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EU, KADU – episódio 7: “o pescador de ilusões”

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Vocês vão se mudar para o Japão?

Vocês vão se mudar para o Japão?

Vocês vão se mudar para o Japão?

A pergunta não para de ecoar dentro da minha cabeça, soando como se sustentada por um coro de vozes, de várias vozes. Baixos, Tenores, Contraltos, Soprano… Um misto de vozes adultas masculinas e femininas a pontuar o drama que está por vir, assim como em uma tragédia grega. Mas eu não vou ouvir. Não quero ouvir o que Matheus tem a me dizer. Vou retirar minha pergunta, quem sabe, assim, sem resposta, sem confirmação, essa viagem, essa partida deixe de existir.

Inspiro e expiro e semicerro os olhos enquanto experimento uma sensação de irrealidade, de que estou sonhando ou algo parecido, ainda que esteja de fato desperto. Ainda que me veja em pé no gramado, no lado direito do colégio, com a relva esmeralda sob os meus pés, as árvores, os arbustos e as flores coexistindo no meu entorno, onde até poucos segundos eu aguardava uma resposta de Matheus, uma simples resposta, um nome, apenas o nome da sua mais nova namorada e todas as qualidades que ela carrega e os motivos que o levaram a faltar às aulas de ontem, que o levaram a perder a prova de Literatura. E onde também aguardava um pedido de desculpas, superficial e idiota, sim, mas que amenizaria a sensação de incapacidade causada pelo desprezo que recebi nessas últimas 36 horas.

Mas agora, o que me aguarda? Um revés do destino. Um ultimato que irá jogar por terra as minhas esperanças e meus sonhos. Atirar no lamaçal da desalento o conforto de saber que estarei ao seu lado, Matheus, todos os dias, sobrevivendo, mesmo que aos trancos e barrancos, entre a linha tênue da minha covardia e desespero monitorados sob a eterna sombra do medo da rejeição.

Um adeus é a metade de uma morte…

Senhor, eu nunca, nunca imaginei que pudesse amar alguém desse jeito, sofrer essa dor, saber que Matheus vai continuar sua vida sem mim… Eu faço qualquer coisa para que isso não aconteça, para que você não parta Matheus. Subo o penhasco mais alto, atravesso o oceano mais revolto, fico noites sem dormir…

Fecho os olhos.

Estou enlouquecendo? Perdendo o controle?

Meneio a cabeça e bem devagar volto a abrir os olhos.

Apesar da sensação de estranheza e da minha mente estar sendo puxada para direções opostas, ainda consigo vislumbrar Matheus parado à minha frente com sua camiseta e calça escuras lisas e suas inseparáveis botas. Ele está me encarando firme, como esperando alguma reação de minha parte, mas será que esqueceu de que sou eu quem está aguardando a sua maldita confirmação de que irá para o outro lado do mundo?

Vocês vão se mudar para o Japão?

Vocês vão se mudar para o Japão?

Não. Não quero ouvir. Não vou ouvir.

Por um instante não consigo definir o que estou sentindo, se é que estou sentindo alguma coisa, exceto a sensação de queda, de desespero diante de um poço já começando a ser aberto pela saudade, acompanhado por um fardo de memórias dolorosas e amargas, ao tempo que percebo tremuras ligeiras e acentuadas nas mãos e nos ombros.

Sim. Sim. Sim. Talvez tivesse sido melhor Matheus ter me dado a notícia de que estaria namorando uma senhora mais velha, ou namorando mais uma dessas garotas sem noção, ou namorando um poste com saia. O que fosse eu não me importaria tanto, seria apenas mais uma batalha silenciosa. Mais uma romaria de perguntas sem respostas endereçadas à minha mente. Mais um rosário de impasses e confissões dirigidos à minha alma… Entretanto eu estaria feliz, ao meu modo, pois não teria perdido você, Matheus. Contudo, por outro lado, esta agonia, esta desesperança, esta impaciência que me corroem o espírito já há quase um ano me leva a considerar se realmente o destino não está agindo de modo correto em nos afastar, permitindo que eu me liberte, me purifique, corrompa esse elo de padecimento que não me levará a lugar algum…

Preciso admitir que uma parte de mim não quer envelhecer presa a um sentimento rotatório, a uma história sem fim onde ocuparei o lugar de um espectador passivo assistindo o amor da minha vida seguindo seu caminho, construindo uma família enquanto finjo estar tudo bem. Enquanto me agarro às migalhas, subsistindo, criando situações, esbarrões furtivos, tão somente para sentir, por milésimos de segundo, sua pele em contato com a minha, ou então receber um olhar ainda que desinteressado, e daí voltar para a solidão do meu apartamento, da minha cama, e adormecer com um sorriso agridoce na face por ter conseguido reabastecer o estoque de falsas alegrias da minha sobrevivência patética. 

