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EU, KADU – episódio 6 : “tudo que amamos profundamente”

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Consigo chegar à frente do CGAM quarenta minutos antes do início das aulas. Morar nas vizinhanças da escola em que estudamos tem lá suas vantagens e uma delas, no meu caso, é ficar o menor tempo possível dentro do ônibus do condomínio, afinal, do Mare e Laguna até aqui não se gasta mais do que dez minutos. E se não fosse pelo fato de tudo nessa Barra da Tijuca depender de um transporte, pois nada nesse bairro planejado, do ponto de vista logístico, é relativamente próximo, eu faria o trajeto a pé, amarradão e sem qualquer problema.

Num gesto muito, muito rápido, após um longo bocejo, direciono o dedo indicador da mão direita para o meio da testa e empurro os óculos em uma deliberada tentativa de não deixá-lo escapar, apesar de ter certeza de que ele sequer se moveu, mas essa é uma das minhas reações incontroláveis à medida que sou atacado por coquetéis molotov fabricados por minha curiosidade e impaciência.

O que de tão grave e tão urgente Matheus teria para falar comigo, e que, apesar de ser tão grave e tão urgente, não pôde ser dito ao telefone? E em que momento essa coisa tão grave e tão urgente aconteceu? No domingo à tarde, quando nos vimos pela última vez, lá, no condomínio, Matheus estava agindo normalmente. E depois, quando nos falamos, à noite, ao telefone, antes da sua madrinha chamá-lo para jantar, seu tom de voz não estava em nada diferente; nenhum indício de que poderia lhe ter acontecido algo. Será que ele foi abduzido e agora, no seu lugar, há um alienígena, como naquele filme (a versão de 78, claro), Invasores de Corpos? 

Detesto! Odeio ficar nessa expectativa.

Se ao menos Matheus não pegasse carona com o irmão todas as manhãs, já poderíamos ter iniciado essa conversa lá mesmo no condomínio e eu não estaria aqui, agora, mergulhado nesse mar de aflição, apostando todas as minhas fichas em mil e uma suposições a fim de tentar, ao menos, chegar próximo de um consenso que esclareça e justifique essa sua ENORME AUSÊNCIA, e que acabou por deixar a minha vida insuportável nessas últimas trinta e seis horas. 

Quer dizer, nem sei se o Matheus vai querer falar sobre isso. Previsibilidade não é uma das características do meu amigo, e muito menos dar satisfação de seus atos se achar que não deve, ainda que tenha deixado alguém incomodado. Contudo, se por acaso todo esse reboliço for para anunciar aquilo que eu já desconfiava, a suposição das suposições, que é a de que ele esteja com uma nova namorada, não faz sentido algum. Matheus jamais promoveu qualquer tipo de solenidade para isso, a não ser que essa suposta new girlfriend não possa ser trazida à luz do dia. 

Pelos Céus! Será que o Matheus está se envolvendo com alguma professora ou alguma mulher mais velha? Algo parecido com o filme Houve Uma Vez Um Verão, em que um adolescente se apaixona por uma mulher casada, cujo marido está fora, lutando em alguma guerra, e encontra sua passagem para a fase adulta em meio a situações sentimentais, engraçadas, recheadas de sexo, amor e amizade? 

Não, não pode ser…

Meneio a cabeça, firme, determinado a expulsar essa hipótese medonha para fora da minha mente, pois em definitivo não conseguirei lidar com essa situação. Não terei forças para ouvir o desabafo do Matheus enumerando todas as qualidades dessa senhora em detrimento às garotas com quem ele já ficou. Enaltecendo, apaixonado, o abismo imenso que existe entre namorar uma menina e namorar uma mulher. Destacando as birras que as adolescentes fazem enquanto as “tias” conversam. Enquanto uma usa o corpo, a outra a inteligência. Enquanto uma quer atenção e a outra quer respeito…

Simplesmente NÃO VOU AGUENTAR.

Uma coisa é ficar na sofrência assistindo Matheus trocando de namoradinhas como se estivesse trocando de roupa, sempre alegando não ter a mínima paciência com a imaturidade emocional dessas meninas que cruzam o seu caminho, apesar de ele mesmo não enxergar, creio eu, ser tão prematuro quanto elas. Outra coisa será vê-lo absorto em meio à intensidade de uma paixão secreta que vai se espalhar como fogo pelas mãos de uma mulher bem resolvida, sem tanta frescura e ciúmes, cheia de luz, mas também de sombra e magnetismo.

