Carmem
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Optchá!

Algum tempo atrás…

 A ti entrego este anel, minha querida mãe, Pomba-gira! Em meus últimos suspiros, peço-te que incorpore neste anel e que ele seja entregue a sua filha divinal. Filha essa que você estará viva, estará forte, estarás linda, estarás sedutora, serás sempre a dona dos homens, a dona das noites, a mulher mais linda de todos os bailes e festas. Entrego-te a minha vida ago…  a cigana acabara de morrer a espada por um soldado do império brasileiro, enquanto seu filho pequeno agonizava a espada também ao lado. As duas almas logo se foram e o tempo se fechou. Raios, relâmpagos e trovões começaram a mostrar suas forças.

Um vento forte começou e os corpos jogados ao chão se dissolveram e foram engolidos pelo chão, restando apenas o anel. O soldado assustado com o que acabara de ver, saiu correndo em direção a cavalaria. Porém, todos os cavalheiros e cavalos estavam mortos, caídos ao chão. Ao lado deles, uma bela mulher de saia rodada vermelha, os lábios pintados em vermelho, uma rosa presa ao cabelo, sapatos vermelhos e um olhar sedutor, mortal e cruel ao mesmo tempo.

 Você matou meu cavalo! Pois eu matei os seus! Você não deveria ter tocado nela! Filha de pombo gira, é filha das ruas, das estradas. É espírito livre. Minha filha não era para ser morta. Agora você pagará.  ela pegou um punhal em sua cintura e jogou em direção ao homem.

O mesmo perfurou sua armadura e foi direto em seu coração.

****

Dias atuais… 

Hugo e Gabriel. Alfa e ômega, respectivamente. Um casal feliz, próspero, um relacionamento saudável. Se conheceram ainda no ensino médio, no primeiro ano.

Um era o jogador de futebol, o famoso “pegador” das garotas do colégio, enquanto Gabriel era aquele garoto tímido, estudioso, desconhecido e nem tão atraente. O velho “nerd de fanfics merdas do wattpad”.

Ambos personagens já conhecidos em tantas outras histórias já vistas por aí. Porém, há algo diferente nos dois. Ambos se apaixonaram quando estavam internados por causa de um acidente de carro, quando Hugo e dois de seus amigos resolveram “sequestrar” Gabriel para dar um susto nele. Na estrada, o carro em que estavam os quatro garotos, acaba derrapando na pista e ele caem em uma ribanceira. Gabriel foi o mais ferido dentre os garotos, pois seu corpo foi arremessado para o lado de fora e bateu em uma área cheia de pedras. Traumatismo craniano, um braço quebrado e outro trincado e algumas escoriações pelo corpo. Os outros ficaram intactos, pois estavam de cinto de segurança.

No hospital, Gabriel não queria ver a cara dos meninos que fizeram isso.

Se sentia sujo. Não se sabe qual era o motivo, mas, apenas se sentira sujo.

Porque lá no fundo, mesmo que negando a si mesmo. Entre olhares discretos, lânguidos e olhares observadores rápidos, ele nutria algum sentimento quanto a Hugo. Era nítido isso. Só que, ele negava a todo custo e queria matar aquilo que crescia feito uma planta rasteira.

No hospital, a dor no peito de saber que uma simples “brincadeira” quase custou a vida de um jovem. Foi liberado no mesmo dia, porém, ficou dormindo à beira do hospital, até Gabriel ser liberado.

Cuidou do jovem, até ele se recuperar por completo. Perdeu matéria e quase perdeu o ano letivo. Os cuidados com o jovem foi moldando Hugo. O transformando num homem bom. Ele mudou o olhar do cara mais bonito da escola. Ele o transformou.

― Por que eu?

― Sei lá, Gabe. Você foi o único cara que enxergou além de um corpo. Sabe? Você olhou para dentro de mim. Por isso eu me senti atraído, cada vez mais por você.

― Às vezes acho que estou num romance maluco, sem um início bom e com uma história toda esquisita, sem pé e nem cabeça. ― sentia seus cabelos recebendo um cafuné enquanto ajeitava-se no colo de seu amado.

 Pior que eu também sinto essa sensação. De como fôssemos observados com olhares duvidosos, tentando nos entender e tentando entender o que é que está vendo, ouvindo ou lendo. ― sua mão repousou sobre sua nádega direita. O ômega rapidamente se virou para o outro lado.