Não. Não quero envelhecer dessa maneira, com os olhos vazios, os lábios amargos, navegando solitário ao lado da sensação irritante de que o tempo passou e não voltará mais para que eu possa ter uma segunda chance.

Ouço o som da voz de Matheus, aqui, agora, e por detrás dessa melodia vislumbro a beleza dos velhos tempos, das tardes em que tomávamos café com leite, quase sempre, no apartamento dos seus padrinhos enquanto jogávamos, na verdade enquanto eu me sujeitava a jogar por sua causa, Matheus, aqueles terríveis fighting games. Ou das vezes em que você ria e tentava de todas as formas rebater meus argumentos de que os livros do Harry Potter deveriam ser leitura obrigatória nas escolas. Ou quando saímos do CGAM, a caminho do condomínio, simulando diálogos e situações envolvendo os X-mans,  em que eu sempre era o professor Xavier e você, claro, o Wolverine. Ou as horas diante da tela da TV, escolhendo na Netflix algo que pudesse agradar aos dois, e sua vontade, Matheus, óbvio, quase sempre prevalecia…

Sim. Como é bom entrever a beleza dos velhos tempos e enxergar que a nossa amizade com o passar dos anos acabou se tornando uma relação muito próxima, fraternal, nos transformando cada vez mais e mais em amigos inseparáveis…

– Kadu! Kadu! Merda. Você tá bem?

Não. Não quero ouvir. Não posso ouvir.

Quando comecei a te amar, Matheus? Quando exatamente? Quando? Quando? Será que foi de fato há quase um ano ou já te amava e não percebia, ou não queria, buscando fugir pelas madrugadas on line em conversas picantes com vários caras, ou me entregando ao furacão de emoções proporcionado pela invasão do Gabriel, ou me expondo em locais escondidos e até perigosos durante aqueles três encontros com completos estranhos, deixando-me levar pelas coisas belas e sujas do sexo?

Eu preciso dizer que te amo Matheus. É isso. Talvez assim você reconsidere, reflita sobre essa sua abrupta partida para o outro lado do mundo, para a terra do sol nascente, para o quinto dos infernos e não me deixe aqui, abandonado. E se por acaso você quiser que assumamos nossa relação, não vou temer em deixar para trás o armário em que venho mantendo-me trancado durante toda minha vida desde que me descobri homossexual. Mesmo tendo que pagar um preço muito alto diante da plena certeza de que minha mãe passará a me ver como uma aberração, despejando sobre mim o mesmo desprezo que ofereceu ao meu tio. Mesmo tendo de lidar com o orgulho ferido do meu pai perante a constatação do que os outros irão pensar por ele ter um filho gay, isso, claro se o doutor Carlos Eduardo me enxergar…

Pouco me importa se vou ser considerado pecador ou se não alcançarei a salvação pelo simples fato de amar alguém do mesmo sexo. Não vai me incomodar, de verdade. Sei que mesmo triste, vou precisar conviver com a decepção que causarei em Maria Clara, mas ela, decerto, entenderá que o seu irmão estará fazendo o que precisa ser feito para ser feliz, afinal não foi isso o que ela disse, nas entrelinhas, quase agora, antes de eu sair para o colégio?

Eu te amo, Matheus, por favor, aceite, mesmo diante de todas as coisas que fiz, de como eu costumava ser longe dos olhos de todos, longe dos seus olhos…

Não ligo para o seu passado, com quem você esteve, não mesmo, Matheus. Eu só quero ficar ao seu lado e não importa o que faremos, aonde iremos, não importa nossas falhas, eu só não quero mais viver com essa carência, com essa falta de amor próprio…

Por favor, me deixe colocar a cabeça em seu ombro e desabafar o meu coração carregado de culpa e me abrace forte, apenas me abrace, pois eu pertenço a você para sempre, pois nunca, nunca pertenci ao Gabriel ou a qualquer um dos que passearam pela minha mente como cometas, fazendo-me acreditar que teria chance de ser amado de verdade.

Cada parte do meu ser, tudo, tudo eu lhe entrego Matheus, e agora, olhando para trás, observando todos os meus passos, os meus tombos, os meus equívocos, os meus anseios, tudo o que fiz foi para chegar até aqui, à sua frente, e dizer EU TE AMO, revelar que a força desse sentimento é que me faz acordar todos os dias…

“Que o verão nunca acabe. Que ele nunca vá embora, que a música toque para sempre, estou pedindo tão pouco, e juro que nunca mais vou pedir nada”.