Uma paixão estética, orgânica, sedutora, erótica, afinal de contas o meu amigo é um adolescente como tantos outros, como eu sou e infelizmente também será como eu fui quando me encantei pelo Gabriel, ansioso pela descoberta, pela vivência de um grande amor. Faminto por algo que ainda não conhecia até me deparar com o desespero diante da constatação de que a pessoa que eu venerava não se importava comigo tanto quanto supunha.

Não sei se o meu amigo terá forças para emergir do abismo de um agravado complexo de inferioridade proporcionado pelas brutais emoções do abandono. Sim. Porque chegará o dia que essa tal mulher irá descartá-lo sem a minima dor de consciência, e, como eu, Matheus não estará preparado para ser confrontado com o prazo de validade que o amor e a paixão possuem dentro de uma relação de poder desequilibrada. Lamentavelmente aos 15 anos, e sem sombra de dúvida também aos 16, 17, não temos ideia do que seja um amor saudável e tampouco bagagem emocional suficiente para saber quando não pisar nos campos minados desse sentimento.

Se esse infeliz prognóstico realmente vier a acontecer, espero ter energia suficiente para ajudar Matheus a superar essa fase que parece não ter fim. Ajudá-lo a escalar o caminho de volta desse precipício para onde será arremessado… O mesmo precipício, quem diria, onde ele atirou os corações partidos de todas as suas ex-namoradinhas, alguma das vezes com um meio sorriso no canto dos lábios.

Gabriel! Gabriel! Gabriel!

Ajeito as alças da mochila sobre os ombros e usando-a como proteção para as costas, eu me apoio sobre a letra “A” da sigla CGAM, que em letras garrafais vermelhas ocupa, de um lado ao outro, quase todo o espaço da tinta branca que atravessa o muro do colégio, enquanto observo o zigue-zague dos carros na avenida, desfilando à minha frente, velozes como foguetes, ao mesmo tempo que meus olhos correm tentando acompanhar a velocidade de cada um deles. Mas é impossível e então respiro fundo e balanço a cabeça com intensidade à medida vou mirando o chão, a calçada sob os meus pés, até fechar os olhos, apertando-os desesperadamente, acreditando que quanto maior for a pressão que fizer sobre eles, mais eficaz será a mensagem enviada ao meu cérebro para expurgar toda e qualquer referência sobre o Gabriel.

Nesses últimos dias, em específico de ontem para hoje, já me lembrei desse desgraçado por pelo menos três vezes, o que já não fazia há tempos. Isso é um reflexo, absolutamente, da ansiedade, do receio de reencontrá-lo, sábado, no casamento da Maria Clara. Depois de dois longos anos, depois de tudo o que passei, depois de quase querer morrer por dentro e de desistir de mim mesmo, a minha mente deveria estar, nesse momento, nessa semana carregada de adrenalina, ao menos resignada e não regredindo, escolhendo voltar ao passado e se alimentar dos restos de uma relação… Na verdade não sei bem como denominar aquilo que tive com o Gabriel…

Depois de expandir a barriga, soltando o ar lentamente, repetindo esse pequeno exercício por cinco vezes seguidas, e todas em vão, pois não consigo acalmar o meu sistema nervoso, abro os olhos, ergo a cabeça e fito novamente a avenida à minha frente, porém desta vez não consigo identificar o que de fato, de real, está acontecendo diante dos meus olhos, pois o caleidoscópio com as imagens dos seis meses que convivi com Gabriel, costuradas artisticamente, mostrando ao mesmo tempo o sublime e o belamente trágico, faz-me transbordar de desespero e aflição, levando-me a concluir o óbvio: o vilão dessa história não fui eu.

