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EU, KADU – episódio 8: “por uma vida menos ordinária”

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Consigo terminar a prova antes de Matheus e até mesmo antes de todos os meus colegas de classe, e olha que nem curto muito a história da América Latina no Século XX.

À medida que vou revisando as questões, uma a uma, como sempre faço no final de todos os meus testes, me vejo de repente como se estivesse de volta ao gramado, do lado direito do colégio, encarando o meu melhor amigo. A imagem do seu olhar controverso, do seu semblante refletindo ao mesmo tempo ofensa e incredulidade, se alterna com as perguntas e respostas grafadas na folha de papel à minha frente e que vão, aos poucos, se tornando uma verdadeira sopa de letrinhas, sendo suprimidas por uma lembrança quase palpável daquele instante, quando pude sentir a mão de Matheus pousando de leve sobre o meu queixo, erguendo o meu rosto e depois despencando no ar à medida que eu me afastava ainda sob o reflexo daquela viagem astral psicodélica alucinante proporcionada pelo meu subconsciente.

Meneio a cabeça e empurro os óculos fazendo-os recuar até alcançar o ápice da minha testa ao passo que empreendo um esforço tamanho a fim de tentar recobrar a concentração para terminar de conferir as respostas do exame. Porém minhas emoções resistem, desafiando sem qualquer pudor a autoridade racional do meu cérebro. Então olho para o lado. Na direção de Matheus. Mas discretamente. Até porque a última coisa que quero é chamar de novo e mais uma vez a atenção do professor.

Matheus está com a cara enfiada em cima da prova, como se estivesse hipnotizado com as perguntas escolhidas a dedo pelo Sr. Hermínio. Não me resta alternativa a não ser refletir, em definitivo, agarrando-me a um fiapo de convicção, de que não posso ter dito nada que me comprometesse ao passo que volto a encarar a folha de papel e todas as letras dançando desvairadas sobre ela.

Por que razão nossas mentes pregam essas peças, nos permitindo lembrar pormenores que decerto gostaríamos de esquecer para sempre, guardá-los em algum canto obscuro, uma espécie de sótão aonde só se vai quando precisa encontrar algo depois que vasculhamos a casa inteira? Não quero viver as próximas três encarnações com essa indagação martelando dentro da minha cabeça, buscando em cada linha do semblante de Matheus, em cada detalhe do seu olhar, uma reprovação silenciosa, uma condescendência perversa por eu ter traído nossa amizade.

Ok. Eu tenho a alternativa de lhe perguntar o que de fato fiz ou falei durante aqueles instantes de delírio e fuga, porém não de forma direta, claro, afinal não seria tão idiota a tal ponto, mas com que direito eu faria isso? Além de inseguro e covarde, também estaria sendo leviano e precipitado ao duvidar do seu caráter. Ao contrário de mim, o meu amigo não consegue ficar em cima de um muro, não tem paciência quando algo lhe incomoda, então por que não me convenço de que eu não disse nada demais, que não declarei o inconfessável amor que sinto por ele e paro de procurar cabelo em ovo?

Bem disse Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser, de que não há nada mais pesado que a compaixão, nem sequer a própria dor é tão pesada quanto a dor sentida com alguém, por alguém, para alguém…

É nessas horas que percebo o peso da falta de um amigo que não seja o Matheus. Alguém para me consolar, acalmar todo o meu receio, explicar o que significam esses temores confusos que fazem meu coração afundar num frio doentio.

Merda. Estou perdendo meu tempo ruminando outra vez toda essa questão como se uma luz no fim de algum túnel estivesse me aguardando a menos de dois metros de distância. Não posso perder o foco. Preciso estar calmo, muito, muito calmo, já que irei encontrar a Brenda daqui a pouco, apesar de ter a opção de ignorar por completo esse compromisso e continuar minha vida enquanto devolvo a patricinha do CGAM para o lugar de onde ela nunca deveria ter saído: o limbo das minhas relações.

Mas nem eu e tampouco a alucinada desaparecemos do caminho um do outro como num passe de mágica, afinal de contas estudamos no mesmo colégio e moramos no mesmo bairro, sem falar que não vou trocar o número do telefone por sua causa. Então eu precisarei ter tato, usar de toda diplomacia possível para lidar com esta situação, não demonstrando qualquer sinal de fraqueza, sendo racional e equilibrado enquanto estiver diante de si, haja vista que uma atitude ousada ou uma palavra mal colocada poderá provocar sua hostilidade e agressividade e dessa forma ela despejar sobre Matheus todo o seu veneno, distorcendo as causas que me levaram a ajudá-la com os planos que acreditava que poderiam reconquistá-lo.

