

Kaira entrou no casebre em que morava com Thórin e Freya e encontrou os pais adotivos lhe esperando para comer. Ela havia ficado muito satisfeita com a prova de fogo que teve, mas algo ainda lhe preocupava. Castelli ainda lhe trazia boa lembranças de infância e estava amarrado em praça pública sendo mal tratado por todos da vila. Kaira pensou em falar sobre o assunto com Thórin e Freya, mas logo desistiu. Talvez Freya até entendesse, mas Thórin jamais entenderia.

Minutos depois, Dimithria entrou no casebre correndo. Estava desesperada porque não encontrou nada dos pertences de Katous.

– Freya…você ficaste na vila…meu pai falou alguma coisa? – perguntou a jovem escudeira loira.

Freya levantou-se e aproximou-se da jovem tentando acalmá-la. Ajudou-a sentar-se em um banco de madeira.

– Katous partiu e não disse nada à ninguém. – disse Freya.

O semblante de Dimithria era de tristeza e dor. Katous era sua única família viva. Anos atrás eram fazendeiros vizinhos de Gudwangen e um grupo viking de outras terras invadiu a fazenda tacando fogo na sede principal. Sua mãe Myrcellis e seus irmãos gêmeos Duari e Muari, não conseguiram fugir das chamas e foram consumidos pelo fogo. Ela viu seu pai Katous chorar dias e noites sem comer. Foi quando o Earl Sigmund soube do desastre e levou pai e filha para a vila, lhes dando o que beber, o que comer e uma moradia. Por algum tempo Katous e Sigmund foram grandes parceiros, um sempre ouvindo o que o outro tinha para dizer. Porém, as coisas mudaram muito rapidamente, e as ideias começaram a divergir e nunca mais voltou a ser o que era.

– Ele não poderia ter feito isso comigo. Ele é minha única família. – disse Dimithria chorosa sendo amparada por Freya e Kaira.

– Você tens à nós. – disse Kaira.

Freya encarou Thórin que apenas observava a cena.

– Você pode ficar com a gente. – disse Freya olhando para Thórin. – Não é, Thórin? – complementou ela esperando uma resposta sensata do marido.

Thórin abriu os braços levantando.

– É claro, jovem Dimithria. Tu serás sempre bem vinda aqui.

A noite chegou iluminada em Gudwangen. As estrelas brilhavam de maneira intensa no céu. Dimithria, agora mais calma, embora ainda sem entender direito toda a situação e o porquê do seu pai Katous ter sumido assim, estava deitada no celeiro ao lado de Kaira. Ambos observavam as estrelas através das frestas no teto.

– Agora podemos dizer que somos irmãs. – disse Kaira virando o rosto e olhando Dimithria.

Dimithria também virou seu rosto e as duas ficaram se encarando. Algumas lágrimas brotaram nos seus olhos azuis.

– Ishhh…devia ter ficado quieta né? Tu lembraste dos teus irmãos? – falou Kaira.

Dimithria voltou a olhar para cima.

– Que isso, sua tola. Lembrei sim. Mas eu sempre lembro deles. Isso é bom. Me conforta. – respondeu a escudeira loira.

Kaira pegou a mão de Dimithria e segurou forte. A loira voltou à lhe encarar.

– Não fica assim. Tens à mim. Tens Thórin e Freya. Somos como sua família agora, de verdade. Os deuses assim quiseram que fosse. – disse a jovem de cabelos vermelhos.

– Eu sei. – respondeu Dimithria sorrindo para Kaira..

A jovem escudeira de cabelos vermelhos levantou sentando-se.

– Levanta Dimithria. Agora somos irmãs. E somos escudeiras…

Dimithria também levantou-se ficando sentada.

– …você promete que uma sempre vai proteger a outra? Promete em nome dos deuses? – perguntou Kaira pegando a mão da escudeira loira e afagando a sua palma.

Ela retirou uma adaga da cintura.

– Vamos fazer uma promessa de sangue, em nome de Odin. – disse Kaira enquanto passava a lâmina gelada suavemente na palma da mão de Dimithria.

Dimithria sorriu surpresa com aquela atitude de Kaira. Ajeitou-se melhor e, apenas com o olhar, deu autorização para que o ato se concretizasse. Kaira passou a lâmina mais forte fazendo Dimithria apertar os olhos de dor. O sangue escorreu pingando no chão. Imediatamente, Kaira entregou a adaga para a escudeira loira e abriu sua mão.

– Sua vez. – disse ela.