É esse o clamor que Élio faz ao deus do destino em Me chame pelo seu nome diante da iminência de perder Oliver para sempre, o primeiro amor da sua vida. Mas se realmente isso acontecer comigo, Matheus, se eu tiver de acompanhá-lo até o aeroporto, para me despedir, sorrindo, diante de todos enquanto por dentro estarei gritando cada uma das minhas dores, eu não vou aguentar, ou talvez até suporte, mas não sei se darei conta dos estragos que essa separação vai me causar, se darei conta de reunir todos os pedaços do meu coração…

Sinto uma mão pousar de leve sobre o meu queixo e em seguida, sem pressa, erguer o meu rosto.

– Kadu! Kadu!

Parece, agora, que estou sendo tragado para dentro de um túnel, flutuando sob uma velocidade tamanha que mal consigo distinguir os flashes de luz que transcorrem ao meu redor, ao mesmo tempo que a voz de Matheus continua penetrando em meus ouvidos, chamando o meu nome, afastando cada vez mais a sensação hibrida de que estou meio fora e meio dentro da realidade, até que um solavanco violento traz-me de volta ao corpo, como uma peça de quebra cabeça sendo encaixada no lugar onde sempre deveria ter estado e então abro os olhos e não demoro a dar de cara com Matheus, fitando-me entre confuso e assustado.

– Porra, Kadu, responde alguma coisa. Tu fumou?

Enquanto ajeito os óculos sobre o rosto percebo que é a mão do meu amigo, do meu melhor amigo, que está sustentando o meu queixo…

Esse toque… Sim… Esse toque… Se você soubesse Matheus quantas portas esse toque está abrindo neste exato momento…

Oi?

Espera.

Meneio a cabeça rapidamente e daí me afasto sem pestanejar, dando dois passos para trás, tomando distância suficiente para recobrar o centro das minhas emoções, do meu espaço, enquanto observo a mão de Matheus despencando no ar como uma fruta caindo da árvore antes do tempo. Seu olhar, um olhar impassível, parece medir o meu semblante, como se estivesse tentando identificar uma mácula profunda que possa ter deixado sobre minha pele, ou sabe-se lá analisando o quão estúpido e completamente sem noção eu fui ao me expor…

Merda. Merda. merda

Eu não posso acreditar!

Sinto o meu coração bater, muito, muito forte, quase ameaçando saltar para fora do peito.

Será que eu disse, em voz alta, alguma coisa que não devia?

NÃO! NÃO MESMO! EU NÃO IRIA ME TRAIR DESSA FORMA… Não depois de todas as encanações, depois de dissimular os meus sentimentos, supervisionar cada um dos meus gestos, cada uma das minhas ações e reações… NÃO! NÃO MESMO!

Matheus não para de me fitar e poi causa disso não consigo mais distinguir a real natureza que está por trás dos seus olhos. Está me julgando ou está juntando todas as peças do quebra cabeça enquanto uma crescente sensação de ridículo vai tomando conta de si?

Sufoco…

Um sufoco alarmante sobe do meu peito para minha garganta numa velocidade atroz, deixando o meu coração ainda mais acelerado, deixando-me com uma sensação de que preciso sair correndo, mas não posso, não vou fugir, não agora. Não vou jogar por terra todos os meus esforços desse quase um ano. Não vou perder a amizade de Matheus de uma maneira tão covarde só porque meu subconsciente decidiu me delatar.

Fecho os olhos e conto até dez ao passo que endireito os ombros e pigarreio um pouco antes de tomar coragem para seguir adiante e assim remediar a provável besteira que acabei de fazer. Saber recuar os centímetros necessários para não se perder uma batalha não é uma tarefa fácil.

Desculpe – inicio tão logo termino de abrir os olhos, transferindo de imediato o meu raio de visão para qualquer lugar que não seja o rosto de Matheus a fim de não de ter de lidar com qualquer resquício, qualquer sinal de apreensão de sua parte – É que fiquei revendo a matéria para a prova de história e fui dormir quase de manhã… – completo ao tempo que cruzo os braços – Agora estou aqui, inteiramente perdido, confuso… Você sabe como é…

– Você, Kadu? Estudando poucas horas antes de uma prova? – a pergunta de Matheus, em tom de galhofa, é seguida por uma gargalhada alta, arrastada – Impossível. Tu deve é ter ficado batendo umas punhetas na frente do note, isso sim…

Arqueio de pronto minha sobrancelha direita e daí estreito ainda mais os braços e encaro Matheus, esforçando-me para parecer genuinamente ofendido ante a sua sugestão. A melhor defesa é o ataque, isso todos sabemos desde que o mundo é mundo.