Sim. Eu sei. Eu deveria ter contado ao Matheus, desde o princípio, mas com toda a certeza que paira sobre o universo, ele não deixaria barato e iria tomar satisfações da Brenda, que afundaria ainda mais no poço do seu desespero, e do jeito que ela estava, chorando, confusa, beirando a insanidade, não era uma boa alternativa… Enfim, o leite está derramado e não há como devolvê-lo para a jarra. Depois desse encontro com o “Bellatrix Lestrange” vou conversar com o meu amigo sobre essa parceria inusitada que aconteceu durante essas duas últimas semanas e ele vai entender o meu ponto de vista… Assim espero.

Aliás, pensando agora, aqui, com os meus botões, em que momento a Brenda teve a “brilhante” ideia de que poderíamos ser um casal fake de namorados? A sua falta de senso crítico alcançou um nível alarmante de desespero que já não lhe permite enxergar o óbvio de que essa loucura não será interpretada de outra maneira senão ao nível de uma piada de mau gosto. Nunca tivemos nada em comum, e o mundo inteiro sabe disso. Todo o CGAM, de ponta a ponta, conhecia o abismo que ocupávamos e que jamais teríamos atravessado se não fosse o seu namoro com Matheus, mas ela não quer saber.

Esta aí mais uma prova do seu egocentrismo. De que é uma pessoa que não enxerga nada além de um palmo diante do próprio nariz. Que entende e faz tudo à sua maneira, pouco se importando com as mazelas que impõe àqueles que ousam questionar ou discordar de alguns dos seus valores.

Aos trancos e barrancos, consigo terminar a revisão da minha prova, e daí retiro o celular da mochila, coloco no bolso da calça e me levanto ao mesmo tempo que recolho a minha avaliação de cima da mesa enquanto corro o olhar no meu entorno, um gesto automático, decerto, a fim de conferir, sabe-se lá o quê, e não encontro nada além de cabeças inclinadas para baixo, na direção das folhas expostas à sua frente, sofrendo com as ardilosas questões distribuídas pelo Sr. Hermínio, que, diga-se de passagem, acredita piamente lecionar para alunos determinados a alcançar um bacharelado ou uma licenciatura nessa disciplina que estuda fatos passados. Será que a diretoria ou a coordenadoria esqueceu-se de avisá-lo que está diante de um bando de adolescentes que ainda nem terminou o ensino médio? 

Estufo o peito e então percorro o curto caminho entre a fileira de cadeiras e mesas que me leva até o professor, e ele, sem demora, trata de retirar o papel da minha mão assim que estaciono à sua frente, me dispensando um “muito obrigado” quase entre os dentes ao passo que tenta encontrar um ângulo favorável sem que a minha massa corpórea bloqueie o seu raio de visão. A propósito, a partir deste momento não passo de um estorvo para os seus olhos de lince. Decerto sou um indivíduo contratado para desviar sua atenção das “mentes criminosas” dispostas diante de si, conhecedoras de artifícios e mecanismos ultrassecretos, portadoras de uma perspicácia e destreza ímpares, assim como um James Bond, que vai ajudá-las a colar na prova e bem debaixo do seu nariz.

Será que os outros professores quando aplicam suas avaliações criam teorias da conspiração como as do Sr. Hermínio?

Que seja.

Dou de ombros e saio da sala a passos largos, sem sequer dirigir a vista para qualquer um dos lados ou para trás, sem sequer dirigir a vista para onde Matheus está sentado, e já do lado de fora, depois de fechar a porta atrás de mim, percorro, relativamente rápido, o que resta do trajeto de onde estou até o início do corredor, que, aliás, como era de se esperar, está vazio, isso sem incluir, claro, os dois alunos que caminham em direções contrárias e sem qualquer sinal de pressa. Na certa estão retardando ao máximo sua ida ou seu retorno do banheiro, mas se por acaso continuarem nessa “velocidade vertiginosa”, o Inspetor vai cercá-los, enchê-los de perguntas do tipo o que eles faziam na reencarnação passada, e se esta justificativa não o convencer, e isso quase sempre acontece, irá acompanhá-los, ou melhor, escoltá-los, até a porta de suas respectivas salas de aula. 