Coloco uma, duas, três vezes o dedão da mão direita no meio da testa para, de novo e de novo, empurrar os meus óculos enquanto impulsiono todo o peso do corpo para trás, decerto massacrando minha mochila contra o muro, contra a letra “A” da sigla CGAM, ao passo que cruzo os braços, acarinhando-os para em seguida começar a mexer as pernas e a bater com o meu pé esquerdo no chão, lutando com extrema bravura a fim de evitar que a imagem de Gabriel se forme em minha mente com aquela sua barbinha por fazer, sua postura confiante, seu olhar, aquele olhar que me deixou completamente desorientado quando ele, sua esposa e seus dois filhos foram apresentados à nossa família pelo Gustavo…

Inspiro e expiro mais uma vez e uma violenta descarga de adrenalina sobe até minha cabeça e meus braços tremem de raiva e eu deixo de acarinhá-los para apertá-los com extrema força até descruzá-los e baixar as mãos, mantendo-as penduradas ao lado do meu corpo para então cerrar os punhos, veemente, chegando quase a ferir com as unhas a pele pressionada entre os dedos e o pulso…

Sobre meninos e lobos e homens que vivem suas vidas duplas, o futuro cunhado da minha irmã é um exemplar dessa espécie que infelizmente eu conheci de perto! Gabriel passou um ano inteiro sendo um cavalheiro, me abordando de maneira dúbia, nunca comprovando, de fato, sua intenção, mas sempre deixando no ar um quê de sedução e provocações que só alimentava cada vez mais e mais minha curiosidade, rejeitando e atraindo-me na mesma medida. Quando enfim fomos para cama (será que o Matheus e essa “tia” já transaram?) pude entender o mecanismo do seu jogo: ele precisou se resguardar, ele precisou estar seguro do terreno em que estava pisando, inclusive pelos motivos óbvios. Além de não se expor, imagina ser responsável por um escândalo que poderia acabar com o namoro promissor do irmão?

Gabriel, depois que começamos a ficar, revelou, para minha surpresa, que já sabia que eu era gay e por isso investiu, mesmo correndo todos os riscos. Senti-me péssimo e lhe pedi conselhos de como me comportar, como melhorar minha postura, como não deixar rastros e ele, decerto, não perdeu a oportunidade de nutrir minhas expectativas, agindo como um mestre preparando cuidadosamente seu pupilo. Esclarecendo que seria possível e fácil atravessar a adolescência sem a necessidade de expor minha orientação sexual, mas que com o passar dos anos a cobrança sobre essa parte da minha vida seria constante, quase insuportável. E caso eu desejasse não sofrer qualquer represália da sociedade hipócrita em que vivemos o preço a pagar pelo “alvará de paz e liberdade” seria trilhar um único caminho: o casamento de fachada.

“Tudo nessa vida tem um preço, Kadu”. Ainda me lembro das suas palavras secas, sinceras, acompanhadas de um sorriso cínico no canto dos lábios, o mesmo sorriso descarado que manteve durante os seis meses em que fomos amantes, onde reforçava que tudo aquilo não passaria de sexo e amizade, nada mais que “suficiente” para um garoto de quinze anos, em plena puberdade e com os hormônios saltando de maneira desenfreada por todos os poros.

Um covarde, sim, em gênero, número e grau. Por mais que a sociedade pressione os homens que sentem atração pelo mesmo sexo a reprimir, renegar seus impulsos, nada justifica que esses mesmos homens usem esse atenuante como escudo para enredar outros tantos que estão apenas buscando vivenciar, ou até mesmo descobrir, sua real natureza. E foi o que o Gabriel fez. E quem sabe ainda deva fazer… Eu jamais conseguirei apagar essa nódoa da minha alma. Ele foi minha primeira paixão, e platônica, por incrível que pareça, pois nunca tive coragem de revelar que tudo aquilo que estava acontecendo com a gente não era só sexo e amizade, ao menos para mim.

Inclino o corpo um pouco para frente, aliviando “a subexistência” da minha mochila, e então paro de bater o pé esquerdo nervosamente no chão e descerro os punhos para logo em seguida descer as mãos até a altura das pernas e começar a passá-las por sobre o jeans, empurrando-as num movimento quase aleatório de ir e vir, à medida que me coloco de pé, completamente erguido, ereto, ao ponto de conseguir, enfim, discernir o mundo diante de mim, tratando de convencer-me da plena certeza de que não posso continuar assumindo esse papel pedante de vitima das circunstâncias enquanto tento me agarrar a uma postura pseudomadura.