Um instante de silêncio recai sobre nós dois. A natureza à nossa volta parece ter entendido essa urgência, pois nem mesmo o som dos carros na avenida parece chegar até onde estamos e essa suposta tranquilidade só me deixa mais e mais apreensivo. Por que Matheus não joga logo na minha cara, por que não me cobra logo satisfações ao invés de fingir que está tudo bem? Pode ser que nunca mais tenhamos essa oportunidade para falar o que não está sendo dito, então, alguém, aqui, agora, precisa colocar as cartas na mesa, ainda que nossa amizade desça pelo ralo. É isso. É o preço a pagar. Se ao menos vou perdê-lo, se um oceano imenso irá nos separar que Matheus carregue consigo a verdade do que sinto por ele…

Meu peito arfa, assim como o de Matheus, pois percebo as ondulações no seu tórax, subindo e descendo, entretanto ele prefere quebrar esse “interlúdio” deixando escapar um som que não consigo identificar se é um grunhido ou um pigarro para então se afastar, alguns poucos centímetros, dando-me a impressão de que pretende sair correndo sem destino, até girar em torno de si mesmo, não demorando a se voltar na minha direção, ainda sustentando um ar de gracejo, que a meu ver parece um tanto forçado.

Puta que o pariu. EU FALEI O QUE NÃO DEVIA. TENHO CERTEZA ABSOLUTA.

– Respondendo à sua pergunta… – Matheus começa e em fração de segundos seu semblante zombeteiro dá lugar a uma feição sisuda, com seus lábios vertidos para baixo, contraídos.

– Que pergunta? – questiono carregado de impaciência.

– Se vamos morar no Japão devido à promoção do meu padrinho…

Chega. Eu não quero mais saber. É que tenho vontade de gritar e também vontade de mandar Matheus à merda com essa promoção do seu padrinho… Mas estou exausto, vazio de emoções e daí encolho os ombros determinado a jogar o seu jogo. Talvez seja isso que sobre quando deixamos de ter medo.

– Vamos lá – descruzo os braços ao tempo em que busco forças para ir adiante. Minha mente palpita monótona, mecânica – Quando vocês partem para a terrinha do Pikachu?

– Vocês?

Matheus balança a cabeça, como um pêndulo desgovernado, girando mais uma vez em torno de si mesmo até se virar por completo, fixando sobre mim um olhar arrebatador.

– Antes fosse. A empresa em que meu padrinho trabalha abriu uma filial lá no quinto dos infernos e ele recebeu a nobre missão de representá-la…

A ironia pontua suas últimas palavras, porém seu timbre de voz não demora a retomar a velocidade máxima.

– Então ele e minha madrinha vão ficar na terra dos olhinhos puxados por pelo menos uns três meses, preparando o terreno para alguém assumir o posto em definitivo. Três meses em um país evoluído, diferente, com gente diferente, longe de toda essa confusão e o idiota aqui não vai poder ir – ele exclama, esbofeteando o próprio rosto.

O que?

Eu ouvi direito?

Deixo o ar sair bruscamente de dentro do peito enquanto uma sensação de alívio e excitação toma conta de cada um dos meus músculos e um descanso imediato repousa sobre minha alma ao mesmo tempo que me esforço para conter o sorriso de plena satisfação que com certeza está se formando no canto dos meus lábios, traindo-me, ao passo que sinto um embargo se formando na garganta, pressionando-me para que eu exploda numa convulsão de lágrimas.

Matheus não vai embora? É isso? Matheus não vai embora? MATHEUS NÃO VAI EMBORA?

Respiro fundo. Bem fundo. E já começando a me sentir bem mais leve, e definitivamente controlado, peço que Matheus explique melhor o que está acontecendo, se possível em exatos quinze minutos, pois uma prova de história nos aguarda no primeiro tempo de aula.

É necessário que eu me comporte assim, com certo desdém, afinal de contas é o único “escudo” que tenho disponível neste momento, e peço que Deus me perdoe, pois sei que estou sendo egoísta, mas o que posso fazer? Estou dominado por uma felicidade plena e absoluta, tanto quanto havia permanecido pelo medo e ansiedade até agora. Só o Senhor sabe como estou aqui, refreando o ímpeto de correr até Matheus e abraçá-lo várias vezes, derramando minhas lágrimas de muita, muita felicidade, pouco me importando o quão exposto eu iria ficar e o quão ofendido lhe deixaria, mas sei que não posso fazer isso.

Ok. Nem tudo são flores, então não vou negar que talvez esteja me sentindo um pouco culpado por estar carregando essa alegria infindável dentro de mim. Mas como evitar? Em um instante você descobre, ou deduz precipitadamente, que aquela pessoa a quem você mais ama no mundo irá desaparecer do mapa. Que 18 mil quilômetros de distância irão separá-los, e no minuto seguinte recebe a notícia de que nada disso é real, que essa pessoa vai, sim, continuar ao seu lado, ainda que na mesma condição, ignorando por completo a importância que tem em sua vida e os sentimentos que provoca. Mas no frigir dos ovos o que isso importa diante da força avassaladora que esse sentimento de felicidade quase irracional acaba trazendo?