Sei o que estou falando. Quantas e quantas vezes eu fui surpreendido remoendo minha aversão e meu recalque diante dessas paredes e precisei gastar todo estoque de imaginação para que o Inspetor não desconfiasse de que eu estava sendo apunhalado incessantemente pelo meu ciúme enquanto imaginava o que Matheus fazia com as suas namoradinhas. Mas é claro que nenhum desses devaneios chegou perto da tempestade que atravessei durante os dois meses em que ele e a Barbie fake ficaram juntos…

Fato. Ciúme é algo maléfico, danoso, desconfiado, fogo que consome e nos faz sofrer, pois coloca uma venda em nossos olhos e tão somente permite que enxerguemos o que nossa mente (doente) quer ver. Eu recrimino a Filipa, sim, pois ela carrega todos os estereótipos de uma pessoa possessiva e insegura. O que o Luciano já não sofreu em suas mãos e ainda sofre. É impossível não perceber o medo que ela tem de perdê-lo, desconfiando de tudo, acusando-o e até o maltratando, mas ao menos seu sofrimento (é impossível minha irmã não ter consciência do inferno em que vive) brota de uma fonte real. Mal ou bem ela tem um relacionamento de verdade, fragilizado, ok, mas e eu? Talvez seja isso que me deixe incomodado, pois passo meus dias fiscalizando um sentimento fantasma, padecendo por uma pessoa que me enxerga como um irmão e nada mais.  

A merda toda é que eu sei que essa sofrência vai continuar, porém ou é isso ou o Japão.

Aliás, preciso arranjar um modo de contatar os irmãos do Matheus para saber com precisão o que está acontecendo. Agora, na iminência dele ter de ficar mais tempo por lá, em Jacarepaguá, tenho que me aproximar da Ana e do Lucas e criar um vínculo mais sólido com eles. Se eu estive naquela casa três vezes nessa minha vida, foi muito, e ainda hoje ou amanhã, no máximo, já vou dar início a essa minha missão procurando o Luciano e pedir que ele tente convencer os pais a mudarem de ideia quanto aos planos de despacharem o meu amigo para a casa do pai biológico. Todavia, se no final nada disso der certo, dou um jeito de fazer o Matheus ficar lá no apartamento, nem que eu tenha que enfrentar a dona Marcela, que não tolera a nossa amizade pelo simples fato de considerar o meu melhor amigo um usurpador, como se ele, aos seis anos de idade, tivesse invadido o apartamento dos padrinhos e os forçado a aceitá-lo por lá.

Sinceramente não há como entender o que se passa na cabeça da minha mãe, ainda mais quando decide usar como referência, dentro do seu cabide de preconceitos, o sistema de castas da sociedade Hindu…

Depois de ser abordado pelo Inspetor, que reproduziu palavra por palavra as orientações sobre não permanecer no corredor, ainda que tenha terminado uma prova antes do tempo determinado, sugerindo que eu vá para a biblioteca, sala de informática, sala de arte ou qualquer outro espaço coletivo e disponível até que possa retornar para a sala de aula, faço a curva em direção às escadas que me levará ao segundo andar ao tempo que olho para o alto, à minha direita, a fim de conferir as horas no relógio de parede modelo Estação Ville De Paris, bem retrô. Um artefato, aliás, apropriado para uma típica estação de trem da segunda metade do século 19, mas que aqui, a meu ver, salta aos olhos, pois contrasta de modo gritante com a modernidade das instalações do CGAM. E como se não bastasse, ainda existem réplicas espalhadas pelos três andares do colégio, como se ele fosse uma instituição bicentenária e necessitasse preservar esse bibelô a fim de demarcar a época da sua inauguração…

Tenho vinte minutos para espairecer a mente até seguir rumo ao famigerado encontro com a Brenda.

Enquanto retiro do bolso da calça jeans o celular para ligá-lo, já que não o fiz assim que saí da sala, depois de terminar a prova, subo as escadas para o segundo andar e após constatar que o Inspetor responsável está ausente, caminho na direção do banheiro, que fica no final de um longo corredor, e que decerto estará vazio, como todos os outros durante o horário das aulas, e, tão logo consigo conectar o telefone, me encosto à parede mais próxima a fim de conferir meus e-mails e não demoro a constatar a enxurrada de spams que tomaram conta de 90% da caixa de entrada e depois sigo para o instagram, o twitter, para o face e seu mar de egos inflados, e claro, o Whatsapp, que de pronto me sinaliza que recebi mensagens de um número o qual não faço a menor ideia a quem pertença.