― Sabe que não estou preparado para isso. Tenho vergonha até de você pegar em mim nessas partes.

― Desculpa. É que estou sendo meio apressado né? Eu não aguento ver sua bunda. ― riu que nem um garoto que ia aprontar.

― Às vezes nem acredito que um cara bonito ia se apaixonar por mim. ― sentou-se em frente a Hugo, cruzando suas pernas, segurando suas mãos logo em seguida.

― A vida é uma grande roda gigante. Podemos estar lá em cima, porém, não podemos nos esquecer do lado de baixo, onde podemos chegar ao girar desta roda.

O tempo foi passando e eles logo assumiram seu relacionamento. Gabriel sempre na dele, discreto, quase não aparecia. Não gostava muito dos outros comentarem sobre ele está namorando o garoto mais bonito da escola.

Todos os dias ao terminar das aulas, os dois iam para debaixo de algumas árvores próximas à escola para namorarem. Só não sabiam do que ainda estava por vir.

Com o passar dos dias, Hugo foi se afastando sutilmente. Não dando tanta atenção a seu parceiro.

― O que eu te fiz, Hugo? ― ficou em frente ao seu namorado.

― Sai da frente, Gabriel.

― Por que está me tratando tão seco assim? Eu não sou mais sua diversão? É isso? Fala!

― Eu não gosto mais de você! É isso! Estou gostando de outra pessoa! Ficou satisfeito?! ― o pegou pelos ombros o chacoalhando para se ligar na realidade.

― Então você está terminando comigo? É isso?!

― Vaza da minha vida! Você nunca me satisfaz como eu quero! Só suas vontades! Eu queria transar contigo todos os dias, como qualquer casal. Queria que você estivesse em meus braços todos os dias gemendo, chamando languidamente pelo meu nome! Mas você todo dia era um porre com sentimentos e essas coisas de ômega veado!

Hugo recebeu um tapa na cara.

― Eu não sou esses ômegas oferecidos que você morde os lábios, estala os dedos e eles vêm ajoelhados perante ti! Não sou desses!

― Eu me arrependo amargamente de algum dia ter sentido algo por você. ― quando ele ia saindo, seu braço foi segurado.

― Algum dia você pagará pelo que fez comigo! Pelo que falou a mim!

― Foda-se! ― se desvencilhou dele, deu às costas e foi-se embora.

******

Algum tempo depois….

Gabriel a cada dia que se passava, ficava triste. Amava demais o homem-alfa em sua vida. Não aceitava o término do namoro. Parecia algo surreal os dois terminarem assim. Era algo que ele não entendia.

Durante os dias ele ia para a escola, assistia às aulas em silêncio total, voltava para sua casa em silêncio. Mas quem o via, logo reparava nos olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Na voz enfraquecida, que mal respondia a chamada de presença dos professores.

E durante esses dias, ele não viu em nenhum momento, Hugo, seu ex-namorado. Isso fazia sentir-se mal. Será que ele era tão “chato, entediante” assim?

Depois de mais um dia de aula, guardou seus materiais, saiu da escola e foi caminhando calmamente pelas às ruas movimentadas. Era dia de pagamento, então, as pessoas saíam para pagar suas contas, abastecerem suas geladeiras, comprarem roupas.

De tanto andar, acabou chegando no centro comercial da cidade. Passeou pelas lojas de roupas, observando as vitrines com conjuntos de roupas de verão de época.

Andou algumas lojas, quando, de repente, parou em frente a uma vitrine, mostrando um vestido de cor vermelho escarlate, longo, sem mangas, com um decote generoso e uma abertura até a altura da cintura em frente a uma das pernas, mostrando parcialmente a perna direita. Junto do vestido, um lindo sapato de salto alto “Scarpin” meia pata tubarão e um kit de perfumes “Essencial” da marca Natura.

Ficou fitando aquilo por alguns segundos, logo se imaginou com aquilo vestido e seu namorado o olhando encantado com tamanha beleza.

― Lindo né?

Ele voltou a realidade num pulo de susto.

― Ai! Desculpa!

― Relaxa. Sou a vendedora daqui. Vi como você olhava esse vestido, o sapato e o perfume. Eles realmente encantam qualquer um. Mas deixar praticamente uma pessoa hipnotizada, é a primeira vez.