Não há suprema corte no mundo que vá condenar um ser humano, por mais criminosa que essa sensação possa parecer, já que o amor é isso, uma força primitiva, intensa e capaz de atingir os graus mais variados, nos roubando o discernimento sem qualquer chance de defesa. Segundo Fernando Pessoa, o amor é o egoísmo duplicado e quem sou eu para divergir?

Sem titubear, Matheus consegue expor os motivos de sua indignação entre socos, chutes no ar, lábios sendo mordidos e mãos caindo sobre a cintura ou pressionando sua fronte, e como é de se esperar, cada um desses gestos acompanhados dos mais variados palavrões.

O problema não é o embarque dos seus padrinhos para a terra do sol nascente (pelo menos não é o eixo dramático principal) e ficarem por lá o tempo que for necessário. A questão é bem mais complexa. Matheus vai passar mais tempo com o pai biológico, que o odeia, e até onde eu sei o meu amigo também não faz muito esforço para mudar o status dessa relação conturbada, e não é pra menos. Desde pequeno Matheus é repudiado pelo pai que sempre o considerou UM FRUTO ESTRAGADO, resultado de uma suposta infidelidade da esposa, mesmo diante de um resultado de DNA comprovando o vínculo consanguíneo entre eles.

A trama que envolve a origem do meu melhor amigo beira o rocambolesco. Matheus foi deixado para trás praticamente recém-nascido quando sua mãe fugiu com um amante, segundo a versão do seu digníssimo progenitor, versão essa que contradiz a história considerada oficial, que seria a de que a mulher foi embora da noite para o dia, SOZINHA, abandonando a tudo e a todos, deixando três crianças para o marido cuidar, apesar do amor mais que demonstrado que ela tinha pelos filhos.

PS.: Matheus tem uma irmã e um irmão um pouco mais velhos que ele.

Sem sombra de dúvida, tanto Matheus quanto os irmãos, foram impedidos de nutrir qualquer alusão à mãe que não fosse aquela regada pelo ódio e despeito, já que seu pai, diante da hombridade ferida, tratou de transformar a mulher, ou ex-mulher, em um ser abominável. Indigno de qualquer consideração. Começando por apagar qualquer rastro de lembrança material que pudesse remeter à sua existência, rasgando todas as suas fotos, destruindo todas as suas peças de roupas, calçados, assessórios. Em suma, apagando por completo todos os detalhes de sua passagem sobre a Terra, sobre as vidas dos componentes da sua família, até que por fim, ele, o Sr. Meirelles, já mergulhado num poço de mágoa e angústia, se entregasse à bebida, fazendo dela o sustentáculo para sua tormenta e a de todos ao seu redor.

Segundo dona Rachel, madrinha de Matheus, a mesma que me contou sobre o destino que o meu tio teve após ser massacrado pelos meus avós e pela minha mãe, não fosse por ela e pelo marido, amigos de longa data da mãe do meu melhor amigo, possivelmente todos, o pai e as três crianças, estariam na sarjeta, ou quase lá, depois desse infausto incidente.

E assim, desde os seis, sete anos de idade, Matheus passou a morar aqui no condomínio com os padrinhos, que mataram, em parte, dois coelhos com uma cajadada só: Luciano, o único filho deles, ganhou o irmão caçula que sempre desejou, e o meu melhor amigo passou a viver longe da rejeição paterna… Quer dizer, QUASE. Sua madrinha insiste em uma convivência dele com a família biológica, e não há explicação racional para isso, por mais que tentemos compreender, a não ser a mais controversa de todas: a de que ele e o pai terão que aprender a conviver, custe o que custar.

Ainda bem que esse martírio acontece somente em alguns finais de semana ou em datas específicas, como o níver de alguém da família, mas já é o suficiente para que Matheus se revolte. Aagora imagina a possibilidade REAL de ele ter que literalmente dividir por mais tempo o mesmo teto com o homem que o detesta? A terceira guerra mundial será declarada.

Não fosse a irmã e o irmão, meu amigo já teria cometido uma loucura, ele mesmo já afirmou isso por diversas vezes. E eu não duvido. Até porque o “digníssimo” Sr. Meirelles, ainda que tomado pelo álcool, só não avançou o sinal, e me refiro à agressão física, pois a verbal infelizmente já se tornou lugar comum entre eles, por medo de perder a ajuda financeira dos compadres.