Geralmente não saio por aí distribuindo o meu telefone a três por quatro, mas vamos lá. A curiosidade matou um gato e vai que o meu príncipe encantado, a pessoa que me fará esquecer o Matheus de vez, é quem esteja por trás dessa misteriosa tentativa de contato?

 

Beleza, cara? Sou eu, o Vinicius Kenji, o do sobrenome engraçado…

Conversamos por um bom tempo, ontem, na madruga, primeiro na sala de bate papo e depois pelo Skype

Se quiser, podemos nos falar novamente mais tarde! Curti muito o nosso papo.

Forte abraço!

 

Vinicius Kenji? Vinicius Kenji?

Demoro um pouco para me recordar dessa pessoa entre tantas com quem bati papo pela internet ontem à noite e, principalmente, lembrar dos motivos que me fizeram passar o número do meu celular. Eu devia estar no auge da minha carência…

Vinicius Kenji? Vinicius Kenji?…

É claro. O talzinho que não curte sexo virtual, mas sim um bate-papo com cam, trocar ideias…

Aham.

Se depender de mim vai esperar sentado e mofar na cadeira, porque não mostro meu rosto para esses estranhos que conheço nas salas de bate papo nem diante do cara mais gostoso que esteja se exibindo do outro lado.

Dou mais uma olhada no facebook antes de desligar o telefone e devolvê-lo para o bolso da calça. Não quero ser surpreendido com alguma ligação do Matheus enquanto estiver com a Brenda.

Logo em seguida, ao passo que vou respirando fundo, sem pressa, lamentando novamente a inércia da minha existência, me afasto da parede e retomo o trajeto para o banheiro, onde, antes mesmo de terminar de atravessar o batente da porta, acabo esbarrando em alguém que está saindo: é Allyson, o menino que entrou numa depressão profunda e quase se matou por causa do bullying que sofreu no ano passado, algo que só não aconteceu graças à intervenção do coordenador Jorge com o apoio de uma psicóloga.

Depois desse evento, a escola oficialmente tomou medidas para tentar coibir o bullying, o que Jorge já vinha pretendendo há algum tempo. Agora existem palestras com advogados e psicólogos, tanto para nós, alunos, quanto para nossos pais ou responsáveis, assim como se criou um grupo de jovens para ajuda do Programa de Combate ao Bullying, escolhidos dentre os próprios estudantes, e eles passam dois dias de capacitação com uma equipe de professores universitários e psicólogos, e depois, com pulseiras de identificação, percorrem o colégio auxiliando nos casos em que percebem algum colega cabisbaixo, isolado.

Eu tive sorte com minha postura silenciosa e total desprezo, não me canso de reconhecer, por ter conseguido intimidar aquele grupinho de Neandertais. Graças aos céus o inferno durou apenas um pouco mais de uma semana, mas ainda assim é desconfortável demais relembrar toda aquela via crucis.

Cumprimento Allyson rapidamente, já fazendo menção em seguir adiante, quase ignorando o nosso encontro inusitado, mas ele não se faz de rogado e estaciona à minha frente, chegando a sugerir um início de conversa…

Pelo amor de Deus, não é hora e nem lugar, concluo em silêncio, e então busco ser o mais conciso possível, deixando claro minha indisponibilidade e que estou precisando usar o banheiro com muita urgência. Se a sua ficha caiu ou não, pouco me importa, me despeço com um discreto aceno de cabeça, sem sequer olhar nos seus olhos e corro para dentro de um dos reservados, aonde me tranco sem demora, deixando escapar de uma só vez o ar que vinha mantendo retesado nos meus pulmões.

Sei o quão condenável é essa minha reação, mas sempre foi muito difícil encarar esse menino, com seu jeito um tanto afetado, e me deixar ser visto ao seu lado está terminantemente fora de cogitação, pois não sei se eu teria a mesma presença de espírito, a mesma força de vontade e de caráter para lutar, caso me tornasse alvo novamente das ofensas, das ameaças e intimidações, por mais patrulhado que esteja o CGAM…

A propósito, não entendo os motivos dos pais desse menino ter permitido que ele voltasse para o colégio, mesmo que os seus ofensores tenham recebido o convite para deixar o lugar, mesmo que o CGAM seja a melhor instituição de ensino do Rio de Janeiro.