― É muito linda mesma. Queria algum dia poder usar isto. Mas não tenho a quem me arrumar para tal.

― Que isso! Não precisa ficar assim! Você tem que usar para se sentir bem, não para agradar ninguém. Vem, vamos experimentar esse vestido agora! ― o pegou pelo pulso, levando-o para dentro da loja até o vestuário.

Ele entrou e logo ela foi buscar as coisas para ele vestir.

― Qual seu número que calça, mocinho?

― 35. ― a respondeu batendo o pé com ansiedade. Queria ver como ficaria com aquilo tudo.

Ela demorou alguns minutos, logo veio com três caixas. Uma vermelha com o vestido, outra vermelha com o sapato e outra amarela e preta com o perfume.

Entregou-o e ele logo foi se trocar enquanto ela pegou uma peruca e uma maquiagem.

Tirou suas roupas e logo viu como havia emagrecido nos últimos dias. Os ossos da caixa torácica estavam um pouco expostas.

Enfim, vestiu o vestido, fechou zíper e logo viu a roupa ajustar-se em seu corpo. Era como se ela estivesse se ajustando a ele, para o mesmo usar. Virou-se e logo viu o vestido marcar sua bunda.

Se olhou no espelho, logo os orbes pretos encararam-se em seu próprio reflexo. Lembrou dos sapatos, logo os tirou da caixa e os calçou. Ficou até mais alto.

Como havia ficado lindo naquela peça de roupa…

― Aqui o seu perfume e maquiagem junto da per… ― a vendedora havia paralisado ao ver Gabriel já vestido ao encará-la. ―… Nossa. Você ficou lindo assim.

― Você acha?

― Sim! Parece que é para ser seu esse conjunto! Quer concorrer a esse conjunto?! Ele está sendo sorteado. Vai que você leva ele pra casa, para, depois, seduzir seu namorado!

― Na verdade… não tenho ninguém. ― lhe respondeu cabisbaixo.

― Com esse conjunto, você vai conseguir qualquer homem na noite. Pode ter certeza disso.

― Será?

― Tenho toda a certeza!

Depois de algum tempo conversando com a vendedora, ele finalmente retira o vestido e se limpa da maquiagem, veste suas roupas normais, assina alguns cupons e põe na caixa de sorteio, se despede dela e vai embora.

No caminho de volta para sua casa, Gabriel percebe uma mulher toda de vermelho, com uma saia rodada cheia de babados, batom vermelho forte em seus lábios, um leque grande em outra mão, enquanto usava salto alto, seus cabelos ondulados estavam presos por um botão de rosa vermelho. Ela o encarou por alguns segundos, quando um grupo de pessoas passou a sua frente, e, por fim, ao saírem da frente dela, a mesma já havia sumido feito fumaça.

Ficou paralisado por alguns segundos. Sua mente trazia os olhos penetrantes daquela mulher misteriosa para si. Ela parecia olhá-lo por dentro, lendo sua mente, sua consciência. Parecia que ela o via e logo sabia o que ele era, o que sentia e o que desejava. Ela o leu por completo num simples olhar, logo depois desapareceu.

Despistou todos seus pensamentos, pôs-se a caminhar de volta para sua casa.

*****

Gabriel em sua casa após chegar do centro comercial 

― Meu filho, você precisa de alguém! Nem que seja uma mulher! Mas precisa de parar de estudar e se divertir!

― Mãe, quantas vezes eu já disse que não quero namorar?! ― Gabriel ficara impaciente com sua mãe.

― Não sei o porquê de você ter terminado com Hugo! Ele era um bom partido para você! Afinal, qual o motivo de vocês dois não quererem namorar?

― Ele me trocou por outro! ― começou a chorar copiosamente.

― Claro! Você é chorão e chato pra cacete! Deve que ficou com medo de perder sua pureza com ele, logo depois disso, ele encontrou  um disposto a isso!

― O que você disse, mãe?! ― perguntou alto e num tom de revolta.

― O que você ouviu, Gabriel! Você não sabe agradar um parceiro, atendê-lo quando este estiver precisando relaxar, vai querer chorar por causa de homem e estudar para distrair pra quê?

― Eu te odeio!