-Também não quis nem saber – Matheus continua seu relato, dando de ombros, deixando escapar um sorriso nitidamente contrafeito, amargo, no canto dos lábios, enquanto caminha, vez em quando e a passos curtos, de um lado para outro – Eu perguntei, na lata, o motivo de eles ainda não terem me adotado, de fato. O que os impediu durante todos esses anos, já que aquele ser humano que o destino quis me dar como pai abriria mão do pátrio poder num piscar de olhos, e também questionei, aos berros, sim, aos berros, que tipo de prazer mórbido eles têm por me forçar a manter uma convivência, por menor que seja ao lado daquele imbecil…

É. Infelizmente não há como entender o que os padrinhos do Matheus pretendem. Foi a própria dona Rachel quem teve a iniciativa de trazê-lo para cá. Qual seria o problema do meu amigo ficar por aqui, recebendo as visitas dos irmãos?

Mas que merda! Sou invadido de imediato por uma vergonha profunda, poderosa e que atravessaria um iceberg se fosse uma flecha ao passo que empurro os óculos levando o dedo ao nariz, esforçando-me para “colocá-los” no seu devido lugar.

Todo esse tempo única e exclusivamente eu apenas preocupado com o meu umbigo, acreditando que Matheus não tivesse mais nenhum outro problema que não o de se dedicar em agarrar um novo rabo de saia… Fernando Pessoa, meu caro, o amor é o egoísmo elevado à milésima potência, isso sim.

Abro e fecho os olhos rapidamente, o tempo necessário para que eu recobre o centro da razão e deixe de lado minha euforia no intuito de começar a tentar me redimir. E o que devo fazer? Ajudar o meu amigo a não enveredar ainda mais para esse lado, o da autocomiseração, alimentando suas velhas frustrações, seu desespero, seu desapontamento? Afastá-lo do veneno que consome as entranhas de sua alma? Bem sei o que resta de Matheus depois que atravessa o corredor de suas misérias emocionais…

– E o que você ganhou afrontando os seus padrinhos desse jeito?

Pergunto, por fim, depois de endireitar os ombros ao tempo que me abaixo para apanhar a mochila de Matheus caída no chão, me levantando, em seguida, num salto.

– Eles só querem o seu bem. Imagina você se afastar, ficando três meses fora, ou sabe-se lá quanto mais, e perder o último ano do ensino médio, do Enem, ingressar na faculdade um ano mais tarde… A propósito, você faltou à prova de literatura ontem, e é claro que nem preciso perguntar quais foram os motivos para essa ausência, mas você sabe o quão burocrático é requerer uma segunda chamada e é indiscutível que vai precisar da intervenção dos seus padrinhos, então se rebelar dessa forma, acredito, não seja a melhor saída…

-Caralho, Kadu, você está do lado de quem? – Matheus me questiona, austero, estacando à minha frente.

-Admiro muito você fazer essa pergunta – lhe entrego a mochila, encarando-o sem pestanejar, esforçando-me ao máximo para manter a retidão. – E o Luciano nessa história toda? Qual o problema em vocês cuidarem um do outro? Quando os seus padrinhos passam dias num retiro espiritual vocês não ficam juntos?

-Porra, Kadu, você tem Alzheimer, é isso? Esqueceu-se da agenda do queridinho do Luciano? Meu irmão trabalha dia e noite, parece que quer salvar o mundo… Minha madrinha acha que ele não vai ter tempo disponível para mim, nesses malditos três meses, como se eu precisasse de um marmanjo sendo minha babá…

Matheus joga novamente os braços para o alto, quase tombando a mochila no chão mais uma vez, e volta a caminhar de um lado para outro, colocando as mãos na cintura e pisando forte. Contudo, parece um tanto cansado, um cansaço que chega a lhe curvar os ombros. Por um instante eu não consigo divisar o Matheus jovial, aquele adolescente que incita minhas fantasias, que me faz acreditar que o mundo tem esperanças, que me faz querer ser uma pessoa melhor. Ao contrário, enxergo uma figura secretamente corroída por uma dor mal tolerada…

-Então você acha que eles estão com razão?

Matheus para diante de mim e após alguns segundos se aproxima, sem pressa. Na sua face não encontro nada mais que uma expressão tesa e soturna.

– Eles sabem que meu pai não suporta a minha existência sobre a face da Terra, e como já não bastasse forçarem a barra para que tenhamos uma convivência no mínimo civilizada, agora querem que praticamente moremos juntos… Pelo amor de Deus, Kadu, não há o que considerar… De boa, eu não vejo a hora de completar meus dezoito anos e deixar essa merda toda pra trás – Matheus vira o rosto para o lado e cospe no chão – E a faculdade que se foda!

Não respondo nada. Não reajo. Apenas lamento.