“Há mais coisas entre o Céu e a Terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia”. Shakespeare estava inspiradíssimo quando colocou essas palavras nos lábios de Hamlet.

*   *   *

A ala onde fica a sala de música, no terceiro andar do CGAM, só tem algum movimento (e estou falando de meia dúzia de alunos) quando está em aula, o que acontece duas vezes na semana. Sua localização, no lado contrário das salas de aula tradicionais, convenientemente para não atrapalhar os outros alunos, favorece muito para quem quer ter um “encontro às escondidas”. Para se chegar até ela precisamos passar por um corredor, cruzar a frente de um almoxarifado, em seguida a frente de uma sala onde carteiras velhas e danificadas ficam guardadas, depois virar uma esquina e encarar um segundo corredor (esse bem menor que o primeiro), para, enfim, nos deparar com sua porta de entrada.

Tá. Existem algumas câmeras monitorando todo esse espaço, assim como por todo o colégio, e de vez em quando o Inspetor responsável pelo corredor do terceiro andar faz uma visita a fim de verificar se está tudo na mais ordeira paz. Entretanto, em algum momento, nada impede que alguém esteja aqui, como estou agora, relativamente oculto, ou será que existe um funcionário monitorando essa terra de ninguém 24 horas por dia? Se essa pessoa existe, deve ter ido ao banheiro ou foi tirar uma soneca, pois até o momento não fui abordado por uma viva alma sequer.

Não foi à toa que Brenda escolheu esse território inóspito para tentar me convencer da proposta indecorosa de fingir ser seu namorado. Nunca vou me cansar de perguntar o que o universo de uma garota mimada, exibida, metida e elitista poderia ter em comum com o mundo de um carinha como Matheus.

Sei o quão horrível pareço diante da maneira insultuosa como sempre me refiro à Brenda, usando a mesma prerrogativa arrogante que ela, definindo um indivíduo ao tomar por base tão somente o seu status social. Contudo, é impossível tentar manter o senso de civilidade e compreensão diante de uma pessoa que decidiu criar para si uma espécie de estigma monárquico. E não no sentido da sobriedade, elegância e carisma, evidente, mas no sentido da soberba, reafirmando a cada dia sua personalidade esnobe, desagradável. Reivindicando para si o poder absoluto sobre tudo e todos que giram a sua volta. Até mesmo àqueles que estão a uma distância considerável e bem segura do mesmo ar que respira.

Sua arrogância, cega, nunca a deixa desamparada, já que atrai para si puxa sacos, pessoas falsas ou igualmente insolentes, como suas seguidoras ou “amigas” (dependendo da conveniência), que se esforçam, como ela, para se manter no pódio da popularidade, sempre focadas em futilidades, capazes de lamber o chão para nunca, jamais, deixar de serem famosas e gostosas.

O mais instigante e controverso disso tudo é que Brenda não deveria alimentar esse tipo de postura. O Sr. João Paulo, seu pai, apesar de ser o presidente do conselho e CEO de uma empresa que atua no setor químico, é também muito conhecido no meio filantrópico, sendo um grande apoiador, inclusive, de causas educacionais e um ser humano acessível e cortês. Ao menos é o que toda a mídia apregoa e não duvido, pois já estive cara a cara com ele em duas das animadas e luxuosas recepções promovidas por dona Marcela, e nos poucos minutos que pude estar ao seu lado o Sr. João Paulo se mostrou bastante atencioso.

Não sei se a ausência materna (a mãe da Brenda veio a falecer no parto) é o desencadeador responsável por esse vazio, essa insegurança, essa necessidade de autoafirmação, essa falsa sensação de superioridade da ex-namorada de Matheus. Ainda assim nada justifica suas reações agressivas. Brenda precisa enxergar que ninguém é obrigado a ser o sustentáculo de suas frustrações, de seus traumas, de sua desorganização interna… Meu Deus, ela só tem 17 anos, e já consigo vislumbrar todo o potencial de uma futura dona Marcela Albuquerque de Araújo Saldanha. Espero que ao menos tenha o bom senso de não gerar filhos!