― Você devia era odiar a si mesmo! Menino chorão, cu doce e chato pra cacete! Ninguém gosta de você! Você é chato, igual ao seu pai! Nojentinho e só quer as suas vontades sendo feitas! Você nunca soube como foi ruim te suportar estes anos, sendo um filho com as mesmas características e comportamentos de seu pai! ― Gabriel, então calou-se perplexo pelas palavras de sua progenitora.

― E você tem coragem de dizer isto a mim? ― disse com a voz embargada.

― E digo mais ainda! Se continuar sendo este garoto chato pra cacete, que chora pra tudo, sofre pra tudo, qualquer coisinha já está “chateado” e “depressivo”, “ain vontade de sumir me matar!”, ninguém… NINGUÉM!…. Repetindo, NIGUÉM, até um mísero de um mendigo vai se interessar por você. Você vive o tempo todo reclamando por tudo, pondo defeito em tudo, sentimental demais, grudento demais, apaixonado demais. Por isso as pessoas se afastam de você! ― neste momento, Gabriel começa a chorar igual a uma criança e sai correndo para seu quarto.

― Eu escutei tudo, mãe.

― Que bom, Lucas! Que você não seja chato, igual ao Gabriel! ― sentou-se a mesa para terminar logo os preparativos para o almoço.

― Mas não precisava de você falar aquilo para o Gabe! ― sentou-se em frente a sua mãe.

― Seu irmão é igualzinho a seu pai. Chato pra cacete, chorão, reclamão, se autossabota e fica se fazendo de coitadinho. Sentimentalista para um senhor cacete, para não dizer um palavrão. Em outras palavras, não suporto viver e conviver com pessoas assim!

― Mas mãe!

― Mas o quê, Lucas? Você sabe que eu não vou ficar com marmanjo dentro de casa sentimentalista e chato pra cacete, igual aqueles da Rua Augusta que chora comendo berinjela!

― Credo, mãe! Que isso?! Que ódio é esse?!

― Ódio de gente tosca, de gente chata, de gente chorona! Se seu irmão não mudar, prefiro que vá embora. Não, melhor, morra! Pelo menos assim nenhum ser inocente terá chance de viver os seus últimos dias ao lado de uma pessoa insuportável igual a ele! ― bateu suas mãos com força no mármore da mesa, quase quebrando-o.

― Por que você tem tanto ódio dele assim, mãe?!

― Vou te explicar o por quê, Lucas! Quer saber?!

― Quero! Fala logo então!

― Eu nunca quis ter Gabriel! Pronto, está feliz?! ― se levantou da cadeira, deu às costas a ele e foi terminar o almoço.

******  

Lucas vai ao quarto de Gabriel e não o vê

― Gabriel? Gabriel, você está aí? Gabriel?

Foi então que ele enxergou a janela entre aberta. Ele corre, a abre e ao longe vê seu irmão correndo rapidamente em direção a floresta. Floresta essa conhecida como “Floresta suicida”, onde várias pessoas iam acabar com suas vidas ali. Cada árvore ali tinha sangue entalhado em seus respectivos troncos.

Lucas pulou a janela e saiu correndo atrás de seu irmão.

― Gabriel! Gabriel! Não vá na floresta! Gabriel!

Quando ele olhou para trás rapidamente, viu seu irmão mais velho correndo atrás dele, ele acelerou mais seus passos e, por fim, adentrou a floresta e se embrenhando no meio dos arbustos, se afastando cada vez mais de Lucas.

Logo assim que parou de ouvir a voz de seu irmão, ele, enfim, sentou, recostou as costas em uma árvore e pôs-se a chorar.

― Por que? Por que me odeiam tanto?! ― levantou-se rapidamente, pegou uma corda, a amarrou num galho grosso e fez o enforco para por seu pescoço.

Assim que terminou um silêncio gutural se fez presente naquele momento.

Respirou fundo, fechou seus olhos e foi indo para a forca. O enforco fico envolto do pescoço.

― Pai… perdoai-me. Eu não sei o que fiz! ― se jogou ao chão e logo o enforco apertou seu pescoço, fazendo faltar o ar e ele ir perdendo os sentidos. Os seus pés debatiam, porém, o chão não alcançava. Arrependeu-se tardiamente. No meio de sua agonia da morte, a mesma mulher que viu no centro e, depois a mesma desapareceu, apareceu em sua frente com uma adaga. Se aproximou dele, cortou o enforco e ele caiu ao chão com sua pele já arroxeada pela a falta de ar.