O que eu vivi com o Gabriel foi uma perturbada história de amor, ou seja lá qual nome ela possa ter, mas a vida segue e vou continuar escalando o caminho de volta desse precipício, custe o que custar.

Ao tempo que busco equilibrar minha respiração rápida e curta, completamente focada acima do meu corpo, volto a cerrar os punhos entre desesperado, esperançoso e confuso.

Onde está Matheus que não chega logo para me resgatar desse pesadelo?

Enfim, deixo os ombros caírem enquanto permito que o ar entre no meu corpo, segurando-o nos pulmões e depois o libertando na mesma velocidade, sem pressa, até que de súbito sou invadido por uma sensação calorosa, sugerindo que eu dê início a uma oração. Fecho os olhos imediatamente, mas as palavras me fogem. Há quanto tempo não vou a uma igreja? Sou tomado por um medo abismal, mas insisto… Pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome…

Após terminar minha prece, olho para o alto, vislumbrando o límpido céu com poucas nuvens e um azul sereno ao tempo que sou tomado aos poucos por uma firmeza que vai se expandindo por todo o meu peito, sublimando e acalentando, em parte, a minha aflição. Águas passadas não podem mover moinhos, não podem, e talvez por isso, até hoje, eu tenha decidido viver dessa forma, trancafiando a experiência que tive ao lado do Gabriel como um segredo sepultado dentro de mim numa cova rasa, mas muito bem guardada… Eu não sou o vilão dessa história. Não sou!

Baixo o olhar ao passo que retiro o celular do bolso da calça jeans e o trago até quase próximo ao rosto a fim de conferir as horas: já se passaram dez minutos desde que cheguei, e nossa, parece que estou há uma eternidade, em pé, aqui, encostado neste muro. Que seja. Dou de ombros e daí eu devolvo o telefone para o bolso e depois encaro o meu entorno e não vejo ninguém, nem sequer um funcionário do colégio, tão somente os carros e ônibus atravessando a Avenida das Américas.

Se Matheus realmente estiver envolvido com uma mulher mais velha, ele não vai suportar nem um décimo do que eu aguentei, até porque já recebeu da vida sua parcela de angústias, traumas, carências e neuras: não é fácil ter de conviver com o abandono de uma mãe que sequer conheceu e o desprezo flagrante do próprio pai e ainda morar de favor no apartamento dos padrinhos.

Saco.

Enfio a mão no bolso da calça e retiro o celular.

Vou tentar escutar algumas musicas para espairecer.

Demi Lovato, Gwen Stefani, Mile Cyrus, Selena Gomes, Sia, Peter Bjorn, Sufjan Stevens, Sam Smith, Lana Del Rey entre tantos outros que fazem parte da minha playlist, e ainda assim não consigo escolher qual deles escutar para me ajudar a passar o tempo até que uma viva alma apareça por aqui… Será que o CGAM hoje não vai funcionar? Não me lembro de ter recebido qualquer aviso prévio.

Fito a tela do celular à medida que os títulos das canções da trilha sonora do filme Me chame pelo seu nome desfilam à minha frente.

Matheus pediu para que eu o encontrasse na frente do colégio faltando meia hora antes do início das aulas e agora restam vinte e cinco minutos para que o portão (provavelmente) seja aberto e nada dele aparecer.

Toco a ponte do nariz com o indicador e empurro a armação dos óculos para cima até que ela se encaixe confortavelmente sobre ele, o meu nariz, enquanto volto à árdua peregrinação de escolher uma música que sintetize o meu estado de espírito. Ainda não sei como minha mãe e a Patrícia Bismarck alcançaram um denominador comum para montar a playlist do casamento da Maria Clara. Nada menos que uma batalha épica foi travada, tenho certeza. O confronto do tradicionalismo de dona Marcela batendo de frente com o contemporâneo, a visão periférica e profissional da wedding planner, inflamado pelas sucessivas discussões para decidir se os clássicos ou os sucessos atuais ocuparão mais espaço na festa. Espero que entre mortos e feridos tenha sido considerado o estilo do casal, apesar de ser um tanto difícil encontrar um estilo que personifique a relação da Maria Clara e do Gustavo. Não há outro adjetivo que possa ser usado senão o “peculiar” para definir esses dois…

Deixo escapar um longo bocejo preguiçoso ao tempo que esfrego os olhos buscando afastar o resquício de sono que a outra metade do meu ser ainda está carregando. Segundo alguns pesquisadores, quanto mais longo um bocejo, maior o cérebro. Não sei como chegaram a essa conclusão, mas se for verdade, o meu encéfalo, a partir deste momento, assumiu as proporções da maior mansão do mundo, que fica em Bombaim, com seus 27 andares, 37 mil metros quadrados e nove elevadores.