O sinal anunciando o fim do segundo tempo de aula acaba de tocar e não vai demorar muito para que a descompensada se materialize, mas enquanto isso não acontece, retiro o celular da calça jeans e o ligo para conferir se Matheus tentou manter contato, porém encontro apenas uma mensagem por SMS, informando uma tentativa de ligação da Maria Clara. Será que o Gustavo lhe fez um convite para fugirem juntos, deixando toda essa baboseira de festa de casamento para trás? Ia ser divertido, trágico, sim, mas divertido presenciar dona Marcela acionando a Scotland Yard e a CIA a fim de tentar localizar o paradeiro dos dois, eu presumo, sem nenhum pudor, ao passo que procuro o número do telefone da minha irmã para retornar a ligação, porém a voz estridente e dissimulada de Brenda, atrás de mim, me interrompe.

-Realmente pensei que você não teria coragem de vir, Kadu.

Conto até dez e então me viro sem pressa enquanto dou uma última olhada no celular, antes de desligá-lo, demonstrando ao “diabo veste Prada”, com esse gesto, o grau da importância que estou dispensando à sua presença. Segundo Salomão Ibne Garibol, um filósofo e poeta judeu que viveu no século 11, o fundo de uma agulha é bastante espaçoso para dois enamorados, mas o mundo todo é pequeno demais para dois inimigos. 

-Não temos muito tempo, Brenda. Você já sabe qual a minha resposta em relação ao que você me sugeriu hoje pela manhã… – eu decido encará-la, finalmente, depois que enfio o telefone de volta no bolso da calça – Então não vamos demorar mais do que o necessário…

-Bom dia pra você também, lindo.

O seu cumprimento, num tom cínico, acompanha o sorrisinho cretino no canto dos seus lábios ao mesmo tempo que ela avança tão subitamente na minha direção, que não consigo desvencilhar do ataque inesperado de receber um beijo em cada lado do meu rosto.

Eca!

Não posso negar, e na verdade nem ninguém em sã consciência, que Brenda seja desprovida de beleza física. A cor de sua pele é de um moreno bem claro, quase branco; seus longos cabelos castanhos encaracolados lhe caem em profusão sobre os ombros, além dos grandes olhos azuis, lábios levemente carnudos e mãos tão bem cuidadas que obviamente nunca precisaram lavar uma louça na vida. Não restam dúvidas que qualquer garoto hétero vai querer tê-la como namorada, ainda mais com essa sua postura de inatingibilidade. Homem é bicho bobo e quanto mais difícil a conquista, maior o desejo para obtê-la, já diz o velho ditado, e por isso, tão somente por isso, não condeno Matheus por ter se deixado sucumbir, mas ele, como qualquer outro que tenha um QI, ao menos dentro da média, certamente não demorou a perceber o quão vazio é o espaço imenso que existe por trás de toda essa exuberância que sustenta a boneca de cera mais famosa do CGAM.

-Brenda – eu respiro fundo, bem fundo antes de seguir em frente – Vamos tentar ser razoáveis, por favor. Essa ideia sem noção de fingirmos ser namorados não vai causar qualquer impacto sobre o Matheus…

-Se não tentarmos, não vamos saber – ela cruza os braços e me encara, desafiadora, enquanto dá de ombros.

-Eu conheço o meu amigo. Não sei qual foi o motivo para o término do namoro de vocês, mas acredite, ele não vai voltar atrás. Até hoje eu nunca o vi reatando o namoro com qualquer uma das suas ex…

-Ele já tem outra? – Brenda descruza os braços e os deixa pender ao seu lado, me interrompendo sem titubear.

– Não se trata disso…

Reviro os olhos à medida que me esforço para manter uma fisionomia num grau de imparcialidade considerável, ao passo que busco forças no intuito de encontrar o menor sinal de empatia para essa situação. O mesmo ao qual me conectei quando Brenda me procurou clamando por ajuda, porém não há mais nada que possa ser feito a não ser dar um ponto final no que foi minha tentativa distorcida de filantropia. Definitivamente essa conversa não vai nos levar a lugar algum.

-Brenda… – persevero, afinal, minha iminente impaciência não vai agilizar as coisas – Mesmo diante da menor probabilidade de que isso, de que essa sua ideia um tanto peculiar possa de fato ser considerada, eu jamais iria namorar uma ex do Matheus…

-Mas é essa a questão – o espaço que nos separa é tão pequeno que ela ousa dar um tapinha de leve no meu peito -Isso só vai funcionar se for você o outro que o substituirá.