Se Matheus soubesse como me atinge quando fala dessa forma, e não pelos palavrões, que infelizmente já fazem parte de seu vocabulário, mas será que em nenhum instante a nossa amizade significa alguma coisa, de verdade? Se essa promessa que ouço já há algum tempo, e que cada vez mais estou levando fé de que poderá se concretizar, o que vai ser de mim? Como vou acordar tendo a certeza de que não vou vê-lo, que não receberei o seu olhar como um presente, o seu sorriso como um favor? Que não mais festejarei os nossos encontros por menores e fugazes que possam parecer em algumas ocasiões? No fim de tudo, se for para escolher, ao menos o Japão seria um norte, uma referência para saber onde achá-lo.

Ouço o sinal anunciando a hora da entrada.

Aleluia!

Ajeitando a mochila sobre os ombros, deixo escapar um suspiro de alívio ao tempo que permaneço encarando Matheus. A despeito da indignação estampada em seu rosto e ramificada em cada parte do seu corpo, ele começa a dar sinais de que está se acalmando. Graças aos céus. Depois eu lhe pergunto do porquê de não ter respondido a mensagem que enviei de madrugada. Possivelmente já devia estar tenso com essa situação, mas custava ao menos ter dado um retorno, por mais breve que fosse? 

-Se tudo der certo, a gente pode correr o mundo juntos, o quê acha? – Matheus da um soco de leve no meu ombro esquerdo enquanto passa por mim e começa a caminhar na direção do colégio, deixando-me alguns passos para trás.

Por alguns segundos me sinto confuso. Matheus agora adquiriu o poder mutante de ler pensamentos? O Professor Xavier nessa história sou eu…

-Caralho, Kadu, para quem estava preocupado com a prova de história, ficar parado aí, como um dois de paus, não vai ajudar em nada – ele grita me fazendo sinal com uma das mãos para acompanhá-lo ao passo que um sorriso debochado rasga o seu rosto.  

Eu te amo seu cretino. Balbucio ao mesmo tempo que promovo uma pequena corrida até alcançar Matheus, recebendo sobre o meu ombro direito, assim que me posto ao seu lado, uma de suas mãos, e dessa maneira, como companheiros inseparáveis, nós dois caminhamos a passos largos até alcançar a entrada do CGAM.

-Aliás, que merda a sua irmãzinha Filipa andou aprontando dessa vez? – Matheus me pergunta enquanto passamos pelas roletas da recepção.

-Do que você está falando?

Esse é um dos momentos em que realmente me pergunto em que realidade o meu melhor amigo vive. Ele é capaz, em um instante, de demonstrar toda sua raiva e frustração e sentimentos mal resolvidos com seus padrinhos e com seu pai, e no momento seguinte me questionar (como se fôssemos duas comadres fazendo compras na feira) sobre minha irmã do meio. Como se realmente tivesse um mínimo de preocupação por ela.

-O Luciano não recebeu muito bem as flores que a Filipa mandou, apesar de não ter dito de quem era após ler o cartão que as acompanhava – Matheus informa ao tempo que atravessamos o pátio frontal e sua mão abandona o meu ombro – Alguma merda bem grande a sua irmãzinha fez pra enviar um buquê de rosas brancas às 6h da manhã…

-E como você pode ter tanta certeza de que a Filipa foi quem encomendou essas tais rosas já que o seu irmão não revelou o nome de quem teria assinado o cartão?

-E quem mais seria tão sem noção? – Matheus me fita com um sorriso cínico antes de nos misturarmos ao mar de alunos no pátio interno rumo ao lance de escadas para o primeiro andar.

Não respondo nada e tampouco ouso contestar. Filipa seria a última pessoa na face da Terra para quem eu colocaria minhas mãos no fogo, ainda mais quando o assunto em questão é o universo do seu noivado. Não duvido que tenha sido ela realmente que enviou esse tal buquê. E não preciso ser Sherlock Homes para deduzir o motivo: se desculpar depois de ter praticamente colocado sobre os ombros do Luciano toda culpa das agruras do mundo devido o incidente com a tal vagabunda kamikaze.

Eu e Matheus somos os últimos alunos a entrar na sala de aula. O professor de história já está prestes a começar a distribuição das provas e nos observa com cara de poucos amigos. Sem alternativa, acabamos por buscar nossos assentos rapidamente e enquanto estou terminando de me acomodar, meu celular anuncia a chegada de uma mensagem pelo Whatsapp e isso é ótimo, aliás, tudo que eu precisava antes de uma avaliação: receber outro olhar de censura do professor, mas o que há de se fazer?