Dimithria pegou a adaga e repetiu o mesmo ato na palma da mão de Kaira. O sangue escorreu pingando em cima do sangue de Dimithria. Kaira sorriu e levantou a mão ensanguentada com a palma aberta para Dimithria, que fez o mesmo gesto e ambas as mãos se tocaram entrelaçando os dedos. Estava findado. A promessa de sangue, a palavra de uma escudeira era algo que não tinha mentira. Ambas sabiam que poderiam contar uma com a outra. Até os fins dos tempos e além. Até Valhalla se fosse necessário.

XIV – Cristãos à salvo

Na calada da noite grande, quando a vila adormecia serena, Kaira e Dimithria empunharam suas espadas e saíram cuidadosamente do galpão rumo à praça onde estavam amarrados os cristãos. Escondidas atrás de sacos de batata, elas observavam todos cansados, com expressões de dor e adormecidos. Castelli estava com a cabeça escorada no tronco cochilando e mais ao seu lado estava o monge Bishesmun de cabeça caída para a frente, também adormecido.

– Isso não é certo. – disse Dimithria.

– Eu preciso tirar ele dali. – Me ajuda… prometemos uma à outra. – cochichou Kaira.

A jovem escudeira de cabelos vermelhos juntou uma pequena pedra do chão e jogou contra Castelli. Ele abriu os olhos ainda sonolento e fechou-os novamente virando a cabeça para o outro lado. Kaira juntou mais uma pedra e jogou. Desta vez foi mais certeira e Castelli despertou assustado procurando de onde tinha vindo aquela pedra.

– Psssss… – fez Kaira com cuidado.

Castelli olhou para onde vinha o chamado e estranhou ao ver a antiga amiga de infância ali. Kaira colocou o dedo indicador sobre a boca pedindo para ele ficar em total silêncio e retirou uma adaga da cintura. Castelli assustou-se ao ver Kaira se aproximando. Por mais que fossem amigos inseparáveis no passado, agora ela vivia com os nórdicos e, ao julgar pelo que ele viu no ataque à Nielisen, os vikings tinham virado totalmente a cabeça dela. De trás do saco de batatas, Dimithria observava tudo com olhos atentos para não serem flagradas.

– Fica quieto. Nós vamos te tirar daqui. – disse Kaira agachada ao se aproximar de Castelli.

– O quê? Tu é louca. Como vai fazer isso? Pra onde vamos? – cochichou Castelli.

Ele olhou para o monge Bishesmun mais ao lado.

– Eu não vou à lugar nenhum sem ele. – falou Castelli em um tom um pouco mais alto que fez o monge se mexer e Kaira pôr sua mão sobre a boca do amigo para ele ficar quieto.

– Não podemos levar ele! – Kaira respondeu baixo.

– Então me deixa aqui que eu aceito o que Deus me reserva. – respondeu Castelli.

Dimithria, vendo aquela cena, saiu de onde estava se aproximando deles.

– Olha aqui, nem era pra gente tá fazendo isso. Se ele não quer ir, deixa Kaira.

Dimithria olha para Castelli.

– E ainda vem falar do seu Deus! – zombou Dimithria.

– Espera Dimithria… – disse Kaira olhando para Bishesmun. – …vamos levar o monge junto. É só um fraco monge. – ela complementou olhando de volta para a escudeira loira.

Ouviu-se barulhos em um salão próximo. Kaira começou cortar as amarras que prendiam Castelli.

– Pelos deuses, Kaira. Maldita hora que fui fazer aquela promessa contigo. – Dimithria falou em tom de entrega.

A escudeira loira pegou sua adaga e foi para o lado do monge. Colocou a sua mão sobre a boca dele e cortou as suas amarras. Assustado, ele olhou de imediato para o lado vendo Castelli se levantar com Kaira. O jovem fez sinal que estava tudo bem. Em total silêncio, antes que os outros despertassem, os quatro seguiram por entre ruelas para não serem vistos por ninguém.

O sol estava nascendo quando chegaram em um caminho de pedras por dentro da floresta que rodeava a vila e dava acesso para uma pequena prainha isolada. Existia um casebre abandonado debaixo próximo à praia que era pertencente à família de Dimithria. O lugar estava totalmente isolado, ninguém mais frequentava aquela região. O lugar ideal para abrigar e esconder Castelli e o monge Bishesmun.

– Aqui vocês estarão seguros. – disse Dimithria respirando aquele ar puro. – O casebre era da minha família e está abandonado há um bom tempo. – complementou ela.

Cansados, com sede e com fome, Castelli e o monge admiraram aquele lugar, aquele sol que nascia no oriente além do mar. Kaira parou ao lado de Castelli.

– Tenho muito pra te contar. – disse ela.

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