A mulher ajoelhou-se e foi em breve em suas palavras, dando-lhe um anel preto com uma rosa de cor vermelha talhado em cima dele.

― Não é hora de partir. Não vale a pena retirar seu bem mais precioso… sua vida. A partir de hoje não mais faltará amor em sua vida. Não mais faltará homem, não mais faltará alegria, não mais faltará prazer de regozijar os maiores prazeres da carne. Se recupere, pois você é meu cavalo. É meu bem mais precioso. ― logo depois ela se tornou em milhares de pétalas rosas de cor vermelha que sobrevoavam milhares de ciganas com tochas de fogo acesas que puseram num chão limpo no meio da mata, fizeram uma fogueira próximo a ele, logo estava dançando, girando e rindo incorporadas pela sua padroeira, Pomba-gira.

A mulher que se tornou entidade, representando a sensualidade, liberdade, dona das ruas e dona das noites, dona dos corações, do prazer carnal e do amor sem igual.

Então elas começaram a tocar pandeiros, a fogueira foi aumentando seu tamanho consideravelmente.

― É ele! O cavalo de Carmem! É ele! Nós completamos o pacto com Pomba-gira fizera no passado, agora neste momento! ― Gabriel direcionou seus olhos ainda cansados pela tentativa de suicídio frustrada a poucos segundos, ao céu que enegreceu rapidamente. Viu uma cigana de saia preta e vermelha rodada e cheia de rendas, babados, ouro, prata e miçangas, seu pescoço tinha um colar com um coração, sua cabeça era adornada por uma coroa com moedas de ouro. Ela descia entre as nuvens até aterrissar ao lado de Gabriel. Ela tirou seu colar de seu pescoço e o pôs no de Gabe. Depois tirou seu anel e o pôs no dedo do meio da mão esquerda.

Seus olhos vidraram-na por alguns segundos, ela então desapareceu feito fumaça e essa mesma entrou pelas narinas dele.

Então, ele logo suspirou profundamente curvando seu corpo para cima.

Depois seu corpo cai ao chão e ele vira de lado e cospe sangue. Uma das mulheres pega um pouco do sangue dele com uma colher e joga no fogo, terminando assim de selar a promessa da entidade protetora deles.

― A partir de hoje, ninguém mais pisará em você. Você que vai pisar nas serpentes. Você será a dona das ruas durante a noite, deixará os seus amantes apaixonados e você não irá cair aos pés deles de amores, e sim o contrário. Você só não poderá despertar o verdadeiro amor em um deles, porque a consequência disso é a sua iminente morte. Está selado seu pacto. ― benzeu ele com água de Oxum enquanto uma senhora espantava espíritos ruins com a erva Arruda.

― Que São Jorge o proteja, que Xangô faça justiça e que Pomba-gira o ilumine. Que Nossa Senhora o abençoe e te guarde. Tá abençoado, tá guardado, tá protegido. Que Deus te dê boa sorte. Amém.

Então a fogueira se apagou e todos sumiram ao bater do vento.

― Gabriel! Meu deus! ― Lucas se aproxima de seu irmão caído. ― Por que fez isso, Gabe?! Graças a Deus, você está bem! ― o abraçou forte já com lágrimas escorrendo pelo o rosto.

― Eu já não aguentava mais, Lucas. Tinha que dar um fim a isso.

― Não precisava disso! Agora vamos ao hospital! Você precisa de cuidados. Vamos pra casa antes.

― Eu não quero ir pra lá. Ela tá lá. Ela me odeia. Não quero ir pra lá. ― diz choroso.

― Mas, mesmo assim, vamos lá logo! ― o pegou no colo e foi o levando de volta para casa.

― Seu namorado deve ser o mais sortudo de ter você como companheiro. ― disse com a voz fraca enquanto admirava seu irmão.

― Nada. Não acho que sou lá essas coisas. E para com isso. Tenho vergonha.

― Você deve aprender a receber elogios, Lucas. Você é um bom homem. E seu namorado é sortudo de tê-lo como futuro esposo.

― Já disse pra parar. Não gosto disso!

Gabriel riu ainda fraco pela falta de ar que teve ao se enforcar.

― Você é o homem mais lindo que um cara devia sonhar em ter. Eu tenho inveja de você.

― Será?