Depois de desferir-lhe um sorriso entre os dentes, confiro, ligeiro, a missiva eletrônica que recebi: é Brenda me lembrando do nosso encontro na saída do corredor para a sala de música. Meneio a cabeça, impaciente, e daí coloco o telefone no vibracall e em seguida trato de escondê-lo no vão entre minhas pernas. Na próxima encarnação quero vir como um Yorkshire Terrier, concluo ao mesmo tempo que movo a cabeça para o lado, onde Matheus está sentado. Nesse instante minha mente volta a ser assaltada por uma inquietação mais do que válida: será que realmente eu disse alguma coisa enquanto estava naquele turbilhão de não sei o quê?

Apoio o cotovelo direito sobre a carteira e em seguida acomodo minha mão sob o queixo, recordando o exato instante em que saí daquele transe e me deparei com Matheus me examinando com um olhar controverso, dando-me a impressão de ter enxergado outra pessoa à sua frente que não fosse eu…

Não. Não mesmo. Eu não posso ter dito nada demais e se o fiz, meu subconsciente foi um filho de uma puta me traindo desse jeito. É claro que eu não falei algo que pudesse me comprometer. Matheus, decerto, estava assustado, e porque não surpreso diante do meu súbita “apagão” que nem eu mesmo sei explicar. E no mais, sigo confiante de que ele não deixaria passar em branco algo dessa relevância. Teria ficado chocado, sim, e pior, em dose dupla, mas iria tomar satisfações, colocar os pingos nos is…

– Sr. Carlos Eduardo? 

Olho na direção da voz chamando o meu nome. É o professor, com seu semblante carrancudo tentando encaixar a prova sob o meu cotovelo. Devolvo-lhe o mesmo sorriso amarelo de poucos minutos atrás e baixo o braço. Logo que ele se afasta, sinto o celular vibrar entre as minhas coxas. Não posso acreditar que é a Brenda de novo… Sorrateiramente confiro a tela…

É UM WHATSAPP! E DO MATHEUS!

Meu coração dispara. É lógico que não vou esperar o término da prova para ver o que ele me mandou. Aproveitando que o professor está de costas, escrevendo alguma coisa no quadro, baixo os olhos e devoro as palavras dispostas diante de mim.

 

Desculpa aí o desabafo, mas você é o único com quem eu posso contar.

E me desculpa também por ter sumido, mas eu fiquei muito puto e não queira ver ou falar com ninguém.

Ah. Curti esse visual menos nerd. Show!

 

AI-MEU-DEUS. O que é isso?

Não tenho tempo de vibrar de emoção enquanto meu coração dispara de novo e de novo e mais uma vez. Enquanto o estímulo prazeroso da felicidade libera dopamina e endorfina no meu cérebro. De pronto ouço um pigarrear acima da minha cabeça e não preciso ser nenhum gênio para deduzir quem está me rondando como um dos Comensais da Morte. Óbvio que não vou levantar a cabeça e dar o gostinho ao Sr. Hermínio de me fuzilar com o seu olhar abarrotado de censura.

– Mesmo tendo chegado um pouco atrasado e por causa desse deslize não conseguiu ouvir as regras de como se portar durante uma prova, devo lembrá-lo que elas não mudam, Sr. Carlos Eduardo. Continuam exatamente as mesmas. Inclusive as que dizem respeito à guarda dos celulares desligados à mochila.

Ok. A cota de vergonha alheia do dia foi alcançada com sucesso. Respiro fundo e em questão de segundos desligo o telefone e praticamente o jogo dentro da mochila, selando, assim, a paz universal.

Ao passo que o professor de história vai se afastando, ouso olhar para o lado, para Matheus, e um pouco envergonhado, claro, mas necessito do seu apoio, ainda que silencioso, ainda que ele não me corresponda, não me encare de volta. Depois de conferir de que realmente está aqui, em carne e osso, faço menção em retornar à posição de antes, porém sou surpreendido com o rápido movimento que ele faz, virando o pescoço na minha direção…

…me dispensando uma piscadela, um sorriso iluminado pelos cantos dos lábios, dando de ombros e voltando, em seguida, a encarar a folha de papel diante de si, como se nada fosse…

Nem tudo está perdido. É óbvio que Matheus não sabe de nada. Graças aos céus. Deduzo enquanto mergulho num mar de emoções fora do comum, sentindo o coração completamente preenchido ao mesmo tempo que mando o Sr. Hermínio, mentalmente, para um lugar não muito agradável. 

Ó deus do destino, que este outono nunca acabe e que a música toque para sempre; estou pedindo tão pouco e juro que nunca mais pedirei nada em troca…

Brother – Needtobreathe

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    • Meu Deus, amiga, és realmente solidária ao Kadu…kkkkk… Praticamente uma leoa defendendo “a cria”…

      Muito obrigado pelo comentário e agora vamos aguardar a forma como o nosso amigo vai encarar essa notícia…

      Beijos .

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