-Brenda, é definitivo – reinicio firme -Nada vai me fazer mudar de ideia. Mais uma vez vou pedir. Seja razoável e compreensiva, por favor, pois eu não vou embarcar neste seu plano sem pé e nem cabeça…

-Eu amo o Matheus e ele me ama, disso não tenho dúvidas – ela insiste – Por favor, Kadu. Estou pedindo essa ajuda. Não teria coragem de pedir isso a mais ninguém…

Eu também amo o Matheus, e com certeza meu sentimento tem mais profundidade que esse que você diz sentir. Tenho vontade de lhe dizer, mas respiro fundo e me mantenho em silêncio.

-Não sei você, mas eu preciso voltar para a sala de aula…

Comunico já fazendo menção em avançar, mas sou impedido, pois Brenda se prostra à minha frente. Seu semblante, até então pacifico, denotando um resquício de ternura e simplicidade, logo se transforma e dá lugar ao despeito e à raiva por estar sendo contrariada. Até aí nada de novo. Quem foi rei jamais perde a majestade.

-Por favor, Kadu, dessa vez não vai haver falhas, eu garanto – ela deixa os ombros caírem numa última tentativa de querer parecer desamparada, humilde.

-Assim como não falhou aquelas doze cartas enfiadas dentro do armário do Matheus, aqui no colégio, com declarações de “eu te amo” repetidas à exaustão? Ou aquele carro de som gritando mensagens bregas, à frente do condomínio onde moramos, enquanto você declamava poemas de amor de gosto duvidoso? Ah, claro, já estava me esquecendo da tatuagem com o nome dele que você diz ter feito na altura do cóccix logo depois que levou o pé na bunda… Eu tô cansado, Brenda, de verdade, e além do mais o meu amigo nessa história toda é o Matheus e é do lado dele que eu preciso ficar, e espero que você considere isso, pelo amor de todos os anjos.

Brenda dá dois passos para trás ao mesmo tempo que joga a cabeça para o lado, num gesto bastante afetado, como se fosse uma daquelas atrizes poderosas e hipnotizantes da época de ouro do cinema. Ou melhor, é a própria Milady de Winter, condessa de La Fère, do célebre livro Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, que está à minha frente com seu jeito carismático, atraente, bem falante, pousando como um bom general que considera conjuntamente vitória e derrota.

-Você já se perguntou se essa sua fidelidade canina tem o mesmo peso para o Matheus?

-Decididamente eu não vou entrar nesse seu joguinho, ok?

-Já parou e olhou à sua volta a fim de conferir se o seu grande amigo não esconde nada de você?

Eu a desprezo, sem pestanejar, enquanto forço a minha passagem, empurrando-a para o lado…

-Por que essa repentina crise de consciência depois de ter me ajudado?

Brenda grita ao passo que me afasto. Seu desespero é notório.

Apesar dos pesares, reflito, e depois de alguns segundos estaco e então me volto, lentamente, mas sem responder nada; a despeito da antipatia mútua, não tenho coragem de jogar-lhe na cara que tive pena do que restou dela quando Matheus a chutou para escanteio, mas não tenho dúvidas que está percebendo a condescendência e também a altivez do meu olhar, a compaixão em cada linha do meu semblante, mesmo com essa relativa distância entre nós dois.

-Quem você pensa que é garoto? – Brenda se aproxima rapidamente, pisando forte, até ficarmos cara a cara a ponto de eu poder sentir o calor do seu hálito – Saiba que nessa história toda sou eu quem vai lhe fazer um favor.

-Oi?

-Em que mundo você vive, Kadu? – o tom da sua voz continua beirando o descontrole e já, já alguém vai aparecer por aqui – Com esse seu jeitinho nerd de merda, dentro desse mundinho só seu, achando que sua existência é o suficiente para o resto da humanidade, se esquecendo de olhar para o próprio umbigo?

-Decerto eu não devia estar aqui – faço menção em me virar, mas sinto a mão de Brenda agarrar um dos meus braços, surpreendendo-me com o tamanho de sua força.

– Agora você vai me escutar…

-Brenda, eu não sei o que você está falando ou aonde quer chegar, mas nos faça um grande favor – arranco sua mão do meu braço com certa violência – Conserve sua autoestima, pelo amor de Deus! Esqueça o Matheus e parta para outra…

-Quem é você pra falar em autoestima? – o desprezo pontua a sua voz como um diamante cortando um vidro de grande espessura sem encontrar qualquer dificuldade – Pelo menos eu não uso uma máscara para cobrir o meu rosto e fingir ser o que eu não sou.