Pronto. Mistery of love, do Sufjan Stevens, é a canção que eu escolho para ilustrar, na verdade para me preparar para a grande revelação que o Matheus irá fazer. Decido depois de derramar outra vez os olhos sobre a tela do telefone.

Com certeza não será ouvindo esse barulho de carros, motos, ônibus e buzinas que vou encontrar o ponto de equilíbrio necessário para o que está por vir. Como o amor que sentimos por alguém pode nos dar tanta força para aguentar o que vier dessa pessoa? Eu não deveria estar aqui. Eu não deveria ter atendido ao pedido de Matheus depois do tratamento que venho recebendo dele. Estou sendo injusto e egoísta por estar pensando dessa maneira? Talvez, concluo, dando de ombros. Afinal, como exigir que ele tenha uma postura diferente se eu não tenho forças para me declarar, entretanto analisando-o sobre o prisma da amizade, a situação não é menos dolorosa. Matheus me ignora nas horas em que acha mais conveniente, e não se sente desconfortável com isso…

Afogado em águas vivas, amaldiçoado pelo amor que recebi, bendito seja o mistério do amor, simples assim, como canta Sufjan Stevens.

Fecho os olhos e respiro fundo e com isso busco colocar o meu estresse e a minha ansiedade de lado enquanto tento me acalmar. Preciso encontrar ou pensar em algo positivo que tenha me acontecido nesses últimos tempos, mas não há nada que se encaixe nesse padrão e daí meneio a cabeça, bem devagar, para então abrir os olhos, também sem pressa, e ir à procura dos meus fones de ouvido num dos bolsos laterais da mochila.

Uma alternativa para reencontrar a paz interior é ouvir a música que mais gostamos, então, nesse caso, acho melhor trocar Mistery of love por Young Folks, pondero ao passo que sigo revistando o pequeno bolso e partindo para o outro e depois para o terceiro, à frente da mochila, sem achar o que estou procurando ao mesmo tempo que sou tomado pela inevitável convicção de que esqueci os fones em algum lugar no meu quarto.  

Mas que merda, reclamo à medida que reviro os olhos e logo depois ergo a cabeça no intuito de refazer os meus passos desde o instante que saí catando tudo que vi pela frente e atirei para dentro da mochila, após a ligação de Matheus. Porém, mal tenho tempo de começar meu exercício mental, pois percebo algumas pessoas se aproximando, à minha esquerda; levo algum tempo para identificá-las: são três professores, dois funcionários da administração e o seu Clint, da limpeza. Todos acabam passando por mim e me cumprimentando com um categórico “bom dia”, mas apenas Jorge, meu ex-professor de Língua Portuguesa e Literatura, é quem ensaia uma rápida parada ao meu lado, pousando de leve uma das mãos sobre o meu ombro direito ao passo que o restante do pequeno grupo se afasta.

– Tudo bem com você, Kadu? – ele busca me encarar enquanto lança sua pergunta carregada de genuíno interesse e paciência – Perdeu a hora, rapaz?

Dou-me ao trabalho de respondê-lo apenas com um aceno positivo feito com a cabeça e um sorriso forçado no canto dos lábios, pois não quero deixar Matheus esperando caso ele chegue de um instante para o outro. Por fim vejo a mão de Jorge abandonando o meu ombro e ele se afastando, em linha reta, sem acelerar os passos. De soslaio percebo que se volta rapidamente na minha direção antes de cruzar o portão de entrada do colégio.

É estranho, ou engraçado, lembrar que já fui apaixonado por ele assim que me tornei seu aluno. Devo ter sucumbido ao velho clichê, pois aquela paixonite desapareceu tão logo como começou e hoje em dia, em retrospectiva, percebo que nada em sua pessoa me atrai, a não ser sua inteligência e excepcional dedicação que tem para com os “seus aprendizes”.