― Claro! Puxou a mim, é meu irmão. Tem que ser lindo pra cacete. ― os dois riram e o que aconteceu há alguns minutos, quase que foi esquecido pelos dois.

Até eles chegarem em sua casa e lembrarem de quem mora lá. Gabe saiu do colo e foi caminhando com dificuldade até a entrada da casa, abriu a porta e viu sua mãe almoçando normalmente, como se nada tivesse acontecido.

― Foi atrás deste trolho, Lucas?

― Mãe… ― Gabe o interrompeu com o dedo indicador. O filho caçula a encarou, quando os olhos se encararam, os orbes castanho-claros de Gabe ficaram vermelhos, fazendo que sua mãe congelasse e seu olhar ficasse espantado.

― Não encosta em meu cavalo! Ele é meu a partir de hoje. Ele é meu filho querido. Eu darei meu acalento a ele, mais do que você nunca deu como mãe dele. A partir de hoje, sou a nova mãe dele e você se cuide ao proferir palavras más contra ele, pois vai voltar duas vezes mais a você. ― ele falou com uma certa suavidade em sua voz, parecendo que outra pessoa estava dublando ele. Então ele desmaia.

******  

Gabriel foi internado no hospital municipal de Sam Devour

― Ele tentou se suicidar na Floresta Suicida e sobreviveu?! ― a enfermeira perguntou ainda incrédula pelo que ouvia da boca de Lucas.

― Sim. A corda parece que arrebentou logo após ele se jogar.

― Seu irmão tem um milagre a contar, pois ele foi o primeiro a sobreviver dentro daquela floresta.

― Por que?

― Porque lá, ou a pessoa morria por suicídio, ou morria por ataque de animais ferozes. Reza a lenda, que ali vive uma onça preta. Do tamanho de um tigre-de-bengala.

― Quer dizer, eu e meu irmão sobrevivemos. Eu entrei lá e o resgatei! ― disse assustado com um sentimento de alívio junto com um pouco de medo.

― Você tem muita história pra contar. Bem…. Ah, seu irmão vai ser liberado amanhã na parte da tarde. Não se preocupe, ele está fora de perigo. O doutor Bruno encaminhou seu irmão para um psiquiatra. Ele precisa se tratar o mais rápido possível. ― entregou alguns papéis a ele, deu às costas e foi para outro quarto.

Lucas vai embora para se limpar e depois voltaria.

Enquanto isso, o Doutor Homaxley entra para ver seu paciente.

― Como se sente, meu jovem? ― um jovem médico de trinta anos de idade, olhos escuros, lábios grossos, uma voz grave e um corpo comum, mas, definido. Sem muitas características que o pareça ser um deus grego, igual a algumashistórias que se vê por aí.

― Dolorido. Oi, boa tarde doutor. ― sentou-se com cuidado por causa de seu braço com uma agulha do soro.

― Meu jovem Gabriel, estou te encaminhando para um psiquiatra. Você precisará de uma consulta e tratamento.

― Não sou depressivo, doutor Homaxley.

― Não disse que você é, disse que você está encaminhado para consulta e posterior tratamento, caso haja algo de errado contigo. ― lhe respondeu já dando-lhe alta. Era para ficar até o outro dia, porém, logo o liberou para se consultar com a  psiquiatra Paula Gonçalves.

Gabriel saiu de seu quarto e foi para fora do hospital. Sentou-se em um banco e de longe viu seu irmão retornar de moto.

Sua cabeça estava a mil. Não sabia o que estava acontecendo. Tudo era tão louco, sem sentido e sem uma linha temporal para norteá-lo.

Mirou alguns casais que estavam andando pelas calçadas junto de seus filhos pequenos. Suspirou fundo. No fundo ele queria estar com seu ex-namorado. Ainda sentia algo por ele. Contudo, algo nele o fazia ficar “impedido” de nutrir sentimentos por algum tempo em seu coração.

― Teve alta, Gabe? ― Lucas o pergunta fazendo jovem levar um pequeno susto.

― Ah… sim, Lucas. Ele me encaminhou para a psiquiatra. Uma tal de Paula Gonçalves.

― Ah, tá. Vou chamar um táxi para você. Espera aí.

― Tá bom.

O irmão de Gabe então acelerou sua moto à busca de um motorista, enquanto o outro ficava com um olhar perdido nas pessoas.

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