Engulo em seco, e enquanto busco forças para continuar a encará-la, tento descobrir nas entrelinhas desse seu discurso carregado de veneno e recalque o real sentindo das suas palavras, mas não vou ficar dando murro em ponta de faca e então dou meia volta mais que decidido a abandonar de vez esse lugar, mesmo correndo o risco de deixar Brenda para trás, surtando, aos berros… Quem garante que ela não está blefando?

-Eu não sei a quem você acha que engana Kadu… – seu tom de voz, agora, está mais baixo, mas sinto que suas palavras são lançadas às minhas costas como dardos tóxicos – Você deve se achar um macho alfa ou coisa que o valha, mas coitado… – ela deixa escapar um gemido de desdém antes de continuar – Ao invés de sentir pena de mim, deveria sentir é de você mesmo. Dê graças aos céus que o Matheus existe, porque se não fosse ele, sua vida aqui dentro do CGAM seria um inferno. Lembra do caso daquele menino, Allyson, não é isso? Que não aguentou a pressão das provocações que levava todos os dias?

Estremeço. Essa comparação só quer dizer uma coisa…

-Pois então, Kaduzinho, você não sabe o esforço que o Matheus faz para que algo parecido não aconteça contigo…

Estaco.

Não ouso e tampouco consigo dar nem mais um passo.

Meu sangue parece gelar e meu coração definitivamente vai saltar pela boca se eu não buscar o autocontrole.

A Brenda está acuada, com raiva, tensa, magoada e está atirando para todos os lados, é isso, então o que eu devo fazer? Simples. Não me render. Não me entregar. Ela está blefando, afinal de contas não tem sentido algum essa história absurda de que o Matheus está me protegendo para que eu não seja assediado pelos trogloditas do CGAM, e se eu entendi certo, é isto que essa desnorteada está afirmando?

Não. Nem Matheus e nem ninguém sabe sobre minha orientação sexual. Eu sou um cara reservado, discreto. Eu não tenho nada a ver com o Allyson ou qualquer outro. Não há razão para que algum desses moleques ensandecidos, homofóbicos, Neandertais, tenha enxergado em mim um terreno perfeito para continuar atacando depois do desprezo que lhes dei há três anos, quando tentaram algo parecido…

-Já se perguntou por que nessa escola ninguém nunca mais mexeu ou implicou com você, Sr Maravilhoso? – Brenda volta a se manifestar.

-O que você está dizendo?

Eu me viro. Preciso encará-la e a essa situação também. Não construí uma imensa muralha no meu entorno para que uma patricinha tão cheia de si venha derrubá-la com suposições aparentemente sem fundamentos.

-Você é uma pessoa inteligente, Kadu. Preciso reconhecer… – o sarcasmo pontua sua voz – Portanto é impossível que não tenha notado que Matheus vem te protegendo todos esses anos. Te blindando contra os meninos imaturos dessa escola…

Perscruto o semblante e o olhar de Brenda. Estão impassíveis, desafiadores, como os de uma serpente.

– Se não fosse o seu Robin Hood, volto a repetir, você e sua pretensão teriam virado poeira dentro do CGAM, Kaduzinho. Então não me venha dizer que nem por um instante percebeu isso?

-Por que não diz logo o que tem pra dizer? – contesto finalmente ao mesmo tempo que finco os pés no chão. Minhas veias, sinto, vão saltar das têmporas.

Brenda sorri um sorriso um tanto enigmático, ambíguo, como o da Monalisa, de Leonardo da Vinci, antes dar dois passos até se aproximar de mim. Essa menina sabe o que quer e não vai sair dessa batalha de mãos abanando… Nem ela e nem eu! Sem provas, não há crime.

-Kadu, lindo, tem certeza de que está preparado para ouvir a verdade? 

GORGEOUS – TAYLOR SWIFT

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  • Depois do quase ataque do Kadu, só alegrias rs
    Adorei Fran <3

    Kadu meu filho segura essa pemba pq Matheus ainda não viu nem a metade da treta… Vai né!!!

    Será que rolaria? '-'

    Fico imaginando a reação do Kadu com uma declaração, juro que achei que ia fazer isso menino. rs

  • Depois do quase ataque do Kadu, só alegrias rs
    Adorei Fran <3

    Kadu meu filho segura essa pemba pq Matheus ainda não viu nem a metade da treta… Vai né!!!

    Será que rolaria? &#039-&#039

    Fico imaginando a reação do Kadu com uma declaração, juro que achei que ia fazer isso menino. rs

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