Desde que assumiu a coordenadoria do turno da manhã que o professor Jorge não leciona mais. Um ganho real e motivador para quase todos nós, alunos, que passamos a receber sua dedicação de maneira integral, afinal de contas ele sempre se mostrou ser uma excelente pessoa e um exímio profissional que vai além das funções que lhe cabem.

Tive o privilégio de ser um de seus alunos por quase dois anos consecutivos e em sala de aula Jorge já nos desafiava, incentivando-nos a sermos proativos, a pensar “fora da caixa”, ousando até mesmo a “fugir” um pouco da programação escolar ao sugerir que também lêssemos títulos que fazem parte do panteão da literatura mundial. Decerto precisamos conhecer a obra de Jorge Amado, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo e tantos outros, mas qual o problema em também valorizar Tolstói, Gabriel Garcia Márquez, Miguel de Cervantes?

Jamais vi Jorge perder a paciência ou negligenciar sua preocupação com o bem estar e felicidade de cada um dos seres humanos que lhe são confiados, principalmente àqueles que possuem algum tipo de fragilidade e especialmente as vítimas de alguma violência escolar que sofram ou venham a sofrer qualquer tipo de bullying.

“Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio no mundo”, Jorge finalizou seu discurso com essa frase de Oscar Wilde na festa de encerramento do ano letivo passado. Na verdade uma resposta cortês e na medida exata para as más línguas que começaram a questionar sua sexualidade após vê-lo se dedicar com uma invejável ênfase em um caso de bullying homofóbico contra Allyson, um aluno de 14 anos, e que graças a sua rápida percepção e intervenção, e também de uma psicóloga, se evitou o pior… Quanto aos agressores, “as tais crianças que apenas estavam brincando”, seus pais foram educadamente convidados a levá-las para outras escolas.

Mas e se o professor Jorge fosse gay, qual seria o problema? Por acaso a sua iniciativa como ser humano, como educador, teria menos valor? Volto ao meu “velho” questionamento: até onde vale à pena ser honesto consigo mesmo e se permitir viver uma vida sem embuste, com a cabeça erguida, sem a preocupação ou temor de que estará incomodando o seu próximo simplesmente por ele achá-lo diferente? E ainda mais em um mundo onde o progresso e a evolução social do homem esbarram em algumas reações retrógradas e absurdas da mais pura intolerância?

Nos idos do século 19, Oscar Wilde já definia o sentimento entre pessoas do mesmo sexo como “o amor que não ousa dizer o nome”, e pagou um preço alto por viver esse amor corajosamente, enfrentando a hipócrita e sexista sociedade da qual era contemporâneo.

Após ter sido denunciado por causa da relação íntima que tinha com Lord Alfred Douglas, foi incriminado, julgado e sentenciado a dois anos de trabalho forçado pelo “crime” de ser homossexual, e com isso toda sua fama e sucesso financeiro desmoronaram. Seus livros foram recolhidos das livrarias, assim como suas comédias retiradas de cartaz e depois de liberto foi banido de sua terra, a Grã Bretanha, indo para França onde conheceu a pobreza e tudo que de pior ela podia trazer, morrendo de meningite, sozinho, num hotel barato…

Um provável consolo para essa injustiça? A Inglaterra nunca mais seria a mesma após julgar um de seus escritores e poetas mais famosos somente por gostar do mesmo sexo.

Pois é! Reforço: o tempo passou e agora estamos em pleno século 21 e ainda há muita gente com teias de aranha no cérebro e tão radicais quanto àqueles que condenaram Oscar Wilde. Relações entre pessoas do mesmo sexo são consideradas crimes em 73 países, e pasmem: 13 deles preveem pena de morte. Graças aos céus não nasci em nenhum desses locais, mas o Brasil, segundo estudos realizados, é uma das nações mais homofóbicas que existe… Até onde esse trem desgovernado vai chegar, eu não sei, mas torço para que um bom maquinista logo tome as rédeas da situação.

Um Onix Active acaba de estacionar em frente à calçada. Não demoro a reconhecer que é o carro do irmão de criação de Matheus, que por uma incrível coincidência cabalística ou mera casualidade, é também o noivo (vítima) da desajustada da minha irmã Filipa. Pela rapidez que vejo o meu melhor amigo saltar do carro, batendo a porta atrás de si, sem olhar para trás e caminhar a passos largos na minha direção, percebo que vem tempestade por aí, quiçá um tsunami.

– Bom dia! Tudo bem? 

Ouso cumprimentar, mas Matheus sequer me olha. Sequer repara na camiseta branca t-shirt e no tênis Converse All Star Jeans Cano Alto Azul que estou usando. Ele passa diante de mim e com um aceno de mão faz sinal para que o acompanhe, o que acato, em total silêncio, até alcançarmos o gramado que fica no lado direito do colégio, e que geralmente é usado para jogos de futebol e ensaios de peças de teatro.

A essa altura o carro do meu futuro (?) cunhado já vai longe…

– Já podemos falar alguma coisa?

Decido lançar minha pergunta quando constato que estamos a uma distância considerável do muro da escola ao passo que me preparo para assimilar o nome da nova megera com quem vou precisar conviver e de pronto me vem à mente o filme Notas sobre um escândalo, onde Cate Blanchet interpreta uma professora que se apaixona por um de seus alunos e os dois acabam por viver um romance secreto, mas Cate se ferra no final, pois Judi Dench, uma velha professora, lésbica, à beira da aposentadoria, e que é apaixonada por ela, descobre tudo e a entrega, não sem antes chantageá-la.

Não. Por mais despeitado que eu possa ficar não irei agir como a Judi Dench.

Matheus se vira bruscamente na minha direção. Seus olhos estão vermelhos, secos, mas vermelhos e sua expressão é de uma raiva absurda, prestes a explodir, porém milagrosamente contida, o que é de estranhar, pois ele não é de engolir sapo e seguir para o abate como um cordeirinho, sem reclamar. Pelo contrário. Matheus se estoura e se rebela, e geralmente sem medir as palavras e muito menos as consequências, disparando desaforos para quem quiser ouvir.

– Puta que pariu cara! – ele se expressa, finalmente enquanto suas mãos se soltam no ar num gesto arrebatador e sua mochila acaba caindo no chão – Você acredita que os meus padrinhos vão para o Japão?

Oi?

Espera!

Sinto-me entorpecido com o que acabo de ouvir. Qualquer resquício de sono, de irritação ou o diabo a quatro que ainda me assombrava acaba por desaparecer ao mesmo tempo que uma leve tontura começa a invadir minha cabeça, mas busco me manter estável antes que ela se torne maior e eu perca o equilíbrio, porém minha mente é rápida demais e trabalha contra mim e meu corpo parece, agora, pesar toneladas…

Eu ouvi certo?

NUNCA MAIS VOU VER O MATHEUS. ELE VAI EMBORA PARA O OUTRO LADO DO MUNDO?

Não. É claro que não. Ele só está brincando, preparando o terreno para me contar sobre sua mais nova namoradinha… Mas e se for verdade? Meu Deus, não, não, não. Nossas almas estão ligadas Matheus. Já vivemos várias vidas antes dessa e falta pouco para que nos “encontremos” novamente…

– Você está me ouvindo, Kadu? – Matheus pergunta com um tom de voz já começando a ficar  bem alterado.

-Do que você… – meneio a cabeça e respiro fundo – Do que está falando Matheus?

-Tá surdo, cara? Acabei de dizer que o meu padrinho recebeu uma porra de uma promoção…

– Ok. Mas que história é essa de Japão? Vocês vão se mudar para o Japão? – questiono com as pernas bambas, engolindo em seco, temeroso pela resposta que vou receber ao passo que ouço um som brusco, áspero, de algo se partindo dentro de mim.

 

Sufjan Stevens – Mystery of Love

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  • Kadu você está cercado de “sequelados”, meu deus quanta gente louca a sua volta. Essa doida quer ser sua namorada de “mentirinha”, não “pera” é doida >.>

    Ai finalmente o tratante apareceu, sim tratante pq na boa tô bolada com ele >.>

    Fran eu ri da parte da doida querendo fazer os planos ala “coiote do papa-léguas” que é óbvio que não dará certo e prevejo que vai dá be ruim e claro para o Kadu =.=

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